A medida do possível: saúde, risco e tecnobiociências
Novo milênio e tecnobiociências: a vida como ela é... informação?
Novo milênio e tecnobiociências: a
vida como ela é... 1 informação?
Sabe-se que finais de períodos exercem efeitos curiosos nos seres humanos. Pode ser fim de semana (há uma evidente e forte vinculação ao lazer, por oposição aos chamados dias úteis para o trabalho), do mês (créditos e débitos), do ano, de quinquênios, de décadas (fascínio por finais em cinco e em zero), de séculos... Inclusive, ao completarmos tais períodos, realizamos atos de celebração, de rememoração conjunta (comemoração), bodas, aniversários, cinqüentenários, centenários (de nascimentos, mortes, tanto de pessoas como de criações humanas).
É evidente que o final de um período consiste em uma categoria temporalizada, arbitrária e convencionada (as formas de marcar a passagem do tempo são culturalmente definidas), criada por estes peculiares seres produtores de coisas que irão, recursivamente, afetá-los de alguma forma, muitas vezes, imprevista.
Diante de supostos términos cronológicos, tem-se a tarefa de produzir avaliações, balanços e juízos. Com que finalidade? Ora, em termos muito simplificados, podemos aventar razões:
a) mais explícitas: monitorar e objetivar trajetórias e processos em andamento no decorrer de um determinado intervalo de tempo;
b) menos explícitas: (re)descrever para nós próprios (redescrevendo a nós próprios) o que se passou em termos de ordenações narrativas, repleta de componentes simbólicas, nas quais são buscadas significações para os acontecimentos subjetivos que acompanham os eventos do tempo cronológico. Sobretudo, aparece a necessidade de se preparar para as vicissitudes do destino que nos aguarda. Em outras palavras, precisamos das periodizações para viabilizar narrativas ordenadoras de nossas (re)descrições de nós próprios e do que nos cerca.
A este respeito, vale um breve comentário acerca das construções metafóricas que fazemos em relação à idéia de passagem do tempo. Neste sentido, o transcorrer do tempo cronológico costuma ser considerado como movimento e admite dois casos:
1) como objetos que se movimentam de modo contínuo e linear, em uma orientação de frente para trás, isto é, com o futuro se movendo em nossa direção e o passado ficando para trás.
2) como movimento sobre uma paisagem. Neste caso, o tempo pode ser considerado 'parado' e somos nós que nos movimentamos através dele ('estamos chegando ao final do ano ou perto do Natal').
Enfim, a estrutura metafórica ou nos apresenta parados e o tempo vindo em nossa direção e passando por nós ou, estando ele estático, nos deslocando em sua direção. Dito de outro modo, algo/alguém deve estar, obrigatoriamente, em movimento, pois, como diz o poeta, Ό tempo não pára'.
Para Lakoff (1993), as descrições do tempo em termos de movimento, objetos e locais têm um ancoramento biológico. Nossos aparatos visuais possuem detectores para movimentos, objetos/locais. Não dispomos de sentidos específicos para a passagem do tempo. Para percebê-la, seria preciso usar referências obtidas com os sensores visuais disponíveis, entretanto não estamos cientes destes aspectos em nossas vidas. Aliás, isto nem importa (e talvez nem seja conveniente sabê-los) para resolvermos as questões postas pelo dia-a-dia. Conforme Lakoff & Johnson "[...] Toda esta estrutura metafórica detalhada e consistente é parte de nossa linguagem literal cotidiana sobre o tempo, tão familiar que normalmente não nos daríamos conta de que se trata de uma estruturação metafórica" (1980: 82).
Uma curiosidade: nossos instrumentos de medir a passagem do tempo têm se modificado com tal passagem, acompanhando a lógica de produção tecnocientífica. Nosso século presenciou a criação do relógio analógico de 'pulso', atribuída a Santos Dumont. As fontes de energia para o funcionamento deste modelo evoluíram sob diversas formas; desde o emprego do tensionamento de molas, que eram acionadas através do processo mecânico de 'dar corda', até ao uso de recursos eletroquímicos através de baterias e pilhas. A marca primordial destes instrumentos aparece em seu modo de figuração. Como se sabe, o mos¬ trador apresenta o movimento de ponteiros, cujos deslocamentos em relação a pontos demarcados representam o transcorrer de determinados 'espaços' de tempo. Sob esta ótica, é possível enfocar o tempo cronológico relativo ao presente em uma perspectiva que agrega simultaneamente a possibilidade de visualização das dimensões recentes de tempo passado/futuro.
Com o surgimento dos chamados relógios digitais, os mostradores passaram a ostentar apenas os números que indicam a hora vigente (entre outros recursos que incluem até passatempos aos moldes de video games). Os ponteiros perdem sua importância e se fazem menos presentes. Eventualmente, em alguns modelos digitais, chegam a coabitar com os algarismos em suas marcações 'pulsantes', dando uma impressão de redundância 'nostálgica'. Com a representação 'digital', perde-se a visualização dos períodos que acabaram de passar ou os que se nos avizinham (o que, por exemplo em atividades culinárias, torna-se um pequeno contratempo para a medição de durações de cocção).
Será despropositado interpretar esta nova configuração como uma metonímia sintomática de nossos tempos em que o primado do presente parece se amplificar, desvalorizando aspectos tanto do que recém passou como de um futuro cujos teores de 'surpreendência' são reduzidos? Sem dúvida há muitas novidades, mas as surpresas são rarefeitas... Há sim mais compromissos com o mundo da produtividade. E, para isto, dispomos de telefones celulares e computadores portáteis. Hoje, o que parece ter mais importância é estar, o máximo possível, ligado, informado e produzindo... Independentemente da configuração metafórica-analógica/digital de mensuração de intervalos de tempo, este comentário preliminar visa situar o ponto de vista 'topográfico' adotado por este observador situado abaixo do Equador, com todas as possíveis falhas que tal posição implique. Especialmente, o distanciamento geográfico e sociocultural, com inevitáveis prejuízos e preconceitos em relação ao palco e aos atores no cenário anglo-saxônico no qual se produz a quantidade mais alta de trabalhos epidemiológicos e, também, de especulações futurológicas. Esta menção se prende à inegável influência desta linha de produção na disciplina epidemiológica deste planeta. Cedo ou tarde, poderemos perceber repercussões em nosso meio do que ocorre com a epidemiologia supra-equatoriana.
As eventuais críticas em função do risco de leituras equivocadas que uma empresa especulativa desta ordem apresenta importa acrescentar a pertinência do exercício, pois ele abre possibilidades de reflexão e, quiçá, organização diante de situações eventualmente avassaladoras e desvantajosas, algo sempre passível de discussões, pois sempre há prioridades definidas como tais, conforme os grupos de interesse envolvidos.
Este texto propõe, portanto, a discussão de um determinado esboço da epidemiologia no próximo milênio. Em outras palavras, nosso propósito é chamar a atenção para a descrição de cenários futuros (mesmo com a decadência da futurologia, disciplina em voga nos anos 1960) com o propósito de orientar o que pode/deve ser o 'melhor', na medida do possível, acerca das perspectivas relativas à epidemiologia subequatoriana.
Se, por um lado, subjacente ao exercício, reside um certo 'furor avaliatório', justificável pelo espírito de expectativa de final de período e de 'novas' eras, por outro, é preciso adotar alguma complacência em função das evidentes razões de falibilidade de qualquer previsão consistente nos dias de hoje. Além dos indefectíveis vieses de observação, também a imprecisão resulta da instabilidade e da alta velocidade das mudanças na atualidade
tecnocientífica e sociocultural. 2
Vale lembrar, fora do fôro acadêmico, que astrólogos, magos, profetas, videntes e experts em várias 'maneias' continuam bastante solicitados e exercem suas atividades profissionais em meio a ávidas clientelas consulentes. Especialmente (et pour cause?) em um momento no qual as ciências naturais, em geral, passaram a considerar a maior parte dos sistemas que nos rodeiam como complexos e dinâmicos, destacando assim seu caráter estocástico e a decorrente imprevisibilidade (em termos deterministas): "[...] são os cientistas que fazem as perguntas e a complexidade surge quando eles têm de aceitar que as categorias de entendimento que orientavam suas explorações estão em questão, quando a maneira através da qual propõem suas questões tornou-se em si problemática" (Stengers 1997).
