A Guerra das Mulheres

Alexandre Dumas · Capítulo 2 de 5 · parte 1/3

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A Guerra das Mulheres

Capítulo IV

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

ENQUANTO o barão de Canolles procurava inutilmente quem com ele ceasse, e, cansado das suas infrutuosas diligências, se decidira por fim a cear sozinho, verifiquemos, entretanto, o que se passava em casa de Nanon.

Apesar de quanto tenham dito e escrito

os seus inimigos, e no número destes inimigos seja necessário contar a maior parte dos historiadores que dela se ocuparam, era nesta época uma encantadora criatura de vinte e cinco a vinte e seis anos, de pequena estatura, trigueira, porte ágil e airoso, vivas e frescas as cores, e olhos muito negros, cuja córnea límpida raiava, como a dos gatos, todos os fogos aí reflexos. Festiva à superfície, risonha na aparência, Nanon estava, todavia, bem longe de submeter o seu espírito a todos os caprichos: a todas as futilidades que marcam com loucos arabescos a trama macia e dourada de que ordinariamente se compõe a vida de uma mulher garrida. Antes pelo contrário, as mais graves deliberações, dura e largamente ponderadas na sua inquieta cabeça, assumiam um aspecto simultaneamente pleno de sedução e de lucidez, ao serem transmitidas por uma voz vibrante na qual estava profundamente impresso o acento gascão. Ninguém teria adivinhado, ao ver tal lascara rosada de feições finas e risonhas, que por detrás daquele olhar cheio de promessas voluptuosas e cintilante de vivos ardores, se encobrisse a perseverança infatigável, a tenacidade invencível e a profundidade dos intuitos, comuns ao homem de Estado. E, contudo, estas eram as qualidades - ou os defeitos - de Nanon, conforme lhe os quiserem examinar; ou então, reverso da medalha, tal era o espírito calculista e o coração ambicioso aos quais servia de invólucro um corpo cheio de elegância.

Nanon era natural de Agen. O duque

d’Épernon, filho do inseparável amigo de Henrique IV que seguia na sege real no momento em que a faca de Ravaillac feriu o monarca, e a respeito de quem não deixaram de conceber-se suspeitas que chegaram aos ouvidos de Catarina de Médicis - o duque d’Épernon, nomeado governador da Guiena, onde a sua arrogância, as suas insolências e os seus exageros o tinham feito odiar, distinguira com o olhar esta pequena burguesa, filha de um simples advogado. Havia-o namorado, e dela triunfara a muito custo, depois de uma defesa sustentada com toda a habilidade de um grande táctico, que fizera sentir ao seu vencedor todo o preço da vitória. Em compensação pela reputação já perdida, porém, Nanon arrebatara ao duque o poder e a liberdade. Passados seis meses de ligação com o governador de Guiena, era ela quem na realidade governava esta bela província, fazendo pagar com usura aos que outrora a haviam ofendido, ou humilhado, os agravos e ofensas que deles recebera. Rainha por acaso, fez-se tirana por cálculo, pressentindo, com a sua sutil inteligência, que era necessário compensar por meio do abuso a provável brevidade do reinado.

Conseqüentemente, de tudo lançou

mão, de tudo se apoderou - tesouros, influências e honras. Foi rica, deu empregos, recebeu as visitas de Mazarino e dos primeiros senhores da corte. Jogando com admirável destreza os diversos elementos de que dispunha, fez deles um conjunto útil ao seu crédito e proveitoso à sua fortuna. Cada favor que Nanon fazia tinha o seu preço. Um posto no exército, um emprego na magistratura, tudo tinha o seu preço. Nanon mandava criar determinado posto, ou emprego, mas pagavam-lhes em bela e corrente moeda, ou então com algum rico e real presente; de modo que, cedendo uma ínfima parte de poder em benefício de alguém, recuperava esse fragmento em outra espécie, dando a autoridade, mas guardando para si o dinheiro, que era o seu ídolo. Será esta a explicação para a duração do seu reinado; porquanto os homens, no seu ódio, hesitam em derrubar um inimigo a quem possa restar uma compensação. O que a vingança quer é uma ruína total, é uma prostração completa. Os povos expulsam com pesar um tirano que lhes leva o seu ouro e que se vai rindo. Nanon de Lartigues tinha dois milhões de francos. Este o motivo por que ela vivia com uma certa segurança em cima de um vulcão que, sem cessar, tudo abalava em torno dela; vira o ódio popular subir como a maré, crescer e ruir, com as suas vagas, o poder do senhor d’Épernon, que, expulso de Bordéus num dia de cólera, arrastara consigo Nanon, do mesmo modo que a lancha segue o navio. Nanon cedeu à tormenta, decidida a de novo se erguer, quando ela tivesse passado; tomara Mazarino por modelo e, humilde discípula, praticava à distância a política do astuto e flexível italiano. O cardeal atentou nesta mulher, que ia engrandecendo e enriquecendo à força dos mesmos meios que o haviam feito primeiro-ministro e possuidor de uma fortuna de cinqüenta milhões. Admirou a pequena gascoa e ainda fez mais: não se lhe opôs; e talvez que um dia se saiba o motivo por que assim o fez.

