A Guerra das Mulheres
Capítulo XV
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
JÁ dissemos que os seis gentis-homens
estavam bem montados; além disso, os seus cavalos tinham sobre os dos cavaleiros que haviam chegado pela manhã a vantagem de estarem folgados. Em breve se juntaram e tomaram lugar entre os caçadores, sem a mínima contestação. A maior parte dos convidados vinha de diferentes províncias, e pouco ou nenhum conhecimento tinham entre si; uma vez no parque, os intrusos não encontravam qualquer dificuldade em passar por convidados.
Tudo teria, pois, ido às mil maravilhas,
caso se tivessem conservado no seu posto, ou também caso se contentassem em adiantar-se aos outros, juntando-se aos picadores e monteiros. Mas não sucedeu assim. Passado um instante, Cauvignac pareceu convencer-se de que a caçada se realizava em honra da sua pessoa: arrancou a corneta das mãos de um dos moços que cuidavam dos cães, o qual se não atreveu a recusar-lha, brandiu-a à frente dos monteiros, atravessou-se por diante do capitão de caçadas em todas as direções, rompeu através dos bosques, tocando desesperadamente a corneta, fazendo perder o rasto do gamo quando saiu dos bosques, ou neles se tornava a embrenhar, esmagando os cães, derrubando os moços, saudando garridamente as senhoras quando passava diante delas, praguejando, berrando, animando-se a si próprio quando as perdia de vista, e caindo sobre o gamo no momento em que o animal, depois de haver atravessado o grande lago, estava reduzido às últimas, não podendo já consigo.
- O gamo é nosso! - gritou Cauvignac. -
Temo-lo, seguro! Não pode escapar-nos!
- Cauvignac! - dizia Ferguzon, que o
seguia de perto - Cauvignac, tanto fará que por fim seremos todos expulsos! Modere-se, pelo santo nome de Deus lho peço!
Cauvignac a nada atendia, e vendo que
o animal fazia frente aos cães, apeou-se e desembainhou a espada, gritando com toda a força dos pulmões:
- É nosso! É nosso!
E os companheiros, à exceção do
prudente Ferguzon, alentados pelo exemplo de Cauvignac, apressavam-se a cair sobre a presa quando o capitão das caçadas, afastando Cauvignac com a sua faca de mato, lhe disse:
- Que vai fazer senhor? É a princesa
quem dirige a caça. A ela, pois, pertence matar o gamo, ou conceder esse favor a quem bem lhe apetecer.
Cauvignac caiu em si ao ouvir esta
áspera repreensão; e quando recuava com muito pouca graça, viu-se subitamente rodeado pelo tropel dos caçadores, a quem os cinco minutos da alta que fizeram havia permitido que chegassem junto dele, formando um grande círculo em torno do animal, encurralado junto ao tronco de um carvalho, e cercado por todos os cães reunidos e encarniçados no assalto.
No mesmo momento, avistou-se
correndo para aquele lado a princesa, precedendo o duque de Enghien, os gentis-homens, e as damas, que faziam questão em não se apartarem dela. A princesa parecia muito animada, e bem se percebia que este simulacro de guerra era o prelúdio de uma guerra verdadeira.
Chegando ao meio do círculo, a
princesa parou, pousou os olhos com soberania em torno de si, e fitou-os em Cauvignac e nos seus companheiros, estes devorados pelo olhar inquieto e desconfiado dos picadores e dos oficiais de caçada.
O capitão chegou junto dela com a sua
faca de mato na mão; era uma faca de que ordinariamente se servia o príncipe, com folha do mais fino aço e punho em prata dourada.
- Vossa Alteza conhece este gentil-
homem? - perguntou ele em voz baixa, olhando de soslaio para Cauvignac.
- Não - disse ela. - Mas visto que
entrou, deve sem dúvida ser conhecido de alguém.
- Saiba Vossa Alteza que ninguém o
conhece, e é a primeira vez que o vêem todas as pessoas a quem interroguei...
- Mas ele não podia franquear as
cancelas sem saber o santo...
- Por certo que não - replicou o capitão.
- Contudo, tomarei a liberdade de dar a Vossa Alteza o conselho de desconfiar dele.
- Cumpre em primeiro lugar saber
quem é - disse a princesa.
- Não tardaremos a sabê-lo, senhora - respondeu Lenet com o seu sorriso habitual, na companhia da princesa. - Ordenei a um normando, a um picardo e a um bretão, que fossem ter com ele; será interrogado com toda a sagacidade. Mas por agora não dê Vossa Alteza a idéia de ter reparado nele, pois se visse que o observavam, escapar-se-nos-ia.
- Tem razão, Lenet; continuemos a
nossa caçada.
- Cauvignac - disse Ferguzon - creio
que se ocupa de nós aquela gente de alta distinção. Não faríamos mal se nos eclipsássemos.
- Julgas que sim?... - disse Cauvignac.-
Ah! pela minha fé: tanto pior. Quero ver cair o veado, aconteça o que acontecer.
- É um belo espetáculo, bem sei -
insistiu Ferguzon - mas pode muito bem acontecer que paguemos os nossos lugares mais caros do que na hospedaria da Borgonha.
- Senhora - disse o capitão das caçadas,
apresentando a face à princesa - a quem quer Vossa Alteza conceder a honra de matar o animal?
- Reservo-a para mim, senhor -
respondeu a princesa. - Uma mulher da minha posição deve acostumar-se a manejar o ferro e a ver correr sangue.
- Namur - disse o capitão das caçadas
ao arcabuzeiro - prepare-se.
O arcabuzeiro saiu das filas e de
arcabuz na mão, foi colocar-se a vinte passos do animal. Esta manobra tinha por objetivo matar o gamo com uma bala, se este, impelido pelo desespero, como às vezes acontece, em vez de esperar pela princesa, se arremessasse contra ela.
