A Magia de Holy Wood

Terry Pratchett · Capítulo 4 de 5 · parte 1/3

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A Magia de Holy Wood

O Bar Se Esvaziou

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

, ficando apenas as nuvens de fum aça de costum e, os caldeirões de bebidas derretidas de trolls, Ruby raspando a lava grudada nas canecas sem prestar atenção em nada e um cachorrinho exausto e roído pelas traças.

O cachorrinho exausto e roído pelas traças pensou seriam ente na diferença entre parecer e agir com o um cão prodígio e sim plesm ente ser um . Ele disse: — Droga.

Victor se lem brava de que tinha m edo de tigre quando era m ais novo. As pessoas argum entavam , em vão, que o tigre m ais próxim o estava a 5 m il quilôm etros de distância. Ele dizia: "Tem algum m ar entre o lugar em que eles m oram e aqui?" e as pessoas diziam : "Bem , não, m as..." e ele dizia: "então, e só um a questão de distância".

Com a escuridão era a m esm a coisa. Todos os lugares escuros assustadores eram conectados entre si pela natureza da própria escuridão. A escuridão estava em toda parte, o tem po todo, só esperando as luzes se apagarem . Assim com o o Calabouço das Dim ensões, na verdade. Só esperando a realidade se rom per.

Ele se agarrou a Ginger com força.

— Não precisa — Ela disse. — Já estou conseguindo m e controlar agora.

— Ah, ótim o — Ele disse, vacilante.

— O problem a é que você tam bém está... m e controlando. Ele relaxou.

— Está com frio? — Ela perguntou.

— Um pouco. É m uito úm ido aqui em baixo.

— São os seus dentes que estou ouvindo bater? — E de quem m ais seria? Não — Ele se corrigiu rápido —, nem pense isso.

— Sabe — Ela disse, depois de algum tem po —, eu não m e lem bro de ter am arrado você. Eu nem sou m uito boa em dar nós.

— Aqueles nós eram m uito bons.

— Só m e lem bro do sonho. Tinha um a voz m e dizendo que eu tinha que acordar o... o hom em adorm ecido? Victor pensou na figura com arm adura sobre a placa de pedra.

— Você olhou bem para ele? — perguntou. — Com o ele era? — Não sei esta noite — respondeu Ginger, cautelosa. — Mas nos m eus sonhos ele sem pre se parece um pouco com o m eu tio Osvaldo. Victor pensou num a espada m aior que ele. Não era possível aparar um golpe de um a coisa daquela. Ela cortaria qualquer coisa. Por algum m otivo, era difícil im aginar que alguém parecesse um Osvaldo em punhando um a espada com o aquela.

— Por que ele lem bra o seu tio Osvaldo? — Porque o m eu tio Osvaldo se deitava bem parado daquele j eito. Vej a bem , eu só o vi um a vez. E foi no velório dele.

Victor abriu a boca — E ouviu vozes distantes e indistintas. Algum as pedras se m overam . Um a voz, um pouco m ais próxim a agora, cantarolou: — Olá, criancinhas. Por aqui, criancinhas.

— É o Rocha! — Exclam ou Ginger.

— Eu reconheceria essa voz em qualquer lugar — concordou Victor. — Ei! Rocha! Sou eu! Victor! Houve um a pausa de preocupação. Depois Rocha berrou: — É o m eu am igo Victor! — Isso quer dizer que a gente não podem os com er ele? — Ninguém vai com er m eu am igo Victor! A gente escava e tira ele rápido daí! Houve um som de algo sendo triturado. Depois outra voz de troll reclam ou: — Eles cham am isso de calcário? eu cham o de sem gosto.

Eles ouviram um pouco m ais de raspagem . Um a terceira voz disse: — Não vej o por que não podem os com er ele. Quem ia ficar sabendo? — Seu troll selvagem — brigou Rocha. — O que é que cê tá pensando? Você com e gente, todo m undo ri de você e vai dizer: "ele troll m uito defeituoso, não sabe se com portar na sociedade educada". Vai parar de pagar três dólares por dia e te m andar de volta pras m ontanhas.

Victor deu o que esperava ser um a risadinha de leve.

— Eles são m uito engraçados, não? — Dem ais — concordou Ginger.

— É claro que toda essa coisa de com er gente é só fanfarronice. Eles quase nunca fazem isso. Não precisa se preocupar.

— Não estou preocupada. Estou preocupada porque fico andando por aí enquanto durm o e não sei por quê. Você fala com o se eu fosse acordar aquela criatura adorm ecida. É um a ideia horrível. Tem algum a coisa dentro da m inha cabeça.

Houve um estrondo quando m ais rochas foram colocadas de lado.

— Isso é o estranho. Quando as pessoas ficam ... é... possuídas, a... coisa que as possui geralm ente não se preocupa m uito com elas ou qualquer outra pessoa. Quer dizer, ela não teria apenas m e am arrado. Ela teria m e dado um a pancada na cabeça com algum a coisa.

Ele estendeu o braço para segurar a m ão dela no escuro.

— Aquela coisa sobre a placa de pedra — Ele disse.

— O que é que tem ? — Eu j á vi aquilo antes. Está no livro que eu encontrei. Tem dúzias de im agens dele, e devem ter achado que era m uito im portante m antê-lo do outro lado do portão. É o que dizem os pictogram as, acho. Portão... hom em . O hom em atrás do portão. O prisioneiro. Sabe, tenho certeza de que o m otivo pelo qual todos os sacerdotes, ou o que quer que fossem , tinham para ir lá entoar cânticos todos os dias era...

Um a placa de pedra perto da sua cabeça foi em purrada para o lado e deixou passar um a fraca luz do dia. Laddie veio logo em seguida e tentou lam ber o rosto de Victor e latir ao m esm o tem po.

— Sim , sim ! Muito bem , Laddie — disse Victor, tentando afastá-lo. — Bom cachorro. Bom garoto, Laddie.

— Bom garoto Laddie! Bom garoto Laddie! O latido trouxe abaixo várias lascas de pedras do teto. —A-há!— disse Rocha. Várias outras cabeças de trolls apareceram atrás dele quando Victor e Ginger olharam pelo buraco.

— Eles não criancinhas — resm ungou o que reclam ava da proibição de com er gente. — Eles parecem pegaj osos.

— Eu j á dizer antes — disse Rocha num tom am eaçador —, nada de com er pessoas. Isso causa sem fim de problem as.

