A Magia de Holy Wood
Ela Se Virou e o Encarou.
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
— Eu estava indo bem . Nada de especial, m as bem . Tinha bastante trabalho. As pessoas m e consideravam confiável. Eu estava construindo um a carreira...
— Não dá para construir um a carreira em Holy Wood — disse Victor. — E com o construir um a casa num pântano. Nada é real.
— Eu gostava daqui! e agora você estragou tudo! Provavelm ente terei que voltar para um a aldeiazinha horrorosa de que você nunca sequer ouviu falar! Voltar para a m aldita ordenha! Muito obrigada! Toda vez que eu vir o traseiro de um a vaca, vou m e lem brar de você! ela saiu com raiva em direção à cidade, deixando Victor com os trolls. Depois de algum tem po, Rocha lim pou a garganta.
— Você tem onde ficar? — perguntou.
— Acho que não — respondeu Victor, vacilante.
— Nunca tem lugar suficiente para passar a noite — disse Morry.
— Eu estava pensando em dorm ir na praia — ponderou Victor. Está bem quente, afinal. Acho que realm ente preciso de um bom descanso. Boa noite. Ele saiu cam baleando naquela direção.
O sol estava se pondo, e um a brisa do m ar esfriara um pouco coisas. Ao redor do vulto escuro da colina, as luzes de Holy Wood se acendiam . Holy Wood só relaxava na escuridão. Quando sua m atéria-prim a é a luz do dia, você não a desperdiça.
estava bastante agradável na praia. Ninguém ia m uito lá. A m adeira que boiava na praia, com fendas e coberta de sal, não era nada boa para a construção. Ela ficava am ontoada, form ando um a longa linha branca na altura da m aré. Victor j untou o suficiente para fazer um a fogueira, deitou-se e ficou observando a arrebentação.
Do alto da duna m ais próxim a, escondido atrás de um a m oita de gram a seca, Gaspode o Cão Prodígio o observava com ar pensativo. Eram duas da m adrugada.
ela os tinha agora, e se lançou com alegria para fora da colina, lançando seu brilho para o m undo.
Holy Wood sonha...
ela sonha por todos.
Na escuridão abafada de um galpão de tábuas, Ginger Withel sonhava com tapetes verm elhos e m ultidões alvoroçadas. E com um a grade de ferro. Sem pre no seu sonho havia a im agem de um a grade através da qual um sopro de ar quente levantava a sua saia...
Na escuridão não m uito m ais fresca de um galpão um pouco m ais caro, Silverfish, o artista das im agens anim adas, sonhava com m ultidões alvoroçadas e com alguém lhe entregando um prêm io pela m elhor im agem anim ada j á feita. Era um a grande estátua im ponente.
Lá nas dunas de areia, Rocha e Morry dorm iam um cochilo irrequieto, porque os trolls são criaturas noturnas por natureza e dorm ir no escuro era um a ofensa a seus instintos ancestrais. Eles sonhavam com m ontanhas.
Na praia, sob as estrelas, Victor sonhava com cascos de cavalo batendo no chão, m antos esvoaçantes, navios piratas, lutas de espada, candelabros... Na duna m ais próxim a, Gaspode o Cão Prodígio dorm ia com um olho aberto e sonhava com lobos.
Mas Dibbler Cava-A-Própria-Cova não sonhava, porque não estava dorm indo.
A viagem até Ankh-Morpork tinha sido longa, e ele preferia vender cavalos a m ontá-los. Mas estava lá agora.
As tem pestades que desviaram de Holy Wood com tanto cuidado não se preocuparam com Ankh-Morpork, e ela se encontrava sob um pé d'água. Mas isso não atrapalhava a vida noturna da cidade — só a tornava m ais abafada. Não havia nada que não pudesse ser com prado em Ankh-Morpork, até m esm o no m eio da m adrugada. E Dibbler tinha que com prar m uitas coisas. Precisava pintar cartazes. Precisava de todo tipo de coisa. Muitas envolviam ideias que ele havia concebido durante a longa viagem e agora tinha que explicar com m uita cautela para outras pessoas. E rápido.
A chuva form ava um a cortina com pacta quando ele finalm ente chegou cam baleando diante da luz cinzenta do am anhecer. As sarj etas transbordavam . Ao longo dos telhados, as gárgulas — calhas com carrancas — vom itavam com habilidade sobre os transeuntes, em bora, com o eram cinco da m adrugada, as m ultidões haviam se dissipado um pouco.
Cova respirou fundo o ar carregado da cidade. Ar de verdade. Era preciso ir m uito longe para encontrar um ar m ais real que o de Ankh-Morpork. Só de respirá-lo era possível perceber que outras pessoas faziam o m esm o havia m ilhares de anos. Pela prim eira vez após vários dias, sentiu que pensava com clareza. Era estranho em Holy Wood. Quando você estava lá, tudo parecia natural, tudo parecia fazer parte da vida. Mas, quando você se afastava e se lem brava de com o era lá, parecia olhar para um a grande bolha de sabão cintilante. Era com o se em Holy Wood você não fosse a m esm a pessoa.
Bom , Holy Wood era Holy Wood, e Ankh era Ankh. E Ankh era concreta e resistente, na opinião de Cova, à esquisitice de Holy Wood. Ele chapinhou pelas poças, escutando a chuva.
Após algum tem po notou, pela prim eira vez na vida, que ela tinha um ritm o. Engraçado. Você podia viver num a cidade a vida toda, m as era preciso sair dela e voltar para notar que o m odo com o a chuva gotej ava das calhas tinha um ritm o todo próprio: DUM di-dum -dum , dum di, dum di, Dum -Dum ... Alguns m inutos depois, o sargento Colon e o cabo Nobbs, da Guarda Noturna, com partilhavam um cigarro de palha cordialm ente sob o abrigo do vão da porta e faziam o que os integrantes da Guarda Noturna sabiam fazer m elhor, ou sej a, m anter-se aquecidos, secos e longe dos problem as.
eles foram as únicas testem unhas da figura esquisita que chapinhou pela rua encharcada, deu piruetas sobre as poças, segurou—se num tubo de escoam ento para dar um a volta na esquina e, batendo um calcanhar no outro alegrem ente, desapareceu do cam po de visão.