A princesa apeou-se, pegou na faca, e,
de olhos fixos, faces ardentes e lábios meio levantados, adiantou-se para o animal, que, quase oculto sob os cães, parecia coberto de um tapete mesclado de mil cores. A besta não acreditou, sem dúvida, que a morte se apresentasse sob as feições daquela formosa princesa, a cuja mão talvez tivesse ido comer dez vezes; e por isso, caído como estava sobre os joelhos, tentou fazer um movimento, acompanhado daquela grossa lágrima que acompanha a agonia do gamo e do veado. Mas não teve tempo para tanto; a folha da faca, em que se refletiu um raio de sol, desapareceu até aos copos na garganta, de onde espirrou o sangue, que foi cair no rosto da princesa. O gamo levantou então a cabeça, bramiu dolorosamente, e, lançando um último olhar de repreensão à sua bela senhora, caiu e morreu.
No mesmo instante, soaram todas as
cornetas, e ouviram-se retumbar milhares de gritos de “Viva a princesa!” enquanto o jovem príncipe, agitando-se na sua sela, batia palmas de alegria.
A princesa tirou a faca da garganta do
animal, correu com ares de amazona os olhos em torno de si, restituiu a arma ensangüentada ao capitão das caçadas, e montou de novo a cavalo.
Lenet aproximou-se dela, então.
- Quer a princesa que eu lhe diga -
disse ele, com o seu sorriso habitual - em que pensava Vossa Alteza quando enterrava a sua faca na garganta daquele pobre animal?...
- Sim, Lenet, diga-me; dar-me-á muito
prazer.
- Pensava em Mazarino, e bem desejou
que ele estivesse ali, em lugar do gamo.
- Sim! - exclamou a princesa. - Não há
dúvida de que assim foi; e tê-lo-ia degolado desapiedadamente, eu juro-lhe. Mas cumpre confessar, Lenet, que é um feiticeiro... Depois, voltando-se para o resto da comitiva:
- Agora que está concluída a caçada,
senhores - disse ela - convido-os a que me sigam. É já muito tarde para correr outro gamo, e, além disso, a ceia está à nossa espera.
Cauvignac respondeu a este convite
com um gesto sumamente recioso.
- Então que faz, capitão? - perguntou
Ferguzon.
- Aceito o convite que se me faz. Não vês tu que a princesa acaba de nos convidar para cear, como eu vos tinha prometido a todos?...
- Cauvignac, acreditar-me-á, se quiser,
mas no seu lugar, eu retirava-me pela mesma brecha por onde entramos.
- Ferguzon, meu amigo, a sua natural
perspicácia abandona-o neste momento. Não reparou nas ordens que deu aquele senhor vestido de preto, e que dá ares de raposa quando ri, e de texugo quando não ri? Ferguzon, a brecha está guardada, e encaminharmo-nos para o lado dela é indicar que queremos sair por onde entramos.
- Mas então, que será de nós? - Sossegue, que eu respondo por tudo. E, confiados nesta segurança, os seis
cavaleiros tomaram lugar entre os gentis-homens, e com eles se dirigiram ao castelo.
Cauvignac não sabia se os havia
enganado: não os perdia de vista. Lenet ia caminhando, tendo à sua direita o capitão das caçadas, e à esquerda o mordomo da casa de Conde.
- Estão certos - disse ele- de que
ninguém conhece estes cavaleiros?
- Ninguém, absolutamente;
interrogamos mais de cinqüenta gentis-homens, e sempre a mesma resposta: são absolutamente estranhos a toda a gente.
O normando, o picardo e o bretão
voltaram, e reuniram-se a Lenet, sem nada mais poderem dizer. Só que o normando descobrira uma brecha no muro do parque, e, como homem inteligente, ali colocara guardas.
- Em tal caso - disse Lenet - temos de
recorrer ao meio mais eficaz: não se diga que um punhado de espiões nos obriga a despedir cem bravos gentis-homens. Tenha cuidado, senhor mordomo, que ninguém possa sair do pátio, nem da arcada em que a cavalgada vai entrar; o senhor capitão, logo que se tenha tornado a fechar a porta da galeria, mantenha um piquete de doze homens com as armas carregadas, preparado para o que der e vier. Agora, podem ir, que não os perco de vista.
Acresce que Lenet não tinha
dificuldade de maior em desempenhar o encargo que a si próprio impusera. Cauvignac e os companheiros não manifestavam o mínimo desejo de fugir. Cauvignac andava sempre na frente, afagando os bigodes; Ferguzon seguia-o, confiado na sua promessa, pois conhecia demasiado bem o seu chefe, e estava certo de que não se teria vindo meter numa toca, se a toca não tivesse outra saída; quanto a Barrabás e aos outros três companheiros, iam seguindo o tenente e o capitão sem pensar noutra coisa que não fosse na excelente ceia que os esperava. Eram, em suma, homens muito materiais, que abandonavam com um perfeito desleixo a parte intelectual das relações sociais aos seus dois chefes, em quem tinham plena e inteira confiança.
Tudo se passou conforme previra o
conselheiro, e tudo se executou como ele ordenara. A princesa sentou-se sob um dossel que lhe servia de trono na grande sala de recepção; tinha junto de si o filho, trajado como já dissemos.
Todas as pessoas olharam umas para as
outras: havia sido prometida uma ceia, e era evidente que se ia pronunciar um discurso.
Com efeito, a princesa levantou-se e
pronunciou um discurso que comoveu os ouvintes. Desta vez, Clemência de Mailé Brézé não teve já a mínima prudência, e rompeu abertamente com Mazarino; os seus partidários, eletrizados pela recordação da afronta feita a toda a nobreza de França nas pessoas dos príncipes, e talvez ainda mais pela esperança das boas condições que haviam de impor à corte, caso fossem bem sucedidos, interromperam duas ou três vezes o discurso da princesa, jurando alto e bom som servir fielmente a causa da ilustre Casa de Conde, e ajudá-la a sair da situação a que Mazarino a queria reduzir.
- Portanto, senhores - exclamou a princesa, terminando o seu discurso - o que o órfão que aqui vêem pede aos vossos corações generosos, é o concurso da vossa bravura, é o oferecimento de vosso fervoroso zelo. Sois nossos amigos, aqui se apresentam, pelo menos, como tal; que podem fazer a nossa favor?
Então, passado um momento de
silêncio - silêncio cheio de solenidade - começou uma cena, que era ao mesmo tempo a mais grave e a mais tocante que pudesse ver-se.