— Por que não só um a perna? Depois todo m undo vai...

Rocha pegou um a laj e de m eia tonelada com um a m ão, estim ou seu peso com cuidado e depois acertou o outro troll com tanta força que a quebrou.

— Eu j á ia dizer — disse à figura caída —, é trolls que nem você que criam m á fam a pra gente. Com o podem os tom ar nosso lugar de direito entre as irm andades de espécies sábias com trolls defeituosos com o você atrapalhando a gente o tem po todo? Ele enfiou o braço através do buraco e puxou Victor para fora de um a vez.

— Obrigado, Rocha. Tem a Ginger lá dentro tam bém .

Rocha deu um cutucão m alicioso que deixou algum as costelas doloridas.

— Ah, entendo. E ela usando um lindo penhoral de seda preta. Você encontra um ótim o lugar pra se deleitar um pouco "asfixiando o pato grande na água" e o Disco gira ao seu redor, né? — Os outros trolls abriram um sorriso.

— Uh, sim , acho que... — com eçou Victor.

— Isso não é verdade de j eito nenhum ! — gritou Ginger, enquanto era puxada pelo buraco. — Nós não estávam os...

— É, sim ! — disse Victor, fazendo sinais furiosos com as m ãos e sobrancelhas. — É absolutam ente verdade! Você está absolutam ente certo, Rocha! — É — disse um dos trolls atrás de Rocha. Eu vej o eles nos cliques. Ele beij ando ela e carregando pra longe o tem po todo.

— Agora ouçam — com eçou Ginger.

— E agora a gente sai daqui bem rápido — sugeriu Rocha. — Esse teto inteiro parecendo m uito defeituoso pra m im . Podia cair a qualquer m om ento. Victor olhou para cim a. Alguns dos blocos gotej avam de m odo agourento.

— Tem razão — disse. Ele agarrou o braço de Ginger, que ainda protestava, e a arrastou pela passagem . Os trolls apanharam o com patriota caído que não sabia se com portar em com panhia de pessoas educadas e saíram atrás deles andando com dificuldade.

— Aquilo foi repugnante, dar a eles a im pressão de que... — Ginger sussurrou.

— Cala a boca! – gritou Victor. – O que você queria que eu dissesse, hein? Quer dizer, que tipo de explicação você acha que seria adequada? O que você gostaria que as pessoas ficassem sabendo? Ela hesitou.

— Bom , está bem — adm itiu. — Mas você poderia ter pensado em outra coisa. Poderia ter dito que estávam os fazendo um a exploração ou procurando... procurando fósseis... — a voz dela falhou.

— Sim , no m eio da noite, com você usando um penhonal de seda. O que é um penhonal, afinal de contas? — Ele quis dizer penhoar — Explicou Ginger.

— Venha, vam os voltar para a cidade. Depois pode ser que eu tenha tem po para dorm ir um as horinhas.

— Com o assim , depois? — Nós tem os que com prar um a grande bebida para esses rapazes... Houve um estrondo baixo vindo da colina. Um a nuvem de poeira saiu da porta e cobriu os trolls. O resto do teto tinha desaparecido.

— Pronto — disse Victor. — Acabou. Você consegue fazer a sua parte sonâm bula entender isso? Não adianta m ais querer entrar, não tem nenhum a passagem . Está encerrado. Acabou. Ainda bem .

Existe um bar com o este em toda cidade. É m al ilum inado, e os frequentadores, em bora falem , não dirigem a palavra uns aos outros e tam bém não ouvem . Eles falam apenas da dor que sentem . É um bar para os desam parados, os sem sorte e para todas aquelas pessoas que j á foram tem porariam ente j ogadas para fora da pista de corrida da vida e ficaram no fosso.

Ele sem pre tem um efeito revigorante.

Nesta m adrugada, os angustiados se sentaram enfileirados ao longo do balcão, cada um dentro da sua nuvem de m elancolia, cada um com a certeza de ser o indivíduo m ais infeliz de todo o m undo.

— Eu criei tudo — disse Silverfish, com tristeza. — Achei que seria algo educacional. Poderia am pliar os horizontes das pessoas. Eu não tinha a intenção de fazer disso um ... um ... um show. Com m ilhares de elefantes! — acrescentou, desgostoso.

— É — concordou Detritus. — Ela num sabe o que quer. Eu faço o que ela querer, aí ela diz: "Isso num tá certo, você um troll sem nenhum sentim ento refinado, você num entende o que um a garota quer". Ela diz: "Garota quer com er coisas pegaj osas que vêm num a caixa com um laço em volta, eu faço caixa com laço em volta, ela abre caixa e grita e diz que cavalo esfolado num era o que ela tava falando". Ela num sabe o que quer.

— É — disse um a voz vinda de baixo do banco de Silverfish. — Seria m uito bem feito pra eles se eu fosse em bora pra m e j untar aos lobos.

— Sabe, pega esse negócio de E O Sopro Carregou — continuou Silverfish.

— Não é sequer um a coisa real. Não é com o as coisas realm ente aconteceram . São apenas m entiras. Qualquer um pode contar m entiras.

— É — disse Detritus. — Tipo, ela diz: "Garota quer m úsica em baixo da j anela". Eu toco m úsica em baixo da j anela, todo m undo da rua acorda e grita fora de casa: "Seu troll m au, pra que tá j ogando pedra a esta hora da noite?" E ela nem acorda.

— É — disse Silverfish.

— É — disse Detritus.

— É — disse a voz em baixo do banquinho.

O hom em que cuidava do bar era naturalm ente alegre. Não era difícil ser alegre, na verdade, quando os seus clientes agiam com o para-raios para qualquer sofrim ento que estivesse passando por perto. Ele não achava boa ideia dizer coisas com o "Não liga, não, vej a pelo lado positivo", porque nunca havia um lado positivo, nem "Anim e-se, pode ser que nunca aconteça", porque geralm ente j á tinha acontecido. Tudo o que se esperava dele era não parar de m andar as bebidas. Porém ele estava um pouco confuso naquela m anhã. Parecia haver um a pessoa a m ais no bar, sem contar quem quer que fosse que estivesse falando do chão. Ele não parava de ter a sensação de que servia um a bebida a m ais, e de que inclusive era pago por ela e até m esm o de que conversava com o freguês m isterioso. Mas não conseguia vê-lo. Na verdade, não tinha certeza de quem ele via e com quem conversava.

