A Noiva Jovem

Alessandro Baricco · Capítulo 1 de 1 · parte 1/6

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A Noiva Jovem

A Noiva jovem

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 6 partes.

Para Samuele, Sebastiano e Barbara.

Obrigado.

Os degraus a subir são trinta e seis, trinta e seis degraus de pedra, que o velho sobe devagar, com circunspecção, como se recolhesse um a um para conduzi-los ao primeiro andar: ele pastor, eles animais mansos. Modesto é o seu nome. Serve naquela casa há cinquenta e nove anos, portanto é o sacerdote dali.

Ao chegar ao último degrau, detém-se diante do largo corredor que se alonga sem surpresas ante seu olhar: à direita os quartos fechados dos Senhores, cinco; à esquerda sete janelas, escurecidas por folhas cegas de madeira laqueada.

Está quase amanhecendo.

Detém-se, o velho, porque precisa atualizar a contagem. Registra as manhãs que anunciou naquela casa, sempre do mesmo modo. Então acrescenta uma unidade que se perde para além dos milhares. A conta é vertiginosa, mas isso não o perturba: o fato de celebrar desde sempre o mesmo rito matutino lhe parece coerente com seu ofício, respeitoso às suas inclinações e típico do seu destino.

Depois de passar a palma das mãos no tecido engomado da calça — nos flancos, à altura das coxas —, avança a cabeça um pouquinho e recomeça a caminhar. Ignora as portas dos Senhores, mas, diante da primeira janela, à esquerda, detém-se para abrir as folhas cegas. Faz isso com gestos suaves e calculados. Repete os movimentos em cada janela, sete vezes. Só então se volta, para contemplar a luz da alvorada que entra em feixes, pelas vidraças: conhece todas as possíveis nuances e, pelo aspecto, sabe como será o dia: pode deduzir daí, às vezes, esbatidas promessas. Já que confiarão nele — todos —, é importante a opinião que vai formular.

Sol encoberto, brisa leve, decide. Assim será.

Então percorre de volta o corredor, dessa vez dedicando-se à parede ignorada antes. Abre as portas dos Senhores, uma a uma, e anuncia em voz alta que já é dia, com uma frase que repete cinco vezes, sem modificar nem o timbre nem a inflexão.

Bom dia. Sol encoberto, brisa leve.

Depois desaparece.

Deixa de existir até reaparecer, inalterado, na sala dos desjejuns.

 

De velhos acontecimentos de que por enquanto se preferem ignorar os detalhes vem o costume de despertar tão solene, que depois se torna festivo e prolongado. Abrange a casa inteira. Nunca antes do amanhecer, isso é lei. Esperam a luz e a dança de Modesto nas sete janelas. Só então consideram terminadas a condenação ao leito, a cegueira do sono e a aposta dos sonhos. Mortos, são devolvidos à vida pela voz do velho.

Então debandam para fora dos quartos, sem jogar uma roupa sobre o corpo, nem sequer passando pelo alívio de um pouco d’água nos olhos, nas mãos. Com os odores do sono entre os cabelos e nos dentes, nos cruzamos nos corredores, pela escada, na saída dos quartos, trocando um abraço como exilados de volta a alguma terra longínqua, incrédulos por havermos escapado àquele encantamento que a noite nos parece. Dispersados pelo sono obrigatório, voltamos a formar uma família e desembocamos no térreo, na grande sala dos desjejuns, como um rio cárstico que agora sobe à superfície, pressagiando o mar. Quase sempre fazemos isso rindo.

De fato, um mar preparado para refeições: é isso a mesa dos desjejuns — termo que ninguém jamais pensou em usar no singular, porque somente um plural pode restituir a riqueza, a abundância e a irrazoável duração. É evidente o sentido pagão de agradecimento — a calamidade a que todos escaparam, o sono. Por cima de tudo vela o imperceptível deslizar de Modesto e de dois copeiros. Em um dia normal, nem de quaresma nem de festa, o cardápio corriqueiro oferece torradas de pão branco e preto, bolinhas de manteiga em bandejinhas de prata, geleia de nove frutas, mel e doce de castanhas, oito tipos de pastelaria que culminam em um croissant inigualável, quatro tortas com coberturas diferentes, taça de creme batido, frutas da estação sempre cortadas com geométrica simetria, exposição de raros frutos exóticos, ovos do dia oferecidos em três tipos de cozimento, queijos frescos mais um queijo inglês chamado Stilton, presunto artesanal em fatias finas, cubinhos de mortadela, consommé de porco, frutas cozidas em vinho tinto, biscoitos de sorgo, pastilhas digestivas de anis, cerejinhas de marzipã, sorvete de avelã, um bule de chocolate quente, pralinas suíças, balas de alcaçuz, amendoim, leite, café.

O chá é detestado. A camomila, reservada aos doentes.

Pode-se então compreender como, naquela casa, um repasto considerado em geral uma veloz arrancada para iniciar o dia seja, ao contrário, um processo complexo e interminável. A praxe quer todos à mesa durante horas, até invadir o momento do almoço, que de fato naquela casa nunca se consegue fazer, como uma imitação itálica do brunch, mais prestigioso. Só aqui e ali, de vez em quando, alguns se levantam para em seguida reaparecer à mesa parcialmente vestidos, ou lavados — as bexigas esvaziadas. Mas são detalhes que mal se percebem. Porque à grande mesa, convém dizer, chegam os visitantes do dia, parentes, conhecidos, postulantes, fornecedores, eventuais autoridades, homens e mulheres de igreja: cada um com seu assunto. A Família tem costume de receber as visitas ali, na corrente do torrencial desjejum, por uma forma de exibida informalidade que ninguém, nem mesmo eles, seria capaz de distinguir do máximo da arrogância, ou seja, receber de pijama as pessoas. De qualquer modo, o frescor da manteiga e o lendário ponto de cozimento das crostatas predispõem à cordialidade. O champanhe sempre no gelo, e oferecido com generosidade, basta para motivar a presença de muitos.

Por isso, em torno da mesa dos desjejuns não é raro ver dezenas de pessoas reunidas, embora sejam apenas cinco da família, na realidade quatro, agora que o Filho homem está na Ilha.

O Pai, a Mãe, a Filha, o Tio.

Temporariamente no exterior, na Ilha, o Filho homem.

Retiram-se finalmente para seus quartos por volta das três da tarde e reaparecem dali meia hora, esplêndidos de elegância e frescor, como todos reconhecem. As horas centrais da tarde as consagramos aos negócios — a fábrica, as chácaras, a casa. Ao escurecer, o trabalho solitário — medita-se, inventa-se, reza-se — ou as visitas de cortesia. O jantar é tardio e frugal, consumado esparsamente, sem solenidade: já se abriga sob a asa da noite, então tendemos a suprimi-lo, como um inútil preâmbulo. Sem nos despedirmos, em seguida nos entregamos à incógnita do sono, exorcizando-a cada um a seu modo.