Um dos gentis-homens inclinou-se,
saudando respeitosamente a princesa.
- Chamo-me Geraldo de Montalent -
disse ele. - Trago comigo quatro gentis-homens, meus amigos. Reunimos cinco boas espadas e vinte mil francos, que oferecemos ao serviço do príncipe. Eis aqui a nossa credencial, assinada pelo duque de La Rochefoucauld.
A princesa saudou-o, por seu turno,
pegou na carta de confiança que lhe apresentavam, entregou-a a Lenet, e fez um sinal aos gentis-homens para que passassem à sua direita.
Assim que tomaram o lugar indicado,
logo outro gentil-homem se levantou:
- Chamo-me Cláudio Raul de Lessac,
conde de Clermont - disse ele. - Venho acompanhado por seis gentis-homens meus amigos. Temos cada um de nós dez mil francos, e pedimos o favor de participarmos com esta quantia no tesouro de Vossa Alteza; estamos armados e equipados, e um simples soldo diário é quanto nos bastará. Eis a nossa credencial, assinada pelo duque de Bouillon.
- Passem para a minha direita, senhores
- disse a princesa, pegando na carta do senhor de Bouillon, de que tomou conhecimento, como fizera com a primeira, e que do mesmo modo entregou a Lenet. - Fiquem certos de todo o meu reconhecimento.
Os gentis-homens obedeceram. - Chamo-me Luís Fernando de Lorges, conde de Duras - disse então um terceiro gentil-homem. - Chego sem amigos e sem dinheiro, rico e forte só com a minha espada, munido da qual abri caminho através do inimigo, pois estava sitiado em Bellegarde. Eis a minha carta de confiança, que recebi do visconde de Turenne.
- Venha, venha, senhor - disse a
princesa, tomando numa das mãos a carta, e dando-lhe a outra a beijar. - Venha e deixe-se ficar junto de mim; nomeio-o um dos meus brigadeiros.
Este exemplo foi seguido por todos os
gentis-homens; cada qual vinha com a sua credencial, ou do senhor de Bouillon, ou do senhor de Turenne; entregava a carta, e passava para a direita da princesa. Quando o lado direito se encheu, a princesa fê-los passar para a esquerda.
Deste modo, ia-se desguarnecendo o
fundo da sala, e, por último, restaram apenas Cauvignac e os seus esbirros, formando um grupo solitário, sobre o qual todos, resmungando com desconfiança, lançavam olhares coléricos ou ameaçadores.
Lenet volveu os olhos para a porta, que
estava bem fechada. Bem sabia que atrás dela se encontrava o capitão com dez soldados bem armados. Então, fitando os olhos nos desconhecidos, perguntou:
- E os senhores, quem são? Querem
dar-nos a honra de nos revelar os vossos nomes e mostrar-nos as vossas cartas de confiança?
O início da cerimônia, cujo desfecho
preocupara Ferguzon, dada a sua capacidade de raciocínio, derramara uma sombra de inquietação no seu rosto, e esta inquietação foi logo comunicada aos companheiros, que, tal como Lenet, não tiravam os olhos da porta; mas o chefe, cujo capote pendia majestosamente dos seus ombros, conservara-se impassível. E perante o convite de Lenet, deu dois passos em frente e, saudando a princesa com uma graça muito afetada, afirmou:
- Senhora, chamo-me Rolando de
Cauvignac, e trago comigo para o serviço de Vossa Alteza estes cinco gentis-homens, que pertencem às primeiras famílias da Guiena, mas que desejam conservar-se incógnitos.
- Mas, senhores, decerto não se
apresentaram em Chantilly sem serem recomendados por alguém... - disse a princesa, perturbada com a antevisão do medonho tumulto que produziria a prisão dos seis suspeitos. - Onde está a vossa credencial?
Cauvignac inclinou-se como homem
que reconhece ser muito acertada a pergunta que se lhe faz, levou a mão à algibeira, e dela tirou um papel dobrado em quatro, que entregou a Lenet, fazendo-lhe uma profunda saudação.
Lenet abriu-o, leu, e a mais grata
expressão espalhou-se-lhe nas feições, contraídas até aí por uma apreensão que era muito natural.
Enquanto Lenet lia, Cauvignac corria os olhos pelos circunstantes, com gesto triunfante.
- Senhora - disse Lenet em voz baixa ao
ouvido da princesa - veja que fortuna! Uma assinatura em branco do senhor d’Épernon!...
- Senhor - afirmou a princesa com o
mais gracioso sorriso - muito obrigada! Três vezes obrigada, por meu esposo, por mim, e por meu filho.
O sobressalto tornara mudos todos os
espectadores.
- Senhor - disse Lenet - este papel é
demasiado precioso para que tenha a intenção de dá-lo sem alguma condição. Esta noite, depois da ceia, conversaremos. Se assim lhe convier, dir-me-á em que poderemos ser-lhe prestável.
E Lenet meteu na algibeira a assinatura
em branco, cuja restituição Cauvignac teve a delicadeza de não pedir.
- Ora, pois - disse Cauvignac aos seus
companheiros - não lhes tinha eu dito que os convidava a cear com o duque de Enghien?...
- E agora, senhor, sente-se à mesa -
disse a princesa.
Os dois batentes da porta lateral
abriram-se ao serem pronunciadas estas palavras, e viu-se uma magnífica ceia servida na principal galeria do castelo.
A ceia foi uma das mais empolgantes.
O brinde ao príncipe, proposto mais de dez vezes, foi sempre correspondido por todos os convidados, de joelhos, espada na mão, e acompanhado de imprecações estrondosas contra Mazarino.
Ninguém se coibiu de fazer honras às
delicadas iguarias de Chantilly. O próprio Ferguzon, o prudente Ferguzon, deixou-se seduzir pelo atrativo dos vinhos de Borgonha, com os quais travara conhecimento pela primeira vez. Ferguzon era gascão, e por isso não tivera até então oportunidade de apreciar outros vinhos que não fossem os de sua terra, que achava excelentes, mas que naquela época, se dermos crédito ao duque de São Simão, ainda não tinham grande reputação.
