A Noiva Jovem
A Noiva jovem
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 6 partes.
Ficaram bem, na senhorita, disse o Pai, apontando as compridas luvas vermelhas.
A Noiva jovem ajeitou uma dobra do vestido.
Não são minhas, disse.
Que pena. Podemos ir?
Voltaram de trem, de novo sozinhos, um sentado em frente à outra, na luz de um ocaso longo, e se agora eu recapitular esse momento posso recordar em detalhes, apesar de todos os anos passados, a intenção com a qual me mantinha altiva, a coluna ereta, nem mesmo apoiada no espaldar, lutando contra um cansaço imenso. Era orgulho, mas de uma espécie que o sangue só gera na juventude — emparelha-o, por equívoco, à fragilidade. Mantinham-me desperta a trepidação do trem e a dúvida de que uma infâmia definitiva se tivesse derramado, toda em um dia, no bojo da minha vida, como em uma xícara que agora parecia impossível esvaziar: eu mal conseguia incliná-la o suficiente para ver escoar pelas bordas o líquido opaco da vergonha — sentia-o escorrer lento, sem saber o que pensar. Se tivesse sido lúcida, se tivesse tido mil vidas a mais, teria sabido, ao contrário, que aquele dia estranho, de confissões e bizarrices, me trouxera uma lição que depois levei anos, e muitos erros, para aprender. Em cada detalhe, o que eu havia feito naquelas horas — e escutado, e dito, e visto — estava me ensinando que são os corpos a ditar a vida — todo o resto é uma consequência. Eu não podia acreditar nisso, naquele momento, porque como todos, na juventude, esperava algo mais complexo, ou sofisticado. Mas agora não conheço história, minha ou de outrem, que não se tenha iniciado no movimento animal de um corpo — uma inclinação, uma ferida, uma torcedura, às vezes um gesto brilhante, com frequência instintos obscenos que vêm de longe. Tudo já está escrito ali. Os pensamentos vêm depois, e são sempre um mapa tardio, ao qual atribuímos, por convenção e cansaço, uma precisão qualquer. Provavelmente era isso que o Pai tinha intenção de me explicar, tomando a iniciativa aparentemente absurda de levar uma mocinha a um bordel. À distância de anos, devo reconhecer nele uma corajosa exatidão. Queria me levar a um lugar onde fosse impossível defender-se da verdade — e inevitável escutá-la. Pretendia me dizer que a trama de destinos que o tear das nossas famílias tinha produzido ao longo de anos era tecida com um fio primitivo, animal. E que, por mais que nos fatigássemos em buscar explicações mais elegantes ou artificiais, a origem de todos nós estava escrita nos corpos, em caracteres gravados a fogo — quer fosse a inexatidão de um coração, o escândalo de uma beleza imprudente, ou a brutal inevitabilidade do desejo. Assim se vive na ilusão de recompor aquilo que o movimento humilhante de um corpo, ou esplêndido, desarrumou. Em um último movimento esplêndido do corpo, ou humilhante, morre-se. Todo o resto é uma dança inútil, tornada memorável por bailarinos maravilhosos. Mas eu sei disso agora, não sabia então — e naquele trem estava cansada demais para compreender, ou orgulhosa, ou amedrontada, não sei. Mantinha a coluna ereta e isso era tudo. Observava o Pai: ele tinha retomado sua aparência de homem bonachão, acessório — estava ali com as mãos uma na outra, apoiadas no colo, e as fitava. De vez em quando, mas brevemente, erguia os olhos para a janela do trem. Depois voltava a fitar as mãos. Um espetáculo. A Noiva jovem se deu conta de achar aquele homem, de repente, irresistível, apenas juntando aquilo que havia sabido sobre ele e a figura desanimada que estava agora à sua frente. Registrou pela primeira vez a habilidade espetacular com que o Pai sabia esconder a força de que dispunha, as ilusões de que era capaz e a ambição desmesurada a que estava dedicando a vida. Um jogador profissional, que vencia com cartas invisíveis. Um trapaceiro fantástico. Viu nele uma beleza que nem por um instante, antes daquele dia, lhe havia acontecido vislumbrar. Agradaram-na aquela solidão, no trem que avançava, e o fato de terem sido eles dois, por um dia. Tinha dezoito anos: levantou-se, foi sentar-se ao lado dele e, quando compreendeu que ele não pararia de fitar as mãos, apoiou a cabeça em seu ombro e adormeceu.
O Pai interpretou isso como um gesto de síntese, o compêndio de tudo o que à Noiva jovem podia ter acontecido de pensar a propósito do que descobrira naquele dia. Pareceu-lhe até de certa, inesperada, exatidão. De modo que a deixou dormir e voltou ao que estava fazendo, fitando as próprias mãos. Estava recapitulando as ações realizadas naquele dia, extraindo do ato a comportada satisfação de um general que, ao mudar a disposição das tropas no campo de batalha, tivesse obtido um enfileiramento mais adequado ao terreno e menos vulnerável às invenções do inimigo. Naturalmente havia alguns detalhes a providenciar, sendo o primeiro encontrar o Filho que estava desaparecido, mas o resultado daquele dia de grandes manobras o inclinava ao otimismo. Tendo chegado a essas conclusões, parou de fitar as mãos e, erguendo o olhar para a janela, concedeu-se um rito mental a que não conseguia se dedicar fazia tempo: repassar as próprias certezas. Tinha certo número delas, e de diferentes tipologias. Misturava-as com prazer infantil. Partiu da ideia, sobre a qual não alimentava dúvidas, de que no verão era aconselhável usar sabão para barba aromatizado com cítricos. Depois prosseguiu com a convicção, amadurecida ao longo dos anos, de que a caxemira na realidade não existia, e continuou repetindo para si mesmo a óbvia evidência da inexistência de deus. Quando se deu conta de que deviam desembarcar, saltou para a última certeza da lista, porque era a que mais lhe importava, a única que ele jamais confidenciara a ninguém, e aquela a que reservava a parte mais heroica de si. Nunca pensava nela sem pronunciá-la em voz alta.
Não morrerei de noite, mas sim à luz do sol.
A Noiva jovem levantou do ombro dele a cabeça, retornando de sonhos longínquos.
O senhor disse alguma coisa?
Que devemos desembarcar, senhorita.
Quando saíram da estação a Noiva jovem permanecia em silêncio, enredada na teia de um despertar complicado. Modesto tinha vindo buscá-los e levou-os de caleça para casa, anotando as pequenas novidades do dia com uma nuance de alegria na voz: era praxe na Família, de fato, que qualquer retorno, mesmo o mais corriqueiro, trouxesse júbilo nos modos e alívio nos gestos.
