A Magia de Holy Wood

Terry Pratchett · Capítulo 5 de 5

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A Magia de Holy Wood

O que Quer que Seja

O Q UE Q UER Q UE SEJA

O quarto ponto de exclam ação só não foi com pletado porque o giz se partiu. Houve um "ping" distante quando um a parte dele acertou algum a coisa. Victor tirou a outra ponta da m ão dela.

— TALVEZ SEJA MELHOR DAR UMA OLHADA NO LIVRO — sugeriu.

O bibliotecário concordou com a cabeça e tentou colocar o livro nas m ãos dela. Ela o recusou por um m om ento e ficou parada olhando para as som bras. Ela pegou o livro.

Olhou do sím io para o troll e do troll para o hom em .

Depois pôs o braço para trás e atirou o livro longe.

Desta vez não foi um ping. Foi um "booong" definido, grave e m uito ressonante. Algum a coisa era capaz de fazer barulho no lugar sem nenhum som . Victor deslizou em volta da placa de pedra.

O grande disco era um gongo. Ele deu um tapa. Pedaços soltos pela corrosão caíram , m as o m etal vibrou com a batida leve e em itiu m ais um pequeno ruído abafado com seu toque. Abaixo do gongo, agora que seus olhos buscavam de form a instintiva, havia um a baqueta de m etal de quase dois m etros com um a bola acolchoada na ponta.

Ele a segurou e a ergueu dos suportes onde estava. Ou tentou, pelo m enos. Estava presa no lugar pela ferrugem .

O bibliotecário se posicionou na outra ponta, procurou olhar Victor nos olhos e, desta vez, fizeram força j untos. Lascas de ferrugem se fincaram nas m ãos de Victor.

Ela perm anecia irrem ovível. O m artelo do gongo e seus suportes tinham se transform ado, graças ao tem po e ao ar salgado, num todo m etálico. Depois o tem po pareceu ficar lento e se tornou um a serie de eventos congelados à luz trem eluzente, com o as im agens anim adas passando pela caixa. Clique.

Detritus passou o braço por cim a da cabeça de Victor, agarrou o m artelo pelo m eio e o ergueu, arrancando os suportes enferruj ados da rocha. Clique.

Atiraram -se no chão quando ele segurou o m artelo com as duas m ãos, flexionou os m úsculos e bateu no gongo.

Clique.

Clique.

Clique.

Clique.

Capturado num a serie de quadros, Detritus parecia m udar de form a instantânea para... clique... posições diferentes, Porém conectadas, enquanto girava sobre o pé caloso, com a cabeça do m artelo... clique... form ando um arco brilhante no escuro.

Clique.

O im pacto arrem essou o gongo tão longe que as correntes arrebentaram e ele bateu contra a parede da sala de espetáculos.

O som voltou rapidam ente e em vastas quantidades, com o se estivesse represado em algum lugar e depois tivesse sido solto, espalhando-se alegrem ente para todos os lados e esm agando todos os tím panos.

Booong.

Clique.

A figura gigante sobre a placa de pedra se sentou lentam ente, com a poeira caindo em form a de cascata vagarosa. Em baixo dele havia ouro, com o brilho preservado através dos anos.

Ele se m ovia devagar, m as de form a calculada, com o se fosse im pulsionado por um m ecanism o autom ático. Um a m ão segurou a espada gigante. A outra agarrou a ponta da placa de pedra para dar estabilidade à figura enquanto suas pernas longas e afiladas viraram para o chão.

Ele ficou de pé, com seus três m etros de altura, apoiou as m ãos no punho da espada e parou. Sua postura não ficou m uito diferente de quando estava deitado na placa, m as agora havia um ar alerta, um a im pressão de enorm es quantidades de energia em ponto m orto, sem uso. Ele não prestou nenhum a atenção nos quatro que o haviam despertado.

A tela interrom peu sua pulsação desenfreada. Algum a coisa havia sentido a presença do hom em dourado e voltava sua atenção para ele, o significava que sua atenção era tem porariam ente rem ovida de outro lugar.

Houve um burburinho na plateia. Estavam acordando.

Victor segurou o bibliotecário e Detritus.

— Vocês dois. Tirem todo m undo daqui. Tirem eles daqui rápido.

