A Guerra das Mulheres

Alexandre Dumas · Capítulo 3 de 5 · parte 1/2

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A Guerra das Mulheres

Capítulo IX

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 2 partes.

PRINCIPIAVA a Lua a levantar-se

quando o visconde, seguido pelo fiel Pompeu, saiu da estalagem de Biscarros, e se lançou pela estrada de Paris.

Passado um quarto de hora, totalmente

dedicado pelo visconde às suas reflexões, e durante o qual caminhou mais de uma légua, voltou-se para o escudeiro, que, montado com toda a gravidade, o seguia à distância de uns três passos. - Pompeu - perguntou o mancebo - terá por acaso a minha luva da mão direita?

- Não, senhor, que eu saiba - respondeu

Pompeu.

- Então, que busca na sua mala? - Verifico se está bem segura, e aperto-

lhe as correias, para que não tilinte. O som do ouro é fatal, senhor, e atrai os maus encontros, sobretudo de noite.

- Faz muito bem, Pompeu - replicou o

visconde - e muito me agrada ver que é tão cuidadoso e prudente.

- São estas as qualidades naturais num

velho soldado, senhor visconde, e que admiravelmente se conciliam com a coragem; contudo, como a coragem não é temeridade, confesso que sinto pena por o senhor Richon não ter podido acompanhar-nos; porque, vinte mil libras são difíceis de guardar, muito principalmente em tempos tão tempestuosos como os nossos.

- O que diz está correto, Pompeu -

respondeu o visconde - e eu sou totalmente do seu parecer.

- Eu até me atreveria a dizer -

continuou Pompeu, reconfortado no seu medo pela aprovação do visconde - que não é prudente aventurarmo-nos como fazemos. Paremos, pois, se for do vosso agrado, para que eu inspecione o meu mosquete.

- Então, Pompeu?

- Tudo está em bom estado, e aquele

que quisesse cortar-nos o passo passaria um mau quarto de hora. Óh! oh! que vejo eu lá em baixo!?...

- Onde?

- Diante de nós, a uns cem passos para

a nossa direita, nesta direção...

- Vejo qualquer coisa branca. - Oh! oh! - fez Pompeu - mochilas,

talvez. Há que acautelarmo-nos. Pela minha honra, que tenho vontade, de entrar neste valado à esquerda; em termos de guerra chama-se a isto entrincheirar. Entricheiremo-nos, senhor visconde.

- Se são mochilas, Pompeu, são levadas

por soldados do rei, e os soldados do rei não roubam viajantes.

- Desengane-se, senhor visconde,

desengane-se; muito pelo contrário, não se ouve falar senão de partidários que tomam por égide a farda de Sua Majestade para cometer milhares de infâmias, e qual delas a mais escandalosa. Ultimamente, em Bordéus, arcabuzaram dois soldados de cavalaria ligeira que...

- Parece-me que me recordo da farda

dos tais soldados de cavalaria ligeira; é azul, Pompeu, e o que nós vemos é branco.

- Sim; mas muitas vezes vestem uma

camisola por cima do uniforme, e foi o que fizeram aqueles miseráveis que ultimamente foram castigados em Bordéus. Estes, segundo me parece, tomam atitudes ameaçadoras; esta é a sua tática, como está vendo, senhor visconde. Emboscam-se assim ao lado da estrada, e, de longe, com a carabina nas mãos, obrigam o viajante a dar-lhes a bolsa.

- Mas, meu bom Pompeu - disse o

visconde, que apesar de muito assustado conservava a presença de espírito - se eles ameaçam de longe com as carabinas, faça outro tanto com a sua.

- Sim, mas eles a mim não me vêem -

disse Pompeu. - A minha demonstração seria, portanto, inútil.

- Se eles o não vêem, em tal caso não

podem ameaçá-lo - disse o visconde.

- De guerra nada entende,

absolutamente - replicou o escudeiro, de mau humor. - Vai acontecer-me aqui o mesmo que me aconteceu em Corbie.

- Há que ter esperança em que assim

não suceda, Pompeu, porque, se bem me lembro, em Corbie é que foi ferido...

- Sim, e sofri uma terrível ferida. Eu

estava com o senhor de Cambes, que era um temerário. Andávamos patrulhando de noite para reconhecer o lugar onde havia de travar-se a batalha. Descobrimos umas mochilas. Convido-o a não fazer alguma valentia inútil, ele obstina-se, e caminha direito às mochilas. Eu volto costas, despeitado. Nesse momento, uma maldita bala... Senhor visconde, sejamos prudentes.

- Sejamos prudentes, Pompeu, não

pretendo outra coisa. Contudo, parecem-me tão imóveis!...

- Estão varejando a presa. Esperemos.

Os viajantes - o que foi uma felicidade

para eles - não tiveram de esperar muito tempo. Passado um instante, o luar rompeu através de uma nuvem negra, cujas franjas prateava, e alumiou esplendidamente, a uns cinqüenta passos dos dois companheiros, duas ou três camisas que estavam a enxugar por detrás de um valado, com as mangas estendidas.

Eram estas as mochilas que haviam

recordado a Pompeu a sua fatal patrulha de Corbie.

O visconde soltou uma gargalhada,

esporeou o cavalo, e Pompeu seguiu-o, exclamando:

- Que felicidade não ter cedido à minha

primeira inspiração!

- Estava para dar um tiro para esse

lado, e portar-me-ia como Dom Quixote. Veja, senhor visconde, de que servem a prudência e a experiência da guerra!

Depois de grandes comoções, sempre

há algum tempo de repouso; passando além das camisas, os viajantes caminharam tranqüilamente. Percorridas umas duas léguas já o tempo era magnífico; a sombra caía larga e negra como o ébano, ao longo de um bosque que guarnecia um dos lados do caminho.

- Decididamente, não me agrada nada o

luar - disse Pompeu. - Quando nos avistam de longe, corremos o risco de sermos colhidos de súbito. Sempre ouvi dizer aos militares que quando dois homens mutuamente se buscam, o lugar só é favorável a um. Nós achamo-nos em plena luz, senhor visconde, o que é uma imprudência.

- Ora, então passemos para a sombra,

Pompeu.

- Sim; mas se houvesse alguns homens

emboscados na extremidade deste bosque, iríamos literalmente lançar-nos na goela. Em campanha, ninguém se aproxima de um bosque sem que primeiro o tenha mandado reconhecer.

- Desgraçadamente - replicou o visconde - estamos falhos de exploradores. Não é este o nome que se dá aos que vão bater o mato, meu bravo Pompeu?

- É verdade, é verdade - rosnou o

escudeiro. - Aquele maldito Richon, porque não havia de vir conosco? Tê-lo-íamos mandado adiante como vanguarda, enquanto nós teríamos formado o corpo de exército.

- Então, Pompeu, a que nos decidimos

nós? Deixamo-nos ficar ao luar, ou passamos para a sombra?