Não acontecia, porém, o mesmo com
Cauvignac. Este, sem embargo do justo apreço que fazia dos vinhos de Moulin à Vent, de Nuits e Chambertin, bebeu com moderação. Não se havia esquecido do sorriso sorrateiro de Lenet, e entendia que precisava de toda a sua razão para celebrar com o astuto conselheiro algum contrato do qual não tivesse que arrepender-se. Por esse motivo, excitou a admiração de Ferguzon, de Barrabás, e dos seus três companheiros, que, ignorando a causa de tal comportamento, foram suficientemente simples para julgar que o seu chefe se tornara sóbrio.
No fim do banquete, como os brindes
se fossem amiudando, a princesa retirou-se, levando consigo o pequeno duque de Enghien, e deixando livre os seus convidados para prolongarem o banquete tanto quanto lhes aprouvesse pela noite adiante. Além disso, tudo se havia passado como ela o desejava, e fez uma narração circunstanciada da cena do salão e do banquete da galeria, omitindo unicamente uma circunstância, que era a palavra que Lenet lhe dissera ao ouvido, no momento em que ela se levantava da mesa.
- Não se esqueça Vossa Alteza de que
partimos às dez horas. Soariam em breve as nove, e a princesa deu princípio aos seus preparativos.
Neste ínterim, Lenet e Cauvignac
olharam um para o outro. Lenet levantou-se, e Cauvignac igualmente; Lenet saiu por uma portinhola situada no ângulo da galeria, Cauvignac compreendeu a manobra, e seguiu-o.
Lenet conduziu Cauvignac ao seu
gabinete; o aventureiro seguia atrás dele com ar de indiferença e confiança. Contudo, a sua mão, enquanto iam caminhando, afagava indiferentemente o punho de um comprido punhal que tinha à cinta, e os seus olhos examinavam com ardor e rapidez as portas meio abertas e as tapeçarias flutuantes.
Não receava precisamente que o
atraiçoassem, mas tinha por princípio estar sempre pronto para repelir a traição.
Assim que entrou no gabinete, meio
alumiado por uma lanterna, mas de cuja solidão ficou certo com uma só vista de olhos, Lenet designou com a mão uma cadeira a Cauvignac, que se sentou de um lado da mesa, onde ardia a lanterna, e Lenet do outro.
- Senhor - disse Lenet, para desde logo
captar a confiança do gentil-homem - eis aqui em primeiro lugar, e antes de tudo, a assinatura em branco, que eu lhe restituo. Creio que nenhuma dúvida pode nisso haver, e que lhe pertence...
- Pertence, senhor, a quem a possui -
respondeu Cauvignac pois, como pode ver, não há nela outro nome senão o do duque d’Épernon.
- Quando pergunto se lhe pertence, o
que pretendo saber é se a possui com o consentimento do duque d’Épernon.
- Recebi-a da sua própria mão, senhor.
- Portanto, não é subtraída, nem
extorquida por violência... Não digo por si, mas por alguma outra pessoa de quem a tenha recebido; talvez que tenha chegado à sua mão por via de uma terceira pessoa...
- Foi-me dada, como lhe digo, pelo
duque, muito voluntariamente, e a título de troca com um papel que lhe entreguei.
- Contraiu junto do duque d’Épernon a
obrigação de fazer, com esta assinatura em branco, alguma coisa de preferência a outra?
- Não; nenhuma obrigação contraí. - A pessoa que a possuir poderá,
portanto, fazer uso dela com toda a segurança?
- De fato, assim pode fazer. - Em tal caso, por que razão não faz o
senhor uso dela?
- Porque, guardando eu esta assinatura
em branco, só poderei beneficiar de uma coisa, ao passo que, se lha cedo, posso ganhar duas.
- E que duas coisas são essas?
- Dinheiro, em primeiro lugar. - É coisa que não temos.
- Eu serei razoável.
- E a segunda?
- Um posto no exército dos príncipes. - Os príncipes não têm exército. - Estão para tê-lo.
- Não prefere uma patente para levar
alguma companhia?...
- Ia mesmo propor-lhe esse ajuste. - O dinheiro é só o que viria a faltar?... - Sim, só o dinheiro.
- Que soma desejaria?
- Dez mil libras. Disse-lhe que seria
razoável.
- Dez mil libras?
- Sim; são-me indispensáveis alguns
avanços para armar e prover do necessário os meus homens.
- Com efeito, não é demasiado. - Consente então nisso?
- É negócio concluído.
Lenet tirou da algibeira uma patente já assinada, preencheu-a com os nomes que lhe indicou o mancebo, apôs-lhe o selo da princesa, e entregou-lha; depois, abrindo uma espécie de cofre de segredo, onde estava encerrado o tesouro do exército rebelde, retirou dez mil libras em ouro, que alinhou em montinhos de vinte luíses cada um.
Cauvignac contou-os
escrupulosamente, uns após os outros, e, quando chegou ao último, fez sinal a Lenet de que a assinatura em branco era sua.
Lenet pegou nela e fechou-a no cofre de
segredo, entendendo sem dúvida que um papel tão precioso devia ser arrecadado com toda a cautela.
No momento em que Lenet tornava a
meter na algibeira a chave do cofre, veio um criado a toda a pressa dizer-lhe que o chamavam para assunto de extrema importância.
Em conseqüência disto, saíram ambos
do gabinete, Lenet para seguir o criado, e Cauvignac a fim de voltar à sala do banquete.
Entretanto, a princesa fazia todos os
preparativos de partida, que consistiam em trocar o vestido de cerimônia por um de amazona, próprio portanto para andar de sege como para montar a cavalo, examinar os seus papéis, a fim de queimar os inúteis e levar consigo os de importância, reunir, enfim, os seus diamantes, que mandara desengastar, para que ocupassem menos espaço, e mais facilmente pudesse, em caso de urgência, utilizar-se deles.