Somente quando já tinham descido da caleça, e poucos passos os separavam da soleira da casa, a Noiva jovem deu o braço ao Pai e se deteve. Infalível, Modesto prosseguiu, sem se voltar, e desapareceu por uma porta lateral. A Noiva jovem apertou o braço do Pai, mas sem desviar o olhar da ampla e clara fachada que estava prestes a engoli-los.
E agora?, perguntou.
O Pai não se perturbou.
Faremos o que deve ser feito, disse.
E seria o quê?
Que pergunta. Partiremos para o veraneio, querida.
Não quando a escrevi, mas dias depois, durante a releitura, deitado no divã, atentei para aquela frase que eu havia escrito, e passei a examiná-la de perto. Querendo, podia-se até tentar dar-lhe um acabamento um pouco melhor. Por exemplo, Será de dia, à luz do sol, que morrerei soava mais rotundo. Também Quero morrer à luz do sol, e o farei podia funcionar. Quando é assim, experimento ler a frase em voz alta — em voz alta, aliás, era como também a pronunciava o Pai —, e repetindo-a, então, a escutei, e de repente foi como se eu não a tivesse escrito, mas sim recebido, naquele momento, esgueirada até ali de alguma distância desconhecida. Acontece. O som era nítido, a postura correta. Não morrerei de noite, mas sim à luz do sol. Não vinha de mim, estava ali e pronto: então me dei conta de que ela dizia alguma coisa que eu não saberia formular, mas que agora reconhecia sem incertezas. Tinha a ver comigo. Li-a mais uma vez e compreendi, em toda simplicidade, que aquilo que me restava a desejar, dado por definitivo o meu desconcerto, era de fato morrer à luz do sol, embora morrer fosse sem dúvida um termo algo precipitado — digamos desaparecer. Mas em nenhuma noite, isso agora me estava claro. À luz do sol. Eu estava deitado no divã, repito, e fazendo o único gesto que ultimamente consigo fazer com segurança e com boa capacidade de controle, ou seja, escrever um livro: mas de repente já não estava escrevendo, estava vivendo — justamente uma coisa que negligencio fazer há tempos, ou ao menos sempre que me é possível —, se viver é o nome daquele rápido voltar a mim que me aconteceu experimentar, sem aviso prévio, enquanto, deitado no divã, lia em voz alta uma frase que eu havia escrito alguns dias antes e que agora me reaparecia, como proveniente de longe, na luz convincente de uma voz que já não era a minha.
Olhei ao redor. As coisas, a ordem, a penumbra. A toca de um maníaco, dissera L. Um pouquinho exagerada, como sempre. E no entanto…
Será que eu devo acabar assim?
Ocasionalmente — como se deve ter notado — acontece de alguém pensar: será que eu devo acabar assim?
Quanto a mim, fazia tempo que não pensava nisso. Havia parado de me interrogar. Você se precipita para baixo, sem perceber muito, ensurdecido pela dor, e é tudo.
Mas naquele momento pensei — Será que eu devo acabar assim? —, e me ficou claro que, seja lá qual fosse a destinação do meu viver, era decerto inadequada a luz em que eu estava esperando conhecê-la, assim como absurda era a paisagem em que eu lhe permitia aproximar-se, e demencial a fixidez que eu me havia reservado na expectativa. Era tudo injusto.
Sobre o rumo declinante que minha situação tinha tomado, eu não me permitia julgar. Mas, quanto à ambientação, eu tinha algo a dizer, era isso.
Não morrerei de noite, mas sim à luz do sol.
Era o que eu tinha a dizer.
Honestamente eu jamais esperaria semelhante arroubo de determinação, e até hoje me espanta que a gerá-lo tenha sido uma frase lida em um livro (afinal, que se tratasse de um livro meu é, sem dúvida alguma, um detalhe um tanto penoso). O que posso dizer é que levei a coisa ao pé da letra — não morrerei de noite, mas sim à luz do sol —, já que desde tempos antes havia perdido as energias, ou a fantasia, para elaborar o assunto simbolicamente, como sem dúvida alguma teria exigido de mim o Doutor (a quem, aliás, ficou deliberado que devo doze mil euros), com certeza me impelindo a traduzir o termo luz em uma nova disposição de ânimo e o termo noite na projeção das minhas fantasias cegas: sacanagens. Resolvi, mais simplesmente — e não dispondo, como já disse, das energias e da fantasia necessárias a uma solução diferente —, ir para perto do mar. Não, não exatamente — não sou tão desprovido assim de energias e fantasia, em última análise. Mas é verdade que, em vez de imaginar sei lá o quê, só consegui retornar a uma manhã de anos atrás e a uma barca que, na luz invernal, me levava a uma ilha. Era no Sul. O andamento era preguiçoso, o mar estava calmo. Sentando-se no convés do lado certo, você viajava com o sol nos olhos, mas, tratando-se de uma manhã de fevereiro, era apenas banhado pela luz, e só. Era agradável o rumor amortecido das máquinas.
Será que ainda existe, disse a mim mesmo. Eu pensava na barca.
Tratava-se de reconstituir algum detalhe que naquele momento me fugia (qual ilha?, por exemplo), mas naturalmente estamos falando de obstáculos irrelevantes, e esta é a razão pela qual, com uma determinação que até agora me espanta, desci do divã para subir àquela barca, mesmo estando perfeitamente consciente da incerta série de gestos que transitar de um para a outra comportaria (em contraposição, é admirável como, na simplicidade formal de uma frase escrita, divã e barca estão quase unidos: daí o primado do escrever sobre o viver, como nunca me cansarei de repetir). Recordo ter me despedido do meu apartamento em vinte minutos — e, mais genericamente, de certo aparato de certezas parciais, e em última análise da treva organizada em que eu tinha me sepultado. Se fizéssemos ideia do nada que é necessário para desmantelá-las, não perderíamos tanto tempo edificando defesas estratégicas contra as ofensas da vida. Bastou o tempo de escolher os poucos objetos a levar — me veio à mente o número onze. Onze objetos, então — escolhê-los foi uma delícia. Fiz isso enquanto, com andamento muito semelhante, a Família, na minha cabeça, velejava rumo ao veraneio, em um amplo movimento coletivo que depois foi um prazer fixar na esteira nítida da escrita à mesa de um hotelzinho minúsculo, o primeiro na estrada para o Sul, durante a primeira noite depois da eternidade. Tendo que dispor as coisas em boa ordem, iniciei recordando como o veraneio, para todos eles, representava um tedioso costume que se resolvia em duas semanas passadas nas montanhas francesas: não sei exatamente onde, mas eu devia já ter dito que ele era em geral interpretado como um dever, e por conseguinte suportado por todos com elegante resignação.
