A Magia de Holy Wood
— O que Significa?
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
— O Q UE SIG NIFICA?
— Não se preocupe com isso. Você só tem que dizer que é isso o que você quer, ok? Na hora certa.
— Mas quando vai ser a hora certa? Gaspode deu um sorriso m alvado.
— Ah, acho que quando Dibbler estiver com a boca cheia de com ida será o m elhor m om ento.
A Colina de Holy Wood parecia um form igueiro de tão alvoroçada. No lado do m ar, os estúdios Madeira de Pinheiro produziam O Terceiro Gnom o. O Cenas Microlíticas, dirigido em sua m aior parte pelos anões, trabalhava pesado em Os Caçadhores de Ouro de 1457, que seria seguido por A Corridha do Ouro. O Cenas da Bexiga Flutuante dava duro no Coxas de Peru. E o restaurante do Borgle estava lotado.
— Não sei com o se cham a, m as estam os fazendo um que fala sobre um a visita a um m ago. Algo sobre seguir na caçada de cacos am arelos — Explicava um hom em vestido com m etade de um a fantasia de leão a um com panheiro na fila.
— Achei que não tivesse m ago em Holy Wood.
— Ah, m as esse é legal. Não é m uito bom em m agia.
— Então qual e a novidade? O som ! Esse era o problem a. Os alquim istas labutavam em galpões por todos os cantos de Holy Wood, gritando com papagaios, suplicando a m ainás, construindo garrafas com plexas que aprisionavam o som e o chacoalhavam de um lado para o outro, de form a inofensiva, até chegar a hora em que era solto. Ao estouro esporádico da octocelulose explodindo, som ava-se o eventual bufar de exaustão ou o grito de desespero quando um papagaio enraivecido confundia um dedão descuidado com um a noz.
Os papagaios não foram o sucesso que se esperava. Era verdade que conseguiam lem brar o que ouviam e repetir de um certo m odo, m as não havia m odo de desligá-los, e eles tinham o hábito de im provisar com outros sons que tinham ouvido ou, com o Dibbler desconfiava, aprendido com operadores de m anivela m ais m aliciosos. Dessa form a, curtos pedaços de diálogos rom ânticos eram pontuados por gritos de "Waaaarrrk! Mostraacalcinha!", e Dibbler não tinha nenhum a intenção de fazer aquele tipo de film e, pelo m enos no m om ento.
Som ! Quem conseguisse o som dom inaria Holy Wood, diziam . As pessoas corriam em bandos para os cliques, m as eram volúveis. Com a cor era diferente. A cor era apenas um a questão de criar dem ônios que conseguissem pintar rápido o suficiente. O som e que representaria algo novo.
Enquanto isso, havia m edidas provisórias. O estúdio dos anões abandonou o procedim ento de colocar diálogos em cartazes entre um a cena e outra e inventou as legendas, que funcionavam bem desde que os atores se lem brassem de não andar m uito para a frente, para não derrubar as letras.
Mas, se faltava o som , a tela tinha que ser preenchida por inteiro com um banquete para os olhos. O ruído das m arteladas sem pre foi o som de fundo de Holy Wood, m as agora havia redobrado...
As cidades do m undo eram reconstruídas em Holy Wood.
A Alquim istas Desatados com eçou o processo, com um a replica de um para dez, em m adeira e tela, da Grande Pirâm ide de Tsort. Nos terrenos logo brotaram ruas inteiras de Ankh-Morpork, palácios de Pseudópolis, castelos das Terras Centrais. Em alguns casos, as ruas eram pintadas na parte de trás dos palácios, para que os príncipes e os cam poneses fossem separados pela espessura de um pano de saco pintado.
Victor passou o resto da m anhã trabalhando em um film e de um rolo. Ginger quase não disse um a palavra a ele, m esm o após o beij o obrigatório, quando ele a salvou do que quer que Morry representasse naquele dia. Qualquer que fosse a m agia que Holy Wood operava neles, não estava funcionando naquele dia. Ele estava contente por escapar dela.
Depois atravessou o terreno dos bastidores para ver Laddie o Cão Prodígio ser testado em suas habilidades.
Não havia dúvidas — diante da im agem da figura graciosa correndo feito um a flecha sobre os obstáculos e agarrando o braço bem protegido do treinador — de que lá estava um cão praticam ente proj etado pela Natureza para as im agens anim adas. Até seu latido era fotogênico. — E cê sabe o que ele tá dizendo? — perguntou um a voz entediada ao lado de Victor. Era Gaspode, a im agem do sofrim ento de pernas tortas. —Não. O quê? —Mim Laddie. Mim bom garoto. Bom garoto Laddie— traduziu Gaspode. — Dá vontade de vom itar, não? — É, m as você conseguiria pular um a barreira de quase dois m etros? — Isso é inteligência, é? — perguntou Gaspode. — Eu sem pre dou a volta em vez de pular... O que estão fazendo agora?
— Dando o alm oço para ele, acho.
— Eles cham am aquilo de alm oço, é? Victor ficou olhando enquanto Gaspode exam inava o prato do cachorro. Laddie o olhou de rabo de olho. Gaspode latiu com calm a. Laddie gem eu. Gaspode latiu novam ente.
Houve um a longa troca de latidos.
Então Gaspode voltou e se sentou ao lado de Victor.
— Vej a isso — disse.
Laddie pegou o prato de com ida com a boca e o virou para baixo.
