A Guerra das Mulheres
Start
A Guerra das
Mulheres
Volume I
Alexandre Dumas
NANON DE LARTIGUES
I
Perto de Libourne, cidade tão alegre
que se contempla nas rápidas águas do Dordonha, entre Fonsac e Saint-Michel-la-Rivière, erguia-se outrora uma linda aldeia de paredes brancas e telhados vermelhos, meio escondida sob as tílias e as faias. A estrada de Libourne a Saint-André-de-Cubzac passava entre as casas simetricamente alinhadas, e constituía a única vista que delas se desfrutava. Atrás de uma dessas fileiras de casas, pouco mais ou menos a cem passos, serpeava o rio, cuja largura e caudal começavam naquele sítio a dar indícios da vizinhança do mar.
A guerra civil, porém, passou por ali, e
desde logo derribou as árvores; depois, despovoou as casas, as quais, expostas a todos os caprichosos furores, da guerra, e não podendo fugir com os habitantes, se foram desmoronando sobre a relva, protestando, a seu modo, contra a barbaridade das revoluções intestinas. Mas a terra, que dir-se-ia ter sido criada para servir de sepultura a tudo quanto existe, a pouco e pouco foi cobrindo os cadáveres das casas, outrora tão alegres e tão festivas; finalmente, a erva cresceu sobre aquele chão artificial, e hoje, o viajante que segue a solitária estrada, longe está de suspeitar, ao ver pastar sobre essas elevações desiguais um dos grandes rebanhos que a cada passo se encontram no Midi, que pastor e carneiros pisam o cemitério onde dorme a aldeia.
Todavia, na época de que falamos - isto
é: no mês de Maio do ano de 1650 - a aldeia em causa ocupava ambos os lados da estrada que qual grande artéria a alimentava, com um luxo de vegetação e de vida dos mais agradáveis. O viajante que então a houvesse atravessado, teria visto com prazer os camponeses ocupados em atrelar e desatrelar os cavalos da charrua, os barqueiros arrastando à praia as suas redes, nas quais saltava o peixe branco e rosado do Dordonha, e os ferradores, malhando vigorosamente na bigorna, debaixo de cujos malhos jorrava um repuxo divergente de centelhas, que alumiavam a forja a cada martelada.
O que todavia mais o teria encantado -
sobretudo se a caminhada lhe abrisse o apetite que se tornou proverbial entre os que freqüentam as estradas - seria, a quinhentos passos da aldeia, uma casa baixa e comprida, composta somente por um rés-do-chão e um primeiro andar, cuja chaminé exalava alguns vapores, e as janelas certos perfumes, denunciadores - ainda melhor do que o desenho de um bezerro dourado, pintado numa chapa de lata vermelha, que rangia, suspensa de um varão de ferro chumbado na cimalha do primeiro andar - que finalmente chegava a uma das casas hospitaleiras cujos moradores, mediante certa remuneração, chamam a si a tarefa de retemperar as forças dos viajantes.
Por que razão, perguntar-me-ão, estava
a estalagem do Bezerro de Ouro situada a quinhentos passos da aldeia, em vez de ocupar o alinhamento natural das risonhas casas encavalitadas de ambos os lados da estrada?
Em primeiro lugar, porque, se bem que
retirado naquele cantinho de terra, o respectivo proprietário, quanto à arte culinária, era um artista de primeira água. Logo, colocando-se no princípio, no meio, ou na extremidade de uma das duas compridas fileiras de casa que formavam a aldeia, arriscava-se a ser confundido com algum dos taberneiros que se via obrigado a admitir como colegas seus, mas a quem não podia resolver-se a considerar seus iguais. Pelo contrário, assim retirado, chamava a atenção dos entendidos, os quais, logo que tivessem provado, uma só vez que fosse, os guisados da sua cozinha, diriam a quantos encontrassem:
"Quando for de Libourne a Saint-
André-de-Cubzac, ou de Saint-André de-Cubzac a Libourne, não se esqueça de parar para almoçar, jantar ou cear, na estalagem do Bezerro de Ouro, a quinhentos passos da aldeiazinha de Matifou."
E os entendedores detinham-se, saíam
contentes, mandavam também outros conaisseurs, de sorte que o inteligente estalajadeiro ia insensivelmente fazendo fortuna própria, o que não o impedia - coisa rara - de conservar a sua casa no mesmo nível gastronômico; isto prova, como já dissemos, que o senhor Biscarros era um verdadeiro artista.
Ora, numa das lindas tardes do mês de
Maio, em que a natureza, já desperta nas regiões do Midi, começa a despertar no Norte, fumos mais densos e perfumes mais suaves do que os habituais saíam das chaminés e das janelas do Bezerro de Ouro, ao mesmo tempo que, à respectiva porta, o senhor Biscarros em pessoa, vestido de branco, conforme o uso dos sacrificadores de todos os tempos e de todos os países, depenava com as suas augustas mãos perdizes e codornizes, destinadas a algum dos delicados banquetes que tão habilmente sabia preparar, e a que costumava emprestar - e isto sempre pelo amor que tinha à sua arte - todos os seus cuidados.
Começava, portanto, o dia a declinar, e
as águas do Dordonha, que num dos tortuosos rodeios da sua corrente se afastavam da estrada cerca de um quarto de légua, para passarem junto do pequeno forte de Vayres, principiavam já a branquejar sob a folhagem escura das árvores; algo de sereno e de melancólico se espalhava sobre o campo, com a viração da tarde. Os lavradores deixavam-se ficar imóveis, com os cavalos desatrelados; os pescadores, faziam outro tanto, com as suas redes gotejantes os ruídos da aldeia iam findando; e, tendo ecoado a última badalada, pondo assim termo ao laborioso dia, principiou a ouvir-se o primeiro canto do rouxinol num bosque vizinho.
Logo que as primeiras notas saíram da
garganta do músico emplumado, o senhor Biscarros cantou também, sem dúvida para acompanhá-lo. Em resultado desta rivalidade harmônica, e da atenção que o estalajadeiro dava ao seu trabalho, não viu um pequeno grupo, composto de seis cavaleiros, que surgia na extremidade da aldeia de Matifou, e caminhava para a estalagem. Contudo, uma interjeição que partiu de uma janela do primeiro andar, e o movimento rápido e estrondoso com que esta se fechou, fizeram levantar o nariz ao digno estalajadeiro. Pousou então os olhos no cavaleiro que marchava à frente do grupo, o qual vinha diretamente para ele. Diretamente não é o termo exato, e apressamo-nos a emendar o nosso erro; porquanto o homem parava de vinte em vinte passos, lançando à direita e à esquerda olhos investigadores, examinando rapidamente atalhos, árvores, moitas, e segurando com uma das mãos um mosquete sobre o joelho, a fim de estar pronto para o ataque e para a defesa, e, de vez em quando, fazia sinal aos companheiros, que imitavam em tudo os seus movimentos, para que se pusessem em marcha. Então, arriscava-se a dar mais alguns passos, e a mesma manobra principiava de novo.
Biscarros seguiu com os olhos o
cavaleiro, cuja singular marcha o preocupava tão furiosamente que, durante todo esse tempo, se esqueceu de arrancar do corpo da ave as penas que tinha entre o dedo polegar e o indicador.
"É um fidalgo que procura a minha
casa - pensou Biscarros. – Aquele digno gentil-homem é sem dúvida míope; contudo, o meu Bezerro de Ouro está pintado de novo, e a tabuleta dá bastante na vista... Vamos, ponhamo-nos bem em evidência."
E o senhor Biscarros foi postar-se no
meio da estrada, onde continuou a depenar a ave, com gestos graves e majestosos. Este movimento produziu o resultado que esperava o estalajadeiro: mal o cavaleiro o avistou, logo se encaminhou para ele; e, saudando-o cortesmente, disse-lhe:
- Senhor Biscarros, não viu por aqui um
grupo de militares, que são meus amigos, e que devem andar à minha procura?... Militares, não digo bem... Homens de espada... sim... Numa palavra: homens armados... Sim, homens armados, isto exprime melhor a minha idéia. Dar-me-á, pois, notícia de uma pequena tropa de homens armados?
Extremamente lisonjeado por se ouvir
chamar pelo seu nome, Biscarros também saudou o outro afavelmente; não observara que, numa só vista de olhos que o forasteiro lançara à estalagem, lera o seu nome e a sua qualidade na tabuleta, do mesmo modo que acabava de ler a identidade da pessoa no rosto do proprietário.
- Quanto a homens armados, senhor -
respondeu ele, depois de ter refletido um instante - só vi um gentil-homem e o respectivo escudeiro, que há uma hora se acomodaram em minha casa.
- Ah!... - fez o forasteiro, passando a
mão pelo imberbe rosto, onde, todavia, já se distinguia a virilidade - tem aqui na estalagem um gentil-homem e o seu escudeiro!... e ambos armados, dizia?...
- Não há dúvida, senhor, de que aqui
estão; deseja que mande dizer àquele gentil-homem que lhe quer falar?
- Mas - replicou o forasteiro - não seria
isso um tanto indecoroso?... Incomodar assim um desconhecido, seria talvez tratá-lo com demasiada familiaridade, mais ainda se o desconhecido é pessoa de condição. Não, não, senhor Biscarros, basta que me dê os sinais dele, ou, o que ainda melhor seria, que mo mostre sem que ele me veja.
- Mostrá-lo não será coisa fácil, senhor,
visto que ele mesmo dá mostras de querer ocultar-se, pois fechou a sua janela no momento em que o senhor e os seus companheiros apareceram na estrada; dar-lhe os sinais dele será, assim, mais fácil. É um jovem louro e delicado, que poderá quando muito ter dezesseis anos, e que parece possuir justamente a força exigível para empunhar a pequena espada de salão que pende do seu boldrié.
A fronte do forasteiro enrugou-se,
como se recordasse alguma coisa.
- Muito bem - disse ele. - Sei o que quer
dizer: um rapaz louro e efeminado, montado num cavalo baio, e seguido de um escudeiro, velho, tão direito como o valete de espadas; não é esse a quem procuro.
- Ah! não é quem o senhor procura?... -
perguntou Biscarros.
- Não.
- Pois bem, enquanto não chega aquele
que o senhor procura, e que não pode deixar de passar por aqui, visto que não há outra estrada, poderia recolher-se a minha casa, para tomar algum refresco com os seus companheiros.