- Passemos para a sombra, senhor

visconde; no meu entender, é o que me parece mais prudente.

- Pois sim, passemos.

- Não é verdade que sente medo,

senhor visconde?

- Não, decerto, meu querido Pompeu;

juro-lhe que não.

- E faz muito bem em não o ter, pois eu

estou aqui e não durmo. Se eu estivesse só, como bem o compreende, isto pouco cuidado me daria. Um soldado não teme nem os santos nem os diabos. O senhor, porém, é um companheiro tão difícil de guardar como o tesouro que vai na garupa, e esta duplicada responsabilidade assusta-me. Ah!... que sombra negra é aquela que descubro lá em baixo!... Desta vez não há dúvida que ela marcha!

- É mais do que certo - disse o visconde. - Cá está a vantagem que há na

escuridão: vemos o inimigo sem que ele nos veja. Não lhe parece que aquele desgraçado tem uma espingarda!...

- Sim. Mas aquele homem, Pompeu,

está só, e nós somos dois.

- Senhor visconde, os homens que

viajam sós são mais de temer, porque a solidão é um índice dos caracteres resolutos. O famoso barão des Antres andava sempre só... Ei-lo, se me não engano, que faz pontaria para nós... Está pronto a descarregar: abaixe-se!

- Mas não, Pompeu: nada mais faz do

que mudar a espingarda de um ombro para o outro.

- Não importa, abaixemo-nos,

abaixemo-nos, esta é a prática constante; recebamos o tiro com o nariz sobre o arção.

- Mas pode ver perfeitamente, Pompeu,

que ele não atira.

-Não atira!... - disse o escudeiro,

empertigando-se. - Bom! Teve sem dúvida medo, e o nosso aspecto resoluto tê-lo-á intimidado. Ah! tem medo... Então, deixe-me falar-lhe; e o senhor falará depois de mim, engrossando a voz. A sombra vinha sempre adiantando-se.

- Olá, amigo! Quem sois? - gritou

Pompeu.

A sombra parou, fazendo um

movimento de terror muito visível.

- Grite também - acrescentou Pompeu. - É tempo perdido - disse o visconde. -

O pobre diabo já está meio morto de medo.

- Ah! tem medo?...- disse Pompeu,

arremessando-se a ele com a carabina em punho.

- Tenha compaixão de mim, senhor! -

implorou o homem, pondo-se de joelhos. - Sou um pobre mercador ambulante que de oito dias a esta parte não vendeu um só lenço, e que nem um soldo sequer trago comigo.

O que Pompeu tomara por espingarda

era a vara com que o pobre diabo media as fazendas.

- Fica sabendo, meu amigo - disse

majestosamente Pompeu - que não somos ladrões, mas sim militares, que viajamos de noite porque nada receamos; segue, pois, o teu caminho: estás livre.

- Toma, amigo - ajuntou a voz mais

meiga do visconde. - Aqui tens cinco libras pelo medo que te metemos; e que Deus te acompanhe!

E o visconde, com a sua branca

mãozinha, deu cinco libras ao pobre diabo, que se afastou dando graças ao Céu pelo feliz encontro que tivera.

- Não procedeu bem, senhor visconde; antes muito mal...- disse Pompeu, depois de terem andado uns vinte passos.

- Então porquê? Em que fiz mal? - Em dar cinco libras àquele homem. De

noite nunca devemos confessar que temos dinheiro; não vê que o primeiro grito deste poltrão foi dizer que não tinha um soldo na algibeira?

- É verdade - refletiu o visconde,

sorrindo-se. - Mas era um poltrão, como o diz, enquanto nós, como disse, somos militares que nada tememos.

- Entre ter medo e ter desconfiança,

senhor visconde, há tanta distância como do medo à prudência. Assim, não é prudente, repito-o, deixar perceber a um desconhecido que por acaso encontramos na estrada, que possuímos o ouro.

- Mesmo quando esse desconhecido

está só e desarmado?...

- Pode pertencer a uma quadrilha

armada, pode não ser mais do que um espião mandado adiante para reconhecer o terreno; pode voltar com gente armada; e que quer que façam dois homens sós por muito bravos que sejam, contra tantos?...

O visconde reconheceu desta vez a

razão para a admoestação que Pompeu lhe dava - ou antes: para pôr termo à discussão, deu-se por convencido. E chegaram às margens do riacho de Saye, próximo a Saint-Genés.

Não havia ponte, e havia que passar a

vau. Pompeu apresentou então ao visconde uma sábia teoria da passagem dos rios; mas como uma teoria não é uma ponte, nem por isso, depois de ouvida a teoria, lhes foi menos preciso passar a vau. Por felicidade, o riacho não era profundo, e este novo incidente deu uma nova prova ao visconde de que as coisas, vistas de longe, e sobretudo de noite, são muito mais medonhas do que vistas de perto.

Principiava pois o visconde a sossegar-

se realmente - e além disso dentro de uma hora, com pouca diferença, raiaria o dia - quando, chegados ao meio do bosque que rodeia Marsas, os dois viajantes pararam repentinamente; com efeito, acabavam de ouvir ao longe e atrás de si, mas distintamente, o galopar de cavalos. Ao mesmo tempo, os cavalos em que iam montados ergueram a cabeça e um deles relinchou.

- Desta vez - disse Pompeu com voz

sufocada, lançando mão à rédea do cavalo do companheiro - senhor visconde, espero que se mostrará dócil e que deixará o acontecimento à experiência de um soldado velho. Ouço um bando de gente a cavalo: perseguem-nos! Apostaria em que é a quadrilha do falso mercador; eu bem lhe havia dito, e a sua imprudência é que nos põe em perigo! Vamos, nada de falsas bravuras! Salvemos a vida e o dinheiro; a fuga é muitas vezes um meio de vencer. Horácio, o grande Horácio, fingiu que fugia...

- Ora, pois, fujamos, Pompeu - disse o

visconde, todo trêmulo.

Pompeu meteu esporas ao cavalo; a sua

montada, um excelente cavalo russo ruão, deu um pulo ao sentir-se picado, e com tal zelo o fez, que inflamou o ardor do cavalo barbo do visconde, e ambos, à porfia, fizeram retumbar a calçada com os golpes compassados das ferraduras, de onde saíam milhares de centelhas.

Esta correria durou cerca de uma hora;

mas, longe de ganharem terreno, parecia aos dois fugitivos que os inimigos se iam aproximando.

De súbito, rebentou uma voz do meio

das trevas, voz que, misturada com o sibilo produzido pelo vento que os dois cavaleiros iam fendendo, parecia a lúgubre ameaça dos espíritos da noite.

Esta voz fez eriçar os cabelos brancos

na cabeça de Pompeu.

- Eles gritam: parai! - disse este em voz

baixa. - Eles gritam: parai!

- Então, será preciso parar?... -

perguntou o visconde.

