A garota do calendário: Dezembro
Capítulo 4
Wes estacionou em frente ao prédio de dois andares de tijolos à vista. Alguns degraus levavam à galeria Aspen Grove Fine Art. Kathy, Wes e eu saímos do carro. A equipe de filmagem estacionou a van ao nosso lado e começou a descarregar os equipamentos.
— Esta é a primeira de quatro paradas. Confirmei uma entrevista com uma escultora local, além do gerente da galeria. Eles ficaram animados em fazer a filmagem aqui — Kathy falou enquanto seguíamos até os degraus.
Fomos recebidos por um homem de terno, que se apresentou como Brice. Ele nos mostrou a galeria, explicando as diferentes peças feitas pela artista, até que uma mulher apareceu. Ela era alta e magra, com cabelos cor de fogo que se projetavam em grossas ondas sob a boina verde-escura. Seus olhos eram tão azuis como um dia sem nuvens na Califórnia. Ela usava um suéter grosso de tricô creme, um lenço multicolorido, legging estampada e botas de salto alto até os joelhos.
Quando ela estendeu a mão para apertar a minha, umas cinquenta pulseiras finas tilintaram graciosamente em seu pulso pálido.
— Oi, eu sou Esmeralda McKinney, a escultora. Muito obrigada por terem vindo. — Seu sorriso era largo e bonito. Tudo nessa mulher poderia iluminar um dia maçante e sombrio.
— Ficamos felizes por estar aqui. Que tal começarmos com você nos mostrando o seu trabalho? Os rapazes vão gravar e eu vou lhe fazer algumas perguntas. Tudo bem para você? — perguntei.
O rosto de Esmeralda se acendeu tanto que parecia que o sol estava brilhando diretamente sobre ela.
— Claro!
Ela me levou até um pedestal transparente. No topo havia um busto feminino feito inteiramente de pequenas tiras de metal. Era tão original quanto interessante.
— Esta é uma das minhas peças. O nome é Sopro. — Esmeralda tocou a ponta dos fios de metal abertos num leque, como se o vento tivesse soprado o cabelo da pessoa.
As câmeras estavam gravando, e era difícil não ficar hipnotizada pela peça. As linhas dos olhos, lábios e nariz eram surpreendentemente precisas, apesar de confeccionadas em tiras de metal moldadas.
— É incrivelmente detalhado. Como você começa um trabalho assim? — perguntei.
— Eu pego folhas de metal e corto em pedaços menores, sem medir. Parte da diversão é pegar tiras aleatórias e juntar num todo. Quando eu esquento e manuseio as peças, elas começam a tomar forma.
Toquei a beirada do pedestal, sem me atrever a encostar na arte em si.
— Você quer dizer que, quando começa um projeto, não sabe o que vai sair?
Ela assentiu.
— Isso mesmo. Acho que, assim como um escritor se senta na frente da página em branco esperando que a história surja, eu simplesmente deixo as peças me dizerem o que criar. Conforme eu junto as tiras de metal, uma forma se apresenta e eu sigo o fluxo. — Ela uniu as mãos na frente do peito. — É como se a peça estivesse destinada a ser aquilo. Como a vida. Você nem sempre pode planejar coisas bonitas. Às vezes a beleza toma forma bem na sua frente.
Esmeralda tinha razão. Nos últimos tempos, eu havia aprendido que a beleza se apresenta de formas que eu não podia nem começar a imaginar até que acontecesse.
Em seguida, fomos à Galeria Baldwin. A fotógrafa Jonalyn Baldwin era a dona e gerente. O interior da galeria era um espaço retangular, branco e comprido, localizado em outro prédio de tijolos, fora do centro comercial de Aspen.
Havia fotografias de tamanhos variados penduradas ao longo das paredes. No centro havia paredes isoladas, com fotos dos dois lados.