- O que me cumpre é dar-lhe os meus
agradecimentos, e rogar-lhe que me diga que horas são.
- Estão a dar seis horas no relógio da
aldeia; não ouve, senhor, as badaladas do sino grande?...
- Muito bem. Agora ainda tenho de
pedir-lhe um obséquio, senhor Biscarros...
- Muito gosto terei em servi-lo. - Faça o favor de dizer-me como
poderei arranjar um barco e um barqueiro.
- Para atravessar o rio?
- Não, para dar um passeio. - Nada mais fácil; o pescador que me
abastece de peixe... Gosta de peixe, senhor?... - perguntou Biscarros, à laia de parêntesis, e tornando à sua idéia de fazer cear o forasteiro em sua casa.
- É uma comida medíocre - respondeu
este. - Contudo, quando está bem temperado, não o rejeito.
- Eu tenho sempre excelente peixe. - Por isso lhe dou os parabéns, senhor Biscarros. Falemos, porém, daquele que lhe fornece o peixe.
- Com toda a justiça. Deve a esta hora
ter acabado a faina, e provavelmente está a jantar. Daqui pode ver o barco, amarrado além àqueles salgueiros, perto do ulmeiro... Quanto à casa, está encoberta com aqueles vimes... Sem dúvida alguma o encontrará à mesa.
- Obrigado, senhor Biscarros, obrigado
- agradeceu o forasteiro.
E, fazendo sinal aos seus companheiros
para que o seguissem, deu de esporas ao cavalo, encaminhou-se rapidamente para as árvores, e foi bater à porta da cabana designada. A mulher do pescador veio recebê-lo.
Tal como o senhor Biscarros havia dito,
o pescador estava à mesa.
- Pega nos teus remos - ordenou o
cavaleiro - e segue-me, se queres ganhar um escudo.
O pescador levantou-se com uma precipitação tal que bem dava a entender quão pouco generoso era o estalajadeiro do Bezerro de Ouro.
- É para ir desembarcar em Vayres? -
perguntou ele.
- É unicamente para me levares até ao
meio do rio, e ali te demorares comigo alguns minutos.
O pescador arregalou os olhos ao ouvir
tão disparatada fantasia; mas como lhe era oferecido o lucro de um escudo, e a uns vinte passos atrás do cavaleiro que batera à porta viu desenharem-se os perfis dos companheiros, não opôs dificuldade alguma, pensando, com muito acerto, que a ausência da sua boa vontade provocaria o emprego da força, e que no conflito perderia a recompensa oferecida.
Apressou-se, portanto, a dizer ao
forasteiro que estava às suas ordens, ele, o seu barco e os seus remos.
O pequeno grupo encaminhou-se logo
para o rio; e enquanto o forasteiro se adiantava até à borda da água, os outros pararam no alto da ribanceira, colocando-se, sem dúvida com receio de alguma surpresa, de modo que pudessem vigiar para todos os lados. Do ponto em que se colocaram, podiam dominar ao mesmo tempo a planície que se estendia atrás deles, e proteger o embarque que se efetuava a seus pés.
Então, o forasteiro - um grande
mancebo louro, pálido e nervoso, embora magro, e que tinha uma fisionomia inteligente, apesar das olheiras que circundavam os seus olhos azuis, e da expressão de cinismo vulgar que pairava nos seus lábios - o forasteiro, dizemos, inspecionou as pistolas com cuidado, colocou o mosquete à bandoleira, fez mover uma comprida espada na respectiva bainha, e fixou os olhos atentos na margem oposta, constituída por um vasto prado cortado por uma vereda que partia da praia, e ia dar em linha reta à vila de Ison, cujo campanário denegrido, e um fumo branco, se divisavam entre a neblina dourada do entardecer.
Na outra margem também, e à
distância de um quarto de légua, elevava-se, à direita, o pequeno Forte de Vayres.
- Então? - perguntou o forasteiro, que
principiava a impacientar-se, dirigindo-se aos seus companheiros que estavam de sentinela - qual de vocês o vê, da direita ou da esquerda, à frente ou atrás?
- Creio - disse um dos homens - que
vislumbro um grupo negro no caminho de Ison, mas ainda não estou muito certo, porque o sol me ofusca a vista. Espere... Sim... não há dúvida alguma; são eles. Um... dois... três... quatro... cinco homens: um deles de chapéu agaloado na cabeça, e capote azul. É o mensageiro que esperamos, e que para maior segurança terá arranjado escolta.
- Tem o direito de assim fazer -
respondeu fleumaticamente o forasteiro. - Venha segurar-me o cavalo, Ferguzon.
O homem a quem se dava esta ordem,
em tom meio amigável, meio imperativo, apressou-se a obedecer, e desceu a ribanceira; entretanto, o forasteiro apeava-se, e, no momento em que o outro chegou ao pé dele, pousou-lhe a rédea no braço e dispôs-se a entrar no barco.
- Escute - disse-lhe Ferguzon, pondo-
lhe a mão no braço - nada de afoitezas inúteis, Cauvignac! Se vir o menor movimento suspeito por parte do seu homem, principie por alojar-lhe uma bala na cabeça; bem vê que não vem mal acompanhado, o sujeito.
- Sim, mas a gente dele é menos
numerosa do que a nossa. Portanto, além da nossa superioridade quanto à coragem, também a temos quanto ao número. Perante isto, nada há que temer. Ah! ah! Eis as suas cabeças, que vão principiando a aparecer.
- Ora! Que irão eles fazer?... - disse
Ferguzon. - Não poderão achar barco algum... Mas... ah! Avisto um, que ali se encontra como por encanto...
- É o do meu primo, o arrais da barca de Ison - informou o pescador, que parecia muito interessado nestes preparativos, e que, todavia, receava que tivesse lugar um combate naval a bordo do seu barco e do de seu primo.
- Bom, lá embarca o homem do capote
azul - disse Ferguzon. - Só, na realidade, segundo as escritas condições do ajuste.
- Não o façamos esperar - continuou o
forasteiro.
E saltando por sua vez para o barco, fez
sinal ao pescador que fosse ocupar o seu posto.
- Tenha todo o cuidado, Rolando - disse
Ferguzon, renovando as suas prudentes recomendações. - O rio é muito largo. Não se aproxime tanto da outra margem que se exponha a receber uma descarga de mosquetaria a que não possamos responder; conserve-se, se for possível, aquém da linha de demarcação.
Aquele a quem Ferguzon chamava
Rolando e Cauvignac, e que respondia a estes dois homens, sem dúvida porque um era o seu nome de baptismo, e o outro o de família - ou de guerra - fez um sinal com a cabeça.
- Nada tema - disse ele. - Pensava nisso
agora mesmo: os que nada têm a arriscar, esses sim, podem cometer imprudências; o assunto, porém, é demasiado vantajoso, e por isso não devo expor-me a perder o fruto que dele devo usufruir. Portanto, se alguma imprudência se cometer nesta ocasião, não será da minha parte. Põe-te a caminho, barqueiro.
O pescador desamarrou o barco,
mergulhou a comprida vara nas ervas, e principiou a distanciar-se da praia, ao mesmo tempo que da margem oposta partia o barco do barqueiro de Ison.
Havia, a meio da água, uma pequena
estaca de três ramos que tinha no topo uma bandeira branca, e que servia de aviso aos compridos barcos de transporte que descem o Dordonha, por causa de um banco de rochedos cujo acesso era perigoso. Nas marés baixas, até se podia ver, negra e lisa acima da corrente do rio, a ponta desses rochedos. Mas àquela hora, que era a da preia-mar, só a pequena bandeira e uma ligeira ebulição da água, indicavam a presença do rochedo.
Os dois barqueiros sem dúvida alguma
compreenderam que ali podia realizar-se a junção dos parlamentares, pelo que dirigiram para esse lado os seus barcos. O barqueiro de Ison foi o primeiro a chegar, e, de acordo com a ordem que lhe deu o seu passageiro, amarrou o barco a uma das argolas da estacada.
Nesse momento, o pescador que partira
da margem oposta voltou-se para o seu viajante a fim de receber ordens, e qual não foi o seu espanto deparar com um homem mascarado e embuçado num capote.
O medo que dele se apossara, e o não
deixara um só momento, redobrou então, e só a balbuciar se atreveu a pedir ordens à estranha personagem.
- Amarra o barco àquela argola - disse Cauvignac, estendendo a mão para um dos postes - o mais perto possível do barco daquele senhor.
E a sua mão estendida passou do poste
designado para o gentil-homem conduzido pelo barqueiro de Ison.
O barqueiro obedeceu, e os dois barcos,
que a corrente reunira bordo com bordo, permitiram aos dois plenipotenciários darem início à conferência que se segue.
II
- QUE quer isto dizer, senhor? Está
mascarado!...-perguntou, com certo sobressalto à mistura de despeito, o recém-chegado, homem corpulento, que denotava ter cinqüenta e cinco a cinqüenta e oito anos de idade, olhos severos, fixos como os de uma ave de rapina, com bigodes e suíças encanecidas, e que, embora não tendo posto máscara, tinha pelo menos ocultado, o mais possível, os cabelos e o rosto debaixo de um grande chapéu agaloado, e o corpo e as vestes sob um amplo capote azul.
Considerando mais de perto a
personagem que acabava de falar-lhe, Cauvignac não pôde deixar de denunciar o seu sobressalto, fazendo um movimento involuntário.
- Então, senhor? - perguntou o gentil-
homem - que tem?
- Nada, senhor... por pouco não perdi o
equilíbrio... O senhor, porém, segundo creio, dava-me a honra de me dirigir a palavra; o que era então que dizia?...
- Perguntava-lhe porque está
mascarado.
- A sua pergunta é franca - disse o
mancebo - e eu responderei com a mesma franqueza: mascarei-me para lhe ocultar o rosto.
- Então eu conheço-o?!...
- Não o creio; mas ao vê-lo uma vez,
poderia mais tarde reconhecê-lo, o que, no meu entender pelo menos, é absolutamente inútil.
- Vejo que é franco, senhor. - Não há dúvida de que o sou, quando
da minha franqueza me não pode resultar mal algum.
- E essa franqueza chegará a ponto de
revelar os segredos dos outros?...
- Sim, senhor! Quando uma tal
revelação me pode render alguma coisa.