— Oook! O povo de Holy Wood não precisava de m uito incentivo. Ver as form as na tela de m aneira clara, sem a influência da hipnose, era o suficiente para fazer qualquer coisa m ais inteligente que Detritus sentir um a vontade repentina de ir para bem longe dali. Victor os viu passando com dificuldade por cim a dos assentos, lutando para escapar da sala de espetáculos.

Ginger com eçou a ir atrás deles. Victor a deteve.

— Ainda não — disse, com calm a. — Nós, não.

— Com o assim ? — ela perguntou.

Ele balançou a cabeça.

— Tem os que ser os últim os a sair. É tudo parte de Holy Wood. Você pode usar a m agia, m as ela tam bém usa você. Alem do m ais, você não quer ver com o tudo term ina?

— Eu tinha esperanças de poder ver com o tudo term ina de longe.

— Está bem , então vej a de outra form a... Eles levarão alguns m inutos para sair. Não adiantaria sair correndo, certo? Victor andou pelo corredor subitam ente deserto até a últim a fileira e se sentou num assento vago.

— Espero que o velho Detritus sej a esperto o suficiente para não ficar para trás segurando o teto novam ente.

Ginger deu um suspiro e se sentou ao lado dele.

Victor pôs os pés no assento da frente e rem exeu os bolsos.

— Aceita — ofereceu — um pouco de grãos estourados? O hom em dourado ficou visível abaixo da tela. Ele curvou a cabeça, fazendo um a reverência.

— Sabe, ele se parece, sim , com o m eu tio Osvaldo — observou Ginger. A tela ficou escura de m odo tão repentino que a invasão da escuridão quase fez um barulho.

"Isto j á deve ter acontecido m uitas vezes", pensou Victor. "Em dezenas de universos. A ideia turbulenta chega e, de algum a form a, o hom em dourado, o Osvaldo, que sej a, ressuscita. Para controlá-la. Ou algo assim . Talvez, onde quer que Holy Wood vá, Osvaldo a siga." Um ponto de luz roxa surgiu e se aproxim ou m uito rápido. Victor sentiu com o se caísse num túnel.

A figura dourada ergueu a cabeça.

A luz se contorceu e assum iu form as aleatórias. A tela não estava m ais lá. Aquilo era algo que entrava no m undo. Não era um a im agem no outro canto da sala, m as algo que tentava loucam ente existir.

O hom em dourado puxou a espada para trás.

Victor sacudiu o om bro de Ginger.

— Acho que agora é hora de sairm os.

A espada se conectou. A caverna se encheu de luz dourada. Victor e Ginger j á corriam pelos degraus da antessala quando sofreram o prim eiro choque. Eles pararam em frente à boca do túnel, que estava desocupada.

— Nem m orta! — disse Ginger. — Não vou ficar presa ali dentro de novo. A escada alagada estava diante deles. E claro que tinha um a ligação com o m ar que na verdade ficava a apenas alguns m etros dali, m as a água era preta com o tinta e, nas palavras de Gaspode, parecia ser um presságio.

— Sabe nadar? — perguntou Victor. Um dos pilares apodrecidos da caverna desabou atrás deles. De sala de espetáculos veio um gem ido terrível.

— Não m uito bem — respondeu Ginger.

— Nem eu — ele disse. A agitação atrás deles piorava.

— Mesm o assim — ele com eçou, pegando na m ão dela. — Podem os encarar isso com o um a ótim a oportunidade para m elhorarm os m uito rápido. Eles pularam .

Victor em ergiu a 50 m etros da praia, com os pulm ões estourando. Ginger em ergiu a alguns m etros dali. Eles foram até um a parte m ais rasa e pararam para ver.

A terra trem eu.

A cidade de Holy Wood, construída com m adeira barata e pregos curtos, desm oronava. Casas se dobravam sobre si m esm as feito cartas de baralho. Aqui e ali, pequenas explosões indicavam que suprim entos de octocelulose estavam envolvidos. Cidades de lona e m ontanhas de gesso se transform aram em ruínas. No m eio disso tudo, desviando da m adeira que caía, m as sem deixar nada m ais entrar em seu cam inho, o povo de Holy Wood corria para se salvar. Operadores de m anivela, atores, alquim istas, diabretes, trolls e anões corriam com o form igas cuj o form igueiro está em cham as — cabeça baixa, pernas latej ando e olhar im petuoso fixo no horizonte.

Um a divisão inteira da colina desabou.