Ele foi andando devagar até a outra ponta do balcão.

Um copo deslizou na direção dele.

— O MESMO DE NOVO — disse um a voz na penum bra.

— E... — com eçou o barm an. — Sim . Claro. O que era m esm o? — QUALQUER COISA.

O barm an encheu o copo de rum . O copo foi puxado de volta. O barm an pensou em algo para dizer. Por algum m otivo, sentia-se apavorado.

— Não vej o m uito o senhor por aqui — conseguiu dizer.

— EU VENHO POR CAUSA DA ATMOSFERA. O MESMO DE NOVO.

— O senhor trabalha em Holy Wood? — perguntou o barm an, enchendo rápido o copo, que desapareceu de novo.

— NÃO POR ALGUM TEMPO. O MESMO DE NOVO.

O barm an hesitou. Ele era, no fundo, um a alm a bondosa.

— O senhor não acha que j á e o suficiente?

— EU SEI EXATAMENTE QUANDO É O SUFICIENTE.

— Todo m undo diz isso.

— EU SEI QUANDO É O SUFICIENTE PARA TODO MUNDO.

Havia algo m uito estranho naquela voz. O barm an não tinha m uita certeza de que a ouvia com os ouvidos. —Ah, bem ... E... O m esm o de novo?

— NÃO. AMANHÃ SERÁ UM DIA CORRIDO. FICA COM O TROCO.

Um punhado de m oedas deslizaram pelo balcão. Elas estavam geladas, e a m aioria parecia extrem am ente corroída.

— Oh, e... — com eçou o barm an.

A porta se abriu e fechou, deixando entrar um a raj ada de ar frio, apesar do calor da noite.

O barm an, um pouco perturbado, com eçou a lim par o balcão, tom ando cuidado para não encostar nas m oedas.

— Você vê uns tipos engraçados quando trabalha em bar — m urm urou. Um a voz perto de seu ouvido disse: — JÁ IA ESQUECENDO. UM PACOTE DE NOZES, POR FAVOR.

A neve brilhava nas bordas das encostas das m ontanhas Ram tops, a enorm e cadeia que tem a extensão do m undo e que, onde faz a curva, no Mar Círculo, form a um a m uralha natural entre Klatch e as grandes e lisas Planícies Sto. Lat Ela era o lar de geleiras am eaçadoras, avalanches à espreita e cam pos de neve altos e silenciosos.

E do abom inável hom em das neves, o y eti. Os y etis são um a espécie de troll de grandes altitudes nem um pouco cientes de que com er gente está fora de m oda. Sua visão é: se m exer, com a. Se não se m exer, espere m exer. E depois com a. Eles ouviram os sons o dia todo. Os ecos bateram de pico em pico pelas cadeias de m ontanhas até se transform ar num estrondo contínuo e abafado.

— Meu prim o — disse um deles, cutucando distraidam ente um dente oco com a unha afiada — disse que era anim ais enorm es e cinza. Elefantes.

— Maior que a gente? — perguntou o outro y eti.

— Quase tão grande quanto a gente — respondeu o prim eiro y eti — Um m onte deles, ele falou. Mais do que ele sabia contar.

O segundo y eti cheirou o vento e parecia pensar no assunto. —Ah, sim — disse, desanim ado. — Seu prim o não sabe contar até dois.

— Ele disse que tinha um m onte de grandões. Grandes elefantes cinza, todos subindo, todos am arrados com um a corda. Grandes e lentos. Todos carregando um m onte de oograah.

—Ah.

O prim eiro y eti apontou o vasto cam po de neve inclinado.

— Bom e fundo hoj e. Nada vai conseguir se m ovim entar rápido aí, certo? A gente deita na neve, eles só vão ver a gente quando estiverem bem em cim a da gente, a gente assusta eles e é a hora da Grande Com ida. — Ele balançou as patas enorm es no ar. — Muito pesados, m eu prim o falou. Eles não vão andar rápido, vai por m im .

O outro y eti deu de om bros.

— Vam os fazer isso — concordou, ao som de vozes de elefantes distantes e apavoradas.

Eles se deitaram na neve, com sua pelagem branca transform ando-os em dois m ontículos insuspeitos. Era um a técnica que funcionara inúm eras vezes e havia sido passada de y eti para y eti durante m ilhares de anos, em bora não fosse m ais ser passada m uito adiante.

Eles esperaram .

Houve um urro distante quando a m anada se aproxim ou.

Enfim o prim eiro troll disse, bem devagar, porque j á estava pensando nisso havia m uito tem po: — Qual e o resultado, certo, qual é o resultado de... cruzar... um a m ontanha em um elefante? Ele nunca teve resposta.

Os y etis estavam certos.

Quando 500 trenós m alfeitos com dois elefantes cada chegaram ao cum e da cordilheira a 300 m etros dali, a 90 km /h, com os ocupantes am arrados urrando em pânico, eles só viram os y etis quando estavam bem em cim a deles.

Victor só teve duas horas de sono, m as acordou sentindo-se extraordinariam ente renovado e otim ista.

Estava tudo acabado. As coisas seriam m uito m elhores agora. Ginger tinha sido m uito legal com ele na noite anterior — bem , algum as horas antes — E o que quer que estivesse na colina tinha sido m uito bem enterrado.

“Esse tipo de coisa acontecia às vezes", ele pensou enquanto despej ava um pouco de água na bacia rachada e se lavava rapidam ente. "Algum velho rei ou m ago perverso e enterrado, e seu espírito fica peram bulando, tentando acertar as coisas ou algo assim . Efeito bastante conhecido. Mas agora deve haver um m ilhão de toneladas de pedras bloqueando o túnel, e não consigo ver ninguém peram bulando através daquilo tudo." A tela desagradavelm ente viva veio à tona por um breve m om ento em sua m em ória, m as até aquilo não parecia tão ruim agora. Estava escuro lá dentro, havia m uitas som bras se m exendo, ele tinha ficado com m uito m edo e não era de se adm irar que seus olhos lhe tivessem pregado um a peça. Tinha os esqueletos tam bém , m as até eles tinham perdido o poder de aterrorizar. Victor ouvira falar de líderes tribais das planícies geladas que enterraram exércitos inteiros de cavaleiros para que sua alm a continuasse a viver no m undo seguinte. Talvez tenha ocorrido algo assim aqui algum dia. Sim , tudo parecia m uito m enos aterrorizante à luz fria do dia.

