A Guerra das Mulheres
Capítulo IV
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
VOLTEMOS agora a falar de um dos
intervenientes mais importantes desta história, que, montado num bom cavalo, percorre a estrada real de Paris a Bordéus, rodeado por cinco companheiros, cujos olhos se arregalam ao mais leve tinido de um saco recheado de escudos de ouro, e que o tenente Ferguzon leva o preso ao arção da sua cela. Tal "melodia" agrada e faz temer o grupo, tal como o som dos tambores e dos instrumentos alenta o soldado nas marchas.
- Não importa, não importa - dizia um
dos seis homens. - Dez mil libras é uma boa soma.
- Sem dúvida -respondeu Ferguzon - que seria uma boa soma, caso daqui se não devesse nada a ninguém; mas deve-se uma companhia à princesa; "nimium satis est" - como dizia a Antiguidade o que se pode traduzir por estas palavras: - Só o demasiado é bastante. Ora, meu querido Barrabás, nós não temos aquele famoso bastante que corresponda a demasiado.
- Sai muito caro, parecer homem de
bem! - disse Cauvignac. - Toda a receita do cobrador régio se converteu em arreios, sobretudos e bordados: estamos tão brilhantes como fidalgos, e o nosso luxo chega a ponto de termos bolsas; verdade seja dita que nada tão dentro... Oh, aparência!...
- Assim será, capitão, quanto a nós; mas
quanto a si... - replicou Barrabás - tem a bolsa e dentro dela dez mil libras.
- Amigo - disse Cauvignac - não
ouviram, ou compreenderam mal o que acaba de dizer Ferguzon acerca das nossas obrigações para com a princesa... Eu não sou daqueles que se comprometem a uma coisa e fazem outra. O senhor Lenet deu-me dez mil libras para levantar uma companhia: hei-de levantá-la, que me leve o Diabo. E no dia em que ela estiver organizada, há-de dar-me outras quarenta mil. Então, se não pagar essas quarenta mil libras, veremos...
- Com dez mil libras?!... - exclamaram
em coro quatro vozes irônicas. É que Ferguzon, que tinha toda a confiança no engenho do chefe, era único de toda a companhia que parecia convencido de que Cauvignac alcançaria o resultado prometido. - Espera, então, levantar uma companhia com dez mil libras?...
- Sim - disse Cauvignac - ainda que a
essa quantia se tivesse de juntar alguma coisa.
- E quem é que lhe juntará alguma
coisa? - perguntou uma voz.
- Não hei-de ser eu - disse Ferguzon. - Então quem? - perguntou Barrabás. - Ora essa não é má! O primeiro que
aparecer! Ali vem um, mesmo a calhar... não o vêem lá em baixo, na estrada?... Não tardarão a vê-lo...
- Já compreendo - declarou Ferguzon. - E nada mais? - perguntou Cauvignac. - Sim - disse um dos cavaleiros,
aproximando-se de Cauvignac - sim, compreendo muito bem que está empenhado em preencher as suas obrigações, capitão; contudo, quem sabe se não perderíamos algo ao sermos demasiado honrados. Hoje, somos necessários; mas se a companhia amanhã estivesse organizada, mandar-lhe-iam oficiais de confiança, e a nós, que tivemos o trabalho a levantá-la, despedir-nos-iam.
- Você é um grande pedaço de asno,
meu amigo Carretel, e não é esta a primeira vez que lho digo - replicou Cauvignac. - O miserável raciocínio que acaba de fazer priva-o do posto que eu lhe destinava nesta companhia, pois é evidente que nós seremos os seis oficiais de um tal núcleo de exército. Eu, Garrotei, desde logo o nomearia alferes; e agora não será mais do que sargento. Graças à pobreza que acaba de ouvir, Barrabás, e já que nada disse, é você quem ocupará aquele posto, até que, sendo enforcado Ferguzon, seja promovido por direito de antiguidade. Mas não percamos de vista o meu primeiro soldado, que já descubro lá em baixo.
- Tem alguma idéia de quem seja
aquele homem, capitão? - perguntou Ferguzon.
- Nenhuma.
- Deve ser algum burguês: usa um
capote preto.
- Está certo disso?
- Pois não o vê? O vento levanta-lho de
um dos lados.
- Se traz capote negro, é algum burguês
rico; em tal caso tanto melhor: recrutamos para o serviço dos príncipes, e é de suma importância que a companhia se componha de boa gente. Se fosse para aquele bigorrilha do Mazarino, qualquer coisa serviria; mas para os príncipes, isso já é outra coisa! Ferguzon, não se me tira da cabeça que a minha companhia me fará honra, como diz Falstaff.
O grupo deu de esporas para alcançar o
burguês, que ia muito pacificamente seguindo o seu caminho pelo meio da estrada.
Quando aquele digno homem, que
montava numa boa mula, deu pelos belos cavaleiros a galope, parou respeitosamente, chegando-se para o lado da estrada, e saudando Cauvignac.
- O homem é cortês - disse este. - Isto já
é bom presságio. Mas não sabe fazer a continência militar; ensinar-lha-emos.
Cauvignac respondeu à sua saudação;
depois, colocando-se ao seu lado, ombro com ombro:
- Digne-se dizer-nos, senhor, se ama o
rei.
- Que dúvida pode haver nisso!?... -
respondeu o burguês.
- Às mil maravilhas! - volveu
Cauvignac, arregalando os olhos arrebatados de júbilo. - E a rainha?
- A rainha!... Venero-a de todo o meu
coração!
- Cada vez melhor! E Mazarino? - Mazarino é um grande homem,
senhor, e admiro-o!
- Cada vez melhor ainda. Então -
continuou Cauvignac - tivemos a sorte de encontrar um bom servidor de Sua Majestade
- Disso, meu senhor, faço questão! - E pronto a testemunhar-lhe o seu
zelo...
- Em toda e qualquer ocasião. - E como isto vem tanto a propósito! O
certo é que só as estrelas reais podem oferecer tão felizes encontros.
- Que quer dizer com isso? - perguntou
o burguês, principiando a olhar para Cauvignac com uma certa desconfiança.
- Quero dizer, senhor, que tem de
acompanhar-nos. O burguês deu um salto na cela, de surpresa e susto:
- Acompanhá-los aonde, senhor?