Há cerca de vinte anos atrás, Atlan (1979) advertiu para as ambigüidades dos novos conceitos - hipercomplexidade, ruído, auto-organização etc. - e os riscos de sua respectiva reificação, a ponto de reduzi-los a um fenômeno de modismo intelectual. Ε isto, a meu ver, em certa medida aconteceu. Passadas duas décadas, pode-se dizer que 'complexidade', 'novos paradigmas', 'emergência' e outras noções correlatas assumiram o lugar não apenas de conceitos-chave, como também de conceitos-gazua, aqueles que, em função de seu poder metaforizante, podem abrir diferentes portas...
Alguns pesquisadores sediados em centros de pesquisa de complexidade 'de ponta', como o Santa Fe Institute nos Estados Unidos, começam a duvidar da possibilidade de uma teoria unificada dos sistemas complexos. Para eles, por um lado, podem haver exageros e distorções do chamado jornalismo científico, em especial diante de idéias como entropia, acaso, caos e informação; por outro, os problemas começam com a falta de precisão do conceito 'complexidade'. Foram contabilizadas mais de 31 definições deste termo, ou seja, a idéia se tornou desprovida de significação e já se percebem comentários lamentando a passagem da complexidade para a perplexidade (Horgan 1996). Sejam tais questões pertinentes ou não, isto acarreta, em termos cotidianos, um enfraquecimento nas crenças redentoras da ciência para mitigar o sofrimento humano e responder à ansiedade já assinalada da busca de (re)descrições do que se passa (e de nós próprios) diante da incessante proliferação, multiplicidade e simultaneidade de acontecimentos.
Antes de prosseguir, devemos lembrar que o 'novo milênio', ou melhor, o seu espírito já está entre nós... Aliás, tem sido dito que o futuro começou há um bom tempo. Não faltam exemplos desta constatação em outros campos de saber e conhecimento, em setores da produção (bio)tecnológica e nas características futurâmicas assumidas pelas práticas socioculturais nas sociedades contemporâneas, em moldes até então apenas sugeridos pela assim chamada 'ficção científica'.
Prever o futuro: quebra-cabeças sem peças
completas
Há algum tempo atrás, as figuras do caleidoscópio podiam, para nosso deleite, assumir belas formas abstratas, distintas e com
planos de simetria3. Conforme o movimento mecânico do objeto, os desenhos mudavam de aparência a partir dos mesmos elementos e mediante um jogo de espelhos. Era possível dominar o ritmo das mudanças e até parar o brinquedo para, cuidadosamente, mostrar para os companheiros a figura obtida.
Na rota desta metáfora lúdica, os novos caleidoscópios são constituídos por microcircuitos eletrônicos, ligados a monitores (de cristal líquido ou de vídeo/cinescópios tradicionais) e/ou a redes internéticas, com elementos grandemente multiplicados e que se deslocam cinematicamente em imagens que podem ser animadas, roteirizadas ou antropomorfizadas. Elas admitem controle (vulgo interatividade), possuem objetivos, fases ou, para aqueles que preferem, altas doses de competitividade/pontuação (videogames) ou mesmo demandas humanóides (vide o tamagotchi, o ovo-relógio, e robôs assemelhados).
Mesmo sendo um truísmo, importa ressaltar que a observação ora apresentada consiste em um procedimento que busca alguma delimitação e inteligibilidade ante um quadro hipercomplexo, imbricado e simultâneo. Pois bem, nesses tempos proliferantes de 'novos' caleidoscópios mesclando o sentido lúdico ao figurado: sucessão rápida e cambiante de impressões, sensações - nossa proposta é tentar atribuir possíveis significados às novas figuras que nos são mostradas, olhando-as, a princípio, como mistérios, como um outro brinquedo, o quebra-cabeça (em inglês, puzzle, que também serve para designar 'enigma', 'perplexidade'), pois não se sente apenas deleite com as imagens produzidas pelos neocaleidoscópios; a estética virtual deslumbrante ao mesmo tempo ob¬ seda e atordoa.
Em função de nossa perplexidade diante da velocidade e proliferação de novos enigmas (e seus puzzling effects), é preciso produzir constantemente novas "soluções", isto é, outros sentidos, ainda que transitórios, frágeis e locais. Portanto, se nosso 'jogo' agora é uma mescla caleidoscópica de quebra-cabeças e enigmas, é preciso assumir que não se dispõe de soluções definitivas, nem de modelos ou de padrão-ouro. As peças não estão completas. Constantemente são acrescentadas outras, que propiciam, conforme o ponto de vista do observador-intérprete, novas configurações múltiplas e complexas. Prever o futuro se tornou algo que cumpre cada vez mais uma função de busca de ordenações possíveis para o presente e é sobretudo deste modo que devem ser encarados tais exercícios preditivos.
A situação epidemiológica e seu futuro
Petersen e Lupton (1996) produziram um texto crítico em que discutem, com riqueza argumentativa, os resultados das contribuições da epidemiologia dos fatores de risco na constituição da 'nova saúde pública' e a sua correspondente moralidade higiênica. Se uma retórica de regulação é desenvolvida mediante o discurso do risco, é a 'irracionalidade' das pessoas que adotam estilos de vida deletérios o que precisa ser abordado pelo foco racional da epidemiologia. Os referidos autores destacam o papel central da quantificação estatísticoepidemiológica na construção das 'verdades' epidemiológicas.
Na verdade, tais 'fatos' são apresentados sob a chancela de neutralidade e de objetividade do conhecimento científico, sem mostrar as contingências socialmente definidas pelas quais as elaborações epidemiológicas são construídas e interpretadas. Ε mais, na comunicação pública dos achados, as indeterminações e correspondentes margens de erro (falácias) inerentes à operação do dispositivo estatísticoepidemiológico dirigido a populações não costumam ser claramente explicitadas quando referidas ao indivíduo ou, caso o sejam, não sabemos avaliar a fidedignidade do entendimento por parte do público leigo receptor das informações. Como já se abordou em outro lugar (Castiel 1998), as pessoas em geral não passam por uma alfabetização estatística para lidar com as implicações do raciocínio probabilístico.
Ainda é possível falar em Epidemiologia no singular, e com letra maiúscula? Há fortes indícios que permitem configurar distintas epidemiologias, cujos adjetivos adquirem uma dimensão de sobrenome, pertencentes a diferentes clãs, inclusive com querelas e disputas por hegemonia para alcançar o status maiúsculo de dominância.
Para não nos estendermos em demasia neste tópico, uma sinopse das diferenças essenciais entre vertentes, sugerida por Pearce (1996) e ligeiramente modificada, é, apesar das limitações sumarizantes, suficientemente ilustrativa. De um lado, a epidemiologia tradicional (assim chamada pelo referido comentador em uma acepção favorável para tal expressão), cuja motivação é a saúde pública e seus ideais de promoção, prevenção e controle de agravos à saúde, mediante estratégias epistemológicas estruturais de enfoque realista, estudos e intervenção em nível populacional em um contexto histórico/cultural, sendo observacionais suas principais técnicas de investigação. De outro, a epidemiologia moderna, cuja motivação é científica/acadêmica em uma ótica predominantemente biomédica, através de estratégias epistemológicas reducionistas de enfoque positivista, estudos e intervenção em nível individual (e seus órgãos, tecidos, células, moléculas...), com exclusão de contextos e técnicas experimentais de investigação, cujo modelo fundamental é o ensaio clínico aleatorizado.
Ε necessário assinalar que este esquema, além de seu mal disfarçado maniqueísmo, elide algumas questões. A princípio, é no mínimo discutível afirmar a nitidez da distinção entre estratégias e enfoques epistemológicos entre as vertentes. Mais ainda: como desenvolve Ayres (1994), nas décadas de 1930-40, a saúde pública sofreu nos Estados Unido com W H. Frost um rearranjo decisivo em termos de normatividade científica, processo iniciado no final do século passado. Uma parcela higienista é incorporada pelo Estado: a saúde pública propriamente dita. Outra parte, sob a forma disciplinar da medicina preventiva, liga-se às ações médicas e assistenciais, com repercussões na formação do profissional de saúde e na configuração dos correspondentes conhecimentos biológicos sobre o adoecer humano.