E era só isso. Luz fria.

O quarto estava cheio do tipo de luz de quando se acorda num a m anhã de inverno e se sabe, pela luz, que nevou. Era um a luz sem som bras. Ele foi até a j anela e viu um fraco brilho prateado.

Holy Wood havia desaparecido.

As visões da noite brotaram em sua m ente de novo, com o a escuridão que volta quando a luz se apaga.

"Calm a, calm a", pensou, com batendo o pânico. "É apenas neblina. Com certeza existe neblina assim tão perto do m ar. E está brilhando desse j eito porque o sol saiu. Não há nada de oculto na neblina. São apenas gotículas de água flutuando no ar. E só isso." Ele se vestiu bem devagar, abriu a porta que dava para o corredor e tropeçou em Gaspode, que perm anecia deitado, todo esticado na frente da porta, com o o protetor de correntes de ar m ais suj o do m undo.

O cãozinho se ergueu sem firm eza pelas patas da frente, olhou fixam ente para Victor com um olhar m elancólico e disse: — Só quero que você saiba, certo, que não tô deitado na frente da sua porta por causa de nenhum a dessas besteiras de "cão leal protege o dono", ok? É só porque, quando voltei aqui...

— Cala a boca, Gaspode.

Victor abriu a porta da rua. A neblina foi entrando. Ela parecia ter um ar exploratório. Entrou com o se estivesse só esperando a oportunidade.

— Neblina é só neblina — disse em voz alta. — Vem . Nós vam os para Ankh-Morpork hoj e, lem bra? — Minha cabeça... — com eçou Gaspode — m inha cabeça está parecendo o fundo de um balaio de gato.

— Você pode dorm ir na carruagem . Eu posso dorm ir na carruagem , se for preciso.

Ele deu alguns passos no m eio do brilho prateado e quase se perdeu de im ediato. Os prédios apareciam de m odo indistinto para ele no ar denso e úm ido.

— Gaspode? — cham ou num tom hesitante. — Neblina é só neblina — repetiu. Parece que está cheio de gente. Dá a im pressão de que, se ela fosse em bora de repente, eu veria um m onte de gente olhando para m im . De fora. E isso é ridículo porque eu estou do lado de fora, então não tem nada fora de fora. E ela está trem endo.

— Im agino que você queira que eu vá na frente — disse um a voz presunçosa na altura do seu j oelho.

— Está m uito silencioso, não? — perguntou Victor, tentando parecer indiferente. — Im agino que sej a a neblina abafando todos os sons.

— É claro. Talvez criaturas fantasm agóricas tenham saído do m ar e assassinaram todas as alm as m ortais com exceção da nossa — disse Gaspode num tom trivial.

— Cala a boca! Algum a coisa com eçou a surgir no m eio do brilho. Quando se aproxim ou, ficou m enor e os tentáculos e antenas que a im aginação de Victor via se transform aram nos braços e pernas m ais ou m enos norm ais de Soll Dibbler.

— Victor? — perguntou, incerto.

— Soll? O alívio de Soll foi visível.

— Não consigo ver nada com toda esta coisa — reclam ou. — Acham os que você tinha se perdido. Vam os, é quase m eio-dia. Estam os m ais ou m enos prontos para com eçar.

— Estou pronto.

— Ótim o. — Gotículas de neblina haviam se condensado no cabelo e nas roupas de Soll. — E... Onde é que estam os exatam ente? Victor se virou. Seu aloj am ento estava atrás dele.

— A neblina m uda tudo, não? — observou Soll, nada contente. — E... você acha que o seu cachorrinho consegue encontrar o cam inho do estúdio? Ele parece ser bem esperto.

— Rosna, rosna — disse Gaspode, e se sentou para im plorar com o que Victor reconhecia com o um j eito sarcástico.

— Falando Sério — com eçou Soll. — E com o se ele entendesse, não? Gaspode deu latidos agudos. Depois de um ou dois segundos, havia um a chuva de latidos excitados em resposta.

— É claro que deve ser o Laddie — disse Soll. — Que cachorro inteligente! — Gaspode fez um ar de convencido. — Vej a bem , esse é Laddie em poucas palavras — insistiu Soll enquanto eles saíam em direção ao latido. — Acho que ele poderia ensinar alguns truques pro seu cachorro, hein? Victor não ousou olhar para baixo.

Depois de andarem em círculos, a arcada da Século do Morcego-de-Frutas passou por cim a deles com o um fantasm a. Havia m ais pessoas ali. O local parecia estar se enchendo de pessoas perdidas que peram bulavam sem saber aonde ir. Havia um a carruagem esperando em frente ao escritório de Dibbler, e o próprio Dibbler perm anecia ao lado dela, batendo o p no chão.

— Vam os, vam os. Mandei Gaffer na frente com o film e. Entrem , vocês dois.

— Dá pra viaj ar nisso? — perguntou Victor.

— O que é que pode dar errado? Só tem um a estrada para Ankh-Morpork. De qualquer j eito, a gente provavelm ente vai estar bem longe desta coisa quando se afastar do litoral. Não sei por que todo m undo está tão nervoso. Neblina é neblina.

— É o que estou dizendo — concordou Victor, subindo na carruagem .

— Só foi um a bênção que term inam os E O Sopro Carregou ontem — disse Dibbler. — Tudo isso é provavelm ente só um a coisa da estação. Nada que preocupe de verdade.

— Você j á disse isso — observou Soll. — Você disse isso pelo m enos cinco vezes nesta m anhã.

Ginger estava curvada num assento, com Laddie deitado em baixo dela. Victor foi indo para o lado até ficar j unto dela.

— Você conseguiu dorm ir? — sussurrou.

— Só um a hora ou duas, acho. Não aconteceu nada. Nenhum sonho nem nada.

Victor relaxou.

— Então acabou m esm o. Eu não tinha certeza.

— E a neblina? — Ela perguntou.

— Perdão? — disse Victor, com sentim ento de culpa.

— O que está causando a neblina?.

— Bem , pelo que sei, quando o ar frio passa sobre o solo quente, a água se precipita a partir de...

— Você sabe do que estou falando! Não tem nada a ver com a neblina norm al! Ela... m eio que se desloca de form a estranha — Ela com pletou de m odo falho. — E quase dá para ouvir vozes — acrescentou.