Uma asiática miúda, com cabelo preto, comprido e sedoso, preso num rabo de cavalo apertado, e olhos cor de ônix, nos encontrou na frente da galeria.
— Olá. Você deve ser Mia Saunders. Eu sou Jonalyn Baldwin. Bem-vinda à minha galeria.
Seu tom de pele era um marrom bonito. As sardas no nariz e nas bochechas eram o único desvio de uma aparência impecável. Os lábios estavam pintados de rosa-pálido, que, com o tom quente que ela usava, lhe conferia um brilho delicado. A túnica era cor de vinho, e a calça combinava. Uma grossa corrente dourada no pescoço iluminava seu rosto. Simples e chique.
— Obrigada por nos receber, Jonalyn. Estamos ansiosos para conhecer a sua arte.
— Então, por favor, venham por aqui.
Ela nos levou até uma fotografia enorme. A imagem era a metade do rosto de uma mulher, as mãos cobrindo as bochechas. Só que havia uma distorção, como se a imagem tivesse sido captada através de um vidro rachado.
— Você pode me falar um pouco sobre esta peça? — pedi, tocada pelos detalhes da foto.
Jonalyn apontou para uma área da imagem.
— Veja estas linhas. Foi aqui que eu dei o foco.
Estreitei o olhar sobre as rachaduras.
— Do outro lado deste vidro estava uma mulher linda, vestida para impressionar. Eu a posicionei inclinada sobre um balcão e olhando através de uma vitrine. Então coloquei um pedaço de vidro ondulado sobre a lente e capturei sua beleza com uma percepção alterada. Como você pode ver, a mulher por detrás da visão distorcida é deslumbrante, embora não saibamos quem é nem qual é a sua história. Talvez a beleza que você vê seja uma máscara.
Jonalyn havia interpretado com tanta perfeição o que viu e o motivo de ter escolhido capturar aquela imagem que me fez pausar por um momento.
Eu me concentrei na foto, tentando ver pela percepção da autora. Inclinei a cabeça e olhei para a imagem de um ângulo diferente. Quando me concentrei, pude ver que a mulher tinha lábios vermelhos perfeitos, harmonizando com as unhas pintadas e a pele linda. Através do vidro quebrado, no entanto, eu podia ver imperfeições que talvez não visse de outra maneira.
— Eu a batizei de Beleza desvelada — ela explicou, claramente orgulhosa.
Fascinada, eu a segui pela galeria. O jeito como ela capturava as imagens e as transformava em outra coisa era único. Um conjunto de fotografias me tocou especialmente. Pedi para o cinegrafista focalizar as duas imagens penduradas lado a lado. Uma era de uma mulher sem-teto, encostada em um edifício. Uma perna estava flexionada, o pé encostado na parede atrás dela. Um saco de lixo branco estava a seu lado, provavelmente com todos os seus pertences. Seu longo cabelo escuro estava sujo e desgrenhado. Provavelmente não era lavado havia tempos. A mulher olhava para o lado. Seu rosto tinha linhas duras e uma tristeza que não podia ser apagada. Ela estava claramente desamparada e talvez desesperada.
A foto seguinte fora tirada através de um pedaço distorcido de vidro. A mesma mulher estava de pé, a imagem completamente alterada. Os traços em seu rosto foram abrandados; o cabelo não parecia mais sujo, era escuro e encaracolado. O saco a seu lado parecia uma bola brilhante de luz branca cuja função era iluminar sua silhueta, dando-lhe um brilho saudável.
— Quando você borra a dureza da realidade, o que encontra por baixo é... especial. — Jonalyn cruzou os braços enquanto admirava seu trabalho. E era mesmo digno de admiração.
Levantei a mão para a imagem, obrigada a me aproximar.
— É incrível a maneira como você vê as coisas.
Ela sorriu suavemente.