Apesar de tudo isso, e mau grado

alguns - que diziam estar mais bem informados - pretenderem que ela se correspondia diretamente com Mazarino, pouco se falava nas intrigas políticas da bela Nanon. O próprio Canolles, que era um belo moço e rico, não podia compreender que fosse preciso ser intrigante, nem sabia formar juízo a tal respeito. Quanto às intrigas amorosas de Nanon, quer porque, ocupada por mais graves cuidados, as adiasse para mais tarde, quer porque o clamor do amor que o senhor D’Épernon lhe tinha, houvesse absorvido o ruído que podiam fazer outros amores secundários, os seus próprios inimigos não haviam sido pródigos de escândalo para com ela. E Canolles podia com alguma razão, dominado pelo seu amor-próprio pessoal e nacional, acreditar que Nanon fora invencível antes da sua chegada. Quer tivesse Canolles sido na verdade objeto do primeiro impulso amoroso daquele coração, apenas acessível à ambição, quer houvesse a prudência aconselhado aos seus predecessores uma discrição absoluta, Nanon, a amante, devia ser uma encantadora mulher; mas Nanon, ofendida, devia ser uma terrível inimiga.

O conhecimento de Nanon e de

Canolles fizera-se do modo mais natural. Tenente no regimento de Navailles, Canolles quisera ser capitão; para isso teve que escrever ao senhor D’Épernon, coronel-geral da infantaria. Foi Nanon quem leu a carta: respondeu como costumava, julgando ser mais um negócio a tratar, e para isso convidou Canolles a falar-lhe em sítio combinado. Canolles escolheu entre as jóias da sua família um anel magnífico, e que valeria cinco mil francos - o que sempre era mais barato do que comprar uma companhia - e dirigiu-se ao lugar determinado; mas desta vez o vencedor Canolles, precedido do seu pomposo acompanhamento de conquistas amorosas, derrotou os cálculos e a fiscalização da menina de Lartigues. Era a primeira vez que via Nanon; era a primeira vez que Nanon o via. Ambos jovens, formosos e espirituosos. A conferência passou-se em galanteios recíprocos; do negócio que tinham de tratar não se disse palavra, mas nem por isso deixou de ficar concluído. No dia seguinte, Canolles recebeu a sua patente de capitão, e quando o anel precioso passou do seu dedo para o de Nanon, não foi como preço da ambição satisfeita, mas como prenda do amor feliz.

V

QUANTO as razões para a residência

de Nanon se situar perto da aldeia de Matifou, a história no-lo dirá. O duque d’Épernon, como já dissemos, era detestado na Guiena. Nanon, a quem haviam concedido a honra de lhe incutir mau gênio, ali se tornara execranda. O tumulto do povo expulsou-os de Bordéus e impeliu-os para Agen. Mas em Agen o tumulto repetiu-se. Um dia, numa ponte, despistaram a carruagem dourada em que Nanon ia ter com o duque. Sem se saber como tal acontecera, Nanon achou-se no rio, e foi Canolles quem a salvou. Certa noite, incendiou-se a casa que ela ocupava na cidade, e foi também Canolles quem, muito a propósito, penetrou até ao quarto da jovem e a salvou do fogo. Nanon julgou que numa terceira tentativa os ageneses poderiam ser mais bem sucedidos, visto que apesar de Canolles se afastar dela o menos que lhe era possível, seria um milagre estar sempre em circunstâncias de a poder salvar. Aproveitou pois a partida do duque - que ia dar uma volta pelo seu governo, acompanhado por uma escolta de mil e duzentos homens, para a qual o regimento de Navailles havia fornecido a parte que lhe competia - e saiu da cidade juntamente com Canolles, olhando com desprezo, da portinhola da sua sege, para a populaça, que bem quisera fazer em pedaços a sege, mas que a isso se não atrevia.

Então, o duque e Nanon escolheram -

ou para melhor dizer: Canolles escolheu secretamente - a pequena casa de campo, onde se combinou que Nanon ficaria enquanto não estivesse pronta uma casa em Libourne. Canolles conseguiu uma licença para, segundo alegou, terminar em sua casa alguns negócios de família; na realidade, porém, obteve-a para ter o direito de se afastar do regimento, que voltava a Agen, e assim não se apartar demasiado de Matifou, onde a sua presença protetora era mais urgente do que nunca. Com efeito, os acontecimentos principiavam a tomar uma gravidade assustadora: os príncipes de Conde, de Conti, de Longue-ville, presos a 17 de Janeiro precedente e encerrados em Vincennes, ofereciam aos quatro ou cinco partidos em que então estava dividida a França, um excelente pretexto para uma guerra civil. A impopularidade do duque d’Épernon, que todos sabiam seguir o partido da corte, crescia sem cessar, se bem que a razão levasse a crer que não fosse possível ir mais além o descontentamento. Uma catástrofe desejada por todos os partidos, que na estranha situação em que a França se encontrava, não sabiam em que ponto estavam, tornava-se iminente. Nanon, como as aves que de longe vêem o aproximar da tempestade, desapareceu e tornou a esconder-se entre a folhagem, para ali aguardar, obscura e ignorada, o desenrolar dos acontecimentos.

Fingiu ser uma viúva que procurava

retiro: desta maneira - e decerto o recordamos - a havia designado o estalajadeiro Biscarros.