- Muito pelo contrário! - exclamou

Pompeu - apressemos o passo quanto for possível! Adiante! Adiante!

- Sim, sim, adiante! adiante - exclamava

o visconde, tão assustado agora como o seu defensor.

- Eles adiantam-se! Ganham terreno! -

dizia Pompeu; - não os ouve?...

- Ai! sim...

- São mais de trinta! Escute: eles ainda

nos chamam... Estamos perdidos!

- Rebentemos os cavalos, se for preciso!

- disse o visconde, mais morto do que vivo.

- Visconde! Visconde! - bradava a voz.-

Pare! Pára, velho patife!

- É alguém que nos conhece, é alguém

que sabe que levamos o dinheiro da princesa, é alguém que sabe que nós conspiramos: Vão rodar-nos vivos!

- Parai! parai! - continuava a voz. - Gritam que nos façam parar - disse

Pompeu. - Têm gente adiante de nós! Estamos cercados!

- E se tomássemos por este lado, neste

campo, e deixássemos passar os que nos perseguem?...

- É uma boa idéia - disse Pompeu. -

Vamos já, sem mais demora.

Os dois cavaleiros fizeram ao mesmo

tempo voltar as cavalgaduras para a esquerda; o cavalo do visconde, habilmente conduzido, saltou o valado; mas o cavalo de Pompeu, menos destro, chegou-se demasiado à borda, a terra esboroou-se-lhe debaixo dos pés, e caiu, arrastando na queda o cavaleiro. O pobre escudeiro deu um grito de profundo desespero.

O visconde, que já tinha andado uns

cinqüenta passos pelas terras, ouviu este grito de angústia, e, apesar de sumamente assustado, fez voltar o cavalo e foi ter com o companheiro.

- Quem me acode! Misericórdia! -

gritava Pompeu. - Eu pago o meu resgate! Rendo-me! Pertenço à Casa de Cambes!

Uma enorme gargalhada foi a única resposta a estes lamentos; e o visconde, chegando neste momento, deu com os olhos em Pompeu que abraçava o estribo do vencedor, o qual, falando-lhe com uma voz sufocada pelo riso, fazia diligência para o sossegar.

- Senhor barão de Canolles! - exclamou

o visconde.

- Ora, isto não são coisas que se façam,

senhor visconde! Obrigar as pessoas que o procuram a correr deste modo!...

- O senhor barão de Canolles! - disse

Pompeu, que ainda duvidava da sua fortuna. - O senhor barão de Canolles e o senhor de Castorin!...

- Sim, somos nós, senhor Pompeu -

disse Castorin, empertigando-se nos estribos para ver por cima do ombro do amo, que, não podendo deixar de rir, se debruçava sobre o arção da cela. - Então que faz neste valado?

- Está bem de crer - disse Pompeu. - O

cavalo caiu no momento em que, tomando-os por inimigos, tratava de me entrincheirar para fazer uma vigorosa defesa. Senhor visconde - continuou Pompeu, levantando-se e sacudindo-se - é o senhor de Canolles.

- Quê, senhor!? Por aqui?! - rosnou o

visconde, com uma certa alegria que, involuntariamente transparecia na entoação da sua voz.

- Por certo que sou eu! Sim, eu mesmo -

respondeu Canolles, cravando os olhos no visconde com uma tenacidade a que o achado da luva servia de explicação. - Morria de aborrecimento naquela estalagem; Richon havia-se apartado de mim depois de me haver ganho o meu dinheiro. Soube que tinha partido e que seguia a estrada de Paris. Quis a fortuna que eu também tivesse que fazer para estes lados. Pus-me então a caminho para juntar-me a si, pois não suspeitava que, para alcançá-lo, me fosse preciso correr à desfilada. É na realidade, meu gentil-homem, um exímio cavaleiro!

O visconde sorriu-se, balbuciando

algumas palavras.

- Castorin - continuou Canolles - ajude,

pois, o senhor Pompeu a montar de novo; muito bem vê que, apesar de toda a sua destreza, não o pode fazer.

Castorin apeou-se e foi ajudar Pompeu,

que, por fim, conseguiu sentar-se na sela.

- E agora - disse o visconde - tornemos,

se lhe aprouver, a seguir o nosso caminho.

- Mais um instante - pediu Pompeu,

bastante perturbado - mais um instante, senhor visconde... parece-me que me falta alguma coisa...

- Bem o creio - disse o visconde. - Falta-

lhe a mala.

- Ai! Meu Deus - queixou-se Pompeu,

fingindo um profundo espanto.

- Desgraçado! - exclamou o visconde. -

Será que perdeu...! ?

- Não pode estar longe, senhor... -

respondeu Pompeu.

- Não será isto?... - perguntou Castorin,

levantando a custo do chão o objeto que buscavam.

- Justamente - disse o visconde. - Justamente! - exclamou Pompeu. - Não foi culpa dele - disse Canolles,

que desejava granjear a amizade e o afeto do velho escudeiro. - Com a queda, rebentaram as correias e desprendeu-se a mala...

- As correias não estão rebentadas,

senhor, mas cortadas - disse Castorin. - Olhe...

- Oh! oh! senhor Pompeu - disse

Canolles - que quer isto dizer?...

- Isto quer dizer - replicou com

severidade o visconde - que, receando ser perseguido por ladrões, o senhor Pompeu terá tido a resolução de cortar as correias da mala, para se livrar da responsabilidade de ser o tesoureiro dela. Em termos de guerra, que nome se dá a este ardil, senhor Pompeu.

Pompeu quis desculpar-se, referindo-se

à faca de mato que "imprudentemente desembainhara"; como, porém, não pudesse dar uma explicação cabal, sempre ficou manchado, aos olhos do visconde, da suspeita de haver querido sacrificar a mala à sua segurança.

Canolles foi mais benigno para com ele. - Bom! bom! bom! - disse ele - não é

esta a primeira vez que tal acontece. Vamos, Castorin, ajude o senhor Pompeu. Tinha razão, amigo Pompeu, de recear os ladrões: a sacola tem o seu peso, e seria boa presa...

- Não graceje, senhor - volveu Pompeu,

estremecendo. - Todo o gracejo noturno é equívoco.

- Tem razão, Pompeu, e mais do que

razão; e por isso - continuou Canolles - quero servir-lhes de escolta, a si e ao visconde: o reforço de dois homens não deixará de lhe ser útil.

- Sem dúvida que o será! - exclamou

Pompeu. - O número sempre dá segurança.

- E o senhor Visconde, que pensa do

meu oferecimento? - interrogou Canolles, vendo que o visconde aceitava com menos entusiasmo do que o seu escudeiro a oferta graciosa que lhe era feita.

- Eu, senhor - disse o visconde -

reconheço a sua urbanidade habitual, e agradeço-lhe muito sinceramente; porém, não seguimos o mesmo caminho, e eu recearia incomodá-lo...