O sargento Colon passou o toco de cigarro em papado para seu com panheiro.
— Aquilo era o velho Dibbler Cova? — perguntou depois de algum tem po.
— Era — respondeu Nobby.
— Ele parecia feliz, não? — Deve estar doidão, eu acho. Pra ficar dançando na chuva desse j eito. Whum m ... whum m ...
O arquirreitor, que atualizava o seu registro de pedigrees de dragões enquanto apreciava um drinque noturno diante da lareira, ergueu a cabeça.
... whum m ... whum m ... whum m ...
— Caram ba... — m urm urou, e foi devagar até o grande vaso, que chegava a oscilar de um lado para o outro, com o se o prédio estivesse trem endo. O arquirreitor ficou observando, fascinado.
... whum m ... whum m whum m ivhum m WHUMM.
O vaso oscilou até parar e ficou em silêncio.
— Esquisito — com entou o arquirreitor. — Esquisito pra danar. Plib.
Do outro lado da sala, sua garrafa de conhaque se despedaçou. Ridcully o Castanho respirou fundo.
— Tesoureiro? Moscas da areia despertaram Victor. O ar j á estava quente. Seria m ais um belo dia.
ele andou pela água rasa para lavar e esvaziar a cabeça Vej am os... ainda tinha dois dólares do dia anterior, m ais um punhado de m oedas. Possuía dinheiro para ficar m ais um pouco, especialm ente se dorm isse na praia. E o "cuzido" do Borgle, ainda que só pudesse ser considerado com ida no sentido técnico, era bem barato — Em bora, pensando bem , com er lá poderia significar encontros constrangedores com Ginger.
ele deu m ais um passo e afundou.
Victor nunca havia nadado no m ar. Voltou à tona, quase se afogando, batendo os pés com fúria. A praia estava a apenas alguns m etros de distância. Ele relaxou, retom ou o fôlego e seguiu num nado crawl vagaroso até transpor a arrebentação. A água era cristalina. Dava pra ver o fundo num declive brusco até — Ele subiu para respirar um pouco — se tornar um azul turvo, no qual som ente era possível ver, através dos cardum es, o contorno de rochas pálidas e retangulares espalhadas pela areia.
Tentou um m ergulho, esforçando-se para descer até os ouvidos com eçarem a zunir. A m aior lagosta que j á vira abanou as antenas para ele, de cim a de um cone rochoso, e arrancou para as profundezas.
Victor voltou à tona novam ente, ofegante, e nadou até a m argem . Bom , se não conseguisse se dar bem no cinem a, havia um a chance com o pescador, isso era certo.
Um sem -teto tam bém se daria bem por ali. Havia lenha seca em pilhada ao lado das dunas em quantidade suficiente para m anter lareiras de Ankh-Morpork abastecidas durante anos. Ninguém em Holy Wood sonharia acender um a fogueira se não fosse para cozinhar ou para ter com panhia.
e alguém estava fazendo exatam ente isso. Enquanto andava até a areia, Victor percebeu que a m adeira ao longo da praia havia sido em pilhada, não de form a casual, m as aparentem ente planej ada, em pilhas bem arrum adas. Mais adiante, pedras tinham sido aj eitadas para form ar um a lareira rústica. Ela estava cheia de areia. Talvez alguém estivesse m orando na praia, esperando pela grande chance nas im agens anim adas. Olhando bem , a m adeira atrás das pedras sem ienterradas parecia ter sido arrastada até lá. Era possível im aginar, vendo a partir do m ar, que várias vigas de m adeira tinham sido m ontadas para form ar um vão de porta.
Talvez ainda houvesse alguém lá. Talvez tivessem algo para beber. Realm ente havia gente lá. Mas não precisava de bebida havia m eses. Eram oito da m anhã. Um a batida ensurdecedora à porta acordou Bezam Planter, o dono do Odium , um dos frutos da sem ente das im agens anim adas em Ankh-Morpork.
ele tivera um a noite ruim . O povo de Ankh-Morpork gostava de novidades. O problem a era que não gostavam de novidades por m uito tem po. O Odium havia feito ótim os negócios durante um a sem ana, não teve prej uízos na segunda sem ana e agora estava definhando. A últim a sessão da noite passada havia sido prestigiada por um anão surdo e um orangotango que levara os am endoins de casa. Bezam contava com a venda de am endoins e grãos estourados para obter algum lucro, e não estava de bom hum or.
ele abriu a porta e olhou para fora com a visão em baçada.
— Estam os fechados até as duas horas. Matinê. Voltem nesse horário. Assentos liberados em todas as áreas.
ele bateu a porta. Ela ricocheteou na bota de Dibbler Cova e atingiu Bezam no nariz.
— Eu vim para a sessão especial de espadha da Paixão — disse Cova.
— Sessão especial? Que sessão especial? — A sessão especial sobre a qual vou falar com você agora.
— Não terem os sessão de nenhum a espada especial apaixonada. Vam os apresentar O em ocionante...
— O seu Dibbler tá dizendo que cê vai passar espadha da Paixão — soou um a voz grossa.
Cova se recostou no batente da porta. Atrás dele havia um a laj e de pedra.
Dava a im pressão de que alguém havia atirado bolas de aço nela durante 30 anos. Ela form ou um a dobra no m eio e se inclinou em direção a Bezam . Ele reconheceu Detritus. Todo m undo reconhecia Detritus. Não era um troll que podia ser facilm ente esquecido.
— Mas eu nem sequer ouvi falar de... — com eçou Bezam .
Cova retirou um a lata grande de baixo do casaco e abriu um sorriso.
— E aqui estão alguns cartazes — acrescentou, puxando um rolo branco e grosso.
— O seu Dibbler m e deixou colar alguns nos m uros — disse Detritus, com orgulho.