A epidemiologia como atividade científica se institui na academia de medicina juntamente com os demais conteúdos biocientíficos da formação médica. Em outras palavras, vivemos agora o paroxismo de um movi¬ mento de cisão que parece ter gerado, ao menos, duas epidemiologias com estatutos aparentemente diferentes. Uma, "sânito-coletiva", intervencionista e ligada à dimensão das práticas populacionais, à vigilância, ao controle de doenças, à educação em saúde etc, subsidiária de outra, científica/acadêmica, que produz evidências sobre as 'histórias naturais das doenças', em relação às quais tanto a saúde pública como a medicina devem basear suas ações. Vale notar que no interior do esquema da 'modernidade epidemiológica' de Pearce não aparece claramente o movimento chamado 'epidemiologia clínica' ou o seu rebento 'medicina baseada em evidências'.
Mesmo diante das asperezas das lutas de prestígio, esta situação apresenta aspectos, digamos, pitorescos. Em um curioso (por seu formato dramatúrgico) e pouco tímido artigo no ortodoxo American Journal of Epidemiology, Carl Μ. Shy (1997) procede a um 'julgamento' literal da epidemiologia acadêmico/científica. Sua alegada 'culpa': ter se dedicado principalmente a estudos cuja perspectiva central era 'descobrir' fatores de risco nas relações entre determinadas exposições de grupos de indivíduos e seus respectivos desfechos. Uma proposta conservadora que, segundo a testemunha de acusação (papel assumido pelo autor), 'fracassou' por não incluir dimensões comunitárias e ecológicas e suas inter¬ relações com aspectos sócioeconômicos, culturais e comportamentais no entendimento do adoecimento das pessoas.
Esta postura crítica explícita de autores da comunidade epidemiológica anglo-saxônica quanto à epidemiologia moderna e a assunção das limitações da ideologia dos fatores de risco são bastante recentes. Como já foi sugerido, isto, em certos aspectos, mimetiza as preocupações da chamada epidemiologia social latino-americana de caráter marxista dos anos 1970. Será que a queda do muro de Berlim em 1989 trouxe mais liberdade de expressão e menos medo do retorno da caça às bruxas vermelhas para os intelectuais (ditos) de esquerda nos Estados Unidos?
Detenhamo-nos agora na produção de um conceituado epidemiologista anglo-saxônico, originário da África do Sul e radicado na Universidade de Columbia (Nova Iorque) e de seu filho: Mervyn e Ezra Susser (1996). Em um trabalho dividido em dois papers (cuja versão preliminar foi apresentada no Congresso de epidemiologia de Salvador em 1995), eles descrevem as eras epidemiológicas passadas e propõem uma imagem futura:
1) das estatísticas sanitárias, baseada no paradigma dos
miasmas, na primeira metade do século XIX ;
2) das doenças infecciosas, na teoria microbiana, do final do
século XI X até a primeira metade do XX ; e
3) das doenças crônico-degenerativas, enfatizando o desgaste
do modelo da caixa preta (dos fatores de risco), na segunda
metade do século XX .
Segundo estes autores, o futuro da disciplina será constituído pela 'eco-epidemiologia' (cujo paradigma metafórico são 'as caixas chinesas'), caracterizada por um ponto de vista ecológico que estuda "as relações intra e entre estruturas localizadas em uma hierarquia de níveis"; por uma abordagem analítica, que envolve "análise de determinantes e desfechos em diferentes níveis de organização: dentro e através de contextos (usando novos sistemas de informação) e em profundidade (usando novas técnicas biomédicas)", leia-se: especialmente, técnicas de manipulação de DNA recombinante e marcadores/sondas moleculares, constituindo a já denominada 'epidemiologia molecular'. A abordagem preventiva se baseia em "aplicar tanto informação como tecnologia biomédica, para encontrar pontos de alavanca (leverage) em níveis eficazes, do contextual ao molecular" (Susser & Susser 1996: 676).
Em outras palavras, os Sussers parecem vislumbrar que um futuro alvissareiro para a epidemiologia se ancora principalmente na conjugação transdisciplinar de técnicas bioinformáticas à chamada epidemiologia molecular (EM). Não examinaremos as questões -importantes, sem dúvida - sobre a conceptualização de transdisciplinaridade, em geral, e de seu dimensionamento na Saúde Coletiva, em particular. Para isto, sugerimos a consulta de Almeida-Filho (1997) e o respectivo debate com outros autores.
Shpielberg e associados (1997) apresentam indiscutíveis exemplos de avanços na aplicação da EM em estudos sobre várias modalidades de inter-relações entre agentes protetores (fármacos) e determinantes etiológicos (carcinógenos, vírus, dieta), com "características variadas dos hospedeiros", porém enfatizam que a EM servirá para redefinir epidemias ao abordar doenças com longos períodos de incubação, etiologias múltiplas, suscetibilidade heterogênea e variação na fisiopatologia da enfermidade ao detectar populações genotipicamente suscetíveis expostas a agentes etiológicos específicos.
Tais procedimentos de acompanhamento seriam capazes de alterar os métodos da medicina preventiva e da saúde pública (Shpilberg et al 1997). Mesmo assumindo que a maioria das doenças não é causada unicamente pela suscetibilidade genética, estes autores apostam no mapeamento genotípico como forma de aumentar a margem de detecção dos riscos de grupos humanos a agentes específicos. Assim sendo, os tradicionais fatores sóciodemográficos operados pela epidemiologia (sexo, etnia, faixa etária, classe social etc.) perderiam, em princípio, sua potência explicativa se comparados com o conhecimento genômico, todavia ainda é difícil dimensionar o alcance efetivo desta proposição.
Infelizmente, Shpilberg e associados sequer cogitam em avanços conceituais na epidemiologia (ao contrário...) ao afirmarem, com certa grandiloqüência, nas derradeiras sentenças do artigo, que "o sequenciamento do genoma humano oferece a maior oportunidade para a epidemiologia desde que John Snow descobriu a bomba de Broad Street. A responsabilidade primordial dos epidemiologistas é convencer o resto da comunidade científica que a doença ainda é 'causada' por hospedeiro, agente e ambiente" (ibid. :637).
No caso específico dos estudos epidemiológicos sobre a gênese do câncer e seus respectivos desafios, sabe-se que a propensão de adquirir a doença localiza-se em uma intrincada mescla de fatores genéticos (moleculares) e ambientais (contextuais). Sob o ponto de vista epidemiológico, portanto, especialistas ainda consideram que as principais dificuldades para fazer avançar o entendimento da carcinogênese das diferentes formas da enfermidade incluem: a) insuficiência dos conhecimentos disponíveis para delimitar fatores genéticos e ambientais, bem como as suas interações na patogênese dos diversos tipos de câncer; b) problemas na demarcação precisa de subtipos moleculares específicos e na mensuração da dose de exposição celular efetiva (Iscovich 1998). Em conformidade com a perspectiva dos Sussers (1996), estes deveriam ser os principais tópicos de uma agenda de pesquisa no campo.
Por outro lado, vale assinalar o significativo esforço nesta direção nos bem sucedidos estudos sobre o cólera, doença epidêmica considerada paradigmática na construção da ciência epidemiológica. A transdiscipli¬ naridade serviu para propor um consistente modelo preditivo de surtos da moléstia, envolvendo processos de identificação de cepas do vibrião colérico por meio de técnicas bioquímicas (como PCR, anticorpos monoclonais e sondas de ARN marcadas por fluorescência) conjugados à própria epidemiologia, à oceanografia, à ecologia, à microbiologia, à biologia marinha, à medicina, ao geoprocessamento via imagens de satélite e às técnicas (bio)informáticas para integrá-las.
Tal proposição relaciona os surtos do cólera à influência da quantidade de zooplâncton marinho quitináceo, como os copépodes, pequenos crustáceos, elementos da cadeia alimentar de peixes e hospedeiros do vibrião. A população de copépodes é função de alterações climáticas globais (como o fenômeno El Niño, que proporciona chuva, traz nutrientes das áreas litorâneas e aquece a temperatura do mar) e seus deslocamentos se relacionam com o regime dos ventos e das correntes marinhas. Além disto, observou-se, através de sondas genéticas moleculares, que determinadas cepas de vibriões assumem um estado viável e patogênico, porém refratário ao cultivo laboratorial. Isto permite a detecção e a contagem de V. cholerae em amostras ambientais, dimensionando o grau de contaminação correspondente (Colwell 1996).
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Sob a expressão bioinformática englobam-se, em linhas gerais, técnicas matemáticas e computacionais para abordar questões biológicas. Elas são cada vez mais consideradas ferramentas poderosas para estudar os sistemas naturais. Seus usos se evidenciam não só em diversos ramos da biologia, como também na ecologia, na genética, na imunologia, na virologia e na epidemiologia (Levin et al. 1997).