- É muito singular, o ofício que tem... - Essa não é má, senhor! A gente faz o
que pode. Tenho sido alternativamente letrado, médico, soldado, e partidário; vê por isso muito bem que por falta de profissão não serei mal sucedido.
- E agora, que faz?
- Sou seu criado - disse o mancebo,
inclinando-se com afetado respeito.
- Tem o senhor a assinatura em branco
que se pede?...
- Ei-la aqui.
- Quer que façamos a troca?
- Não se apresse tanto, senhor; a sua
conversação agrada-me. E não quereria ver-me tão cedo privado do prazer que ela me dá.
- Não se verá, então, senhor! Ela e eu
somos inteiramente seus. Conversemos, se nisso encontra prazer.
- Quer que passe para o seu barco, ou
prefere passar para o meu, a fim de que no barco que ficar livre tenhamos os barqueiros afastados de nós?...
- Isso é inútil, senhor. Sem dúvida fala
alguma língua estrangeira...
- Falo o espanhol.
- E eu também. Conversemos, pois, em
espanhol, se é que pode fazê-lo nessa língua.
- Às mil maravilhas! Que razão -
continuou o gentil-homem, adotando desde esse momento o idioma convencionado - o decidiu a descobrir ao duque d’Épernon a infidelidade da senhora em causa?
- Quis prestar um serviço àquele digno
fidalgo, e insinuar-me na sua graça.
- Então, quer mal à menina de Lartigues?...
- Quem? Eu! Muito pelo contrário!
Antes lhe devo, há que confessá-lo, algumas obrigações; e muito me desgostaria se lhe acontecesse alguma desgraça.
- Então, é ao senhor barão de Canolles
que tem por inimigo?
- Nunca o vi, e só o conheço pela
reputação de que goza; e, devo dizê-lo, tem-na de ser honrado cavaleiro e bravo gentil-homem.
- Pelo que vejo, não é instigado por
qualquer motivo de ódio...
- Nada disso! Se quisesse mal ao senhor
barão de Canolles, rogar-lhe-ia que se dignasse bater-se comigo à pistola ou à espada, e ele é demasiado brioso para recusar um convite desse tipo.
- Tenho, portanto, de me cingir ao que
disse...
- É, no meu entender, o que pode fazer
de mais acertado.
- Muito bem! Tem então aquela carta que prova a infidelidade da menina de Lartigues, não é assim?
- Ei-la aqui! Não pretendo queixar-me,
mas é a segunda vez que lha mostro.
O velho gentil-homem pousou
tristemente e de longe os olhos sobre o fino papel, através do qual apareciam algumas letras. O mancebo foi abrindo vagarosamente a carta.
- Reconhece sem dúvida a letra? - Reconheço.
- Então dê-me o papel assinado em
branco, e receberá a carta.
- Assim farei. Mas permita-me que lhe
faça uma pergunta...
- Fale, senhor.
E o mancebo tornou a dobrar muito
sossegadamente o papel, que meteu na algibeira.
- Como conseguiu obter essa carta? - De boa vontade lho direi. - E eu presto-lhe atenção. - Não ignora que a governação um tanto delapidadora do duque D’Épernon lhe tem granjeado grandes embaraços na Guiena...
- Muito bem, passemos adiante. - Não ignora que o governo
espantosamente avaro de Mazarino lhe granjeou enormes problemas na capital...
- E a que propósito são para aqui
chamados Mazarino e D’Épernon?
- Espere, senhor. Destes dois governos
opostos saiu um estado de coisas que muito se assemelha a uma guerra geral, na qual ninguém deixa de tomar partido. Mazarino combate neste momento pela rainha; o senhor combate pelo rei; o coadjutor pelo senhor de Beaufort; o senhor de Beaufort pela senhora de Mont-bazon; La Rochefoucaukl pela senhora de Longueville; o duque de Orleães pela menina Soyon; o Parlamento pelo povo. E, finalmente, encarceraram o senhor de Conde, que combatia pela França. Ora, a mim, que não ganhava grande coisa em combater pela rainha, pelo rei, pelo coadjutor, pelo senhor de Beaufort, pela senhora de Montbazon, pela senhora de Longueville, pela menina Soyon, pelo povo, ou pela França, ocorreu-me a idéia de não adotar partido algum, mas sim de seguir aquele para o qual me sentisse momentaneamente impelido. Tudo, portanto, em mim, é negócio de conveniência. Que lhe parece esta idéia?
- É engenhosa.
- Em conseqüência, reuni um exército.
Está a vê-lo, postado nas margens do Dordonha.
- Cinco homens?... Que fartura!... - Mesmo assim mais um do que os
seus. Optaria muito desacertadamente, pois, se os desprezasse.
- Muito mal vestidos - continuou o
velho gentil-homem, que estava de mau humor, e por conseqüência disposto a tudo tratar com desprezo.
- Verdade seja dita - continuou o
interlocutor - que se assemelham aos companheiros de Falstaff. Mas não se preocupe por isso. Falstaff é um gentil-homem inglês meu conhecido. Esta tarde receberam fardamento novo, e se amanhã os encontrar, verá que são na realidade belos rapazes.
- Falemos de si, nada tenho a ver com
os seus homens.
- Ora, fazia eu a guerra por minha
conta, encontramos o cobrador do distrito, que andava de aldeia em aldeia enchendo a bolsa de sua majestade; enquanto não recebeu todos os tributos, sem que ficasse um único por cobrar, escoltamo-lo com toda a fidelidade; e, não posso deixar de confessá-lo, ao ver que a tal sacola se ia enchendo, tive desejo de tomar o partido do rei. Mas os acontecimentos cada vez nos vão deixando mais perplexos: um movimento de mau humor contra Mazarino, e as queixas que de todo o lado ouvíamos contra D’Épernon, fizeram-nos recobrar a razão. Pensávamos que havia algo de bom, muito até, na causa dos príncipes, e, pela minha fé, juro-vos que a abraçamos com ardor. O cobrador terminou o giro naquela casinha solitária que vê lá em baixo, no meio dos olmos e sicômoros.
- A de Nanon... - disse entre dentes o
gentil-homem. - Sim, vejo-a muito bem.
- Esperamo-lo à saída, e seguimo-lo,
como já fazíamos havia cinco dias; passamos com ele o Dordonha, um pouco acima de Saint-Michel, e, quando chegamos a meio do rio, dei-lhe a conhecer a nossa tendência política, convidando-o, com toda a cortesia de que sou capaz, a entregar-nos o dinheiro de que era portador. Acreditaria, senhor, que ele tanto se recusasse?... Os meus companheiros, então, revistaram-no; e como gritava de tal modo que podia dar escândalo, o meu tenente, rapaz a quem nunca faltam recursos - aquele que vê lá em baixo, de capote encarnado, segurando o meu cavalo pela rédea - refletiu que se a água intercepta as correntes do ar, interrompe, pela mesma razão, a propagação do som (este um axioma de física, que eu, na minha qualidade de médico, compreendi e aplaudi). Então, aquele que emitira esta proposição curvou a cabeça do recalcitrante, fazendo-a entrar no rio, e conservou-a assim pelo menos palmo e meio sob a água; com efeito, não o ouviram gritar mais! Pudemos, portanto, apoderar-nos, em nome dos príncipes, de todo o dinheiro que levava, e da correspondência que lhe fora confiada. Dei o dinheiro aos meus soldados, que, como muito judiciosamente o senhor observa, têm muita necessidade de se fardarem de novo, e eu guardei os papéis; entre outros, este. Parece que o bravo cobrador servia de corretor à menina de Lartigues, nos seus amores.
- Era, com efeito - corroborou o velho
gentil-homem - se não me engano, um colaborador de Nanon. E que foi feito desse miserável?
- Ah! vai ver se fizemos bem em pôr de
molho aquele miserável, como lhe chama... Teria, sem dúvida alguma, amotinado toda a terra! Imagine que, quando o tiramos do rio, apesar de não ter ficado lá mais do que um quarto de hora, morrera de raiva!
- E no rio o mergulharam de novo...
certamente.
- Tal qual o diz.
- Mas se o mensageiro foi afogado... - Eu não disse que foi afogado... - Não alterquemos acerca de palavras;
se o mensageiro morreu...
- Oh! Quanto a isso, sim, muito bem. - O senhor de Canolles não terá
recebido qualquer aviso, e, portanto, não virá ao ponto aprazado.
- Pondere bem no que lhe digo: faço
guerra às potências, e não aos particulares. O senhor de Canolles recebeu uma cópia da carta que lhe aprazava o lugar onde deveria dirigir-se; não fiz mais do que guardar o manuscrito autografado, pensando que era de alguma importância.
- E que pensará ele quando não
reconhecer a escrita?
- Que a pessoa que o convida a ir vê-lo, para maior precaução, se serviu de mão estranha.
O forasteiro olhou para Cauvignac com
certo espanto, causado por tanta impudência aliada a tamanha firmeza de ânimo.
Tentou então encontrar meio de
intimidar aquele atrevido velhaco.
- Mas, o governo?... as devassas?... -
disse-lhe ele. - Não lhe dá isso algumas vezes cuidado?...
- As devassas... - replicou o mancebo
rindo. - Pensa que o senhor D’Épernon não tem mais que fazer do que ocupar-se com devassas?... E, além disso, não lhe disse eu que tudo quanto fizera era para ganhar as suas graças?... Muito ingrato teria ele de ser para mas não conceder!
- Não posso compreendê-lo
inteiramente - afirmou o velho gentil-homem, com ironia. - Como é possível que, tendo, como confessa, abraçado o partido dos príncipes, lhe ocorresse a estranha idéia de querer prestar serviços ao senhor D’Épernon?!
- Todavia, é a coisa mais simples do
mundo: a inspeção dos papéis apanhados ao cobrador convenceu-me da pureza das intenções do rei; sua majestade está completamente justificado a meus olhos, e o duque d’Épernon tem mil razões contra os seus administradores. Deste lado, pois, é que está a boa causa, e é este o motivo por que tomei partido a favor dela.
"Aqui está um salteador que mandarei
enforcar, se um dia me cair nas mãos" - murmurou o velho gentil-homem, puxando pelos eriçados bigodes.
- Dizia... ? - perguntou Cauvignac,
piscando os olhos debaixo da máscara.
- Nada! Agora, mais uma pergunta: que
fará da assinatura em branco que exige?