— Coisa noj enta — observou Gaspode. — Só canais e vísceras. Eu não daria isso prum cachorro, e eu sou cachorro.
— Você fez ele virar o próprio j antar? — perguntou Victor, horrorizado.
— Muito obediente esse rapaz, eu achei — disse Gaspode, satisfeito consigo m esm o.
— Que m aldade fazer um a coisa dessas! — Ah, não. Eu dou uns conselhos a ele tam bém .
Laddie latiu de m odo categórico para as pessoas que se aglom eraram ao seu redor. Victor ouviu o m urm urinho.
— O cachorro não com e j antar — Era a voz de Detritus —, o cachorro fica com fom e.
— Não sej a idiota. O senhor Dibbler disse que ele vale m ais do que a gente! — Talvez não sej a o que ele está acostum ado. Quer dizer, um cão chique com o ele e tal. Isso é m eio asqueroso, não?
— É com ida de cachorro! É o que cachorro tem que com er!
— É, m as é com ida de cão prodígio? Cão prodígio com e o quê? — O senhor Dibbler vai dar você pra ele com er se acontecer algum problem a.
— Está bem , está bem . Detritus, vai até o Borgle. Vê o que ele tem . Não as coisas que ele dá prós clientes de sem pre, vej a bem .
— Isto é o que ele dá prós clientes de sem pre.
— Foi o que eu quis dizer.
Cinco m inutos depois, Detritus voltou se arrastando e carregando cerca de quatro quilos de carne crua. O bife foi j ogado no prato do cachorro. Os treinadores olharam para Laddie.
Laddie ergueu um olho na direção de Gaspode, que acenou com a cabeça de m odo quase im perceptível.
O cachorro grande pôs um a pata num a ponta do bife, pegou a outra ponta com a boca e arrancou um pedaço. Depois atravessou a área cercada sem fazer barulho e largou o pedaço de carne, de m odo respeitoso, diante de Gaspode, que olhava fixam ente para ele, com o se calculasse algo.
— Bem , sei não — disse, por fim . — Isso parece dez por cento pra você, Victor? — Você negociou o j antar dele? A voz de Gaspode foi abafada pela carne.
— Acho que dez por cento é m ucho j usto. Mucho j usto, nas atuais circunstâncias.
— Sabia que você realm ente é um filho de um a cadela?
— Me orgulho disso — com entou Gaspode, num tom vago. Ele m astigou o resto do bife com pressa. — O que farem os agora? — Eu tenho que dorm ir cedo. Partim os para Ankh m uito cedo am anhã — disse Victor, m eio em dúvida.
— Ainda não teve nenhum progresso com o livro? —Não.
— Deixa eu dar um a olhada então.
— Você sabe ler? — Sei lá. Nunca tentei.
Victor olhou em volta deles. Ninguém prestava atenção nele. Nunca prestavam . Assim que as m anivelas paravam de girar, ninguém se preocupava com os artistas. Era com o ser tem porariam ente invisível.
Ele se sentou sobre um a pilha de tábuas, abriu o livro de form a aleatória num a das prim eiras páginas e o segurou diante do olhar crítico de Gaspode. Por fim , o cachorro disse: — Está cheio de sinais nele. Victor suspirou.
— Isso é escrita. Gaspode apertou os olhos.
— O quê, todos esses desenhinhos? —A escrita antiga era assim . As pessoas desenhavam pequenas im agens para representar ideias.
— Então... Se tiver m uitas vezes um a m esm a im agem , significa que é um a ideia im portante?
— O quê? Bem , sim . Im agino que sim .
— Com o o hom em m orto? Victor estava perdido.
— O hom em m orto na praia? — Não. O hom em m orto nas páginas. Está vendo? Em todo o lugar está o hom em m orto.
Victor olhou para ele com um a expressão de estranheza. Então virou o livro e o exam inou.
— Onde? Não estou vendo nenhum hom em m orto.
Gaspode bufou.
— Olha, na página toda. Ele parece aquelas tum bas de tem plos antigos e coisas assim . Sabe? Onde eles fazem um a estauta do cadáver deitado em cim a do túm ulo, com os braços cruzados e segurando a espada. Aristocrata m orto.
— Nossa m ãe! Você está certo! Ele parece m esm o m eio... m orto...
— Provavelm ente toda a escrita é sobre com o ele foi um ótim o hom em quando vivo — sugeriu Gaspode, com ares de bem inform ado. — Sabe aquela coisa de "Assassino de m ilhares"? Ele provavelm ente deixou um m onte de dinheiro para padres rezarem , acenderem velas e sacrificarem bodes e coisas do tipo. Antigam ente tinha m uito esse tipo de coisa. Sabe, tinha esses caras que se pervertiam , bebiam , passavam a vida toda indiferentes e, quando o Velho Carrasco Inflexível com eçava a afiar a sua foice, eles de repente ficavam todos virtuosos e pagavam um m onte de padres para dar um a geral na alm a deles e ficar dizendo aos deuses que caras decentes eles eram .
— Gaspode? — cham ou Victor com firm eza.
— O quê? — Você era um cão am estrado. Com o é que sabe todas essas coisas? — Não sou só um rostinho bonito.
— Você não é nem um rostinho bonito, Gaspode.
O cachorrinho deu de om bros.
— Eu sem pre tive olhos e orelhas. Você ficaria im pressionado com as coisas que vê e ouve quando se é um cachorro. Na época, eu num sabia o que significavam , claro. Agora eu sei.