Quanto ao duque de Enghien, devia
partir no trajo com que fora à caça, visto que ainda não houvera tempo de fazer outra vestimenta. O escudeiro Vialas devia conservar-se constantemente à portinhola da carruagem, montado no seu cavalo branco, que era bom corredor, a fim de receber o duque na sua selazinha e levá-lo a galope, se assim fosse preciso. Ao princípio, tinham receado que adormecesse, e haviam mandado chamar Pedrito para o divertir, brincando com ele; mas esta precaução tornou-se inútil. O orgulho de se ver com trajos de homem conservava-o acordado.
As carruagens, aprontadas às
escondidas, porque era preciso conduzir para Paris a viscondessa de Cambes, haviam sido levadas a uma sombria rua de castanheiros, onde era impossível que as vissem, e ali se conservavam, de portinholas abertas e cocheiros nos assentos, a uns vinte passos somente da cancela principal. Já só se esperava pelo sinal que deviam dar as cornetas. A princesa, com os olhos cravados no relógio de pêndulo, cujo ponteiro designava dez horas menos cinco minutos, levantava-se já e adiantava-se para o duque de Enghien, para o conduzir pela mão, quando de súbito se abriu a porta, e Lenet mais se precipitou do que entrou no quarto.
A princesa, vendo o seu rosto pálido e
o seu olhar turbado, empalideceu e perturbou-se por seu turno.
- Oh! meu Deus! - disse,
encaminhando-se para ele - que é que tem? que temos de novo?
- O que há - disse Lenet, com a voz
sufocada pela comoção - é ter chegado um gentil-homem neste momento, que pretende falar-lhe, da parte do rei.
- Oh! meu Deus - exclamou a princesa -
estamos perdidos! Meu caro Lenet, que faremos?
- Uma única coisa.
- Qual?
- Mandar despir o duque de Enghien
sem a mínima demora, e ataviar Pedrito com as suas roupas.
- Mas eu não quero que me tirem os
meus vestidos para os darem a Pedro! - exclamou o jovem príncipe, prestes a debulhar-se em lágrimas com esta única idéia, enquanto Pedrito, não cabendo em si de contentamento, receava não ter ouvido bem.
- Assim é preciso, senhor - disse Lenet,
com aquele acento poderoso de que nas ocasiões graves fazemos uso, e que até é capaz de impressionar num menino - se não quer que o senhor e sua mãe sejam encarcerados na mesma prisão aonde jaz seu pai.
O duque de Enghien calou-se,
enquanto Pedrito, incapaz de dominar os seus sentimentos, se entregava a uma visível explosão de alegria e orgulho. Depois, foram ambos levados para uma sala térrea, próxima à capela, onde se operaria a metamorfose.
- Quer a nossa fortuna - disse Lenet -
que a princesa viúva se encontre aqui, pois se assim não fosse seríamos derrotados por Mazarino.
- Por que razão?
- Porque o mensageiro teve de
principiar a sua visita pela princesa viúva, e neste momento está na sua antecâmara.
- Mas este mensageiro do rei não passa
sem dúvida de um olheiro, um espião que a corte nos envia...
- Vossa Alteza não se engana no que
diz.
- Hão-de ter-lhe dado ordem de nos
guardar à vista...
- Sim. Mas que lhe importa isso, se não
é a si a quem ele guarda?...
- Não o compreendo, Lenet. Lenet sorriu.
- Eu, senhora, compreendo-me a mim
mesmo, e por tudo respondo. Mandei vestir Pedrito como príncipe, e o príncipe como jardineiro, e fica a meu cuidado dizer a Pedrito o que deve fazer.
- Oh! meu Deus! Deixar partir o meu
filho só!...
- Seu filho, senhora, partirá com a mãe. - Isso é impossível.
- Porquê? Se encontramos um falso
duque de Enghien, porque se não achará uma falsa princesa de Conde?...
- Oh! agora compreendo-vos muito
bem, meu querido Lenet! Mas quem fará as minhas vezes, quem me representará? - ajuntou a princesa, com uma certa inquietação.
- Não lhe dê isso cuidado, senhora -
respondeu o imperturbável conselheiro. - A princesa de Conde, de quem quero servir-me, e que tenho destinada para ser guardada à vista pelo espião de Mazarino, acaba de se despir à pressa, e neste momento mete-se na cama de Vossa Alteza.
Eis agora como se passou a cena de que
Lenet acabava de dar conta à princesa.
Enquanto os gentis-homens iam
continuando, na sala do banquete, a beber, fazendo brindes aos príncipes e amaldiçoando Mazarino; enquanto Lenet ajustava no seu gabinete com Cauvignac a troca da assinatura em branco; enquanto, finalmente, a princesa fazia os seus últimos preparativos de partida, um cavaleiro apresentara-se à cancela principal do castelo, seguido do seu lacaio, e tocara a sineta.
O porteiro abriu a porta, mas, por
detrás dele, o recém-chegado vira o homem da alabarda de que já temos falado.
- De onde vem? - perguntou este.
- De Nantes - respondeu o cavaleiro.
Até aqui tudo ia bem.
- Para onde vai? - continuou o
alabardeiro.
- Para casa da princesa viúva de Conde,
em primeiro lugar; para casa da princesa, e, por fim, para casa do duque de Enghien.
- Aqui não se entra! - disse o
alabardeiro, atravessando a alabarda.
- Venho por ordem do rei! - respondeu
o cavaleiro, tirando um papel da sua algibeira.
Ao soarem estas temíveis palavras, a
alabarda baixara-se, a sentinela chamara, um oficial da casa acudira, e o mensageiro de Sua Majestade, tendo entregue a carta de recomendação, fora no mesmo instante introduzido nos quartos.
Por felicidade, Chantilly era muito
grande, e os quartos da duquesa viúva estavam longe da galeria onde tinham lugar as últimas cenas do estrondoso banquete cuja primeira parte esboçamos.
Se o mensageiro tivesse dito que queria
ver em primeiro lugar a princesa e seu filho, tudo se perderia irremediavelmente. A etiqueta, porém, determinava que desde logo cumprimentasse a princesa viúva. O camareiro fê-lo entrar num grande gabinete contíguo ao quarto de dormir de Sua Alteza.
- Rogo-lhe que espere um momento,
senhor - disse-lhe ele. - Sua Alteza sentiu-se de súbito incomodada anteontem, e acaba de ser sangrada, ainda não há duas horas, pela terceira vez. Vou anunciar-lhe a sua chegada, e, dentro de um minuto, terei a honra de introduzi-lo.