De cento e treze anos para cá, convém dizer, todos em nossa família morreram de noite.

Isso explica tudo.

 

Naquela manhã, em particular, o assunto era a utilidade dos banhos de mar, sobre os quais o Monsenhor, lambuzando-se de creme batido, alimentava reservas. Intuía neles alguma evidente incógnita moral, sem contudo ousar defini-la com exatidão.

O Pai, homem bonachão e, dependendo, feroz, o ajudava a entender a coisa.

— Por gentileza, Monsenhor, me recorde precisamente de onde isso está dito no Evangelho.

Serviu de contrapartida à resposta, evasiva, a campainha da entrada, à qual todos dedicaram moderada atenção, tratando-se obviamente da enésima visita.

Disso ocupava-se Modesto, que nesse ínterim foi abrir a porta. Encontrou diante de si a Noiva jovem.

Não era esperada para aquele dia, ou talvez sim, mas eles tinham esquecido.

Sou a Noiva jovem, informei.

Ah, a senhora, anotou Modesto. Depois olhou ao redor, espantado, porque não era razoável que eu chegasse sozinha, mas não havia mais ninguém, a perder de vista.

Deixaram-me no final da alameda, expliquei, eu queria contar os meus passos em paz. E pousei a mala no chão.

Eu tinha, como havia sido combinado, dezoito anos.

Na verdade, eu não teria nenhuma reserva a me mostrar nua na praia — estava enunciando enquanto isso a Mãe —, porque sempre tive certa inclinação pela montanha (muitos dos seus silogismos eram de fato imperscrutáveis). Eu poderia citar ao menos dez pessoas que vi nuas, prosseguia, e não estou falando de crianças ou de velhos moribundos, por quem tenho no fundo certa compreensão, ainda que…

Interrompeu-se quando a Noiva jovem entrou na sala, não tanto porque a Noiva jovem tivesse entrado na sala, mas porque fora introduzida por um alarmante pigarro de Modesto. Talvez eu não tenha mencionado que, em cinquenta e nove anos de serviço, o velho havia elaborado um sistema comunicativo laríngeo que todos na família aprenderam a decifrar como se fosse uma escrita cuneiforme. Evitando recorrer à violência das palavras, um pigarro — ou raramente dois, nas mais articuladas formas — complementava seus gestos como um sufixo que esclarecia o significado. À mesa, por exemplo, Modesto não servia um só prato sem acompanhá-lo com uma elucidação da epiglote à qual conferia seu próprio julgamento personalíssimo. Naquela específica circunstância, ele introduziu a Noiva jovem com um sibilo apenas insinuado, longínquo. Indicava, como todos sabiam, um altíssimo nível de vigilância, e por essa razão a Mãe se interrompeu, coisa que não costumava fazer, pois em uma situação normal anunciar-lhe um convidado não era diferente de servir-lhe água no copo — com calma, ela beberia depois. Interrompeu-se, então, voltando-se para a recém-chegada. Percebeu como era nova e, com um automatismo de classe, disse

— Meu bem!

Não fazia a mínima ideia de quem fosse.

Depois deve ter se aberto uma fresta em sua mente tradicionalmente desordenada, porque ela perguntou

— Estamos em que mês?

Alguém respondeu Maio, provavelmente o Farmacêutico, a quem o champanhe tornava insolitamente preciso.

Então a Mãe repetiu Meu bem!, mas desta vez consciente do que dizia.

É incrível como maio chegou depressa, este ano, estava pensando.

A Noiva jovem fez uma reverência.

 

Haviam esquecido, só isso. Cada coisa era combinada, mas já fazia tanto tempo que o registro preciso daquilo acabara se perdendo. Não se devia deduzir daí que eles tivessem mudado de ideia: em todo caso, seria cansativo demais. Uma vez decidido algo naquela casa, não se mudava nunca, por evidentes razões de economia das emoções. Simplesmente o tempo havia passado com uma velocidade que eles não tiveram a necessidade de registrar, e agora a Noiva jovem estava ali, provavelmente para fazer aquilo que fora combinado de longa data, com aprovação oficial de todos: desposar o Filho.

Era perturbador admitir que, como demonstravam os fatos, o Filho não estava.

Não pareceu urgente, porém, demorar-se sobre esse detalhe, e assim as pessoas se dedicaram sem hesitações a um alegre coro de acolhida geral, variadamente permeado de surpresa, alívio e gratidão, esta última pelo andar das coisas da vida, que parecia indiferente às distrações humanas.

Uma vez que já comecei a contar esta história (e isso apesar da desconcertante série de vicissitudes que me atingiu e que não recomendaria semelhante iniciativa), não posso evitar esclarecer a geometria dos fatos, tal como vou recordando pouco a pouco, anotando por exemplo que o Filho e a Noiva jovem se conheceram quando ela tinha quinze anos e ele dezoito, terminando por gradativamente identificar, um na outra, um magnífico remédio contra as indecisões do coração e o tédio da juventude. Agora é prematuro explicar por qual singular percurso, mas é importante saber que um tanto depressa chegaram à feliz conclusão de que queriam se casar. Às respectivas famílias a coisa pareceu incompreensível, por motivos que eu talvez consiga esclarecer se a mordida desta tristeza acabar afrouxando a preensão: mas a singular personalidade do Filho, que mais cedo ou mais tarde me animarei a descrever, e a límpida determinação da Noiva jovem, que eu gostaria de ter lucidez para transmitir à posteridade, sugerem certa prudência. Combinou-se que era melhor contemporizar e passou-se a desatar alguns nós técnicos, o primeiro deles o não perfeito alinhamento das respectivas posições sociais. Convém lembrar que a Noiva jovem era a única filha mulher de um abastado pecuarista que ostentava cinco filhos homens, ao passo que o Filho fazia parte de uma família que havia três gerações colhia lucros na produção e no comércio de lãs e tecidos de certa qualidade. Não faltava dinheiro nem de um lado nem de outro, mas indubitavelmente eram patrimônios de natureza diferente: um, oriundo de teares e antigas elegâncias, outro do estrume e de labutas atávicas. A coisa produziu uma esgarçadura de pacata indecisão que afinal foi superada de chofre, quando o Pai comunicou com solenidade que o casamento entre a riqueza agrária e a finança industrial representava o desenvolvimento natural do empreendedorismo do Norte, traçando uma clara via de transformação para todo o País. Disso ele deduzia a necessidade de superar esquematismos sociais que àquela altura pertenciam ao passado. Como o Pai formalizou a coisa nesses termos precisos, mas lubrificando a sequência com algumas bem colocadas blasfêmias, a argumentação pareceu a todos convincente, em seu irrepreensível misto de racionalidade e veraz instinto. Decidimos esperar apenas que a Noiva jovem ficasse um pouco menos jovem: convinha evitar possíveis comparações entre um matrimônio tão bem ponderado e certas uniões de camponeses, apressadas e vagamente animais. Esperar, além de ser de indubitável comodidade, pareceu-nos a certificação de uma atitude moral superior. O clero local não tardou a assentir, esquecido das blasfêmias.