- Para dizer a verdade, ainda não sei
muito bem aonde vamos.
- Eu, senhor, só costumo viajar em
companhia de pessoas a quem conheço!
- É muito justo, que assim deve fazer
todo o homem prudente; vou, por conseguinte, dizer-lhe quem nós somos.
O burguês fez um movimento, que
dava indício de já o haver adivinhado; Cauvignac continuou sem dar mostras de ter reparado nesse movimento.
- Eu sou - disse ele - Rolando de
Cauvignac, capitão de uma companhia - ausente, verdade seja, mas dignamente representada por Luís Gabriel Ferguzon, meu tenente; por Jorge Guilherme Barrabás, meu alferes; por Zeferino Garrotei, meu sargento; e por estes dois senhores, um dos quais é meu furriel, e o outro meu quartel-mestre. Agora, senhor, ficou a conhecer-nos - continuou Cauvignac com ar muito risonho - e alegro-me de que nenhuma antipatia terá para conosco.
- Mas, senhor, eu já servi Sua Majestade
na guarda urbana e pago pontualmente os meus tributos, taxas, imposições, etc... - respondeu o burguês.
- E por isso, senhor - continuou
Cauvignac - não é para o serviço de Sua Majestade que pretendo alistá-lo, mas sim para o dos príncipes, de quem sou indigno representante.
- Para o serviço dos príncipes inimigos
do rei?!... - exclamou o burguês, cada vez mais atônito. - Qual é, pois, o motivo por que me perguntava se amava Sua Majestade?
- Porque, senhor, se não amasse o rei, se
acusasse a rainha, se blasfemasse de Mazarino, eu de modo nenhum o teria desviado das suas ocupações; seria então para mim tão sagrado como se meu irmão.
- Mas enfim, senhor... eu não sou um
escravo, não sou um servo!...
- Não, senhor: é soldado; isto é, tem
inteira liberdade para chegar a ser capitão, como eu, ou marechal da França, como o senhor de Turenne.
- Senhor, tenho advogado muitas
causas na minha vida.
- Ah! tanto pior, senhor, tanto pior; o
hábito das demandas é um mau hábito. Eu nunca as tive, senhor, e o motivo disso talvez seja porque estudei para ser letrado.
- Eu, porém, advogando, aprendi as leis
do Reino...
- Para isso é preciso muito tempo.
Saiba, senhor, que desde as Pandectas de Justiniano até ao acento do Parlamento que declara, por motivo da morte do marechal d’Ancre, que nunca poderá um estrangeiro ser ministro de Estado em França, há dezoito mil setecentas e setenta e duas leis, sem contar os ordenanças; mas enfim há mentes privilegiadas que têm uma memória espantosa. Pico de Ia Mirandola falava doze línguas aos dezoito anos... E que fruto colheu do conhecimento dessas leis, senhor?
- O fruto, sim, o fruto de saber que sem
autorização não se anda obrigando pelas estradas a assentar praça.
- Eu estou munido de uma autorização,
senhor... Ei-la aqui.
- Da senhora princesa?...
- De Sua Alteza em pessoa. E Cauvignac tirou o chapéu com todo o
respeito.
- Pelo que vejo há dois reinos, na
França!...- exclamou o burguês.
- Sim, senhor, e eis a razão por que
tenho a honra de lhe pedir preferência, porque considero um dever alistá-lo para o seu serviço.
- Eu apelarei para o Parlamento! - Não há dúvida de que é um terceiro
rei, e também terá provavelmente ocasião de servi-lo. A nossa política é larga. Vamos, a caminho, senhor!
- Mas isto é impossível, senhor!
Esperam-me para certos negócios...
- Onde?
- Em Orleães.
- E quem o espera?
- O meu procurador.
- E para que negócios?
- Para negócios de dinheiro. - O primeiro negócio é o serviço do
Estado, senhor!
- Acaso não podem passar sem mim? - Nós contávamos consigo! E far-nos-á
muita falta, na verdade! Contudo, se, como diz, se encaminhava a Orleães para negócios de dinheiro...
- Sim, senhor, para negócios de
dinheiro.
- E que quantia?
- De quatro mil libras.
- Que ia receber?
- Não, que ia pagar.
- Ao seu procurador?
- Precisamente, senhor.
- Por alguma demanda que ganhou,
não?
- Por uma demanda perdida. - Com efeito, isso é coisa digna de
consideração... Quatro mil libras!...
- Quatro mil libras.
- É justamente a quantia que
desembolsaria, caso os príncipes consentissem que os seus serviços fossem substituídos pelos de um mercenário.
- Essa agora! Poderei achar um homem
que me substitua por trezentas libras, eu...
- Quem substitua um homem da sua
catadura, que monte uma mula com os pés para fora como o senhor, que saiba dezoito mil e setecentas e setenta e duas leis?!... Ora! Deixemo-nos disso, senhor! Se fosse algum homem comum, sim, trezentas libras seriam sem dúvida suficientes; mas se nos contentássemos com substitutos ordinários, não valeria a pena fazer concorrência ao rei. Precisamos de homens do seu mérito, da sua graduação, e da sua estatura. Que diabo! Não se menospreze: parece-me que vale bem as quatro mil libras!
- Vejo perfeitamente qual é o seu fito! -
exclamou o burguês. - Um roubo à mão armada!
- Senhor, insulta-nos - disse Cauvignac
- e esfolá-lo-íamos em vida para reparação desse insulto, se não nos gabássemos de que os exércitos dos príncipes conservam a boa reputação de que gozam. Não, senhor: dê-nos as suas quatro mil libras, mas não acredite que isto seja uma extorsão; nada mais é do que uma necessidade.
- E quem há-de então pagar ao meu
procurador!?
- Nós.
- Os senhores? Mas, entregar-me-ão um
recibo dele?...
- Sim, senhor, um recibo em forma. - Assinado por ele?
- Assinado por ele.
- Então, isso é outra coisa. - Bem o vê. Aceita, então. - Que remédio tenho eu, visto que o
não posso evitar.
- Agora, diga-nos onde vive o
procurador, e dê-nos algumas informações mais, que são indispensáveis.
- Já lhes disse que era uma condenação
em resultado de uma demanda perdida.
- Contra quem?