- Diabos me levem se já tomei alguma
resolução a tal respeito! Pedi uma assinatura em branco, porque é a coisa mais cômoda, mais portátil e mais elástica. É provável que a guarde para dela me valer em alguma circunstância extrema, e também é muito possível que me desfaça dela por qualquer capricho, se me der na vontade fazê-lo. Talvez que eu mesmo lha apresente antes de terminar a semana, com uma dúzia de endossantes, como se fosse uma letra comercial. Mas, seja o que for, pode ficar descansado: não abusarei dela para fazer coisas de que o senhor e eu tenhamos de nos envergonhar. Em todo o caso, sou gentil-homem.
- É gentil-homem?...
- Sim, senhor, e dos melhores. "Então, mandá-lo-ei rodar - disse
consigo o desconhecido. - Para isso lhe servirá esta assinatura em branco."
- Está resolvido a dar-me essa
assinatura em branco? - perguntou Cauvignac.
- Que remédio tenho senão dá-la -
desabafou o velho gentil-homem.
- Não o obrigo a tanto; é necessário que
nos entendamos: era uma troca que eu propunha; guarde o seu papel, e eu guardarei o meu.
- A carta?...
- A assinatura em branco?... E com uma das mãos ofereceu a carta,
enquanto na outra segurava a pistola.
- Deixe a sua pistola em paz - disse o
forasteiro, desembuçando-se - pois eu também tenho pistolas; estamos igualmente armados. Jogo franco de parte a parte. Aqui está o seu papel assinado em branco.
- Aqui, a sua carta.
A troca dos papéis efetuou-se então
com toda a lealdade, e cada uma das partes examinou em silêncio, com vagar e atenção, o que acabavam de receber.
- Agora, senhor - disse Cauvignac - que
caminho toma? - Necessito passar para a margem direita do rio.
- E eu para a margem esquerda. - Como faremos agora? Os meus
homens estão do lado para onde vai, e os seus do lado para onde vou...
- Pois bem, nada mais fácil: mande-me
os meus homens no seu barco, e eu mandar-lhe-ei os seus neste.
- Tem um espírito rápido e inventivo. - Nasci para general de um exército. - Já o é.
- Ah! é verdade! - disse o mancebo. -
Tinha-me esquecido... O forasteiro fez sinal ao barqueiro para que desamarrasse o barco, e o conduzisse para a margem oposta àquela de onde partira, e rumo a um bosquezinho que se prolongava até à estrada.
O mancebo, que talvez receasse
qualquer traição, levantou então a cabeça para segui-lo com os olhos, o dedo sempre no gatilho da pistola, prestes a disparar, caso o forasteiro fizesse o menor movimento suspeito; mas este nem sequer se dignou criticar a desconfiança de que era objeto, e, voltando as costas ao mancebo, com uma indiferença real, ou afetada, principiou a ler a carta, ficando em breve absorto nessa leitura.
- Não se esqueça do momento aprazado - recordou Cauvignac. - Esta noite, às oito horas.
O forasteiro nada respondeu, e até não
deu mostras de o ter ouvido.
"Ah! - murmurou Cauvignac, falando
consigo, ao mesmo tempo que afagava a coronha da pistola. - Quando me lembro que só de mim depende deixar livre a sucessão do governador da Guiena, e pôr termo à guerra civil!... Mas uma vez morto o duque d’Épernon, de que me serviria o seu papel assinado em branco?... E terminada a guerra civil, de que viveria eu?... Na verdade, momentos há em que me parece que enlouqueço! Viva o duque d’Épernon e a guerra civil!..." - Vamos, barqueiro, toca a remar! E apressemo-nos a chegar à outra margem: é necessário que este digno senhor não tenha de esperar muito tempo pela sua escolta.
Pouco depois, Cauvignac chegava à
margem esquerda do Dordonha, justamente no momento em que o velho gentil-homem lhe mandava Ferguzon e os seus cinco bandidos, no barco de passagem de Ison. Não quis mostrar-se menos pontual do que ele, e ainda no rio renovou ao barqueiro a ordem de receber no seu barco, e conduzir para a margem direita, os quatro homens do desconhecido. Os dois grupos cruzaram-se e saudaram-se cortesmente, depois do que cada um chegou ao ponto onde era aguardado. Então, o velho gentil-homem embrenhou-se com a sua escolta na mata que se estendia das praias do rio à estrada real; e Cauvignac, à frente do seu "exército", tomou a vereda que desembocava em Ison.
III
PASSADA meia hora sobre a cena que
acabamos de referir, a mesma janela da estalagem do senhor Biscarros, que tão veementemente se fechara, abriu-se de novo, com precaução, e, no parapeito, depois de haver olhado à direita e à esquerda, apoiou os cotovelos um jovem de dezesseis a dezoito anos, vestido de preto, camisa de punhos, como então usavam; os folhos bordados da mesma, que eram de cambraia fina, saíam altaneiramente do casacão e caíam ondulando sobre as calças, adornadas de fitas. As pequenas mãos, elegantes e cheias, o que denunciava serem de raça nobre, amarrotavam com impaciência umas luvas de camurça bordadas nas costuras; um chapéu pardo, com uma magnífica pluma azul, sombreava-lhe o comprido cabelo, cintilante de reflexos dourados, que de forma maravilhosa emolduravam um rosto oval, de tez branca, lábios rosados, e sobrancelhas pretas. Haverá porém que dizer que todo este gracioso conjunto, o qual devia fazer do mancebo um dos mais encantadores cavaleiros que se pudessem ver, estava naquele momento ensombrado por um certo ar de mau humor, que sem dúvida provinha de uma espera em vão, visto que o mancebo interrogava com os seus atentos olhos a estrada, já mergulhada ao longe na bruma da noite.
Dada a impaciência em que estava,
batia com as luvas na mão esquerda. Com o barulho que fazia, o estalajadeiro, que acabava de depenar as perdizes, levantou a cabeça, e, tirando o barrete, disse:
- A que horas quer cear, meu cavaleiro?
Pois já só se esperam as suas ordens para ser servido.
- Bem sabe que não ceio só, e que
espero um companheiro - retorquiu o mancebo. - Quando o vir chegar, poderá servir a ceia.
- Ah! senhor - respondeu Biscarros -
não pretendo censurar o seu amigo, pois que sem dúvida poderá vir ou deixar de vir, como bem lhe aprouver; mas é um hábito muito mau fazer esperar tanto tempo.
- Contudo, ele não costuma fazer-se
esperar, e muito me surpreende uma tal tardança.
- E a mim não só me causa espanto,
senhor, mas muito me aflige: queimar-se-á o assado.
- Tire-o do espeto.
- Então arrefecerá.
- Ponha outro assado ao lume. - Não haverá tempo para temperá-lo. - Nesse caso, meu amigo, faça o que
quiser - concluiu o mancebo, não podendo, apesar do seu mau humor, deixar de sorrir pelo desespero em que via o estalajadeiro. - Entrego o caso à sua suprema sabedoria.
- Não há sabedoria, ainda que fosse a
do rei Salomão - respondeu o estalajadeiro - que possa tornar tragável um jantar requentado.
E sobre este axioma, que vinte anos
mais tarde Boileau poria em verso, o senhor Biscarros tornou a entrar na estalagem, sacudindo dolorosamente a cabeça.
Então, como se quisesse distrair-se da
sua impaciência, o jovem recolheu ao seu quarto; fez, por um momento, ranger as botas no sobrado retumbante, e, depois, parecendo-lhe ouvir ao longe passos de cavalos, voltou apressadamente para a janela.
- Enfim! - exclamou. - Ei-lo que chega!
Deus seja louvado!
Com efeito, além da mata onde cantava
o rouxinol, a cujos acentos melodiosos o mancebo, sem dúvida devido à sua preocupação, não ligara a mínima importância, viu aparecer a cabeça de um cavaleiro; mas ficou muito surpreendido por esperar em vão que o cavaleiro desembocasse na estrada; o recém-chegado tomou à direita, entrou na mata, e em breve o seu chapéu se sumiu, prova certa de que o cavaleiro se apeara. Passado um momento, o observador avistou, através dos ramos desviados com cautela, uma casaca esbranquiçada, e o fulgor de um dos últimos raios de sol no ocaso, refletido no cano de um mosquete.
O mancebo deixou-se ficar pensativo à
janela; evidentemente que o cavaleiro oculto na mata não era o companheiro que esperava, e a expressão de impaciência que enrugava o seu expressivo rosto deu lugar a uma máscara de curiosidade.
Em breve um segundo chapéu surgiu
na curva da estrada; o jovem recuou de maneira a que o não vissem.
A mesma casaca clara, o mesmo manejo
do cavalo, o mesmo mosquete brilhante. O recém-chegado dirigiu ao primeiro algumas palavras, que o nosso observador não pôde ouvir devido à distância, e, em conseqüência das informações que decerto lhe deu o companheiro, embrenhou-se no bosque paralelo à mata, apeou-se por seu turno, foi anichar-se atrás de um rochedo, e ficou à espera. Do ponto elevado em que estava, o mancebo divisava o chapéu por cima do rochedo. Ao lado do chapéu cintilava um ponto luminoso: era a extremidade do cano do mosquete.
Um sentimento de vago terror se
apossou do espírito do gentil-homem, que olhava para esta cena ocultando-se cada vez mais.
"Oh! oh! - perguntou ele a si próprio -
será a mim e aos mil luíses que levo comigo que quererão lançar mão?... Mas... não, porquanto, na suposição de que Richon chegue, e de que eu possa pôr-me a caminho esta noite, vou a Libourne, e não a Saint-André-de-Cubzac; por conseguinte, não passo por onde aqueles tratantes estão emboscados. Se o meu velho Pompeu aqui estivesse, consultá-lo-ia. Mas... se não me engano... sim, pela minha fé! são dois homens mais... vêm juntar-se aos outros dois... Olá... isto tem toda a aparência de uma emboscada!..."
E o jovem deu outro passo à
retaguarda.
Na verdade, neste momento surgiam
outros dois cavaleiros na mesma curva da estrada. Desta vez, porém, só um deles trazia casaca clara. O outro, montado num possante cavalo preto, e embuçado num amplo capote, usava o chapéu agaloado, adornado com uma pluma branca, e debaixo deste capote, que a brisa da tarde levantava, via-se refulgir um rico bordado numa sobrecasaca de cor nacarada.