O senhor d’Épernon, portanto, havia

visitado na véspera a linda reclusa, informando-a de que partia para dar uma volta pela província, no que empregaria uns oito dias. E mal ele seguira viagem, Nanon enviara pelo recebedor - que era seu protegido - duas linhas a Canolles, o qual, graças à sua licença, se conservava naqueles arredores. O bilhete original que continha aquelas duas linhas, havia desaparecido nas mãos do mensageiro, e convertera-se na cópia de convite escrita pela mão de Cauvignac. A este convite se apressava o mancebo a acudir, quando o visconde de Cambes o detivera a quatrocentos passos do ponto fatal.

O resto, já sabemos.

Portanto, Nanon esperava Canolles,

como espera uma mulher que ama - isto é: consultando dez vezes em cada minuto o relógio, chegando a cada momento à janela, escutando o menor ruído, interrogando com os olhos o Sol, vermelho e exuberante, que se ocultava por detrás da montanha para dar lugar às primeiras sombras da noite. Em primeiro lugar bateram à porta da frente, e ela mandou Francineta abrir. Porém, era apenas o moço da cozinha que trazia a ceia, à qual faltava o convidado. Nanon lançou os olhos à antecâmara e viu o falso mensageiro de Biscarros, que, por seu turno, fixava os olhos no quarto de dormir, onde estava posta uma pequena mesa com dois talheres. Nanon recomendou a Francineta que conservasse as viandas quentes, fechou de novo a porta, com tristeza, e voltou à janela, que lhe mostrava, tanto quanto podia ver no meio das trevas, a estrada vazia.

Uma segunda pancada, uma pancada

dada de um modo particular, retumbou na porta das traseiras, e Nanon exclamou:

- Ei-lo aí!

Todavia, com o receio de que ainda não

fosse ele, deixou-se ficar de pé e imóvel no meio do corredor. Passado um instante, abre-se a porta, e Francineta aparece no limiar desta com ar consternado, muda, tendo na mão um bilhete. A jovem senhora, vendo o papel, dá um salto para a criada, arrancando-lho da mão, abre-o rapidamente, e lê, angustiada.

Nanon ficou meio morta com a leitura.

Verdade seja dita que muito amava Canolles; nela, porém, a ambição era um sentimento quase igual ao do amor e, perdendo o duque d’Épernon, perdia não só toda a sua fortuna futura, mas talvez que também a sua fortuna passada. Contudo, como era mulher sagaz, começou por apagar a vela, para que não fosse vista a sua sombra e correu à janela. Era mais que tempo: quatro homens aproximavam-se da casa de onde já não distavam mais de uns vinte passos. O homem de capote vinha à frente, e Nanon, sem a mínima dúvida, reconheceu o duque. Neste momento Francineta entrava com uma vela na mão. Nanon lançou um olhar de desespero à mesa, aos dois talheres, as duas cadeiras, às duas almofadas bordadas, cuja insolente alvura tanto sobressaía sobre o carmesim das cortinas de damasco e, por fim, ao seu encantador desalinho, que em tamanha harmonia estava com todos estes preparativos.

"Estou perdida" - disse ela consigo

mesma.

Mas quase no mesmo instante caiu em

si e um sorriso lhe deslizou pelos lábios. Mais lesta do que o relâmpago, lançou mão do simples copo de cristal destinado para Canolles, e atirou com ele para o jardim; tirou de um estojo o copo de ouro com as armas do duque, colocou ao pé do seu prato o talher de prata dourada e depois, fria de terror mas com um sorriso composto à pressa, desceu apressadamente os degraus da escada, e chegou à porta no momento em que acabava de retumbar uma pancada grave e solene.

Francineta quis abri-la; mas Nanon

segurou-lhe o braço, empurrou-a para o lado, e com aquele rápido olhar que tão bem interpreta o pensamento das mulheres que assim se acham surpreendidas:

- É o senhor duque quem eu espero -

disse ela - e não o senhor de Canolles. Serve a ceia.

Depois, correu ela mesma os ferrolhos,

e, lançando-se ao pescoço do homem de pluma branca, que se dispunha a fazer-lhe uma carranca das mais ferozes, exclamou:

- Ah! O meu sonho não me enganou!...

Venha, meu querido duque, está servido, vamos cear.

D’Épernon ficou estupefato; mas como

as carícias de uma linda mulher sempre são muito agradáveis, deixou-se abraçar. No mesmo instante, porém, lembrando-se das terríveis provas de que dispunha, opôs:

- Devagar, menina; será bom que nos

expliquemos.

Com a mão fez um sinal aos seus

acólitos, que se afastaram respeitosamente, sem todavia se retirarem de todo, e entrou só, e com passo grave e compassado.

- Que se passa, meu querido duque? -

disse-lhe Nanon com uma alegria tão bem fingida que poderia julgar-se natural. - Dar-se-á o caso que esqueceu alguma coisa a última vez que aqui veio... olha para todos os lados com tanto cuidado...

- Sim - disse o duque. - Esqueceu-me

dizer-lhe que não sou pateta, um idiota como aquele que Cyrano de Bergerac introduziu nas suas comédias. E por ter esquecido de dizer-lho, volto em pessoa para provar-lho.

- Não o compreendo, senhor - disse

Nanon, no tom mais sereno e mais franco. - Peço-lhe que se explique.