Bezam abriu um cartaz. As cores eram de arder os olhos. Mostrava um a foto do que poderia ser Ginger fazendo beicinho com um a blusa pequena dem ais para ela e Victor prestes a j ogá-la sobre o om bro ao m esm o tem po em que lutava contra alguns m onstros com a outra m ão. Ao fundo, vulcões entravam em erupção, dragões atravessavam os céus e cidades pegavam fogo.
— “A Imagem Animada Q ue Não Conseguiram Proibir!" — leu Bezam , hesitante. — "Uma Aventura escaldante no Despertar Fervoroso de um Novo Continente! Um Homem e uma Mulher se encontrão no Redemoinho de um Mundo enlouquecido!! ESTRELANDO **DOLORES DOS PECADOS**, NO PAPEL DE A MULHER, E **VICTOR MARASQ UINO**, COMO COHEN O BÁRBARO!!! EMOÇÕES! AVENTURA!! ELEFANTES!!! EM BREVE NUMA SALA PERTO DE VOCÊ" ele leu m ais um a vez.
— A Dolores dos Pecados vai dar um a estrela? — perguntou, desconfiado.
— Ela é um a estrela. Por isso colocam os estrelas ao lado do nom e deles, está vendo? — Ele se inclinou m ais perto e baixou o volum e da voz para um sussurro agudo. — Há quem diga que ela e a filha de um pirata klatchiano e de sua louca e obstinada prisioneira. Ele e o filho de... o filho de... um m ago fraudulento e de um a dançarina flam enca cigana e sem j uízo.
— Nossa! — disse Bezam , sem conseguir controlar o choque. Dibbler se perm itiu um tapinha m ental nas próprias costas. Ele m esm o havia ficado bastante im pressionado.
— Acho que você deveria com eçar a apresentá-lo daqui a m ais ou m enos um a hora.
— A esta hora da m anhã? — disse Bezam . O clique que havia adquirido para o dia era Um esthudo Intheressante da Arte de Fazer Cerâm ica, que o estava deixando preocupado. Essa proposta parecia ser m uito m elhor.
— Sim . Porque m uita gente vai querer assistir.
— Isso eu não sei. O público tem dim inuído ultim am ente.
— Eles vão querer assistir a este — disse Cova. — Confie em m im . Já m enti pra você algum a vez? Bezam cocou a cabeça.
— Bom , um a noite, no m ês passado, você m e vendeu um a salsicha no pão e disse que...
— Foi um a pergunta retórica — interrom peu Cova de m aneira brusca.
— É — confirm ou Detritus. Bezam fraquej ou.
— Ah, bom . Eu não conheço as norm as da retórica.
— Certo — disse Cova, com o sorriso aberto de um a abóbora m aquiavélica. — Apenas abra. Depois e só relaxar e nadar no dinheiro.
— Ah. Ótim o — aprovou Bezam , hesitante.
Cova pôs um braço am igável sobre o om bro do hom em .
— E agora vam os discutir os percentuais.
— Que percentuais? — Pegue um charuto — ofereceu Cova.
Victor cam inhava devagar pela rua principal sem nom e de Holy Wood. Suas unhas estavam cheias de areia.
Não estava seguro de ter feito a coisa certa.
O hom em provavelm ente era apenas um m endigo da praia que sim plesm ente foi dorm ir num dia e não acordou m ais, em bora o casaco verm elho e dourado não fosse um a peça de roupa típica de um m endigo. Era difícil dizer há quanto tem po ele estaria m orto. O ar salgado e seco havia aj udado a preservá-lo. Tinha aparência sem elhante à que devia ter quando vivo, ou sej a, a de alguém que parecia m orto.
A j ulgar por sua cabana, ele costum ava catar coisas esquisitas pela praia. Victor pensou que alguém deveria ser inform ado, m as provavelm ente em Holy Wood não haveria ninguém interessado. Provavelm ente apenas um a pessoa no m undo tinha se interessado em saber se ele estava vivo ou não, e tinha sido a prim eira a saber.
Victor enterrou o corpo na areia perto da cabana feita com restos de m adeira.
Ele viu o restaurante do Borgle à sua frente. Havia decidido se arriscar a tom ar o café da m anhã por lá. Alem disso, precisava de um lugar para sentar e ler o livro.
Não era o tipo de coisa que se esperava encontrar num a praia, num a cabana de m adeira, na m ão de um hom em m orto.
Na capa havia as palavras O Livro do Fhilm e.
Na prim eira página, na letra redonda caprichada de alguém que não tinha m uita facilidade para escrever, estavam as seguintes palavras: "esta é a Crônica dos Guardadores da ParaMontanha copiada por m im Deccan Porque a Anthiga estava Caindo aos Pedaços".
Ele virou com cuidado as páginas enrij ecidas. Pareciam cheias de anotações quase idênticas. Nenhum a tinha data, m as isso não era m uito im portante, j á que cada dia se parecia m uito com o outro.
Acorddei. Fui ao lavatório. Acendi o fogo, anunciei a Seção da Matinê. Quebrei j ej um . Apanhei m adheira. Acendi o fogo. Procurei alim ento na colina. Celebrei a Seção Nocturna. Jantar. Entoei o hino da Últim a Seção. Fui ao lavatório. Cam a.
Acorddei. Fui ao lavatório. Acendi o fogo, entoei Seção da Matinê. Quebrei j ej um . Crullet o pescador da Angra dej owser deixou 2 percas bhonitas. Apanhei m adheira. Anunciei a Seção da Tarde, acendi o fogo. Cuidar da casa. Jantar. Louvei a Ultim a Seção Nocturna. Cam a. Acordei a Meia-noite, fui ao lavatório e verifiquei a fogueira, m as ela não precisava de m adheira.
Ele viu a garçonete pelo canto do olho.
— Eu queria um ovo cozido.
— É cozido. Cozido de peixe.
Ele ergueu o rosto e viu os olhos brilhantes de Ginger.