- Contra um certo Biscarros, que é autor
nesta demanda como herdeiro da mulher, que era orleanesa.
- O caso é digno de atenção! - disse
Ferguzon.
Cauvignac fez um aceno sorrateiro com
os olhos, que queria dizer: "Nada receies, que eu estou alerta."
- Biscarros - continuou Cauvignac - não
é um estalajadeiro dos arredores de Libourne?
- É esse mesmo, que tem a sua
habitação entre essa cidade e Saint-Martin de Cubzac.
- Na estalagem Bezerro de Ouro? - Ali mesmo. Conhece-o? -Tenho
ouvido falar dele.
- Que miserável! Fazer-me condenar ao
reembolso de tal soma!...
- Que lhe não devia?...
- Não tanto assim... mas que tinha toda
a esperança de nunca lhe pagar.
- Muito bem, compreendo que isso é
coisa dura.
- E por isso dou-lhe a minha palavra
que prefiro ver esse dinheiro nas vossas mãos do que nas dele.
- Sendo assim, julgo que ficará
satisfeito.
- Mas, e o meu recibo?
- Venha conosco, e recebê-lo-á em boa
firma.
- Como farão para almoçar? - Isso fica por minha conta. Foram continuando a caminhar para
Orleães, aonde chegaram passadas duas horas. O burguês conduziu os angariadores de recrutas para a estalagem mais vizinha do seu procurador. Era um verdadeiro covil de bandoleiros, em cuja tabuleta se via pintada uma pomba com este letreiro: "A Pomba da Arca".
- Agora - disse o burguês - como faremos? Bem que eu não queria desapossar-me das minhas quatro mil libras, a não ser em troca do recibo.
- Nisso não haverá a mínima dúvida.
Conhece a letra do seu procurador?
- Perfeitamente.
- Quando lhe apresentarmos o seu
recibo, não terá então dificuldade alguma em nos entregar o dinheiro?
- Nenhuma! Mas sem dinheiro, o meu
procurador não quererá passar recibo: eu conheço-o muito bem.
- Eu adiantarei esta quantia - disse
Cauvignac.
E no mesmo instante, tirando dos
alforjes quatro mil libras, parte em ouro e parte em prata, enfileirou as pilhas sob os olhos espantados do burguês.
- Agora - disse ele - como se chama o
seu procurador?
- Chama-se Rabodin.
- Ora, pois, pegue numa pena e escreva. O burguês obedeceu.
Senhor Rabodin:
Envio-lhe as quatro mil libras de
despesas e juros que fui condenado a pagar ao senhor Biscarros, e estou desconfiado que queira fazer delas mau uso. Tenha a bondade de entregar ao portador um recibo em forma...
- E que mais? - perguntou o burguês. - E que mais!? Ponha-lhe a data e a
assinatura.
O burguês assim fez.
- Agora - disse Cauvignac a Ferguzon -
pega nesta carta e neste dinheiro, disfarça-te em maleiro, e vai a casa do procurador.
- E que farei em casa do procurador? - Entregar-lhe-ás esta quantia, e
arrecadarás o recibo.
-É tudo?
- É tudo.
- Não posso compreender. - Tanto melhor, por isso mesmo será
mais bem desempenhada a comissão.
Ferguzon tinha grande confiança no capitão, e por isso, sem mais réplica, encaminhou-se para a porta.
- Manda-nos trazer vinho, e do melhor
- disse Cauvignac. - O senhor há-de ter sede.
Ferguzon fez uma cortesia em sinal de
obediência e saiu. Meia hora depois, voltou, e encontrou Cauvignac sentado à mesa com o burguês, fazendo ambos honra ao famoso vinho de Orleães, que tão grato era ao paladar gascão de Henrique IV.
- E então? - perguntou Cauvignac. - E então, eis o recibo.
- Virá na forma que pretendíamos? E Cauvignac entregou ao burguês o
pedaço de papel selado.
- Vem, sim.
- O recibo está então em forma... - Sem dúvida alguma que está. - Não tem, portanto, pejo algum em
dar-me o seu dinheiro em troca deste recibo?
- Nenhum.
- Dê-mo então.
O burguês contou as quatro mil libras; Cauvignac arrecadou-as nos seus alforjes, onde foram ocupar o lugar das quatro mil libras ausentes.
- Bem... estou resgatado?...- disse o
burguês.
- Oh! meu Deus, sim! A não ser que
esteja absolutamente decidido a assentar praça.
- Eu pessoalmente não; mas... - Mas o quê? Vejamos - disse
Cauvignac. -Tenho cá um certo pressentimento de que não nos separaremos sem termos concluído outro negócio.
- É possível - aceitou o burguês,
completamente sossegado com a posse do recibo. - Tenho, porém, um sobrinho...
- Hum... hum...
- Rapaz indócil e bulhento. - E de quem quereria desembaraçar-se,
não é assim?
- Tanto não quero dizer; mas de quem,
no meu entender, se poderia fazer um excelente soldado.
- Diga-lhe que venha ter comigo, que
eu farei dele um herói.
- Alista-lo-ia?
- Com todo o gosto.
- Tenho também um afilhado... um
rapaz de mérito que quer tomar ordens sacras, e pelo qual me vejo obrigado a pagar uma avultada pensão...
- De maneira que preferia que ele
tomasse uma espingarda, não é assim? Envie-me o afilhado com o sobrinho, isso custar-lhe-á apenas quinhentas libras por ambos, e nada mais.
- Quinhentas libras?! Não posso
compreender...
- Sem dúvida; e é preciso pagar logo
que entrarem no serviço.
- Então, porque quer que eu pague para
não entrar nele?
- São razões particulares; o seu
sobrinho e o afilhado pagam cada um deles duzentas e cinqüenta libras, e nunca mais o importunarão.
- Realmente, é muito lisonjeiro o que
me diz. E estarão eles bem?
- Uma vez que tenham tomado gosto ao
serviço sob as minhas ordens, não trocarão a sua posição pela do imperador da China. Pergunte a estes senhores como eu os alimento. Responde, Barrabás; responde, Carrotel!
- Não há dúvida - disse Barrabás - que
vivemos como uns fidalgos.
- Veja como andam bem vestidos. Garrotei fez uma pirueta sobre si
mesmo, a fim de mostrar por todos os lados o seu esplêndido trajo.