Para reduzir o tédio ao mínimo, recorria-se a frágeis expedientes, entre os quais o mais curioso era evitar fazer as malas: depois se compraria tudo no local de veraneio. O único que tinha uns baús, e se obstinava em usá-los, era o Tio, que gostava de levar consigo, sem inúteis meias medidas, tudo o que possuía. Arrumava-os pessoalmente: como o fazia dormindo, a coisa podia demorar semanas. Todos os outros, ao contrário, só cuidavam disso na manhã da partida, dispondo objetos de utilidade dúbia em pequenas bolsas que com frequência acabavam esquecendo. Havia umas constantes: a Mãe, por exemplo, jamais partia sem levar seu travesseiro, cartões-postais que em viagens precedentes não tinha tido tempo de escrever, saquinhos de lavanda e a partitura de uma canção francesa da qual havia perdido a última página. O Pai fazia questão de levar um manual de xadrez, a Filha um álbum e as cores a óleo (por razões misteriosas, deixava em casa todas as tonalidades de azul, do claro ao marinho). O Filho, na época em que ainda não havia desaparecido, desmontava o relógio da escada e levava consigo as peças, prometendo-se remontá-las nas férias. A soma final de semelhante seleção de objetos resultava em um número moderado de bagagens e em certo montante coletivo de lamentações: muitas vezes tornava-se necessário deixar para trás fragmentos preciosos da loucura comum.
Modesto se encarregava da casa. Também ali, mantinha-se a fidelidade a um protocolo cuja racionalidade, se é que existia, mergulhava suas raízes em um passado já desprovido de explicações. Cobriam-se todos os móveis com lençóis de linho, abasteciam-se as despensas com todos os alimentos não perecíveis, fechavam-se todas as folhas cegas das janelas, menos aquelas voltadas para o sul, enrolavam-se os tapetes, tiravam-se os quadros das paredes, apoiando-os no chão (havia um motivo, mas se perdera), deixavam-se os relógios sem corda, colocavam-se flores amarelas em cada jarro, preparava-se a mesa como para um desjejum de vinte e cinco pessoas, removiam-se as rodas de tudo o que tinha rodas e descartavam-se todas as roupas que, no decorrer do último ano, não haviam sido usadas pelo menos uma vez. Um cuidado especial era reservado ao precioso rito de deixar, disseminados pela casa, gestos interrompidos: isso parecia ser uma garantia segura de que todos voltariam para completá-los. Por essa razão, partida a Família, os aposentos ofereciam a um olhar atento uma profusão de ações deixadas pela metade: um pincel de barba ensaboado, partidas de baralho abandonadas de qualquer jeito, baldes cheios d’água, frutas meio descascadas, uma xícara de chá ainda a ser bebida. No atril do piano costumava ficar aberta na penúltima página uma partitura, e uma carta inconclusa permanecia sempre sobre a escrivaninha da Mãe. Na cozinha pendurava-se à parede uma lista de compras aparentemente muito urgentes, nas gavetas deixavam-se preciosos trabalhos de crochê inacabados, e sobre a mesa de bilhar abandonava-se um lance sublime, inexplicavelmente adiado. No ar, se fosse possível vê-los, pairavam pensamentos interrompidos no meio, recordações incompletas, ilusões a serem aperfeiçoadas e poemas sem final: pensava-se que a sorte pudesse vê-los. Completava-se o conjunto deixando esquecida nos corredores, no momento do adeus, uma boa parte das bagagens — gesto doloroso, mas considerado decisivo. À luz de tanto zelo, a possibilidade de que os riscos da viagem fizessem algum deles não voltar para casa era considerada simplesmente ofensiva.
Não que se pudesse tomar todos esses cuidados sem que isso levasse certo tempo. Assim, a Família começou a preparar a partida com ampla antecedência, alinhando placidamente a regra cotidiana ao objetivo representado pelo DIA DA PARTIDA. Na prática, isso significava que cada um continuava a fazer exatamente as mesmas coisas, mas acrescentando aos gestos uma ulterior precariedade, gerada pela iminência da despedida, e subtraindo aos pensamentos qualquer residual tom dramático, inutilizado pela anistia espiritual prestes a chegar. Somente o Tio, como foi dito, procedia a atividades de amplo fôlego (arrumar os baús). De resto, o que tornava tangível a iminência do DIA DA PARTIDA era a febril atividade da criadagem, um polvo do qual Modesto representava a cabeça, e servos mais irrelevantes, os tentáculos. A ordem era fazer tudo com grande elegância mas sem hesitações inúteis. Dado que, por exemplo, por inexplicável hábito, todas as almofadas da casa eram retiradas e reunidas em um só guarda-roupa, o mínimo que podia acontecer era alguém ver subtraírem de sob seu traseiro, com certa classe, a macia almofada que suavizava, em torno da mesa dos desjejuns, o vime das cadeiras: nesse caso, você nem sequer interrompia a conversa, apenas se soerguia um pouquinho, como por uma repentina urgência de soltar um gás, e deixava que os domésticos cumprissem seu dever. De igual modo podiam fazer desaparecer de sua frente um açucareiro, os sapatos ou, em casos particularmente drásticos, aposentos inteiros: de repente você descobria que o uso da escada fora suspenso. Assim, enquanto os moradores continuavam a deslocar o prazo que os aguardava, situando O DIA DA PARTIDA em um futuro próximo, de limites incertos, a casa, em vez disso, avançava de maneira irrefreável rumo à meta: disso brotava uma espécie de velocidade dupla — uma do espírito, outra das coisas — que expunha a calma dos dias à incursão de dissimetrias surreais. Havia gente que, sem pestanejar, se sentava a mesas que já não estavam ali, convidados que chegavam atrasados a coisas que ainda iriam acontecer, espelhos que, deslocados, refletiam acontecimentos de horas antes, e rumores permanecidos no ar, órfãos de sua origem, que vagavam pelos aposentos até que Modesto cuidava de guardá-los, provisoriamente, em gavetas marcadas em seguida com uma cruz de tinta vermelha (raramente, na volta, as pessoas se lembravam de liberá-los, coisa que preferiam fazer, por brincadeira, no período do Carnaval: então, às vezes, apresentavam-se amigos ou conhecidos que, tardiamente, passavam para retirar certa frase, ou um ruído corporal, que haviam sido perdidos no verão precedente. O advogado Squinzi, para dar só um exemplo, conseguiu recuperar um arroto seu, do ano anterior, em uma gaveta em que, de surpresa, encontrou também uma risada histérica da esposa e o início de uma granizada que, na época, havia feito disparar o preço dos pêssegos. Dom Giustelli, excelente homem do Senhor que tive a sorte de conhecer e de frequentar, me confessou certa vez que costumava se apresentar por ocasião da abertura das gavetas para abastecer-se de respostas. Havia um monte, ali dentro, sabe?, me disse. Criei a convicção — esclareceu-me