— É como todos nós devíamos vê-las. Uma mulher bonita pode parecer perfeita, mas, quando você olha com outros olhos, existem falhas. Todo mundo tem imperfeições. E aqui — ela apontou para a mulher triste — você pode ver uma mulher sem-teto, suja e endurecida pela vida, mas é possível encontrar o lado suave também. A vida e as nossas experiências mudam a nossa forma de olhar para fora, mas nunca vão mudar quem nós somos por dentro.
Passei muito mais tempo do que deveria conversando com ela. Wes veio atrás de nós enquanto batíamos papo em uma área isolada ao lado. Ele colocou as mãos nos meus ombros e os esfregou antes de se inclinar para a frente.
— Mia, se quiser terminar as quatro galerias hoje, temos que ir. Está começando a nevar.
Olhei para Wes e sorri. Ele beijou minha testa. O estalido de um obturador invadiu o momento. As bochechas de Jonalyn ficaram vermelhas quando ela afastou a câmera do rosto e a baixou. Eu sabia que a câmera estava sobre a mesa à nossa frente, mas não achei que Jonalyn fosse usá-la.
— Desculpe. Eu não resisto quando vejo alguma coisa que precisa ser capturada.
Sorri, sem me incomodar.
— Mas você não tem nenhum pedaço de vidro distorcido aqui.
A artista sorriu.
— Não era necessário. Qualquer que fosse a forma de capturar aquele momento, teria sido honesta. Vou te mandar a foto por e-mail.
Wes pegou minha mão e me ajudou a ficar de pé.
— Eu vou adorar. Foi maravilhoso conversar com você, conhecer a sua arte e como você a vê. Prometo mostrá-la muito bem na matéria.
— Não tenho dúvida de que você vai valorizar o meu trabalho. Obrigada, Mia. — Ela segurou minhas mãos entre as suas.
Pura classe.
Em vez de ir para a galeria seguinte, Wes nos levou até o histórico Red Onion para almoçar.
— O lugar foi fundado em 1892 e faz a melhor sopa de cebola e o melhor bolinho de caranguejo do mundo — ele exclamou, quase pulando, enquanto me conduzia pela porta.
O restaurante estava bem movimentado. As paredes eram de um vermelho profundo, proporcionando uma experiência acolhedora, como se fosse um casulo. Aquilo dava ao local uma sensação de “venha, encontre os amigos e fique à vontade”. Eu me senti imediatamente em casa. O ar quente fluía através de grandes aberturas, fazendo meu nariz gelado formigar e descongelar.
Wes foi na frente e conseguiu uma mesa para seis. Três pessoas na equipe de iluminação, som e câmera era o mínimo, mas eu tinha trabalhado com eles em Nova York. O trabalho que fizemos foi bem recebido pelos executivos da Century Produções. Uma coisa de que eu precisava muito era uma assistente permanente, e eu queria Kathy.
Depois de termos nos acomodado e pedido bolinhos de caranguejo, pasta de espinafre e alcachofra servido com pão pita grelhado e os pratos principais, criei coragem de abordar o assunto com minha assistente.
— Então, Kathy, o que você está achando? — perguntei, enigmática, brincando com o canudo na minha bebida.
Kathy ajeitou os óculos estilo Woody Allen no nariz.
— Acho que está ficando ótimo. Ficou bem evidente que você estava animada com a arte da sra. Baldwin. Vai ficar bem na tela. O seu entusiasmo, quero dizer. — Ela olhou para baixo, e suas bochechas ficaram rosadas.
Assenti.
— Eu concordo. O trabalho dela é único e mostra um lado importante da beleza. O nosso público vai se identificar com essa matéria. Mas eu não estava me referindo à arte da Jonalyn quando perguntei o que você estava achando.
As sobrancelhas de Kathy se juntaram.
— Não tenho certeza se estou acompanhando, srta. Saunders.
— Sra. Channing daqui a duas semanas! — Wes interrompeu, envolvendo o braço em volta da minha cadeira e segurando meu ombro possessivamente.
