A Magia de Holy Wood

Terry Pratchett · Capítulo 1 de 5 · parte 1/6

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A Magia de Holy Wood

Agradecimentos

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 6 partes.

AG RADECIMENTOS

Gostaria de agradecer a todas as pessoas m aravilhosas que tornaram este livro possível.

Obrigado. Obrigado. Obrigado...

OBSERVE...

Este é o espaço. Às vezes, é cham ado de a últim a fronteira. (Só que obviam ente não pode haver um a últim a fronteira, porque ela seria um a fronteira com nada. Mas, tratando-se de fronteiras, esta e realm ente a penúltim a...).

Sobre a fina cam ada de estrelas de um a nebulosa vasta e negra, um a gigante averm elhada brilha com o a loucura dos deuses...

Seu brilho parece um a faísca no olho de um gigante e desaparece com o num piscar de olhos. A escuridão desvenda um a nadadeira em m ovim ento, é a Grande A'Tuin, a tartaruga estelar, segue nadando pelo vazio. Sobre suas costas, quatro elefantes gigantes. Sobre os om bros deles, cercado de água, cintilando sob seu pequeno Sol orbitante e girando m aj estosam ente em torno das m ontanhas de seu Centro congelado, está o Disco, m undo e espelho dos m undos.

Quase irreal.

A realidade não e digital, algo que se liga e se desliga, m as analógica. Gradual. Em outras palavras, a realidade e um a qualidade que as coisas possuem , da m esm a form a com o possuem , digam os, peso. Algum as pessoas são m ais reais que outras, por exem plo. Estim a-se que existam apenas cerca de 500 pessoas reais em cada planeta, m otivo pelo qual elas vivem se encontrando inesperadam ente o tem po todo.

O Disco é tão irreal quanto possível e ao m esm o tem po real o suficiente para existir.

É real o suficiente para ter problem as de verdade.

A cerca de 50 quilôm etros no sentido contrário ao de Ankh-Morpork, a espum a batia na porção de terra coberta de dunas onde o vento balança as gram íneas e o Mar Círculo encontra o Oceano Periférico.

A colina era visível a quilôm etros de distância. Coberta por arbustos, não era m uito alta, m as ficava entre as dunas feito um barco virado ou um a baleia m uito azarada. Ali a chuva não caía, a m enos que não conseguisse desviar. Em bora o vento esculpisse as dunas que a cercavam , o baixo cum e da colina perm anecia num a eterna e estrondosa calm aria.

Nada, a não ser a areia, havia se m odificado por ali durante centenas de anos.

Até agora.

Um a cabana tosca, feita com pedaços de lenha, tinha sido construída na longa curva da praia, em bora usar o term o “construído” sej a um a ofensa a todos os construtores de cabanas toscas ao longo dos tem pos. Se apenas deixassem que o m ar em pilhasse a m adeira, o trabalho talvez saísse m elhor. Lá dentro, um velho acabara de m orrer.

— Oh! — Ele disse. Abriu os olhos e viu o interior da cabana. Não via nada com m uita clareza havia dez anos.

Depois balançou, se não as pernas, pelo m enos a m em ória delas para fora da pobre cam a de sisal e se levantou. Saiu de encontro à m anhã, que brilhava com o um diam ante. Ele achou interessante o fato de ainda usar um a im agem espectral do seu m anto cerim onial — m anchado e esfiapado, m as que podia ser reconhecido com o algo originalm ente felpudo e verm elho escuro com alam ar dourado — m esm o depois de m orto. "Ou as roupas m orrem com a pessoa", pensou, "ou as pessoas se vestem m entalm ente, por força do hábito.”.

Tam bém foi a força do hábito que o levou até a pilha de lenha ao lado da cabana. No entanto, quando tentou j untar alguns gravetos, suas m ãos passaram através deles.

Soltou um palavrão.

Foi então que notou o vulto parado à beira da água, olhando para o m ar. Apoiava-se num a foice. O vento chicoteava seu m anto negro. Saiu m ancando em direção ao vulto, m as se lem brou de que estava m orto e com eçou a andar com passos firm es. Não andava com passos firm es havia décadas. Im pressionante com o tudo voltava tão facilm ente.

Antes que ele chegasse à m etade do cam inho, o vulto obscuro disse:

— DECCAN RIBOBE.

— Sou eu.

— O ÚLTIMO GUARDIÃO DA PORTA.

— Bom , im agino que sim . Morte hesitou.

— OU VOCÊ É OU VOCÊ NÃO É.

Deccan esfregou o nariz. "É claro", pensou, "que depois de m orto você consegue tocar o próprio corpo. Caso contrário, você cairia aos pedaços.”.

— Tecnicam ente o Guarda tem que ser em possado pela Sum a Sacerdotisa — respondeu. — E não existe um a Sum a Sacerdotisa há m ilhares de anos. Olha, eu aprendi tudo com o velho Tento, que m orava aqui antes de m im . Ele só chegou e m e disse: "Deccan, parece que eu tô m orrendo, então agora depende de você. Porque, se não sobrar ninguém que se lem bre direito, vai com eçar tudo de novo, e você sabe o que isso significa". "Bom , está bem . Mas isso não e exatam ente o que se pode cham ar de cerim ônia de posse", eu respondi. — Ele olhou para a colina arenosa. — Éram os só eu e ele. Mais tarde eu m e tornei a única pessoa que se lem brava da Holy Wood, a Madeira Sagrada. E agora... — Ele pôs a m ão na boca. E disse: — Xiiii...

— SIM — concordou Morte.

Seria um equívoco dizer que havia um a expressão de pânico no rosto de Deccan Ribobe porque, naquele m om ento, seu rosto estava a vários m etros de distância e tinha um a espécie de sorriso am arelo, com o se ele finalm ente tivesse entendido a piada. Mas seu espírito estava definitivam ente preocupado.

— Olha, o negócio é o seguinte — com eçou, com pressa —, ninguém j am ais vem aqui, sabe, a não ser os pescadores da baía ao lado, e eles só deixa os peixe e sai correndo por causa da superstição. E eu não pude, tipo, ir atrás de um aprendiz ou algo assim porque tinha que cuidar das fogueiras a noite toda e entoar os cânticos...

— SIM.

— ... é um a responsabilidade trem enda ser o único capaz de realizar um trabalho...

—SIM.

— Bom , e claro que não estou dizendo nada que você não saiba...

—NÃO.