ele — de que durante o período que precedia O DIA DA PARTIDA muitas respostas, naquela casa, ficavam perdidas, na conversa, porque se prestava menos atenção (às vezes nenhuma atenção) nelas — e assim ficavam perdidas. Permaneciam no ar, isso se sabia: para depois irem parar nas famosas gavetas. Em geral, acrescentava dom Giustelli, em fevereiro eu já esgotara meu estoque de respostas, então é compreensível que me fosse cômodo ir recuperar algumas naquelas gavetas, e ademais sem gastar um centavo. Respostas, todas, de excelente qualidade, sublinhava. De fato, quando ele quis me mostrar algumas, tive de admitir que o nível formal era quase sempre superior à norma. Havia umas esplendidamente sintéticas — Nunca, para sempre —, e não faltavam as dotadas de certa elegante musicalidade — Não por vingança, se tanto por estupor, no máximo por acaso. (De todo modo, eu, particularmente, achava lancinantes aquelas respostas. O fato de não ser possível ligá-las a nenhuma pergunta era obviamente intolerável. Não era um problema só meu. Alguns anos atrás, a filha mais nova dos Ballard, então com vinte anos, apresentou-se na abertura das gavetas para recuperar um acorde de violão que a fizera sonhar no verão anterior, mas não conseguiu encontrá-lo porque encalhou, justamente quando abria caminho entre os rumores, em uma resposta que depois levou para casa, em vez do acorde de guitarra, intuindo com absoluta certeza que, se não encontrasse a pergunta à qual aquela resposta se referia, perderia o juízo. Passou os treze meses seguintes interrogando dezenas de pessoas com a única intenção, furiosa, de descobrir aquela pergunta. Enquanto isso a resposta, apoiada em sua mente, fermentava de esplendor e de enigma. No décimo quarto mês ela começou a escrever poemas, no décimo sexto perdeu o juízo. Destruído pela dor, seu pai quis compreender o que a derrotara daquele modo. Achava curioso que uma jovem tão inteligente pudesse deixar-se prejudicar pelo desaparecimento de uma pergunta, e não pela dureza de uma resposta. Como era homem de enorme senso prático e esplêndido discernimento, venceu a própria dor, procurou Modesto e perguntou se ele algum dia havia escutado aquela resposta.
Claro, disse Modesto.
Lembra-se também da pergunta?, insistiu o conde.
Naturalmente, respondeu Modesto.
Na realidade não se lembrava de nada daquilo, mas era um homem sensível, tinha lido muitos livros e desejava sinceramente ajudar aquele pai.
Até quando deverei esperar para saber as razões de vossa felicidade e o escopo de vosso desespero?
O conde agradeceu, deu uma gorjeta comedida e voltou para casa a fim de relatar. Sua filha acolheu com calma aparente a tão procurada pergunta. No dia seguinte retirou-se para um convento perto de Basileia. (Será dela, mais tarde, o singular Manual para jovens donzelas adormecidas que tanto sucesso fez, como se sabe, nos anos anteriores à guerra. Assinado com um nom de plume — Herodíade —, sugeria cotidianos exercícios espirituais para mocinhas a que faltassem um apropriado guia intelectual ou um vigor moral qualquer. Que eu me lembre, fixava preceitos cotidianos de curiosa natureza mas de fácil execução. Coisas tipo comer só alimentos amarelos, correr em vez de caminhar, dizer sempre sim, falar com os animais, dormir nua, fingir-se grávida, mover-se em câmera lenta, beber a cada três minutos, usar sapatos de outra pessoa, pensar em voz alta, raspar-se a zero, comportar-se como uma galinha friulana. Recomendava-se que cada exercício durasse doze horas. Nas intenções da autora, aquelas singulares observâncias deviam servir para gerar, nas jovens, a capacidade de disciplinar-se e o prazer de adquirir certa independência de pensamento. Ignoro se os resultados estiveram à altura das expectativas. Recordo distintamente, porém, que a autora, pouco depois de ter alcançado o sucesso, pariu dois gêmeos que chamou de Primeiro e Segundo, afirmando tê-los tido por intercessão do arcanjo são Miguel. (Obviamente, paginazinhas como estas parecerão ao editor que se ocupará delas, dentro de alguns meses, totalmente inúteis e tristemente pouco funcionais ao decurso da narrativa. Com a educação costumeira, me sugerirá cortá-las. Já sei que não farei isso, mas desde o presente momento posso admitir não ter mais probabilidades de acertar do que ele. O fato é que alguns escrevem livros, outros os leem: sabe deus quem está na melhor posição para entender alguma coisa. O coração de uma terra se concede a quem a vê com adulto maravilhamento, pela primeira vez, ou a quem nasceu lá? Não se sabe. Tudo o que aprendi, quanto a isso, é resumível em poucas linhas. Escreve-se como se poderia fazer amor com uma mulher, mas em uma noite sem luz alguma, nas trevas mais absolutas, e portanto sem vê-la nunca. Depois, na noite seguinte, os primeiros que passarem irão levá-la para jantar, ou para dançar, ou às corridas, mas compreendendo desde o primeiro momento que não conseguirão sequer tocá-la, quanto mais levá-la para a cama. A todos falta um pedaço, e raramente o encantamento se descerra. Na dúvida, eu tendo a confiar em minha cegueira e a tomar por boa a memória da minha pele. Por isso, agora fecharei quatro parênteses, e o farei com pacata segurança, embalado por este trem regional que me leva para o Sul.)))) Voilà.
É lógico que, em tal redemoinho de afazeres, acabou enfraquecendo-se a atenção pelas remessas inglesas, as quais, por sua vez, tinham rareado cada vez mais, em um decréscimo que ninguém, honestamente, sabia interpretar. Chegou um quartilho de cerveja irlandesa, é verdade, mas de modo episódico, tanto que depois foi preciso esperar bem uns sete dias até que aparecesse um pacote, aliás de limitadas dimensões e de conteúdo discutível: aberto este, encontrou-se um livro, ainda por cima usado. A maioria mal registrou essa chegada, e logo a esqueceu, mas não a Noiva jovem, que sem dar a perceber achou um jeito de recuperar o volume e de mantê-lo consigo, em segredo. Não era um livro qualquer, era o Dom Quixote.
Por alguns dias manteve-o escondido em seu quarto e em seus pensamentos. Reiteradas vezes perguntou a si mesma se não corria o risco de superestimar uma brincadeira do acaso, lendo-o como uma mensagem a ela destinada. Com grande atenção, ficou à escuta do próprio coração. Depois pediu ao Pai uma conversa e, autorizada esta, apresentou-se no escritório dele às sete da tarde, quando as incumbências do dia estavam concluídas e já se anunciava o tradicional corre-corre noturno. Tinha se vestido bem. Falou mansamente, mas permanecendo de pé e escandindo cada palavra com grande segurança. Pediu permissão para não partir rumo ao veraneio e ficar na Casa, à espera. Tenho certeza, disse, de que o Filho está para voltar.