— Não dá para quase ouvir vozes — discordou Victor, na esperança de que a sua própria m ente racional acreditasse nele. — Ou você ouve, ou não.

Olha, nós dois estam os apenas cansados. É só isso. Tem os trabalhado m uito e... E... não tem os dorm ido bastante, então é com preensível pensarm os que quase ouvim os e vem os coisas.

— Ah, então você está quase vendo coisas, e? — perguntou Ginger num tom triunfante. — E não vem usando esse tom de voz calm o e racional pra cim a de m im — acrescentou. — Odeio quando as pessoas ficam dando um a de calm as e racionais pra cim a de m im .

— Espero que os pom binhos não estej am tendo nenhum a briguinha. Victor e Ginger ficaram rígidos. Dibbler subiu com dificuldade, foi para o assento em frente e lançou um olhar m alicioso para incentivá-los. Soll o acom panhou. Houve um barulho quando o condutor bateu a porta da carruagem .

—Vam os parar para um a refeição na m etade do cam inho — avisou Dibbler, quando deram um solavanco para a frente. Ele hesitou e depois aspirou o ar com desconfiança. — Que cheiro é esse? — Sinto inform ar que m eu cachorro está debaixo do seu assento — disse Victor.

— Ele está doente? — Sinto inform ar que ele sem pre tem esse cheiro.

— Você não acha que seria um a boa ideia dar um banho nele? Um m urm úrio quase inaudível disse: — Cê acha que seria um a boa ideia arrancar os seus pés com um a m ordida só? Enquanto isso, acim a de Holy Wood, a neblina ficava m ais espessa... Os cartazes de e 0 Sopro Carregou circularam por Ankh-Morpork durante alguns dias, e o interesse deixava os nervos exaltados.

Eles haviam chegado até a Universidade desta vez. O bibliotecário havia pendurado um na toca fétida forrada de livros que ele cham ava de lar, (Na verdade, ele a chamava de "oook". Mas, provavelmente, traduzindo, significaria "lar".) e vários outros circulavam de form a oculta entre os próprios m agos. O artista havia produzido um a obra de arte. Nos braços de Victor, tendo com o fundo um a cidade em cham as, Ginger fora retratada não apenas m ostrando quase tudo o que ela tinha, m as m uito do que ela, no sentido exato da palavra, não tinha.

O efeito sobre os m agos foi tudo o que Dibbler poderia ter esperado. Na Sala Incom um , o cartaz foi passado de m ão em m ão trêm ula, com o se fosse explodir.

— Tem um a garota que tem um tchan — disse o Presidente da Cadeira de estudos Indefinidos. Ele era um dos m agos m ais gordos, tão estofado que parecia fazer j us ao cargo. Sua aparência dava a im pressão de que ele tinha crina de cavalo saindo para fora de rem endos gastos.

— O que é um "tchan", presidente? — perguntou outro m ago.

— Ah, você sabe. Um tchan. Sex appeal. O velho fiu-fiu. — Eles o observavam com educação e expectativa, com o pessoas esperando o final da piada.

— Puxa vida, vocês querem que eu soletre?— Ele está falando de m agnetism o sexual — Explicou alegrem ente o Conferencista sobre Runas Recentes. — A sedução de bustos libertinos m acios e coxas enorm es pulsantes, e os frutos proibidos do desej o que... Alguns m agos tiraram a cadeira de perto dele, com cuidado.

— Ah, sexo — com eçou o Decano de Pentagram as, interrom pendo o Conferencista sobre Runas Recentes logo de cara. — Tem um excesso m uito grande disso hoj e em dia, na m inha opinião.

— Ah, não sei — discordou o conferencista. Ele parecia saudoso. O barulho acordou Windle Poons, que cochilava em sua cadeira de rodas perto da lareira. Havia sem pre um fogo estrondoso na Sala Incom um , fosse verão ou inverno.

— Que-que-foi? — Ele perguntou.

O decano se inclinou na direção de um ouvido.

— Eu estava dizendo — Ele disse, alto — que nós não sabíam os o significado da palavra "sexo" quando éram os j ovens.

— É verdade. É bem verdade — concordou Poons. Ele ficou olhando para as cham as com um a expressão de reflexão. — Nós chegam os a, m m , descobrir, você se lem bra? Houve um m om ento de silêncio.

— Digam o que quiserem , ela é um a j ovem m uito bem —apessoada — observou o conferencista em tom de desafio.

— Várias j ovens — disse o decano.

Windle Poons olhou com atenção, m as sem firm eza, para o cartaz.

— Quem é o j ovem rapaz? — Que j ovem rapaz? — perguntaram alguns m agos.

— Ele está no centro do desenho — observou Poons. — Está segurando ela nos braços.

Eles olharam novam ente.

— Ah, ele — disse o presidente, com desprezo.

— Parece-m e que eu, m m , j á o vi antes — com entou Poons.

— Meu querido Poons, espero que o senhor não estej a fugindo para ver as im agens anim adas — disse o decano, abrindo um largo sorriso para os outros. — O senhor sabe que e degradante para um m ago frequentar locais de entretenim ento com um . O arquirreitor ficaria m uito bravo conosco.

— Que-que foi? — perguntou Poons, fazendo um a concha com a m ão em torno do ouvido.

— Ele realm ente parece um pouco fam iliar, agora que você m encionou — concordou o decano, observando o cartaz.

O Conferencista sobre Runas Recentes pôs a cabeça para o lado.

— É o j ovem Victor, não? — Hã? — disse Poons.

— Sabe, você pode estar certo — concordou o Presidente da Cadeira de estudos Indefinidos. — Ele tinha o m esm o bigode fino.

— Quem é esse? — perguntou Poons.

— Mas ele era aluno aqui. Ele poderia ser um m ago — observou o decano. — Por que ele ia querer partir para acariciar j ovens m ulheres? — É Victor, sim , m as não o nosso Victor. Diz aqui que ele e "Victor Maraschino" — disse o presidente.

— Ah, é só nom e de clique — Explicou o conferencista, sem dar m uita im portância. — Eles todos têm nom es engraçados assim . Dolores Dos Pecados, Blanche Lânguida, Rocha Penhasco e assim por diante... — Ele percebeu que olhavam para ele com olhar acusador. — Pelo m enos foi o que m e disse — tentou consertar — o faxineiro. Ele vai ver cliques quase toda noite.

