A Noiva Jovem
A Noiva jovem
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 6 partes.
Modesto sorriu.
É uma definição bastante exata, disse.
Mas tinha afastado ligeiramente da cadeira uma das pernas, e o Pai compreendeu que não podia pedir novamente, àquele homem, que percorresse outra vez com ele as pegadas do próprio extravio. Modesto não nascera para isso, e, se tanto, seu trabalho o destinava a servir exatamente o contrário — gerir algumas certezas, ocorridas na vida, cristalizadas por uma família.
Então o Pai recuperou sua costumeira e branda firmeza.
Amanhã irei à cidade, disse.
Não é quinta-feira, senhor.
Eu sei.
Como preferir.
Levarei comigo a Noiva jovem. Iremos de trem. Conto com você para organizar uma acomodação reservada, o ideal seria viajarmos sozinhos.
Certamente.
Outra coisa, Modesto.
Diga.
O Pai sorriu, porque via aquele homem recuperar as cores, agora que ele o trouxera de volta à superfície de suas tarefas, depois de tê-lo incautamente mergulhado nas profundezas de incertas reflexões. Modesto havia até devolvido a perna ao devido lugar, alinhada com a outra, disposta a permanecer.
Daqui a vinte e dois dias partiremos para o veraneio, disse, com pacata segurança. Nenhuma mudança na programação habitual. Naturalmente, a casa deverá ficar completamente vazia, para repousar, como sempre fizemos.
Depois deu uma resposta genérica a uma pergunta que Modesto não teria coragem de fazer.
O Filho saberá como se comportar, disse, seja lá em que pé andem as coisas.
Bem, disse Modesto.
Esperou um instante e em seguida se levantou. Com licença, disse. Ia iniciando aqueles primeiros passos para trás que precediam a lendária rajada de vento, quando o pai, com uma pergunta, induziu-o a interromper seu número preferido e a erguer o olhar.
Modesto, faz anos que eu queria lhe perguntar: o que você faz quando nós viajamos e fechamos a casa?
Eu me embriago, respondeu Modesto, com imprevisível presteza e despreocupada sinceridade.
Por duas semanas?
Sim senhor, todos os dias, por duas semanas.
Onde?
Tenho uma pessoa que cuida de mim, na cidade.
Posso cometer a indiscrição de perguntar de que tipo de pessoa se trata?
Se for estritamente necessário, senhor.
O Pai pensou um instante.
Não, não creio que seja estritamente necessário.
Modesto fez uma reverência agradecida e se deixou levar pela costumeira lufada. O Pai teve inclusive a impressão de sentir um sopro de brisa, a tal ponto havia chegado a mestria daquele homem. Então, por um tempinho, manteve-se entregue à própria admiração, antes de se levantar e ousar aquilo que, durante a conversa com Modesto, havia imaginado fazer, com certa urgência, até mesmo espantado por não ter tido essa ideia antes. Saiu do escritório e começou a peneirar a casa procurando aquele que desejava encontrar, ou seja, o Tio. Achou-o, obviamente adormecido, no divã do corredor, um daqueles divãs em que ninguém pensa em sentar-se — eles são inseridos em algum espaço para corrigi-lo, simulando uma necessidade a fim de preencher vazios. É a mesma lógica à qual se devem as mentiras, nos casais. O Pai foi buscar uma cadeira e levou-a para perto do divã. Sentou-se. O Tio dormia segurando entre os dedos um cigarro, apagado. Exibia no rosto traços isentos de qualquer pensamento e respirava devagar, no puro exercício de uma necessidade do viver, desprovida de objetivo ulterior ou de fins secundários. O Pai falou em voz baixa, e disse que o Filho tinha desaparecido, e que ele podia perceber isso, a cada momento, no gesto irremediável de apartar-se, de todos e provavelmente de si mesmo. Disse que não conseguia interpretar aquilo como uma possível variante frutífera do seu destino de homem, embora admitisse que podia efetivamente sê-lo, e isso porque jamais acreditara na possibilidade de organizar o mundo, se era permitido que algumas peças desfrutassem do privilégio de desaparecer, verbo que abominava. Assim, estava desarmado e se perguntava se ele, o Tio, podia por acaso devolver-lhe seu filho mais uma vez, como soubera fazer muito tempo antes, de um modo misterioso mas pontual, ou pelo menos ajudá-lo a compreender a etiqueta dos desaparecimentos, visto que parecia conhecer-lhes os detalhes, e talvez até as derradeiras razões. Disse tudo isso torcendo as mãos uma na outra, em um gesto nervoso que não lhe era habitual, e que ele sabia provir da terra para a qual estava viajando, nos passos lentos de sua última peregrinação.