Victor olhou bem para as páginas m ais um a vez. Certam ente havia um a figura que, se você deixasse os olhos entreabertos, parecia m uito um a estátua de um cavaleiro com as m ãos apoiadas sobre a espada.
— Pode ser que não signifique um hom em . A escrita pictográfica não funciona dessa m aneira. É tudo um a questão de contexto, sabe. — Ele queim ou os m iolos para se lem brar de alguns dos livros que havia visto. — Por exem plo, na linguagem agateana, os sinais para "m ulher" e "escravo" escritos j untos significam "esposa".
Ele olhou m ais de perto para a página. O hom em m orto — Ou o hom em dorm indo, ou o hom em de pé apoiando as m ãos na espada, a figura era tão estilizada que ficava difícil ter certeza — parecia estar sem pre ao lado de outra im agem com um . Ele passou o dedo pela linha de pictogram as.
— Está vendo, pode ser que a figura do hom em sej a apenas parte de um a palavra. Está vendo? Está sem pre à direita deste outro desenho, que se parece um pouco com ... com um a porta ou algo assim . Então ele pode significar, na verdade... — Ele hesitou.
— Porta/hom em — arriscou. Ele virou o livro de leve.
— Poderia ser algum rei antigo — disse Gaspode. — Poderia significar algo tipo: O Hom em da Espada está Preso. Ou algo assim . Ou talvez signifique: Cuidado, Tem um Hom em com um a Espada atrás da Porta. Poderia significar qualquer coisa, na verdade.
Victor olhou para o livro m ais um a vez, apertando os olhos.
— Engraçado. Ele não parece estar m orto. Apenas... não vivo. Esperando para estar vivo? Um hom em que espera com um a espada.
Victor exam inou a pequena figura de hom em . Ela quase não tinha feições, m as ainda assim conseguia parecer fam iliar.
— Quer saber, ele se parece m uito com o m eu tio Osric...
Cliquecliqueclique. Clique.
O film e foi girando até parar. Houve um estrondo de aplausos, pés batendo no chão e um m ar de sacos de grãos estourados vazios.
Bem na prim eira fileira do Odium , o bibliotecário olhava fixam ente para o alto, para a tela em branco. Era a quarta vez naquela tarde que assistia a Sobras do Dheserto. Afinal, um orangotango de 130 kg tem algum a coisa que não encoraj a as pessoas a m andá-lo sair da plateia entre as sessões. Havia um am ontoado de cascas de am endoim e sacos de papel am assados em volta dos seus pés. O bibliotecário am ava os cliques. Eles tocavam algum sentim ento na sua alm a. Até havia com eçado a escrever um a história que achava dar um a im agem anim ada m uito boa.(Era sobre um jovem símio que é abandonado na cidade grande, cresce e se torna capaz de falar a língua dos humanos.)
Todo m undo para quem m ostrava a história dizia que era um a m aravilha, geralm ente até m esm o antes de lê-la.
Mas algum a coisa naquele clique o deixava preocupado. Ele assistira a tudo quatro vezes e ainda estava preocupado.
Saiu devagar dos três assentos que ocupava, cam inhou pelo corredor com o apoio das j untas dos dedos e entrou na salinha onde Bezam voltava o film e. Bezam ergueu a cabeça quando a porta se abriu.
— Saia... — com eçou, depois deu um sorriso desesperado e disse: — Olá, senhor. Muito bom o clique, hein? Vam os passá-lo m ais um a vez a qualquer m om ento e... que diabos está fazendo? Você não pode fazer isso! O bibliotecário arrancou o enorm e rolo de film e do proj etor e puxou o film e entre seus dedos de couro, segurando-o contra a luz. Bezam tentou pegá-lo de volta e recebeu um tapa no peito que o deixou sentado no chão, onde grandes espirais de film e se acum ularam em cim a dele.
Ele assistiu, horrorizado, ao grande sím io grunhir, agarrar um pedaço de film e com as duas m ãos e, com duas m ordidas, editá-lo. Em seguida, o bibliotecário o ergueu, tirou a poeira de cim a dele, passou a m ão em sua cabeça, atirou a grande pilha de clique desenrolado em seus braços im potentes e saiu às pressas da sala com alguns quadros de film e pendurados em um a das m ãos.
Bezam ficou olhando para ele, sem ação.
— Você está proibido de voltar aqui! — gritou, quando achou que o sím io estava seguram ente fora do alcance da voz.
Depois olhou para baixo, para as duas pontas cortadas.
Cortes nos film es não eram pouco com uns. Bezam havia passado alguns m inutos cortando e colando fervorosam ente enquanto o público batia os pés no chão anim adam ente e, com m uita em polgação, atirava am endoins, facas e m achados de duas cabeças na tela.
Ele deixou as espirais caírem ao seu redor e pegou a tesoura e a cola. Pelo m enos — descobriu depois de segurar as duas pontas contra a luz — o bibliotecário não havia tirado um a parte m uito interessante. Estranho, aquilo. Não estranharia que o sím io tirasse um pedaço em que a garota definitivam ente m ostrasse dem ais o peito ou um a das cenas de luta. Mas tudo o que ele queria era um pedaço que m ostrava os Filhos descendo a fortaleza da m ontanha galopando, num a única fila, em cam elos idênticos.