Portanto, os dois se casariam.

Já que estou neste ponto, e visto que esta noite me sinto invadido por certa leveza ilógica, talvez induzida pelas melancólicas luzes deste aposento que me emprestaram, disponho-me a acrescentar algo a propósito do que aconteceu pouco depois do anúncio do noivado, por iniciativa, surpreendente, do pai da Noiva jovem. Era um homem taciturno, talvez bom a seu modo, mas também impetuoso, ou inesperado, como se a excessiva proximidade com certos animais de trabalho lhe tivesse transmitido um traço de inócua imprevisibilidade. Um dia comunicou em escassas palavras que havia decidido tentar uma apoteose definitiva dos seus negócios emigrando para a Argentina, a fim de conquistar pastos e mercados que estudara em todos os detalhes durante tediosíssimos serões invernais assediados pela névoa. Os conhecidos, vagamente perplexos, decidiram que a uma tal determinação não deviam ser estranhas a interposta frieza do leito conjugal, talvez certa ilusão de juventude tardia, provavelmente uma suspeita infantil de horizontes infinitos. Ele transpôs o oceano com três filhos homens, por necessidade, e com a Noiva jovem, por consolo. Deixou a mulher e os outros filhos cuidando da terra, prometendo-se mandar buscá-los caso as coisas tomassem o rumo certo, o que de fato ele fez mais tarde, um ano depois, até mesmo vendendo todas as suas propriedades na terra natal e apostando o patrimônio inteiro em mesas de jogo nos pampas. De qualquer modo, antes de partir visitou o Pai do Filho e confirmou, empenhando a palavra, que a Noiva jovem se apresentaria quando aflorassem seus dezoito anos, a fim de cumprir a promessa de casamento. Os dois homens trocaram um aperto de mão, em um gesto que por aquelas paragens era sagrado.

Quanto aos dois noivos, despediram-se tranquilos por fora e desnorteados por dentro: tinham, devo dizer, boas razões para estar uma coisa e outra.

Zarpados os pecuaristas, o Pai passou alguns dias em um silêncio para ele incomum, negligenciando práticas e hábitos que considerava imprescindíveis. Algumas de suas decisões mais inesquecíveis haviam nascido de semelhantes ausências, motivo pelo qual toda a Família estava resignada a grandes novidades quando enfim o Pai se pronunciou de modo breve mas claríssimo. Disse que cada um tinha a sua Argentina, e que para eles, líderes do setor têxtil, a Argentina se chamava Inglaterra. De fato, desde algum tempo antes, observavam-se além da Mancha certas fábricas que otimizavam de modo surpreendente a linha de produção: nas entrelinhas, intuíam-se lucros de enlouquecer. Convém ir ver, disse o pai, e se for o caso copiar. Em seguida virou-se para o Filho.

Irá você, agora que se arranjou, disse, trapaceando um pouco sobre os termos da questão.

E então o Filho partiu, até feliz, com a missão de estudar os segredos ingleses e de registrá-los da melhor maneira, para a futura prosperidade da Família. Ninguém esperava seu retorno no decorrer de algumas semanas, e em seguida ninguém percebeu que ele não estava voltando nem mesmo depois de alguns meses. Mas eram assim, ignoravam a sucessão dos dias, porque se propunham a viver um só, perfeito, repetido ao infinito: por conseguinte, o tempo era para eles um fenômeno de contornos lábeis, que ressoava em suas vidas como uma língua estrangeira.

Todas as manhãs, o Filho nos mandava da Inglaterra um telegrama, de texto imutável: Tudo bem. Pretendia referir-se, obviamente, à insídia da noite. Era a única notícia que em casa desejávamos saber de verdade: quanto ao resto, seria muito cansativo para nós duvidar de que o Filho pudesse fazer outra coisa, naquela prolongada ausência, além do próprio dever, atenuado no máximo por alguma amena distração invejável. Evidentemente, havia inúmeras fábricas inglesas, que mereciam análises aprofundadas. Paramos de esperá-lo, até porque ele voltaria.

Mas a Noiva jovem voltou primeiro.

 

Deixe-nos ver você, disse a Mãe, radiante, uma vez recomposta a mesa.

Todos a olharam.

Percebiam uma nuance que não saberiam definir.

Expressou-a o Tio, despertando do sono em que estava mergulhado havia algum tempo, reclinado numa poltrona — um cálice de champanhe, cheio até a borda, entre os dedos.

Deve ter dançado muito, senhorita, lá onde se encontrava. Isso me alegra.

Em seguida bebeu um gole de champanhe e voltou a adormecer.

A figura do Tio era figura grata e insubstituível, na família. Uma síndrome misteriosa, de que era a única vítima conhecida, mantinha-o pregado em um sono perene do qual saía por brevíssimos intervalos, com o único objetivo de participar da conversa com uma pontualidade que todos já nos tínhamos habituado a considerar óbvia, mas que, ao contrário, era evidentemente ilógica. Alguma coisa nele era capaz de registrar, mesmo no sono, qualquer acontecimento e qualquer palavra. Ou melhor, o fato de vir de outra parte muitas vezes parecia lhe conferir tal lucidez, ou um olhar tão singular sobre as coisas, que dotava seus despertares, e as respectivas externalizações, de uma ressonância quase oracular, profética. Aquilo nos tranquilizava muito, porque sabíamos poder contar a qualquer momento com a reserva de uma mente a tal ponto repousada que podia desatar com perfeição qualquer nó que se apresentasse no raciocínio familiar ou na convivência cotidiana. Ademais, não nos desagradava o estupor dos estranhos diante daquelas proezas singulares, detalhe que dava à nossa casa mais um motivo de atração. Quando voltavam às suas famílias, não raro os convidados levavam consigo a lendária lembrança desse homem que podia, dormindo, deter-se em gestos até mesmo complexos, dos quais segurar um cálice de champanhe cheio até a borda era só um pálido exemplo. Ele podia, durante o sono, fazer a barba, e não raro havia sido visto tocando piano enquanto dormia, embora retardando ligeiramente os tempos. Não faltava quem afirmasse tê-lo visto jogar tênis completamente adormecido: ao que parece, só despertava nas trocas de lado. Conto isso por dever de cronista, mas também porque hoje me pareceu vislumbrar uma coerência em tudo o que está me acontecendo, e portanto de umas horas para cá me é simples ouvir sons que de outro modo, no desconforto do aturdimento, se tornam inaudíveis: por exemplo o tilintar da vida, muitas vezes, sobre a mesa de mármore do tempo, como o de pérolas caindo. O fato de ser bufão dos viventes — esta circunstância particular.