—... quer dizer, eu tinha esperança de que alguém naufragasse ou algo do tipo, ou que viesse procurando um tesouro e eu pudesse explicar tudo, com o o velho Tento explicou pra m im . Eu ensinaria os cânticos, resolveria tudo antes de m orrer...

— SIM? — Acho que não tem nenhum a chance de eu m eio que...

—NÃO.

— Achei que não — conform ou-se Deccan, desanim ado. — Ele olhou para as ondas batendo na praia. — Isso aqui era um a cidade grande m ilhares de anos atrás. Onde agora e o m ar. Quando ele tá violento, dá pra ouvir os veios sinos do tem plo tocando no fundo do m ar.

— EU SEI.

— Eu costum ava sentar aqui fora, nas noites de vento, e ficava ouvindo. Ficava im aginando todas as pessoas m ortas lá em baixo, tocando os sinos.

— AGORA TEMOS QUE IR.

— O véio Tento disse que tinha um a coisa debaixo daquela colina com o poder de levar as pessoas a fazer coisas. Colocava fantasias estranhas na cabeça delas — disse Deccan, seguindo, relutante, o vulto de andar pom poso. — Eu nunca tive nenhum a fantasia estranha.

— MAS VOCÊ ESTAVA ENTOANDO OS CÂNTICOS – observou Morte. E estalou os dedos.

Um cavalo parou de tentar pastar na gram a rala das dunas e foi trotando até Morte. Deccan ficou surpreso ao ver que ele havia deixado m arcas de casco na areia. Esperava faíscas ou, pelo m enos, pedra fundida.

— E... — com eçou — você pode m e dizer, e... o que vai acontecer agora? Morte contou a ele.

— Eu im aginava — disse Deccan, abatido.

Sobre a colina baixa, a fogueira que havia ardido a noite toda se desintegrou, form ando um a chuva de cinzas. Algum as brasas ainda estavam incandescentes. Logo elas se apagariam .

Elas se apagaram .

Nada aconteceu durante um dia inteiro. Depois, num a pequena cavidade na ponta da colina som bria, alguns grãos de areia se deslocaram e deixaram um m inúsculo buraco.

Algo saiu dali. Algo invisível. Algo alegre, egoísta e m aravilhoso. Tão intangível quanto um a ideia — Exatam ente o que aquilo era. Um a ideia extravagante. Era tão antiga que não podia ser m edida por nenhum calendário conhecido pelo hom em . O que ela possuía, naquele exato m om ento, eram lem branças e necessidades. Lem brava-se da vida em outras épocas e em outros universos. Precisava de pessoas.

ela subiu até as estrelas, m udando de form a, m ovendo-se em espiral, com o fum aça.

Havia luzes no horizonte.

ela gostava de luzes.

Observou-as com atenção por alguns segundos e, em seguida, com o um a seta invisível, alongou-se em direção à cidade e acelerou. Tam bém gostava de ação... E várias sem anas se passaram .

Existe um dito popular que afirm a que todos os cam inhos levam a AnkhMorpork, a m aior cidade do Disco. Pelo m enos e dito por aí que existe um dito popular que afirm a que todos os cam inhos levam a Ankh-Morpork.

E ele está errado. Todos os cam inhos levam para longe de Ankh-Morpork, m as às vezes as pessoas sim plesm ente pegam a estrada na direção contrária. Os poetas há m uito desistiram de tentar descrever a cidade. Os m ais espertos disfarçam . Dizem que... bem ... talvez ela sej a m alcheirosa, talvez ela sej a superpovoada, talvez ela sej a um pouco com o o Inferno seria se controlassem o fogo que queim a por lá e form assem um curral cheio de vacas com problem as intestinais durante um ano. Mas e preciso adm itir que ela e cheia de vida pura, dinâm ica e vibrante. E é verdade, apesar de serem os poetas quem dizem isso. E as pessoas que não são poetas dizem : e daí? Os colchões tam bém tendem a ser cheios de vida, m as ninguém escreve odes a eles. Os cidadãos odeiam m orar lá e, se são obrigados a m udar para outra cidade por causa do trabalho, por aventura ou, o que e m ais com um , para esperar que algum estatuto de lim itações expire, não veem a hora de voltar para que possam sentir um pouco m ais o prazer de odiar viver lá. Eles colocam adesivos na parte de trás da carroça dizendo: "Ankh-Morpork — Odeie-a ou deixe-a". Cham am -na de "A Grande Wahooni", por causa da fruta com esse nom e. (Dá apenas em algumas partes da Howondalândia paga. Tem seismetros de comprimento, e coberta de espinhos da cor da cera de ouvido e tem o cheiro de um tamanduá que comeu uma formiga muito estragada.)

De vez em quando, um governante da cidade constrói um m uro ao redor de Ankh-Morpork para m anter ostensivam ente os inim igos do lado de fora. Mas Ankh-Morpork não tem e os inim igos.

Na verdade, ela os recebe bem , desde que sej am inim igos com dinheiro para gastar. (Na verdade, a famosa publicação do Grêmio dos Mercadores, Bem-vindos a Ankh-Morpork, a Cidade de Mil Surpresas, tem agora uma seção inteira intitulada “Então você é um InvasorBárbaro?”, que traz comentários sobre a vida noturna, promoções de artigos folclóricos no bazar e,sob o título "Circulando por aí", uma lista de restaurantes onde se pode encontrar leite de égua e um pudim de iaque confiáveis. E não foram raras as vezes em que um vândalo de capacete pontudo voltou trotando para sua terra congelada perguntando-se por que parecia estar muito mais pobre, jáque era o dono legítimo de um tapete malfeito, de um litro de vinho intragável e de um jumento roxo empalhado com um chapéu de palha.

Ela sobreviveu a enchentes, incêndios, m ultidões, revoluções e dragões. Às vezes por acidente, e preciso adm itir, m as sobreviveu. O espírito anim ado e irrecuperavelm ente m ercenário da cidade tornou-a resistente a qualquer coisa... Até agora.

Bum ! A explosão arrancou as j anelas, a porta e grande parte da cham iné. Era o tipo de coisa j á esperada na rua dos Alquim istas. Os vizinhos preferiam as explosões, que ao m enos eram identificáveis e acabavam logo. Eram preferíveis aos cheiros, que se arrastavam aos poucos.