— Pra que será que ele quis aquilo... — m urm urou, tirando a tam pa do pote de cola. — Só aparece um m onte de rochas.
Victor e Gaspode perm aneciam parados entre as dunas de areia perto da praia.
— Ali está a cabana de tábuas de m adeira — m ostrou Victor, apontando.
— Se você olhar bem , dá para ver que tem um a espécie de estrada apontando direto para a colina. Mas não há nada na colina a não ser as árvores velhas. Gaspode olhou para trás, para a Baía de Holy Wood.
— Engraçado que ela sej a circular.
— Tam bém achei — concordou Victor.
— Ouvi dizer que tinha um a cidade tão perversa que os deuses a transform aram num a poça de vidro derretido — com entou Gaspode, a troco de nada. — E a única pessoa que a viu se transform ava num m onte de sal de dia e num pote de queij o à noite.
— Nossa. O que as pessoas faziam ? — Sei lá. Provavelm ente, nada dem ais. Não é preciso m uito para irritar os deuses.
— Bom garoto! Bom garoto Laddie! O cachorro veio correndo pelas dunas, um com eta de pêlos dourados e alaranj ados. Ele derrapou antes de parar na frente de Gaspode e depois com eçou a dançar de um lado para o outro, agitado, latindo.
— Ele fugiu e quer que eu brinque com ele — disse Gaspode, desanim ado. — Ridículo, não? Laddie, finge de m orto.
Laddie rolou, obediente, com as quatro patas para cim a.
— Está vendo? Ele entende cada palavra que eu digo — resm ungou Gaspode.
— Ele gosta de você.
— Há — fungou Gaspode. — Com o é que os cachorros podem algum dia valer algum a coisa se saem por aí idolatrando as pessoas só porque deram um prato de com ida a eles? O que ele quer que eu faça com isso? Laddie havia largado um graveto na frente de Gaspode e olhava para ele com m uita expectativa.
— Ele quer que você j ogue.
— Pra quê? — Para que ele possa trazer de volta.
— O que eu não entendo — com eçou Gaspode, enquanto Victor pegava o graveto e o arrem essava e Laddie corria atrás dele — é com o é possível que a gente sej a descendente dos lobos. Sabe, o lobo norm al é um cara esperto, entende o que eu quero dizer? Cheio de m anha e tal. Estam os falando de patas acinzentadas correndo pela tundra virgem , é o que eu tô querendo dizer. Gaspode olhou para as m ontanhas distantes com um a expressão saudosa.
— E, de repente, algum as gerações depois, tem os Percy, o Filhote aqui com o nariz gelado, olhos brilhantes, pelo sedoso e o cérebro de um bagre bêbado.
— E você — com pletou Victor. Laddie voltou rodopiando num a tem pestade de areia e largou o graveto úm ido na frente dele. Victor o pegou e atirou novam ente. Laddie saiu pulando, latindo até ficar enj oado de tanta excitação.
— Bem , é — concordou Gaspode, andando de m odo afetado com as patas tortas. — Só que eu sei cuidar de m im m esm o. O m undo é um lugar em que cachorro com e cachorro. Você acha que Chapado, o vira-lata aí, duraria cinco m inutos em Ankh-Morpork? Se ele coloca um a pata num a das ruas de lá, vira três pares de luvas de pele e Fritura Crocante núm ero 27 pra viagem na lanchonete klatchiana 24-horas m ais próxim a.
Victor atirou o graveto m ais um a vez.
— Me diz um a coisa. Quem era o fam oso Gaspode de quem tiraram o seu nom e? — Você nunca ouviu falar nele? —Não.
— Ele era m uito fam oso.
— Era cachorro? — Sim . Foi há m uitos e m uitos anos. Tinha um suj eito em Ankh que m orreu. Era de um a dessas religiões em que enterram a pessoa depois que ela m orre. E foi o que fizeram . Ele tinha um cachorro veio...
— ... cham ado Gaspode...? — É, e esse cachorro veio tinha sido a única com panhia dele. Depois que enterraram o hom em , ele se deitou sobre o túm ulo e uivou, uivou durante sem anas. Rosnava pra todo m undo que se aproxim ava. Depois m orreu.
Victor parou no m om ento em que ia atirar o graveto m ais um a vez.
— Isso é m uito triste — disse. Ele atirou. Laddie correu acom panhando o m ovim ento e desapareceu entre um grupo de árvores atrofiadas no declive.
— É. Todo m undo diz que essa história dem onstra o am or inocente e eterno do cão pelo seu m estre — observou Gaspode, cuspindo as palavras com o se fossem cinzas.
— Você não acredita nisso então? — Na verdade, não. Acredito que qualquer cachorro fica parado e uiva quando alguém baixa a lápide do túm ulo em cim a do rabo dele. Houve um latido feroz.
— Não se preocupe. Ele provavelm ente encontrou um a pedra am eaçadora ou algo do tipo — disse Gaspode.
Ele tinha encontrado Ginger.
O bibliotecário passou com determ inação, apoiando-se nas j untas dos dedos, pelo labirinto da biblioteca da Universidade Invisível e desceu os degraus em direção às prateleiras de segurança m áxim a.
Quase todos os livros da Biblioteca eram — por serem m ágicos — consideravelm ente m ais perigosos do que os livros norm ais. A m aioria ficava acorrentada à estante para evitar que saísse batendo as páginas. Mas os níveis m ais baixos...