O gentil-homem fez um aceno com a
cabeça, como quem assentia ao que se lhe propunha, e ficou só, sem reparar que pelos buracos das fechaduras três cabeças curiosas o estavam espreitando, e faziam diligências para reconhecê-lo.
O primeiro era Pedro Lenet; depois
Vialas, o escudeiro do príncipe; e o terceiro La Rossière, capitão das caçadas. Se algum deles tivesse reconhecido o gentil-homem, entraria logo, e sob o pretexto de lhe fazer companhia, trataria de diverti-lo, e ganhar tempo. Nenhum deles, porém, pudera reconhecer aquele que tanto interesse tinham em chamar ao seu partido. Era um formoso mancebo com a farda de infantaria; olhava com uma indiferença - que facilmente se tomaria como desagrado pela comissão de que vinha encarregado - para os retratos de família, e para os móveis do gabinete, cravando os olhos com afinco no retrato da princesa viúva, a cuja presença ia ser introduzido, e que fora tirado no mais belo momento da sua mocidade.
Fiel, contudo, à promessa feita,
passados apenas alguns minutos o camareiro veio ter com o cavaleiro para conduzi-lo à presença da princesa viúva. Carlota de Montmorency havia-se sentado na cama; o seu médico Bourdelot acabava de se apartar da cabeceira, e, encontrando o oficial no limiar da porta, fez-lhe uma cortesia muito cerimoniosa, a que o oficial correspondeu do mesmo modo.
Quando a princesa ouviu os passos do
visitante, e as palavras que dizia ao médico, fez um sinal rápido para os lados da parede, e então a tapeçaria de pesadas franjas que envolvia o leito, à exceção do lado que a princesa viúva queria deixar aberto para receber a visita, agitou-se imperceptivelmente durante dois ou três segundos.
Entre a parede e a cama da princesa
viúva, estava a jovem princesa de Conde, que entrara por uma porta secreta que havia no entabuamento do quarto de Lenet, o qual estava impaciente por saber, logo no princípio da conversa, o que podia dar lugar a que viesse um mensageiro do rei procurar as princesas de Chantilly. O oficial deu três passos no quarto e inclinou-se, com um respeito que bem se via não ser somente ditado pela etiqueta.
A princesa viúva fitara nele os seus
grandes olhos pretos, com o ar soberbo de uma rainha que está a ponto de se encolerizar; o seu silêncio ameaçava tempestades. A alva mão, que mais alva se tornara com a tripla sangria, fez sinal ao mensageiro para que entregasse o despacho de que era portador.
O capitão estendeu a mão para a
princesa, e nela depositou respeitosamente a carta de Ana de Áustria. Depois, esperou que a princesa viúva tivesse lido as quatro linhas que nela se continham.
- Muito bem! - disse entre dentes a
princesa, dobrando o papel com enorme sangue-frio, para não parecer afetada. - Compreendo qual é a intenção da rainha, apesar de envolvida em palavras polidas: o senhor é o meu carcereiro.
- Senhora!... - disse o oficial,
perturbado.
- Presa fácil de guardar, senhor -
replicou a princesa - visto que não estou em estado de fugir para muito longe; e tenho, como viu quando aqui entrou, um guarda severo, que é o meu médico, o senhor Bourdelot.
Dizendo estas palavras, a princesa
viúva cravou mais fixamente os olhos no mensageiro, cuja fisionomia lhe pareceu agradável, e, portanto, entendeu que lhe cumpria mitigar um pouco o amargo acolhimento feito ao portador de uma tal ordem.
- Eu bem sabia - continuou ela - que
Mazarino era capaz de muitas violências indignas; mas não julgava que fosse tão medroso para recear uma mulher velha e doente, uma pobre viúva, e um menino, pois presumo que a ordem de que é portador também diz respeito a minha filha e ao duque meu neto...
- Senhora - disse o mancebo - ficaria
desesperado se vossa alteza me julgasse pela comissão que me vejo obrigado a desempenhar. Cheguei a Nantes sendo portador de uma mensagem para a rainha. O pós-escrito da mensagem recomendava o mensageiro a sua majestade; a rainha teve então a bondade de me dizer que ficasse junto dela, visto que, segundo toda a probabilidade, teria necessidade dos meus serviços. Passados dois dias, a rainha mandou-me aqui; mas, aceitando, como era dever meu, a comissão, qualquer que ela fosse, de que sua majestade se dignava encarregar-me, atrever-me-ei a dizer que não a solicitei, e que até a teria recusado, se os reis fossem pessoas capazes de sofrer uma recusa.
Proferindo estas palavras, o oficial
inclinou-se segunda vez, tão respeitosamente como o fizera da primeira.
- Retiro bons indícios dessa explicação,
e lisonjeio-me agora por poder ficar doente em repouso. Porém, nada, nada de falsa vergonha, senhor! Diga-me sem mais demora a verdade. Serei vigiada no meu quarto, como o fazem ao meu pobre filho em Vincenas? Terei o direito de escrever? E serão abertas ou não as minhas cartas? Se, contra toda a probabilidade, esta doença permitir que me levante, limitar-se-me-ão os meus passeios?...
- Senhora - respondeu o oficial - são
estas as instruções que a própria rainha em pessoa se dignou dar-me: - Garanta a minha prima de Conde - disse-me sua majestade - que eu farei em favor dos príncipes tudo quanto a segurança do Estado me permitir que faça. Rogo-lhe, por esta carta, que receba um dos meus oficiais, que possa servir de intermediário entre ela e mim, para as mensagens que tenha de enviar-me. Este oficial -ajuntou a rainha - será o senhor. Eis, senhor - continuou o mancebo, sempre com as mesmas demonstrações respeitosas - quais foram as próprias palavras de sua majestade.