— Do que é que você está falando? — perguntou Poons, balançando a bengala.

— O cozinheiro vai toda noite tam bém — disse o presidente. — Assim com o a m aioria dos funcionários da cozinha. E só tentar pedir um sanduíche de presunto depois das nove pra ver.

— Quase todo m undo vai — disse o conferencista. — Menos a gente. Um dos outros m agos olhou com atenção para a parte de baixo do cartaz.

— Está escrito aqui: "Um a Saga de Paixão e Am plas escadarias na Turbulenta História de Ankh-Morpork!" — Ah. é histórico, então, é? — disse o conferencista.

— E diz aqui: "Um a História de Am or épica que Im pressionou Deuses e Hom ens!!!" — Oh? Religioso tam bém .

— E diz: "Com m il elefantes!!!" — Ah. Os anim ais selvagens. Sem pre m uito educativa, ávida dos anim ais selvagens — disse o presidente, lançando um olhar apreensivo para o decano. Os outros m agos faziam o m esm o.

— Parece-m e — com eçou o conferencista, devagar — que ninguém poderia obj etar que m agos experientes vissem um a obra de interesse histórico, religioso e... E... selvático.

— As regras da Universidade são m uito específicas — disse o decano, m as não m uito entusiasm ado.

— Mas, com certeza, voltadas apenas para os alunos — com pletou o conferencista. — Posso entender m uito bem que alunos não tenham perm issão para assistir a algo assim . Eles provavelm ente ficariam assobiando e atirando coisas na tela. Mas não poderia ter sido sugerido de form a séria, não é, que m agos experientes com o nós não pudessem exam inar esse fenôm eno popular. A bengala agitada de Poons acertou o decano em cheio na parte de trás das pernas.

— Exij o saber do que todos vocês estão falando! — gritou.

— Não entendem os por que m agos experientes não poderiam ter perm issão para assistir a im agens anim adas! — berrou o presidente.

— É um a m aravilha m esm o! — disse Poons, irritado. — Todo m undo gosta de olhar para um a m ulher bonita.

— Ninguém falou nada de m ulher bonita. Estam os m uito m ais interessados em exam inar fenôm enos populares — observou o presidente.

— Cham e do que quiser, KÍH? — Windle Poons disse e deu um a risadinha.

— Se as pessoas virem m agos saindo pelo portão para ir a um a sala com um de im agens anim adas perderão todo o respeito pela profissão — observou o decano. — Não se trata sequer de m agia propriam ente. São apenas truques.

— Quer saber? — disse um dos m agos inferiores, pensativo. — Sem pre quis saber o que são esses m alditos cliques. Algum a espécie de show de m arionetes, é? essas pessoas atuam num palco? Ou j ogo de som bras? — Está vendo? — com eçou o presidente. — Tem os que ser sábios e nem sabem os do que se trata.

Todos olharam para o decano.

— É, m as quem e que quer ver um m onte de j ovens m ulheres dançando de roupas j ustas? — perguntou, sem esperanças.

Ponder Stibbons, o m ago pós-graduado m ais sortudo da história da Universidade, passeava contente perto da entrada secreta por cim a do m uro. Sua m ente norm alm ente despovoada estava prazerosam ente inundada de pensam entos de cervej a, talvez um a visita aos cliques e um curry klatchiano superquente para com pletar a noite e depois...

Foi o segundo pior m om ento da sua vida.

Eles estavam todos lá. Todos os funcionários superiores. Até o decano. Até o velho Poons em sua cadeira de rodas. Todos parados nas som bras, olhando para ele com ar m uito severo. A paranoia com eçou a soltar fogos dentro da lata de lixo da sua m ente. Eles estavam todos só esperando por ele. Ele ficou paralisado. O decano falou.

— Oh. Oh. Oh. E... Ah. Um . Um — com eçou, e depois pareceu conseguir alcançar a própria língua. — Oh. O que é isso? Em frente, neste m inuto, aquele hom em ! Ponder hesitou. Depois saiu correndo. Depois de algum tem po, o conferencista disse: — Aquele era o j ovem Stibbons, não era? Ele foi em bora? — Acho que sim .

— Ele vai contar para alguém , com certeza.

— Não vai, não — disse o decano.

— Você acha que ele viu de onde tiram os os tij olos? — Não, eu estava na frente dos buracos — disse o presidente.

— Vam os lá, então. Onde estávam os? — Olha, eu realm ente acho que isto é insensato dem ais — disse o decano.

— Fica quieto, m eu velho, e segura este tij olo.

— Muito bem , m as m e diga um a coisa: qual e a sua sugestão para passar a cadeira de rodas? Eles olharam para a cadeira de rodas de Poons.

Existem cadeiras de rodas que são leves e proj etadas para perm itir a seus donos agir de form a plena e independente na sociedade m oderna. Com paradas à coisa usada por Poons, eram com o gazelas diante de um hipopótam o. Poons estava m uito consciente de sua função na sociedade m oderna, ou sej a, ser em purrado por toda parte e ceder diante de qualquer em pecilho.

Sua cadeira era larga, com prida e guiada por m eio de um a pequena roda dianteira e um a longa alavanca de ferro fundido. O ferro fundido, na verdade, tinha sido am plam ente usado em sua construção. Partes de relevos barrocos enfeitavam sua estrutura, que parecia ter sido feita com canos de esgoto de ferro soldados. Na verdade, as rodas traseiras não tinham lâm inas cortantes afixadas a elas, m as davam a im pressão de que poderiam ser opcionais extras. Tinha várias alavancas horríveis cuj o propósito apenas Poons conhecia. Havia tam bém um capo de lona que podia ser levantado em questão de horas para proteger o ocupante de chuvas, tem pestades e, provavelm ente, chuvas de m eteoros e im plosões de edifícios. A fim de proporcionar algum alívio, a alavanca da frente era enfeitada com um conj unto de com etas, buzinas e apitos, com os quais Poons costum ava anunciar seu avanço pelos corredores e pátios da Universidade. Porque o fato era que, em bora a cadeira de rodas precisasse de todos os esforços de um hom em bastante forte para m ovê-la, um a vez em m ovim ento, era im possível detê-la. Podia até ter freios, m as Poons j am ais se preocupou em procurá-los. Os funcionários e os estudantes sabiam que, caso ouvissem um a buzina ou pancada por perto, a única esperança de sobrevivência era se esprem er contra a parede m ais próxim a até que o tem ido veículo passasse fazendo seus ruídos.