- O certo é que não se pode deixar de
admirar o seu asseio.
- Então? Enviar-me-á os seus dois
rapazes?
- Boa vontade tenho disso. Demorar-se-
ão muito tempo aqui?
- Não; pôr-nos-emos a caminho
amanhã de manhã. Mas, para lhes dar tempo de nos alcançarem, iremos caminhando a passo. Dê-nos as quinhentas libras, e é negócio concluído.
- Não tenho mais que duzentas e
cinqüenta.
- Dar-lhe-á a eles as outras duzentas e
cinqüenta libras, e isso servir-lhe-á de pretexto para mós enviar, pois se assim não fosse, se não tivéssemos algum pretexto para fazê-lo, como bem compreende, eles desconfiariam de alguma coisa.
- Mas - disse o burguês - talvez me
respondam que basta um só para desempenhar essa comissão.
- Dir-lhe-á que os caminhos não estão
seguros, e dará a cada um cento e vinte e cinco libras, de que depois será embolsado pelo respectivo soldado.
O burguês arregalou os olhos de
maravilhado.
- Na verdade - disse ele - não há senão
os militares para vencer quantas dificuldades possam apresentar-se!
E depois de ter contado as duzentas e cinqüenta libras a Cauvignac, retirou-se, encantado por haver arranjado processo de acomodar, pela diminuta soma de quinhentas libras, um sobrinho e um afilhado, com quem despendia mais de mil francos por ano.
VI
- Senhor Barrabás - disse Cauvignac -
não tem na sua mala algum fato menos elegante do que o que usa, e que lhe dê ares de algum empregado na cobrança dos impostos?...
- Tenho o do cobrador, bem sabe, a
quem nós...
- Bem, muito bem! E sem dúvida tem a
patente dele...
- O tenente Ferguzon disse-me que não
a perdesse, e, portanto, guardei-a com todo o cuidado.
- O tenente Ferguzon é o homem mais
previdente que tenho conhecido. Vista o fato de recebedor, e pegue nessa patente.
Barrabás saiu e voltou passado dez
minutos, completamente transformado.
Encontrou Cauvignac todo vestido de
preto, parecendo um oficial de justiça.
Encaminharam-se ambos para casa do
procurador; o senhor Rabodin vivia no terceiro andar, onde tinha uma antecâmara, um escritório e um gabinete; sem dúvida que mais alguns quartos ocupava, mas como não estavam abertos aos clientes, não falaremos deles.
Cauvignac atravessou a antecâmara,
deixou Barrabás no escritório, e lançou ao passar um olhar de reconhecimento aos dois escreventes, que fingiam estar escrevendo, mas que se divertiam a contar petas, e passou para o "sanctum sanctorum".
O senhor Rabodin estava sentado a
uma mesa tão carregada de maços de papéis que o procurador parecia na realidade enterrado em meios de autos, escrituras e sentenças. Era um homem alto, seco e pálido, com uma casaca preta tão justa que parecia colada aos ombros, tal como a pele da enguia lhe está pegada ao corpo. Ouvindo o ruído dos passos de Cauvignac, endireitou as costas curvas, e levantou a cabeça, que então surgiu por entre a papelada de que estava rodeado.
Cauvignac acreditou por um momento
ter encontrado o basilisco, animal que os sábios modernos olham como fabuloso, tanto refulgia nos pequenos olhos do procurador o sombrio esplendor da avidez e da cobiça.
- Senhor - disse Cauvignac - peço-lhe
que me desculpe se me apresento deste modo diante de si sem primeiro anunciar a minha chegada; mas - acrescentou ele - é este um privilégio do meu emprego.
- Um privilégio do seu emprego? -
disse Rabodin. - Tenha a bondade de dizer-me qual é o seu emprego.
- Eu, senhor, sou oficial de justiça de
Sua Majestade.
- Oficial de justiça de Sua Majestade?! -Tenho essa honra.
- Não o compreendo, senhor. - Em breve me compreenderá. Não é
verdade que conhece o senhor Biscarros?
- Sem dúvida que o conheço: é meu
cliente.
- Faça o favor de dizer-me o conceito
que dele faz?
- O conceito que dele faço?... - Sim, senhor.
- O conceito... o conceito... Sim, o
conceito que dele faço é julgá-lo um homem muito honrado.
- Ora, pois, senhor, está muito
enganado.
- Como assim!? Pois engano-me?! - O seu honrado homem é um rebelde. - Um rebelde?! Será possível!? - Sim, senhor, um rebelde que se valia
da posição isolada da sua estalagem para dela fazer um foco de conspirações.
- Palavra!?
- Um homem que deu a sua palavra de
envenenar o rei, a rainha e Mazarino, se por acaso se apeassem na sua estalagem.
- Quem havia de dizer!... - E que eu acabo de prender, e conduzir
à prisão de Libourne, como réu de crime de lesa-majestade.
- Senhor, aniquila-me! - disse Rabodin,
deixando-se cair na sua poltrona.
- Ainda não é tudo, senhor - continuou
o falso oficial de justiça. - Além disto, o senhor está comprometido neste negócio.
- Eu, senhor?! - exclamou o procurador,
enfiado. - Eu, comprometido?! E como é possível!?
- Tem em seu poder uma certa soma,
que aquele infame Biscarros destinava ao pagamento de um exército de rebeldes.
- Verdade é, senhor, que recebi por
conta dele...
- Uma soma de quatro mil libras; foi
"tratado", aquele cobarde, e confessou, por fim, que essa soma devia estar nas suas mãos.
- E com efeito tenho-a em meu poder,
senhor; mas há apenas um instante que a recebi.
- Tanto pior, senhor, tanto pior. - E então porque será tanto pior? - Porque me verei forçado a deter a sua
pessoa.
- A minha pessoa?!
- Sem dúvida: o ato de acusação
designa-o como cúmplice.
O procurador ficou sem pinga de
sangue.
- Ah! se não tivesse recebido aquele
dinheiro - continuou Cauvignac - o negócio seria muito diferente; porém, confessa que a recebeu, o que é uma prova contra si, como muito bem compreende.
- Diga-me, senhor: se eu consentir em
restituí-la, se eu lha entregar, neste mesmo instante, se eu declarar que nenhuma relação tenho com aquele miserável do Biscarros, que não o conheço!...