A princesa ouvira esta narração com o
solícito cuidado que se emprega para surpreender uma nota diplomática nos sentidos que muitas vezes resultam de uma palavra colocada nesta ou naquela posição, ou de uma vírgula posta neste ou naquele lugar. Depois, passado um momento de reflexão, vendo sem dúvida na mensagem tudo quanto nela desde logo receara encontrar - isto é: uma espionagem à queima-roupa - a princesa mordeu os lábios, e disse:
- Alojar-se-á em Chantilly, senhor,
conforme os desejos da rainha. Além disso, dirá qual é o quarto que mais lhe agrada, e mais cômodo lhe pareça para desempenhar o seu encargo - e esse quarto será o seu.
- Senhora - respondeu o gentil-homem,
franzindo um tanto as sobrancelhas - tive a honra de expor a vossa alteza alguns pormenores, o que não foi mencionado nas instruções que me deram. Entre a cólera de vossa alteza e a vontade da rainha, estou perigosamente colocado, eu, que sou um pobre oficial e sobretudo um mau cortesão; parece-me, contudo, que vossa alteza poderia dar provas de generosidade, abstendo-se de mortificar um homem que não é mais do que um instrumento passivo. Para mim, senhora, é muito penoso ter de fazer o que faço. Todavia, uma vez que a rainha assim o ordenou, é meu dever obedecer religiosamente às suas ordens. Eu não teria pedido um tal emprego, e dar-me-ia por muito feliz se o tivessem dado a outrem; entendo que já disse o bastante...
E o oficial ergueu a cabeça com um
vermelhão nas faces que fez subir ao rosto altivo da princesa uma igual cor.
- Senhor - replicou ela - seja qual for a
graduação em que estejamos colocados, como bem o disse, devemos obediência a sua majestade. Eu seguirei o exemplo que me dá, e obedecerei como o senhor. No entanto, deve compreender quanto é cruel não poder uma pessoa receber em sua casa um digno gentil-homem como o senhor, e não ter a faculdade de fazer à sua vontade as honras da casa. A partir deste momento, é aqui o senhor. Dê as suas ordens.
O oficial saudou profundamente a
princesa e replicou:
- Senhora, não permita Deus que me
esqueça da distância que me separa de vossa alteza, e do respeito que devo à sua casa. Vossa alteza continuará a dar as suas ordens como dantes, e eu serei o primeiro dos seus servidores.
E, proferindo estas palavras, o gentil-
homem retirou-se, sem acanhamento, sem servilismo, sem altivez, deixando a princesa viúva agitada de uma cólera mais intensa, precisamente por não poder queixar-se de um mensageiro tão discreto e tão respeitoso. Este foi o motivo por que, durante aquela tarde, só de Mazarino se falou na conversa que se travou entre as pessoas que se encontravam entre cama e parede, conversa que teria fulminado o ministro, se as maldições tivessem a faculdade de matar como os projéteis.
O gentil-homem encontrou, na
antecâmara, o lacaio que o havia introduzido.
- Agora, senhor - disse este,
aproximando-se do mensageiro - a princesa de Conde, a quem pediu audiência da parte da rainha, consente em recebê-lo; tenha a bondade de seguir-me.
O oficial compreendeu este
subterfúgio, que punha a salvo o orgulho das princesas, e mostrou-se tão agradecido ao favor que lhe fazia, como se este favor não fosse imposto por ordem superior. Atravessando os quartos, guiado pelo criado, chegou à porta da câmara da princesa.
Ali chegados, o criado voltou-se. - A princesa - disse ela - meteu-se na
cama, ao voltar da caça, e como está fatigada, recebê-lo-á deitada como está. Quem direi a sua alteza que a procura?
- Diga-lhe que é o barão de Canolles, da
parte de sua majestade a rainha-regente - respondeu o mancebo.
Ao proferir este nome, que a suposta
princesa ouviu da cama, fez esta um movimento de sobressalto, que, se fosse visto, teria excessivamente comprometido a sua identidade. Baixando precipitadamente com a mão direita a touca sobre os olhos, enquanto com a esquerda aproximava do queixo a cortina do seu leito, ordenou, com voz alterada:
- Mande entrar. O oficial entrou.
XVI
SENHORA DE CONDE
CANOLLES foi introduzido num vasto
quarto guarnecido por uma tapeçaria sombria, e alumiado apenas por uma lamparina colocada em cima de um bufete entre as duas janelas; com o socorro da pouca luz que derramava, contudo, pôde distinguir por cima da lamparina um grande retrato representando uma mulher pintada, em pé, e dando a mão a um menino.
Nas cornijas dos quatro ângulos,
cintilavam as três flores-de-lis de ouro, a que bastava tirar a banda para se fazer delas as três flores-de-lis de França. Enfim, no fundo de uma grande alcova, onde apenas penetrava a fraca e trêmula luz, distinguia-se, debaixo das pesadas cortinas de um leito, a mulher em quem o nome do barão de Canolles produzira tão singular efeito.
O gentil-homem tornou a começar as
formalidades do uso - isto é: deu os três passos de rigor, aproximando-se, saudou, e deu ainda outros três passos. Depois do que duas camareiras, que sem dúvida tinham ajudado a princesa a meter-se na cama, se retiraram, o camareiro tornou a fechar a porta, e Canolles ficou só com a princesa.
Não era a Canolles que pertencia
encetar o diálogo; esperou, portanto, que lhe falassem. Como, porém, a princesa parecesse por seu turno querer guardar um obstinado silêncio, o jovem oficial entendeu que seria melhor pôr de parte as formalidades e não se conservar mais tempo numa posição tão incômoda; não deixava, contudo, de reconhecer que a tempestade que se continha neste desdenhoso silêncio rebentaria às primeiras palavras que o rompessem, e que tinha de expor-se a uma segunda cólera da parte daquela princesa, ainda mais temível do que a primeira, pois era moça e mais interessante.
Mas o próprio excesso da afronta que
se lhe fazia deu alentos ao jovem gentil-homem, e, inclinando-se pela terceira vez, segundo a circunstância - isto é, com uma saudação compassada e pouco profunda, presságio de mau humor que queimava o seu cérebro de gascão, adiantou:
- Senhora, eu tive a honra de pedir, da
parte de sua majestade a rainha-regente, uma audiência a vossa alteza, favor que se dignou conceder-me. Agora quererá vossa alteza levar ao cúmulo as suas bondades, dando-me a conhecer, por uma palavra, por um aceno, que se dignou fazer reparo em mim e que está pronta a ouvir-me?