O Tio não se moveu, mas misteriosos eram os ritmos de sua presença, e o Pai ficou esperando, sem pressa. Não acrescentou nada ao que havia dito, a não ser, por fim, um longo silêncio paciente. Até que uma das mãos do Tio se moveu para um bolso, puxando dali uns fósforos. O Tio abriu os olhos, não pareceu perceber a presença do Pai, acendeu o cigarro. Só então se voltou para ele.
Todas aquelas coisas que ele manda, disse.
Com um gesto afastou a fumaça, que parecia dirigir-se para o Pai.
Está se livrando delas, disse.
Não levava aos lábios o cigarro, deixava-o fumar-se a si mesmo, como se acendê-lo tivesse sido um gesto de cortesia para com ele.
Eu não havia percebido isso. Alguém havia percebido?, perguntou.
O Pai disse que a ele as remessas tinham parecido um modo curioso de voltar, talvez até um modo bonito: um pouco a cada vez. Parecia um modo feliz de voltar.
Em vez disso, ele estava indo embora, disse.
O Tio olhou o cigarro, concedeu-lhe mais alguns segundos e depois o apagou em um jarro de flores que havia tempo estava habituado à coisa.
Pois é, disse.
Em seguida fechou os olhos. Dormindo, acrescentou que ninguém desaparece para morrer, mas alguns o fazem para matar.
Mas sem dúvida, havia sentenciado alegremente a mãe, é óbvio que a moça deve ver a cidade, do contrário que possibilidade terá de compreender uma catedral gótica ou o meandro de um rio. Na cidade não havia nem catedrais góticas nem meandros de rios, mas a ninguém ocorreu fazê-la notar a coisa (muitos dos seus silogismos eram de fato imperscrutáveis). Estava-se no meio do desjejum, as torradas começavam a arrefecer, e o Pai e a Noiva jovem terminavam os preparativos em seus quartos. Só não compreendo por que de trem, continuou a Mãe. Quando se tem um automóvel, quero dizer. O Farmacêutico, notório hipocondríaco, e por conseguinte insolitamente adequado ao próprio ofício, deflagrou uma reflexão sobre os riscos das viagens, fosse qual fosse o modo pelo qual se pretendesse realizá-las. Com certo orgulho, sublinhou que ele jamais percorrera uma distância que excedesse trinta e cinco quilômetros a partir de sua casa. Para isso é necessária certa constância, admitiu a Mãe. É uma das minhas virtudes, disse o Farmacêutico. E uma surpreendente dose de estupidez, completou a Mãe. O Farmacêutico fez uma reverência e murmurou Obrigado, porque havia bebido e somente à noite, depois, em casa, reconstituiu a sequência inteira, compreendendo então que algo lhe havia escapado. Não pensou muito no assunto. A esposa, uma megera dez anos mais velha do que ele e tinha um hálito famoso em toda a região, perguntou se alguma coisa o incomodava. Além de você?, perguntou o Farmacêutico, que na juventude tivera seus momentos de esplendor.
E assim viram-se no trem. Modesto havia trabalhado bem, e um vagão inteiro se oferecia à solidão daqueles dois, enquanto nos outros as pessoas se acotovelavam entre bagagens e gritos de crianças. É incrível o que se pode obter quando se dispõe de muito dinheiro e de certa vocação para a prodigalidade.