- Não deixará por isso de haver graves
suspeitas contra si. Contudo, devo dizer-lhe que a entrega imediata do dinheiro...
- Já agora, neste mesmo instante! -
exclamou Rabodin. - Faço já a entrega. O dinheiro ainda ali está no saco em que mo entregaram. Mais não fiz do que examinar se estava certa a conta.
- E está certa?
- Conte-o, senhor, conte-o o senhor
mesmo.
- Não, senhor, tal não farei, pois não
estou autorizado a cobrar o dinheiro de Sua Majestade. Mas trago o cobrador de Libourne, que mandaram comigo para receber as diferentes quantias que o desgraçado Biscarros assim andava espalhando, para as reunir quando fosse preciso.
- E, com efeito, recomendou-me muito
que logo que eu recebesse estas quatro mil libras, tratasse de as fazer chegar às suas mãos quanto antes.
- Está bem de ver, sabe já sem dúvida
que a princesa fugiu de Chantilly e se encaminha para Bordéus; queira reunir todos os seus recursos para se fazer chefe de partido. Que miserável! E o senhor de nada desconfiava...
- De nada, senhor, de nada. - Ninguém o havia avisado? - Ninguém.
- Mas que me está dizendo?... - disse
Cauvignac, apontando com o dedo para a carta do burguês, que ficara aberta na escrivaninha, no meio dos outros papéis. - Então que me está dizendo, quando o senhor mesmo me dá uma prova em contrário?...
- Como?... Que prova?
- Ora, essa não é má! Leia. Rabodin leu com voz trêmula: Senhor Rabodin:
Envio-lhe as quatro mil libras que fui
condenado a pagar ao senhor Biscarros, e estou desconfiado de que queira fazer delas mau uso.
- Um mau uso! - repetiu Cauvignac. -
Como muito bem vê, a horrorosa reputação do seu cliente já por cá havia chegado.
- Senhor, estou aterrado! - disse o
procurador.
- Não posso ocultar-lhe, senhor, que as
ordens de que sou portador são muito severas.
- Juro-lhe, senhor, que estou inocente. - Outro tanto dizia Biscarros, enquanto
lhe não deram tratos; mas, por fim, sempre mudou de linguagem.
- Digo-lhe que estou pronto a entregar-
lhe o dinheiro! Ei-lo aqui, pegue nele; não quero mais vê-lo em minha casa.
- Façamos as coisas com toda a
regularidade - disse Cauvignac. - Eu repito o que já lhe disse: que não estou encarregado de cobrar o dinheiro do rei.
Então, aproximando-se da porta: - Venha cá, senhor recebedor - disse ele.
- Cada qual deve desempenhar o seu ofício.
Barrabás entrou.
- O senhor confessa tudo - continuou
Cauvignac.
- Como pode dizer tal!? Que confesso eu!? - exclamou o procurador.
- Sim, confessa que se corresponde com
Biscarros.
- Eu, senhor, nunca recebi dele senão
duas cartas, e só uma vez lhe escrevi.
- O senhor confessa que tem na sua
mão dinheiro que pertence ao acusado.
- Ei-lo aqui, senhor. Nunca recebi por
conta dele mais do que estas quatro mil libras, e estou pronto a entregar-lhes.
- Senhor recebedor - disse Cauvignac -
mostre a sua patente, conte este dinheiro, e passe um recibo em nome de Sua Majestade.
Barrabás apresentou a sua patente ao
procurador, que a repeliu com a mão, não querendo fazer a desfeita de a ler.
- Agora - disse Cauvignac, enquanto,
com receio de algum engano, Barrabás contava o dinheiro - é preciso que me acompanhe.
- Que o acompanhe?...
- Sem dúvida; não lhe disse já que
havia suspeitas contra si?
- Mas eu, senhor, juro-lhe que Sua
Majestade não tem um súbdito mais fiel do que eu.
- O caso não está em afirmá-lo, sabe-o
melhor que ninguém, o senhor, que sois procurador; em justiça não é bastante a afirmativa - são precisas provas.
- Provas, senhor, eu as darei. - E quais?
- Toda a minha vida passada. - Isso ainda não basta; seria precisa
uma garantia para o futuro.
- Indique-me o que posso fazer, e fá-lo-
ei.
- Há um meio de provar de um modo
incontestável o seu zelo pela causa real.
- Qual?
- Encontra-se neste mesmo momento
em Orleães um capitão meu amigo que alista uma companhia para o serviço do rei...
- E então?
- E então, assentaria praça nessa
companhia.
- Eu, senhor, um procurador?!... - O rei tem muita necessidade de
procuradores, porque os seus negócios estão muito embrulhados.
- De boa vontade o faria, senhor, mas, e
o meu escritório?...
- Fá-lo-á reger pelos seus escrivães. - Isso é impossível; e então as
assinaturas?
- Perdoem-me, senhores - disse
Barrabás - se tomo parte na discussão...
- E porque não? - disse o procurador. -
Fale, senhor, fale.
- Parece-me que, se estivesse no seu
lugar, o senhor, que seria um triste soldado...
- Sim, senhor, tem razão: muito triste -
disse o procurador.
- Se o senhor oferecesse ao meu amigo,
ou antes, ao rei...
- O quê, senhor! Que posso eu oferecer
ao rei?
- Os seus dois escrivães.
- Mas decerto! - exclamou o procurador - mas decerto, e com sumo gosto eu lhos dou; são dois belos moços.
- Um deles pareceu-me uma criança. - Tem quinze anos, senhor, quinze
anos! E toca tambor às mil maravilhas. Venha cá, Fricotin.
Cauvignac fez um sinal com a mão,
para dar a entender que desejava que deixasse ficar Fricotin onde estava.
- E o outro? - continuou ele. - Dezoito anos; cinco pés e seis
polegadas. Prepara-se para assentar praça no corpo dos alabardeiros, e, por conseguinte, já sabe o manejo da alabarda. Venha cá, Chalumeau.
- Mas muito torto nos olhos, segundo
me parece - disse Cauvignac, fazendo outro sinal semelhante ao primeiro.
- Tanto melhor, senhor, tanto melhor;
pô-lo-á de sentinela, e como olho de esquerda, verá ao mesmo tempo para a direita e para a esquerda, enquanto os outros vêem para diante.