O Pai ergueu o olhar de certos papéis que estava organizando e fitou-a, surpreso.
Quer ficar sozinha nesta casa?, perguntou.
Sim.
O Pai sorriu.
Ninguém fica nesta casa quando saímos para o veraneio, disse com serenidade.
Como a Noiva jovem não se moveu, o Pai achou necessário recorrer a uma argumentação definitiva.
Nem sequer Modesto fica nesta casa quando saímos para o veraneio, disse.
Era, objetivamente, um argumento inatacável, e no entanto a Noiva jovem não pareceu muito impressionada.
É que o Filho está para voltar, disse.
É mesmo?
Creio que sim.
Como sabe?
Não sei. Eu sinto.
Sentir é meio pouco, querida.
Mas às vezes é tudo, senhor.
O Pai permaneceu olhando-a. Não era a primeira vez que via aquela branda insolência nela, e a cada vez não conseguia se eximir de ficar fascinado. Era um traço inoportuno, mas ele intuía ali a promessa de uma força paciente que seria capaz de viver, de cabeça erguida, qualquer vida. Por isso, observando a Noiva jovem firme em suas resoluções, por um instante achou que podia ser uma boa ideia contar tudo a ela: avisar-lhe que o Filho havia desaparecido e confessar não ter nenhuma ideia de como resolver o problema. Depois o deteve a suspeita, surgida do nada, de que, onde havia falhado sua abordagem racional do problema, podia ter êxito a ilimitada intensidade daquela moça. Em um instante de estranha lucidez, pensou que o Filho de fato retornaria se ele apenas permitisse àquela jovem que o esperasse verdadeiramente.
Ninguém jamais permaneceu nesta casa quando saímos em veraneio, repetiu, mais para si do que para a Noiva jovem.
É tão importante assim?
Creio que é.
Por quê?
Na repetição dos gestos, detemos o mundo: é como segurar pela mão um menino, para que não se perca.
Talvez não se perca. Talvez apenas comece a correr um pouco, e fique feliz.
Eu não me iludiria muito.
E, também, mais cedo ou mais tarde ele se perderá, não acha?
O Pai pensou no Filho, nas mil vezes em que havia segurado a mão dele.
Pode acontecer, disse.
Por que o senhor não confia em mim?
Por causa de seus dezoito anos, senhorita.
E daí?
Ainda precisa aprender uma série de coisas, antes de pensar que tem razão.
Está brincando, não é?
Estou falando seriíssimo.
O senhor estava com vinte anos quando arrumou uma esposa e um filho, que não havia decidido ter. Alguém lhe disse que o senhor não tinha idade para isso?
O Pai, apanhado de surpresa, fez um gesto vago, no ar.
Esta é uma outra história.
Acha mesmo?
O Pai fez outro gesto indecifrável.
Não, não acha, disse a Noiva jovem. O senhor sabe que estamos todos imersos em uma só história, que começou muito tempo atrás e ainda não acabou.
Sente-se, por favor, senhorita, me inquieta vê-la aí em pé.
E levou uma mão ao coração.
A Noiva jovem se sentou diante dele. Buscou em si mesma uma voz muito calma, e muito doce.
O senhor não acredita que eu possa me arranjar, sozinha, nesta casa. Mas não faz ideia de como era grande e isolada aquela casa na Argentina. Eles me deixavam ali, durante dias. Se eu não tinha medo naquela época, não poderia ter agora, acredite. Sou apenas uma jovenzinha, mas atravessei duas vezes o oceano, e numa dessas vezes, sozinha, para vir até aqui, sabendo que ao fazer isso mataria meu pai. Pareço uma jovenzinha, mas já não o sou há muito tempo.
Eu sei, disse o Pai.
Confie em mim.
O problema não é esse.
E qual é, então?
Não estou habituado a confiar na eficácia do irracional.
Como assim?
A senhorita quer ficar aqui porque sente que o Filho vai chegar, não é?
Sim.
Não estou habituado a tomar decisões com base naquilo que se sente.
Talvez eu não tenha escolhido a palavra certa.
Escolha uma melhor.
Eu sei. Sei que ele voltará.
Com base em quê?
O senhor acha que conhece o Filho?
O pouco que se pode conhecer os filhos. São continentes submersos, nós só vemos o que aflora acima da água.
Mas para mim ele não é um filho, é o homem que amo. O senhor consegue admitir que eu possa saber dele algo mais? Não digo sentir, digo saber.
É possível.
Não lhe basta?
Reapresentou-se ao Pai, como um relâmpago, a dúvida de que, se ele simplesmente permitisse àquela jovem esperar verdadeiramente o Filho, este retornaria.
Fechou os olhos e, apoiando os cotovelos sobre a escrivaninha, levou a palma das mãos ao rosto. Com a ponta dos dedos repassou as rugas, na testa. Ficou assim por longo tempo. A Noiva jovem não disse nada: esperava. Perguntava-se o que poderia acrescentar, para dobrar a vontade daquele homem. Por um instante pensou em lhe falar do Dom Quixote, mas logo compreendeu que apenas complicaria as coisas. Não havia mais nada que ela pudesse dizer, agora se tratava apenas de esperar.
O pai afastou do rosto as mãos e se acomodou com calma na cadeira, apoiando-se no espaldar.
Como sem dúvida lhe contaram naquele dia, na cidade, disse, vejo-me há anos na condição de me dedicar a uma tarefa que assumi e que, com o tempo, aprendi a amar. Esforço-me por organizar o mundo, por assim dizer. Não me refiro ao mundo inteiro, obviamente, mas àquela pequena porção do mundo que me foi atribuída.
Falava com grande tranquilidade, mas selecionando as palavras uma a uma.
Não é uma tarefa simples, disse.
Pegou na mesa um abridor de cartas e começou a girá-lo entre os dedos.
Nos últimos tempos fiquei convencido de que só levarei isso a termo fazendo um gesto de cujos detalhes posso controlar uma parte, infelizmente irrelevante.
Ergueu o olhar para a Noiva jovem.
É um gesto que tem a ver com morrer, disse.
A Noiva jovem não moveu um só músculo.
Assim, com frequência me pego pensando se estarei à altura, prosseguiu o Pai. Devo também levar em conta que, por razões a que eu não saberia dar uma explicação convincente, me vejo enfrentando tanto esta quanto outras provações em completa solidão, ou pelo menos sem a segura presença, ao meu lado, de alguma pessoa adequada. É uma coisa que pode acontecer.
A Noiva jovem assentiu com a cabeça.