Por um m om ento, Victor pensou ter visto a enorm e figura dourada de Osvaldo, tão insubstancial quanto partículas de poeira num feixe de luz, pairar acim a de Holy Wood e dar um a volta com a espada num único m ovim ento abrangente. Depois desapareceu.

Victor aj udou Ginger a chegar à praia.

Alcançaram a rua principal, agora silenciosa, exceto por um ou outro rangido ou baque de um a tábua caindo dos prédios m eio desm oronados. Passaram com cuidado entre cenários caídos e caixas de im agem quebradas.

Houve um estrondo atrás deles quando a placa da Século do Morcego-de-Frutas deslizou das am arrações e bateu na areia. Atravessaram os restos do refeitório de Borgle, cuj a destruição havia elevado a qualidade m edia da com ida do m undo inteiro em um a quantidade ínfim a, porém significativa.

Andaram com dificuldade entre cliques desenrolados se agitando ao vento. Passaram por cim a de sonhos desfeitos.

No lim ite do que tinha sido Holy Wood, Victor se virou e olhou para trás um a vez.

— Bom , eles finalm ente acertaram . Você nunca m ais vai trabalhar nesta cidade.

Ele ouviu um soluço. Para sua surpresa, Ginger chorava. Ele pôs o braço em volta dela.

— Vem . Eu vou com você até a sua casa.

A m agia de Holy Wood, agora destruída e desaparecendo aos poucos, abria rachaduras na paisagem , buscando cam inhos para se enterrar. Clique...

Era fim de tarde. A luz averm elhada do sol se pondo invadiu as j anelas da Casa das Costelas de Harga, quase deserta àquela hora do dia. Detritus e Ruby se sentaram , desaj eitados, em cadeiras proj etadas para hum anos.

A única pessoa por perto era o próprio Sham Harga, espalhando a suj eira de m odo m ais uniform e sobre as m esas vazias com um pano e assobiando distraidam ente.

— E... — arriscou Detritus.

— Sim ? — respondeu Ruby, cheia de expectativas.

— É... Nada — disse ele. Ele se sentia deslocado ali, m as Ruby havia insistido. Detritus sentia que ela queria que ele dissesse algum a coisa, m as só conseguia pensar em acertar a cabeça dela com um tij olo.

Harga parou de assobiar.

Detritus sentiu a cabeça virar. Sua boca se abriu.

— Toque de novo, Sham — disse Holy Wood.

Houve um acorde pom poso. A parede dos fundos da Casa das Costelas se m oveu para o lado, para qualquer que sej a a dim ensão para onde essas coisas vão, e um a orquestra confusa, porém inconfundível, preencheu o espaço norm alm ente ocupado pela cozinha de Harga e pelo beco fétido atrás dela. O vestido de Ruby se tornou um a cachoeira de lantej oulas. As outras m esas saíram girando.

Detritus aj eitou um sm oking inesperado e lim pou a garganta.

— Pode haver poblem as adiante... — com eçou, as palavras vindo de algum lugar direto para suas cordas vocais.

Ele pegou a m ão de Ruby. Um a bengala com ponta de ouro bateu em sua orelha esquerda. Um chapéu de seda preta se m aterializou em alta velocidade e bateu com força em seu cotovelo. Ele ignorou os dois.

— Mas enquanto houver a luz do luar e a m úsica...

Ele titubeou. As palavras bonitas estavam desaparecendo. A parede voltou ao lugar. As m esas reapareceram . As lantej oulas cintilaram e se apagaram .

— Um ... — disse Detritus de repente. — ela o observava com atenção. — E... Desculpe. Não sei o que m e deu.

Harga se aproxim ou da m esa.

— O que foi isso... — com eçou. Sem m udar a direção do olhar, Ruby levantou um braço de tronco de árvore, o fez girar e o em purrou contra a parede.

— Me beij a, seu tolo dem ente — ela disse. Detritus franziu a testa.

— O quê? Ruby suspirou. Bem , chega de usar o j eito hum ano.

Ela pegou um a cadeira e acertou a cabeça dele com precisão científica. Ele abriu um sorriso e caiu para a frente.

Ela o ergueu calm am ente e o j ogou por cim a do om bro. Se Ruby aprendeu algum a coisa em Holy Wood, era que não adiantava ficar esperando o príncipe encantado atirar um tij olo em você. Você tinha que fazer o próprio tij olo. Clique...