— Eu não sabia que você era garçonete.
Ela fingiu tirar o pó do saleiro.
— Nem eu, até ontem . Sorte m inha que a m enina que trabalha de m anhã pro Borgle conseguiu um a chance na nova im agem anim ada que a Alquim istas Desatados está fazendo, não e? — Ela deu de om bros. — Se eu realm ente tiver sorte, quem sabe? Posso conseguir pegar o turno da tarde tam bém .
— Olha, eu não queria...
— É cozido. É pegar ou largar. Três clientes hoj e j á fizeram os dois.
— Vou pegar. Olha, você não vai acreditar, m as eu encontrei isto na m ão de um ...
— Não tenho perm issão para ficar de brincadeira com fregueses. Este não é o m elhor em prego da cidade, m as você não vai m e fazer perdê-lo — interrom peu Ginger num tom ríspido. — Cozido de peixe, certo? — Ah.
Certo.
Desculpa.
Ele voltou algum as páginas. Antes de Deccan, havia Tento, que tam bém entoava os cânticos três vezes por dia, que tam bém recebia, às vezes, peixes de presente e que tam bém ia ao lavatório, em bora ou ele não era tão assíduo a esse respeito quanto Deccan, ou não achava que valesse a pena registrar todas as vezes. Antes disso, alguém cham ado Meggelin havia sido o entoador. Toda um a seqüência de pessoas havia m orado na praia e, se você voltasse no tem po, havia um grupo delas. Voltando m ais ainda, as anotações davam a im pressão de ser m ais oficiais. Era difícil saber. Pareciam escritas em código, linhas e m ais linhas de pequenas figuras com plexas...
Um a tigela de sopa prim itiva foi largada diante dele.
— Olha — Ele disse. — A que horas você sai...
— Nunca.
— Eu só estava pensando se você sabia onde... — Não.
Victor ficou olhando para a superfície som bria do ensopado. Borgle trabalhava com o princípio de que, se algo tivesse sido encontrado na água, era peixe. Havia algum a coisa roxa lá dentro que tinha pelo m enos dez pernas. Ele com eu assim m esm o. Tinha lhe custado 30 centavos.
Depois, Ginger se m antinha ocupada ao balcão de form a decidida, voltando as costas para ele com o se fosse um farol. Por m ais que ele tentasse atrair sua atenção, ela ainda ficava com as costas voltadas para ele, sem parecer se m exer. Sendo assim , Victor saiu para procurar outro em prego.
Ele nunca havia trabalhado por nada na vida. De acordo com sua experiência, em prego era um a coisa que acontecia com os outros. Bezam Planter aj eitou a bandej a ao redor do pescoço de sua m ulher.
— Está bem . Pegou tudo? — Os grãos estourados ficaram m urchos — Ela disse. — E não tem nenhum j eito de m anter a salsicha quente.
— Vai estar escuro, am or. Ninguém vai notar. — Ele puxou a alça e se afastou. — Certo, você sabe o que fazer. Na m etade da sessão, eu paro de passar o film e e m ostro o cartaz que diz: "Por que não Provar um a Bebida Gelada e Refrescante e Uns Grãos estourados?", e aí você sai por aquela porta e vai até o corredor.
— Você não quer m encionar as salsichas geladas e refrescantes tam bém ? — disse a senhora Planter.
— E eu acho que é m elhor você parar de usar a tocha para m ostrar os lugares para as pessoas — aconselhou Bezam . — Está provocando acidentes dem ais.
— Só assim eu consigo enxergar no escuro.
— É, m as ontem à noite eu tive que devolver o dinheiro daquele anão. Você sabe com o eles são sensíveis em relação à própria barba. Sabe de um a coisa, am or, vou lhe dar um a salam andra na gaiola. Elas estão no telhado desde a m anhã, j á devem estar prontinhas.
E estavam . As criaturas, deitadas, cochilavam no fundo de suas gaiolas, com os corpos vibrando levem ente enquanto absorviam a luz. Bezam selecionou seis das que estavam no ponto, desceu com dificuldade de volta para a sala de proj eção e as tom bou para dentro da caixa de proj eção. Enrolou o film e de Dibbler Cova num carretel e depois saiu andando na escuridão.
"Bem ... Poderia ver se tem alguém lá fora." Ele foi até a porta da frente arrastando os pés e bocej ando. Ele ergueu o braço e em purrou a barra de ferro da tranca. Ele se abaixou e em purrou a outra barra. Ele em purrou as portas.
— Está bem , está bem — m urm urou. — Pode entrar...
Ele acordou na sala de proj eção, com a senhora Planter abanando-o desesperadam ente com o avental.
— O que aconteceu? — sussurrou, tentando afastar da sua m ente a lem brança de ter sido pisoteado.
— A casa está lotada! e ainda estão fazendo fila lá fora! estão todos na rua. São esses cartazes asquerosos! Bezam se levantou sem firm eza, m as com determ inação.
— Mulher, cala a boca e vá até a cozinha estourar m ais alguns grãos! — gritou. — Depois vem m e aj udar a consertar as placas! Se estão fazendo fila para as poltronas de cinco centavos, com certeza vão fazer fila para as de dez! Ele arregaçou as m angas e pegou na m anivela.
Na prim eira fileira, o bibliotecário estava sentado com um saco de am endoins no colo. Depois de alguns m inutos, parou de m astigai e ficou sentado com a boca aberta, olhando com os olhos fixos para as im agens trem eluzentes.
—Quer que eu segure o cavalo, senhor? Senhora? —Não! Ao m eio-dia, Victor havia ganhado dois centavos. Não que as pessoas não tivessem cavalos que precisassem ser segurados... Elas apenas não pareciam querer que ele os segurasse.
Finalm ente um hom enzinho torto que ficava m ais adiante, na m esm a rua, se aproxim ou dele, puxando quatro cavalos. Victor observara esse m esm o hom em durante horas e se espantara de verdade diante do fato de as pessoas darem ao hom únculo m agrelo sorrisos sinceros, quanto m ais um cavalo.