- Como! - estranhou Canolles,

desgostoso de ver que a luta da estalagem ia recomeçar na estrada real - pois não seguimos nós o mesmo caminho?!... Não vai a...?

- A Chantilly - apressou-se Pompeu a

dizer, todo trêmulo com a idéia de continuar a viagem sem mais companhia do que a do visconde.

Quanto a este, fez um gesto de

impaciência muito visível, e se fosse dia, fácil seria de ver um rubor da cólera assomar-lhe às faces.

- Ah! - exclamou Canolles, sem dar

mostras de ter notado o olhar furibundo com que o visconde fulminava o pobre Pompeu.- Ah! Chantilly fica-me justamente no caminho que sigo. Eu vou a Paris, sim... ou para melhor dizer... - ajuntou, a rir. - Olhe, visconde, eu nada tenho que fazer, e não sei aonde vou. Se vai para Paris, eu vou para Paris; se vai para Lião, eu vou para Lião; se vai para Marselha, há já muito tempo que tenho grande desejo de ver a Provença, e vou para Marselha. Se vai para Stenay, onde estão os exércitos de Sua Majestade, vamos para Stenay. Sem embargo de haver nascido no Midi, não deixo de ter uma certa predileção pelo Norte.

- Senhor - replicou o visconde, com

uma certa firmeza, que sem dúvida era devida à irritação em que o pusera Pompeu - será preciso dizer-lho? Eu viajo sem companhia, por negócios pessoais da mais alta importância, por motivos muito sérios, e de antemão lhe peço perdão: se insistir, obrigar-me-á, como muito pesar meu. a dizer-lhe que me incomoda nos passos que tenho que dar.

Nada menos era preciso do que a

lembrança da luvinha que Canolles conservava oculta sobre o seu peito, entre o vestido e a camisa, para que o barão, vivo e impetuoso como um gascão, lhe não dissesse alguma graça. Contudo, pôde conter-se.

- Senhor - replicou ele seriamente -

nunca ouvi dizer que a estrada real pertencesse mais particularmente a uma pessoa do que a outra. Por isso lhe dão o nome de real, para provar que todos os súbditos de Sua Majestade têm igual direito a se servirem dela. Estou, pois, na estrada real, sem a mínima intenção de incomodá-lo: até nela me encontro para o ajudar, visto que é moço, fraco, e sem grande defesa. Eu julgava não ter ares de salteador de estrada. Mas já que a sua posição é essa, convirei em que não tenho boa cara. Perdoe-me, pois, senhor, a minha intromissão. Tenho a honra de lhe apresentar os meus cumprimentos. Boa viagem.

E Canolles, fazendo dar um ligeiro

salto ao cavalo, passou, depois de haver saudado o visconde, para o outro lado da estrada, por onde Castorin o seguiu de fato, e Pompeu de intenção.

Canolles representou esta cena com

tanta elegância, com um gesto tão sedutor, cobrindo com o seu largo chapéu uma espaçosa testa e uns finíssimos cabelos pretos, que o visconde não se sentiu tão comovido pelo modo com que o tratou, como pelo seu porte nobre e alta estatura; tinha-se ele afastado, como dissemos. Castorin seguia-o, direito e firme nos estribos. Pompeu, que ficara do outro lado do caminho, dava suspiros capazes de arrancar lágrimas às pedras; então, o visconde, que havia feito numerosas reflexões, apressou o passo do seu cavalo, e, pondo-se a par de Canolles, que não dava mostras de o ver, nem de o ouvir dirigir-lhe estas duas palavras com uma voz apenas inteligível:

- Senhor de Canolles...

Canolles voltou-se, sobressaltado; não

cabendo em si de contentamento, parecia-lhe que todas as músicas das esferas celestes se reuniam para lhe oferecer um divino concerto.

- Senhor visconde... - disse ele, por seu

turno.

- Escute, senhor - respondeu este, com

voz doce e branda. - Receio, na verdade, ser descortês para com um gentil-homem com o seu merecimento; perdoe-me, portanto, a minha timidez. Recebi uma educação tímida, devido aos desvelos com que os meus pais me trataram; eu repito-lhe, perdoe-me, pois nunca tive a mínima intenção de o escandalizar; e como prova da nossa sincera reconciliação, permita-me que siga a seu lado.

- Então, porque não!... - exclamou

Canolles. - Não uma só, mas cem vezes lho concederia! Não conservo rancor algum, senhor visconde; e para provar-lho...

E, dizendo isto, estendeu a mão, na

qual se apoiou, ou antes escorregou, uma fina, ligeira e furtiva mão.

O resto da noite passou-se em práticas

galhofeiras por parte do barão. O visconde escutava sempre, e ria-se algumas vezes.

Os dois criados seguiam atrás deles;

Pompeu explicava a Castorin como fora perdida a batalha de Corbie, quando poderia ter sido completamente ganha, caso se não tivessem esquecido de chamá-lo ao conselho que tivera lugar pela manhã.

- Afinal - disse o visconde a Canolles,

quando principiou a raiar o dia - como terminou o seu assunto com o senhor duque d’Épernon?

- Não foi muito difícil - respondeu

Canolles. - À vista do que me disse, senhor visconde, era ele quem tinha de deslindar algo comigo, e não eu com ele; ou se cansou de esperar, e retirou-se, ou terá teimado, e ainda estará à espera...

- E a menina de Lartigues?... - adiantou

o visconde, com uma ligeira hesitação.

- A menina de Lartigues, senhor

visconde, não pode estar ao mesmo tempo em casa com o senhor d’Épernon, e no Bezerro de Ouro comigo. Das mulheres nunca se deve exigir o que não é possível.

- Isso não responde à minha pergunta,

senhor barão. O que lhe pergunto é como, estando tão enamorado da menina de Lartigues, pode separar-se dela...

Canolles cravou no visconde os seus

olhos perspicazes, porque já era dia claro, e no rosto do mancebo não havia qualquer outra sombra além da proporcionada pelo chapéu.

Sentiu-se então dominado por um

louco desejo de responder o que lhe vinha à cabeça; mas Pompeu, Castorin, e o ar grave do visconde, contiveram-no. Além de tudo isto, era pressionado por uma dúvida em que estava.

"Se me enganasse - disse intimamente. -

Se, apesar desta luvinha e desta pequena mão, fosse homem; na verdade, nada mais seria preciso para me sentir esmagado pela minha simplicidade!"

Resolveu, pois, ser paciente, e

respondeu à pergunta do visconde com um daqueles sorrisos que a tudo dão resposta.