Dir-se-ia que o dia se prolongava para
iluminar esta cena, porque os últimos raios de sol, rompendo por entre uma daquelas densas brumas que às vezes se estendem de um modo tão pitoresco no horizonte, acenderam repentinamente milhares de rubis nas vidraças de uma linda casa situada a uns cem passos do rio, e na qual o mancebo não teria reparado não fora esta circunstância, uma vez que estava oculta entre os ramos de uma densa mata. Este reforce de luz desde logo deu a conhecer que os olhos dos espias se dirigiam alternativamente para a entrada da aldeia e para a pequena casa dos vidros refulgentes, e que os das casacas pareciam ter o maior respeito ao da pluma branca, a quem só falavam com o chapéu na mão. Por fim, tendo-se aberto uma das janelas iluminadas, uma mulher apresentou-se ao balcão, inclinou-se por um momento, como se esperasse alguém, e logo se recolheu, com receio sem dúvida de ser vista.
Ao mesmo tempo que se recolhia, o sol
baixava para além da montanha; à medida que ia baixando, o andar térreo da casa parecia sumir-se na escuridão, e a luz, abandonando pouco a pouco as janelas, subia ao telhado de ardósias e desaparecia de todo, depois de ter refulgido por um momento num feixe de flechas de ouro que servia de grimpa.
Para qualquer espírito dotado de
mediana inteligência, havia um número suficiente de indícios, e sobre esses indícios podiam estabelecer-se, senão certezas, pelo menos probabilidades.
Provável seria que aqueles homens
vigiavam a pequena casa isolada, a cuja varanda uma mulher se apresentara momentaneamente. Era portanto viável que a mulher e os homens esperassem a mesma pessoa, mas com intenções muito diversas. Era também provável que a pessoa por quem esperavam viesse da aldeia e, por conseqüência, passasse diante da estalagem, situada a meio caminho entre a aldeia e a mata, da mesma forma que a própria mata se situava a meio caminho entre a estalagem e a casa. Finalmente, era provável que o cavaleiro da pluma branca fosse o chefe dos cavaleiros de casacas esbranquiçadas, e que, tendo em conta o ardor de que dava mostras, erguendo-se sobre os estribos para ver mais ao longe, este chefe tivesse ciúmes - e sem dúvida alguma andava à espreita por sua própria conta.
No momento em que o mancebo
concluía mentalmente esta série de conjecturas, que se encandeavam umas nas outras, a porta do quarto abriu-se, e entrou o senhor Biscarros.
- Caro patrão - disse o jovem, sem dar
tempo àquele que tão a propósito entrava no seu quarto para que lhe expusesse o motivo da sua visita (motivo que ele não deixava de adivinhar) - venha cá, e diga-me, se acaso não é indiscreta a minha pergunta, a quem pertence a pequena casa que se vê lá em baixo, como um ponto branco no meio dos olmos e dos sicômoros.
O estalajadeiro seguiu com os olhos a
direção do dedo e, coçando a testa, respondeu com um sorriso que tentava impregnar malícia:
- Pela minha fé! Ora a um, ora a outro.
A si, se tem qualquer razão para desejar o isolamento... quer deseje ocultar a sua pessoa... quer deseje simplesmente esconder alguém...
O mancebo corou.
- Mas hoje - perguntou ele - quem
habita essa casa?
- Uma jovem senhora, que se diz viúva,
a quem a sombra do primeiro marido - e talvez que também a do segundo - vem visitar de vez em quando. Em tudo isto apenas um reparo: as duas sombras devem provavelmente estar combinadas, visto que nunca se apresentam ao mesmo tempo.
- E desde quando - perguntou o
mancebo, sorrindo - habita a formosa viúva essa casa solitária e tão cômoda para as aparições?
- Haverá uns dois meses. Quanto ao
resto, vive retirada de todo, e creio que há dois meses a esta parte ninguém pode gabar-se de a ter visto, porque sai raríssimas vezes, e sempre coberta com um véu. Uma pequena aia, muito linda, na realidade, vem todas as manhãs informar-me acerca das iguarias que pretende para o dia: lá se lhe levam; recebe os pratos no vestíbulo, paga generosamente a conta, e no mesmo instante bate com a porta nas ventas do moço. Esta noite, por exemplo, há um banquete, e era para ela que preparava as codornizes e as perdizes que me viu depenar.
- E a quem dá ela de cear? - Sem dúvida a uma das suas sombras
de que já falei.
- Viu alguma vez essas sombras?
- Sim, senhor; mas só passam à noite,
depois do sol-posto, ou de madrugada, antes que seja dia.
- Mesmo assim tenho a certeza de que
as distinguiu, meu caro Biscarros, pois assim que abre a boca, logo se vê que é um bom observador. Vejamos, que notou de especial no porte das duas sombras?
- Uma é a de um homem de sessenta a
sessenta e cinco anos, e parece-me ser a do primeiro marido, porque se apresenta como uma sombra consciente da autoridade dos seus direitos. A outra, é a de um mancebo de vinte e seis a vinte e oito anos - e esta, cumpre-me dizê-lo, é mais tímida, e tem de todo em tudo os ares de uma alma que anda penando. E por isso juraria que é a do segundo marido.
- E para que horas lhe ordenaram que
aprontasse a ceia de hoje?
- Para as oito.
- São sete e meia - afirmou o mancebo,
puxando por um belo relógio que já por diferentes vezes havia consultado. - Não pode, portanto, perder tempo.
- Oh! estará pronta, sossegue a esse
respeito. Subi apenas para lhe falar da ceia de vossa senhoria, e para lhe dizer que recomecei a confeccioná-la, completamente. Agora, já que o seu companheiro tanto tem tardado, trate de arranjar as coisas de modo a que não chegue aqui antes que se tenha passado uma hora.
- Preste-me atenção, meu amigo - disse
o jovem cavaleiro, no tom de um homem para quem o grave negócio de uma ceia servida a hora certa é coisa de pouca monta - não se atormente por causa da nossa ceia, pois ainda que a pessoa por quem espero chegasse, como temos de conversar, se a ceia não estiver pronta, conversaremos antes; se, pelo contrário, estiver pronta, conversaremos depois.
- Na verdade, senhor - volveu o
estalajadeiro - é um gentil-homem muito condescendente; e já que confia em mim, esteja certo de que ficará satisfeito.
Dito isto, o senhor Biscarros fez uma
profunda vênia, a que o jovem correspondeu com um ligeiro aceno de cabeça, e saiu.
"E agora - pensou o mancebo,
ocupando novamente, com toda a curiosidade, o seu posto na janela - tudo compreendo. A senhora espera alguém que deve vir de Libourne, e os homens do bosque propõem-se interceptar o visitante antes que este tenha tempo de bater à porta."
Ao mesmo tempo, como que a justificar
as previsões do sagaz observador, ouviram-se à sua esquerda os passos de um cavalo. No mesmo instante, os olhos do mancebo volveram-se com a rapidez do raio, a examinar a atitude dos homens emboscados. Apesar de a noite começar a confundir os objetos numa meia escuridão, pareceu-lhe que uns desviavam os arbustos e outros levantavam as cabeças a fim de olharem por cima do rochedo, preparando-se, uns e outros, para um movimento que tinha toda a aparência de agressão. Ao mesmo tempo, o ruído de armar os mosquetes feriu-lhe por três vezes os ouvidos e fez-lhe estremecer o coração. Voltou-se então rapidamente para o lado de Libourne, a fim de ver se descobria o homem a quem este ruído mortífero ameaçava, viu, montado num formoso cavalo, caminhando a trote, aparecer, bizarro e ufano, com ar triunfador, um belo mancebo, cujo curto capote, forrado de cetim branco, deixava elegantemente descoberto o ombro direito. De longe, esta figura parecia cheia de elegância, de terna poesia, e de forte orgulho. Vista de mais perto, era composta por um rosto regular e mimoso, de boas cores, olhos ardentes, boca um tanto aberta pelo hábito de sorrir, bigodes negros e delicados, dentes finos e brancos. Um elegante pingalim, um ligeiro assobiar, semelhante ao dos pintassilgos daquela época, divulgado e posto na moda pelo senhor Gastão de Orleães, completavam um perfeito cavaleiro, segundo as leis da elegância que estavam em vigor na corte de França, que já então começava a dar o tom a todas as outras cortes da Europa.
Cerca de cinqüenta passos atrás dele, e
montado num cavalo cuja passada regulava pela do cavalo do primeiro cavaleiro, vinha um lacaio, muito afetado e emproado, que parecia ocupar entre os criados uma distinção tão marcada como a do respectivo amo entre os gentis-homens.
O formoso adolescente que se
conservava à janela da estalagem, sem dúvida demasiado jovem para assistir imóvel a uma cena semelhante àquela de que ia ser testemunha, não pôde deixar de estremecer ao pensar que os dois distintos homens que se aproximavam tão descuidados e com tamanha segurança, seriam mortos a tiro, com toda a probabilidade, logo que chegassem à emboscada onde os esperavam.
Então, um rápido combate pareceu ter
lugar no ânimo do jovem, entre a timidez da idade, e o amor ao próximo. Por fim, venceu o sentimento generoso. E como o cavaleiro ia passar diante da porta da estalagem sem ao menos olhar para o lado onde se encontrava, o mancebo, cedendo a um súbito impulso, a uma resolução irresistível, debruçou-se da janela, e, dirigindo-se ao elegante viajante, bradou:
- Olá, senhor! Peço-lhe que pare, pois
tenho de comunicar-lhe algo bastante importante.
Ouvindo a voz e estas palavras, o
cavaleiro ergueu a cabeça, e ao ver o jovem à janela, deteve o cavalo com um movimento de mão de que não desdenharia o melhor cavaleiro.
- Não faça parar o seu cavalo, senhor -
continuou o jovem. - Pelo contrário: aproxime-se de mim sem afetação e como se me conhecesse.
O cavaleiro hesitou um momento; mas
reconhecendo pelo gesto daquele que lhe falara que se tratava de um gentil-homem de belo porte e boa fisionomia, tirou o chapéu, e adiantou-se sorrindo.
- Aqui me tem às suas ordens, senhor -
disse ele. - Em que posso servi-lo?