Num a m ina de anões a quilôm etros de distância da argila de Ankh-Morpork, um supervisor m uito nervoso bateu no chão com a pá e se pronunciou da seguinte form a: Quero deixar bem claro, certo? Mais um , e estou falando sério, m ais um , certo? Som ente m ais um "eu vou" de algum de vocês, seus enfeites de j ardim , e vai voar m achado aqui, ok? Nós som os anões, caram ba. Então aj am com o tal. E isto inclui você, sapeca.

Clique...

Quer-levar-um -soco, m e-cham e-de-Tam pinha foi pulando até o alto da duna e olhou à sua volta. Depois desceu de volta.

— Tá lim po — inform ou. — Nenhum hum ano, nenhum a ruína.

— Um lugar shó nosso — disse o gato, feliz. — Um lugar onde todosh os anim ais, independentem ente da form a e da eshpecie, podem viver j untosh em perfeita...

O pato grasniu.

— O pato está dizendo — traduziu Me-cham e-de-Tam pinha-e- m orra — que vale a pena tentar. Se vam os nos tornar sapientes, podem os ficar bons nisso. Venham . Depois ele sentiu um arrepio. Houve algo com o um leve ruído de eletricidade estática. Por um m om ento, a pequena área nas dunas de areia oscilou com o se fosse por efeito de um forte m orm aço.

O pato grasniu de novo.

Não. Seu-Tam pinha franziu o focinho. De repente, ficou difícil se concentrar.

— O pato está dizendo... — hesitou — o pato está dizendo... dizendo... o pato... dizendo... dizendo... quá-quá...?

O gato olhou para o rato.

— Miau? O rato deu de om bros.

— Guincho — com entou.

O coelho franziu o focinho, incerto.

O pato olhou para o gato com os olhos entreabertos. O gato olhou fixam ente para o coelho. O rato exam inou o pato.

O pato voou para o alto. O coelho se transform ou num a nuvem de areia que logo sum iu. O rato saiu esburacando as dunas. E, sentindo-se m uito m ais feliz do que nas últim as sem anas, o gato correu atrás dele.

Clique...

Ginger e Victor estavam sentados à m esa, num canto do Tam bor Rem endado. Depois de algum tem po, Ginger disse: — Eles eram bons cachorros.

— Eram — concordou Victor, num tom distante.

— Morry e Rocha estão escavando os escom bros há um a eternidade. Disseram que tem vários tipos de porões lá. Sinto m uito.

— É.

— Talvez devêssem os erguer um a estátua pra eles ou algo do tipo.

— Não sei, não. Quer dizer, considerando o que os cães fazem com as estátuas... Talvez a m orte de cachorros faça parte de Holy Wood. Não sei. Ginger traçou o contorno de um nó de m adeira no tam po da m esa.

— Agora acabou tudo. Você sabe disso, não sabe? Não tem m ais Holy Wood. Acabou tudo.

— É.

— O Patrício e os m agos não deixarão m ais ninguém fazer cliques. O Patrício foi m uito enfático em relação a isso.

— Acho que ninguém m ais quer fazer — disse Victor. — Quem é que se lem brará de Holy Wood agora?

— Com o assim ?

— Aqueles sacerdotes antigos construíram um a espécie de religião m al planej ada em torno dela. Eles esqueceram totalm ente os verdadeiros obj etivos. Mas isso não im portava. Acho que não são necessários cânticos e fogueiras. Só é preciso lem brar de Holy Wood. Precisam os de alguém que se lem bre m uito bem de Holy Wood.

— É — concordou Ginger, sorrindo. — Seriam necessários m il elefantes.

— É — Victor riu. — Pobre Dibbler. Ele tam bém nunca conseguiu os elefantes.

Ginger ficou virando um pedaço de batata no prato. Pensava em algo, e não era em com ida.

— Mas foi ótim o, não foi? — disse, de repente. — Tivem os um a experiência realm ente im pressionante, não?

— Sim .

— As pessoas gostaram de verdade, não?

— Ah, sim — disse Victor, num tom m elancólico.

— Não trouxem os algo realm ente im portante pro m undo?

— Tá brincando?

— Não m e referi a isso. Ser um a deusa das telas não é toda essa m aravilha que dizem , sabe.

— Certo. Ginger suspirou.

— Não haverá m ais a m agia de Holy Wood.