O pai se sentou no sentido do avanço do trem, e isso por causa da inexatidão do coração e de uma tão meticulosa quanto idiota recomendação do seu cardiologista, o dr. Acerbi. A Noiva jovem se vestira com uma elegância castigada, porque havia optado por um perfil algo discreto. Efetivamente, ao vê-la partir, a Mãe torcera o nariz. Ela vai se encontrar com freiras?, havia perguntado ao seu vizinho no desjejum, sem dar importância ao fato de que este era o monsenhor Pasini. Mas, quando se tratava de falar, a Mãe não se preocupava com escolher os interlocutores. Provavelmente imaginava falar ao mundo, quando falava. É um erro que muitos cometem. É possível, tinha respondido gentilmente o monsenhor Pasini. Anos antes, ele perdera a cabeça por uma freirinha do Carmelo, mas naquele momento a coisa não lhe voltou à mente.
Tendo partido o trem — no qual, por outra recomendação do já citado dr. Acerbi, eles embarcaram com uma hora de antecedência, a fim de evitar qualquer probabilidade de estresse —, o Pai pensou que era o caso de iniciar a operação à qual, com certa ferocidade, decidira aplicar-se naquele dia.
Deve ter se perguntado por que eu a levo comigo, disse.
Não, respondeu a Noiva jovem.
E por um tempinho a conversa teve dificuldade de decolar.
Mas o Pai tinha uma missão a cumprir, estudada milimetricamente, e portanto esperou que o plano se recompusesse com clareza em sua mente, abriu a pasta com a qual sempre se dirigia à cidade (com frequência não continha nada, mas ele gostava de ter algo a não esquecer pelo caminho) e dali tirou uma carta. Estava aberta e carregada de selos.
Recebi esta aqui faz alguns dias, da Argentina. Temo que a senhorita deva lê-la.
A Noiva jovem deu uma olhada no envelope, mas do mesmo modo como poderia olhar um prato de aspargos depois de ter vomitado.
Prefere que eu a resuma?, perguntou o Pai.
Eu preferiria que o senhor a guardasse de volta na pasta, se é para falar a verdade.
Isso é impossível, disse o Pai. Ou melhor: inútil, esclareceu.
Então eu preferiria um resumo.
De acordo.
O trem chacoalhava.
Recebi notícias de sua família, começou ele. Não são boas, completou.
Depois, visto que a Noiva jovem não esboçava reação, decidiu entrar no cerne do assunto.
Temo ter de informar a senhorita que, no dia seguinte ao de sua partida da Argentina, seu pai foi encontrado em um fosso, afogado em dois palmos de água e lama.
A Noiva jovem não moveu um só músculo. O Pai prosseguiu.
Ele estava voltando de uma noitada não sei onde, provavelmente bêbado, ou prefiro pensar que o cavalo empinou de repente e o jogou no chão. Provavelmente uma fatalidade, um revés da sorte.
Não é um fosso, disse a Noiva jovem. É um rio, uma miséria de rio, o único que corre por aquelas paragens.
O Pai imaginava um tipo diferente de reação, para a qual tinha se preparado. A carta lhe escapou da mão e ele precisou se inclinar para recolhê-la.
Nenhum revés da sorte, prosseguiu a Noiva jovem. Ele tinha prometido fazer isso e fez. Deve ter se embriagado como um animal e depois se jogou.
Sua voz era duríssima, e calma. Mas o Pai lhe viu lágrimas nos olhos.
Sabe de mais alguma coisa?, perguntou a Noiva jovem.
Deixou um estranho testamento, escrito no mesmo dia de sua morte, disse o Pai, com cautela.
A Noiva jovem assentiu com a cabeça.
O trem chacoalhava.
Deixou metade de seus haveres para a esposa, e a outra metade para os filhos, disse o Pai.
Todos os filhos?
Pois é, este é o ponto, digamos assim.
Digamos.
Devo informar-lhe que a senhorita não é citada.