Pararam em Barbezieux para almoçar e

descansar os cavalos. Desta vez, Canolles, almoçou com o visconde, e teve então ocasião de admirar aquela mão, cujo envoltório almiscarado lhe causara uma tão viva comoção. Além de que, o visconde, no momento de se sentar à mesa, teve de tirar o chapéu, e deixou ver uns cabelos tão lisos, tão belos, e tão soberbamente dispostos numa pele tão fina, que outro qualquer que não fosse um homem enamorado, e, por conseguinte, já cego, não teria depois disso conservado a menor incerteza. Canolles, porém, tinha demasiado receio de despertar e de ficar desenganado, e por isso nada desejava tanto como prolongar a duração do seu sonho. Achava alguma coisa de encantador naquele disfarce do visconde, que lhe permitia um rol de familiaridadezinhas - que um desmascaramento ou uma confissão franca lhe teriam vedado. Não disse, porém, uma só palavra que pudesse levantar suspeitas no visconde de que havia penetrado o seu disfarce.

Depois do almoço, puseram-se de novo

a caminho, e não pararam senão ao jantar. De vez em quando, o cansaço, que principiava a não poder já dissimular, espalhava no rosto do visconde uma cor afogueada, ou em todo o corpo uns leves estremecimentos, cuja causa Canolles lhe perguntava amigavelmente qual era. Então, o senhor de Cambes sorria, parecia já não se sentir incomodado, e até propunha que se apressasse o passo, o que Canolles recusava, dizendo que ainda tinham muito para percorrer e que, por conseguinte, era conveniente poupar os cavalos.

Depois do jantar, o visconde

experimentou alguma dificuldade em levantar-se. Canolles acudiu logo em seu socorro.

- Precisa de descanso, meu jovem

amigo - disse-lhe ele. - Se assim continuasse a caminhar, morreria ao terceiro dia de jornada. Esta noite não montaremos a cavalo; antes pelo contrário, deitar-nos-emos. Quero que durma bem, e São Pedro me leve, se o melhor quarto da estalagem não for para si!

O visconde olhou para Pompeu com

um ar tão assustado, que Canolles não pôde reprimir a sua vontade de rir.

- Quando se empreende, como nós

fazemos, uma larga viagem - disse Pompeu - deveria cada um ter a sua tenda.

- Ou uma tenda para dois - disse

Canolles muito naturalmente. - Seria o bastante.

O visconde sentiu arrepiar-se-lhe todo

o corpo.

O golpe estava dado, e Canolles não

deixou de se aperceber. Viu que o visconde fazia um sinal a Pompeu, olhando para ele sorrateiramente. Este aproximou-se então do amo, que lhe disse algumas palavras em voz baixa, e em breve o criado, sob um suposto pretexto, tomou a dianteira e desapareceu.

Hora e meia depois desta partida, de que Canolles não pediu explicações, os viajantes entraram numa grande vila, e deram com os olhos no escudeiro, ao limiar da porta de uma estalagem com boa aparência.

- Ah! ah! - disse ele - parece que é aqui

que passaremos a noite, senhor visconde...

- Sem dúvida alguma, senhor barão, se

for do seu agrado.

- E porque não há de ser?... Eu quero

tudo quanto o senhor quiser. Já lhe disse, viajo por passatempo, enquanto o senhor, como mo disse, viaja por motivo dos seus negócios. A única coisa que receio é que fique mal alojado neste cubículo...

- Oh! - disse o visconde - uma noite

depressa passa.

Pararam então, e, mais pronto do que

Canolles, Pompeu veio às carreiras segurar no estribo do amo: pelo que Canolles refletiu que uma tal pressa seria ridícula da parte de um homem para com outro homem.

- Vamos sem mais demora para o

meu quarto - disse o visconde. - Realmente, tem muita razão, senhor de Canolles - continuou ele, virando-se para o companheiro. - Sinto-me sumamente fatigado.

- Aqui está - disse a estalajadeira,

mostrando um grande quarto térreo, com janela para o pátio; todas as janelas tinham grades e, por cima, estavam os celeiros da casa.

- E o meu - perguntou Canolles - onde

fica?

E lançava, ansioso, os olhos a uma

porta contígua à do visconde, cujo delgado repartimento de tabique era resguardo demasiado frágil contra uma curiosidade tão aguçada como a sua.

- O seu? -perguntou a estalajadeira. -

Venha por aqui, senhor, eu conduzo-o.

E, com efeito, sem reparar no desgosto

de Canolles, conduziu-o até à extremidade de um corredor exterior, todo cheio de portas, e separado do quarto do visconde por toda a largura do pátio.

O visconde havia observado esta

manobra do limiar da sua porta.

"Agora - disse Canolles - não tenho já

dúvida alguma; estou absolutamente desenganado; tenho-me conduzido como um tolo! Vamos, vamos... se eu fizesse má cara seria malograr para sempre o negócio. Afetemos, pelo contrário, muita indiferença e afabilidade."

E, voltando para aquela espécie de

varanda que formava, como já o dissemos, o corredor exterior da casa:

- Boas-noites, querido visconde! -

gritou-lhe ele.- Durma bem, pois na realidade bem precisa; quer que o acorde amanhã? Não?... Ora, pois, acordar-me-á então à hora que quiser. Boas-noites!

- Boas-noites, barão - volveu o

visconde.

- A propósito - continuou Canolles. -

Não lhe falta nada? Quer que deixe ficar Castorin consigo, para o ajudar a despir?

- Muito obrigado, cá tenho Pompeu;

fica no quarto contíguo ao meu.

- Boa precaução; vou fazer outro tanto

com Castorin. Não é verdade, Pompeu, que é uma medida de prudência?... Não se pode deixar de tomar demasiadas precauções numa estalagem... Boas-noites, visconde!

O visconde correspondeu-lhe

desejando-lhe outro tanto, e a porta fechou-se de novo.

"Muito bem, muito bem, visconde -

ruminou Canolles lá consigo - amanhã toca-me a mim preparar os alojamentos, e terei a minha desforra... Ah!... - continuou ele - como corre as duas cortinas!... E estende um lençol dobrado por diante até interceptar a sombra... Com todos os diabos! Que rapaz tão pudico é aquele gentil-homenzinho!... Mas não importa: amanhã nos veremos..."

E Canolles recolheu-se, resmungando,

despiu-se de mau humor meteu-se na cama zangado, e sonhou que Nanon descobria na sua algibeira a luva almiscarada do visconde.

XI

O outro dia, Canolles estava de humor

ainda mais risonho do que na véspera. O visconde de Cambes, por seu turno, entregava-se também a uma alegria mais franca. O próprio Pompeu galhofava fazendo a narrativa das suas campanhas a Castorin. Toda a manhã se passou em gracejos de uma e outra parte.