— Acho que ainda pode haver algum restinho.

— Onde? — Vagando por aí. Encontrando m aneiras de se esgotar, im agino. Ginger ficou olhando para seu copo.

— O que você vai fazer agora? — ela perguntou.

— Não sei. E você? — Voltar pra fazenda, talvez.

— Por quê?

— Holy Wood foi a m inha chance, entende? Não tem m uitos em pregos para m ulheres em Ankh-Morpork. Pelo m enos — acrescentou — nenhum que m e interesse. Já tive três pedidos de casam ento. De hom ens bem im portantes.

— Teve? Por quê? ela franziu a testa.

— Ei, não sou tão feia assim ...

— Não quis dizer isso — corrigiu Victor, rápido.

— Ah, acho que, pra quem é um com erciante poderoso, é interessante ter um a m ulher fam osa. É com o ter j oias. — ela baixou o rosto. — A senhora Cosm opolite disse que pode ficar com um dos que eu recusar. Eu disse que podia ficar com os três.

— Eu sem pre fui assim em relação a escolhas, tam bém — disse Victor, anim ando-se.

— Foi? Se essas são todas as escolhas que tenho, não vou escolher. O que você pode ser depois de ter sido você m esm o da form a m ais com pleta possível?

— Nada — respondeu Victor.

— Ninguém sabe qual é a sensação.

— A não ser nós dois.

— É.

— É.

Ginger sorriu. Foi a prim eira vez que Victor viu seu rosto sem sinais de petulância, raiva, preocupação ou m aquiagem de Holy Wood. — Ânim o — ela disse. — Am anhã e outro dia.

Clique...

O sargento Colon, da guarda m unicipal de Ankh-Morpork, foi despertado de seu cochilo sereno na guarita acim a do portão principal por um estrondo distante. Um a nuvem de poeira se estendeu de horizonte a horizonte. Ele ficou observando, pensativo, por algum tem po. A nuvem cresceu e, por fim , expeliu um rapaz de pele m orena m ontado num elefante.

O anim al veio trotando pela estrada que levava aos portões e conseguiu parar diante do m uro da prefeitura. A nuvem de poeira, Colon não pôde deixar de notar, perm anecia no horizonte e não parava de crescer.

O garoto pôs as m ãos em torno da boca e gritou:

— Sabe m e dizer com o faço para chegar a Holy Wood?

— Não tem m ais Holy Wood nenhum a pelo que ouvi dizer — respondeu Colon.

O garoto pareceu refletir sobre a inform ação. Depois olhou para um pedaço de papel que tinha na m ão.

— Sabe onde posso encontrar o senhor Dibbler C.A.P.C?

O sargento Colon repetiu as iniciais em voz baixa.

— Você quer dizer o Cova? O Dibbler Cava-A-Própria-Cova?

— Ele está? O sargento Colon olhou para a cidade atrás dele.

— Vou dar um a olhada. Quem eu devo dizer que quer falar com ele?

— Tem os um a entrega para ele. COD.

— Cód? Arriscou Colon, olhando de relance para a nuvem baixa. — Estão codificando algum a coisa?

— Na verdade, não. Enorm es testas cinzentas com eçavam a se tornar visíveis na poeira. Havia tam bém um cheiro m uito característico de m il elefantes que se alim entaram em plantações de repolho durante dias.

— Espere só um pouco. Vou m andar cham á-lo.

Colon pôs a cabeça de volta para dentro da guarita e cutucou o vulto adorm ecido do cabo Nobbs, atualm ente a outra m etade da força de com bate de olhar sagaz que guardava a cidade de m odo incessante.

— Que foi? — Cê viu o velho Cova hoj e de m anhã, Nobby ?

— Vi, ele estava na rua do Sossego. Com prei um a Surpresa de Salsicha Gigante dele.

— Ele voltou a vender salsichas?

— Foi obrigado. Perdeu todo o dinheiro. O que foi? — Dá só um a olhadinha lá fora, por favor — disse Colon com um a voz calm a.

Nobby foi olhar.

— Parece que é... o senhor diria que são m il elefantes, sargento?

— É. Uns m il, eu diria.

— Achei que pareciam uns m il.

— Um hom em aí diz que o Cova encom endou — disse o sargento Colon.

— Tá brincando? Ele tá levando a sério esse negócio de Salsicha Gigante, então? Eles se entreolharam . O sorriso de Nobby era cruel.