As explosões faziam parte do cenário. Pelo m enos do que restara dele. E essa tinha sido m uito boa, até m esm o para os padrões dos especialistas locais. Havia um núcleo verm elho profundo na fum aça preta encrespada, o que não se via sem pre. Os pedaços de cim ento m eio derretidos estavam m ais derretidos que de costum e. Ela foi considerada bem im pressionante.

Bum ! Um ou dois m inutos após a explosão, um vulto saiu discretam ente do buraco irregular onde antes ficava a porta. Não tinha cabelo, e as poucas roupas que ainda vestia estavam em cham as. Ele cam baleou até um a aglom eração de pessoas que adm iravam a devastação e, sem querer, apoiou a m ão coberta de fuligem num vendedor de torta de carne e salsicha quente no pão cham ado Dibbler Cava-A-Própria-Cova, que possuía a habilidade quase m ágica de surgir em qualquer lugar onde pudesse vender algum a coisa.

— Tô procurando — com eçou, num tom de voz inebriado e m aravilhado — um a palavra. Na ponta da língua.

— Bolha? — sugeriu Cova. — E im ediatam ente recuperou seus sentidos de com erciante. — Após um a experiência com o essa — acrescentou, oferecendo um a caixa de salgados cheia de fragm entos orgânicos tão reaproveitados que eram quase sábios —, o que você precisa é colocar pra dentro um a torta de carne quente...

— Nãonaonão. Num é bolha. É o que a gente diz quando descobre um a coisa. Cê sai pela rua gritando — Explicou a figura fum egante, com pressa. – É um a palavra especial — acrescentou, com a sobrancelha enrugada sob a fuligem . A m ultidão, satisfeita e relutante porque não haveria m ais nenhum a explosão, j untou-se ao redor deles. Aquilo poderia ser m uito interessante.

— É, isso m esm o — interrom peu um senhor de idade, enchendo o cachim bo. — Cê sai correndo gritando "Fogo! Fogo!" — Ele tinha um ar triunfante.

— Num é isso...

— Ou "Socorro!" ou...

— Não, ele tem razão — disse um a m ulher com um cesto de peixes na cabeça. — Tem um a palavra especial. É estrangeira.

— Isso m esm o, isso m esm o — concordou seu vizinho. — Palavra estrangeira especial para pessoas que descobriram algum a coisa. Foi inventada por um m aluco estrangeiro na banheira...

— Bom — com eçou o hom em do cachim bo, acendendo-o no chapéu incandescente do alquim ista —, da m inha parte não vej o por que as pessoas desta cidade têm que andar por aí gritando dialetos bárbaros só porque tom aram um banho de banheira. Aliás, olha pra ele. Ele não tom ou banho. Ele está precisando de um banho, isso sim , m as não tom ou. Pra que ele vai querer sair por aí gritando palavras estrangeiras? Nós tem os palavras perfeitam ente satisfatórias para serem gritadas.

— Qual, por exem plo? — perguntou Cava-a-própria-Cova.

O que fum ava o cachim bo hesitou.

— Bom , por exem plo... "eu descobri um a coisa"... ou... "Viva!"...

— Não, estou pensando no m aluco lá de Tsort ou algum lugar desses. Ele estava na banheira e teve um a ideia para algum a coisa e saiu correndo pela rua gritando.

— Gritando o quê? — Num sei. Talvez "Me dá um a toalha!" — Aposto que ele ia gritar m esm o se tentasse fazer esse tipo de coisa por aqui — disse Cova, anim ado. — Agora, senhoras e senhores, eu tenho aqui um as salsichas no pão que fariam o seu...

— Eureca — disse o vulto da cor da fuligem , oscilando para frente e para trás.

— O que é que tem ? — perguntou Cova.

— Não, essa é a palavra. Eureca. — Um sorriso preocupado se espalhou pelas feições enegrecidas. — Significa "encontrei".

— Encontrei o quê? — insistiu Cova.

— Encontrei. Pelo m enos, eu tinha encontrado. Octocelulose. Um a coisa incrível. Estava em m inhas m ãos. Mas segurei perto dem ais do fogo — disse o vulto, com o tom perplexo dos que escaparam por pouco de um a concussão. — Um fato m uit'im portante. Tenho que fazer um a anotação a respeito. Não deixe esquentar. Muit' im portante. Tenho que anotar fato m uit'portante. E voltou correndo para as ruínas fum egantes. Dibbler ficou olhando para ele.

— O que será que foi tudo isso? — perguntou. Depois deu de om bros e ergueu a voz para gritar: — Torta de carne! Salsicha quente! No pão! Tão frescas que o porco inda nem notou que j á era!

A ideia cintilante e espiralada da colina assistiu a tudo isso. O alquim ista nem sequer sabia que ela estava lá. Sabia apenas que se sentia excepcionalm ente inventivo naquele dia.

Agora ela localizara a m ente do vendedor de tortas.

Conhecia aquele tipo de m ente. Adorava m entes com o aquela. Um a m ente capaz de vender tortas que pareciam um pesadelo era capaz de vender sonhos. Ela deu um salto.

Num a colina distante, a brisa agitava a cinza fria.

Mais abaixo na colina, num a rachadura no vão entre duas pedras, onde um arbusto acanhado de zim bro lutava para sobreviver, um pequeno punhado de areia com eçou a se m over.

Bum ! Um a cam ada fina de pó de gesso desceu até a m esa de Mustrum Ridcully, o novo arquirreitor da Universidade Invisível, bem na hora em que tentava prender um a m osca especialm ente difícil.

Olhou através do vitral da j anela. Um a nuvem de fum aça subia na área residencial de Morpork.

— Tesoureeeeiro! O tesoureiro chegou em alguns segundos, sem fôlego. Barulhos altos sem pre o perturbavam .

— São os alquim istas, m estre — Explicou, ofegante.

— E a terceira vez nesta sem ana. Malditos com erciantes de fogos de artifício — resm ungou o arquirreitor.

— Infelizm ente, m estre — concordou o tesoureiro.

— O que eles pensam que estão fazendo? — Eu realm ente não saberia dizer, m estre — respondeu o tesoureiro, recuperando o fôlego. — Nunca m e interessei pela alquim ia. Ela e m esm o m uito... m uito...

— Perigosa — com pletou o arquirreitor, com firm eza. — Muita porcaria m isturada, um tal de dizer "ei, o que aconteceria se a gente adicionasse um a gota dessa coisa am arela?" e depois andar por aí sem as sobrancelhas por duas sem anas.