Os olhos do duque fixaram-se nas duas

cadeiras, das duas cadeiras passaram aos dois talheres, dos dois talheres aos dois travesseiros. Nestes se demoraram mais tempo, e a vermelhidão da cólera subiu-lhe ao rosto.

Nanon antevira tudo isto, e esperava o

resultado do exame com um sorriso, que deixava ver os seus dentes tão brancos como pérolas - com a única diferença de que o sorriso muito se assemelhava a uma crispação, e aqueles dentes tão brancos teriam batido uns nos outros, se a angústia os não cerrasse.

O duque tornou a olhar para ela,

colérico.

- Continuo a esperar as ordens de vossa senhoria - disse Nanon, com uma graciosa reverência.

- As ordens de minha senhoria - volveu

ele - é que me explique qual é o motivo desta ceia.

- O motivo, como já disse, é que tive

um sonho revelador de que, apesar de se ter despedido de mim ontem, voltaria hoje. Ora, os meus sonhos nunca me enganam; mandei, portanto, preparar esta ceia para nós.

O duque fez uma careta, pretendendo

fazê-la passar por um sorriso irônico.

- E essas duas almofadas? - perguntou. - Dar-se-á o caso de que vossa senhoria

tem intenção de ir pernoitar a Libourne?... Em tal caso, o meu sonho ter-me-ia enganado, visto que anunciava que ficaria aqui.

O duque fez segunda careta, ainda

mais significativa do que a primeira.

- E esse elegante desalinho, senhora? E

esses esquisitos perfumes?...

- É o trajo que costumo usar quando espero por vossa senhoria. Estes perfumes procedem das almofadinhas de cueiro que meto nos armários, que vossa senhoria afirma preferir a todas as outras, visto ser também o gosto da rainha.

- Então esperava-me?... - continuou o

duque, com um sorriso irônico.

- Ora, senhor - disse Nanon, franzindo

as sobrancelhas por seu rumo - parece-me que deseja passar revista aos armários... Dar-se-á o caso de se ter tornado ciumento?

O duque compôs um ar majestoso: - Eu, ciumento!... Oh, não! graças a

Deus, não sou capaz de me tornar ridículo até tal ponto. Velho e rico, sei naturalmente que tenho de ser enganado; mas àqueles que me enganam, quero pelo menos provar-lhes que não deixo de conhecer o engano.

- E como lhes provará isso? - disse

Nanon - Tenho muita curiosidade em sabê-lo.

- Oh! não será difícil; bastar-me-á

mostrar-lhe este papel. - O duque tirou um papel da algibeira. - Não sou sonhador - prosseguiu. - Na minha idade já se não sonha, nem mesmo acordado; mas recebo cartas. Leia esta, que não deixa de ser interessante.

Nanon pegou a tremer no bilhete que

lhe apresentava o duque, e estremeceu ao ver a escrita; mas este estremecimento foi imperceptível, e leu em voz alta:

O senhor duque d’Épernon saberá que

um homem, há seis meses a esta parte senhor de grande familiaridade com a menina Nanon de Lartigues, deve ir a sua casa esta tarde, e nela ficará para cear e passar a noite.

Como se não quer que o senhor duque

d’Épernon tenha a menor incerteza a este respeito, participa-se-lhe que o feliz rival é o senhor barão de Canolles.

Nanon embatucou; o golpe era terrível.

"Ah! Rolando! Rolando!... - murmurou ela num sussurro.- E eu que me julgava desembaraçada de ti..."

- Estou bem informado?... - disse o

duque, com ar triunfante.

- Muito mal informado - respondeu-lhe

Nanon. - E se a sua polícia política não é mais competente do que a sua polícia amorosa, lastimo-o.

- Lastima-me?...

- Sim, senhor; porque, enfim, esse

senhor de Canolles, a quem dá a honra gratuita de julgá-lo seu rival, não está aqui; e, além disso, pode esperar, a ver se ele vem.

- Ele já veio!

- Ele?! - exclamou Nanon - Isso não é

verdade.

Desta vez, havia um acento de

profunda verdade na exclamação da acusada.

- Quer dizer que veio, e chegou até uns

quatrocentos passos daqui, e que parou na estalagem Bezerro de Ouro, o que foi uma felicidade para ele.

Nanon compreendeu que o duque não

estava tão seguro como ela crera ao princípio; encolheu os ombros, porquanto outra idéia sem dúvida suscitada pela carta que voltava e tornava a voltar na mão, principiava a tomar forma no seu espírito.

- Será possível - disse ela - que um

homem de gênio, um dos mais hábeis políticos do século, tenha a indiscrição de dar crédito a cartas anônimas!?...

- Mas enfim: por mais anônima que

seja, que explicação dá a esta?

- Oh! a explicação não é difícil: é uma

conseqüência dos obséquios que nos fazem os nossos amigos de Agen. O senhor de Canolles, para ir tratar de alguns negócios de família pediu-lhe uma licença que lhe concedeu; souberam que passaria por aqui, e a sua viagem serviu de fundamento a essa ridícula acusação.

Nanon percebeu que a fisionomia do

duque, longe de se desenrugar, cada vez se tornava mais carregada.

- A explicação seria boa - disse ele - se a

famosa carta que atribui aos seus amigos, não tivesse um certo pós-escrito, que na turbação em que está se esqueceu de ler.