... lá eram guardados os livros m alandros, cuj o com portam ento ou o m ero conteúdo exigia um a prateleira inteira, um a sala inteira para eles. Livros canibais que, se deixados num a prateleira com seus colegas m ais fracos, seriam encontrados consideravelm ente m ais gordos e presunçosos, entre as cinzas fum egantes, na m anhã seguinte. Livros cuj as m eras páginas do índice seriam capazes de reduzir um a m ente desprotegida a um queij o suíço. Livros que não eram apenas livros de m agia, m as livros m ágicos.
Existem m uitas ideias equivocadas sobre m agia. As pessoas saem por aí falando em harm onias m ísticas, equilíbrios cósm icos e unicórnios, tudo o que está para a m agia verdadeira assim com o um a m arionete feita com um a luva está para a Com panhia Real de Shakespeare.
A m agia de verdade é a m ão em volta da serra, a faísca atirada no barril de pólvora, a deform ação na dim ensão que liga você diretam ente ao centro de um a estrela, a espada flam ej ante que queim a inteira até a bainha. Melhor fazer m alabarism os com tochas num poço de piche do que m exer com a m agia verdadeira. Melhor se deitar diante de m il elefantes.
Pelo m enos e o que dizem os m agos — m otivo pelo qual cobram taxas im ensam ente altas para se m eterem com isso.
Mas ali em baixo, nos túneis escuros, não havia com o se esconder atrás de am uletos, m antos estrelados e chapéus pontudos.
Ali em baixo, ou você dom inava o assunto ou não dom inava. E, se você não dom inasse, não aguentaria m uito tem po.
O bibliotecário ouviu sons atrás das portas pesadas de tantas trancas quando se aproxim ou arrastando os pés. Um a ou duas vezes, algum a coisa pesada se atirava contra a porta, fazendo as dobradiças rangerem . Ele ouviu ruídos.
O orangotango parou em frente a um vão em form a de arco bloqueado por um a porta feita não de m adeira, m as de pedra, equilibrada de form a a ser aberta por fora com facilidade, m as resistir a pressões intensas do lado de dentro. Ele parou por um m om ento e depois esticou o braço para pegar, dentro de um a pequena alcova, um a m áscara de ferro e vidro escurecido, a qual colocou sobre o rosto, e um par de luvas pesadas de couro, reforçadas com m alha de aço. Havia tam bém um a tocha feita com trapos encharcados em óleo. Ele a acendeu em um dos braseiros trem eluzentes do túnel.
No fundo da alcova havia um a chave de bronze.
Ele a pegou e, em seguida, respirou fundo.
Todos os Livros do Poder tinham sua própria natureza. O Octavo era ríspido e tirânico. O Grim ório da Diversão Abundante praticava pegadinhas m ortais. O encanto do Sexo Tântrico tinha que ficar dentro da água gelada. O bibliotecário conhecia todos e sabia com o lidar com eles.
Este era diferente. As pessoas geralm ente viam cópias de 10ª ou 12ª m ão que representavam a coisa real da m esm a form a que um a pintura de um a explosão seria igual a, bem , um a explosão. Este livro havia absorvido o m al puro e cinzento da cor do grafite que constituía seu assunto.
Seu título estava entalhado acim a do arco para que hom ens e sím ios não se esquecessem .
NECROTELICOMNICON.
Ele pôs a chave na fechadura e ofereceu um a reza aos deuses.
— Oook — disse com fervor. — Oook.
A porta se abriu.
Na escuridão do interior, um a corrente fez um leve tinido.
* * *
— Ela ainda está respirando — disse Victor. Laddie saltava em volta deles, latindo furiosam ente.
— Talvez sej a m elhor você afrouxar as roupas dela ou algo do tipo — sugeriu Gaspode. — É só um a ideia — acrescentou. — Não precisa m e olhar com essa cara. Eu sou um cachorro, não sei de nada.
— Ela parece estar bem , m as... olhe para as suas m ãos. Que diabos ela estava tentando fazer? — Abrir aquela porta — respondeu Gaspode.
— Que porta? — Aquela porta ali.
Parte da colina havia se m ovido. Enorm es blocos de concreto se proj etavam para fora da areia. Lá estavam as pontas de pilares antigos, sobressaindo feito dentes fluorados.
Entre dois deles havia um a passagem em form a de arco três vezes m ais alta que Victor. Possuía portas de um cinza pálido ou de m adeira que tivesse se tornado rígida com o pedra ao longo dos anos. Um a delas estava levem ente aberta, m as era im pedida de se abrir m ais pelos m ontes de areia na sua frente. Vários sulcos haviam sido escavados de m odo frenético no fundo da areia. Ginger tentara deslocá-los com as próprias m ãos.
— Um a estupidez fazer isso neste calor — observou Victor, num tom vago. Ele olhou da porta para o m ar e depois para Gaspode. Laddie revirava a areia e latia, agitado, para o vão entre as portas.
— Pra que ele está fazendo isso? — perguntou Victor, sentindo-se assustado de repente. — Seus pêlos estão todos eriçados. Você não acha que ele está tendo um a daquelas m isteriosas prem onições do m al que os anim ais têm , acha? — Eu acho que ele é um im becil — respondeu Gaspode. — Laddie, cala a boca! Houve um latido. Laddie se afastou da porta, perdeu o equilíbrio na areia escorregadia e rolou ladeira abaixo. Ele deu um pulo para se levantar e recom eçou a latir. Não era um latido idiota com um de cachorro desta vez, m as a variação genuína do gato preso na árvore.