— Eu ia dizer insensata — disse o tesoureiro. — Tentar fazer as coisas da form a m ais difícil, enquanto tem os a m agia cotidiana perfeitam ente sim ples à disposição.

— Pensei que estivessem tentando achar a cura para as pedras filosofais ou algo do tipo — disse o arquirreitor. — Um am ontoado de absurdos, isso sim . De qualquer m aneira, estou indo em bora.

Quando o arquirreitor com eçou a sair discretam ente da sala, o tesoureiro acenou para ele, apressado, com um punhado de papeis na m ão.

— Antes que o senhor se vá, arquirreitor — com eçou, desesperado —, eu gostaria de saber se o senhor pode fazer o favor de assinar alguns...

— Agora não, hom em — gritou o arquirreitor. — Tenho que tirar água do j oelho.

— O quê? — Certo. — A porta se fechou.

O tesoureiro ficou olhando para ela e suspirou.

A Universidade Invisível tivera m uitos tipos diferentes de arquirreitores ao longo dos anos. Grandes, pequenos, astutos, levem ente dem entes, extrem am ente dem entes. Eles vinham , serviam Em alguns casos não por tem po suficiente para a conclusão da pintura oficial a ser pendurada no Grande Salão. E m orriam . O m ago de cargo m ais elevado do m undo da m agia tinha a m esm a probabilidade de se m anter no em prego por um longo período que um piloto de testes de pula-pula num cam po m inado.

Porém , do ponto de vista do tesoureiro, isso realm ente não im portava. O nom e podia m udar de vez em quando, m as o que im portava de verdade era que havia sem pre um arquirreitor, e o trabalho m ais im portante do arquirreitor, na visão do tesoureiro, era assinar coisas — de preferência, do ponto de vista do tesoureiro, sem ler antes.

Mas esse era diferente. Para com eçar, quase nunca estava presente, exceto para trocar as roupas suj as de lam a. E gritava com as pessoas. Geralm ente com o tesoureiro.

Ainda assim , na época pareceu um a ótim a ideia eleger um arquirreitor que não colocava os pés na Universidade havia 40 anos.

Tantas brigas internas entre as várias ordens de m agia haviam ocorrido nos últim os anos que, apenas um a vez, os m agos m ais experientes concordaram que a Universidade precisava de um período de estabilidade para que pudessem seguir em paz com suas conspirações e intrigas durante alguns m eses. Um a busca nos registros revelou Ridcully, o Castanho, que, depois de se tornar um m ago do Sétim o Nível na idade incrivelm ente prem atura de 27 anos, largou a Universidade para cuidar das terras da fam ília no interior.

Ele parecia ideal. — É o cara certo — todos diziam . — É de m enino que se torce a vassoura. Um m ago do interior. Um retorno àquela coisa toda, às raízes da m agia. O bom garoto feliz, de cachim bo e olhos brilhantes. O tipo de cara que conhece todas as ervas. Que peram bula pelo m ato com seus irm ãos, os anim ais. Dorm e sob as estrelas, com o se não fosse nada. Sabe o que o vento está dizendo, não se adm irem . Dá nom e a todas as árvores, pode contar com isso. Fala com os passarinhos tam bém .

Um a m ensagem foi enviada. Ridcully Castanho suspirou, praguej ou um pouco, encontrou seu caj ado no j ardim da cozinha, onde servia de apoio a um espantalho, e partiu.

— E, se ele der algum problem a — os m agos acrescentaram , no espaço privado de sua m ente —, um a pessoa que conversa com as árvores não deve dar nenhum trabalho para ser elim inada.

Depois ele chegou e viu-se que Ridcully o Castanho realm ente falava com os passarinhos. Na verdade gritava com eles. E o que geralm ente gritava era: "Acertei você, seu desgraçado!" Os anim ais do cam po e as aves do ar realm ente conheciam Ridcully o Castanho. Eles ficaram tão bons em reconhecer seus contornos que, num raio de cerca de 30 quilôm etros ao redor das terras de Ridcully, corriam , se escondiam ou, em casos de puro desespero, atacavam violentam ente diante da m era visão de um chapéu pontudo.

Doze horas após sua chegada, Ridcully havia acom odado um bando de dragões de caça na copa onde ficava o m ordom o, disparado sua terrível besta contra corvos na antiga Torre de Arte, bebido um a dúzia de garrafas de vinho tinto e ido para a cam a às duas da m adrugada, cantando um a m úsica cuj a letra tinha palavras que obrigariam alguns dos m agos m ais velhos e esquecidos a consultar um dicionário.

Ele acordava às cinco horas para caçar patos nos charcos do estuário. E voltava reclam ando do fato de não haver nenhum rio para pescar trutas num raio de quilôm etros. (Não era possível pescar no rio Ankh. Seria preciso pular várias vezes em cim a do anzol para fazê-lo afundar.).

Pedia cervej a no café-da-m anhã.

E contava piadas.

"Por outro lado", pensava o tesoureiro, "pelo m enos ele não interfere no verdadeiro com ando da Universidade." Ridcully o Castanho não tinha o m ínim o interesse em com andar nada, a não ser talvez um a fileira de cães de caça. Em situações em que não era possível atirar flechas, caçar ou fisgar, ele não via m uito sentido na coisa.

"Cervej a no café-da-m anhã!" O tesoureiro sentiu um arrepio. Os m agos não estavam no seu m elhor estado ao m eio-dia, e o café-da-m anhã no Grande Salão era um a ocasião tranquila e delicada, interrom pida apenas por tosses, o arrastar de pés discreto dos em pregados e eventuais suspiros. Gente gritando para pedir fígado, chouriço e cervej a era um fenôm eno novo.

A única pessoa que não se sentia aterrorizada com aquele hom em assustador era o velho Windle Poons, que tinha 130 anos, era surdo e, em bora especialista em textos sobre m agia antiga, necessitava de orientações adequadas e de um a preparação na véspera para lidar com o dia presente. Ele havia conseguido assim ilar o fato de que o novo arquirreitor seria um daqueles suj eitinhos que gostavam de cerca de m adeira e passarinhos, m as levaria um a ou duas sem anas para com preender qual era realm ente o caso. Enquanto isso, conversava de form a educada e civilizada acerca das poucas coisas que conseguia se lem brar sobre a natureza e coisas do tipo.