- É uma vantagem, bem sei; mas deve
compreender que o rei se encontra em grande aperto quanto a dinheiro; a guerra a tiros de canhão custa mais cara do que a guerra de palavras. O rei não pode encarregar-se do armamento destes dois mancebos. Não faz pouco em se encarregar da sua instrução, do seu soldo.
- Senhor - disse Rabodin - se não é
preciso mais do que isso para provar o meu zelo pela causa real... ora, pois, eu farei um sacrifício!
Cauvignac e Barrabás olharam um para
o outro.
- Que lhe parece, senhor recebedor? -
perguntou Cauvignac.
- Penso que o senhor dá ares de quem
fala com franqueza - respondeu Barrabás.
- E, por conseguinte, devemos tratá-lo
com toda a consideração. Dê ao senhor um recibo de quinhentas libras.
- Um recibo em que se declare que são
para o armamento de dois jovens soldados, os quais, instigado pelo zelo, oferece a Sua Majestade.
- Mas ao menos, mediante este
sacrifício, poderei ficar sossegado?...
- Assim o creio.
- Não serei inquietado?
- Assim é de esperar.
- E se contra toda a justiça eu fosse
perseguido?
- Apelaria para o meu testemunho. Mas
estarão de acordo os seus dois escrivães?...
- Ficarão contentíssimos.
- Está certo disso?
- Sem dúvida que estou. Contudo, seria
bom não lhes dizer...
- A honra que se lhes reserva, não é
assim?
- Isso seria mais prudente. - E então como se há-de fazer? - A coisa é muito simples: envio-os ao
vosso amigo. Como se chama ele?
- Capitão Cauvignac.
- Enviá-los-ei ao vosso amigo capitão Cauvignac, sob qualquer pretexto; seria melhor que fosse fora de Orleães, para permitir maior sigilo.
- Sim, e para que os orleaneses não se
lembrassem de açoitá-lo como Camilo mandou fazer àquele mestre-escola da Antiguidade...
- Ordenar-lhes-ei que vão ter com ele
fora da cidade.
- Na estrada real de Orleães e Turones,
por exemplo.
- Na primeira estalagem. - Sim; aí encontrarão o capitão
Cauvignac, à mesa; oferecer-lhes-á um copo de vinho, aceitá-lo-ão, dir-lhes-á que façam uma saúde ao rei, beberão com entusiasmo: e ei-los soldados.
- Muito bem. Agora, pode chamá-los. O procurador chamou os dois
mancebos. Fricotin era um rapazinho que não tinha mais de quatro pés de altura, vivo, travesso, e reforçado; Chalumeau era um grande simplório de cinco pés e seis polegadas, delgado como um espargo e vermelho como uma cenoura.
- Senhores - disse Cauvignac - aqui o
senhor Rabodin encarrega-os de uma comissão de confiança, a qual consiste em irem buscar, amanhã pela manhã, à primeira estalagem que se encontra na estrada de Orleães a Blois, um rolo de documentos relativos a uma demanda que o capitão Cauvignac tem com o senhor de La Rochefoucauld. O senhor Rabodin dará a cada um vinte e cinco libras de gratificação por este trabalho.
Fricotin, rapaz crédulo, deu um grande
pulo. Chalumeau, de caráter desconfiado, olhou ao mesmo tempo para Cauvignac e para o procurador, com uma expressão de dúvida que o tornava ainda mais vesgo do que o costume.
- Repare, porém - disse com viveza
Rabodin - que eu não me obriguei a dar as cinqüenta libras...
- Cuja quantia - continuou o falso oficial de justiça - o senhor Rabodin se pagará lançando-a em conta nas despesas do processo do capitão Cauvignac com o duque de La Rochefoucauld.
Rabodin abaixou a cabeça: daqui não
podia fugir, era necessário passar por esta porta ou pela prisão.
- Vamos - disse o procurador - consinto
nisso, mas espero que me darão um recibo da dita quantia.
- Ei-lo aqui - disse o recebedor. - Veja se
eu não havia previsto o seu desejo.
E entregou-lhe o papel, onde estavam
escritas estas palavras:
Recebi do senhor Rabodin, mui fiel
súbdito de Sua Majestade, a título de oferecimento voluntário, a quantia de quinhentas libras para ajuda na sua guerra contra os príncipes.
- Se lhe parece necessário - disse
Barrabás - porei os dois escrivães no recibo.
- Não, não! - disse com viveza o
procurador - está muito bem assim.
- A propósito - recordou Cauvignac ao
senhor Rabodin. - Diga a Fricotin que pegue no seu tambor, e a Chalumeau que leve a sua alabarda; sempre será outra poupança.
- Mas sob que pretexto quer que lhes
faça essa recomendação?
- Ora, essa não é má!... sob pretexto de
se irem distraindo pelo caminho!
Dito isto, o falso oficial de justiça e o
recebedor retiraram-se, deixando o senhor Rabodin espantado pelo perigo que correra, e dando-se por muito feliz ao sair dele por tão pouco.
No dia seguinte, tudo se passou como
Cauvignac previra: o sobrinho e o afilhado não tardaram a chegar, ambos montados no mesmo cavalo; depois deles, chegaram Fricotin e Chalumeau, um com o seu tambor e o outro com a alabarda. Não deixaram de se levantar, no momento em que lhes declararam que tinham a honra de ser alistados para o serviço dos príncipes, algumas dificuldades, tanto de uma como de outra parte; mas estas mesmas se aplanaram ante as ameaças de Cauvignac, as promessas de Ferguzon, e a lógica de Barrabás. O cavalo em que o sobrinho e o afilhado vinham montados, foi destinado ao transporte da bagagem, e como era de infantaria a companhia que Cauvignac estava encarregado de organizar, os dois novos alistados nada tiveram que dizer.