Desta vez Kathy abriu um largo sorriso e as maçãs de seu rosto pareceram brilhar.
— Você vai se casar?
Anuí alegremente.
— Sim. Quando voltarmos, vamos nos casar em Malibu. No primeiro dia do ano novo.
Ela juntou as mãos sobre o coração e suspirou.
— Que lindo. Vocês dois são perfeitos juntos — ela se emocionou.
Wes se envaideceu com o elogio. Seu braço apertou meu ombro, e ele esfregou o nariz no meu queixo.
— Eu não poderia concordar mais com você, Kathy. — E deixou beijos melados na minha bochecha, orelha e pescoço.
Eu ri e empurrei sua cabeça, querendo voltar ao assunto no qual estava tentando tocar antes que Wes se metesse.
— Kathy, eu vou ser direta, e você vai ter pouco tempo para se decidir.
Um olhar de preocupação e interesse surgiu instantaneamente em seu rosto.
— Certo. Estou ouvindo.
— Eu quero que você seja a minha assistente — soltei.
Ela olhou para o lado e depois de volta para mim.
— Eu achei que já fosse.
Suspirando, levantei meu chá gelado e tomei um gole grande enquanto assentia.
— Você é. Mas eu quero dizer a partir de agora. — Pude perceber o momento em que a ficha caiu. Seu rosto se tornou mais brilhante e um pequeno sorriso surgiu em seus lábios. — Em outras palavras, permanentemente. Enquanto eu estiver no programa do dr. Hoffman, quero que você seja a minha assistente de produção. Você vai me ajudar com os quadros, planejar tudo comigo e assim por diante. Você conhece todos os detalhes, enquanto eu só sei o que quero fazer e como me expressar na frente das câmeras. Eu preciso de alguém de confiança para me ajudar a tirar o máximo proveito desses quadros, garantindo que nós estamos contando a história certa para o público.
Kathy já estava concordando antes mesmo de eu terminar de explicar.
— Ah, meu Deus... Que oportunidade incrível! — Sua testa se franziu. — Mas eu moro em Nova York.
— Sim, eu sei disso. Inicialmente, nós podemos fazer o trabalho a distância, como estamos fazendo agora, mas não por muito tempo. O programa te pagaria um bônus para a mudança. Você poderia ir no início de janeiro para encontrar um lugar para morar, mas até o fim do mês eu preciso de você na Califórnia.
Kathy balançou a cabeça.
— Eu não entendo. Por que eu? Eu sou uma ninguém.
— Ninguém? Você conduz as coisas com perfeição. Você me entende e entende aquilo que estou tentando fazer. Compreende e se conecta facilmente com as pessoas que eu preciso entrevistar. Na minha opinião, você é a candidata ideal.
— Mas a assistente do dr. Hoffman me odeia...
Eu a cortei.
— Eu cuido da Shandi, mas não é ela quem decide. O chefe dela e a Leona, sim. Eu já conversei com os dois. Eles me deram carta branca para escolher quem eu quisesse, e eu escolhi você. Agora, eu entendo se você precisar de um tempo para pensar...
— Não vou precisar. Eu quero. — Sua voz era firme e confiante.
Sorri.
— Mesmo tendo que se mudar?
— O inverno em Nova York é terrível, e eu tenho parentes em todos os lugares. Além disso, esta é a minha chance de estar num programa fixo, tomar decisões importantes e trabalhar com alguém de quem eu realmente gosto. Eu detesto ficar quicando de um lado para o outro. Quero me estabelecer em um lugar e construir uma vida. Trabalhar com você e o sr. Channing é o ponto alto da minha carreira até agora — ela disse, empolgada. Eu nunca a tinha visto tão animada antes.
Limpei a garganta no momento em que o garçom trouxe as entradas. Wes engoliu um bolinho e colocou outro na boca tão rapidamente que eu me preocupei que ele engasgasse.
— Que foi? — ele perguntou, com a boca cheia.