Coisas com o as seguintes: — Im agino que deva ser um a, m m , m udança para o senhor, m m , dorm ir num a cam a de verdade, em vez de dorm ir debaixo das, m m , estrelas? E: — Essas coisas, m m , aqui se cham am garfos e facas, m m . E: — Esta, m m , coisa verde nos ovos m exidos, m m , seria salsinha? Mas, com o o arquirreitor nunca prestava atenção a nada que qualquer um dissesse enquanto estivesse com endo e Poons nunca notava quando não recebia resposta, eles se davam m uito bem .

De todo m odo, o tesoureiro tinha outros problem as.

Os alquim istas, para com eçar. Não dava para confiar nos alquim istas. Eles levavam as coisas m uito a Sério.

Bum ! E aquela foi a últim a. Dias inteiros se passaram sem ser pontuados por pequenas explosões. A cidade sossegou novam ente, o que era algo no m ínim o im prudente.

O que o tesoureiro não levou em consideração foi o fato de que a ausência das explosões não significava que eles haviam parado de fazer o que quer que fosse. Significava apenas que estavam fazendo certo.

Era m eia-noite. A espum a estourava na praia e gerava um brilho fosforescente na noite. Ao redor da colina antiga, no entanto, o som parece ser fraquíssim o, com o se estivesse chegando através de várias cam adas de veludo. O buraco na areia estava bem grande agora.

Se alguém pudesse colocar o ouvido perto dele, poderia im aginar ouvir aplausos.

Ainda era m eia-noite. Um a lua cheia deslizava acim a da fum aça e dos vapores de Ankh-Morpork, agradecendo o fato de haver m ilhares de quilôm etros de céu entre eles.

A sede do Grêm io dos Alquim istas era nova. Era sem pre nova. Havia sido dem olida por explosões e reconstruída quatro vezes nos últim os dois anos — da últim a vez sem um a sala de leitura e dem onstrações, na esperança de que fosse um a decisão útil.

Naquela noite, diversos vultos encapotados entraram no prédio de m odo furtivo. Alguns m inutos depois, as luzes de um a j anela no andar de cim a ficaram m ais fracas e se apagaram .

Bom , quase se apagaram .

Algum a coisa estava acontecendo lá em cim a. Um a estranha luz trêm ula preencheu a j anela por um curto instante, seguida por um a com em oração desarm ônica.

e houve um barulho. Não um estrondo, m as um estranho ronrom m ecânico, com o se houvesse um gato feliz dentro de um barril de lata. Ele fez clicaclicaclicaclica... clique.

Prosseguiu durante alguns m inutos, com palm as e vivas ao fundo. Depois um a voz disse: — Por hoj e e só, pessoal.

_ Por hoj e e só o quê? — perguntou o Patrício de Ankh-Morpork na m anhã seguinte.

O hom em diante dele trem eu de m edo.

— Não sei, m ilorde — respondeu. — Eles não queriam m e deixar entrar. E m e fizeram esperar do lado de fora, m ilorde.

Ele retorcia os dedos, nervoso. O olhar fixo do Patrício o im obilizava. Era um ótim o olhar, e um de seus efeitos consistia em fazer com que as pessoas continuassem falando m esm o quando achavam que j á tinham term inado. Som ente o Patrício sabia quantos espiões possuía na cidade. Aquele ali era um em pregado do Grêm io dos Alquim istas. Certa vez caiu na desgraça de ser apresentado ao Patrício acusado de em brom ação m aliciosa, e foi naquele m om ento que decidiu se tornar um espião, por livre e espontânea vontade. (A alternativa a isso era decidir por livre e espontânea vontade ser atirado num covil de escorpiões.)

— É só isso, m ilorde — choram ingou. — Houve apenas esse som de clique e essa espécie de brilho trem eluzente em baixo da porta. E... E... Eles disseram que a luz do dia aqui era ruim .

— Ruim ? Com o assim ? — Er... Não sei, senhor. Ruim , só disseram isso. Devem ir a algum lugar onde a luz é m elhor, segundo eles. Ah, e m e pediram para ir buscar com ida para eles.

O Patrício bocej ou. Havia algum a coisa infinitam ente entediante no j eito de ser dos alquim istas.

— Certo — Ele disse.

— Mas fazia só 15 m inutos que eles tinham j antado — deixou escapar o em pregado.

— Talvez o que estavam fazendo, o que quer que fosse, deixe as pessoas com fom e — com entou o Patrício.

— Sim , e a cozinha j á tinha fechado. Eu tive que ir com prar um a bandej a de salsichas quentes no pão com o Dibbler Cova.

— Certo. — O Patrício olhou para os papeis sobre sua m esa. — Obrigado. Pode sair.

— E sabe o que m ais, m ilorde? eles gostaram . Eles ainda por cim a gostaram ! Só o fato de os Alquim istas possuírem um grêm io j á era notável. Os m agos tam bém não eram nada cooperativos. Eram hierárquicos e com petitivos por natureza. Precisavam da organização. Que graça teria ser um m ago do Sétim o Nível se não houvesse seis outros níveis para desprezar e o Oitavo Nível para alm ej ar? era preciso haver outros m agos para odiar e rej eitar.

Os alquim istas, por outro lado, atuavam sozinhos, trabalhavam em salas escuras ou em porões escondidos, eternam ente à procura do grande cassino — a Pedra Filosofal, o elixir da Vida. Geralm ente eram hom ens m agros, de olhos verm elhos, com barbas que não chegavam a ser barbas, m as algo com o grupos de pêlos individuais que se aglom eravam para proteção m útua. Muitos deles tinham aquela expressão vaga e desapegada que se obtém depois de ficar m uito tem po na presença de m ercúrio em ebulição.

Não que os alquim istas odiassem os outros alquim istas. Geralm ente não os notavam ou achavam que eram m orsas.

Assim seu Grêm io m inúsculo e desprezado nunca havia aspirado ao status, digam os, poderoso dos Grêm ios dos Ladrões, dos Mendigos ou dos Assassinos. Em vez disso, se dedicava a auxiliar viúvas e fam ílias de alquim istas que, por exem plo, tivessem se portado de form a excessivam ente relaxada com o cianureto de potássio ou que tivessem destilado algum fungo interessante, bebido o resultado e depois cam inhado pelo telhado para brincar com as fadas. Na verdade, não havia m uitas viúvas nem m uitos órfãos, o que era bastante óbvio, porque os alquim istas tinham dificuldade de se relacionar com outras pessoas por tem po suficiente para se casar e, quando conseguiam , era apenas para ter alguém para segurar seu cadinho. De m odo geral, a única habilidade que os alquim istas de Ankh-Morpork haviam descoberto até então era a capacidade de transform ar ouro em m enos ouro. Até agora...