Por isso eu estava me perguntando se não seria audácia demais, da minha parte, chegar ao ponto de lhe pedir um favor.
A Noiva jovem ergueu só um pouquinho o queixo, sem mudar o olhar.
O Pai pousou o abridor de cartas sobre a escrivaninha.
Nesse dia, quando eu me vir diante da urgência de executar esse gesto, a senhorita faria a gentileza de permanecer ao meu lado?
Disse isso com frieza, tal como poderia pronunciar o preço de um tecido.
Também é possível, acrescentou, que quando esse dia chegar a senhorita já não esteja em absoluto nesta casa, e aliás é razoável pensar que desde algum tempo antes eu me tenha habituado a não ter notícias suas. Contudo, saberei encontrá-la, e mandarei chamá-la. Não lhe pedirei nada em particular, bastará tê-la perto e conversar com a senhorita, ouvi-la falar. Sei que terei muita pressa ou tempo demais pela frente, nesse dia: pode me prometer que me ajudará a passar da melhor maneira essas horas, ou esses minutos?
A Noiva jovem riu.
O senhor está me propondo uma barganha, disse.
Sim.
Vai me deixar sozinha, nesta casa, se eu prometer vir ao seu encontro, nesse dia.
Exato.
A Noiva jovem riu de novo, depois pensou alguma coisa e voltou a ficar séria.
Por que eu?, perguntou.
Não sei. Mas sinto que é isto mesmo.
Então a Noiva jovem balançou a cabeça, divertida, e recordou que ninguém embaralha as cartas melhor do que um trapaceiro.
De acordo, disse.
O Pai esboçou uma inclinação.
De acordo, repetiu a Noiva jovem.
Sim, disse o Pai.
Depois se levantou, contornou a escrivaninha, dirigiu-se à porta e, antes de abri-la, voltou-se.
Modesto não vai gostar, disse.
Ele também pode ficar, tenho certeza de que se sentiria feliz.
Não, isso está fora de cogitação. Se a senhorita quiser ficar, ficará sozinha.
De acordo.
Tem alguma vaga ideia do que fará em todo o tempo?
Claro. Esperarei o Filho.
É evidente, desculpe.
O Pai continuou ali, sem saber bem por quê. Havia pousado a mão sobre a maçaneta da porta, mas se mantinha ali.
Não tenha medo, ele voltará, disse a Noiva jovem.
A tradição pedia que partissem em dois automóveis espalhafatosos. Nada de particularmente elegante, mas a solenidade da circunstância impunha certa ostentação de grandeur. Habitualmente, Modesto saudava a partida postado na soleira da entrada, embora já pronto para ir embora também, a mala pousada no chão junto de si: como qualquer capitão, considerava seu dever ser o último a abandonar o navio. Naquele ano, topou ao seu lado com a Noiva jovem, e isso por causa da variante que o Pai anunciara de maneira sucinta, durante um dos últimos desjejuns, e que ele havia aceitado sem entusiasmo. O fato de que isso parecesse prenunciar um retorno do Filho tinha-o ajudado a suportar o aborrecimento da novidade.
Assim, estavam na soleira, empertigados, ele e a Noiva jovem, quando os dois automóveis arrancaram, com os pistões pipocando, mãos agitadas no ar em despedida, e gritinhos variados. Eram dois belos automóveis, de cor creme. Percorreram uns dez metros e pararam. Engrenaram a ré e, de maneira um tanto elaborada, voltaram. A Mãe desceu com surpreendente agilidade e correu para a casa. No momento de passar diante de Modesto e da Noiva jovem, murmurou às pressas três palavras.
Esqueci uma coisa.
E desapareceu lá dentro. Saiu alguns minutos depois e, sem sequer cumprimentar os dois, correu para os automóveis e entrou em um deles. Parecia visivelmente aliviada.
E assim os carros partiram de novo, pipocando como na primeira vez, e até mais animados de saudações definitivas e vozes alegres. Percorreram uns dez metros e pararam. Foi preciso recorrer novamente à marcha a ré. Dessa vez a Mãe desceu com uma pontinha de nervosismo. Cobriu em passos decididos a distância que a separava da entrada e desapareceu na casa murmurando quatro palavras.
Esqueci mais uma coisa.
A Noiva jovem se virou para Modesto, com um olhar interrogativo.
Modesto limpou a garganta com duas precisas contrações da laringe, uma breve e outra longa. A Noiva jovem não estava tão adiantada assim na aprendizagem daquela escrita cuneiforme, mas intuiu vagamente que estava tudo sob controle, e ficou tranquila.
A Mãe entrou de volta no carro, os motores deram nova partida e, em uma bolha de ruidoso júbilo, as pessoas se despediram definitivamente e sem lamentações. Dessa vez, antes de parar, percorreram alguns metros a mais. Fizeram a manobra de marcha a ré com certa desenvoltura, resultante da aprendizagem.
A Mãe retornou a casa cantarolando, no mais completo controle de si. Parecia ter as ideias claras. Porém, quando se viu na soleira, bem ao lado de Modesto e da Noiva jovem, foi tomada por um instante de hesitação. Deteve-se. Pareceu concentrar-se em alguma reflexão tardia. Ergueu os ombros e disse três palavras.
Não, tudo bem.
Em seguida deu meia-volta e retornou para os automóveis, sempre cantarolando.
Quantas vezes ela faz isso?, perguntou, séria, a Noiva jovem.
Em geral quatro, respondeu Modesto, imperturbável.
Portanto, não foi surpresa ver os automóveis partirem, deterem-se após certo número de metros, voltarem e cuspirem fora a Mãe, que dessa vez fez o caminho até a casa aparentemente furibunda, pisando forte e recitando à meia-voz uma ladainha ininterrupta da qual a Noiva jovem captou, de passagem, um incerto fragmento.
Que vão todos cagar.
Ou talvez cantar, não dava para entender bem.
A Mãe voltou a emergir da casa, depois de uma ausência mais longa do que as precedentes, apertando na mão um talher de prata e agitando-o no ar. Não parecia menos furibunda do que antes. À sua passagem, a Noiva jovem constatou que a ladainha havia enveredado para o francês. Teve a impressão de reconhecer distintamente a palavra connard.
Mas também podia ser moutarde, não dava para entender bem.
Quando Modesto levantou um braço acenando uma saudação, a Noiva jovem compreendeu que a cerimônia ia se concluir, e então, com sincera alegria, e talvez uma pontinha de pesar, também começou a saudar, agitando uma mão no ar e erguendo-se na ponta dos pés. Viu-os afastar-se, em uma nuvem de poeira e emoção, e por um instante pensou se não teria esperado demais de si mesma. Em seguida viu os dois automóveis deterem-se.
Ah, não, deixou escapar.