Victor se inclinou para a frente e tocou a porta. Ela estava m uito gelada, apesar do calor perpétuo de Holy Wood, e havia a leve suspeita de um a vibração. Ele passou os dedos sobre a superfície. Havia um pedaço áspero, com o se alguém tivesse entalhado algo que foi ficando gasto até se tornar obscuro com o passar dos anos.
— Um a porta com o essa... — com eçou Gaspode, atrás dele —um a porta com o essa, se quer saber m inha opinião, um a porta com o essa... Um a porta com o essa — Ele respirou fundo — é um presságio.
— Hm m ? O quê? Presságio de quê? — Num tem que ser presságio de nada. Só o pressagiar básico j á é ruim o suficiente, vai por m im .
— Ela deve ter sido im portante. Tem um ar de entrada de tem plo. Por que ela queria abri-la? — Pedaços de um despenhadeiro rolando para baixo e portas m isteriosas aparecendo — com entou Gaspode, balançando a cabeça. — É presságio dem ais. Vam os a algum lugar longe daqui para pensar direito sobre isso, sim ? Ginger soltou um gem ido. Victor se agachou.
— O que ela disse? — Sei lá.
— Parecia algo com o "eu quero ficar só linha", achei.
— Loucura. Efeito do sol, isso aí, im agino — disse Gaspode, com ar de bem instruído.
— Talvez você estej a certo. A cabeça dela com certeza está quente. Ele a ergueu, vacilando um pouco por causa do peso.
— Vem — conseguiu dizer. — Vam os descer até a cidade. Logo vai escurecer. — Ele olhou ao redor, para as árvores raquíticas. A porta ficava num a espécie de vale que, presum ivelm ente, tom ava orvalho suficiente para tornar o cultivo um pouco m enos árido do que nos outros lugares. — Sabe que este lugar parece fam iliar? Fizem os o nosso prim eiro clique aqui. Foi onde a vi pela prim eira vez.
— Muito rom ântico — com entou Gaspode num tom distante, afastando-se com pressa, com Laddie saltitando contente em volta dele. — Se sair algum a coisa horrível dessa porta, você pode pensar nela com o o Nosso Monstro.
— Ei! Espera!
— Vem logo então.
— O que ela quis dizer com "ficar só linha", o que você acha? — Não faço ideia... (Ginger repetia a famosa frase da atriz Greta Garbo: "Quero ficar sozinha". (N. T.)
Depois que se foram , o silêncio se derram ou novam ente sobre o vale. Um pouco m ais tarde, o sol se pôs. Sua longa luz bateu na porta, transform ando m eros rabiscos em relevos destacados. Com o auxílio da im aginação, poderiam até ter form ado a figura de um hom em .
Com um a espada.
Houve um ruído m uito fraco, com o se, grão por grão, a areia escoasse para fora da porta. A m eia-noite, ela j á tinha se aberto pelo m enos alguns m ilím etros. Holy Wood sonhava.
Sonhava que estava acordando.
Ruby abafou o fogo sob os barris, pôs os bancos sobre as m esas e se preparou para fechar o Calcário Azul. Pouco antes de soprar a últim a vela, ela hesitou diante do espelho.
Ele estava esperando lá fora novam ente, aquela noite. Assim com o todas as outras noites. Ele estava lá dentro, no fim da tarde, rindo sozinho. Planej ava algum a coisa.
Ruby vinha recebendo conselhos de algum as das garotas que trabalhavam nos cliques e, alem do seu boá de plum as, agora investia num chapéu de aba larga, com um tipo de oograah que achava que se cham ava cerej a. Garantiram a ela que o efeito era avassalador.
O problem a, tinha ela que adm itir, e que ele era, bem , um troll m uito vigoroso. Durante m ilhões de anos, as m ulheres trolls tinham sentido atração natural por trolls com um a constituição sem elhante à de um m onólito com um a m açã no topo. Os instintos traiçoeiros de Ruby atiravam m ensagens por sua espinha, repetindo de m odo desleal que, naquelas longas presas e pernas curvas, havia tudo o que um a garota troll poderia desej ar de um com panheiro. Trolls com o Rocha e Morry, é claro, eram m uito m ais m odernos e sabiam fazer coisas com o usar garfo e faca. Mas havia algo... bem ... tranquilizador em Detritus. Talvez fosse o j eito com que as j untas dos dedos tocavam o solo com tanto dinam ism o. E, à parte todas as outras coisas, ela tinha certeza de que era m ais inteligente do que ele. Havia um a im becilidade incontrolável nele que ela achava fascinante. Isso eram os instintos em funcionam ento — a inteligência nunca tinha sido um a característica particularm ente valiosa num troll. E ela tinha que adm itir que, por m ais que pudesse experim entar coisas com o boas de plum as e chapéus luxuosos, chegava aos 140 anos e estava 180 kg acim a do peso considerado ideal.
Se pelo m enos ele fosse m ais anim ado para fazer as coisas. Ou se ele fosse m ais anim ado para fazer um a coisa.
Talvez valesse a pena tentar essa m aquiagem de que as garotas vinham falando.
Ela suspirou, apagou a vela, abriu a porta, saiu e se viu no m eio de um labirinto de raízes.
Um a árvore gigantesca se espalhava por toda a extensão do beco. Ele deve tê-la arrastado por quilôm etros. Os poucos galhos que sobreviveram entravam por j anelas ou balançavam solitários no ar.