Tornaram a pôr-se a caminho. A
marcha de Cauvignac assemelhava-se a um triunfo. O engenhoso bandoleiro encontrava meio de conduzir para a guerra os mais obstinados partidaristas da paz. A uns fazia abraçar a causa do rei da Inglaterra, que falava de um desembarque na Escócia para reconquistar os seus estados. Ao princípio, não deixou de haver alguma disparidade nas cores, alguma discordância nas reclamações, que o tenente Ferguzon, apesar de toda a sua persuasão, só a custo pudera sujeitar às regras da obediência passiva. Contudo, ajudado por um certo mistério - contínuo e necessário, segundo dizia Cauvignac, ao feliz êxito da operação - soldados e oficiais iam avançando, sem saberem o que iam fazer. Quatro dias depois de sair de Chantilly, Cauvignac tinha reunido vinte e cinco homens, o que, como muito bem se vê, já compunha uma bela patrulha. Muitos rios, que fazem grande alvoroço ao lançarem-se ao mar, têm origens menos majestosas.
Cauvignac procurava um centro:
chegou a uma aldeiazinha situada entre Chantellerault e Poitiers, e acreditou ter encontrado ali o que buscava. Era a aldeia de Jaulnay; reconheceu-a, porque já ali fora uma noite levar uma ordem a Canolles, e estabeleceu o seu quartel-general na estalagem, onde se recordava de haver ceado muito bem naquela noite. Além disso, não lhe era permitida a escolha, visto que a estalagem, como já dissemos, era a única que ali havia.
Situado deste modo a cavalo na
principal estrada de Paris a Bordéus, Cauvignac tinha atrás de si as tropas do senhor de La Rochefoucauld, que sitiava Saumur, e pela frente as do rei, que se concentravam na Guiena. Estendendo, portanto, a mão a cada um deles, evitando arvorar bandeira alguma antes do momento ideal, o objetivo que se propunha era formar um núcleo de cem homens, pouco mais ou menos, para dele tirar o melhor partido que pudesse; ora, o recrutamento ia-se adiantando, e Cauvignac já havia levado a efeito quase metade do seu projeto.
Um dia em que Cauvignac, depois de
haver andado toda a manhã à caça de homens, estava, como era seu costume, à espreita na porta da estalagem, conversando com o seu tenente e com o alferes, viu surgir na extremidade da rua uma jovem senhora a cavalo, seguida por um escudeiro, a cavalo como ela, e por dois machos carregados de bagagem.
O garbo com que a formosa amazona
conduzia o seu cavalo, e o ar arrogante do escudeiro que a acompanhava, suscitaram a Cauvignac uma recordação. Pôs a mão no braço de Ferguzon, que, sentindo-se indisposto naquele dia, estava triste e de mau humor, e disse-lhe, apontando para a passageira:
- Eis o qüinquagésimo soldado do
regimento de Cauvignac, tão certo como estarmos aqui!
- Quem? Aquela senhora? - Sim, ela, não o duvides. - Isto não está nada mal! Já temos um
sobrinho que havia de ser letrado, um afilhado que se destinava à Igreja, dois escreventes de procurador, dois droguistas, um médico, três padeiros e dois guardadores de perus; portanto, maus soldados já temos bastantes, no meu entender, sem que se lhes junte uma mulher; e o pior do negócio é que em breve teremos de combater.
- Sim, mas o nosso tesouro ainda não
passa de vinte e cinco mil libras (fácil é de ver que o tesouro, assim como a tropa, crescendo todos os dias), e se pudéssemos arredondar essa quantia, e completar as trinta mil, parece-me que não teríamos que dar por mal empregue o nosso tempo.
- Ah! se é sob esse aspecto que encara a
coisa, nada tenho que dizer, e aprovo completamente.
- Silêncio! Vais ver.
Cauvignac aproximou-se da jovem
senhora, que, tendo parado defronte de uma das janelas da estalagem, interrogava a estalajadeira, a qual lhe respondia do quarto.
- Sou um seu criado, meu gentil-
homem - disse ele com toda a urbanidade, levando a mão ao chapéu.
- Meu gentil-homem, eu!? - disse a
senhora, sorrindo-se.
- O senhor mesmo, belo visconde. A senhora corou.
- Não sei o que quer dizer, senhor -
respondeu ela.
- Oh! oh! bem o sabe, e a prova disso é
que já tem nas faces bastantes cores.
- Pode ter a certeza de que se engana,
senhor.
- Decerto que não me engano! Antes
pelo contrário, sei maravilhosamente o que digo.
- Vamos, senhor, explique-se, nada de
zombarias.
- Eu não zombo, senhora; e se quer uma
prova, vou dar-lha. Tive a honra de encontrá-la haverá umas três semanas, com o trajo do seu sexo, uma noite, nas margens do Dordonha, seguido pelo seu fiel escudeiro, senhor Pompeu. Tem ainda consigo o senhor Pompeu? Ah! sim, ei-lo justamente aí! Diga também que eu não conheço aquele querido senhor...
O escudeiro e a jovem senhora olhavam
estupefatos um para o outro.
- Sim, sim - continuou Cauvignac - para
que são essas mostras de tamanho espanto? Atrever-se-á a dizer que não é aquele que encontrei, como muito bem o sabe, na estrada de Saint-Martin de Cubzac, a um quarto de légua da estalagem do senhor Biscarros?...
- Não nego esse encontro, senhor. - Ah! então está a ver claro... - Só naquele dia é que eu estava
disfarçada.
- Não, senhora, não; hoje é que está.
Além do que, visto que os sinais do visconde de Cambes foram mandados a toda a parte na Guiena, é fácil compreender que julgará mais prudente, para malograr todas as diligências, adotar momentaneamente esse trajo - e além disso, assenta-lhe muito bem, como é de justiça confessar.
- Senhor - disse a viscondessa, com
uma perturbação que em vão fazia por disfarçar - se a sua conversa não fosse misturada com algumas palavras sensatas, na realidade julgaria que está completamente louco.
- Não lhe farei o mesmo cumprimento,
pois entendo que é coisa muito razoável uma pessoa disfarçar-se quando conspira.
A jovem senhora cravou os olhos em Cauvignac com uma inquietação que cada vez mais se acentuava.
- Com efeito, senhor - disse ela - parece-
me que o vi em alguma parte; mas já não me lembra onde.
- A primeira vez, já lho disse, foi nas
margens do Dordonha.
- E a segunda?
- A segunda, foi em Chantilly. - No dia da caçada?
- Justamente, nesse dia.
- Em tal caso, senhor, já nada tenho a
recear, pois é um dos nossos.
- E por que razão?