Agora eles estavam cheios daquela ansiedade nervosa de quem descobriu um a fortuna inesperada na conta bancária e não sabe se cham a a atenção das pessoas para o fato ou sim plesm ente pega a bolada e som e logo dali.

— Os m agos não vão gostar — observou um deles, um hom em m agro e hesitante cham ado Lully. — Eles vão dizer que isso e m agia. Vocês sabem com o ficam irritados quando pensam que você está fazendo m agia e não e m ago.

— Não há nenhum a m agia envolvida — respondeu Thom as Silverfish, o presidente do Grêm io.

— Tem os diabretes.

— Isso não e m agia. E apenas ocultism o com um .

— Bom , tem as salam andras.

— História natural, perfeitam ente norm al. Nada de errado com isso.

— Bom , está bem . Mas eles vão dizer que e m agia. Vocês sabem com o eles são.

Os alquim istas concordaram , desanim ados.

— Eles são reacionários — disse Sendivoge, o secretário do Grêm io. — Malditos taum ocratas. E os outros Grêm ios tam bém . O que eles sabem da m archa do progresso? eles por acaso se im portam ? Poderiam fazer algo assim há anos, m as fizeram algum a coisa? Não! Im aginem só em com o poderíam os tornar a vida das pessoas tão... bem , m elhor. As possibilidades são im ensas.

— Educacionais — observou Silverfish.

— Históricas — Em endou Lully.

— E, é claro, tem o entretenim ento — disse Peavie, o caixa do Grêm io. Era um hom em pequeno e nervoso. De qualquer m odo, quase todo alquim ista era nervoso — consequência de não saber, a cada experim ento, o que o cadinho de ingredientes borbulhantes iria fazer no m inuto seguinte.

— Bom , sim . Obviam ente algum entretenim ento — concordou Silverfish.

— Alguns dos m aiores dram as históricos — disse Peavie. — Im aginem só a cena! Você j unta alguns atores, eles encenam apenas um a vez, e as pessoas em todas as partes do Disco poderão assistir quantas vezes quiserem ! Um a grande econom ia com salários, aliás — acrescentou.

— Mas com discernim ento — interrom peu Silverfish. — Tem os a im ensa responsabilidade de zelar para que nada sej a feito de qualquer form a que possa ser... — sua voz falhou — vocês entendem ... vulgar.

— Eles não vão deixar — disse Lully, pessim ista. — Eu conheço aqueles m agos.

— Eu venho pensando nisso — com eçou Silverfish [peixe prateado]. — De todo m odo, a luz aqui e ruim dem ais. Nisso nós concordam os. Precisam os de céu azul. E precisam os ficar num lugar bem distante. Acho que conheço um lugar perfeito.

— Quer saber, não consigo acreditar que estam os fazendo isso —disse Peavie. — Um m ês atrás, não passava de um a ideia m aluca. E agora está tudo desenvolvido! Parece m agia! Mas não m ágica, se e que vocês m e entendem — acrescentou rapidam ente.

— Não apenas ilusão, m as ilusão de verdade — concordou Lully.

— Não sei se alguém j á pensou nisso — ponderou Peavie —, m as bem que podia render um pouco de dinheiro para a gente. Hein? — Isso não e o im portante — disse Silverfish.

— Não. Não, claro que não — m urm urou Peavie. Ele olhou rapidam ente para os outros.

— Vam os assistir m ais um a vez? — perguntou tim idam ente.

— Não m e im porto de virar a m anivela. E, er... bom , sei que não contribuí m uito para este proj eto, m as fui eu que inventei esta... er... Esta coisa. Ele tirou um saco enorm e do bolso do m anto e largou-o sobre a m esa. O saco virou, e bolinhas brancas, leves e disform es rolaram para fora. Os alquim istas ficaram olhando para aquilo.

— O que e isso? — perguntou Lully.

— Bom — com eçou Peavie, sem j eito —, e preciso pegar um pouco de m ilho e colocar dentro, digam os, de um cadinho núm ero 3, com um pouco de óleo de cozinha, sabe, e depois pôr um prato ou algo do tipo em cim a. Quando você aquece, faz um estouro. Quer dizer, não um estouro grave. Quando pára de estourar, você tira o prato, e o m ilho se m etam orfoseou nessas... er... coisas... — Ele olhou para os rostos que não entendiam nada. — Dá pra com er — m urm urou, tentando se j ustificar. — Se você colocar m anteiga e sal, fica com gosto de m anteiga salgada. Silverfish estendeu a m ão m anchada de produtos quím icos e escolheu um punhado das coisas fofinhas com cuidado. Mastigou com um ar pensativo.

— Não sei m esm o por que fiz isso — disse Peavie, corado. — Só tive um a sensação de que estava certo.

Silverfish continuou m astigando.

— Tem gosto de papelão — observou depois de algum tem po.

— Desculpe — disse Peavie, tentando puxar com a m ão o resto do m onte para dentro do saco. Silverfish pôs a m ão no seu braço com um m ovim ento suave.

— Vej a bem — com eçou, escolhendo m ais um punhado das coisas fofinhas —, elas realm ente têm seu charm e, não? Realm ente parecem ter algo de bom . Com o e que se cham am m esm o? — Não têm um nom e, na verdade. Eu cham o apenas de grãos estourados. Silverfish pegou m ais um a.

— Engraçado com o dá vontade de continuar com endo. Têm um gosto de "quero-m ais". Grãos estourados? Certo. Com o eu ia dizendo... Senhores, virem os a m anivela m ais um a vez.

Lully com eçou a enrolar o film e de volta na lanterna não-m ágica.

— Você estava dizendo que conhecia um lugar onde poderíam os realm ente desenvolver o proj eto e onde os m agos não nos perturbariam . Silverfish pegou um punhado de grãos estourados.

— É na costa, longe daqui. É agradável e ensolarado, e ninguém aparece m ais por lá hoj e em dia. Não tem nada, a não ser um a velha floresta onde venta m uito e um tem plo, areia e dunas.

— Um tem plo? Os deuses podem ficar m uito irritados se você... — com eçou Peavie.