Agradeço ao senhor pela prudência, mas preferiria evitar eufemismos, sei o que posso esperar.
Digamos que a senhorita é citada, mas em um contexto um tanto… eu diria severo.
Severo.
Há somente uma frase dedicada à senhorita.
Uma frase que diz o quê?
Aparentemente, seu pai desejava que a senhorita fosse amaldiçoada, por todos os dias que ainda vai viver. Cito de cor, e me desculpo profundamente.
As lágrimas começaram a correr pelo rosto da Noiva jovem, que no entanto mantinha a coluna empertigada, e os olhos fixos no Pai.
Mais alguma coisa?, perguntou.
Isso é tudo, disse o Pai.
Como o senhor sabe todas essas coisas?
Eu me mantenho informado, quem quer que se dedique ao comércio faz isso.
O senhor negocia com comerciantes da Argentina?
Pode acontecer.
A Noiva jovem nem sequer procurava esconder as lágrimas, ou enxugá-las de algum modo. Em sua voz, porém, não havia sombra de lamento ou de surpresa.
O senhor se incomoda se ficarmos um pouco em silêncio?, indagou.
Imagine, eu a compreendo muito bem.
Pelas janelas do trem passaram muitas campinas, sempre iguais, enquanto a Noiva jovem se mantinha em um silêncio de ferro, e o Pai fitava o vazio, repassando seus pensamentos. Desfilaram estaçõezinhas de nomes pungentes, campos de trigo engordados pelo calor, casebres sem poesia, campanários mudos, telhados, estábulos, bicicletas, seres humanos surdos, curvas de estradas, renques de plantas, e em certo momento um circo. Somente quando a cidade estava iminente a Noiva jovem pegou um lenço, secou as lágrimas e ergueu o olhar para o Pai.
Eu sou uma moça sem uma família e sem um centavo, disse.
Sim, concordou o pai.
O Filho sabe disso?
Não me pareceu que houvesse especial urgência de informá-lo.
Mas vai saber.
É inevitável, mentiu o Pai, sabendo que a questão era um pouco mais complicada.
Para onde o senhor está me levando?
Como assim?
Está me levando embora?
O Pai escolheu um tom firme, queria que a Noiva jovem soubesse o quanto ele dominava a situação.
Absolutamente não, a senhorita por enquanto permanecerá com a Família, quanto a isso não vale a pena nem mesmo iniciar uma conversa. Eu desejava apenas que nós dois ficássemos sozinhos, para poder comunicar as notícias que lhe interessavam. Não estou levando-a embora.
Para onde, então?
Para a cidade, senhorita, peço-lhe apenas que me siga.
Eu queria voltar para casa. É possível?
Naturalmente. Mas posso pedir que não o faça?
Por quê?
O Pai adotou um tom a que raramente recorria, e que jamais havia usado com a Noiva jovem. Implicava a admissão a alguma confidência.
Veja, não foi agradável para mim tratar de coisas que lhe diziam respeito, e não fiquei feliz por receber, antes da senhorita, notícias que só marginalmente me cabem. Tive a desagradável sensação de haver lhe roubado algo.
Fez uma breve pausa.
Então, achei que ficaria aliviado à ideia de que também a senhorita pudesse conhecer circunstâncias que ignora, e que até exerceram e ainda exercem uma grande influência sobre a vida da Família, e em particular sobre a minha.
A Noiva jovem ergueu o olhar e mostrou um estupor que, ao ouvir a notícia sobre seu pai, ela sequer havia esboçado.
Vai me contar algum segredo?, perguntou.
Não, eu não seria capaz disso. E também tendo a evitar situações emocionalmente muito envolventes, por razões de cautela médica, como talvez a senhorita possa compreender.
A Noiva jovem assentiu com um leve aceno de cabeça.
O Pai prosseguiu.
Creio que o melhor é ir comigo até onde a estou levando, é um lugar onde alguém saberá lhe contar aquilo que é muito importante para mim que a senhorita saiba.