Um movimento nas cortinas, e debaixo
das cobertas, advertiu Canolles de que iam responder-lhe.
Com efeito, escutou-se uma voz que se deixou ouvir quase sufocada, tamanha era a sua comoção.
- Fale, senhor - disse esta voz - eu
presto-lhe atenção.
Canolles tomou o tom oratório e
principiou:
- Sua majestade a rainha - disse ele -
envia-me para junto de si, senhora, a fim de assegurar a vossa alteza o desejo que tem de continuar convosco as suas boas relações de amizade.
Um movimento visível teve lugar entre
a parede e o leito, e a princesa, interrompendo o orador, afirmou, com voz comovida e palavras cortadas:
- Senhor, não me fale já da amizade que
reina entre sua majestade a rainha e a casa de Conde; existem provas em contrário nas masmorras da torre de Vincenas.
"Pelo que vejo - disse Canolles consigo -
parece que se combinaram, e que me repetirão todos a mesma coisa."
Neste lapso de tempo, um novo movimento, em que o mensageiro não reparou graças ao embaraço em que o punha a sua situação, registrava-se entre o leito e a parede. A princesa continuou:
- Explique-se, senhor; que quer? - Eu, quanto a mim, nada quero,
senhora - disse Canolles endireitando-se. - Sua majestade a rainha é quem me ordena que entre neste castelo, que faça, por indigno que eu seja desta honra, companhia a vossa alteza, e que contribua quanto me seja possível para o estabelecimento da boa harmonia entre os príncipes de sangue real, desunidos sem motivo num tempo tão doloroso.
- Sem motivo?! - exclamou a princesa. -
Entende que o nosso rompimento seja sem motivo?...
- Perdoe-me, senhora - replicou
Canolles. - Eu nada pretendo; não sou juiz, nem sou mais do que intérprete.
- E enquanto essa boa harmonia se não
se restabeleça, a rainha manda-me espiar, sob o pretexto...
- Quer dizer - disse Canolles,
exasperado - sou um espião! Eis em mim a palavra que proferiu! Agradeço a vossa alteza a sua franqueza.
E com o desespero que principiava a
apoderar-se dele, Canolles fez um daqueles belos movimentos que os pintores buscam com tanta avidez para os seus retratos inanimados, e os atores para os seus retratos vivos.
- Portanto, está decidido: sou um
espião - continuou Canolles. - Ora, pois, senhora, trate-me como são tratados tais miseráveis: esqueça-se de que sou o enviado de uma rainha, de que esta rainha responde por todas as minhas ações, de que não sou mais que um átomo obediente ao seu sopro. Mande expulsar-me pelos seus lacaios, mande matar-me pelos seus gentis-homens, ponha diante de mim homens a quem eu possa responder com o bastão ou com a espada! Mas digne-se não insultar tão cruelmente um oficial que desempenha ao mesmo tempo o seu dever de soldado e de vassalo, senhora, que está colocada em tão alta graduação pelo nascimento, pelo merecimento e pela desgraça!
Estas palavras, escapadas do coração,
dolorosas como um gemido, estridentes como uma repreensão, deviam produzir -e produziram - o seu efeito. Ouvindo-as, a princesa levantou-se um pouco, apoiada no cotovelo, com os olhos cintilantes, mão trêmula, e fazendo um gesto angustioso ao mensageiro:
- Não permita Deus - disse ela - que
seja intenção minha insultar um tão bravo gentil-homem como o senhor. Não, senhor de Canolles, não. Não desconfio da sua lealdade; dê por não ditas as palavras que proferi. São ofensivas, reconheço-o, e eu não queria ofendê-lo. Não, não, o senhor é um nobre cavaleiro, senhor barão, eu faço-lhe justiça plena e completa.
E como, para pronunciar estas palavras, arrastada sem dúvida por um instinto generoso que lhas arrancava do coração, a princesa se adiantara, involuntariamente, para além da sombra formada pelas densas cortinas; como fora possível ver-se a sua fronte branca sob a sua touca, os seus louros cabelos divididos em tranças, os lábios muito vermelhos, os olhos úmidos e meigos - Canolles estremeceu, porque acabava de lhe passar por diante dos olhos uma espécie de visão, e porque julgou respirar de novo um perfume cuja simples lembrança o embriagava. Pareceu-lhe que uma daquelas portas de ouro pelas quais passam os belos sonhos se abria, para dar passagem a um enxame de risonhos pensamentos e a todas as alegrias do amor, que dele fugira, e que de novo o vinha procurar. Os seus olhos fixaram-se mais segura e claramente no leito da princesa, e, no curto espaço de um segundo, durante o rápido clarão de um relâmpago que alumiava todo o passado, reconheceu na princesa que via deitada diante de si o visconde de Cambes.
Havia alguns momentos que a agitação
de Canolles era tal, que a falsa princesa a atribuiu àquela penosa repreensão que tanto a fizera sofrer. E como o movimento que tinha feito não durara, como deixamos dito, mais do que um instante; como tivera o cuidado de buscar, no mesmo momento, a sombra das cortinas, encobrindo de novo os olhos, ocultando sem a mínima demora a mão, tão branca e delicada que a teria podido dar a conhecer - tentou, não sem abalo, mas pelo menos sem inquietação, continuar a conversa no ponto em que a deixara.
- Dizia, pois, senhor?... - disse a jovem
senhora.
Canolles, porém, estava deslumbrado,
fascinado; as visões passavam e repassavam por diante dos seus olhos, as idéias redemoinhavam-lhe na cabeça; perdia a memória, não sabia o que dizia; estava a ponto de faltar ao respeito e de interrogar. Um único instinto, aquele talvez que Deus pôs no coração das pessoas que amam, e a que as mulheres dão o nome de timidez - e afinal não é mais do que avareza - aconselhou Canolles a que ainda dissimulasse, que esperasse, que não perdesse o seu sonho, que não comprometesse, por uma palavra imprudente, e proferida com demasiada precipitação, a ventura de toda a sua vida.