— Ah, vai. Deixa eu avisar ele. Por favor?

Clique...

Thom as Silverfish, alquim ista e produtor de cliques fracassado, m exeu os conteúdos de um cadinho e suspirou pensativo.

Muito ouro havia sido deixado para trás em Holy Wood, para qualquer um que tivesse a ousadia de ir até lá cavar. Para aqueles que não tinham , e Silverfish não hesitaria em se colocar com o o prim eiro desse grupo, havia os velhos m étodos experim entados e testados, ou, para colocar de outra form a, m étodos experim entados e constantem ente fracassados de produção de riqueza. Então ele havia voltado para casa, retom ando as coisas de onde havia parado.

— Algum resultado? — perguntou Peavie, que resolvera fazer um a visita para ser solidário.

— Bem , está prateado — disse Silverfish, na dúvida. — e é m eio m etálico. E é m ais pesado que chum bo. É necessário cozinhar um a tonelada de m inério tam bém . O engraçado e que achei que estivesse quase conseguindo desta vez. Realm ente achei que estivéssem os a cam inho de um futuro novo, claro...

— Com o e que vai cham ar esse? — perguntou Peavie.

— Ah, não sei. Provavelm ente não vale a pena dar nom e.

— Ankhm orporkúrio? Silverfíshio? Notleadina? — sugeriu Peavie.

— Inutínio é m ais provável. Vou desistir dele e voltar a algo m ais sensato. Peavie espiou dentro da fornalha.

— Ele não faz bum , faz? — perguntou. Silverfish lhe deu um olhar paralisante.

— Isso aqui? O que te fez pensar isso?

Clique...

Estava um breu total debaixo dos escom bros.

Já estava um breu total havia m uito tem po.

Gaspode podia sentir as toneladas de pedras acim a daquele pequeno espaço. Não era preciso nenhum sentido canino especial para isso. Ele se arrastou até onde um a pilastra derrubara a porta do porão. Laddie ergueu a cabeça com dificuldade, lam beu o rosto de Gaspode e conseguiu dar latidos fraquíssim os.

— Bom garoto Laddie... Bom garoto Gaspode...

— Bom garoto Laddie — sussurrou Gaspode.

O rabo de Laddie bateu um a ou duas vezes nas pedras. Depois ele choram ingou um pouco, com pausas cada vez m ais longas entre os sons. Depois houve um ruído fraco. Igual ao de osso batendo na pedra. As orelhas de Gaspode trem eram rápido. Ele ergueu a cabeça para a figura que se aproxim ava, visível até na escuridão absoluta porque ficaria para sem pre m ais escuro do que a m era escuridão sozinha conseguiria ficar. Ele se ergueu, com os pelos se eriçando sobre as costas, e rosnou.

— Mais um passo e eu arranco a sua perna e enterro — disse. Um a m ão esquelética se aproxim ou e fez cócegas nele atrás das orelhas. Houve um latido fraco na escuridão.

— Bom garoto Laddie! Gaspode, com lágrim as rolando pelo rosto, deu um sorriso arrependido para Morte.

— Patético, não? — disse, com a voz rouca.

— NÃO SABERIA DIZER. NUNCA GOSTEI MUITO DE CACHORROS, respondeu Morte.

— Ah, é? Já que é assim , nunca gostei da ideia de m orrer. Nós vam os m orrer, não vam os?

— SIM.

— Não estou surpreso, de verdade. É a história da m inha vida, m orrer. Só que eu achei — acrescentou, esperançoso — que houvesse um Morte especial para cachorros. Um cachorro grande e preto talvez...

— NÃO.

— Engraçado, isso — com eçou Gaspode. — Ouvi dizer que todos os tipos de anim ais tinham seu próprio espectro m isterioso e assustador que aparecia pra eles no fim . Sem querer ofender — acrescentou, rápido. — Achei que tivesse um cachorrão que viria correndo e diria: "Ok, Gaspode, seu trabalho está com pleto, coisa na terra farta de bifes e m iúdos e tal, largue o seu fardo cansativo, ou algo assim , e venha com igo para...

— NÃO. SÓ TEM EU. A ÚLTIMA FRONTEIRA.

— Com o é que estou vendo você se ainda não m orri?

— VOCÊ ESTÁ ALUCINANDO. Gaspode ficou em posição de alerta.