No almoço, Canolles pediu ao visconde

que não levasse a mal que dele se afastasse, visto que tinha - segundo dizia - de escrever uma extensa carta a um dos seus amigos, que residia naquelas redondezas; e, além disso, preveniu-o de que teria que fazer uma visita a outro amigo seu, cuja casa devia estar situada a três ou quatro léguas de Poitiers, quase junto à estrada real. Canolles informou-se sobre este amigo, cujo nome disse ao estalajadeiro, e este respondeu-lhe que antes de chegar à aldeia de Jaulnay encontraria a casa daquele amigo, e poderia reconhecê-la pelas suas duas torrezinhas. Então, como Castorin tinha de separar-se do pequeno grupo para levar a carta, e como Canolles em pessoa tinha também que fazer uma pequena digressão, pediu de antemão ao visconde que se dignasse designar o sítio onde pernoitariam; o visconde lançou os olhos a um mapazinho que Pompeu levava num estojo, e propôs a aldeia de Jaulnay. Canolles não lhe fez a mínima objeção; levou a perfídia ao ponto de dizer em voz alta: "Pompeu, se o enviarem, como ontem, na qualidade de aposentador, reserve para mim, se for possível, um quarto que fique contíguo ao do seu amo, para podermos conversar."

O sonso do escudeiro lançou uma vista

de olhos ao visconde, que correspondeu, e sorriu-se, firmemente decidido a nada fazer do que Canolles lhe dizia. Quanto a Castorin, que antecipadamente recebera as suas ordens, tomou conta da carta, e foi instituído para se lhes reunir em Jaulnay.

Quanto a enganar-se na estalagem, não

havia perigo algum, porquanto em Jaulnay havia somente uma, a do Grande Carlos Martel.

Meteram-se à estrada de Poitiers, onde

tinham jantado; Castorin tomou um caminho à direita; foram caminhando ainda umas duas horas; Canolles reconheceu, pelos indícios que lhe tinham dado, a casa do seu amigo; mostrou-a ao visconde, despediu-se dele, renovou a Pompeu o convite que lhe fizera de se ocupar do seu alojamento e tomou o caminho à esquerda.

O visconde estava completamente

sossegado: a cena da véspera passara sem contestação, e vira escoar-se o dia sem a mais ligeira alusão; já não receava, pois, da parte de Canolles, o menor obstáculo às suas vontades; e desde o momento em que o barão não era para ele mais do que um simples companheiro de viagem, bom, folgazão e espirituoso, dava-se por muito satisfeito se acabasse a viagem em sua companhia. Resultando disto, ou porque o visconde julgasse que era uma precaução inútil, ou porque não quisesse separar-se do seu escudeiro e ficar só na estrada, Pompeu não foi mandado adiante.

Chegaram à aldeia ao anoitecer; chovia

a cântaros. Quis a sorte que se arranjasse um quarto com bom lume. O visconde, que tinha pressa de mudar de roupa, ficou com o aposento, e recomendou a Pompeu que fosse tratar do alojamento de Canolles.

- Já está feito - disse o egoísta Pompeu,

que ardia em desejos de se ir deitar. - A estalajadeira prometeu que isso ficava a seu cargo.

- Muito bem. O meu cofre de viagem? - Ei-lo aqui.

- Os meus frasquinhos?

- Ei-los.

- Obrigado. Onde dorme, Pompeu? - Lá no fundo do corredor. - E se precisar de chamar por alguém? - Está aqui uma campainha: a estalajadeira virá ter consigo.

- Chega. Esta porta fecha bem? - O senhor pode verificar. - Não tem ferrolho...

- Não, mas tem uma fechadura. - Bom. Fechar-me-ei por dentro. Há

aqui alguma outra entrada?

- Nenhuma outra, que eu saiba. E Pompeu pegou no castiçal, e deu

volta pelo quarto.

- Veja se os guarda-ventos são

sólidos.

- Tudo está em boa ordem. - Muito bem. Pode retirar-se,

Pompeu.

Pompeu saiu, e o visconde deu uma

volta à chave.

Passada uma hora, Castorin, que fora o

primeiro a chegar à estalagem, e que estava alojado ao pé de Pompeu, sem que este disso tivesse a mínima suspeita, saiu do seu quarto pé ante pé, e foi abrir a porta a Canolles.

Com o coração palpitante, Canolles introduziu-se na estalagem, deixando a Castorin o cuidado de tornar a fechar a porta; perguntou onde ficava o quarto do visconde, e subiu.

O visconde estava para se meter na

cama, quando ouviu passos no corredor. Ora, como já tivemos ocasião de observar, o visconde era sumamente medroso. Esses passos fizeram-no estremecer, e aplicou o ouvido muito atentamente.

Os passos pararam junto à porta, e,

passado um segundo, sentiu bater.

- Quem está aí!? - perguntou numa voz

tão assustada, que Canolles não teria reconhecido o respectivo timbre se por diferentes vezes não houvesse já tido ocasião de lhe estudar as suas variações.

- Sou eu! - disse Canolles. - Como assim!? O senhor? - replicou o

visconde, passando do susto ao espanto.

- Sim. Calcule, visconde, que já não há

lugar vago na nossa estalagem, nem sequer um quarto disponível. O seu mal-avisado Pompeu não se lembrou de mim! Não há nenhuma outra estalagem na aldeia; e como o seu quarto tem duas camas.

O visconde lançou com terror os olhos

para as duas camas gêmeas colocadas ao lado uma da outra na alcova, e sem outra separação além de uma mesinha.

- Ser-lhe-á fácil compreender -

continuou Canolles - que venha reclamar uma delas; abra-me, depressa a porta, rogo-lhe, pois estou morrendo de frio.

Ouviu-se um grande desarranjo de

móveis, uma roçadura de vestes e passos precipitados.

- Sim, sim, barão - disse cada vez mais

assustada, a voz do visconde. - Sim, eu já lá vou, não tarda nada.

- Fico à espera. Mas, por especial favor,

caro amigo, apresse-se, senão quer achar-me gelado!

- Desculpe-me; não vê que estava

dormindo?...

- Ora essa! A mim parecia-me que tinha luz...

- Não, está enganado.

E a luz apagou-se no mesmo instante,

fato de que Canolles se não queixou.

- Eis-me aqui... Não dou com a porta.. -

continuou o visconde.

- Bem me parece - disse Canolles. -

Estou ouvindo a sua voz lá na outra extremidade do quarto... Venha, pois, para este lado.

- Ah! ando em busca da campainha

para chamar Pompeu...

- Pompeu está lá no fundo do corredor,

e não o ouvirá. Quis acordá-lo para dele saber alguma coisa, mas nada de novo. Dorme como um surdo!

- Então vou chamar a estalajadeira. - Seria tempo perdido! A estalajadeira

deu a respectiva cama a um viajante, e foi dormir no celeiro. Além disso, para que é preciso chamar gente? Eu não preciso de pessoa alguma.

- Mas eu?...

- Abra-me a porta: eu agradeço-lhe,

procuro a minha cama às apalpadelas, deito-me nela, e pronto.

- Mas enfim - disse o visconde,

desesperado - deve haver outros quartos... embora não haja neles camas.. É impossível não haver outros quartos! Chamemos, busquemos...

- Mas, querido visconde, acabam de dar

dez horas e meia. Vai acordar a estalagem toda; julgarão que pegou fogo na casa. Isto dará lugar a que se não durma toda a noite, o que seria um aborrecimento, porque estou morrendo de sono.