Buscou a exatidão das palavras concentrando-se na abotoadura de um pulso.
Já aviso que em um primeiro momento o lugar lhe parecerá pouco apropriado, sobretudo depois da notícia que acaba de receber, mas pensei muito e tenho a presunção de crer que a senhorita é uma jovem pouco inclinada aos lugares-comuns, e portanto me convenci de que não se perturbará, e por fim compreenderá que não havia outro modo.
Por um instante a Noiva jovem pareceu ter algo a dizer, mas depois se limitou a dirigir o olhar para a janelinha do trem. Viu que a grande estação os estava engolindo com seu palato de ferro e vidro.
E o que você faz em toda esta solidão?, me perguntou L., enquanto inspecionava, horrorizada, a ordem maníaca da minha casa.
Escrevo meu livro, respondi.
E você, o que veio fazer nesta minha solidão?, perguntei, notando que ela ainda tinha os mesmos lábios de antes, lábios difíceis de compreender.
Vim ler seu livro, respondeu.
Mas com aquele olhar que eu conheço. Todos se irritam um pouco, ao seu redor, quando faz meses, talvez anos, que você trabalha em um livro que ninguém leu ainda. No fundo, no fundo, pensam que você não o está verdadeiramente escrevendo. O que esperam é encontrar em sua gaveta uma montanha de folhas de papel nas quais está escrito milhares de vezes Só trabalho sem diversão faz de Jack um bobão. Só vendo a surpresa deles, quando descobrem que você escreveu o livro para valer. Babacas.
Passei-lhe as folhas impressas, ela se reclinou em um sofá e, fumando, começou a ler.
Fazia anos que eu a conhecia. Uma vez ela me fizera compreender que estava morrendo, mas talvez fosse só infelicidade, ou médicos incompetentes. Agora tem duas crianças e um marido. Dizia coisas inteligentes, sobre aquilo que eu escrevia, enquanto fugíamos para quartos de hotel a fim de nos amarmos, desajeitados mas obstinados. Ela sempre disse coisas inteligentes inclusive sobre as pessoas de verdade, e às vezes sobre como vivíamos nós. Talvez eu esperasse que ela pudesse reabrir o mapa da Terra e me mostrar onde eu estava — eu sabia que, no caso, ela o faria com certa beleza nos gestos, porque lhe era inevitável. Por isso lhe respondi quando me escreveu, ressurgindo do nada em que desaparecera. Não é uma coisa que faço, ultimamente. Não respondo a ninguém. Não pergunto nada a ninguém. Não devo pensar nisso, do contrário fico incapaz de respirar, pelo horror.
Agora ela se reclinava no sofá, lendo o que estava impresso naquelas folhas, em vez de Só trabalho sem diversão faz de Jack um bobão. Deve ter levado nisso uma hora — ou um pouco mais. Por todo esse período, fiquei quieto, olhando-a e procurando um nome para aquela película que, passado o tempo, permanece sobre as mulheres que outrora amamos, sem que os dois verdadeiramente se deixassem, ou se odiassem, ou se engalfinhassem — simplesmente se separaram. Isso não deveria me importar muito, agora que já não tenho nomes praticamente para nada, mas a verdade é que tenho uma conta em suspenso, com aquele nome, faz anos que me escapa. Quando estou pertíssimo de capturá-lo, ele se enfia em uma rachadura invisível da parede. E depois não há jeito de fazê-lo sair. Resta o perfume de uma atração sem nome, e aquilo que não tem nome é inquietante.
No final ela se espreguiçou, pousou as folhas no chão e se virou de lado para me olhar bem. Ainda era bonita, quanto a isso não havia dúvida.
Para onde diabos ele a está levando?
Queria saber do Pai e da Noiva jovem.
Eu disse para onde.
Para um bordel?, perguntou, sem convicção.