Isto mesmo, sim, vocês devem ter dançado muito, confirmou a Mãe, eu não saberia como dizer melhor, e por outro lado jamais gostei de tortas de frutas (muitos dos seus silogismos eram de fato imperscrutáveis).

Tangos? inquiriu perturbado o tabelião Bertini, para quem pronunciar a palavra Tango já trazia em si algo de sexual.

Tangos? Argentina? Com aquele clima? perguntou a Mãe, mas não se compreendeu a quem.

Posso lhe assegurar que o tango é de origem claramente argentina, teimou o tabelião.

Então se ouviu a voz da Noiva jovem.

Vivi três anos nos pampas. Nosso vizinho ficava a dois dias de cavalo. Uma vez por mês, um padre nos trazia a Eucaristia. Uma vez por ano fazíamos uma viagem para Buenos Aires, pensando em assistir à Abertura da Temporada de Ópera. Mas nunca chegamos a tempo. Era sempre muito mais longe do que imaginávamos.

Definitivamente, pouco prático, observou a Mãe. Como seu pai pretendia lhe arranjar um marido, desse jeito?

Alguém lembrou que a Noiva jovem estava prometida ao Filho.

É óbvio, acham que não sei? Fiz só uma observação geral.

Mas é verdade, disse a Noiva jovem, eles lá dançam o tango. É lindo, disse.

Percebeu-se a misteriosa oscilação do espaço que sempre anunciava os imponderáveis despertares do Tio.

O tango dá um passado a quem não o tem e um futuro a quem não o espera. Em seguida voltou a adormecer.

Enquanto isso a Filha, de sua cadeira ao lado do Pai, observava, em silêncio.

Tinha a mesma idade da Noiva jovem, uma idade, diga-se de passagem, que não tenho há muitos anos. (Agora, recordando-a, vejo apenas uma grande confusão, mas também, coisa que me parece interessante, o desperdício de uma beleza inaudita e inutilizada. O que por outro lado me remete à história que eu pretenderia contar, ao menos para me salvar a vida, mas com certeza também pela simples razão de que fazê-lo é o meu ofício.) A Filha, dizia eu. Tinha herdado da Mãe uma beleza que por aquelas paragens soava aristocrática: uma vez que às mulheres daquela terra eram reservados lampejos de esplendor circunscritos — o desenho dos olhos, duas pernas afortunadas, o negro corvino dos cabelos —, mas nunca aquela perfeição completa e rotunda — fruto aparente de melhorias seculares trazidas na procissão de infinitas gerações — que a Mãe até então conservava e que ela, a Filha, repetia miraculosamente, sob a douradura, ademais, da idade feliz. E até aí, tudo bem. Mas a verdade se torna evidente quando saio da minha elegante imobilidade e me movo, deslocando cotas irremediáveis de infelicidade, pelo fato imodificável de ser coxa. Um acidente, eu tinha uns oito anos. Uma carroça descontrolada, um cavalo que empina de repente, em uma estreita rua entre as casas, na cidade. Os médicos buscados no exterior, insignes, fizeram o resto, nem sequer por incompetência, talvez por azar, mas de maneira complicada, fosse como fosse, e dolorosa. Agora caminho arrastando uma perna, a direita, que embora desenhada à perfeição é dotada de um peso irrazoável e desprovida da mínima ideia de como se harmonizar ao resto do corpo. O pé se apoia pesado e um pouco morto. O braço também não é normal, parece capaz somente de três posições, e nem mesmo muito elegantes. Parece um braço mecânico. Assim, ver-me levantar de uma cadeira e me aproximar, para um cumprimento ou um gesto de cortesia, é experiência estranha, de que o termo decepção pode dar uma pálida ideia. Indescritivelmente bela, desmorono ao mínimo passo, transformando, em um instante, admiração em piedade e todo desejo em constrangimento.

É uma coisa que eu sei. Mas não tenho inclinação para a tristeza, nem talento para a dor.

Enquanto a conversa passava ao tardio florescimento das cerejeiras, a Noiva jovem se aproximou da Filha e se inclinou para beijá-la na face. A Filha não se levantou porque naquele momento queria estar bonita. Conversaram baixinho, como se fossem velhas amigas, ou talvez pelo desejo repentino de vir a sê-lo. Por instinto, a Filha compreendeu que a Noiva jovem havia aprendido a distância, e jamais a desmentiria, tendo-a escolhido como a própria, particular e inimitável forma de elegância. Será ingênua e misteriosa, sempre, pensou. Vão adorá-la.

 

Depois, quando já eram retiradas as primeiras garrafas de champanhe vazias, a conversa teve um instante de suspensão coletiva, quase mágica, e naquele silêncio a Noiva jovem pediu licença, graciosamente, para fazer uma pergunta.

Mas é claro, meu bem.

O Filho não está?

O Filho?, repetiu a Mãe, para dar tempo ao Tio de sair de seu alhures e ajudar, mas, visto que não acontecia nada, Ah, o Filho, claro, prosseguiu, o Filho, obviamente, meu Filho, certo, é uma boa pergunta. Depois, voltou-se para o Pai. Querido?

Na Inglaterra, disse o Pai, com absoluta serenidade. Faz ideia do que é a Inglaterra, senhorita?

Creio que sim.

Pois é. O Filho está na Inglaterra. Mas de modo totalmente provisório.

No sentido de que voltará?

Sem sombra de dúvida, assim que o chamarmos.

E vão chamá-lo?

É uma coisa que devemos fazer o mais depressa possível, com certeza.

Hoje mesmo, circunscreveu a Mãe, gastando certo sorriso que mantinha para as grandes ocasiões.

Assim, à tarde — e não antes de exaurir a liturgia do desjejum —, o Pai se sentou à escrivaninha e aceitou registrar os acontecimentos. Em geral, fazia-o com certo atraso — refiro-me a registrar os fatos da vida, em especial aqueles que traziam certa desordem —, mas não me agradaria que isso fosse interpretado como uma forma de letárgica ineficiência. Era, na realidade, uma lúcida cautela de ordem médica. Como todos sabiam, o Pai nascera com o que ele gostava de definir como “uma inexatidão do coração”, expressão que não se deve inserir em um contexto sentimental: algo de irreparável se estilhaçara em seu músculo cardíaco, quando ele ainda era hipótese em construção no ventre da mãe, e assim nasceu com um coração de vidro, ao qual primeiro os médicos e depois ele se resignaram. Não havia tratamento, mas só uma abordagem prudente, e vagarosa, ao mundo. Segundo os compêndios, um sobressalto específico, ou uma emoção imprevista, deveriam levá-lo embora de imediato. O Pai, contudo, sabia por experiência que a coisa não devia ser entendida tão ao pé da letra. Compreendera que estava emprestado à vida, e daí havia deduzido uma habituação à cautela, uma inclinação à ordem, e a confusa certeza de fazer parte de um destino especial. A isso devem ser remetidas sua natural bonomia e sua ocasional ferocidade. Quero acrescentar que ele não temia a morte: mantinha com ela grande confiança, se não intimidade, a ponto de saber com segurança que a sentiria chegar a tempo para usá-la bem.