Estas palavras pareceram dar alguma

esperança ao visconde. Uns passinhos aproximaram-se da porta, que por fim se abriu.

Canolles entrou, e fechou a porta sobre

si. O visconde, depois de lha abrir, havia-se afastado apressadamente.

O barão achou-se então num quarto

quase às escuras, porque as últimas réstias do luar, que ia desaparecendo, apenas davam um clarão insuficiente. A atmosfera estava tépida e perfumada de todos aqueles cheiros denunciadores do maior requinte em objetos de luxo.

- Ah! muito obrigado, visconde - disse

Canolles - pois na realidade aqui está-se melhor do que no corredor.

- Tem vontade de dormir, barão? -

perguntou o visconde.

- Olá, se tenho! Diga-me onde está a

minha cama, visto que conhece os cantos do quarto, ou então deixe-me acender de novo a vela.

- Não! Não! Isso é inútil! - disse com

viveza o visconde. - A sua cama é aqui, à esquerda.

Como a esquerda do visconde era a

direita do barão, este encaminhou-se para a direita; encontrou uma janela, e ao pé desta uma banquinha, sobre a qual estava a campainha que o visconde fora de si tanto procurava. Acontecesse, porém, o que acontecesse, foi metendo a campainha na algibeira.

- Mas então que se passa? - exclamou

ele. - Parece, visconde, que jogamos à cabra-cega... Cuidado, não escorregue! Mas o que anda assim procurando, na escuridão?

- Procuro a campainha para chamar

Pompeu.

- Mas que diabo quer de Pompeu? - Quero... quero que faça uma cama ao

pé da minha.

- Para quem?

- Para ele.

- Para ele... de que se lembra,

visconde!?... Lacaios no nosso quarto! Ora! Deixe disso! Tem uns costumes, uns hábitos, só próprios de uma rapariguinha medrosa. Fora com isso! Somos rapazes suficientemente crescidos para nos defendermos nós mesmos. Não; dê-me apenas a mão, e encaminhe-me para a cama, com a qual não consigo acertar... ou, também... tornemos a acender a vela...

- Não, não, não! - exclamou o visconde. - Visto que não me quer dar a mão -

disse Canolles - deveria pelo menos dar-me um fio, porque me vejo num verdadeiro labirinto...

E adiantou-se com os braços estendidos

para o lado de onde vinha a voz; mas junto de si como que viu deslizar uma sombra, e sentiu passar um perfume; tornou a apertar os braços, mas, semelhante ao Orfeu de Virgílio, nada mais abraçara do que ar.

- Ali! Ali! - disse o visconde, da outra

extremidade do quarto. - Está junto da sua cama, barão.

- Qual das duas é a minha? - Isso é coisa que pouco importa! pois

que eu me não deitarei.

- Como assim!? Não se há-de deitar?! -

estranhou Canolles, voltando-se ao ouvir esta palavra indiscreta. - Então que vai fazer?

- Passarei a noite sentado numa

cadeira.

- Deixe-se disso! - disse Canolles. - Não consentirei decerto numa tal criancice. Venha, visconde, venha!

E Canolles, guiado por um último raio

do luar, que logo morreu, deu com os olhos no visconde alapardado a um canto, entre a janela e a cômoda, embuçado no seu capote.

Este raio não foi mais do que um

relâmpago; mas tanto bastou para servir de guia ao barão, e para fazer compreender ao visconde que estava perdido. Canolles adiantou-se para ele em linha reta, com os braços estendidos, e, apesar da escuridão reinar de novo no quarto, o pobre gentil-homem compreendeu que desta vez não poderia escapar àquele que o perseguia.

- Barão, barão - balbuciou o visconde -

não se aproxime, rogo-lhe! Barão, não saia do lugar em que está. Não dê um só passo, se é gentil-homem!

Canolles parou. O visconde estava tão

próximo, que lhe ouvia palpitar o coração, e sentia o calor tépido da sua respiração anelante. Ao mesmo tempo, um perfume delicioso, embriagador, composto de todas as emanações que procedem da mocidade e da formosura, perfume mil vezes mais delicioso do que o das flores, pareceu envolvê-lo para lhe tirar toda a possibilidade de obedecer ao visconde, mesmo se tivesse desejos de assim o fazer.

Contudo, deteve-se, um momento no

lugar onde estava, com as mãos estendidas para aquelas mãos que antecipadamente o repeliam, vendo que o mais pequeno movimento que fizesse seria bastante para tocar aquele corpo, cuja delicadeza e flexibilidade havia dois dias que tantas vezes admirara...

- Misericórdia! Misericórdia! - implorou

o visconde, com uma voz na qual um princípio de voluptuosidade se misturava com o terror. - Misericórdia!

A voz expirou-lhe nos lábios, e

Canolles sentiu aquele mimoso corpo deslizar-se ao longo da parede e cair de joelhos.

O seu peito dilatou-se; havia na voz

que implorava um acento que lhe fez compreender que o seu adversário já estava meio vencido.

Deu um passo mais, estendeu as mãos,

e encontrou as duas mãos juntas e suplicantes do mancebo, que, desta vez, não tendo já nem sequer a força de dar um grito, arrancou do peito um suspiro quase doloroso.

Repentinamente, ouviu-se o galope de

um cavalo debaixo da janela, e precipitadas argoladas retumbaram na porta da estalagem, as quais foram seguidas de gritos e rumores. Chamavam e batiam alternativamente.

- Senhor barão de Canolles! - gritava

uma voz.

- Oh! Deus seja louvado! Estou salvo! -

balbuciou o visconde.

- Os diabos levem semelhante

basbaque! - vociferou Canolles. - Não podia vir amanhã de manhã!?

- Senhor barão de Canolles! - bradava a voz. - Senhor barão de Canolles! É preciso que eu lhe fale neste mesmo instante.

- Vejamos: que há de novo? - perguntou

o barão, recuando um passo.

- Senhor, senhor - disse Castorin da

porta - perguntam por si... procuram por si.

- Mas quem é o biltre!?

- Um correio.

- Da parte de quem?

- Da parte do senhor duque d’Épernon. - Que me quer ele?

- Serviço do rei.

Ao ouvir esta palavra mágica, a que

tinha de obedecer, Canolles foi abrir a porta, praguejando, e desceu a escada.

Quanto a Pompeu, ouviram-no

ressonar.

O correio havia entrado, e estava à

espera numa sala térrea; Canolles foi ter com ele, e leu, empalidecendo, a carta de Nanon; como o leitor já terá adivinhado, o correio era Courtauvaux em pessoa, que, tendo partido umas dez horas depois de Canolles, não pudera, por mais diligências que fizesse, alcançá-lo senão na segunda pousada.