— Nós nunca vam os conseguir carregar isso — disse o decano com firm eza. — Deve pesar pelo m enos um a tonelada. Em todo caso, teríam os que deixá-lo m esm o. É velho dem ais pra esse tipo de coisa.

— Quando eu era rapaz, eu pulava esse m uro, m m , toda noite —contou Poons, ressentido, ele deu um a risadinha. — Nós aprontávam os m uito naquela época, vou dizer um a coisa. Se eu tivesse um centavo, m m , para cada vez que a Guarda m e perseguiu até a m inha casa — seus lábios antigos se m exeram num furor súbito para calcular algo —, eu teria cinco centavos e m eio.

— Talvez se nós... — com eçou o presidente, e depois disse: — Com o assim , cinco centavos e m eio? — Lem bro que um a vez eles desistiram no m eio do cam inho — Explicou Poons, contente. — Ah, aqueles tem pos é que eram bons. Eu lem bro que eu e o velho Riktor "Núm eros" e "Tudgy " Spold escalam os o Tem plo dos Pequenos Deuses, sabe, no m eio de um a cerim ônia, Tudgy estava com o seu porquinho dentro de um saco, e ele...

— Viu o que você fez? — reclam ou o conferencista. — Você deu corda nele agora.

— Nós poderíam os tentar erguê-la por m eio de m agia — sugeriu o presidente. — O elevador Sem esforço de Gindle resolveria o problem a.

— ... E aí o sum o sacerdote se virou e... heh, a cara que ele fez! e depois o velho Núm eros disse: "Vam os..." — Não se pode dizer que sej a um uso m uito nobre da m agia — o decano torceu o nariz.

— Consideravelm ente m ais nobre do que nós m esm os erguerm os a m aldita coisa por cim a do m uro, não? — disse o conferencista, arregaçando as m angas. — Vam os, rapazes.

— ... E quando fom os ver, Pim ple estava chutando a porta do Grêm io dos Assassinos. Depois o velho Scum m idge, que era o porteiro lá, hehe, ele era um verdadeiro terror, bom , ele veio lá de dentro, m m , e os guardas estavam chegando à esquina...

— Todos prontos? Certo! —... o que m e faz lem brar da vez em que eu e Fram er "Pepino" pegam os um pote de cola e fom os...

— Levanta a sua ponta, decano! Os m agos resm ungavam ao fazer esforço.

— ... E, m m , lem bro com o se fosse ontem , a cara que ele fez quando...

— Agora vão abaixando! As rodas revestidas de ferro tiniram suavem ente ao tocar os paralelepípedos do beco.

Poons balançava a cabeça com um a expressão cordial.

— Bons tem pos, bons tem pos — Ele m urm urou e adorm eceu.

Os m agos escalaram o m uro devagar e sem firm eza. Am plos traseiros brilharam ao luar. E ficaram parados do outro lado, levem ente ofegantes.

— Me diga um a coisa, decano — com eçou o conferencista, apoiando-se no m uro para as pernas pararem de trem er —, nós chegam os a... aum entar... o m uro nos últim os 50 anos? — Acho... que... não.

— Estranho. Costum ava subir nele com o um a gazela. Não m uitos anos atrás. Não m uitos m esm o.

Os m agos enxugaram a testa e se entreolharam , encabulados.

— Costum ava dar um a escapada para um drinque ou dois quase toda noite — disse o presidente.

— Eu costum ava estudar todas as noites — disse o decano com orgulho. O presidente apertou os olhos.

— Sim , você sem pre estudava. Eu m e lem bro.

Os m agos com eçavam a se dar conta de que estavam fora da Universidade, à noite e sem perm issão, pela prim eira vez depois de décadas. Um a certa excitação reprim ida estalou em cada um deles. Qualquer observador treinado em leitura da linguagem corporal estaria pronto para apostar que, depois do clique, alguém sugeriria que eles poderiam ir a algum lugar para tom ar algum a coisa, e depois alguém teria a ideia de j antar, e depois havia sem pre espaço para m ais alguns drinques, depois j á seriam cinco da m anha, e os guardas m unicipais iriam bater aos portões da Universidade, de form a respeitosa, para perguntar se o arquirreitor gostaria de ir até as celas para identificar alguns pretensos m agos que cantavam um a m úsica obscena num a harm onia em seis vozes. E talvez ele tam bém gostaria de levar algum dinheiro para pagar por todos os estragos. Porque dentro de toda pessoa de idade existe um j ovem se perguntando o que aconteceu. O presidente ergueu a m ão e segurou a aba do seu chapéu de m ago alto, largo e desengonçado.

— Certo, rapazes. Tirando o chapéu.

Eles tiraram o chapéu, m as com relutância. Os m agos se tornam m uito apegados a seus chapéus pontudos. O chapéu lhes dá um senso de identidade. Porém , com o o presidente havia observado antes, se as pessoas sabiam que você era um m ago por causa do chapéu pontudo, se você o tirasse, elas pensariam que você era apenas um com erciante rico ou algo do tipo.

O decano estrem eceu.

— Parece que tirei todas as m inhas roupas.

— Podem os enfiá-los debaixo do cobertor do Poons — sugeriu o presidente. — Ninguém saberá que som os nós.

— Sim — concordou o conferencista —, m as nós saberem os? — Vão pensar que som os apenas... bem ... cidadãos pacatos.

— É exatam ente com o m e sinto — concordou o decano. — Um cidadão pacato.

— Ou com erciantes — disse o presidente. Ele alisou o cabelo branco. — Lem brem -se, se alguém disser algum a coisa, não som os m agos. Apenas com erciantes honestos que saíram para um a noite agradável, certo? — Qual é a aparência de um com erciante honesto? — perguntou um m ago.

— Com o é que eu vou saber? — rebateu o presidente. — Ninguém deve fazer nenhum a m agia — continuou. — Não preciso dizer a vocês o que acontecerá se o arquirreitor ficar sabendo que seu corpo docente foi visto em locais de entretenim ento com um .

— Estou m ais preocupado com a possibilidade dos nossos descobrirem — o decano estrem eceu.

— Barbas falsas — sugeriu o conferencista num tom triunfante.

— Podem os usar barbas falsas.

O presidente revirou os olhos.

— Nós todos Tem os barba. Que espécie de disfarce seriam as barbas falsas? — Ah! esse é o toque de esperteza — disse o conferencista.