— Você e novo nisso, não e? — perguntou o hom enzinho.
— Sim .
— Ah. Logo vi. Esperando a sua grande chance nos cliques, certo? — disse, abrindo um sorriso encoraj ador.
— Não. Eu j á tive a m inha grande chance, na verdade.
— Por que tá aqui então? Victor encolheu os om bros.
— Eu a desperdicei.
—Ah, é m esm o? Sinsenhor, brigadossenhor, deuslhepagues-senhor, tácertossenhor — disse o hom em , aceitando m ais um a serie de rédeas.
— Você não precisa de um aj udante? — perguntou Victor, esperançoso. Bezam Planter ficou olhando para a pilha de m oedas à sua frente. Dibbler Cova m exeu as m ãos, e a pilha ficou m enor, m as ainda era a m aior pilha de m oedas que Bezam j á havia visto acordado.
— E nós ainda estam os fazendo sessões a cada 15 m inutos! — sussurrou Bezam . — Tive que contratar um garoto para girar m anivela! Não sei... O que eu deveria fazer com todo este dinheiro? Cova deu um tapinha nas suas costas.
_ Com pre um lugar m aior.
— Estive pensando nisso. E. Algo com pilares luxuosos na entrada. E a m inha filha Calíope toca órgão m uito bem , seria um bom acom panham ento. E tem que ter m uita tinta dourada e coisinhas onduladas... Seus olhos ficaram vidrados. Ela havia encontrado m ais um a m ente.
Holy Wood sonha.
— ... E fazer um palácio, com o o fabuloso Rhoxie de Klatch, ou o m aior tem plo que j á existiu, com escravas vendendo grãos estourados e am endoins e Bezam Planter andando de um lado para o outro com um ar de proprietário, com um casaco de Veludo verm elho com correntes douradas... Hum ? — m urm urou, enquanto o suor pingava da sua testa.
— Eu disse que estou fora — disse Cova. — Tenho que seguir no negócio das im agens anim adas, sabe.
— A senhora Planter disse que você precisa fazer m ais film es com aquele j ovem . A cidade toda está falando nele. Ela disse que várias senhoras desm aiaram quando ele as olhou com aquela expressão ardente. Ela assistiu cinco vezes — acrescentou, e sua voz ficou cheia de um a desconfiança repentina. — E aquela garota! Uau! — Não se preocupe com nada — disse Cova num tom grandioso. — Eles estão sob contr... — Um a dúvida repentina pairou sobre o seu rosto. — Até m ais — disse brevem ente, e saiu correndo do prédio.
Bezam ficou parado, sozinho, e olhou para o interior coberto de teias de aranha do Odium , com a im aginação acelerada povoando os cantos escuros do lugar com palm eiras em vasos, folhagens douradas e querubins rechonchudos. Cascas de am endoim e grãos estourados estalavam sob seus pés. "Tem os que lim par tudo antes da próxim a sessão", pensou. "Acho que aquele m acaco vai ser o prim eiro da fila de novo." Então ele avistou o cartaz de Espadha da Paixão. Im pressionante, realm ente. Não havia m uita coisa em m atéria de elefantes e vulcões, e os m onstros eram trolls com coisas presas neles, m as naquele close... bom ... todos os hom ens suspiraram , e depois todas as m ulheres suspiraram ... Era com o m ágica. Ele abriu um sorriso diante da im agem de Victor e Ginger.
"O que será que aqueles dois estão fazendo agora?", pensou.
"Provavelm ente com endo caviar em pratos de ouro e relaxando com alm ofadas de veludo até os j oelhos, pode ter certeza." — Você não parece ter j eito para a coisa, rapaz — observou o segurador de cavalos.
— Infelizm ente não consigo pegar o j eito para segurar o cavalo dos outros — disse Victor.
— EE, esse negócio é difícil, segurar cavalos. Tem que aprender a ser servil na m edida certa, e os gracej os alegres de segurador de cavalos têm que ser irreverentes, m as não abusados dem ais. As pessoas não querem só que você segure os cavalos, entende? elas querem um a experiência que envolva segurar cavalos.
— Com o assim ? — Elas querem um encontro casual e alegre, e um a resposta rápida e inventiva. Não é só um a questão de segurar rédeas.
Victor com eçou a entender.
— É um a perform ance — Ele disse.
O "sigurador" de cavalos deu um tapinha na lateral do seu nariz em form a de m orango.
— Isso m esm o! Tochas ardiam em Holy Wood. Victor passou com dificuldade no m eio da m ultidão da rua principal. Todos os bares, todas as tavernas e todas as loj as ficavam com as portas escancaradas. Um m ar de gente fluía e refluía por elas. Ele teve que dar alguns pulos para exam inar a aglom eração de rostos.
Estava sozinho, perdido e com fom e. Precisava de alguém para conversar, e ela não estava lá.
— Victor! Ele se virou. Rocha caiu sobre ele feito um a avalanche.
— Victor! Meu am igo! — Um punho com o tam anho e a dureza de um a pedra bateu no seu om bro de um j eito am igável.
— Ah, oi — respondeu Victor, vacilante. — E... Com o vai, Rocha....
— Ótim o! Ótim o! Am anhã vam os film ar Am eaça Hostil no Vale dos Trolls! — Fico m uito feliz por você.
— Você m eu hum ano da sorte! — Exclam ou Rocha. — Rocha! Que nom e! Vem tom ar algum a coisa! Victor aceitou. Realm ente não tinha m uita escolha, porque Rocha o segurou pelo braço e, abrindo cam inho pela m ultidão com o um navio quebra—gelo, m eio guiou, m eio arrastou Victor na direção da porta m ais próxim a. Um a luz azul ilum inou um a placa. A m aioria dos m orporkianos sabia ler trollês, que não era um a língua difícil. As runas diziam com clareza O Calcário Azul. Era um bar de trolls.