O corpo todo da jovem senhora arrepiou-se de susto; via perfeitamente que se o acaso não acudisse em seu socorro, não poderia sustentar muito tempo a luta.

- Um pós-escrito?... - repetiu. - Sim, leia - disse o duque. - Tem a carta

nas mãos.

Nanon diligenciou sorrir; mas sentia

que as suas feições contraídas já não se prestavam a esta demonstração de serenidade; contentou-se em ler com a entoação mais firme que lhe foi possível:

- Tenho nas minhas mãos a carta da

menina de Lartigues ao senhor de Canolles, na qual o encontro de que falo está aprazado para hoje à noite. Devolverei esta carta em troca de uma assinatura em branco, que o senhor duque mandará entregar por um homem só, num batel do rio Dordonha, defronte da aldeia de Saint-Michel-la-Rivière, às seis horas da tarde.

- E teve a imprudência...?! - disse

Nanon.

- As suas letras são para mim tão preciosas, querida senhora, que entendi não haver pagamento demasiado caro para uma carta sua.

- Expor um tal segredo à indiscrição de

um confidente!... Ah! senhor duque!...

- Esta espécie de confidências, senhora,

recebe-se pessoalmente, e deste modo é que recebi esta. O homem que se dirigiu ao rio Dordonha fui eu mesmo.

- Então, tem a minha carta?... - Ei-la aqui.

Por um esforço rápido de memória,

Nanon tentou lembrar-se de que se continha naquela carta. Mas não lhe foi possível; o seu cérebro principiava a turbar-se.

Assim, não teve outro remédio senão

pegar na sua própria carta, e tornar a lê-la; apenas continha três linhas: Nanon lançou-lhe os olhos com avidez, e reconheceu com indizível alegria que a não comprometiam completamente.

- Leia em voz alta - disse o duque. -

Sucede-me o mesmo que a si; esqueci-me do conteúdo dessa carta.

Nanon recobrou o sorriso que debalde

buscara alguns segundos antes, e, acedendo ao convite do duque, leu:

- Cearei às oito horas. Está livre? Eu

estou. Em tal caso, seja pontual, meu querido Canolles, e nada receie relativamente ao nosso segredo.

- Parece-me que isto é bastante claro! -

disse o duque, pálido de furor.

"Eis a minha absolvição" - murmurou

intimamente Nanon.

- Ah!... - continuou o duque - tem um

segredo com o senhor de Canolles...

VI

NANON compreendeu que a mínima

hesitação, ainda que de um segundo apenas, a deitava a perder. Além disso, tivera tempo para amadurecer no seu cérebro o plano que lhe inspirava a carta anônima.

- Ora, pois, saberá - disse ela, cravando

os olhos no duque - que tenho um segredo com esse gentil-homem.

- Confessa-o?!...-exclamou o duque

d’Épernon.

- Não posso deixar de assim o fazer,

visto que não se lhe pode ocultar coisa alguma.

- Oh!... - bradou o duque. - Sim, eu esperava o senhor de Canolles

- continuou Nanon, com tranqüilidade.

- Esperava?...

- Esperava.

- E atreve-se a declará-lo?... - Com toda a franqueza. Agora, sabe

quem é o senhor de Canolles?...

- É um presunçoso, cuja imprudência

castigarei cruelmente.

- É um nobre e bravo gentil-homem, a

quem continuarei a conceder os favores seus.

- Oh! juro-lhe que tal não acontecerá! - Nada de juramentos, senhor duque;

pelo menos, antes de eu ter falado - respondeu Nanon, sorrindo-se.

- Fale, pois, e sem mais demora. - Não tem observado, o senhor que

aprofunda o que há de mais recôndito no coração - continuou Nanon - todas as minhas preferências para com o senhor de Canolles, as instâncias que tenho feito a respeito dele, aquela patente de capitão que lhe obtive, o dinheiro que lhe dei para uma viagem à Bretanha com o senhor de La Milleraye, aquela licença recente, o meu constante desvelo em servi-lo?...

- Senhora, senhora!... - disse o duque-

isso já passa dos limites!

- Por Deus, senhor duque! Espere que

lhe tenha dito tudo.

- Que necessidade tenho de esperar

mais tempo, e que lhe falta para dizer-me?...

- Que tomo pelo senhor de Canolles o

mais terno interesse.

- Muito bem o sei, ah! muito bem!... - Que lhe tenho o mais extremoso afeto. - Senhora, abusa!...

- Que o servirei até à morte, e isto

porque...

- Porque é seu amante... não é difícil de

adivinhar.

- Porque - continuou Nanon, lançando

mão com um movimento dramático ao braço do duque, que tremia de raiva - porque é meu irmão!

O duque d’Épernon deixou cair o

braço.

- Seu irmão?!... - balbuciou ele. Nanon fez um aceno afirmativo com a

cabeça, acompanhado de um sorriso de triunfo. Depois, passado um momento:

- Isto exige uma explicação! - exclamou

então o duque.

- E vou dar-lha - disse Nanon.- Em que

época morreu meu pai?

- Haverá - disse o duque, fazendo o seu

cálculo - uns oito meses.

- Em que época assinou aquela patente

de capitão para o senhor de Canolles?

- Parece-me que foi pouco mais ou menos na mesma data - continuou o duque.