— Ninguém desconfiaria que um a pessoa usando um a barba falsa teria um a barba de verdade por baixo, certo? O presidente abriu a boca para contestar, m as depois hesitou.

— Bem ...

— Mas onde conseguiríam os barbas falsas a esta hora da noite? — perguntou um m ago num tom incerto.

O conferencista abriu um sorriso e enfiou a m ão no bolso.

— Não precisam os. Este é o verdadeiro toque de esperteza. Eu trouxe um pouco de aram e, certo, e tudo o que precisam os fazer é tirar dois pedaços, passar por dentro das costeletas, depois dar a volta pelas orelhas de um j eito bem m alfeito assim — Ele dem onstrou — E pronto.

O presidente ficou olhando.

— Fantástico. É verdade! Você parece exatam ente alguém que colocou um a barba falsa m uito m alfeita.

— Im pressionante, não? — disse o conferencista, contente, passando o aram e para os outros. — é cabeçologia, sabe.

Houve alguns m inutos de m uito ruído m etálico e um a ou outra reclam ação quando um m ago se perfurava com o aram e, m as eles finalm ente ficaram prontos. Entreolharam -se com tim idez.

— Se tivéssem os um a fronha sem travesseiro e a colocássem os dentro do m anto do presidente, deixando a parte de cim a aparecer, ele ficaria igual a um hom em m agro tentando parecer trem endam ente gordo com um travesseiro enorm e — disse um deles com entusiasm o. Seu olhar encontrou o do presidente, e ele ficou quieto.

Dois m agos seguraram as alças da terrível cadeira de rodas de Poons e a em purraram , fazendo um ruído estrondoso pelos paralelepípedos m olhados.

— Que foi isso? O que todo m undo está fazendo? — perguntou Poons, acordando de repente.

— Vam os fazer o papel de cidadãos pacatos — respondeu o decano.

— Essa brincadeira é boa — disse Poons.

— Está m e ouvindo, m eu am igo? O tesoureiro abriu os olhos.

O am bulatório da Universidade não era m uito grande e raram ente era usado. Os m agos tinham a tendência de estar com um a saúde de ferro ou m ortos. Os únicos rem édios que costum avam usar eram um antiácido e um quarto escuro até a hora do alm oço.

— Trouxe um a coisa para você ler — disse a voz tim idam ente. O tesoureiro conseguiu enxergar a lom bada de Aventuras com Besta e Vara.

— Pancada feia a que você levou, tesoureiro. Ficou adorm ecido o dia todo.

O tesoureiro olhou com a visão em baçada para a nuvem rosa e alaranj ada que foi se definindo aos poucos até form ar o rosto rosa e alaranj ado do arquirreitor.

"Vej am os", pensou, "com o foi exatam ente que eu..." ele se sentou com as costas retas de repente, agarrou o m anto do arquirreitor e gritou na sua cara rosa e alaranj ada: — Algo terrível está para acontecer! Os m agos cam inhavam pelas ruas som brias. Até o m om ento, o disfarce funcionava perfeitam ente. As pessoas até davam cotoveladas neles. Ninguém j am ais deu cotoveladas propositais num m ago. A experiência era totalm ente nova. Havia um a m ultidão enorm e diante da entrada do Odium e um a fila que se estendia rua abaixo. O decano ignorou tudo isso e levou o grupo direto até as portas, onde alguém disse: "Opa!" Ele ergueu a cabeça e viu um troll de rosto verm elho com um traj e que parecia m ilitar e não lhe servia bem . Tinha dragonas do tam anho de tam bores e não tinha calça.

— Sim ? — Tem um a fila, sabia? — disse o troll.

O decano consentiu com educação. Em Ankh-Morpork, um a fila era, quase por definição, um a coisa com um m ago na frente. — Estou vendo. Isso é m uito bom m esm o. E, se você fizer a gentileza de chegar para o lado, nós gostaríam os de tom ar nossos lugares.

O troll lhe deu um cutucão no estôm ago.

— O que cê pensa que é? Um m ago ou coisa do tipo? — Isso provocou risos das pessoas m ais próxim as na fila.

O decano chegou m ais perto dele.

— Para dizer a verdade, nós som os m agos — sussurrou.

O troll deu um sorriso m ostrando os dentes para ele.

— Não adianta tentar m e enrolar — disse. — Eu tô vendo a sua barba falsa.

— Escute aqui... — com eçou o decano, m as sua voz se transform ou num guincho incoerente quando o troll o ergueu pela gola de seu m anto e o im pulsionou para a rua.

— Você entra na fila com o qualquer outra pessoa. Houve um coro de zom barias proveniente da fila.

O decano resm ungou e ergueu a m ão direita com os dedos estendidos... O presidente segurou seu braço.

— Ah, sim — sussurrou. — Isso aj udaria m uito, não? Venha.

— Para onde? — Para o fim da fila! — Mas nós som os m agos! Magos nunca ficam na fila para nada! — Som os com erciantes honestos, lem bra? — corrigiu o presidente. Ele olhou para o fã de cliques m ais próxim o, que olhava para eles com um a expressão estranha. — Som os com erciantes honestos — repetiu m ais alto e cutucou o decano.

— Vai — sussurrou.

— Aonde? — Vai, diz algum a coisa com ercial.

— O que é isso? — perguntou o decano, confuso.

— Diga algum a coisa!'Todo m undo está olhando pra gente! — Oh. — O rosto do decano se contraiu de pânico e, em seguida, a salvação foi elucidada. — Lindas m açãs. Peguem enquanto estão quentes. Estão um a belezura... Assim está bom ? — Acho que sim . Agora vam os para o fim ...

Houve um a agitação do outro lado da rua. As pessoas vinham correndo. A fila saiu de form a e partiu para o ataque. De repente, os com erciantes honestos estavam cercados por um a m ultidão que se acotovelava desesperadam ente.

— Uau, isso é um a fila— disse o Com erciante Honesto de Runas Recentes, receoso, ao ser em purrado para o lado.

O decano agarrou pelo om bro um m enino que lhe dava cotoveladas furiosam ente.

— O que está acontecendo, rapazinho? — perguntou.

— Eles estão chegando! — gritou o m enino.

— Quem ? — Os astros! Os m agos olharam para cim a num m ovim ento sincronizado.

Continuar: parte 2 de 3