A incandescência esfum açada das fornalhas atrás dos balcões de laj e era a única ilum inação. Ilum inava três trolls tocando... bem , algum a coisa de percussão, m as que Victor não conseguia identificar porque os decibéis estavam num nível em que o som se tornava um a força sólida e fazia os seus globos oculares vibrar. A fum aça da fornalha escondia o teto.
— O que cê vai tom ar? — Estrondeou Rocha.
— Não vou ter que beber m etal derretido, né? — Victor perguntou com a voz trêm ula. Teve que usar o volum e m áxim o de sua voz para ser ouvido.
— A gente tem todos os tipos de bebida! — gritou a troll fêm ea atrás do balcão do bar. Tinha que ser fêm ea. Não havia dúvidas, lem brava um pouco as estátuas das deusas da fertilidade que os hom ens das cavernas esculpiam m ilhares de anos atrás, m as lem brava m ais ainda um a cadeia de m ontanhas. — Gente m uito cosm opolita.
— Quero um a cervej a, então! — E um flores de enxofre no gelo, Ruby ! — acrescentou Rocha. Victor aproveitou a oportunidade e olhou para o bar, agora que se acostum ara com a escuridão e seu tím pano ficara piedosam ente dorm ente. Percebeu que havia um núm ero enorm e de trolls sentados diante de m esas com pridas, com um anão aqui e ali, o que era surpreendente. Anões e trolls norm alm ente brigavam feito... bem ... anões e trolls. Nas m ontanhas de que eram provenientes, havia um estado de vingança ininterrupto. Holy Wood realm ente m odificava as coisas.
— Posso falar um a coisa pra você? — Victor gritou na orelha pontuda de Rocha.
— Claro! — Rocha pôs o seu copo no balcão. Ele tinha um guarda-chuva roxo de papel, cham uscado com o calor.
— Você viu a Ginger? Sabe? A Ginger? — Tá trabalhando no Borgle! — Só de m anhã! Acabei de ir lá! Aonde ela vai quando não está trabalhando? — Vai saber aonde as pessoas vão! A banda de j azz envolta pela fum aça fez silêncio de repente. Um dos trolls pegou um a pedra pequena e com eçou a dar batidas suaves, produzindo um ritm o lento e grudento, que se pregava às paredes feito fum aça. Da fum aça, Ruby surgiu com o um galeão saindo da neblina, com um boá de plum as ridículo em volta do pescoço.
Era um a placa tectônica com curvas.
Com eçou a cantar.
Os trolls fizeram um silêncio respeitoso. Depois de algum tem po, Victor ouviu um soluço. Lágrim as rolavam pelo rosto de Rocha.
— O que diz a letra da m úsica? — sussurrou.
Rocha se curvou.
— É m úsica do folclore troll antigo. E sobre Am ber e Jasper. Eles eram ... — hesitou e balançou a m ão num gesto vago. — Am igos. Bons am igos? — Acho que entendo o que você quer dizer.
— Um dia, Am ber leva o seu j antar de troll pra caverna e encontra ele... — Rocha balançou as m ãos com m ovim entos vagos, porem com pletam ente descritivos.
— ... com outra m oça troll. Então ela foi para casa, pegou a sua clava, voltou e bateu nele até ele m orrer, tum , tum , tum . Porque ele era troll dela e enganou ela. É m úsica m uito rom ântica.
Victor ficou olhando fixam ente. Ruby desceu ondulando do palco m inúsculo e deslizou entre os fregueses: um a pequena m ontanha sobre um a arm ação de m adeira com quatro rodas. "ela deve pesar duas toneladas", pensou. "Se sentar no m eu colo, vão ter que m e desenrolar do chão com o se eu fosse um carpete." — O que ela acabou de dizer àquele troll? — perguntou, enquanto um a onda de risos varria o salão.
Rocha cocou o nariz.
— É j ogo de palavras. Muito difícil traduzir. Mas basicam ente ela disse: "Isso aí e o lendário Cetro de Magm a, que foi Rei da Montanha, que Im pressiona Milhares, Sim , Até Dezenas de Milhares, Senhor do Rio Dourado, Mestre das Pontes, explorador de Locais Misteriosos, Triturador de Muitos Inim igos" — respirou fundo — "no seu bolso ou você só está feliz em m e ver?" Victor franziu a testa.
— Não entendi.
— Talvez eu não tenha traduzido direito — disse Rocha. Ele bebeu um gole de enxofre derretido. — Ouvi dizer que a Alquim istas Desatados está form ando elenco para...
— Rocha, tem algum a coisa m uito estranha neste lugar — observou Victor, ansioso. — Você consegue sentir? — Estranha com o? — Tudo parece, bem , efervescer. Ninguém age com o deveria. Você sabia que um dia existiu um a grande cidade aqui? Onde é o m ar. Um a grande cidade. E ela sim plesm ente desapareceu! Rocha esfregou o nariz com ar pensativo. Parecia a prim eira tentativa do Hom em de Neanderthal de fazer um m achado.
— E tem o j eito com o todas as pessoas agem ! — continuou Victor. — Com o se o que elas são e o que elas querem fossem as coisas m ais im portantes do m undo! — Eu fico pensando... — com eçou Rocha.
—Sim ? — Eu fico pensando se valeria a pena tirar m eio centím etro do m eu nariz. Meu prim o Breccia conhece um pedreiro que deixou as orelha dele um a beleza. Que que cê acha? Victor ficou olhando para ele com ar de tédio.
— Sabe, por um lado, é grande dem ais, m as, por outro lado, é definitivam ente um nariz do estereótipo de troll, né? Quer dizer, talvez eu fique com um a aparência m elhor, m as neste ram o talvez sej a m elhor parecer um troll o m áxim o que eu puder. Tipo, o Morry fez um retoque no dele com cim ento, agora tá com um a cara que ninguém ia querer encontrar num a noite escura. Que que cê acha? eu considero m uito sua opinião porque você é um hum ano que tem ideias. Ele deu um sorriso brilhante de silício para Victor. Finalm ente ele respondeu: — É um ótim o nariz, Rocha. Com você atrás dele, pode ir longe. Rocha abriu um grande sorriso e deu m ais um trago do enxofre. Retirou um pequeno palito de aço do coquetel e chupou a am etista que estava na ponta.