Muito elegante, respondi. Imagine um salão, imerso em luzes discretas e cuidadosamente disseminadas, e com muita gente de pé ou nos divãs, garçons pelos cantos, bandejas, cristais, você poderia tomar a cena por uma festa muito comportada, mas a normalidade era rompida pelo fato de haver pouca distância, em geral, entre os rostos — as mãos destacavam gestos inadequados, como o deslizar da palma por baixo da barra de uma saia, ou os dedos brincavam com um cacho de cabelo, com um brinco. Eram detalhes, mas destoavam de todo o resto, e ninguém parecia se dar conta disso, ou ficar perturbado. Os decotes não escondiam, os sofás predispunham a posições escorregadias, os cigarros viajavam de boca em boca. Parecia que alguma urgência havia trazido à superfície vestígios de um despudor que em regra jazia sepultado sob as conveniências: uma escavação arqueológica poderia, de igual modo, fazer reaflorarem, do piso de uma basílica, placas de um mosaico obsceno. A Noiva jovem ficou atordoada pelo espetáculo. Pelo levantar-se de alguns casais, e pelo desaparecimento destes através de portas que abriam para em seguida fechá-las atrás de si, intuiu que o salão era um plano inclinado, e a destinação de todos aqueles gestos, um alhures labiríntico escondido em alguma parte do prédio.
Por que me trouxe aqui?, perguntou.
É um lugar muito especial, disse o Pai.
Isso eu entendi. Mas o que é?
Uma espécie de clube, digamos.
São todos de verdade?
Não sei se compreendi a pergunta.
São atores, é um espetáculo, ou o quê?
Oh, se o que a senhorita esperava era isso, não, absolutamente não. Não é esse o objetivo.
Então, é o que eu pensei.
Provavelmente. Mas está vendo aquela mulher que vem ao nosso encontro, sorridente, muito elegante?, pronto, tenho certeza de que ela conseguirá lhe explicar tudo e deixá-la à vontade.
A Mulher elegante segurava uma taça de champanhe entre os dedos, e quando chegou diante deles debruçou-se para beijar o Pai, murmurando-lhe ao ouvido algo secreto. Em seguida voltou-se para a Noiva jovem.
Ouvi muito falar de você, disse, antes de se debruçar para beijá-la uma vez, numa bochecha. Evidentemente havia sido linda, quando moça, e agora não aparentava ter necessidade de demonstrar mais nada. Usava um vestido esplêndido, mas sem decote, e nos cabelos exibia joias que à Noiva jovem pareceram antigos troféus.
Porque imaginei — disse eu a L. — esta Mulher elegante e a Noiva jovem sentadas naquela grande festa ambígua, mas em um divãzinho um pouco afastado dos outros, esfumado em uma luz indireta, fraca, quase fechadas em uma bolha particular, próxima da imprudente exultação dos outros, mas soprada no vidro de suas palavras. Sempre as vi beber alguma coisa, vinho ou champanhe, e sei que de vez em quando lançavam um olhar ao redor, mas sem ver. Sei que a ninguém ocorreria aproximar-se delas. A Mulher elegante tinha uma tarefa a cumprir, mas sem pressa, e uma história a contar, mas com prudência. Falava lentamente e pronunciava o nome das coisas sem embaraço, porque isso fazia parte de seu ofício.
Que ofício?, me perguntou L.
A Mulher elegante riu com uma bela risada, cristalina. Como assim, que ofício, mocinha? O único que se pode exercer aqui.
Ou seja?
Os homens pagam para se deitar comigo. Estou simplificando um pouco, obviamente.
Tente não simplificar.
Bem, eles também podem pagar para não se deitar comigo, ou para falar enquanto me tocam, ou para me ver trepar, ou para serem olhados, ou…
Entendi, pode parar.
Foi você quem pediu que eu não simplificasse.
Sim, claro. Incrível.
O que é incrível, querida?
Que existam mulheres com um ofício desses.
Oh, não só mulheres, é uma coisa que os homens também fazem. Se observar ao redor com um mínimo de atenção, você encontrará senhoras de certo frescor que parecem gastar seu dinheiro com incauta originalidade. Ali adiante, por exemplo. Mas também aquela moça, aquela alta, que está rindo. O homem com quem ela ri não é de se desprezar, certo? Posso lhe assegurar que está sendo comprado por ela.