- Quinze dias depois - disse Nanon. - Quinze dias depois... é possível. - É para mim muito triste - continuou

Nanon - ter de revelar a vergonha de outra mulher, de divulgar um tal segredo. Mas o seu estranho ciúme a isso me impele, as suas maneiras cruéis a isso me obrigam. Mas imitá-lo-ei, senhor duque: deixarei de ser generosa.

- Continue, continue! - exclamou o

duque, que já principiava a sentir-se impressionado pelas fantasias e contos que forjava a formosa gascoa.

- Ora bem: meu pai era um advogado

que não deixava de ter alguma celebridade: há vinte e oito anos, ainda ele era moço; meu pai sempre fora formoso. Amava, ainda antes do seu casamento, a mãe do senhor de Canolles, a qual lhe haviam recusado porque ela era nobre e ele mecânico. O amor, como muitas vezes acontece, chamou a si a emenda do erro da Natureza, e durante uma viagem do senhor de Canolles... Compreende agora?...

- Sim; mas como acontece que esta

amizade da sua parte com o senhor de Canolles principiasse tão tarde?

- Porque só pela morte de meu pai vim

a saber do vínculo que nos unia; porque este segredo estava depositado numa carta que o próprio barão me entregou, chamando-me sua irmã.

- E onde está essa carta? - perguntou o

duque.

- Não se lembra do incêndio que tudo

devorou em minha casa, as minhas jóias e alfaias mais preciosas, e os meus papéis mais secretos?...

- Não há dúvida - assentiu o duque. - Muitas vezes lhe tenho querido contar

esta história, tendo toda a certeza de que tudo faria em favor daquele a quem chamo em voz baixa meu irmão; mas ele sempre me deteve, e sempre me rogou e suplicou que poupasse a reputação de sua mãe, que ainda vive. Respeitei os seus escrúpulos, porque os compreendia.

- Ah! e fazia bem - disse o duque,

enternecido.- Pobre Canolles!

- E contudo -continuou Nanon - era a

fortuna o que ele rejeitava.

- Isso é próprio de uma alma delicada -

continuou o duque - e esse escrúpulo só o honra.

- Mais ainda: eu jurava que este

mistério nunca seria revelado a pessoa alguma neste mundo. As suas suspeitas, porém, obrigaram-me a falar. Desgraçada de mim! Faltei ao meu juramento; desgraçada de mim! Atraiçoei o segredo de meu irmão...

E Nanon rompeu em lágrimas. O duque caiu de joelhos e beijou-lhe as

lindas mãos, que ela, no estado de desalento em que se achava, lhe abandonava, enquanto os seus olhos elevados ao Céu, pareciam pedir a Deus perdão pelo perjúrio.

- A senhora diz: desgraçada de mim! -

exclamou o duque. - Diga antes: quão felizes somos todos! Quero que aquele querido Canolles seja indenizado do tempo perdido. Não o conheço, mas quero conhecê-lo. Apresentar-mo-á, e amá-lo-ei como se a meu filho.

- Diga de preferência: como se a meu

irmão - replicou Nanon, sorrindo-se.

Passando depois a outra idéia: - Malditos delatores: que monstros! -

exclamou ela, amarrotando a carta, que fingiu deitar ao lume, mas que guardou com todo o cuidado na sua algibeira, para mais tarde pedir contas ao respectivo autor.

- Mas porque se não apresentará aquele

mancebo? Porque o não verei agora mesmo?. Vou desde já mandá-lo chamar ao Bezerro de Ouro.

- Ah! sim - disse Nanon. - Para que ele

saiba que nada posso ocultar-lhe, e que desprezado o meu juramento, tudo lhe disse...

- Serei discreto.

- Ora, senhor duque, saiba que tenho de zangar-me consigo - continuou Nanon, com aquele sorriso angélico que os demônios tão bem sabem compor.

- E porquê, minha querida? - Porque outrora gostava mais de estar

a sós comigo. Ceemos, e amanhã pela manhã mandaremos chamar Canolles ("Daqui até amanhã - dizia consigo Nanon - terei ocasião de preveni-lo.")

- Seja, embora - consentiu o duque. -

Sentemo-nos à mesa. E, como quem ainda conserva alguma dúvida, ajuntou em voz surda:

"Daqui até amanhã não a deixarei um

só instante, e não encontrará meio de o informar de coisa alguma... a não ser que seja feiticeira."

- Portanto - disse Nanon pousando o

braço no ombro do duque - ser-me-á permitido interessar-me por meu irmão junto do meu amigo?

- Sem a mínima dúvida - continuou

d’Épernon. - Tudo quanto quiser: dinheiro...

- Oh! dinheiro - disse Nanon - não

precisa; foi ele quem me deu este magnífico anel, por si estranhado, e que foi da mãe dele.

- Então, promoção, nem? - acentuou o

duque.

- Oh! sim, promoção. Fá-lo-emos

coronel, não é assim?

- Logo coronel?... Isso não é coisa tão

fácil, minha amiguinha - disse o duque. - Para isso seria preciso que tivesse feito algum serviço à causa de sua Majestade.

- Está pronto a fazer todos os serviços

que se lhe indicarem.

- Oh!... - fez o duque, olhando de

esguelha para Nanon.- Eu bem poderia encarregá-lo de uma comissão para a corte...

- Uma comissão para a corte?!... -

exclamou Nanon.