— Você acha m esm o... — com eçou, e depois percebeu a pequena área de espaço vazio. Victor tinha ido em bora.
— Eu num sei nada sobre ninguém — disse o segurador de cavalos, com um olhar m alicioso, diante da presença volum osa de Detritus. Dibbler m ordeu seu charuto. A viagem de Ankh até lá tinha sido cheia de solavancos, m esm o com sua carroça nova, e ele não tinha alm oçado.
— Rapaz alto, m eio avoado, bigode fino. Ele estava trabalhando para você, não estava? O segurador de cavalos cedeu.
— Nunca vai ser um bom sigurador de cavalo m esm o — disse. — Deixa o trabalho m ontar nele. Acho que foi com er algum a coisa.
Victor se sentou no beco escuro, com as costas encostadas no m uro, e tentou pensar.
Lem brou-se de que um a vez havia ficado m uito tem po debaixo do sol, quando era m enino. A sensação que teve depois era algo parecido com o que sentia agora.
Ouviu um barulho pesado na areia batida ao lado dos seus pés. Alguém havia deixado cair um chapéu na sua frente. Ele olhou para o chapéu.
Depois alguém com eçou a tocar gaita. Alguém que não sabia tocar m uito bem . A m aioria das notas estava errada, e as corretas eram estridentes. Havia um a m elodia em algum lugar, do m esm o m odo em que sem pre há um pouco de carne num m oedor de carne.
Victor suspirou e procurou m oedas no bolso. Jogou-as dentro do chapéu.
— Tá, tá. Muito bom . Agora, vá em bora.
Ele sentiu um cheiro esquisito. Era difícil identificar, m as poderia ser um tapete m uito velho e um pouco úm ido. Ele ergueu a cabeça.
— Au, au, caram ba — disse Gaspode o Cão Prodígio.
O encarregado do restaurante de Borgle havia decidido fazer experim entos com saladas naquela noite. A cidade m ais próxim a que cultivava verduras ficava a dem orados 50 quilôm etros dali.
— Que que isso? — perguntou um troll, m ostrando um a coisa m ole e m arrom .
Fruntkin, o chef do prato feito, arriscou um palpite.
— Aipo? — disse. Ele exam inou de perto. — É, aipo.
— É m arrom .
— Isso m esm o. Isso m esm o! Aipo m aduro tem que ser m arrom — confirm ou Fruntkin, rapidam ente. — Assim dá pra ver que tá m aduro — acrescentou.
— Tinha que ser verde.
— Nã... Você tá pensando em tom ate.
— E, e o que e essa coisa escorrendo? — perguntou um hom em na fila. Fruntkin se esticou em sua altura m áxim a.
— Isso é a m aionesia. Eu que fiz. Olhei num livro — acrescentou com orgulho.
— É, im agino que sim — disse um hom em , cutucando-a. — Nota-se que óleo, ovos e vinagre não foram incluídos, certo? — Especialitê de lar m ay son.
— Tá bom , tá bom — aceitou o hom em . — Só que ela está atacando a m inha alface.
Fruntkin pegou a concha com raiva.
— Olha... — com eçou.
— Não, tudo bem — disse o freguês em potencial. — As lesm as form aram um cordão de isolam ento.
Havia um a com oção à porta. Detritus, o troll, passou entre os clientes, com Dibbler Cava-a-própria-Cova andando com ar pom poso atrás dele. O troll em purrou a fila com o om bro e encarou Fruntkin.
— O seu Dibbler quer falar — com eçou, esticando o braço por cim a do balcão, levantando o anão pela cam isa incrustada de com ida e deixando-o pendurado diante de Cova.
— Alguém viu Victor Tugelbend? — perguntou Cova. — Ou aquela m enina, a Ginger? Fruntkin abriu a boca para xingar e pensou m elhor.
— O garoto esteve aqui um a hora atrás — disse com a voz esganiçada. — Ginger trabalha aqui de m anhã. Não sei aonde ela vai depois.
— Aonde o Victor foi? — perguntou Cova. Ele tirou do bolso um saco que tilintava. Os olhos de Fruntkin giraram na direção do saco com o se fossem rolam entos de aço, é ele, um ím ã poderoso.
— Num sei, senhor Cova. Ele foi em bora de novo quando viu que ela não estava aqui.
— Certo. Bom , se você encontrá-lo novam ente, diga que estou procurando por ele e que vou fazer dele um astro, certo?
— Astro. Certo.
Cova pôs a m ão na sua sacola de dinheiro e tirou um a nota de dez dólares.
— E eu quero pedir j antar para m ais tarde — acrescentou.
— Jantar. Certo — concordou Fruntkin com a voz trêm ula.
— Bife com pitus, acho. E um a opção de verduras douradas da estação... E depois m orangos com crem e.
Fruntkin encarou-o com os olhos arregalados. — E... — com eçou. Detritus deu um peteleco no anão que o fez balançar para a frente e para trás.
— E eu vô querer... é... um basalto bem tem perado com um acom panham ento de conglom erados de arenito recém -arrancados. Certo? — É...
Sim .
— Põe ele no chão, Detritus. Ele não quer ficar pendurado — ordenou Cova. — E devagar. — Ele olhou para os rostos fascinados ao redor.
— Lem brem -se, estou procurando Victor Tugelbend e vou fazer dele um astro. Se alguém encontrá-lo, tem que dizer isso. Ah, e o m eu bife é m al passado, Fruntkin.
Ele andou com passos largos até a porta. Depois que foi em bora, a falação voltou a fluir com o um a m aré.
— Fazer dele um astro? Pra que ele vai servir? — Eu não sabia que dava para fazer um astro... achava que eles ficassem assim , sabe, presos no céu...
— Acho que ele quis dizer fazer dele um astro. Sabe, ele, ele m esm o. Transform ar ele num astro.