Dinheiro.
Dinheiro, sim.
Como é que alguém acaba fazendo amor por dinheiro?
Oh, há muitos motivos.
Como?
Por fome. Por tédio. Por acaso. Por ter talento para isso. Para se vingar de alguém. Por amor a alguém. Basta escolher.
E não é terrível?
A Mulher elegante disse que não sabia mais. Talvez, disse. Mas acrescentou que seria bobagem não compreender que havia algo de muito intrigante em ser puta, e esta é a razão por que, sentado diante de L., que reclinada no sofá me olhava, virada de lado, acabei perguntando se por acaso já lhe acontecera pensar que havia algo de muito intrigante em ser puta. Respondeu que sim, que lhe acontecera pensar isso. Depois ficamos em silêncio por um bom tempo.
Por exemplo, despir-se para alguém que você não conhece, disse ela, deve ser bom. Ou mesmo outras coisas, disse.
Que coisas?
Perguntei-lhe isso porque recordava este traço bonito dela, não ter vergonha de dar nome às coisas.
Olhou-me demoradamente, estava procurando um limite.
Os minutos precedentes, ou as horas, esperando. Sabendo que você está prestes a transar, mas sem saber com quem.
Disse isso lentamente.
Vestir-se sem sentir vergonha.
A curiosidade, descobrir corpos que você jamais escolheria, pegá-los, tocá-los, poder tocá-los.
Ficou um pouco em silêncio.
Olhar-se no espelho tendo em cima de você um homem a quem nunca viu antes.
Olhou para mim.
Fazê-los gozar.
Sentir-se assustadoramente bela, disse a Mulher elegante. Já aconteceu com você?
Uma vez, uma manhã, disse a Noiva jovem.
Talvez até se sentir desprezada, disse L., mas não sei, talvez. Talvez me agradasse transar com alguém que me despreza, não sei, deve ser uma sensação fortíssima e não é uma coisa que aconteça na vida da gente.
E muitas outras coisas que não acontecem na vida, disse a Mulher elegante.
Mas agora chega, disse L.
Por quê?
Paremos com isso, vamos.
Continue.
Não, agora chega, disse a Mulher elegante.
Sim, disse a Noiva jovem.
Tenho uma história para contar. Prometi ao Pai.
Precisa mesmo fazer isso?
Sim.
Conte-me uma história, eu prefiro, disse L.
Era a história do Pai.
Que comparecia àquele bordel duas vezes ao mês, por exigências sobretudo médicas, com o objetivo de desafogar os humores do corpo e assegurar certo equilíbrio ao organismo. Raramente a coisa ultrapassava os limites emocionais de uma doméstica medicação, consumada no prazer da conversa e com uma polidez de cerimônia do chá. Nem sequer faltavam as ocasiões em que à enfermeira da vez cabia repreender com garbo o Pai — Definitivamente, hoje resolvemos nos deixar levar pela preguiça, hein? —, e isso segurando o sexo dele entre os dedos com grande mestria, mas escassos resultados. Então se suspendia a conversa, e a enfermeira pegava a mão do Pai para metê-la entre as coxas — outras vezes descobria um seio e o oferecia aos lábios dele. Bastava isso para realinhar o procedimento ao seu objetivo, e conduzir o Pai ao amplo delta de um orgasmo compatível com a inexatidão do seu coração.