— Olha — interrom peu Silverfish —, a área toda está abandonada há séculos. Não tem nada por lá. Nem gente, nem deuses, nem nada. Apenas m uita luz do sol e terra esperando por nós. É a nossa chance, rapazes. Não tem os perm issão para praticar m agia, não conseguim os fazer ouro, não conseguim os sequer nos sustentar... Então vam os produzir im agens anim adas. Vam os entrar para a história! Os alquim istas relaxaram e pareciam m ais anim ados.

— É isso aí — disse Lully.

— Oh. Está bem — concordou Peavie.

— Um brinde às im agens anim adas — disse Sendivoge, erguendo a m ão cheia de grãos estourados. — Com o cê ficou sabendo desse lugar? — Ah, eu... — Silverfish parou. Ele parecia confuso. — Não sei. Não consigo... m e lem brar direito. Devo ter ouvido falar dele um a vez e esqueci, e depois sim plesm ente surgiu na m inha cabeça. Sabe com o essas coisas acontecem .

— É — concordou Lully. — Com o eu e o film e. Era com o se eu estivesse m e lem brando de com o fazer. Engraçados os velhos truques que a m ente sabe pregar.

— É.

—Quando chega a vez daquela ideia, acontece.

— É.

— É — Deve ser isso.

Um silêncio levem ente preocupado se instalou à m esa. Era o som das m entes tentando tocar algo que os incom odava com seus dedos m entais. O ar parecia brilhar.

— Com o e que cham a esse lugar? — perguntou Lully, por fim .

— Não sei com o se cham ava nos velhos tem pos — disse Silverfish, recostando-se e puxando os grãos estourados na sua direção.

— Hoj e em dia e cham ado de Holy Wood.

— Holy Wood — disse Lully. — Parece... fam iliar.

Houve outro silêncio, enquanto pensavam sobre isso.

O silêncio foi interrom pido por Sendivoge.

— Ora, ora — disse num tom anim ado. — Holy Wood, aí vam os nós.

— É — anim ou-se Silverfish, chacoalhando a cabeça com o se afastasse um pensam ento perturbador. — É engraçado m esm o. Estou com um a sensação... de que nós tem os ido até lá... durante todo esse tem po.

Milhares de quilôm etros abaixo de Silverfish, a Grande A'Tuin, a tartaruga estelar, seguia rem ando e sonhando pela noite estrelada.

A realidade e um a curva.

esse não e o problem a. O problem a e que não há tanta realidade quanto deveria haver. De acordo com alguns dos textos m ais m ísticos das estantes da Biblioteca da Universidade Invisível — "A faculdade de m agia e grandes j antares do Disco", coleção de livros tão pesada que distorce o espaço e Tem po —, ao m enos nove décim os de toda a realidade original j á criada se encontra do lado de fora do m ultiverso. Um a vez que o m ultiverso, por definição, inclui absolutam ente tudo o que existe, isso deixa as coisas um pouco com plicadas.

Alem das fronteiras dos universos estão as m atérias-prim as da realidade — os poderiam -ter-sido, os podem -ser, os nunca-foram , as ideias descabidas —, tudo sendo criado e "descriado" de form a caótica, com o fenôm enos atm osféricos de supernovas agitadas.

Som ente um a vez ou outra, nos locais em que as paredes dos m undos se tornam um pouco gastas, tudo isso pode vazar para dentro. E a realidade vaza para fora.

O efeito e sem elhante àqueles gêiseres de água quente no fundo do m ar, em torno dos quais estranhas criaturas subm arinas encontram calor e alim ento suficientes para form ar um pequeno e transitório oásis de existência num am biente em que não deveria haver absolutam ente nenhum a existência. A ideia de Holy Wood vazou inocente e alegrem ente para dentro do Discworld.

e a realidade vazou para fora.

e foi encontrada. Porque há Coisas do lado de fora cuj a habilidade de farej ar pequenas e frágeis aglom erações de realidade faz com que aquela relação entre tubarões e vestígios de sangue pareça m uito sem graça.

elas com eçaram a se j untar.

Um a tem pestade deslizou sobre as dunas de areia, m as, ao se aproxim ar da colina baixa, as nuvens pareciam fazer um a curva para se esquivar. Apenas algum as gotas de chuva bateram no solo ressecado, e o tem poral se transform ou em nada alem de um a brisa suave.

e soprou areia sobre os restos m uito antigos de um a fogueira. Mais abaixo, no m orro, perto de um buraco agora grande o suficiente para, digam os, um texugo passar, um a pequena pedra se deslocou e saiu rolando. Um m ês passou rapidam ente. Ele não queria ficar andando à toa. O tesoureiro bateu respeitosam ente à porta do arquirreitor e depois a abriu. A seta de um a besta prendeu seu chapéu no batente de m adeira da porta. O arquirreitor baixou o arco e olhou fixam ente para ele.

— Que coisa perigosa pra se fazer, hein? — Ele disse. — Você poderia ter causado um acidente horrível.

O tesoureiro não teria chegado onde estava — ou m elhor, onde estivera dez segundos antes, um local em que havia um a personalidade calm a e segura que agora não existia m ais, j á que estava à beira de um leve ataque cardíaco —, se não possuísse trem enda habilidade de se recuperar de situações perturbadoras inesperadas.

ele desprendeu o chapéu do alvo desenhado a giz na m adeira antiga.

— Não houve nenhum estrago — observou. Voz nenhum a conseguiria parecer tão calm a com o aquela sem um esforço trem endo. — Mal se percebe o buraco. Por que... é... o senhor está atirando na porta, m estre? — Use o bom senso, hom em ! está escuro lá fora, e as m alditas paredes são feitas de pedra. Você não esperava que eu atirasse nas paredes, não é? — Ah — disse o tesoureiro. — Esta porta tem ... é ... 500 anos, sabe — acrescentou, com um tom de reprovação bem afinado.

— Percebe-se— concordou o arquirreitor asperam ente. — Maldita coisa grande e preta. O que precisam os aqui e de m enos pedra e m adeira e m ais alegria, hom em . Algum as gravuras de esporte, sabe. Um ou dois enfeites.

— Providenciarei o m ais rápido possível — m entiu calm am ente o tesoureiro. Ele se lem brou do feixe de papeis que trazia debaixo do braço. — Enquanto isso, m estre, talvez o senhor pudesse...

— Certo — disse o arquirreitor, afundando o chapéu pontudo na cabeça.

— Bom suj eito. Agora tenho um dragão doente pra cuidar... O danadinho não toca no óleo de alcatrão há dias.

— Sua assinatura em um ou dois desses... — balbuciou o tesoureiro rapidam ente.