No m eio de tudo aquilo, Detritus se em poleirava no tronco com orgulho, com o rosto dividido por um sorriso de m elancia e os braços escancarados.
— Tralaa! — disse.
Ruby soltou um suspiro gigantesco. O rom ance não é nada fácil quando você é um troll.
O bibliotecário forçou a página para que ela se abrisse e acorrentou-a ao chão. O livro tentou dar um tapa nele.
Seus conteúdos fizeram dele o que era. Malvado e traiçoeiro.
Bem , não proibido, na verdade. Ninguém j am ais havia chegado tão longe a ponto de proibi-lo. Mais que qualquer outra coisa, para proibi-lo era necessário conhecê-lo, o que era proibido. Mas definitivam ente continha o tipo de inform ação que, um a vez que você conhecia, desej ava não ter conhecido. Dizia a lenda que qualquer hom em m ortal que lesse m ais que algum as linhas do original m orreria louco. (O Necrotelicomnicon foi escrito por um necromancista klatchiano conhecido pelomundo como Achmed o Louco, embora preferisse ser chamado de Achmed o Eu Só Tenho Umas Dores de Cabeça. Dizem que o livro foi escrito em um dia, depois que Achmed bebeu demais do estranho café forte klatchiano, que não apenas deixa a pessoa sóbria, mas faz com que atravesse a sobriedade e vá até o outro lado, de modo que tenha um vislumbre do universo real alem das nuvens de auto-ilusão confortável que a vida sapiente geralmente gera em torno de si para evitar que se transforme num bolo de nozes. Pouco se sabe sobre a sua vida antes desse acontecimento, porque a página intitulada "Sobre o Autor" sofreu combustão espontânea logo após sua morte. No entanto, a seção intitulada "Outros Livros do Mesmo Autor" indica que sua obra publicada anteriormente foi O Livro de Histórias Humorísticas sobre Gatos de Achmed o eu Só Tenho Umas Dores de Cabeça, o que talvez explique muita coisa.)
Ele continha um conhecim ento proibido.
Isso certam ente era verdade.
A lenda tam bém dizia que o livro continha ilustrações que fariam o cérebro de um hom em forte escorrer para fora dos ouvidos.
Isso provavelm ente tam bém era verdade.
A lenda prosseguia dizendo que o m ero gesto de abrir o Necrotelicom nicon faria a carne de um hom em rastej ar para fora da sua m ão e subir pelo braço. Na verdade, ninguém sabia se isso era verdade, m as soava terrível o suficiente para ser verdade, e ninguém estava disposto a pagar para ver. A lenda tinha m uito a dizer sobre o Necrotelicom nicon, m as absolutam ente nada sobre orangotangos, que poderiam rasgar o livro em pedacinhos e m astigá-lo que a lenda não daria a m ínim a. O pior que j á acontecera ao bibliotecário depois de olhar para o livro fora um a leve enxaqueca e um toque de eczem a, m as aquilo não j ustificava correr riscos. Ele aj ustou o visor de vidro escurecido e passou o dedo de couro preto pelo índice. As palavras se ergueram quando o dedo deslizou sobre elas e tentaram m ordê-lo.
De vez em quando, segurava o pedaço de film e contra a luz trêm ula da tocha.
O vento e a areia o deixaram m anchado, m as não havia dúvidas de que as rochas tinham partes entalhadas. E o bibliotecário j á havia visto desenhos com o aqueles antes.
Ele encontrou a referência que procurava e, após um a luta rápida em que teve que am eaçar o Necrotelicom nicon com a tocha, forçou o livro a virar até a página.
Exam inou m ais de perto.
Grande Achm ed o eu Só Tenho Um as Dores de Cabeça...
"... E naquela colina, diz-se, um a Porta para fora do Mundo foi encontrada, e as pessoas da cidade observaram O que foi Visto naquele lugar, sem saber que o Pavor aguardava entre os universos..." A ponta dos dedos do bibliotecário se arrastaram da direita para a esquerda sobre as im agens e pularam para o parágrafo seguinte.
"... porque Outros encontraram o Portão de Holy Wood e caíram sobre o Mundo, e num a noite Toda espécie de Loucura sucedeu, o Caos vigorou, a Cidade afundou sob o Mar, e tudo se transform ou num a coisa só, com os peixes e as lagostas, salvo pelos poucos que fugiram ..." ele envergou o beiço e olhou m ais para baixo, na m esm a página.
"... um Cavalheiro Dourado, que levou o Inim igo de volta e salvou o Mundo, e disse: 'Onde o Portão estiver, Lá estarei eu Tam bém . Sou Aquele que Nasceu de Holy Wood para vigiar a Ideia Desvairada'. E eles disseram : 'O que tem os que fazer para Destruir o Portão para Sem pre'. E ele respondeu a eles: 'Isto vocês Não podem Fazer, por Não ser isto um a Coisa, m as eu Vigiarei o Portão para vocês'. E eles, com o não tinham Nascido ontem , e tem endo a Cura m ais do que a Doença, disseram a ele: 'O que você Levará de Nós para Vigiar a Porta'. E ele cresceu até ficar da altura de um a árvore e disse: Apenas a sua Lem brança, assim eu Não Durm o. Três vezes por dia vocês se lem brarão de Holy Wood. Senão As Cidades do Mundo Trem erão e Cairão, e vocês Verão a Maior delas Toda em Cham as'. E, com isso, o Hom em Dourado pegou sua espada dourada e seguiu até a Colina e ficou diante do Portão para sem pre. E as Pessoas disseram um as às outras: engraçado, ele se parece tanto com o m eu tio Osberto...'" O bibliotecário virou a página.