- Sim - replicou o velho cortesão. - Mas

isto separar-vos-ia um do outro...

Nanon viu que lhe era indispensável

aniquilar este resto de desconfiança.

- Oh! quanto a isso, nada receie. Que importa a separação, uma vez que dela lhe resulte proveito?... De perto, eu servi-lo-ia mal, visto que tem ciúmes dele; mas de longe, protegê-lo-á, estendendo sobre ele a sua poderosa mão. Desterre-o, exile-o, se isso for para bem dele, e não se inquiete a meu respeito. Contanto que conserve o amor do meu querido duque, que mais posso precisar para ser feliz?...

- Ora pois, está dito - replicou o duque.

- Amanhã pela manhã mandá-lo-ei chamar, e dar-lhe-ei as minhas instruções. E agora, conforme o afirmou - continuou o duque, lançando os olhos já com mais serenidade às duas cadeiras, aos dois talheres, e às duas almofadas - minha querida menina, vamos cear.

E foram ambos sentar-se à mesa, de

rostos risonhos, de tal forma que até Francineta, muito habituada que estava, na sua qualidade de camareira de confiança, às maneiras do duque e ao caráter da ama, acreditou mesmo que Nanon estava tranqüilizada de todo, e o duque completamente desenganado.

VII

O cavaleiro que Canolles saudara com

o nome de Richon havia subido ao primeiro andar da estalagem Bezerro de Ouro, e ceava em companhia do visconde.

Era a ele quem o visconde esperava

com impaciência, quando ocasionalmente fora testemunha dos preparativos hostis do senhor d’Épernon, o que lhe dera ocasião de prestar ao barão de Canolles o assinalável serviço a que nos referimos.

Havia uma semana que saíra de Paris,

e, naquele mesmo dia de Bordéus; trazia, portanto, notícias recentes sobre os meandros um tanto embrulhados que de Paris até Bordéus se urdiam naquele momento, em tramas que davam cuidado. À medida que ia falando - ora da prisão dos príncipes, que era o assunto do dia, ora do Parlamento de Bordéus, que era a potência daquela zona, ora do senhor de Mazarino, que era o rei naquele momento - o mancebo observava em silêncio o rosto varonil e queimado, os olhos perspicazes, demonstradores da sua intrepidez, os dentes brancos e agudos, que apareciam debaixo dos compridos bigodes, sinais estes que faziam de Richon o protótipo do verdadeiro oficial bem sucedido. - Portanto - disse o visconde, passado um instante - a senhora princesa está agora em Chantilly...

Sabe-se que era deste modo que se

designavam as duas duquesas de Conde, com a única diferença de que à mãe juntavam o título de viúva.

- Sim - respondeu Richon. - É lá que ela

o espera o mais brevemente possível.

- E em que situação se encontra ela? - Num verdadeiro desterro; é vigiada,

assim como a sogra, com o maior cuidado, visto que na corte suspeitam de que elas não se contentam com a feitura de requerimentos ao Parlamento, e que maquinam alguma coisa de mais eficaz a favor dos príncipes. Desgraçadamente, como sempre acontece, o dinheiro... a propósito de dinheiro: recebeu o que lhe foi devido? Trata-se de uma pergunta que me foi muito recomendada.

- A muito custo - afirmou o visconde -

pude cobrar umas vinte mil libras, que ali tenho, em ouro; e nada mais.

- E nada mais!... Encara assim essa

soma como bagatela, senhor visconde?! Bem se vê que é milionário: fala com tamanho desprezo de uma tal quantia, e num momento como este!... Vinte mil libras! Não seremos tão ricos como Mazarino, mas seremos mais ricos do que o rei.

- Crê então, Richon, que este humilde

oferecimento será bem recebido pela senhora princesa?

- E com reconhecimento: dar-lhe-á com

que pagar a um exército.

- Crê, portanto, que precisamos dele?...

- De quê? De um exército?... Sem a

mínima dúvida. E atarefemo-nos a reuni-lo. O senhor de La Rochefoucauld alistou quatrocentos gentis-homens, a pretexto de os fazer assistir às exéquias do pai. O duque de Bouillon vai partir com igual número, se não maior, para a Guiena. Turenne promete fazer uma incursão até Paris, com o fim de surpreender Vincennes e apoderar-se dos príncipes, beneficiando dessa súbita surpresa; terá uns trinta mil homens, todo o seu exército do Norte, ao qual fará abandonar o serviço real. Oh! as coisas vão tomando bom aspecto - continuou Richon. Não esteja inquieto; não sei se da nossa obra recolheremos muito fruto, mas de certo faremos muita bulha.

- E não encontrou o duque d’Épernon?-

interrompeu o mancebo, cujos olhos chamejavam de contentamento ao ouvir a enumeração das forças que prometiam o triunfo do partido a que se vinculara.

- O duque d’Épernon? - perguntou o oficial, arregalando os olhos. - E onde quer que o tenha encontrado? Não venho de Agen, mas sim de Bordéus...

- Poderia tê-lo encontrado a poucos

passos daqui - replicou o visconde, sorrindo.

- Ah! tem razão; não é nestes arredores

que vive a formosa Nanon de Lartigues?...

- A dois tiros de mosquete desta

estalagem.

- Muito bem! Eis o que me dá a

explicação da presença do barão de Canolles na estalagem Bezerro de Ouro.