Eu ri.
— Enfim, só tenho uma condição. — Minhas sobrancelhas se ergueram enquanto ela se preparava.
Seus ombros se endireitaram, ela ergueu o queixo, o olhar focado diretamente no meu. Era difícil não rir, mas eu a encarei e informei os meus termos.
— Você tem que concordar em me chamar de Mia. Essa coisa de srta. Saunders já deu. — Mantive uma expressão estoica até não aguentar mais e começar a rir.
No momento em que acabamos de conversar, a mesa inteira estava vibrando. Informei ao restante da equipe que planejava trabalhar novamente com eles também, e todos pareceram felizes com a possibilidade de continuarmos juntos no futuro.
Depois do almoço, fomos até a terceira galeria e nos encontramos com um homem que se autointitulava Bob, o Madeireiro. Ele talhava madeira sentado numa cadeira de balanço que ele mesmo tinha construído. A galeria havia colocado sua cadeira em um canto perto da janela. Bob tinha uns setenta anos, adorava conversar rodeado de arte e conhecer novas pessoas.
A galeria era um grande atrativo para turistas e, desde que tinha dado a Bob um espaço para talhar madeira, elevou suas vendas em trinta por cento. Ele reduzia as toras a pedaços pequenos e exclusivos que os turistas compravam ali mesmo ou em outros lugares.
Entrevistando Bob, descobri que ele servira duas vezes no Vietnã, começando por volta de 1965. Durante as longas horas à espera de ação, ele cortava pedaços das árvores e, usando um canivete, talhava pequenos totens ou estatuetas. Ele dava as peças para seus irmãos de armas enviarem às famílias, deixando claro que seus pensamentos estavam neles. Foi dispensado no início dos anos 70, devido a três lesões em serviço: ele tinha sido baleado duas vezes na perna e uma no quadril. A perna não se curou tão bem quanto se esperava.
Muito mais confortável numa cadeira de balanço, Bob, o Madeireiro, começou a fazer do seu passatempo um trabalho em tempo integral. Mais feliz falando com sua família, amigos e o público, e incapaz de se locomover com facilidade para trabalhar em um emprego das nove às cinco, encontrou algo que funcionava para ele, que amava, e fez daquilo sua profissão.
Seu relato foi inspirador e edificante, ainda mais quando grande parte do mundo estava em conflito, lidando com a devastação da guerra e desejando a paz. A história de Bob traria uma dose de esperança até mesmo para veteranos feridos. Não era uma coisa fácil de ouvir. Ele havia sido ferido para proteger nossa liberdade e, sentado à janela de uma galeria de arte em Aspen, não se arrependia um único dia do que havia feito.
Um herói que trabalhava peças interessantes era incrível, mas não era a história que o tornava especial. Era a parte da sua experiência que cada pessoa com quem ele encontrava levava embora.
Enquanto conversávamos, ele talhou um pequeno coração de madeira cercado por ondas do mar.
— Presente de casamento — Bob disse quando me entregou a peça. Era um quadrado de dez centímetros por dez. O fundo era plano, para que pudesse ficar de pé.
— Como você sabe? — Engoli em seco.
Bob dispensou minha surpresa.
— Um velho homem conhece uma mulher apaixonada. Além disso, o brilho desse anel quase me cegou! — Ele riu.
Nós rimos juntos. O proprietário da galeria embrulhou meu presente em papel de seda e o entregou a Wes em uma sacola.
Quando estava saindo, dei um abraço em Bob.
— Obrigada por compartilhar sua história comigo. Eu sei que quem vê uma peça sua nunca esquece.
— Pessoas como você, minha querida, fazem o risco valer a pena — ele respondeu, sorrindo e acenando, enquanto Wes passava o braço em meu ombro e saíamos para o frio.
O risco valer a pena.