Portanto, naquele dia, não se apressou de modo particular a registrar a chegada da Noiva jovem. Porém, liquidadas as costumeiras incumbências, não se subtraiu à tarefa que o esperava: debruçou-se sobre a escrivaninha e sem hesitações redigiu a mensagem do telegrama, concebendo-a no respeito a elementares exigências de economia e na intenção de alcançar a irrefutável clareza que se tornava necessária. Continha estas palavras:

Retornou Noiva jovem. Apresse-se.

A Mãe, por sua vez, decidiu que não havia nada a discutir, a Noiva jovem, não dispondo de uma residência própria, e em certo sentido nem mesmo de uma família, visto que todos os seus haveres, assim como os parentes próximos, tinham sido transferidos para a América do Sul, ficaria esperando ali, com eles. Como o Monsenhor não pareceu apresentar nenhuma objeção moral, levando em conta a ausência do Filho sob o teto familiar, pediu-se a Modesto que preparasse o quarto de hóspedes, sobre o qual aliás todos sabiam pouco, já que nunca hospedavam ninguém. De qualquer modo, estavam mais ou menos seguros de que o aposento existia. Na última vez, existia.

Não será necessário nenhum quarto de hóspedes, ela dormirá comigo, disse tranquila a Filha. Disse isso sentada e, quando estava assim, sua beleza era daquelas à qual não se fazem objeções.

Naturalmente, se for do seu agrado, acrescentou a Filha, buscando o olhar da Noiva jovem.

É, sim, disse a Noiva jovem.

 

E assim começou a fazer parte da Casa, justamente onde havia imaginado entrar como esposa, e em vez disso via-se agora como irmã, filha, hóspede, presença bem-vinda, decoração. Resultaram-lhe naturais esses papéis, e rápida a aprendizagem de modos e tempos de um viver que não conhecia. Notava a estranheza dessas coisas, mas raramente chegava a suspeitar do absurdo de tudo. Alguns dias após sua chegada, Modesto veio procurá-la e respeitosamente explicou que, se ela sentisse necessidade de algum esclarecimento, para ele seria um privilégio poder informá-la.

Existem regras que me escaparam?, perguntou a Noiva jovem.

Se me permitir, sublinharei apenas quatro, até para não ser dispersivo, disse ele.

Certo.

A noite é temida, imagino que a senhorita já tenha sido informada disso.

Sim, claro. Achei que fosse uma lenda, mas compreendi que não é.

De fato. E esta é a primeira regra.

Temer a noite.

Respeitá-la, digamos assim.

Respeitá-la.

Exato. Segunda: a infelicidade não é bem-vinda.

Ah, não?

Não me entenda mal, a coisa deve ser compreendida dentro da perspectiva correta.

Que seria?

Ao longo de três gerações, a Família acumulou uma fortuna considerável, e se a senhorita chegasse a se perguntar de que modo semelhante resultado foi alcançado, eu me permito sugerir a resposta: talento, coragem, maldade, erros afortunados e um profundo, coerente, indefectível senso de economia. Quando falo de economia, não me refiro só ao dinheiro. Esta família não desperdiça nada. Está me acompanhando?

Claro.

Veja, aqui as pessoas se inclinam a crer que a infelicidade é um desperdício de tempo, e portanto uma forma de luxo que, ainda por certo número de anos, ninguém poderá se permitir. Talvez um dia. Mas, por enquanto, a nenhuma circunstância da vida, por mais penosa que seja, é concedido roubar aos ânimos algo mais do que uma momentânea desorientação. A infelicidade rouba tempo à alegria, e na alegria se constrói prosperidade. Se a senhorita pensar nisso um instante, é muito simples.

Posso levantar uma objeção?

Por favor.

Se eles são maníacos a tal ponto pela economia, como encarar aqueles desjejuns?

Não são desjejuns, são ritos de agradecimento.

Ah.

E também eu falei de senso de economia, não de avareza, esta sim, uma característica totalmente estranha à Família.

Entendi.

Tenho certeza, são nuances que a senhorita seguramente é capaz de captar.

Obrigada.

Haveria uma terceira norma sobre a qual eu chamaria sua atenção, se é que ainda posso aproveitar sua disponibilidade.

Aproveite. Por mim, eu ficaria escutando o senhor durante horas.

Costuma ler livros?

Sim.

Não faça isso.

Não?

A senhorita vê livros nesta casa?

Não… Na verdade, agora que o senhor me fez notar, não.

Pois é. Não há livros.

Por quê?

Na Família existe uma grande confiança nas coisas, nas pessoas, e em si mesmos. Não se vê a necessidade de recorrer a paliativos.

Não estou segura de ter compreendido.

Já existe tudo na vida, desde que se tome o cuidado de escutá-la. Os livros distraem inutilmente dessa tarefa, que todos cumprem com tanta dedicação, nesta família, que um homem absorto na leitura, nestes aposentos, não deixaria de parecer um desertor.

Surpreendente.

Discutível, melhor dizendo. Mas considero oportuno sublinhar que se trata de uma norma tácita que nesta casa é interpretada com muito rigor. Posso fazer-lhe uma modesta confissão?

Seria uma honra para mim.

Eu adoro ler, então mantenho um livro escondido, no meu quarto, e dedico tempo a ele, antes de dormir. Nunca mais de um, porém. Quando termino a leitura, eu destruo o exemplar. Não é para sugerir que a senhorita faça o mesmo, só para demonstrar a seriedade da situação.

Creio que compreendi, sim.

Que bom.

Havia uma quarta regra?

Sim, mas é pouco mais do que uma obviedade.

Diga.

Como sabe, o Pai tem uma inexatidão no coração.

Certo.

Não espere que ele se desvie de uma genérica e inevitável placidez. Nem lhe exija isso, naturalmente.

Naturalmente. Ele corre mesmo o risco de morrer a qualquer momento, como dizem?

Temo que sim. Mas a senhorita deve levar em conta que no período diurno ele praticamente não corre nenhum risco.

Ah, sei.