Há a incorporação de métodos matemáticos não-lineares, nãoparamétricos; de estudos de seqüências genômicas de agentes patógenos (Escherichia e Listeria), as chamadas análises filogenéticas; de investigações acerca das interações co-evolutivas hospedeiro-agente; da imunoepidemiologia genética, a modelização dos padrões de resposta imunológica decorrentes da complexa dinâmica genética entre patógenos e sistema imune afetado com as estratégias de controle (idem). Muitos dos novos medicamentos foram concebidos mediante tais técnicas. Há perspectivas farmacogenéticas de ampliação do poder de identificar aspectos genômicos dos indivíduos, agrupando-os segundo suas correspondentes configurações genotípicas, a fim de prescrever fármacos, digamos, mais personalizados e, portanto, supostamente mais eficazes (Cohen 1997).
Em busca de clareza na apresentação, separaremos artificiosamente questões referentes à modelagem matemática dos aspectos de 'molecularização' dos estudos epidemiológicos. Em relação à denominada 'epidemiologia molecular', a discussão quanto à pertinência desta expressão foi feita no capítulo anterior.
Surgem nos Estados Unidos grupos de trabalho que começam a discutir as questões de benefício/risco envolvidas na passagem de testes genéticos preditivos da pesquisa básica à prática clínica. Há benefícios evidentes: screening de várias doenças em recém-nascidos viabilizando, conforme o caso, intervenções precoces. Para doenças como o câncer de mama, todavia, a disponibilidade de testagens genéticas preditivas ainda não deu provas de que medidas preventivas ou terapêuticas ótimas sejam destituídas de risco ou plenamente efetivas. Os riscos podem ser resumidos sob o quesito de 'incerteza preditiva' a respeito da ocorrência de doença futura em relação a alguns testes, o que também se aplica a testagens não genéticas (Holtzman et al 1997). Aliás, este permanece sendo um dos problemas cruciais da categoria probabilística risco para os expostos nos contextos clínicos. Médicos (e pacientes) encontramse sós nestes momentos, em geral sem acesso a dados de validade e utilidade de testes recentemente desenvolvidos. Mesmo com o acesso, creio que as decisões não se tornam substancialmente mais seguras ou garantidas.
Ainda assim, é importante destacar que, no estado das artes moleculares atuais, é possível verificar que a exposição a supostos agentes cancerígenos externos leva à formação de mutações no ADN dos tecidos receptores (adutos). Isto, porém, não implica o estabelecimento dos nexos causais, pois ainda faltam elementos, no nível do indivíduo, que sustentem a relação entre tais alterações moleculares e a gênese do câncer (McMichael 1995). Em outras palavras, mesmo com vigorosas evidências que sustentam o papel de determinação de certos biomarcadores na carcinogênese, não estão incondicionalmente eliminadas exceções a associações consideradas como causais (Vineis & Porta 1996).
Modelos de simulação em biologia e a vida como
ela é...
Nos dias de hoje, 'modelo' e 'simulação' consistem em expressões de relevância nos domínios da pesquisa em ciências da vida e da saúde. Curiosamente, como assinalou Dupuy (1995), ambas as palavras sofrem inversões semânticas em relação ao uso comum ao serem apropriadas pelos discursos científicos. Na linguagem cotidiana, 'modelo' indica algo que serve para ser imitado ou que merece ser imitado. Neste sentido, ele é uma referência original. Ora, o modelo científico é antes de tudo per se, uma imitação ou uma tentativa de reprodução, de 'representação'. Ele tem com a realidade o mesmo tipo de relação que uma réplica reduzida mantém com o objeto que ela pretende reproduzir, para que seja mais facilmente manipulável. Esta função é desempenhada, por exemplo, por vários programas computacionais de representação gráfica.
Definições são coisas complicadas. Em todo o caso, em ciência, trata-se de uma idealidade, em geral formalizada e matematizada, que sintetiza um sistema de relações entre "elementos cuja identidade e até a natureza são até certo ponto indiferentes, e que podem, portanto, ser trocados por outros elementos análogos ou distintos sem que [o modelo] seja alterado" (Ullmo 1969). Em suma, o modelo científico é uma imitação humana da natureza.
Por sua vez, 'simulação' usualmente se relaciona com fingimento, faz-de-conta, engano. No contexto científico, todavia, ela se relaciona com formas particulares de modelização, que via de regra consistem em reproduzir o funcionamento de um sistema mediante recursos computacionais, de acordo com a máxima das ciências
cognitivas: "conhecer implica em ser capaz de simular"4.
No campo da modelagem, o maior desafio computacional em sistemas estocásticos predominantemente não-lineares é a representação da complexidade e o impacto das medidas de controle. Conforme o problema, todas as escalas (desde o nível individual até grandes metrópoles) podem ser importantes. Questão central: como adequar/calibrar com efetividade a quantidade de elementos do modelo com um dado contexto?
Há muitos estudos epidemiológicos que procuram abordar a dinâmica das doenças infecciosas, por exemplo, sob a perspectiva referida (cf. Levin et al. 1997), contudo na chamada modelagem matemática/ técnica de simulação computacional é preciso considerar complicadores tais como as interações entre heterogeneidade espacial e genética, a nãolinearidade e a estocasticidade. Um grande problema para a modelagem na epidemiologia é estudar como a transmissão varia conforme o espaço social/geográfico ou como considerar a diversidade/heterogeneidade dos indivíduos. Como e em que nível de detalhe se pode representar variações espaciais nos processos de contatos intrinsecamente não-lineares subjacentes à transmissão? Por exemplo: os extremamente dinâmicos padrões espaço-temporais epidêmicos da AIDS e a possibilidade de comportamentos caóticos, não-lineares, no estabelecimento das complexas redes de transmissão com elevados graus de imprecisão (Levin et al. 1997).
Como descreve criticamente o escritor Ítalo Calvino em sua obra Palomar, "[a] construção de um modelo era [...] um milagre de equilíbrio entre os princípios (deixados à sombra) e a experiência (inapreensível), mas o resultado devia possuir uma consistência muito mais sólida que uns e outra. Num modelo bem construído, na verdade, cada detalhe deve estar condicionado aos demais, para que tudo se mantenha com absoluta coerência, como num mecanismo em que, parando uma engrenagem, todo o conjunto pára. O modelo é por definição aquele em que não há nada a modificar, aquele que funciona com perfeição; ao passo que a realidade, vemos bem que ela não funciona e que se esfrangalha por todos os lados; portanto, resta apenas obrigá-la a adquirir a forma do modelo, por bem ou por mal" (Calvino 1994:98).
Talvez o escritor ítalo-cubano esteja sendo por demais severo. Para a filósofa Naomi Oreskes, do Dartmouth College, "a verificação e validação de modelos numéricos de sistemas naturais é impossível" (apud Horgan 1996:77). Pode-se, quando muito, obter conhecimentos parciais, aproximados, pois em grande parte estes são sistemas abertos. Afirmações que podem ser de fato verificadas (ou validadas) são aquelas relativas a sistemas fechados, nos quais todas as variáveis são levadas em conta e são passíveis de monitoração através da lógica matemática e das abordagens algorítmicas.
Oreskes enfatiza o poder retórico de modelos matemáticos e seu potencial de convencimento na assunção de sua capacidade de representar a realidade. Por analogia às obras literárias, que podem ter tanto personagens construídos a partir de fatos/pessoas existentes como fictícios, surge a pergunta crucial: quanto de sua respectiva elaboração se baseia: 1) na observação e mensuração de fenômenos passíveis de acesso; 2) em juízos supostamente consistentes, bem informados; 3) em conveniências? (Horgan, 1996).
Isabelle Stengers considera-os, em grande parte, como 'ficções matemáticas' . Mais do que isto, eles se constituem em uma nova modalidade de pôr à prova ficções. Com a perspectiva trazida pelo desenvolvimento das técnicas (bio)informáticas, o emprego de sistemas computacionais cada vez mais possantes como instrumentos de simulação faz surgir no meio científico 'novos sofistas'. "Pesquisadores cujo engajamento não se refere mais a uma verdade que faz calar as ficções, mas a possibilidades, qualquer que seja o fenômeno, de construir a ficção matemática que o reproduz" (Stengers 1993:153).