- Porque estava em casa da princesa. - Dê-me licença que lhe diga que isso
não é uma razão.
- Parece-me, contudo...
- Havia ali muita gente, e, portanto, não
pode haver qualquer certeza de que fossem amigos todos os que ali estavam.
- Pondere as suas palavras, senhor, pois
dar-me-ia uma singular idéia de si.
- Oh! pode fazer a idéia que quiser, eu
não sou desconfiado.
- Mas, enfim: que deseja? - Ter a honra de propor-lhe que
descanse nesta estalagem.
- Agradeço, senhor; não posso aceitar o
seu oferecimento, pois espero uma pessoa.
- Muito bem: apeie-se, e enquanto não
chega essa pessoa, iremos conversando.
- Que quer que faça, senhora? -
perguntou Pompeu.
- Que se apeie; peça um quarto, e
mande aprontar a ceia - disse Cauvignac.
- Mas, senhor - replicou a viscondessa -
creio que é a mim que compete dar essas ordens.
- Não é tanto assim, senhor visconde,
visto que sou eu quem comanda em Jaulnay, e tenho cinqüenta homens à minha disposição. Pompeu, faz o que eu disse.
Pompeu abaixou a cabeça, e entrou na
estalagem.
- Então, senhor, pelo que vejo, prende-me... - perguntou a jovem senhora.
Talvez que assim seja.
- E como é possível que tal aconteça!? - Isso, senhora, dependerá da
conversação em que vamos entrar. Mas tenha a bondade de se apear, senhor visconde. Muito bem; agora, aceite o meu braço. Os criados da estalagem levarão o seu cavalo para a estrebaria.
- Obedeço, senhor, visto que, tal como
disse, é o mais forte; não tenho meio algum de resistir. Mas sempre quero preveni-lo de uma coisa: é que a pessoa a quem espero não tardará a chegar, e essa pessoa é um oficial do rei.
- Em tal caso, senhor visconde, far-me-á
a honra de me apresentar, e terei muito gosto em conhecê-lo.
A viscondessa compreendeu que
nenhuma resistência podia opor, e deu alguns passos, fazendo sinal ao seu estranho interlocutor para que a seguisse, se quisesse.
Cauvignac acompanhou-a até à porta do quarto que Pompeu lhe mandara preparar, e ia entrar atrás dela, quando Ferguzon, subindo rapidamente a escada, se chegou a ele, e lhe disse ao ouvido:
- Capitão: uma sege tirada por três
cavalos, um mascarado dentro, e dois lacaios às portinholas.
- Muito bem - disse Cauvignac. - É
provavelmente o gentil-homem por quem se espera.
- Ah! espera-se algum gentil-homem?... - Sim, e vou descer ao seu encontro. Tu,
deixa-te ficar neste corredor; não percas de vista a porta. Deixa entrar toda a gente, mas que ninguém saia.
- Assim farei, capitão.
Com efeito, uma sege de viagem
acabava de deter-se à porta da estalagem, conduzida por quatro homens da companhia de Cauvignac, que a haviam encontrado a um quarto de légua da vila, e que desde logo a haviam escoltado.
Um gentil-homem, vestido de veludo azul, embrulhado num grande capote forrado, estava mais deitado do que sentado no fundo da sege. Desde o momento em que os quatro homens tinham rodeado a sege, não deixara de lhes fazer repetidas perguntas; vendo porém, que por mais instantes que fossem essas perguntas, não conseguia obter resposta alguma, parecia ter-se resignado a esperar, e só de vez em quando levantava a cabeça para ver acaso se aproximava algum chefe, a quem pudesse pedir a explicação para o modo singular como a sua gente o tratava.
Para além disto, não era possível
avaliar a impressão que este acontecimento produziu no jovem viajante, em conseqüência de uma máscara de cetim preto que lhe ocultava metade do rosto, o que, aliás, estava muito em moda naquela época. Em todo o caso, o que a máscara deixava ver - isto é: a parte superior da fronte, e a inferior do rosto - revelavam mocidade, beleza e espírito; os dentes eram pequenos e brancos, e através da máscara viam-se cintilar os olhos.
Dois lacaios, pálidos e trêmulos, apesar
de armados com mosquetes, conservavam-se aos lados -da sege, e pareciam grudados aos seus cavalos, junto às duas portinholas. O quadro poderia passar por uma cena de salteadores acometendo algum viajante, a não ser o dia claro, a estalagem, a figura risonha de Cauvignac, e a serenidade dos supostos ladrões.
Fixando os olhos em Cauvignac - que,
como dissemos, avisado por Ferguzon apareceu à porta - o mancebo detido deu um pequeno grito de sobressalto, e levou com vivacidade a mão ao rosto, como se quisesse certificar-se de que a sua máscara lho cobria, parecendo ficar mais sossegado logo que se certificou.
Por muito rápido que fosse este
movimento, não havia escapado a Cauvignac; olhou para o viajante como homem acostumado a descobrir a intenção oculta, ainda que nos gestos mais dissimulados; depois, estremeceu, a seu pesar, com um espanto quase igual ao que manifestara o cavaleiro vestido de veludo azul. Logo serenou, porém, e, tirando o chapéu com uma graça muito especial, afirmou:
- Bela senhora, seja muito bem-vinda. Os olhos do viajante brilharam de
espanto através das aberturas da sua máscara.
- Para onde se encaminha desse modo?
- continuou Cauvignac.
- Para onde me encaminho?... -
respondeu o viajante, não fazendo caso da saudação de Cauvignac; e respondeu somente à sua pergunta. - Para onde vou?... Deve saber melhor do que eu, visto que já me não é permitido continuar a minha viagem. Vou para onde me conduzir.
- Dê-me licença que lhe observe -
continuou Cauvignac, cada vez com mais urbanidade - que isso, bela senhora, não é responder. A sua detenção é só momentânea. Quando tivermos conversado um momento acerca dos nossos mútuos negócios, com franqueza e a rosto descoberto, tornará a continuar o seu caminho, sem embaraço algum.
- Peço-lhe desculpa - replicou o jovem
viajante. - Mas antes de irmos mais longe, principiaremos por ratificar um erro. Finge tomar-me por mulher, quando, pelo contrário, vê muito bem pelo meu trajo que sou um homem.