Bom, creio que é tudo, por enquanto. Não, mais uma coisa.

Modesto hesitou. Estava se perguntando se era necessário proceder à alfabetização da Noiva jovem, ou se esse seria um esforço inútil, se não até mesmo imprudente. Guardou o silêncio por um momento, antes de emitir dois leves pigarros, algo secos, e próximos um do outro.

Acha que pode memorizar o que acaba de ouvir?

Os pigarros?

Não são pigarros, são um alerta. Tenha a bondade de considerá-los um respeitoso sistema, de minha parte, para deixá-la em guarda, se necessário, quanto a possíveis erros.

Por favor, eu gostaria de ouvi-los de novo…

Modesto produziu uma réplica exata da mensagem laríngea.

Dois pigarros secos e próximos, entendi. Prestar atenção.

Exato.

Há muitos outros?

Mais do que estou disposto a lhe revelar antes do casamento, senhorita.

Certo.

Agora, realmente devo ir.

O senhor foi muito útil, Modesto.

Era o que eu desejava conseguir ser.

Posso retribuir de algum modo?

O velho ergueu o olhar para ela. Por um instante, sentiu-se disposto a formular um dos pedidos infantis que sem hesitação assomaram à sua mente, mas logo recordou o quanto as distâncias dimensionavam a humildade e a grandeza de seu ofício, então baixou o olhar e, fazendo uma reverência quase imperceptível, limitou-se a dizer que sem dúvida não faltaria oportunidade. Afastou-se dando os primeiros passos para trás e em seguida girando sobre si mesmo, como se uma rajada de vento, e não uma opção desrespeitosa de sua parte, tivesse decidido por ele — técnica na qual era mestre insuperável.

 

Mas havia também os dias diferentes, obviamente.

A cada duas quintas-feiras, por exemplo, o Pai se dirigia de manhã cedo à cidade: muitas vezes acompanhado por seu cardiologista de confiança, o dr. Acerbi, comparecia ao banco, passava pelos prestadores também de confiança — alfaiate, barbeiro, dentista, mas também charutos, sapatos, chapéus, bengalas e, de vez em quando, confessores —, encaixava no momento oportuno um almoço significativo, e por fim se concedia o que costumava definir como um giro elegante. A elegância era conferida pelo passo adotado e pelo percurso escolhido: nunca displicente, o primeiro; escolhido pelas ruas do centro, o segundo. Quase regularmente concluía a jornada no bordel, mas, considerando a inexatidão do coração, interpretava a coisa como um procedimento, por assim dizer, higiênico. Convencido de que certo desafogo dos humores era necessário ao equilíbrio do seu organismo, havia encontrado na disponibilidade daquela casa quem sabia evocá-lo de modo quase indolor, entendendo-se por dor qualquer excitação que pudesse rachar o vidro do seu coração. Exigir da Mãe semelhante prudência seria inútil, e por outro lado os dois dormiam em quartos separados porque, mesmo amando-se profundamente, não tinham escolhido um ao outro, como se verá, por razões relativas aos respectivos corpos. Do bordel o Pai saía no final da tarde, para tomar o caminho do retorno. Ao fazê-lo, refletia: e ali tinham origem, muitas vezes, suas decisões ferozes.

Todo mês, mas em dias variáveis, chegava Comandini, o gerente comercial da empresa, anunciado quarenta e oito horas antes por um telegrama. Então qualquer hábito era sacrificado à urgência dos negócios, os convites suspensos, o desjejum reduzido ao mínimo, e a vida da Casa entregue à torrencial exposição daquele homenzinho de gestos nervosos que sabia, por insondáveis caminhos seus, o que as pessoas gostariam de vestir no ano seguinte, ou como induzi-las a desejar os tecidos que o Pai decidira produzir no ano anterior. Raramente errava, podia negociar em sete idiomas, esbanjava tudo no jogo e tinha predileção por mulheres ruivas. Anos antes saíra ileso de um pavoroso acidente de trem: desde então tinha parado de comer carnes brancas e de jogar xadrez, mas sem dar explicações.

Na quaresma reduzia-se a espetacularidade dos desjejuns, nos dias de festa todos se vestiam de branco, e na noite do Santo Padroeiro, que caía em junho, varavam a noite entregues a jogos de azar. No primeiro sábado do mês fazia-se música, reunindo alguns diletantes da região e, raramente, algum cantor profissional, depois recompensado com paletós de tweed inglês. No último dia de verão o Tio organizava uma corrida de bicicleta aberta a todos, e no Carnaval contratava-se fazia anos um mágico húngaro que com a idade se tornara pouco mais do que um animador bonachão. No dia da Imaculada Conceição matava-se o porco sob a orientação de um salsicheiro famoso por sua gagueira, e em novembro, nos anos em que a névoa ficava espessa até atingir ofensivas densidades, organizava-se, muitas vezes por decisão repentina e ditada pela exasperação, um baile algo solene em que, por desapreço à escuridão láctea do lado de fora, cuidava-se de acender um número de velas surpreendente sob qualquer aspecto: era como se um sol tremulante de final de tarde estival brigasse na sala com o parquê, desatando passos de dança que remetiam todos a certo Sul da alma.

Em contraposição, os dias normais, na verdade, como foi dito, considerando a realidade dos fatos e querendo expressar a coisa de maneira sintética — esses eram todos maravilhosamente iguais.

Daí resultava uma espécie de ordem dinâmica que, em família, era considerada impecável.

 

Enquanto isso, tinha-se chegado a junho, resvalando sobre telegramas ingleses que solapavam o retorno do Filho de modo quase invisível, mas afinal sensato, razoáveis como eram, e precisos. Acabou que antes dele chegou o Grande Calor — opressivo, impiedoso, pontual a cada verão, naquelas terras — e despencou em cima da Noiva jovem, em graus que ela dificilmente recordava após sua vida argentina, reconhecendo-o por fim com definitiva exatidão uma noite, na escuridão oleosa de umidade, ao se revirar na cama, por esta vez insone, ela que entrava no sono como em uma bem-aventurança, única naquela casa. Revirava-se e, com um gesto que a surpreendeu, arrancou nervosamente a camisola, deixando-a cair ao acaso, e em seguida girou-se de lado, a pele nua sobre os lençóis de linho, para receber a dádiva de um frescor provisório. Fez isso com naturalidade porque a escuridão era compacta no quarto, e a Filha, em sua cama, a poucos passos de distância, uma companheira com quem eu já estabelecera uma intimidade fraternal. Conversávamos, habitualmente, apagada a luz, pelo tempo de algumas frases, de algum segredo, depois nos despedíamos para entrar na noite e agora pela primeira vez eu me perguntava o que era aquela espécie de canto circular que da cama da Filha subia toda noite, apagada a luz e exauridos os segredos e as palavras, depois da saudação habitual — subia para oscilar no ar por um tempo longo cujo fim eu nunca ouvia, caindo sempre no sono, eu sozinha, naquela casa, sem terror. Mas não era um canto — havia uma nuance de gemido, como de animal — e naquela noite oprimente de verão tive vontade de compreendê-lo porque o calor me mantinha desperta e meu corpo sem roupas me tornava diferente. Então, por um instante, deixei o canto oscilar no ar, para compreendê-lo melhor, e depois, no escuro, sem preâmbulos, perguntei tranquila: O que é?