- Conhece-o?

- A quem? Ao barão? Sim. Até poderia

dizer que sou amigo dele, se o senhor de Canolles não fosse de alta linhagem, enquanto eu não passo de um pobre plebeu.

- Os plebeus como você, Richon, valem

tanto como príncipes, na situação em que nos encontramos. Creio que não deixará de saber que livrei de ser espancado, ou talvez de algo ainda pior, o seu amigo, o senhor barão de Canolles...

- Sim, senhor, ele disse-me duas

palavras a esse respeito; porém, não lhe dei grande atenção. Tinha demasiada pressa de vir ter consigo. Está certo de que não o reconheceu?...

- Não é coisa fácil reconhecer as

pessoas a quem nunca se viu.

- Tem razão; deveria ter perguntado se

ele não adivinhara quem sois.

- Com efeito - replicou o visconde - não

tirava os olhos de mim...

Richon sorriu.

- Acredito piamente - disse ele. - Não se

encontram todos os dias gentis-homens do seu estofo.

- É um cavaleiro que me parece

folgazão - opinou o visconde, passado um momento de silêncio.

- Folgazão e bom; um espírito

encantador e um grande coração. Sabe-o muito bem: o gascão nunca é medíocre - ou excelente, ou nada vale. Aquele é de boa cepa. No amor, como na guerra, é ao mesmo tempo um galanteador e um bravo capitão. Tenho pena que siga o partido contrário. Na realidade, já que o acaso o pôs em comunicação com ele, deveria aproveitar-se desta circunstância para chamá-lo ao nosso partido.

Um vermelhão fugitivo deslizou como

um meteoro pelas faces pálidas do visconde.

- Pareceu-me muito fútil, o seu amigo...

- disse o visconde.

- Oh! meu Deus! - respondeu Richon,

com aquela melancólica filosofia que de vez em quando se encontra nos homens de vigorosa têmpera - Acaso somos nós assim tão cegos e tão circunspetos, nós que manejamos com as nossas imprudentes mãos o facho da guerra civil como o faríamos com um círio?... Será homem muito sério o coadjutor, que sossega e amotina Paris com uma palavra?... Será homem sério aquele senhor de Beaufort, que exerce uma tal influência na capital, que lhe deram o nome de rei das praças e mercados?... Será mulher muito séria a senhora de Chevreuse, que faz e desfaz ministros a seu bel-prazer?... Será mulher muito séria a senhora de Longueville, que todavia reinou três meses na Casa da Câmara?... Será mulher muito séria a senhora princesa de Conde, que ainda ontem se não ocupava mais que de vestidos, de jóias e de diamantes?... Enfim: será chefe de partido muito sério, o senhor duque de Enghien, que se ocupava do manejo dos títeres, que está em mãos das mulheres, e que a primeira vez que vestir calções será talvez para alvoroçar toda a França?... E, afinal, eu mesmo, se levar a bem que o meu nome se siga a tantos nomes ilustres - serei eu uma personagem muito grave?... Eu, filho do moleiro de Angolema; eu, antigo criado do senhor de La Rochefoucauld; eu, a quem meu amo um dia, em vez de uma escova e um capote, deu uma espada, a qual pus bravamente à cintura, improvisando-me homem de guerra... E, contudo, eis o filho do moleiro de Angolema, o antigo criado do senhor de La Rochefoucauld, feito capitão; ei-lo que levanta uma companhia, que reúne quatrocentos ou quinhentos homens, cujas vidas, por seu turno, vai arriscar, jogando com elas, como se Deus lhe houvesse dado o direito de assim fazer. Ei-lo que caminha pela rota das grandezas; ei-lo que vai ser coronel, governador de praça. Que virá a ser?... Ei-lo que chegará talvez a ponto de ter durante dez minutos, uma hora, e até um dia inteiro, o destino de um reino nas suas mãos. Como bem vê, isto assemelha-se muito a um sonho, e, contudo, eu o tomarei por uma realidade, até ao dia em que alguma grande catástrofe venha despertar-me...

- E nesse dia - ajuntou o visconde -

desgraçados daqueles que o despertarem, Richon, porquanto será um herói...

- Um herói ou um traidor, conforme

formos mais fortes ou mais fracos. No tempo do outro cardeal, talvez me não houvesse afoitado a tanto, porque teria posto em jogo a minha cabeça.

- Deixe-se disso, Richon; para que

haverá de querer persuadir-me de que semelhantes considerações são capazes de deter um homem como o senhor, um dos mais bravos soldados do exército?...

- Sim, não há dúvida - disse Richon,

com um estranho movimento de ombros. - Fui bravo quando o rei Luís XIII, o rosto pálido, o seu cordão azul da Ordem do Espírito Santo e os olhos brilhantes como dois carbúnculos, bradava com voz estridente e mascando o bigode: - "O rei vos vê; adiante, senhores!" Mas quando tiver de encarar, não na retaguarda, mas defronte de mim, aquele mesmo cordão azul que ainda estou vendo no peito do pai, agora pendendo do peito do filho, e tenha de gritar aos meus soldados: "Fogo contra o rei da França!" - nesse dia - continuou Richon, abanando a cabeça - nesse dia, senhor visconde, tenho medo de fraquejar e de acabar por fazer fogo em sentido contrário...

Continuar: parte 2 de 3