Quando nos despedimos de Bob, o Madeireiro, e chegamos à galeria de arte 4M, eu ainda estava me recuperando. Bob disse que eu fazia o risco valer a pena. Eu sabia que ele estava falando de lutar na guerra. Soldados lutaram e deram muito de si, de uma maneira que os civis possivelmente nunca compreenderiam. É preciso ser um tipo especial de pessoa para arriscar a vida todos os dias por mais de trezentos milhões de cidadãos que você nem conhece. Orgulho. Serviço. Para Bob, essas coisas, e cada vida, valiam a pena.
Suas palavras me fizeram pensar que tudo o que realmente vale a pena ter na vida também vale o risco. No entanto, nem todos estão dispostos a correr esse risco para alcançar o que querem da vida. Isso é triste quando se pensa a respeito.
Ao entrar na galeria 4M, um aroma de limão, hortelã e jasmim me atingiu. Parei diante das portas e deixei a mistura familiar permear meus sentidos. Eu não sentia essa combinação havia anos. Quinze anos, para ser exata.
Meu coração começou a bater com força e minha boca ficou seca. Do outro lado da sala estava uma mulher alta, com cachos negros sobre os ombros. Vestida de preto, ela ajustava uma pintura na parede à minha frente. Eu não conseguia me mover. Ela estava de costas para mim, mas o formato do corpo, o movimento fluido dos braços — como o de uma dançarina... Ela não era somente familiar: sua identidade era absolutamente devastadora. Era como ver um fantasma.
A mulher se virou, juntou as mãos e se aproximou. Seus olhos verde-claros se estreitaram e ela pegou um par de óculos de aro prateado que balançava no decote de sua blusa de mangas compridas. Ela parou, como se estivesse colada às tábuas. Eu também não movi um músculo, observando a figura diante de mim. Ela tinha mudado muito ao longo dos últimos quinze anos, mas não o suficiente para eu não reconhecê-la.
— Mia — ela ofegou.
A mão quente de Wes se fechou ao redor da minha. O único movimento que fui capaz de fazer foi apertar sua mão com força.
— Olá, senhora...? — perguntou Wes.
— Banks — ela respondeu.
Eu me encolhi, apertando sua mão novamente.
Ele não me largou, coisa pela qual fiquei eternamente grata. Se eu não tivesse essa única conexão com algo real, provavelmente teria desmaiado ou saído correndo e gritando. Talvez uma combinação dos dois.
— Sra. Banks, eu sou Weston Channing, e nós estamos aqui para entrevistá-la sobre o seu trabalho e a galeria. Parece que você e a Mia já se conhecem. Como você pode ver, ela está um pouco desconcertada, por isso, se puder esclarecer o que está acontecendo aqui, eu ficaria grato.
Meu Wes. O pacificador. O que ele não sabia era que nada arrumaria aquela bagunça. Quinze anos de perda e abandono não se apagariam com uma simples explicação. Eu já sabia disso. Eu tinha tentado durante anos resolver o mistério do motivo pelo qual a mulher que me dera a vida destruiu meu mundo quando eu tinha apenas dez anos.
— Mia, eu reconheceria você em qualquer lugar. — Sua voz tremeu. Parecia diferente, mais calma de alguma forma. Ela umedeceu os lábios, e eu observei com um fascínio terrível a mulher que achei que tinha perdido para sempre diante de mim, parecendo melhor do que nunca. Melhor do que ela tinha o direito de estar. — Minha menina querida, há quanto tempo. — Suas palavras eram como uma faca cheia de veneno golpeando as partes vulneráveis e macias do meu corpo.
A emoção contida estava lá, mais sincera do que qualquer coisa que ela tivesse dito antes, mas não conseguiu penetrar o muro de pedra que eu havia erguido ao redor do meu coração contra aquela mulher e a lembrança que eu tinha dela durante todos aqueles anos.
Sem saber mais o que fazer, eu disse as únicas palavras que consegui pronunciar:
— Oi, mãe.