- Aproxime-se ainda mais, senhor -
continuou o desconhecido da janela - pois o que tenho que dizer-lhe não pode ser dito em voz alta. Torne a pôr o chapéu, porque é necessário que nos julguem conhecidos de há muito, e que é a mim quem veio procurar nesta estalagem.
- Mas, senhor... - estranhou o
passageiro - não posso compreender...
- Não tardará a compreender.
Entretanto, cubra-se... Muito bem. Chegue-se mais perto... mais perto ainda... Estenda-me a mão... isso mesmo. Estou encantado em vê-lo! Agora, não passe desta estalagem, pois se tal fizer está perdido.
- Mas então que novidade há? Na
verdade, assusta-me!- disse, sorrindo, o cavaleiro.
- O que há de novo... Encaminha-se
para aquela casinha onde se vê brilhar luz, não é assim?...
O cavaleiro fez um aceno. - Mas no caminho dessa casa, ali, onde
a estrada faz um cotovelo, naquele bosque sombrio, quatro homens estão emboscados à sua espera.
- Ah!... - fez o cavaleiro, cravando os
olhos no pequeno e pálido mancebo. - Está bem certo disso?...
- Vi-os chegar uns atrás dos outros,
apearem-se e ocultarem-se, uns atrás das árvores, outros para além dos rochedos. Finalmente, quando há pouco desembocou da aldeia, ouvi-os carregarem os mosquetes.
- Essa agora!... - exclamou o cavaleiro,
que por seu turno começava a assustar-se.
- Sim, senhor, é como lhe digo -
continuou o mancebo. - E se não estivesse tão escuro, talvez que os pudesse ver e reconhecer.
- Oh!-volveu o viajante - não tenho
necessidade de reconhecê-los: sei muito bem quem são esses homens. Mas ao senhor, quem lhe disse que me dirigia àquela casa, e que era a mim que assim espreitavam?
- Adivinhei-o.
- É um adivinho muito encantador; eu
agradeço-lhe. Ah! querem arcabuzar-me, hem?... E quanto são eles, para levaram a efeito essa bela operação?
- Quatro, um dos quais deve ser o
chefe.
- Esse chefe não parece mais idoso do
que os outros?...
- Sim, senhor, tanto quanto pude julgar
daqui.
- Curvado?...
- De espáduas largas e arqueadas,
pluma branca no chapéu, casaco bordado, capote pardo; gesto não comum, mas severo e imperioso.
- Não há que duvidar: é o duque
d’Épernon!... - exclamou o gentil-homem. - Pois bem, não posso deixar de lhe dar conta dos meus negócios... e a sorte sempre me reserva cada um! Mas não importa; o serviço que me rendeu é de suma importância, e, portanto, nenhum motivo posso ter de desconfiança a seu respeito. E os que o acompanhavam, qual era o respectivo trajo?
- Casacas pardas.
- É isso, justamente; são os seus porta-
cacetes! Juro-lhe pela minha honra que lhe fico muito agradecido. E agora, meu gentil-homem, sabe o que deveria fazer?...
- Não, senhor; mas diga-me o seu
parecer, e se o que eu faça puder ser-lhe útil, de antemão me sinto a isso absolutamente disposto.
- Tem armas?
- Mas... Sim, tenho a minha espada. - Tem o seu lacaio?
- Sem dúvida; mas não está agora aqui;
mandei-o ao encontro de uma pessoa por quem espero.
- Pois bem, deve ajudar-me num ataque
repentino.
- Com que fim?
- Com o fim de cairmos sobre aqueles miseráveis, e fazer-lhes pedir misericórdia, tanto a eles, como ao seu chefe.
- Está louco, senhor! - exclamou o
mancebo, com um acento que provava não estar de modo algum disposto a tal expedição.
- Com efeito... peço-lhe desculpa - disse
o viajante. - Esquecia-me de que este assunto não lhe diz respeito.
Em seguida, voltando-se para o lacaio,
que ao ver parar o amo, fizera por sua vez alto conservando-se a certa distância:
- Castorin! - disse ele. - Venha cá. E ao mesmo tempo levou a mão aos
coldres, como se quisesse certificar-se de que as suas pistolas estavam em bom estado.
- Ah! senhor - exclamou o jovem gentil-
homem, estendendo o braço como para o deter. - Senhor, em nome do céu! Não vá arriscar a vida numa tal aventura! Entre antes na estalagem, a fim de não levantar suspeita alguma àqueles que o esperam. Lembre-se de que se trata da honra de uma mulher.
- Tem razão - condescendeu o cavaleiro
- apesar de que nesta circunstância se não trate precisamente da honra, mas sim da riqueza. Castorin, meu amigo - continuou, dirigindo-se ao lacaio que se lhe havia reunido - não iremos mais longe, por ora.
- Como?... - exclamou Castorin, quase
tão espantado como o amo. - Que diz o senhor?
- Digo que a menina Francineta ficará
esta noite privada da honra de nos receber, visto que ficamos na estalagem do Bezerro de Ouro. Entre, pois; mande aprontar a ceia, e preparar uma cama para mim.
E como o cavaleiro sem dúvida
percebeu que Castorin se dispunha a replicar, acompanhou estas últimas palavras com um movimento de cabeça que não admitia réplica. E, portanto, Castorin desapareceu sob o portal, de orelha murcha e sem se atrever a dizer palavra.
O cavaleiro seguiu Castorin um
instante com os olhos, e, em seguida, depois de haver refletido, pareceu tomar uma resolução. Apeou-se, entrou no portal atrás do lacaio, lançou-lhe a rédea do cavalo no braço, e em dois pulos chegou ao quarto do jovem gentil-homem; este, vendo abrir-se repentinamente a porta, deu mostras de sobressalto e susto, que o recém-chegado não pôde ver por causa da escuridão.
- Sim - disse o cavaleiro, aproximando-
se alegremente do mancebo, pegando-lhe na mão, que sacudiu cordialmente, sem que o outro lha estendesse - não há a mínima dúvida: é a si que devo a vida.
- Ah! senhor, exagera o favor que lhe
prestei - emendou o mancebo, recuando um passo.
- Não, senhor, nada de modéstia! É
como lhe digo. Eu conheço o duque: é um homem sumamente brutal. Quanto a si, é um modelo de perspicácia, um modelo de caridade cristã. Mas, diga-me, já que é tão amável, tão compreensivo: chegaria a sua bondade ao ponto de mandar aviso à casa?...
- A qual casa?
- A qual casa havia de ser? À casa
aonde me dirigia, à casa em que me esperam...
- Não, senhor - negou o jovem - de tal
não me lembrei, confesso; além do que, mesmo que me tivesse lembrado, não tinha meios de fazê-lo. Ainda não há mais de duas horas que aqui cheguei, e não conheço ninguém nesta casa.
- Ai de mim! - queixou-se o viajante,
fazendo um movimento de inquietação.-Pobre Nanon!... Contanto que não lhe aconteça mal algum!...
- Nanon?... Nanon de Lartigues?!... -
exclamou o mancebo, estupefato.
- Pelo que vejo, é decididamente
feiticeiro! - admirou-se o passageiro. – Vê emboscarem-se uns tipos numa estrada, e adivinha a quem querem matar; digo-lhe um nome de batismo, e adivinha o nome de família. Vamos, explique-se sem a mínima demora, senão vou denunciá-lo, e fazer com que o condenem à fogueira pelo Parlamento de Bordéus.
- Ah! desta vez, terá de concordar -
replicou o mancebo - não era preciso ser muito esperto para chegar a saber quem era a pessoa que queria ocultar: uma vez que nomeou o duque d’Épernon como seu rival, era evidente que se nomeasse uma Nanon, não podia deixar de ser Nanon de Lartigues, tão formosa, tão rica, tão espirituosa, segundo dizem, que enfeitiçou o duque, e que governa o seu estado - o que faz com que em toda a Guiena seja tão execrada como ele... E para casa daquela mulher é que o senhor ia!... - continuou o mancebo, em tom de repreensão.
- Pela minha fé, que para lá ia, eu o
confesso; e já que a nomeei, não me desdigo. Nanon é uma mulher encantadora, muito fiel às suas promessas enquanto sente prazer em guardá-las, e capaz do mais extremoso afeto para com aquele a quem ama, enquanto o ama. Eu devia cear com ela esta noite, mas o duque veio transtornar o plano. Quer que eu amanhã o apresente a ela?... Que remédio terá o duque, mais tarde ou mais cedo, senão voltar para Agen.
- Obrigado - disse em tom seco o jovem
gentil-homem. - Não conheço a menina de Lartigues, senão de nome, nem desejo conhecê-la de outro modo.
- Não tem por certo razão! Nanon é
uma senhora digna de ser conhecida de todos os modos.
As sobrancelhas do mancebo
franziram-se.
- Ah! peço-lhe desculpa - continuou o
cavaleiro, espantado - mas eu acreditava que na sua idade...
- Sem dúvida que é na minha idade que
normalmente se recebem semelhantes proposições - atalhou o jovem, dando-se conta do mau efeito produzido pelo seu rigor. - E eu de boa vontade aceitaria o seu oferecimento, se não estivesse aqui de passagem, e não me visse obrigado a pôr-me a caminho esta mesma noite.
- Oh! daqui não sairá sem que pelo
menos eu saiba quem é o gentil cavaleiro que teve a bondade de salvar-me a vida.
O mancebo pareceu hesitar; passado,
porém, um instante:
- Sou o visconde de Cambes. - Ah!... - fez o interlocutor.-Tenho
ouvido falar de uma linda viscondessa de Cambes, que tem grandes propriedades nas vizinhanças de Bordéus, e que é amiga da princesa.
- É minha parenta - disse com
vivacidade o mancebo.
- Felicito-o por isso, senhor visconde,
pois dizem ser uma senhora incomparável. Espero que, se a ocasião me favorecer neste ponto, ma apresentará. Eu sou o barão de Canolles, capitão no regimento de Navailles, e atualmente de licença, a qual o senhor duque d’Épernon foi forçado a conceder-me em virtude de uma recomendação da menina de Lartigues.
- O barão de Canolles!... - exclamou por seu turno o visconde, olhando para o interlocutor com curiosidade total, despertada por este nome, famoso pelas aventuras amorosas do tempo.
- Conhece-me?... - perguntou Canolles. - De reputação, somente - respondeu o
visconde.
- E má reputação, não é verdade?... Que
quer?! Cada um tem o seu fadário; a mim, agrada-me a vida agitada.