A mesma autora situa, com pertinência, o problema ético da simulação: a Ό que' corresponde uma investigação efetuada sobre moléculas ou populações virtuais? Até que ponto são estudos realizados estrita¬ mente sobre abstrações e quais são os vínculos representacionais de elementos 'verdadeiros', pertencentes ao mundo dito real. Com isto, permitem gerar que tipos de enunciado? Evidentemente, eles deixaram de se constituir em achados experimentais ou observacionais.
Enfim, que tipo de dados e achados são obtidos/produzidos por estudos de simulação? Nesta situação, a idéia de verdade como adequação entre explicação e realidade, uma noção cara às ciências naturais, achase em cheque. Estas contingências em que a idéia de virtualidade se impõe subvertem ainda mais a organização e a consistência das disciplinas e dos saberes científicos.
Uma tentativa de encaminhamento desta ordem de problemas foi proposta por Lévy. Para ele, qualquer acontecimento pode: 1) estar latente em sua virtualidade e como tal existir; e 2) tornar-se manifesto em sua atualização e, assim, acontecer. Neste sentido, a atualização inventaria uma forma do acontecimento como modalidade de criação (Lévy 1995). A "temporalidade da atualização é a dos processos. [...] Na medida em que existem tantas temporalidades quantos problemas vitais, a virtualização move-se no tempo dos tempos. A virtualização sai do tempo para enriquecer a eternidade. Ela é fonte dos tempos, dos processos, das histórias, já que comanda, sem determiná-las, as atualizações. Criadora por excelência, a virtualização inventa questões, problemas, dispositivos geradores de atos, linhagens de processos, máquinas de devir" (Lévy 1996: 139-40).
Não me parece que Lévy resolva satisfatoriamente o problema. A nosso ver, transparece, em uma rápida observação, o risco de esgarçamentos semânticos: se o acontecimento 'existe' em um nível e 'acontece' em outro, então o que vem a ser 'existir'? Eis-nos em meio a questões ontológicas de um inusitado contexto em que as fronteiras entre possível, real, virtual e atual se confundem.
O tom triunfalista de Lévy nos sugere uma deificação do Virtual [diante disto, a maiúscula começa a se tornar uma imposição lógica(!?)]. Aliás, nesta linha de raciocínio, Ele seria uma manifestação de (e da) virtualidade. Será preciso crer, então, que a virtualidade possui a (oni)potência de 'existir' para se transformar em ato, ou seja, 'acontecer'? Depreende-se desta elaboração um estabelecimento de processos que inevitavelmente se constituem em estádios, etapas ou fases do acontecimento que, frise-se, podem ou não ocorrer.
Do ponto de vista biológico, o raciocínio Lévyano seria bem aplicado a bactérias que irão se reproduzir por cissiparidade e, eventualmente, sofrer mutações por influências do contexto, porém um ovo humano fecundado é um acontecimento bastante distinto de um organismo adulto.
Aliás, é possível que sejam acontecimentos distintos, mesmo possuindo vínculos entre si. Um ovo humano parece não possuir
mente, enquanto um organismo adulto parece possuí-la. 5
Enfim, apesar dos esforços de Lévy, o problema de como relacionar e definir possível, real, virtual e atual permanece. Por tratar-se de algo consistente, externamente produzido, objetivável, reprodutível, passível de descrição consensualmente compartilhada (e interatividade) e, portanto, válido, será absurdo cogitar em uma imagem paradoxal de 'alucinação verdadeira'?
Talvez o caminho mais apropriado ante este estado de coisas seja o de assumir a condição de entidades com estatutos intermediários, híbridos que as simulações e as imagens virtuais geram. Mistos de 'real' e de 'representação' não simetricamente repartidos. Segundo Philippe Quéau, as imagens virtuais são mesclas de ídolo e ícone com a predominância da primeira ordem, desde que entendamos 'ídolo' no sentido derivado de raízes indo-européias, na acepção de 'saber', e 'ícone', como uma imagem que busca captar similitude (Quéau & Sicard 1994). Imagens do real que produzem e multiplicam o saber, não cabendo mais a preocupação em defini-las em seu estatuto de objetos reais ou virtuais, o que, porém, não se iguala aos efeitos éticos do potencial de perverter o papel das técnicas de reprodução de imagens como provas documentais dos fatos...
* * *
No caso d' 'a vida como ela é', as aspas, tão enfatizadas na lide acadêmica em sua nobre função de proteção ao crédito autoral de outrém, cumprem na presente circunstância o mesmo papel: elas fazem referência (e reverência) à origem da expressão 'a vida como ela é' no título de uma seção jornalística em que foram produzidas crônicas de um reconhecido teatrólogo brasileiro. Ao mesmo tempo, contudo, elas servem para assinalar uma abordagem com conotações irônicas, expediente linguístico que pode desempenhar a função subversiva de indicar que o enunciado de alguma forma está em tensão com a enunciação; eventualmente, implicando o oposto do que está sendo apresentado. Como um 'jeito' de destacar a prevalência do implícito sobre o explicitado, do latente sobre o manifesto, pois, como veremos, os fenômenos estudados pelas ciências empírico-lógicas são processos material-semióticos (Haraway 1997).
Definir 'vida' é uma proposta de enorme complexidade uma vez que se refere a várias acepções multidimensionais, que podem designar tanto realidades superpostas como experiências distintas. Para 'simplificar' e seguir adiante, ancoro-me nas três noções propostas por Atlan (1991): 1) vida biológica, aquela estudada pela própria como ciência do específico em que a análise de cada nível de organização está assentado em propriedades particulares que permitem constituí-lo como objeto em que podem ser aplicados os protocolos científicos. Nestes tempos de biologia molecular, importa cada vez menos definir o que é vida, pois o seu objeto é físico-químico. O que está em questão, neste caso, é descobrir os mecanismos físico-químicos que dão conta das propriedades dos viventes (grandes funções fisiológicas, ciclos metabólicos, 'código' genético). O foco se dirige à manipulação das reações entre as macromoléculas com a denominada 'atividade biológica'; 2) vida humana, que não se reduz ao biológico. Ε uma vida de totalidades: a do todo de cada indivíduo em sua singularidade e das totalidades coletivas da dimensão sóciohistórica; 3) vida interior, aquela que permanece em aberto, lugar das produções fantasísticas, simbólicas, imagéticas, das metáforas e das narrativas constitutivas da idéia de si-próprio e das possibilidades criativas através das várias formas de arte.
Já no caso d'a vida como ela é', temos: 1) tentativa de dar um toque nelson rodrigueano, algo trágico, à discussão conceituai das disciplinas biocientíficas, em geral criticada como empolada, pomposa na forma e pobre de conteúdo para a vida nossa de cada dia. Se pensarmos em termos da disciplina epidemiológica, cujas preocupações centrais costumam ser de caráter pragmático e intervencionista, tal atividade pode ser vista como extemporânea, 'desvinculada' das prementes necessidades sanitárias das populações; 2) 'a vida como ela é' é uma forma livre de traduzir a expressão life itself, título de um livro de 1981 de Francis Crick, que juntamente com John Watson, formou a famosa dupla de bioquímicos que concebeu a dupla hélice do ADN. Esta expressão é explorada por Haraway (1997), que analisa como a natureza se torna biologia, a biologia se torna genética e, acrescento, as doenças nas populações se tornam epidemiologia. O todo é instrumentalizado mediante formas particulares que são representadas por meio de figurações.
Figurações consistem em 'imagens performativas' que habitamos e/ ou pelas quais somos habitados. Seguindo Haraway, figuras são tanto geométricas como retóricas (figuras de linguagem). São topos
e 6 tropos.
'Figurar' também significa contar, calcular (figure é também 'número' no idioma inglês...) e, ainda, estar numa história (se bem que como figurante). Em outras palavras, 'figurar' se refere a representar tanto gráfica e visualmente como linguisticamente. Todas as linguagens são feitas de tropos que organizam nossas narrativas e interpretações. As figuras que pertencem ao campo da representação gráfica e das formas visualizáveis não precisam ser miméticas, representacionais. Elas possuem dimensões trópicas, ou seja, envolvem desvios e deslocamentos que podem perturbar certezas e identificações. A questão crucial é saber quem possui o poder de produzir e difundir determinados tropos (metáforas e metonímias) em detrimento de outros através dos quais buscamos ordenar nossos mundos (Haraway 1997).
Vários aspectos da 'vida biológica' se apresentam como processos figurais, tanto materiais como semióticos, sob vários tipos e modalidades. Por exemplo: objetos como chip, gene, feto, raça, cérebro e ecossistema. Nos bancos de dados para os estudos da biologia molecular, matéria-prima para a criação desta 'vida como ela é', genes se tornam coisas em si, autotélicas e autoreferenciais (Haraway 1997).