— Estou? Caram ba.

— Bom garoto Laddie!— O latido tinha sido m ais alto dessa vez. Morte vasculhou as reentrâncias m isteriosas de seu m anto e retirou um a pequena am pulheta. Não sobrara quase nenhum a areia na parte de cim a. Os últim os segundos da vida de Gaspode sussurravam do futuro para o passado. E então não havia m ais nenhum .

Morte se levantou.

— VENHA, GASPODE.

Houve um leve ruído, que soava com o o equivalente audível de um a faísca. Pequenas partículas douradas encheram a am pulheta.

A areia fluiu para trás.

Morte sorriu.

Depois, onde ele estava antes, havia um triângulo brilhante de luz.

— Bom garoto Laddie! — Aí estão eles! Falei que tinha ouvido latido! — disse a voz de Rocha.

— Bom garoto! Aqui, garoto!

— Caram ba, tô tão feliz em ver vocês... — com eçou Gaspode. Os trolls am ontoados ao redor da fenda não prestaram a m ínim a atenção nele. Rocha rem oveu um a pilastra para o lado e ergueu Laddie com delicadeza.

— Nada que o tem po não cure — disse.

— Podem os com er ele agora? — perguntou um troll acim a dele.

— Você tem defeito ou algo assim ? Este cachorro um herói!

— ... licença...

— Bom garoto Laddie! Rocha passou o cachorro para outro troll e saiu do buraco.

— ... licença... — disse Gaspode em voz baixa.

Ele ouviu um a celebração distante.

Depois de algum tem po, com o não parecia haver m uita alternativa, arrastou-se dolorosam ente pela pilastra inclinada e conseguiu sair dos escom bros. Não havia ninguém por perto.

Ele tom ou um a bebida de um a poça.

Ele se ergueu, testando a pata ferida.

Dá pro gasto.

E, por fim , xingou.

— Au, au, au! Parou. Aquilo não estava certo.

Ele tentou novam ente.

—Au! Ele olhou ao redor...

... E o m undo ficou sem cor, retornando a um estado de abençoados pretos e brancos.

Gaspode lem brou que Harga tiraria o lixo por volta daquele horário e que depois encontraria um canto aconchegante em algum lugar. E do que m ais um cachorrinho precisava? Em algum lugar nas m ontanhas distantes, lobos uivavam . Em algum lugar em casas acolhedoras, cães com coleiras e pratos com seu nom e recebiam afagos na cabeça.

Em algum lugar entre esses dois, e sentindo-se estranham ente anim ado com isso, Gaspode, o Cão Prodígio seguiu m ancando na direção do glorioso pôr do sol m onocrom ático.

A cerca de 50 quilôm etros no sentido contrário ao de Ankh-Morpork, a espum a batia na porção de terra coberta de dunas onde o vento balança as gram íneas e o Mar Círculo encontra o Oceano Periférico.

Gaivotas m arinhas m ergulhavam baixo acim a das ondas. As pontas secas de papoulas ressoavam na brisa perpetua que deixava o céu lim po de nuvens e fazia a areia se m over em padrões curiosos.

A colina era visível a quilôm etros. Coberta por arbustos, não era m uito alta, m as ficava entre as dunas feito um barco virado ou um a baleia m uito azarada. Ali a chuva não caía, a m enos que não conseguisse desviar.

Mas o vento soprava, e am ontoou as dunas sobre a m adeira seca e desbotada da cidade de Holy Wood.

Ele uivou seus testes nos cenários desertos.

Revirou pedaços de papel entre as decom postas m aravilhas do m undo de gesso.

Balançou as placas até caírem na areia e ficarem cobertas.

Cliquecliqueclique.

O vento suspirou em volta de um esqueleto de caixa de lançam ento de im agem , que pendia bêbado de um tripé abandonado.

Ele pegou um fragm ento de film e que se arrastava e desenrolou a últim a exibição de im agens, serpenteando pela areia as espirais reluzentes e deterioradas. No olho de vidro do lançador de im agem , figuras m inúsculas dançavam aos trancos, vivas por apenas um m om ento...

Cliqueclique.

A tira de film e se soltou e saiu rodopiando pelas dunas.

Clique... clique...

A m anivela girou para trás e para frente por um m om ento e depois parou.

Clique.

Holy Wood está sonhando.

FIM

Fontes

 

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2013

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