— Não posso cuidar de toda essa coisa — negou o arquirreitor, fazendo um gesto para que ele se afastasse. — Tem papel dem ais por aqui. E... — Ele olhou através do tesoureiro, com o se tivesse acabado de se lem brar de algum a coisa. — Vi um a coisa engraçada hoj e de m anhã. Vi um m acaco no pátio. Todo atrevido.

— Ah, sim — disse o tesoureiro num tom de anim ação. — É o bibliotecário.

— Ele tem um anim al de estim ação, é? — Não, o senhor m e entendeu m al, arquirreitor — corrigiu o tesoureiro. — Aquele é o bibliotecário.

O arquirreitor o olhou fixam ente.

O sorriso do tesoureiro com eçou a congelar.

— O bibliotecário é um m acaco? O tesoureiro levou algum tem po para explicar as coisas de form a clara. Depois o arquirreitor disse: — Então o que você está m e dizendo é que esse suj eito se transform ou em m acaco através da m agia? — Um acidente na Biblioteca. Explosão m ágica. Num m inuto, hom em ; no m inuto seguinte, um orangotango. E o senhor não pode cham á-lo de m acaco, m estre. Ele é um sím io.

— Não é tudo a m esm a porcaria?

— Aparentem ente não. Ele fica m uito... er... agressivo quando alguém o cham a de m acaco.

— Ele não m ostra o traseiro para as pessoas, m ostra? O tesoureiro fechou os olhos e estrem eceu.

— Não, m estre. Esses são os babuínos.

— Ah — o arquirreitor parou para pensar. — Não tem nenhum desses trabalhando aqui, não e? — Não, m estre. Apenas o bibliotecário, m estre.

— Não posso tolerar. Não posso tolerar, sabe. Não posso tolerar essas m alditas coisas grandes e peludas rebolando por todo lado — disse o arquirreitor com firm eza. — Livre-se dele.

— Credo, não! Ele é o m elhor bibliotecário que j á tivem os. E representa um a econom ia trem enda em dinheiro.

— Por quê? O que pagam os a ele? — Am endoim — respondeu de pronto o tesoureiro. —Alem disso, ele é o único que sabe com o a Biblioteca realm ente funciona.

— Faça ele se transform ar de novo então. Isso não eévida para hom em nenhum ... ser um m acaco...

— Sím io, arquirreitor. E parece que ele prefere viver assim , infelizm ente.

— Com o e que você sabe? — perguntou o arquirreitor, desconfiado. — Ele fala, é? O tesoureiro hesitou. Sem pre tinha esse problem a com o bibliotecário. Todo m undo estava tão acostum ado com ele que era difícil se lem brar do tem po em que a Biblioteca não era adm inistrada por um sím io de dentes am arelos e a força de três hom ens. Se o anorm al existe por tem po suficiente, passa a ser norm al. Acontece que, quando era preciso explicar isso a um a terceira pessoa, soava esquisito. Ele tossiu de nervoso.

— Ele diz "oook", arquirreitor.

— E isso significa o quê? — Significa "não", arquirreitor.

— E com o ele diz "sim "? O tesoureiro estava com m uito m edo de que isso acontecesse.

— “Oook", arquirreitor.

— Esse "oook" foi igual ao outro "oook"!

— Ah, não. Não. Posso lhe garantir. A entonação é diferente... Quer dizer, quando você se acostum a com ... — o tesoureiro deu de om bros. — Acho que nós sim plesm ente aprendem os a entendê-lo, arquirreitor.

— Bom , pelo m enos ele se m antém em form a — observou o arquirreitor num tom m alcriado. — Diferente do resto de vocês. Entrei na Sala Incom um hoj e de m anhã e ela estava cheia de hom ens roncando!

— Esses deviam ser os m estres sêniores, m estre — disse o tesoureiro. — Eu diria que eles estão em excelente form a.

— Excelente form a? O decano parece um hom em que engoliu um a cam a!

— Ah, m as, m estre — com eçou o Tesoureiro com um sorriso tolerante —, a expressão "em form a", do j eito que a entendo, significa "em conform idade, nos devidos term os". E eu diria que o corpo do decano está em perfeita conform idade com o propósito de ficar sentado o dia todo fazendo refeições pesadas. — O tesoureiro se perm itiu um breve sorriso.

O arquirreitor lhe lançou um olhar tão antiquado que devia ter pertencido a um am onite.

— Isso foi um a piada? — perguntou no tom desconfiado de quem realm ente não entenderia a expressão "senso de hum or" m esm o se você o fizesse se sentar durante um a hora e desse um a explicação usando diagram as.

— Foi apenas um a observação — respondeu o tesoureiro, cauteloso. O arquirreitor balançou a cabeça.

— Não suporto piadas. Não suporto gente que anda por aí tentando ser engraçada o tem po todo. É o que dá passar tanto tem po sentado em locais fechados. Um as corridas de 30 quilôm etros, e o decano seria um hom em diferente.

— Bom , sim — concordou o tesoureiro. — Seria um hom em m orto.

— Seria saudável.

— É, m as, ainda assim , m orto.

O arquirreitor rem exeu nos papeis sobre a m esa com irritação.

— Sedentarism o — m urm urou. — E isso o que existe dem ais por aqui. Este lugar inteiro está falido. Pessoas dorm indo o dia todo e se transform ando em m acaco a toda hora. Nós nem sequer pensávam os em nos transform ar em m acacos na m inha época de estudante. — Ele ergueu a cabeça, irritado.

— O que é que você queria? — gritou.

— O quê? — perguntou o tesoureiro, sem forças.

— Você queria que eu fizesse algum a coisa, né? Provavelm ente porque eu sou o único suj eito aqui que não está dorm indo profundam ente nem está sentado num a árvore gritando todas as m anhãs — acrescentou o arquirreitor.

— Er... Acho que são os gibões que fazem isso, arquirreitor.

— O quê? O quê? Tente falar coisa com coisa, hom em ! O tesoureiro se recom pôs. Não entendia por que tinha que ser tratado daquele j eito.

— Na verdade eu queria ter um a conversa com o senhor a respeito de um dos alunos, m estre — disse friam ente.

— Alunos? — vociferou o arquirreitor.

— Sim , m estre. Sabe? Os m ais m agros, de rosto pálido? Porque nós som os um a universidade... Eles vêm com todas as tralhas, feito ratos...

— Eu achei que pagávam os pessoas para lidar com eles.

Continuar: parte 2 de 6