Esta 'vida como ela é' é a vida que se empresaria, na qual espécies animais adquirem nomes-fantasia (vide o rato transgênico Oncomouse t m criado e comercializado pela Dupont para pesquisas genéticas sobre o câncer) e nomes próprios como a meiga ovelha Dolly. Em outras palavras, tais instâncias são submetidas a um processo chamado fetichismo, que se relaciona com 'interessantes enganos'. As vezes estes são prazerosos - do tipo m'engana que eu gosto - pois o fetichista 'sabe' que o objeto escolhido é um substituto. Na verdade, porém, eles consistem em negações, nas quais uma determinada construção, de início, 'representa' a outra, podendo chegar, até a ocupar o seu lugar.
Nas biociências, o fetichismo ocorre quando modelos explicativos (conceituais ou físicos), após sofrerem algumas operações, fazem com que a nossa 'construção do que há' substitua a entidade que representava, adquirindo 'vida própria', a vida em si, a vida como ela é.
Em outras palavras, tropos marca a qualidade figurada do ser e da linguagem. Há fetichismos próprios a mundos vistos como a-trópicos, sem tropos (estropiados?). Fetichismo do mapa: reificação que transmuta a vitalidade material, contingente, humana e não-humana em mapas da vida como ela é e, então, confunde o mapa e suas entidades reificadas pelo mundo não literal, supostamente 'real'. Como se diz, o mapa não é o território, mas alguns podem, para operá-los, tratá-los como se fosse. Esquecem eventualmente, no fragor dos empreendimentos de pesquisa, que lidamos com práticas simultaneamente materiais e semióticas (relativas a signos, símbolos e representações). Os fetiches literalizam e fazem as coisas parecerem claras e controláveis; ao omitirem desejos, propósitos e interesses, ensejam poderosos efeitos na formação de sujeitos e objetos.
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É preciso abordar agora a pertinência dos conteúdos teóricos e epistemológicos veiculados pela biologia molecular, cujos vínculos com a epidemiologia molecular (com ou sem aspas) são evidentes. Isto obrigatoriamente nos traz um problema. Como proceder a uma descrição equilibrada entre síntese e aprofundamento, sem cometer impropriedades ou negligenciar aspectos essenciais à disciplina, em especial se o ponto de vista do observador-intérprete está situado no campo epidemiológico? Pois bem (ou mal), se já chegamos até aqui, a alusão a (mais) dificuldades não deverá impedir a continuidade do exercício. O risco maior é o de espantar de vez os eventuais e compreensivos leitores e, talvez, estimular os críticos a prosseguirem para obter mais elementos para a sua posição...
O surgimento da biologia molecular (BM) como disciplina se deu pela fusão da química com a biologia, daí decorrendo a criação de técnicas e linguagem própria, cujo objeto são as macromoléculas biológicas (Atlan 1986). Há várias expressões com superposição de aspectos correlatos ao campo da ditaBM. Duas são mais evidentes: a biotecnologia e a engenharia genética. Em ambas aparece o vigor da dimensão técnica, regida por critérios de produtividade, aplicabilidade e eficácia. A própria origem do termo 'engenharia' provém da noção de 'engenhos': expedientes, habilidades, que permitem sobrepujar forças adversas.
No campo tecnológico, mais e mais produtos e processos de dupla face para o uso dos homens são concebidos pelos engenheiros cujo poder aparece no "grande rio da técnica, capaz, em seus transbordamen¬ tos, de fecundar as planícies adjacentes, tanto quanto de provocar nelas irremediáveis erosões, de arrastar aluviões e poluições, de aliviar o fardo dos homens e de submetê-los a novas obrigações, de elaborar uma competição que fabrique tanto 'vencedores' quanto excluídos, de desenvolver comunicações que permitem uma melhor 'comunhão' ao mesmo tempo em que multiplicam o número de 'ex-comungados'" (Lesgards 1994:11).
Este agudo diagnóstico de Lesgards vem acompanhado de uma afirmativa espantosa. Nunca os intelectuais que se propõem a pensar Ό que se passa' e a produzir reflexões a respeito do mundo circunjacente esti¬ veram tão defasados diante das modificações produzidas pelo vórtice tecnológico em curso. Isto possivelmente ocorre em virtude de os efeitos simultaneamente proliferativos e vertiginosos alterarem de modo inusitado nossas formas de ordenação do mundo, que subvertem as noções de tempo, espaço e identidade, assim como as relações com o corpo, o pensamento e a doença (idem).
Os engenhos biotecnológicos da atualidade demandam reflexão e estudo. Em nosso caso, as técnicas de manipulação dos viventes se mostram especialmente candentes em relação aos tópicos lesgardianos. Qual será nosso 'bioponto' de vista, como encarar e pensar as ciências biológicas na atualidade? Com quais instrumentos de análise e sob quais pressupostos epistemológicos? Sem dúvida estas são questões relevantes, todavia há um outro problema causado pelo fato de os engenheiros (genéticos ou não) estarem mais preocupados com coisas aparentemente mundanas: produzir com eficácia e disponibilizar o mais prontamente possível novos objetos (bio)técnicos.
Dito de outro modo, creio que devemos duvidar da percepção de que os atuais conceitos e instrumentos baseados em jogos de análise de linguagem e de símbolos são consistentes o suficiente para a "monitoração" e o entendimento do que ocorre no mundo tecnobiocientífico. Para fazê-lo, talvez seja necessário embrenharmo-nos nas 'biotecnicalidades' e procurarmos, à medida do possível, acompanhar sua incessante produção, mesmo sabendo que, nesta 'corrida', estamos em desvantagem. É bastante difícil levar a cabo intentos de decodificar, traduzir, entender e pensar, quase que simultaneamente, as repercussões multifárias do campo tecnobiocientífico, permanecendo distante dos centros de produção e/ou sem a capacitação técnica suficiente (e qual seria?) para tal empreendimento.
Em diferentes edições da Science, uma respeitada publicação de
divulgação científica7, foram apresentadas duas matérias que servem de ilustração a este respeito:
1) o reconhecimento (após duas décadas de sua formulação) da pertinência da teoria de Carl Woese acerca da existência de um domínio de seres vivos de uma só célula, diferentes de todos os demais unicelulares. Este novo ramo denominado Archaea (no qual se encontram os extremófilos, seres com valor biotecnológico que vivem em condições extremas de alta/baixa temperatura) alterou completamente a constituição da árvore evolucionária dos viventes com seus dois ramos consagrados: Bacteria e Eukarya (dos quais participamos em algum galho). Não importa abordar aqui os materiais e métodos de Woese em 1967, mas sim assinalar que seus achados foram confirmados pelas sofisticadas técnicas moleculares atuais. Na época da publicação do trabalho pelo Proceedings of the National Academy of Sciences, porém, foi-lhe negado
o reconhecimento. Woese era considerado introvertido e não participava dos eventos científicos das sociedades de microbiologia. Para alguns, era tido como 'maluco'. Em suma, seu artigo foi ignorado pelos microbiologistas de maior prestígio na ocasião (Morell 1997), o que não é explicável apenas pelas suas excentricidades. Eventos como estes não são incomuns. No campo da genética, por exemplo, é conhecida a falta de repercussão dos trabalhos seminais de Mendel. Os historiadores da genética assinalam que a publicação original de seus trabalhos ocorreu em uma revista pouco importante.
2) o recente surgimento de uma 'nova' subdisciplina: a genômica funcional (GF). Um campo previsível em termos lógicos, ainda mal definido, já é consideravelmente mencionado nos domínios especializados (Hieter & Boguski 1997). Pois bem, se o termo genoma (conjunto de genes e cromossomas de um organismo) foi cunhado há mais de 75 anos, a.genômica foi criada em 1986 para definir a disciplina responsável por seu mapeamento, sequenciamento e análise. Hoje a genômica já está subdividida em: estrutural, a transcrição completa dos mapas genéticos do ADN de um organismo; e funcional, a aplicação dos conhecimentos estruturais para o conhecimento das funções dos genes a partir de técnicas estatísticas e bioinformáticas. "A estratégia fundamental [...] seria expandir o alcance da investigação biológica do estudo de genes unitários ou proteínas para estudar todos os genes ou proteínas de uma só vez de modo sistemático. [...] A GF promete rapidamente diminuir a brecha entre sequência e função e proporcionar novos 'insights'no comportamento dos sistemas biológicos" (Hieter & Boguski 1997:601, nosso grifo).