Mas dessa vez eles não deram marcha a ré, e não foi a Mãe que saltou do estribo. No meio da poeira, viu-se a Filha correr para a casa, com seu passo torto, mas despreocupada e decidida, até mesmo bonita em sua pressa vagamente infantil. Parou diante da Noiva jovem.
Você não vai fugir, não é?, perguntou com voz firme.
Mas seus olhos estavam reluzentes, e não era por causa da poeira.
Nem pensei nisso, disse, surpreendida, a Noiva jovem.
Pronto, está combinado, você não vai fugir.
Depois se aproximou da Noiva jovem e abraçou-a.
Ficaram assim por alguns instantes.
Ao voltar para os automóveis, a Filha já não tinha a pressa de antes. Afastou-se arrastando seu passo infeliz, mas tranquila. Entrou sem olhar para trás.
Então desapareceram todos atrás da primeira curva, e dessa vez haviam realmente partido.
Modesto deixou que o espocar dos dois automóveis se extinguisse na distância da campina e depois, no silêncio regular do nada, emitiu um leve suspiro e levantou sua mala.
Deixei três livros para a senhorita, escondidos no banheiro. Três textos de certa notoriedade.
É mesmo?
Como já disse, a despensa está cheia de comida, contente-se com refeições frias e não toque na reserva de vinho, a não ser em caso de absoluta necessidade.
A Noiva jovem se esforçou por imaginar qual podia ser um caso de absoluta necessidade.
Deixo-lhe um endereço meu, na cidade, mas não gostaria que a senhorita entendesse mal. Deixo-o apenas porque o Filho, se realmente estiver para chegar, pode precisar de mim.
A Noiva jovem recebeu o papelzinho, dobrado em dois, que ele estendia.
Creio que isso é tudo, concluiu Modesto.
Decidiu que naquele preciso instante estava entrando em férias, portanto se afastou sem dar os primeiros passos para trás, como exigiria seu número mais glorioso. Limitou-se a uma reverência apenas sugerida.
A Noiva jovem deixou-o se afastar um pouco e em seguida o chamou.
Modesto.
Sim?
Não lhe pesa ter que ser sempre tão perfeito?
Não, pelo contrário. Isso me livra de procurar outras finalidades para os meus gestos.
Como assim?
Não preciso ficar me perguntando, a cada dia, por que vivo.
Ah.
É consolador.
Imagino.
Tem outras perguntas?
Sim, uma.
Diga.
O que o senhor faz quando eles viajam e fecham a casa?
Eu me embriago, respondeu Modesto, com imprevisível presteza e despreocupada sinceridade.
Por duas semanas?
Sim, todos os dias, por duas semanas.
Onde?
Tenho uma pessoa que cuida de mim, na cidade.
Posso cometer a indiscrição de perguntar de que tipo de pessoa se trata?
Um homem simpático. O homem que amei por toda a vida.
Ah.
Ele tem uma família. Mas se convencionou que, nos quinze dias das férias, fique comigo.
Muito prático.
Bastante.
Então, o senhor não estará sozinho, na cidade.
Não.
Isso me alegra.
Obrigado.
Trocaram um olhar, em silêncio.
Ninguém sabe disso, informou Modesto.
Evidentemente, disse a Noiva jovem.
Em seguida acenou-lhe com a mão, embora quisesse abraçá-lo, ou mesmo beijá-lo de leve, ou algo do gênero.
Ele compreendeu, e ficou agradecido a ela pelo comedimento.
Foi embora caminhando devagar, meio curvado, e de repente estava longe.
A Noiva jovem entrou em casa e fechou a porta atrás de si.
Foi um verão tórrido, naquele ano. Os horizontes evaporavam sonhos tremulantes. As roupas se grudavam à pele. Os animais se arrastavam, desmemoriados. Era difícil respirar.
Era ainda pior naquela casa, que a Noiva jovem mantinha fechada, com a ideia de fazê-la parecer deserta. O ar estagnava preguiçoso, dormindo uma espécie de úmida letargia. Até as moscas — em geral capazes, como já deve ter sido notado, de inexplicável otimismo — pareciam desanimadas. Mas à Noiva jovem isso não importava. De certo modo, era-lhe até agradável mover-se devagar, a pele brilhando de suor, os pés buscando o conforto da pedra. Como ninguém podia vê-la, com frequência andava nua pelos aposentos, descobrindo sensações estranhas. Não dormia em sua cama, mas em pontos variados da casa. Ocorreu-lhe usar os lugares onde habitualmente via dormir o Tio, e então os habitou um após o outro, no sono. Quando o fazia nua, sentia uma agradável perturbação. Não tinha horários, porque decidira deixar que o ritmo dos seus dias fosse ditado pela urgência de seus desejos e pela asséptica geometria de suas necessidades. Portanto, dormia quando tinha sono, comia quando tinha fome. Mas não se deve pensar que isso a tornasse selvagem. Por todos aqueles dias cuidou meticulosamente de si — afinal, estava esperando um homem. Escovava reiteradas vezes os cabelos, passava longos momentos diante do espelho, permanecia na água durante horas. Uma vez por dia vestia-se com elegância máxima, usando as roupas da Filha ou da Mãe, e sentava-se esplêndida na sala grande, para ler. Volta e meia sentia-se oprimida pela solidão, ou por uma incontrolável angústia, e então escolhia um canto da casa em que recordava haver visto ou vivido algo de notável, e ia refugiar-se ali. Abria as pernas e se acariciava. Como por encanto, tudo se resolvia. Era uma sensação estranha tocar-se na poltrona onde o Pai lhe pedira para morrer ao lado dela. Também foi notável fazê-lo sobre o pavimento de mármore da capela. Quando sentia fome, recuperava alguma coisa na despensa e ia se sentar à grande mesa dos desjejuns. Como já foi mencionado, era tradição deixar vinte e cinco lugares impecavelmente preparados, como se de um momento para outro fosse chegar uma horda de convidados. A Noiva jovem decidiu que a cada vez comeria em um deles. Quando terminava, tirava tudo, lavava, limpava, e deixava sobre a mesa o lugar vazio, prato e talheres desaparecidos. Assim, suas refeições eram como uma lenta hemorragia na qual a mesa perdia sentido e vocação, progressivamente esvaziada de todo adereço e de qualquer ornamento: abria caminho o branco ofuscante da toalha, nu.