- Tem toda a liberdade, senhor, para
viver como lhe apraz - respondeu o visconde. - Permitir-me-á, todavia, que lhe faça uma observação...
- Qual?
- Que há uma senhora terrivelmente
comprometida por sua causa, e que será o alvo da vingança do duque pelo desgosto que ela lhe dá, e por sua culpa.
- Julga que assim será?
- Sem dúvida. Apesar de... leviana... a
menina de Lartigues não deixa de ser mulher, nem de ter sido comprometida pelo senhor: e, portanto, cumpre-lhe tratar da segurança dela.
- Pela minha fé, que tem razão, meu
jovem Nestor! Esquecia-me, enlevado no encanto da sua conversa, dos meus deveres de gentil-homem. Fomos sem dúvida atraiçoados, e é muito provável que o duque saiba tudo. Na verdade, se Nanon pudesse ser informada a tempo do que se passa, seria suficientemente hábil e astuta para fazer com que o duque lhe pedisse perdão. Vejamos... vejamos, pois... Conhece a arte da guerra, jovem?...
- Ainda não - respondeu o visconde,
rindo. - Mas creio que vou aprendê-la consigo.
- Pois bem, eis a primeira lição: sabe
que na guerra, quando a força é inútil, é preferível empregar a astúcia. Para utilizar este meio, quer ajudar-me a urdir um plano?...
- De muito boa vontade. Mas de que
maneira? Explique-se.
- A estalagem tem duas portas. - Quanto a isso, nada sei. - Mas sei-o eu muito bem; uma dá para
a estrada real, a outra para o campo; saio por esta última, descrevo um semicírculo, e vou para junto de Nanon, entrando em casa por uma porta que também abre para o campo.
- Sim, para que o surpreendam naquela
casa! - exclamou o visconde. - Vejo, na verdade, que de táctica sabe como ninguém!...
- Para que me surpreendam?... -
estranhou Canolles.
- Sem dúvida! O duque, cansado de
esperar, e não o vendo sair daqui, voltará para casa.
- Sim, mas eu não farei mais do que
entrar e sair.
- Uma vez que entre... não tornará a
sair.
- Não posso já duvidar, jovem - disse
Canolles. - Você é um feiticeiro!
- Surpreendê-lo-ão, será talvez morto à frente dela. Eis como tudo terminará.
- Nada disso! - opôs-se Canolles. - Há
os armários.
- Oh! - fez o visconde.
Este oh! foi pronunciado de tal forma,
com entonação tão eloqüente, continha tantas repreensões veladas, tanta vergonha pudica, tão suave delicadeza, que Canolles ficou subitamente comprometido, e apesar da escuridão cravou os seus penetrantes olhos no mancebo, que tinha o cotovelo encostado ao parapeito da janela.
O visconde sentiu todo o peso deste
olhar, e continuou, com ar alegre:
- Na realidade, senhor barão, tem
razão. Vá lá; mas oculte-se com todo o cuidado, a fim de não ser surpreendido.
- Ora, pois, não irei - disse Canolles. -
Não tenho razão, o senhor é que a tem. Mas como a informarei sobre o que se passa?
- Parece-me que uma carta... - Quem a levará?...
- Se não me engano, acompanha-o um lacaio. E, numa tal circunstância, o único risco que um lacaio corre é o de levar algumas pauladas, ao passo que um gentil-homem arrisca a vida.
- Na verdade que não sei onde tenho a
cabeça! - exclamou Canolles. - Castorin poderá desempenhar às mil maravilhas a missão, tanto mais que tenho suspeitas de que aquele tratante tem suas inteligências lá na casa.
- Bem vê que tudo se pode arranjar
assim - disse o visconde.
- Sim; tem tinta, papel e penas? - Não - respondeu o visconde. - Mas lá
em baixo há de tudo isso.
- Dê-me licença - disse Canolles. - Na
verdade, não sei o que tenho esta noite, que não faço senão asneiras sobre asneiras! Não importa. Agradeço-lhe os seus bons conselhos, senhor visconde, e vou segui-los desde já.
Sem tirar os olhos do mancebo, a quem
desde alguns momentos examinava com singular tenacidade, Canolles saiu do quarto, e desceu a escada, enquanto o visconde, inquieto e quase perturbado, dizia consigo:
"Como olha para mim!... Ter-me-á ele
reconhecido?..." Contudo, Canolles tinha descido; e depois de haver olhado um momento, como homem profundamente magoado, para as codornizes, perdizes, e outras iguarias, que Biscarros ia arrumando num cesto colocado à cabeça do seu ajudante de cozinha, iguarias que outrem que não ele ia talvez comer - apesar de, sem a mínima dúvida, lhe serem destinadas - pediu que o encaminhassem ao quarto que devia ter-lhe preparado Castorin. Para ali mandou levar tinta, penas e papel, e escreveu a Nanon a carta que se segue:
Querida senhora:
A cem passos da sua porta, se a
natureza dotou os seus belos olhos com a faculdade de ver à noite, pode distinguir, num arvoredo, o senhor duque d’Épernon, que está à minha espera, para me fazer arcabuzar e para a comprometer, depois, horrivelmente. Porém, não sinto o mínimo desejo de perder a vida, nem de fazer com que a senhora perca o seu descanso. Fique, pois, sossegada a este respeito. Quanto a mim, vou usufruir da licença que o fez assinar há dias, a fim de que me aproveitasse da minha liberdade para vir vê-la. Para onde vou, nem sequer eu sei, e até ignoro se vou para alguma parte. Aconteça, porém, o que acontecer, tome a chamar o seu fugitivo, quando a tormenta houver passado. No Bezerro de Ouro dir-lhe-ão que estrada segui. Alegro-me por saber que compreenderá o sacrifício que me imponho, mas os seus interesses são-me mais caros do que o meu prazer - pois não teria deixado de senti-lo ao desancar o senhor d’Épernon e os seus esbirros, escondidos sob o seu disfarce. Portanto, minha querida, creia que sou todo seu e que, sobretudo, lhe sou muito fiel.
Canolles assinou este bilhete, no qual
reinava toda a jactância do gascão que sabia muito bem o efeito que produziria na gascoa Nanon; depois, chamando o seu lacaio:
- Venha cá, Castorin - disse-lhe ele - e
confesse-me ingenuamente em que posição está, relativamente aos seus amores com Francineta.
- Mas, senhor... - respondeu Castorin,
muito espantado com semelhante pergunta - não sei se devo...
- Nada receie. Não tenho qualquer
intenção a respeito dela, e não terá a honra de ser meu rival. O que lhe peço não passa de uma simples informação.
- Ah! nesse caso, senhor, a coisa é muito
diferente... A menina Francineta teve inteligência bastante para apreciar as minhas boas qualidades...
- Quer dizer que está como queria,
senhor vilão ruim... Muito bem. Pegue neste bilhete, e depois dê uma volta pelo prado.
- Eu sei muito bem o caminho, senhor -
disse Castorin, com certo ar de importância.
- Bata à porta que dá para o campo.
Essa porta também não lhe deve ser desconhecida...
- Não, senhor.
- Cada vez melhor. Tome, pois, esse
caminho, vá bater a essa porta, e entregue esta carta à menina Francineta.
- Em tal caso, senhor - disse Castorin
muito satisfeito - posso...
- Pode partir imediatamente. Dou-lhe
dez minutos para ir e voltar. É preciso que esta carta seja entregue imediatamente à menina Nanon de Lartigues.
- Mas, senhor... - objetou Castorin, que
receava algum contratempo - e se não me abrirem a porta?...
- Passará por tolo, porquanto deve ter
algum modo especial de bater, mercê do qual não se deixa no campo um homem sem lhe dar entrada; se assim não acontecesse, sou um gentil-homem muito digno de lástima, por ter ao meu serviço um semelhante imbecil.
- Sei como hei-de bater, senhor - volveu Castorin, com ar triunfante. - Bato logo duas pancadas seguidas e por fim uma terceira.
- Não lhe pergunto o modo como bate:
isso é coisa que pouco me importa, contanto que lhe dêem entrada. Vá, pois; e se for surpreendido, mastigue o papel e engula-o; se assim o não fizer, mandarei cortar-lhe as orelhas, quando voltar.
Castorin partiu como um raio.
Chegando ao fundo da escada, porém, e em detrimento de todas as regras, meteu o bilhete no alto da sua bota. Depois, saiu pela porta do pátio, e, dando um largo rodeio, atravessando as moitas como uma raposa, saltando os fossos como um galgo, foi bater à porta referida, daquele modo especial que tentara explicar ao amo, e que tanta eficácia tinha, que a porta lhe foi aberta no mesmo instante.
Passados dez minutos, Castorin estava
de regresso, sem que tivesse sofrido qualquer contrariedade, e informava o amo que o bilhete fora entregue nas belas mãos da menina Nanon.
Canolles dedicara esses dez minutos a
abrir a sua mala, a preparar o roupão, e a mandar pôr a mesa. Ouviu com visível satisfação o relatório de Castorin, foi dar uma volta pela cozinha, dando em voz alta as suas ordens para a noite e bocejando desmesuradamente, como homem que espera com impaciência o momento de se deitar. Esta manobra tinha por objetivo, caso d’Épernon o mandasse espreitar, dar-lhe a saber que o barão nunca tivera intenção de passar além da estalagem, onde, como simples e inofensivo passageiro, pedira ceia e pousada; e, com efeito, este plano obteve o resultado que o barão esperava: uma espécie de camponês, que pagou a despesa feita, levantou-se, e saiu, sem afetação e cantarolando uma redondilha. Canolles seguiu-o até à porta, e viu-o encaminhar-se para a mata; dez minutos depois, ouviu os passos de cavalos que se iam afastando. A emboscada fora levantada.
O barão recolheu então ao seu quarto
com o espírito absolutamente sossegado a respeito de Nanon; tratou apenas de passar a noite do modo mais divertido possível. Em conseqüência, ordenou a Castorin que preparasse as cartas e os dados, e que, feito isso, fosse perguntar ao visconde de Cambes se queria dar-lhe a honra de receber a sua visita.
Castorin obedeceu, e encontrou no
limiar do quarto um escudeiro, velho, de cabelos brancos, o qual, segurando a porta quase fechada, respondeu ao seu cumprimento em tom desabrido:
- Isso por ora é impossível; o senhor
visconde está ocupado.