Enfim, no artigo citado, há uma descrição de estudos (desde a completude de genomas de leveduras até abordagens gênicas para a detecção, diagnóstico, prognóstico e tratamento do câncer) que já poderiam ser incluídos sob esta nova 'rubrica' (Hieter & Boguski 1997). Será a 'genômica funcional' (ou já se constitui), a rigor, um campo importante e, assim, merecedor de nossos esforços para acompanhar suas produções? Já se cogita que a GF será a forma que o projeto genoma humano assumirá no decorrer do próximo milênio, após a fase descritiva/estru¬ rural (Morel 1997). Será cabível considerá-la agora tão-somente como um modismo transitório na espetacularização das tecnobiociências? Ou melhor (pior?): quanto de ambos?
São raras as situações rapidamente discerníveis em termos dicotômicos (preto/branco, quando o padrão costuma ser de tons de cinza). Como se fosse possível, a partir de uma análise no fragor dos acontecimentos, chegar a juízos conclusivos a respeito do surgimento de um campo disciplinar ou de uma descoberta. Em geral, não é possível perceber em pouco tempo as inocuidades (que geram as aspas) de um achado como a fusão a frio, que se mostrou apenas um equívoco já relegado ao passado. De todo modo, são fortes os indícios da relevância da genômica funcional. Para a pergunta "será possível algum dia 'estudar todos os genes ou proteínas de uma só vez' no ser humano e dimensionar seus efeitos" a resposta mais sensata é inconclusiva: talvez seja...
Estas ilustrações têm a função de indicar as grandes dificuldades atuais para estar tanto up to date, como seguro da pertinência dos achados apresentados pelas principais publicações de um determinado campo e suas interseções. Temo ser este o panorama que se descortina: as grandes probabilidades de transbordamento de nossas capacidades de acompanhar e compreender minuciosamente o que é produzido em nossas áreas de interesse. Há uma pletora de informações...
Sejamos otimistas. Algumas questões são passíveis de tratamentos particulares, de sorte a eventualmente proporcionarem encaminhamentos para lidar com determinados problemas. Seguindo a linha de pensamento de Lesgards, Sheps e Tarnero, vale a pena reproduzir a argumentação desenvolvida por Gilbert Hottois: "o que caracteriza a ciência moderna é a ruptura com o discurso simbólico e o saber especulativo metalinguístico. Nem a técnica, nem a matemática são da ordem da linguagem. [...] Instalam-se jogos que não são novos jogos de linguagem, mesmo se a linguagem não é totalmente excluída e interfere frequentemente [...]. No interior destes novos jogos [...] as coisas não são decididas pela conversação, mas pelo cálculo (operado cada vez mais por computadores) e pelas trocas tecnofísicas, eficazes ou não" (Hottois 1994:63). Nesta perspectiva, parece frutífero estudar o conceito de informação.
Em busca da informação
Segundo Jorge, é possível postular três conceitos fundamentais para a chamada biologia molecular: informação, adaptação e auto-organização (ou autopoiese) (Jorge 1993). Acredito não ser despropositado incluir: evolução e seleção natural. Como veremos, a noção de informação possui particular importância e será o objeto de nossa atenção.
Em geral, os estudiosos estabelecem momentos inaugurais. No caso do surgimento da idéia de informação como elemento quantificável, as referências tendem a convergir para a obra clássica de Shannon e Weaver Mathematical theory of communication, de 1949. Nela, os referidos pesquisadores desenvolveram teoricamente a medida da quantidade de informação de uma mensagem veiculada por uma via comunicacional a partir da noção e das formas de tratamento matemático dos dígitos binᬠrios (binary digit ou simplesmente bit), unidade de informação básica para o funcionamento de sistemas computacionais e das formas de calcular e determinar a capacidade de armazenamento destes elementos com fins de processamento e transmissão.
Em outros termos, se computar é operar sobre símbolos, os bits se constituem nas unidades (desprovidas de significado) destes símbolos que permitem tais operações, hoje algo bastante trivial para qualquer iniciante nas artes informáticas. Porém estes eram os primórdios da cibernética (considerada atualmente como de primeira ordem), disciplina cujo texto seminal de Norbert Wiener "Cybernetics" foi publicado em 1948 e que trabalharia as 'informações' para dar-lhes a configuração de 'programas'.
Como o conceito calculável de informação com altos teores matemáticos, estatísticos e cibernéticos se estende para a biologia molecular? Maria M. A. Jorge (1993) e J-P. Dupuy (1995) traçam esta passagem de modo similar. Para ela, a 'infraestrutura intelectual da biologia molecular' se localiza na postulação de uma complementaridade entre a física e a genética proposta por Niels Bohr e desenvolvida por um de seus discípulos Max Delbrück. Na década de 1940, no decorrer dos estudos de seu grupo sobre os bacteriófagos, estava convencido de que o gene era uma molécula entendida sob o enfoque da física quântica, embora parecesse haver um princípio de incerteza biológico que dificultava o entendimento das minúcias genéticas. A aproximação entre as duas disciplinas ocorreria pela descoberta de novas leis na física (Jorge 1993).
As idéias trazidas pela teoria comunicacional da informação e de regulação por feedback serviram inicialmente como um novo 'jogo de linguagem' para abordar os fenômenos da hereditariedade/genética. Surgem então conceitos e termos como: informação, programa, código, mensagem, tradução e transcrição.
Em 1944, Erwin Schrödinger, outro físico, indagou (sob o formato de um livro) "o que é vida?" e apontou que uma possível resposta acerca dos mecanismos da hereditariedade e da genética deveria provir de leis físicas (Dupuy 1995).
Fox-Keller (1995) assinala que foi Schrödinger quem trouxe a noção de cromossoma como script-código. Para esta autora, bióloga e histriadora das ciências, a própria expressão informação, com fortes conotações metafóricas desde que foi explorada nos anos 1950 pelos descobridores da dupla hélice do ADN, confluiu em direção à idéia de instrução. Fox-Keller mostra a evolução do conceito no século X X e como o sentido originário da teoria da informação não foi mantido na descrição do funcionamento dos ácidos nucleicos na síntese protéica. Mais ainda: esta perspectiva tornou o código genético um tipo de 'mensagem' (vide ARN mensageiro) que assume a forma de 'ordens'. Hoje, tendem a predominar os pontos de vista que consideram os genes como causa, máquinas como organismos e organismos como mensagens. É essencial ter clareza que toda a linguagem é, além de descritiva, 'performativa', ou seja, socialmente construída e dependente do contexto. Ela deve, portanto, ser avaliada em sua efetividade e não sob critérios de verdadeiro e falso (Fox-Keller 1995).
Segundo Jorge (1993), pode-se classificar as biologias moleculares em duas vertentes fundamentais (com áreas intermediárias): 1) a 'oficial', com base em uma idéia de 'ordem a partir da ordem', na qual o vivente resulta de processos estáveis de construção ordenada, por repetição regular, invariante, de tal sorte que, cedo ou tarde, tais mecanismos serão descobertos (o projeto genoma humano parece se alimentar desta perspectiva); 2) a 'outra', cuja idéia central é a de Ordem a partir da desordem' (ou ruído) em que o imprevisível, o aleatório, a instabilidade, as bifurcações e o imponderável são primordiais para a gênese do vivente.
A nosso ver, em termos quiçá simplistas, há situações em que ambas podem ter suas razões (em um exemplo antes referido, a primeira funciona bem com formas virais, bacterianas e correlatas, ao passo que a segunda se mostra mais condizente com a experiência humana). Eis-nos diante do recorrente problema de dimensionar as proporções de nature-inato/ nurture-adquirido na constituição dos vários seres vivos, isto sem adentrar em outro recorrente, e mais espinhoso, terreno de definir quais seres possuem ou não mentes.
Por fim, importa enfatizar, ainda com Jorge (1993), que o vigor atual da idéia de informação pode ser atribuído ao fato de esta servir tanto à vertente molecular da ordem (neomecanicismo) como à da desordem (neovitalismo). No primeiro caso, tal idéia está ligada aos cálculos e ao processamento de unidades ditas informacionais (como bits), aplicadas ao campo da bioinformática, Se a vida é informação - esta é a hipótese da biologia molecular Ordeira' - então os viventes podem ser explicados por seus conteúdos de
informação algorítmica 8 (CIA) (Gell-Mann 1996).