Uma vez, no meio de um sono que não havia buscado, foi despertada pela repentina certeza de que esperar um homem, sozinha, naquela casa, era um gesto tragicamente inútil e ridículo. Estava dormindo, nua, sobre um tapete que ela havia desenrolado diante da porta da sala. Procurou alguma coisa com a qual se cobrir, porque sentia frio. Puxou para cima de si um lençol que protegia uma poltrona, ali ao lado. Equivocadamente, repassou sua vida com a mente, para encontrar algo que freasse aquela estranha e repentina queda no vazio. Só conseguiu piorar as coisas. Tudo lhe pareceu errado, ou horrível. Desarticulada a Família, grotesca sua excursão ao bordel, veleidosa qualquer frase sua pronunciada com soberba, enfadonho Modesto, louco o Pai, doente a Mãe, ignóbeis aqueles lugares, sórdido o fim de seu pai, desesperador o destino dos seus irmãos, desperdiçada a sua juventude. Com uma lucidez que só se tem nos sonhos, compreendeu que não possuía mais nada, que não era suficientemente bela para se salvar, que havia matado seu pai e que a Família estava lhe roubando, pouco a pouco, a inocência.
Será que eu devo acabar assim?, perguntou-se, aterrorizada.
Só tenho dezoito anos, pensou, com assombro.
Então, para não morrer, foi se refugiar onde sabia que encontraria a última linha de resistência ao desastre. Obrigou-se a pensar no Filho. Mas pensar é uma palavra redutora para definir uma operação que ela sabia bastante complexa. Três anos de silêncio e de separação não eram fáceis de voltar a percorrer. Havia se sedimentado tanta distância que o Filho, fazia tempo, tinha deixado de ser, para a Noiva jovem, um pensamento facilmente acessível, ou uma lembrança, ou um sentimento. Tinha se tornado um lugar. Um enclave, enterrado na paisagem do seu sentir, que ela nem sempre conseguia reencontrar. Com frequência partia, para alcançá-lo, mas se perdia pelo caminho. Seria mais simples se pudesse dispor de algum desejo físico ao qual se agarrar para escalar as paredes do esquecimento. Mas o desejo pelo Filho — a boca, as mãos, a pele dele — era algo a que não era simples regressar. Ela podia distintamente convocar outra vez à memória certos instantes em que o desejara de modo até mesmo devastador, mas agora, ao observá-los, parecia-lhe observar um aposento onde, em vez de tinta, tivessem sido aplicados às paredes uns papeizinhos com os nomes das cores escritos em cima: índigo, vermelho-veneziano, amarelo-areia. Turquesa. Não era agradável admitir isso, mas assim era. E o era ainda mais, para ela, agora que as circunstâncias tinham-na levado a conhecer outros prazeres, com outras pessoas, com outros corpos: não haviam bastado para cancelar a lembrança do Filho, mas sem dúvida o colocaram em uma espécie de pré-história na qual tudo soava tanto mítico quanto inexoravelmente literário. Por isso, com frequência, voltar a percorrer as pegadas do desejo físico não era, para a Noiva jovem, o melhor sistema para reencontrar o caminho que levava ao esconderijo do seu amor. De vez em quando ela preferia resgatar na memória a beleza de certas frases ou de certos gestos — beleza na qual o Filho era mestre. Então a reencontrava, intacta, na lembrança. E por um instante isso parecia lhe restituir o encanto do Filho e reconduzi-la ao exato ponto a que sua viagem visava. Porém, mais do que tudo, era uma ilusão. Via-se contemplando objetos maravilhosos que no entanto jaziam nos relicários da distância, impossíveis de tocar, inacessíveis ao coração. Assim, ao deleite da admiração mesclava-se a sensação lancinante de uma perda definitiva, e distanciava-se ainda mais o Filho, quase inalcançável, agora. Para não o perder de verdade, a Noiva jovem precisou aprender que, na realidade, àquela altura nenhuma qualidade do Filho — ou detalhe, ou maravilha — era suficiente para fazê-la preencher o abismo da distância, porque nenhum homem, por mais amado que seja, basta por si só para derrotar o poder destrutivo da ausência. O que a Noiva jovem compreendeu foi que somente pensando neles dois, juntos, era capaz de mergulhar dentro de si mesma até o ponto onde, intacta, residia a permanência do seu amor. Retornava então a certos estados de espírito, a certos modos de perceber-se, que ainda recordava muito bem. Pensava neles dois, juntos, e podia sentir de novo certa tepidez, ou o tom de certas esfumaturas, até mesmo a qualidade de certo silêncio. Uma luz particular. Então lhe era dado reencontrar o que procurava, na sensação certa de que existia um lugar onde o mundo não era admitido, e que coincidia com o perímetro desenhado dos dois corpos, suscitado pelo fato de estarem juntos, e tornado inexpugnável pela anomalia deles. Se conseguisse acessar aquela sensação, tudo voltava a ser inofensivo. Porque o desastre de toda vida ao redor, e até da sua, já não era uma emboscada contra sua felicidade, mas, se tanto, a contrapartida que tornava ainda mais necessário o ninho que ela e o Filho haviam gerado, amando-se. Eram a demonstração de um teorema que contestava o mundo e, quando ela conseguia retornar àquela convicção, todo medo a abandonava, e uma nova segurança, doce, apoderava-se dela. Não havia nada mais delicioso no mundo.
Deitada no tapete, enrolada sob aquele lençol empoeirado, foi essa a viagem que a Noiva jovem fez, salvando-se a vida.
Assim, dispunha ainda inteiramente do seu amor quando, dois dias depois, diante de uma mesa sobre a qual haviam restado nove lugares postos, e justamente quando se aprontava a fazer desaparecer mais um, ouviu chegar de longe o rumor de um automóvel, primeiro incerto e a seguir sempre mais claro — ouviu-o chegar diante da casa, estacionar, e por fim se extinguir. Levantou-se, deixou tudo como estava sobre a mesa e foi até seu quarto para se arrumar. Tinha escolhido, havia tempo, um traje para a ocasião, e o vestiu. Escovou os cabelos e pensou que o Filho jamais a vira tão bonita. Não sentia medo, não estava nervosa, não tinha perguntas. Ouviu que o automóvel ligava novamente o motor e depois se afastava. Desceu a escada e atravessou a casa com passo firme, de pés descalços. Quando chegou à porta de entrada, distendeu os ombros, como a Mãe lhe havia ensinado. Depois abriu a porta e saiu.
No pátio externo viu certo número de baús, pousados no chão. Ela os conhecia. Sentado no maior — um bicharoco de couro escuro, levemente riscado de um lado — viu o Tio, vestido como havia partido, e imóvel. Dormia. A Noiva jovem se aproximou.
Aconteceu alguma coisa?
Como o Tio continuava a dormir, sentou-se ao seu lado. Percebeu que ele dormia de olhos semiabertos, e que de vez em quando tremia. Tocou-lhe a testa. Estava ardendo.
O senhor não está bem, disse a Noiva jovem.
O Tio abriu os olhos e fitou-a como se tentasse compreender alguma coisa.
É uma sorte encontrá-la aqui, senhorita, disse.