— Com o é que se pode transform ar alguém em astro? — Sei lá. Acho que você com prim e bem a pessoa, e ela explode em form a de um a m assa de hidrogênio em cham as...
— Nossa m ãe! — É! Aquele troll é m alvado m esm o.
Victor olhou bem para o cachorro.
Não era possível que tivesse falado com ele. Devia ter sido a sua im aginação. Mas ele havia dito o seu sobrenom e, não havia? — Qual será o seu nom e? — disse Victor, afagando sua cabeça.
— Gaspode — respondeu Gaspode.
A m ão de Victor congelou no m eio do afago.
— Doicentavo — pediu o cachorro, vacilante. — Único cachorro que toca gaita no m undo. Doicentavo.
"É o sol", pensou Victor. "Eu não tenho usado chapéu. Daqui a um m inuto vou acordar e sentir os lençóis fresquinhos." — Bom , você não tocou m uito bem . Não consegui reconhecer a m elodia — reclam ou, esticando os lábios num sorriso horrível.
— Cê num tem que reconhecer a m aldita m elodia — protestou Gaspode, sentando-se com todo o seu peso e concentrando-se em cocar a orelha com a pata traseira. — Eu sou um cachorro. Cê tinha que ficar m uito im pressionado com o fato deu conseguir tirar um m aldito guincho deste troço.
"Com o eu devo dizer?", pensou Victor. "Digo sim plesm ente: desculpe, m as parece que você está fal... Não, m elhor não." — E... — com eçou. "ei, você e bastante tagarela para um ... não." — Pulgas — com entou Gaspode, m udando de pata e de orelha. — Tão m e perturbando.
— Ai, não.
— É esses trolls todos. Não suporto eles. Têm um cheiro m uito esquisito. Malditas pedras am bulantes. Cê tenta m order eles e, quando vê, tá cuspindo um dente. Não é norm al.
"Por falar em norm al, não posso deixar de notar que..." — Maldito deserto, este lugar — continuou Gaspode.
"Você é um cachorro falante." — Im agino que você tá se perguntando — disse Gaspode, voltando o seu olhar penetrante para Victor m ais um a vez — com o é que eu posso tá falando.
— Nem pensei nisso.
— Nem eu. Até um as duas sem anas atrás. Na m inha vida toda nunca disse um a m aldita palavra. Trabalhava prum suj eito lá na cidade. Truques e tal. Equilibrava a bola no focinho. Andava com as patas de trás. Pulava no m eio do laço. Carregava o chapéu na boca no m eio das pessoas. Sabe com o e. Show business. Aí um a m ulher passa a m ão na m inha cabeça e diz: "Ai, que gracinha de cachorrinho, parece que entende tudo o que a gente fala". E eu penso: "Ho, ho, nem m e preocupo m ais em m e esforçar pra isso, m oça". Foi aí que percebi que eu entendo as palavras, e elas saem pela m inha própria boca. Aí eu peguei o chapéu e o peguei com as m inhas patas bem rapidinho, enquanto eles ainda tavam olhando adm irados.
— Por quê? Gaspode revirou os olhos.
— Que vida cê acha que vai ter um autêntico cachorro falante? Não devia ter aberto a droga da boca.
— Mas você está falando com igo.
Gaspode lançou um olhar dissim ulado, olhando de rabo de olho.
— É, m as tenta contar pra todo m undo pra ver. De todo m odo, cê é legal. Cê tem aquele j eito. Eu percebo a um quilôm etro.
— Que diabos você está querendo dizer? — Cê acha que não consegue se reconhecer, certo? — disse o cachorro. — Cê j á teve aquela sensação de que algum a outra coisa tá pensando por você?
— Nossa.
— Te deixa com um j eito m eio cism ado — prosseguiu Gaspode. Ele pegou o chapéu com a boca. — Doicentavo — disse, num tom vago. — Quer dizer, não que eu conheça algum j eito de gastar isso, m as... doicentavo. — Ele deu um a encolhida de om bros canina.
— O que você quer dizer com j eito cism ado?
— Cês todos têm esse j eito. Do tipo "m uitos são cham ados e poucos são escolhidos".
— Que j eito? — Com o se tivesse sido cham ado pra vir aqui e não sabe por quê. — Gaspode tentou cocar a orelha novam ente. — Vi cê fazendo Cohen, o Bárbaro.
— E... o que você achou? — perguntou Victor.
— Eu acho que, desde que o velho Cohen nunca fique sabendo, você está seguro.
— Eu disse: há quanto tem po ele esteve aqui? — gritou Dibbler. Num palco m inúsculo, Ruby cantava algum a coisa com um a voz m elosa que lem brava um navio num a neblina espessa e com problem as sérios.
— GrooOOoivwonnogghrhhooOOo. (LEGENDA: "Maizuma vez tô apaxonada (lit., sentindo a sensação agradável de ser atingida com uma pedra na cabeça por Chondrodite, o deus troll do amor)". Nota: Chondrodite não deve ser confundido com Gigalite, o deus troll que dá sabedoria aos trolls acertando-os com uma pedra na cabeça, ou Silícaro, o deus troll que dá sorte aos trollsacertando-os com uma pedra na cabeça, ou com o herói folclórico Monólito, que foi o primeiro a deturpar o significado do segredo das pedras dos deuses.)
— Ele acabou de sair! — berrou Rocha. — Estou tentando ouvir esta m úsica, está bem ?
— ... OowoowgrhhffrghooOOo... (LEGENDA: "Por que e que eu tô azul agora?")
Cava-A-Própria-Cova cutucou Detritus, que havia se sentado para tirar o peso dos nós dos dedos e assistia à apresentação de boca aberta. A vida do velho troll havia sido, até o m om ento, bastante sim ples e direta. As pessoas pagavam , e ele batia em outras pessoas.
Agora ela estava com eçando a ficar com plicada. Ruby havia piscado para ele.
Em oções estranhas e desconhecidas se agitavam no coração surrado de Detritus.