O canto parou de oscilar.

Por um momento só houve silêncio.

Depois a Filha disse Não sabe o que é?

Não.

Mesmo?

Mesmo.

Como é possível?

A Noiva jovem conhecia a resposta, sabia exatamente qual era o dia em que havia escolhido aquela ignorância e poderia explicar em detalhes por que a tinha escolhido. Mas se limitou a dizer: Não sei.

Ouviu a Filha esboçar uma risada, e depois alguns minúsculos rumores, e o riscar de um fósforo que em seguida brilhava e se aproximava do pavio — por um instante a luz do lampião a óleo pareceu fortíssima, mas logo as coisas ganharam contornos cautelosos, precisos, todas as coisas, inclusive o corpo nu da Noiva jovem, que não se moveu, permanecendo tal como estava, e a Filha o viu, e sorriu.

É o meu modo de entrar na noite, disse. Se não fizer assim não consigo adormecer, é o meu modo.

É mesmo tão difícil?, perguntou a Noiva jovem.

O quê?

Entrar na noite, para vocês.

Sim. Acha engraçado?

Não, mas é misterioso, não é fácil de entender.

Você sabe toda a história?

Não toda exatamente.

Não há ninguém que tenha morrido durante o dia, nesta família, isso você sabe.

Sim. Não acredito, mas sei. Você acredita?

Eu conheço a história de todos os mortos durante a noite, um por um, desde quando era pequena.

Talvez sejam apenas lendas.

Três eu vi.

É normal, muita gente morre de noite.

Sim, mas não todos. Aqui, até os bebês que nascem de noite nascem mortos.

Você está me amedrontando.

Veja, você começou a compreender — e nesse momento a Filha arrancou a camisola, com um gesto preciso do braço bom. Arrancou a camisola e virou-se de lado, como a Noiva jovem — nuas, olhavam-se. Tinham a mesma idade, e era a idade em que não existe feiura porque tudo é luminoso na luz do princípio.

Calaram-se um pouco, precisavam se olhar.

Depois a Filha disse que estava com quinze, dezesseis anos, quando tivera a ideia de rebelar-se contra essa história das mortes noturnas, e pensara seriamente que eram todos malucos, e o havia feito de um modo que agora recordava como muito violento. Mas ninguém se assustou, disse. Deixaram passar algum tempo. Até que um dia o Tio mandou que eu me deitasse ao seu lado. Fiz isso e esperei que ele acordasse. Com os olhos fechados, me falou demoradamente, talvez no sono, e explicou que cada um é senhor da sua vida, mas uma coisa não depende de nós, porque a recebemos na herança do sangue e não faz sentido rebelar-se porque é uma perda de tempo e de energias. Então respondi que era idiota pensar que um destino podia ser transferido de pai para filho, e que a própria ideia de destino era uma fantasia, uma fábula para justificar as próprias vilezas. Acrescentei que eu morreria na luz do dia, nem que me matasse entre uma alvorada e um ocaso. Ele dormiu muito tempo, mas afinal abriu os olhos e disse que naturalmente não, não existe o destino, e o que se herda não é isso, era só o que faltava. É algo muito mais profundo e animal. Herda-se o medo, disse. Um medo específico.

A Noiva jovem viu que a Filha, enquanto falava, tinha aberto ligeiramente as pernas e em seguida fechado, depois de esconder ali uma das mãos, que agora mantinha entre as coxas, e de vez em quando movia lentamente.

Então me explicou que é um contágio sutil e me demonstrou como em cada gesto, em cada palavra, pais e mães não fazem senão transmitir um medo. Até mesmo quando aparentemente estão ensinando solidez e soluções, e em última análise sobretudo quando estão ensinando solidez e soluções, estão na realidade transmitindo um medo, porque tudo o que eles conhecem de sólido e resolutivo não passa daquilo que encontraram como remédio contra o medo, e muitas vezes contra um medo específico, circunscrito. Assim, quando as famílias parecem ensinar a felicidade às crianças, na verdade estão infectando-as com um medo. E é o que fazem a cada hora, ao longo de uma impressionante série de dias, sem relaxar um só instante, na mais absoluta impunidade, com uma eficácia pavorosa e sem que se possa de modo algum interromper o círculo das coisas.

A Filha separou um pouco as pernas.

Então, tenho medo de morrer durante a noite, disse, e só tenho um modo para entrar no sono, o meu.

A Noiva jovem permaneceu em silêncio.

Fitava a mão da Filha, o que fazia. Os dedos.

O que é?, perguntou outra vez.

Em vez de responder, a Filha fechou os olhos e virou-se de costas, buscando uma posição que conhecia. Mantinha uma das mãos como uma concha apoiada sobre o ventre, e com os dedos procurava. A Noiva jovem se perguntou onde já havia visto aquele gesto, e era tão nova para aquilo que estava descobrindo que por fim se lembrou, e era o dedo de sua mãe procurando numa caixa de botões o pequenino de madrepérola que ela havia reservado para os pulsos da única camisa do marido. Obviamente tratava-se ali de outra região do ser, mas sem dúvida o gesto era igual, ou pelo menos o foi até começar a ser circular de um modo muito veloz, ou violento, para ser apenas um modo de procurar, ao passo que se tornara sobretudo um modo de caçar — veio-lhe à mente a caça a um inseto, ou um modo de matar algo pequeno. De fato a Filha de repente começou a arquear as costas, de vez em quando, e a respirar estranhamente — uma espécie de agonia. Elegante, ainda assim, pensou a Noiva jovem, e até atraente, pensou: seja lá o que a Filha estivesse eliminando dentro de si, seu corpo parecia ter nascido para aquele delito, a tal ponto se dispunha com justeza no espaço, como uma onda, desaparecidas até mesmo as deformidades de aleijada, desaparecidas no vazio — qual era o braço anormal, ninguém saberia dizer, qual das pernas abertas era a defeituosa, não seria possível recordar.

Parou de matar por um instante, mas sem se voltar nem abrir os olhos, e perguntou: Você realmente não sabe o que é?

Não, respondeu a Noiva jovem.

A Filha riu, de um jeito bonito.

Está falando a verdade?

Sim.