Algumas perguntas que fez a

Courtauvaux não deixaram a Canolles a mínima dúvida acerca da necessidade da diligência que tinha a fazer. Leu uma segunda vez a carta; e a assinatura “Vossa boa irmã, Nanon”, fez-lhe compreender o que acontecera - isto é: que a menina de Lartigues se salvara do perigo fazendo-o passar por seu irmão.

Por diferentes vezes ouvira a própria

Nanon falar em termos pouco lisonjeiros acerca daquele irmão, cujo lugar tomara, o que não concorreu pouco para a má vontade com que ia obedecer a esta mensagem do duque.

- Muito bem - disse ele a Courtauvaux,

sem lhe abrir crédito na estalagem, e sem lhe despejar a bolsa nas mãos, o que não teria deixado de fazer em qualquer outra ocasião.- Muito bem; diga a seu amo que me alcançou, e que obedeci no mesmo instante.

- E à menina de Lartigues, não lhe direi

coisa alguma?...

- Sim; dir-lhe-á que o irmão sabe

apreciar o sentimento por que foi impelida, e que lhe fica sumamente agradecido. Castorin, vá selar os cavalos!

E sem mais nada dizer ao mensageiro,

que estava pasmado à vista de uma tal recepção, Canolles tornou a subir, e foi ter com o visconde, a quem encontrou pálido, trêmulo, e já vestido. Duas velas estavam acesas sobre a lareira.

Canolles lançou um olhar de profunda

mágoa para aquela alcova, e para as duas camas gêmeas, numa das quais se divisava uma ligeira e curta pressão. O visconde observou este olhar com um sentimento de pudor que lhe fez subir o rubor ao rosto.

- Alegre-se, visconde - disse Canolles. -

Eis que fica desembaraçado de mim para todo o resto da viagem. Parto pela posta, em serviço do rei.

- E quando? - perguntou o visconde, com voz ainda mal segura.

- Neste mesmo instante. Dirijo-me a

Nantes, onde, segundo parece, está a corte.

- Adeus, senhor! - pôde apenas

responder o mancebo, que atirou consigo para cima de uma cadeira, sem se atrever a levantar os olhos para o companheiro.

Canolles deu um passo para ele. - Decerto não tornarei a vê-lo... - disse

ele, com uma voz muito comovida.

- Quem sabe... - fez o visconde,

esforçando-se por sorrir.

- Prometa uma coisa a um homem que

se lembrará eternamente de si - disse Canolles, pondo a mão sobre o coração, e isto com uma harmonia de voz e de gesto, que não deixava a mínima dúvida acerca da sua sinceridade.

- Qual coisa?

- Que dele se lembrará algumas vezes. - Eu prometo-lhe.

- Sem... cólera?...

- Sim.

- Dá-me uma prova em apoio desta

promessa? - disse Canolles.

O visconde estendeu-lhe a mão. Canolles pegou naquela mão toda

trêmula, sem outra intenção que a de apertá-la entre as suas; mas, por um movimento mais forte que a sua vontade, colou-a com ardor aos seus lábios, e fugiu para fora do quarto, dizendo consigo:

"Ah! Nanon! Nanon!... Jamais poderá

indenizar-me do que me faz perder?"

XII

AGORA, se acompanharmos as

princesas da casa de Conde ao desterro de Chantilly, de que Richon pintou ao visconde um quadro tão medonho, eis o que há para ver:

Sob belas áleas de castanheiros cobertos

de flores, sobre tabuleiros de relva que se estendem até aos lagos azulados, agita-se, continuamente, um enxame de pescadores, rindo, conversando e cantando. Aqui e ali, no meio das plantas mais altas, aparecem alguns vultos de leitores, perdidos nas vagas de verdura, onde não se vê distintamente mais do que a página branca que eles devoram e que pertence ou à Cleópatra, do senhor de Calprenéde, ou à Astreia do senhor d’Urfé, ou ao Grande Ciro de Mademoiselle Scudéry; no fundo dos caramanchões de madressilvas e de clematites, ouviam-se as ressonâncias dos alaúdes e os cantos de vozes invisíveis. Finalmente, na rua principal que vai ter ao castelo, passa, de vez em quando, com a rapidez do relâmpago, um cavaleiro portador de algum despacho.

Durante este tempo, no terraço, duas

mulheres vestidas de cetim, e seguidas a certa distância por escudeiros mudos e respeitosos, passeavam gravemente, com gestos cheios de cerimônia e majestade; no meio delas, uma dama de porte nobre, seguramente dos seus cinqüenta e sete anos, discorria magistralmente acerca dos negócios do Estado; à sua direita, uma jovem senhora, muito direita, trajada de negro, escutava, franzindo as sobrancelhas, a douta teoria; à esquerda, enfim, outra senhora velha, a mais empertigada e a mais afastada das três, porque era de condição menos ilustre, falava, escutava e meditava, tudo ao mesmo tempo.

A dama do meio era a princesa viúva,

mãe do vencedor de Rocroy, de Norlinga e de Lens, a quem, depois de perseguidos - e, em resultado dessa perseguição, encarcerado em Vincenas - começaram a dar o nome de Grande Conde, nome que a posteridade lhe conserva. Esta dama, em cujas feições se podiam ainda reconhecer os restos da formosura a que se dedicaram os últimos e talvez os mais loucos amores de Henrique IV, acabava de ser ferida, ao mesmo tempo, no seu amor de mãe e no seu orgulho de princesa, por um fradinho italiano, a que chamavam Mazarino, quando criado do cardeal Bentivoglio, e a quem agora chamavam sua eminência o cardeal Mazarino, depois de se tornar amante de Ana de Áustria, e primeiro-ministro do reino da França.

Foi ele quem se atreveu a encarcerar

Conde, e a desterrar para Chantilly a mãe e a esposa do nobre preso.

A senhora à direita é Clara Clemência

de Maillé, princesa de Conde, a quem, por um aristocrático costume daquele tempo, chamavam simplesmente Madame, para dar a entender que a mulher do chefe da família dos Condes era a primeira princesa de sangue, a princesa por excelência: nunca deixou de ser altiva; mas depois de ser perseguida, a sua altivez mais se agravou com a perseguição, de modo que se tornou orgulhosa. Razão por que, embora condenada a representar um papel secundário enquanto o príncipe gozava de liberdade, a prisão do marido a elevou à posição de heroína: chegou a ser mais lamentada do que uma viúva; e seu filho, o duque de Enghien, que estava para fazer sete anos, tinha mais simpatias do que um órfão. Todos os olhos estavam cravados nela; e se não fora o receio de se tornar ridícula, ter-se-ia vestido de luto. Desde o desterro imposto por Ana de Áustria a estas duas lacrimosas senhoras, os seus gritos agudos converteram-se em surdas ameaças: de oprimidas que eram, tornaram-se rebeldes. A princesa "Temístocles", de touca, tem o seu "Milcíades" de saias, e os louros da senhora de Longueville, momentaneamente rainha de Paris, não lhe permitiam adormecer.

Continuar: parte 2 de 2