- Muito bem - disse Canolles. -
Esperarei.
E, como ouvia grande ruído do lado da
cozinha, foi ver o que se passava naquela importante parte da casa, a fim de distrair-se.
Era o pobre moço de cozinha, que
voltava mais morto do que vivo. No sítio onde o caminho fazia cotovelo, fora detido por quatro homens, que o haviam interrogado acerca da finalidade do seu passeio noturno. Ao saberem que ia levar a ceia à senhora da casa isolada, haviam-lhe tirado o barrete, a vestia branca e o avental; o mais jovem desses quatro homens revestiu-se com as mesmas insígnias, colocou o cesto à cabeça, e encaminhou-se, em lugar do moço, para a pequena casa. Passados dez minutos, estava de volta, e falava em voz baixa com o homem que parecia ser o chefe da quadrilha. Então, restituíram ao moço de cozinha a vestia, o barrete e o avental; tornaram a pôr-lhe o cesto à cabeça, e, mandando-o voltar as costas, deram-lhe um pontapé, para lhe indicar o caminho que devia seguir. O pobre diabo não quis esperar mais: partiu às carreiras, e acabou por cair meio morto de susto no limiar da porta, onde acabavam de ajudá-lo a levantar-se.
Esta aventura era totalmente
incompreensível para toda a gente, à exceção de Canolles: mas como este não tinha motivo algum para dar explicações, deixou o estalajadeiro, criados, criadas, cozinheiro, e moço de cozinha, fazerem as conjecturas que entendessem relativamente a este acontecimento, e enquanto todos disparatavam - e qual deles mais - subiu ao quarto do visconde; então, entendendo que a primeira pergunta, que dirigira por meio de Castorin, o dispensava de dar um segundo passo do mesmo gênero, abriu sem cerimônia a porta, e entrou.
Uma mesa com luzes e dois talheres
estava posta no meio do quarto, faltando apenas para completá-la os pratos que a deviam ornar. Canolles reparou nestes dois talheres, e daí tirou uma conclusão festiva.
Contudo, dando com os olhos nele, o
visconde levantou-se com um movimento tão arrebatado, que facilmente se percebia que a visita surpreendera o mancebo, e que, ao contrário do que ao entrar supusera, não fora destinado a Canolles segundo talher.
Esta suspeita foi confirmada pelas
primeiras palavras que lhe dirigiu o visconde:
- Poderei saber, senhor barão -
perguntou-lhe, adiantando-se para ele em tom de cerimônia - a que nova circunstância devo a honra da sua visita?
- A uma circunstância muito natural -
respondeu Canolles, um tanto confuso perante esta desagradável recepção. - Apertou-me a fome; julguei que também por ela se sentiria apertado. Está só, eu também: quis ter a honra de convidá-lo a cear comigo.
O visconde olhou para Canolles com
uma desconfiança visível, e pareceu experimentar algum embaraço ao responder-lhe.
- Pela minha honra! - disse Canolles a
rir - dir-se-ia que tem medo!... Será acaso cavaleiro de Malta?... Tê-lo-ão destinado ao estado eclesiástico, ou tê-lo-á a sua família educado inspirando-lhe horror aos Canolles?... Vejamos, não quero perder a sua companhia de uma hora que podemos passar juntos, cada um do seu lado da mesa.
- É-me impossível descer ao seu quarto,
senhor barão.
- Pois então, não desça ao meu quarto.
Todavia, já que subi ao seu...
- Mais impossível ainda, senhor. Espero
alguém.
Desta vez Canolles ficou embaraçado,
sem saber o que responder.
- Ah! espera alguém? - disse ele. - Sim, senhor.
- Juro-lhe... - prosseguiu Canolles,
passado um momento de silêncio - sim, juro-lhe, que quase preferia que me tivesse deixado continuar o meu caminho, expondo-me a todo e qualquer perigo que daí pudesse resultar, a vê-lo deitar a perder com tal recusa o favor que me fez, e do qual eu ainda não lhe apresentei os devidos agradecimentos.
O mancebo corou, e aproximou-se de
Canolles.
- Peço-lhe desculpa, senhor - disse ele
com voz trêmula.- Vejo qual é a minha descortesia, e por isso, se não estivessem em causa negócios sérios, negócios de família que preciso tratar com a pessoa que espero, teria muita honra, e gosto ao mesmo tempo, em admiti-lo, apesar de...
- Oh! acabe - volveu Canolles - seja o
que for que me diga, decidi não me escandalizar.
- ...Apesar de o nosso conhecimento -
continuou o jovem - ser um desses efeitos imprevistos do acaso, um desses encontros fortuitos, uma dessas relações efêmeras...
- E por que razão há-de ser assim? -
perguntou Canolles. - Pelo contrário, é assim que se firmam duradouras e sinceras amizades; para tanto, nada mais é necessário do que considerar um favor da Providência aquilo que atribui ao acaso.
- A Providência, senhor - replicou o
visconde, rindo - quer que eu parta dentro de duas horas, e que, segundo todas as probabilidades, siga uma estrada absolutamente oposta à sua; fique portanto, certo do grande desgosto que tenho por não poder aceitar, conforme eu desejaria, a amizade que tão cordialmente me oferece e cujo valor muito aprecio.
- É na realidade um rapaz muito
singular - observou Canolles - e o impulso de generosidade deu-me ao princípio uma idéia muito diferente acerca do seu caráter. Mas enfim... faça-se como deseja; decerto não tenho o direito de ser exigente, pois que estou em dívida, e que fez em meu favor muito mais do que eu poderia esperar da parte de um desconhecido. Retiro-me, pois, para cear só; mas, na realidade, senhor visconde, isto não deixa de me custar muito: o monólogo não faz parte dos meus hábitos.
E, com efeito, apesar de tudo quanto
dissera e da resolução de retirar-se, anunciada pelas suas palavras, Canolles ia-se deixando ficar; parecia que alguma coisa o havia pregado no lugar onde estava, sem que disso pudesse dar a si próprio uma razão; sentia-se atraído de um modo invencível para o visconde; mas este, pegando num castiçal, aproximou-se de Canolles, e com um sorriso amável, estendendo-lhe a mão, afirmou:
- Senhor, seja como for, e por muito
curta que tenha sido a nossa entrevista, creia que estou encantado em ter podido ser-lhe útil em alguma coisa.
Canolles viu nisto apenas o
cumprimento; pegou na mão que o visconde lhe apresentava, a qual, em vez de corresponder à varonil e amigável pressão da sua, se retirou frouxa e trêmula. Depois, compreendendo que, apesar de disfarçada com uma frase lisonjeira, a despedida que lhe fazia o mancebo não deixava por isso de ser uma despedida, retirou-se, bastante desgostoso, e sobretudo muito pensativo.
À porta, encontrou o sorriso
desdentado do velho criado, que pegou no castiçal que o visconde tinha na mão, acompanhou Canolles com toda a cerimônia até ao quarto, e tornou a subir no mesmo instante, reunindo-se ao amo, que o aguardava no alto da escada.
- Que faz ele? - perguntou o visconde
em voz baixa.
- Creio que se resolve a cear só -
respondeu Pompeu.
- Então, não tornará a subir. - Pelo menos assim o espero. - Mande aprontar os cavalos, Pompeu;
sempre se ganhará algum tempo com isto. Mas - ajuntou o visconde, aplicando o ouvido - que bulha é essa que ouço?... Dir-se-ia a voz do senhor Richon...
- E a do senhor de Canolles. - Estão altercando, segundo me parece. - Pelo contrário, reconhecem-se;
escute...
- Contanto que Richon não vá falar!... - Oh! nada há que recear, é um homem
muito circunspeto.
- Caluda...
Os dois calaram-se para escutar; e
ouviu-se a voz de Canolles:
- Dois talheres, senhor Biscarros! - gritava o barão.- Dois talheres! O senhor Richon ceia comigo.
- Não, senhor - respondeu Richon - isso
não é possível.
- Então quer cear só com aquele gentil-
homem?...
- Que gentil-homem?
- Aquele que está lá em cima. - Como se chama ele?
- O visconde de Cambes. - Pelo que vejo, conhece o visconde... - Se o conheço!... Salvou-me a vida. - Quem? Ele?!...
- Sim, ele.
- E então, como foi isso?
- Ceie comigo, e contar-lhe-ei enquanto
cearmos.
- Não posso; ceio com ele. - Com efeito, está à espera de alguém. - Espera por mim, e como estou
atrasado, permitirá que me retire, senhor barão?
- Não, com todos os diabos! Tal não permitirei! - exclamou Canolles. – Meteu-se-me na cabeça que cearia na companhia de alguém, e, portanto, ou ceia o senhor comigo, ou ceio eu consigo. Senhor Biscarros, dois talheres.
Mas enquanto Canolles se voltava para
ver se esta ordem era executada, Richon escapuliu-se pela escada e subiu rapidamente os degraus. Chegado ao último, a sua mão encontrou uma pequena mão, que o encaminhou para o quarto do visconde de Cambes, cuja porta se fechou depois de lhe dar entrada, e cujos dois ferrolhos foram corridos para maior segurança.
"Na realidade - rosnou Canolles,
buscando debalde com os olhos o desaparecido Richon, e sentando-se à sua mesa solitária - não sei que má sorte me persegue nesta maldita terra: uns correm atrás de mim como se estivesse empestado; outros fogem de mim como do Diabo!... Não sei como me sinto... perco o apetite; a tristeza apossa-se de mim. Sou capaz de me embebedar esta noite como um soldadão alemão." - Olá Castorin! venha cá, quero dar-lhe uma tunda. Mas que é isso!?... Fecham-se lá em cima como quem conspira!... Ah! Que estúpido sou, com efeito! Isto agora dá-me a explicação de tudo. Na verdade, por quem conspiram eles? Será a favor daquele coadjutor? Dos príncipes? Do Parlamento? Do rei? Da rainha? De Mazarino? Ora! Conspirem contra quem quiserem, para mim é o mesmo; já não tenho fastio. Castorin, mande servir a ceia, deite-me vinho no copo; e eu perdôo.
E Canolles atacou filosoficamente a
primeira ceia que havia sido preparada para o visconde de Cambes, e que, por falta de novas provisões, o senhor Biscarros se via obrigado a servir requentada.