Então a Filha iniciou aquele canto circular, semelhante ao lamento, que a Noiva jovem sabia mas não sabia, e de novo voltou à minúscula ocisão, mas como se tivesse decidido manter, enquanto isso, uma espécie de prudência que ainda conservava. Movia os quadris, agora, e quando jogou a cabeça para trás sua boca se abriu um pouco, de um modo que me pareceu a ultrapassagem de um limite e soou como uma revelação: cheguei a pensar, mas como em um lampejo, que, embora fosse proveniente de longe, o rosto da Filha tinha nascido para acabar ali, naquela onda aberta que agora se dobrava sobre o travesseiro. Era tão verdadeiro, e último, que toda a beleza da Filha — aquela com a qual encantava o mundo durante o dia — me surgiu de repente como aquilo que era, ou seja, uma máscara, um subterfúgio — ou pouco mais que uma promessa. Perguntei-me se era assim para todos, e também para mim, mas depois a pergunta que fiz em voz alta — em voz baixa — foi outra e de novo a mesma.

O que é?

A Filha, sem se deter, abriu os olhos e voltou a mirar a Noiva jovem. Mas não parecia que mirava de verdade, seus olhos fitavam outro lugar, e a boca estava levemente aberta. Ela continuava com aquele canto circular, não parava os dedos, não falava.

Incomoda você que eu observe?, perguntou a Noiva jovem.

A Filha fez um gesto negativo com a cabeça. Continuou se acariciando sem falar. Estava em algum lugar, dentro de si mesma. Mas como seus olhos pousavam sobre a Noiva jovem, pareceu à Noiva jovem que já não havia nenhuma distância entre elas, física ou imaterial, e assim fez outra pergunta.

É assim que você elimina seu medo? Procura-o e o mata?

A Filha então girou de novo a cabeça, fitando por um instante o teto e depois fechando os olhos.

É como se desprender, disse. De tudo. Convém não ter medo e ir até o fim, disse. Então você se desprende de tudo e um cansaço imenso a carrega para a noite, presenteando você com o sono.

Depois voltou aquele rosto derradeiro, sobre seus traços, a cabeça jogada para trás e a boca entreaberta. O canto circular recomeçou e, entre as pernas, os dedos fizeram-se velozes, de vez em quando desaparecendo. Parecia perder pouco a pouco a capacidade de respirar, e a certa altura foi invadida por uma pressa que a Noiva jovem poderia tomar por uma pressa desesperada se não tivesse acabado de aprender que era justamente aquilo que a Filha buscava, toda noite, apagada a luz, descendo a um ponto dentro de si mesma que de algum modo devia lhe resistir se agora eu a via extenuar-se para exumar com a ponta dos dedos alguma coisa que a etiqueta do viver evidentemente sepultara no decorrer de uma longa jornada. Era uma descida, quanto a isso não havia dúvida, e parecia tornar-se a cada passo mais íngreme, ou arriscada. Depois ela começou a tremer, e continuou assim até que o canto circular se rompeu. Enovelou-se, então, virando-se de lado, dobrando as pernas e recolhendo a cabeça entre os ombros — eu a vi transformada em uma menina, enrodilhada sobre si mesma, as mãos escondidas entre as pernas, o queixo apoiado no peito, a respiração voltando.

O que foi que eu vi, pensei.

O que devo fazer agora, pensei. Não me mexer, não fazer ruído. Dormir.

Mas a Filha abriu os olhos, buscou os meus e, com estranha firmeza, disse alguma coisa.

Não compreendi, e então a Filha repetiu o que havia dito, porém com voz mais alta.

Experimente.

Não me movi. Não falei nada.

A Filha me fitava, com uma brandura tão ilimitada que parecia maldade. Estendeu um braço e baixou a luz do lampião.

Experimente, repetiu.

E em seguida mais uma vez.

Experimente.

Foi nesse instante que voltou à mente da Noiva jovem, fulminante, aquilo que agora eu deveria contar, um episódio de nove anos antes, tal como cheguei a reconstituí-lo recentemente, de noite. Especifico de noite, porque me sucede esta coisa de acordar de repente a certa hora da madrugada, antes do alvorecer, e com grande lucidez calcular a ruína da minha vida, ou pelo menos seu geométrico apodrecimento, como de fruta deixada em um canto: eu combato isso, justamente, reconstituindo essa história, ou outras histórias, coisa que ocasionalmente me leva para longe dos meus cálculos — outras vezes não leva a lugar nenhum. Meu pai faz a mesma coisa imaginando percorrer um campo de golfe, buraco após buraco. Especifica que é um campo de nove buracos. É um sujeito simpático, tem oitenta e quatro anos. Por mais que neste momento me pareça inacreditável, ninguém pode afirmar se ele ainda estará vivo quando eu tiver escrito a última página deste livro: em geral, TODOS os que estão vivos enquanto você escreve um livro deveriam continuar vivos quando você o termina, e isso pela elementar razão de que escrever um livro é, para quem o faz, coisa de um instante, ainda que longuíssimo, por conseguinte seria irrazoável pensar que alguém possa morar dentro dele vivo e morto, simultaneamente, muito menos meu pai, homem simpático, que à noite, para dissipar os demônios, joga golfe mentalmente, escolhendo os tacos de ferro e dosando a força da tacada, ao passo que eu, diferentemente dele, como falei, desenterro esta história, ou outras. O que me leva, pelo menos, a saber com certeza o que à Noiva jovem aconteceu recordar, de repente, enquanto a Filha a fitava dizendo uma só palavra, Experimente. Sei que fulminante foi uma lembrança que ela jamais abandonara, pelo contrário, guardara ciosamente por nove anos, e precisamente a lembrança de quando, numa manhã de inverno, a avó mandou chamá-la ao seu quarto, onde, não ainda velha, estava tentando morrer sem desordem, num leito suntuoso, acuada por uma doença que ninguém tinha conseguido explicar. Por mais absurdo que possa parecer, sei com exatidão quais foram as primeiras palavras que a avó lhe disse — as palavras de uma moribunda a uma menina.

Como você é pequena.

Justamente essas palavras.

Mas não posso esperar que você cresça, estou morrendo, esta é a última vez em que posso lhe falar. Se não entender, escute e grave tudo na mente: mais cedo ou mais tarde, entenderá. Está claro?

Sim.

Só estavam elas duas, no quarto. A avó falava em voz baixa. A Noiva jovem a temia e a adorava. Era a mulher que havia parido seu pai, portanto era para ela indiscutível, e solenemente remota. Quando lhe ordenou sentar-se e puxar a cadeira para perto do leito, pensou que nunca lhe estivera tão próxima, e com curiosidade se deu conta de que podia sentir o cheiro dela: não era cheiro de morte, mas de ocaso.

Continuar: parte 2 de 6