"... Mas havia entre eles, hum anos e anim ais tam bém , aqueles que tinham sido tocados pela m agia de Holy Wood. Ela e passada através das gerações, com o um a m aldição antiga, até que os sacerdotes interrom pam sua Lem brança e o Hom em Dourado adorm eça. Então, que o m undo tom e Cuidado..." O bibliotecário deixou o livro se fechar de um a vez.
Não era um a lenda incom um . Ele a havia lido antes — pelo m enos a m aior parte dela — Em livros consideravelm ente m enos perigosos que aquele. Era possível encontrar variações em todas as cidades da Planície Sto Lat. Houve um a vez um a cidade, nos tem pos obscuros da pré-história — m aior que Ankh-Morpork, se isso fosse possível. E os habitantes haviam feito um a coisa, um a espécie de crim e inenarrável não apenas contra a Hum anidade ou os deuses, m as contra a própria natureza do universo, que tinha sido tão horrível que ela afundou sob o m ar num a noite de tem pestade. Apenas algum as pessoas sobreviveram para transm itir aos povos bárbaros das partes m enos avançadas do Disco todas as artes e ofícios da civilização, tais com o a usura e o m acram ê.
Ninguém j am ais a levou a sério, na verdade. Era apenas um daqueles m itos com uns, do tipo "Se você não parar com isso, vai ficar cego", que as civilizações tendiam a passar a seus descendentes. Afinal, Ankh-Morpork era considerada, de m odo geral, a cidade m ais perversa que se poderia encontrar em um ano navegação pelo Disco, e parecia ter conseguido evitar qualquer tipo de vingança sobrenatural, em bora sej a possível que ela tenha acontecido e ninguém tenha notado. A lenda tam bém havia colocado a cidade sem nom e bem longe, e m uito tem po atrás.
Ninguém sabia onde ela ficava ou se havia existido.
O bibliotecário olhou para os sím bolos m ais um a vez. Eram m uito fam iliares. Estavam nas velhas ruínas, por toda a parte, em Holy Wood.
Azhural perm anecia de pé sobre um m onte baixo, observando o m ar de elefantes se m over abaixo dele. Aqui e ali, um carro de entrega passava sacudindo entre os corpos cinza em poeirados feito um barco desgovernado. Um quilôm etro e m eio de savana era pisoteado e transform ado num chafurdeiro em papado de lam a, sem nada de gram a — Em bora, a j ulgar pelo cheiro, seria o pedaço de terra m ais verde do Disco depois das chuvas.
Ele esfregou os olhos de leve, com a ponta do m anto.
Trezentos e sessenta e três! Quem diria? O ar estava sólido com o barrito irritado de 363 elefantes. E, com os grupos de caça e apreensão j á seguindo na frente, haveria m uitos m ais. Pelo m enos de acordo com M'Bu. E ele não ia discutir.
engraçado, isso. Durante anos, pensou em M'Bu com o um a espécie de sorriso am bulante. Um rapaz habilidoso com um pincel e um a pá, m as não o que se poderia cham ar de um grande em preendedor.
então, de repente, alguém em algum lugar quis m il elefantes, e o garoto ergueu a cabeça e um brilho surgiu em seu olhar. Dava para ver que por baixo daquele sorriso largo havia um habilidoso kilopaquiderm atologista pronto para atender ao cham ado. Engraçado. Era possível conhecer alguém a vida inteira e não perceber que os deuses o colocaram neste m undo para m ovim entar m il elefantes de um lado para o outro.
Azhural não tinha filhos. Ele j á se decidira a deixar tudo para seu assistente. Tudo o que tinha, àquela altura, consistia em 363 elefantes e... a—há—há... um m am ute com o garantia de credito, m as o que valia era a intenção. M'Bu veio correndo pelo cam inho que ia até ele, segurando a prancheta com firm eza debaixo do braço.
— Tudo pronto, chefe. E só o senhor m andar.
Azhural se esticou. Olhou para a planície oscilante, os baobás distantes e as m ontanhas purpúreas. Ah, sim . As m ontanhas. Ficara apreensivo em relação às m ontanhas. Ele as m encionara a M'Bu, que disse "A gente atravessa aquelas pontes quando chegar lá, chefe" e, quando Azhural observou que não havia nenhum a ponte, ele o olhou com sinceridade e disse com firm eza: "Prim eiro a gente constrói as pontes, depois atravessa elas".
Muito alem das m ontanhas estava o Mar Círculo, Ankh-Morpork e aquela tal de Holy Wood. Lugares distantes, com nom es esquisitos.
Um vento soprou pela savana, carregando leves sussurros, até m esm o aqui. Azhural ergueu a bengala.
— São 2.400 quilôm etros até Ankh-Morpork. Nós tem os 363 elefantes, 50 carroças de forragem , a m onção está prestes a com eçar, e nós estam os usando... Estam os usando... um a espécie de coisa, tipo óculos, só que escuros... coisas de vidro escuro nos olhos... — Sua voz falhou. Ele franziu a sobrancelha, com o se tivesse escutado a própria voz e não entendesse.