Nesta ótica, a complexidade dos sistemas biológicos pode ser dimensionável, computável e sobretudo suscetível de manipulações. Esta é a posição do filósofo neodarwinista Daniel Dennett, que considera a evolução por seleção natural como um processo algorítmico levado a cabo no registro molecular dos ácidos nucleicos. Para ele, a "perigosa idéia de Darwin" se vincula ao fato de ser "o 'nível algorítmico' aquele que melhor explica (accounts for) a velocidade do antílope, a asa da águia, a forma da orquídea, a diversidade das espécies [...]" (Dennett 1995:59), mesmo sem ter a obrigação de produzir tais características (e, por extensão, sem ter a necessidade de chegar até nós). O funcionamento neuronal e os sistemas cibernéticos chamados analogicamente de redes neurais também obedeceriam a regras algorítmicas e, portanto, seriam inteligíveis (modelizáveis) a partir do ponto de vista de um neo¬ mecanicismo computacional.
Entretanto tal fisicalização computacional do humano a partir de uma idéia de "informação fria e calculista", armazenável, manipulável e controlável foi contraposta pelo movimento chamado de cibernética de segunda ordem, capitaneado por Heinz von Foerster (1991). Ele, um físico nascido em Viena, foi um dos precursores da noção de informação como elemento responsável pelos fenômenos da auto-organização dos organismos viventes. Em sua concepção, estes trabalham a informação em processos recursivos, autônomos e auto-referentes; a organização de si próprios e da "realidade" se dá em círculos infinitos, numa associação entre a informação, a vida e o conhecimento. No ser humano, isto ocorre em razão da especificidade de sua mente, que permite ser ciente da própria ciência, ou seja, de operar com ciência (raiz etimológica de consciência).
Tais proposições aproximaram a cibernética, a biologia, a ontologia e a epistemologia no sentido tanto das perguntas sobre o conhecer como das possíveis respostas ao problema do conhecimento. A cibernética se voltava para si própria e propunha como suas questões o que seriam o existir, o conhecer e suas decorrências quanto ao observador-sujeito (quem conhece?) e ao observado-objeto (o que é o conhecido?) (von Foerster 1991).
Um dos riscos desta ótica, porém, é o de cair em um neovitalismo redução do biológico ao psíquico/mental - que possuiria propriedades cognoscentes particulares. Tais propriedades originar-se-iam de modelos 'complexológicos' emergentes, "cujo interesse está em fazer compreender como se produzem estruturas e funções que desempenham o papel de criações de significado aos olhos de um observador objetivo. A partir daí, confunde-se estes modelos com a experiência imediata e singular de nossa subjetividade. [...] Confundimos a forma de criatividade que percebemos e descrevemos em certos fenômenos naturais com a criatividade de nosso espírito" (Atlan 1991:110).
Em geral, quando abordamos fenômenos evolutivos em macromoléculas e aí aplicamos noções informacionais, procedemos a transposições analógicas/metafóricas ('nomadismo') de conceitos entre ordens de organização distintas.
Isto, seja afirmando que: a) a evolução se dá por seleção natural no nível (molecular) dos conteúdos de informação algorítmica, crença que gera os chamados fetichistas do gene, aqueles que acreditam no gene como uma entidade exclusivamente material, detentora de uma ação causal de cunho fortemente determinista, uma coisa em si, e na genômica, como o cálice sagrado, o livro dos livros, o código dos códigos. Como vimos, os fetiches proporcionam por substituição uma concretude ao genoma com finalidades operativas. Eles têm a função de fazer as coisas parecerem bem delimitadas e controláveis, algo que eventualmente é possível conceber, mas que sobretudo permite operar. Em muitas circunstâncias, contudo, esta proposição é insustentável, pois a 'realidade' do genoma é "simultaneamente semiótica, institucional, maquínica, orgânica e bioquímica" (Haraway 1997:99), portanto, dependente do contexto e de difícil controle/previsão; b) os sistemas biológicos resultam dos modos com os quais organismos trocam 'informação' com seus meios e nós sujeitos-observadores os estudamos como objetos-observados na forma de acoplamentos, sob as premissas de que intercambiar/processar informação é conhecer, que, por sua vez, é viver.
Ora, no humano, viver é mais do que conhecer, que é mais do que processar informação. Na atualidade, porém, " 'Vida', materializada como informação e tornada signo pelo gene, desloca 'Natureza', proeminentemente encarnada e tornada signo pelos superados (old-fashioned) organismos" (Haraway 1997:134). A propósito, a particular verve de Dennett (1997) serve para, inadvertidamente, ilustrar com nitidez este deslocamento. O filósofo norte-americano chega a chamar o processo de evolução por seleção natural de Mãe natureza. Aparentemente esta mãe desnaturada rejeitou tanto o reino mineral (e seus sismos e vulcões) como os fenômenos meteorológicos de seu seio...
Enfim, sob pena de sustentar encaminhamentos conceituais no mínimo problemáticos em seus desdobramentos ideológicos e em suas repercussões socioculturais, é essencial designar a informação como potencialidade constitutiva do conhecimento. Este sim ocorre mediante a ordenação/integração de diversos elementos (in)formativos. São inegáveis as pressões discursivas racionalizantes da epidemiologia (atual/ futura) através de seus modelos científicos de inteligibilidade. Mas, em vez de tomá-las como verdades incondicionais, inescapáveis, é essencial divisar, no interior destas propostas de conhecimento, as premissas e vicissitudes da constituição de seus elementos para nossos saberes e intervenções em saúde. Mais ainda, suas funções nas possíveis interpretações e criações idiossincráticas de sentidos para a vida (como ela for...) de cada um de nós.
1 Este texto consiste em uma versão revisada e ampliada do artigo "The next millenium and epidemiology: searching for information", Cadernos de Saúde Pública 14(4): 1998, 756-78.
2 Não se pode falar de complexidade quando lidamos com objetos históricos. Tal idéia se aplica com mais pertinência a sistemas biológicos. Se fatores gerais podem, retrospectivamente, auxiliar no conhecimento da história de uma região, não se pode, todavia, saber tal história a partir de tais fatores (Stengers 1997).
3 O 'cal(i)' provém do grego kállos, ou seja, relativo ao 'belo'; daí caligrafia (Ferreira, 1986).
4 É possível perceber ao nosso redor algo que poderia ser chamado de 'especialização não-acadêmica', isto é, há práticas e esferas de atividade fora do âmbito laborai/ produtivo com jargões próprios e correspondentes graus de expertise. Veja-se, por exemplo, no diversificado campo de consumo de lazer, os graus de especialização presentes em aficionados em informática, em determinados hobbies ou em diversas práticas desportivas. Sob tais contingências, as acepções semânticas dos domínios acadêmicos "transbordam" para o "senso comum" (que, por sua vez, deixa de ser tão comum...). Nesse sentido, ocorre uma modalização do significado científico de 'modelo' como réplica no campo da 'especialização pública', no qual há, por exemplo, os aeromodelos. Da mesma forma, isto ocorre com jogos de computador, nos quais existem os programas de 'simulação' em que o 'engano' é assumido como constituinte da proposta, por exemplo, no controle de aeronaves ou na visualização virtualizada de situações de perseguição a criminosos. É claro que estes simuladores também existem como forma de treinamento/aperfeiçoamento para profissionais dos respectivos setores.
5 O uso cauteloso do verbo 'parecer' se deve à intenção de não adentrar em discussões anímicas de caráter teológico. Aliás, vale assinalar como Lévy nos conduz para questões deste tipo.
6 Em grego, tropo quer dizer desvio, mudança de direção. Vide o heliotropismo do girassol.
7 Foi nesta revista que de surgiram as primeiras dúvidas quanto à fidedignidade do experimento que produziu Dolly, cujo trabalho original havia sido publicado na Nature. Ambas se constituem nos dias de hoje, é importante dizê-lo, uma freqüente fonte de consulta para as colunas de saúde, ciência e tecnologia da imprensa leiga.
8 Entenda-se algoritmo aqui, a partir da máquina conceituai de computação de Alan Turing, como "seqüências determinadas de instruções lógico-matemáticas orientadas numa direção especificada" (Atlan 1991:217) ou, mais simplificadamente, como uma regra (ou conjunto de regras - programa) para calcular/computar alguma coisa (Gell-Mann 1996).