Se tudo isso pode parecer tediosamente asséptico, ou mesmo cínico, ou exageradamente médico, ainda assim convém lembrar que no alvorecer de tudo, muitos anos antes, esta história havia sido, ao contrário, uma história de ferozes paixões — disse a Mulher elegante à Noiva jovem — e de amor, e de morte, e de vida. Você não sabe nada do Pai do Pai, disse-lhe, mas na época todos sabiam dele, porque era um homem que se destacava gigantesco no panorama prudente destas terras. Foi ele quem inventou a riqueza da Família, quem lhe cunhou a lenda e tornou-lhe imutável a felicidade. Foi o primeiro a não ter nome, porque as pessoas, todas, se referiam a ele como o Pai, intuindo que não era apenas um homem, mas uma origem, um início, um tempo antigo, a hora sem precedentes e a primeira terra. Antes dele talvez não tivesse existido nada, e por isso ele era para todos, e de tudo, O Pai. Era um homem forte, calmo, sensato e de uma feiura encantadora. Não fez uso da juventude, porque esta lhe serviu para inventar, para construir, para combater. Quando completou trinta e oito anos, ergueu a cabeça e viu que tudo o que havia imaginado estava concluído. Então partiu rumo à França e não deu notícias, até que, alguns meses depois, voltou para casa trazendo consigo uma mulher que tinha sua mesma idade e não falava a nossa língua. Desposou-a, recusando-se a fazer isso na igreja, e um ano depois ela morreu ao parir um filho que por toda a vida carregaria, em memória dela, uma inexatidão no coração: hoje você o chama o Pai. O luto durou nove dias, e não duraram mais do que isso a consternação e o estupor, já que o Pai do Pai não acreditava na infelicidade, ou ainda não tinha compreendido o objetivo dela. E assim tudo voltou a ser como antes, com o imperceptível acréscimo de um menino, e outro, mais vistoso, de uma promessa: disse, o Pai do Pai, que nunca mais amaria nem desposaria outra mulher no mundo. Tinha então trinta e nove anos, estava na plenitude de sua força, de seu mistério e de sua feiura encantadora: a todos, isso pareceu um desperdício, e a ele não escapou o risco de uma insensata renúncia ao desejo. De modo que se dirigiu à cidade, adquiriu um edifício apartado mas suntuoso e ali mandou construir, no último andar, um local em tudo idêntico àquele onde, em Paris, havia conhecido a mulher francesa. Olhe ao seu redor e verá. Não mudou praticamente nada, desde então. Imagino que uma pequena parte da riqueza a que você terá acesso com seu casamento venha daqui. Mas o que interessava ao Pai do Pai não era o lado financeiro da coisa. Durante vinte e dois anos, duas vezes por mês, sempre numa quinta-feira, ele entrou por aquela porta, porque havia prometido a si mesmo carregar até a morte um coração que não admitisse o amor e um corpo que não aceitasse privações. Uma vez que era o Pai, não imaginava fazê-lo de outra maneira que não em um cenário luxuoso e em um clima de festa coletiva e permanente. Por todo aquele tempo, as mulheres mais ricas, mais ambiciosas, mais solitárias ou mais belas da cidade tentaram em vão subtraí-lo à sua promessa. Era um assédio com o qual ele se comprazia, mas se mantendo inacessível por trás das paredes de suas recordações e escoltado pela cintilação de suas putas. Até o momento em que uma mocinha ficou obcecada por ele. Dispunha de uma beleza esplendorosa e de uma inteligência imprevisível, mas o que a tornava perigosa era algo de mais impalpável e desconhecido: era livre, e o era com tal ilimitada naturalidade que inocência e ferocidade eram indistinguíveis nela. Provavelmente começou a desejar o Pai do Pai antes mesmo de vê-lo: talvez tenha sido atraída pelo desafio, decerto lhe agradou aplicar-se a uma lenda. Sem hesitações, tomou uma iniciativa surpreendente, que ela achou simplesmente lógica: veio trabalhar aqui e o esperou. Um dia ele a escolheu, e a partir daquele dia ela foi a única escolhida. Durou longamente: por todo aquele tempo, nunca se viram uma só vez fora daqui. Por isso, ao Pai do Pai devem ter parecido inviolada sua própria firmeza e intacta sua promessa: tarde demais percebeu que o inimigo já se apossara, e não mais existiam promessa nem firmeza. Teve certeza absoluta disso quando a mocinha lhe avisou, sem alarde, que esperava um bebê. É difícil dizer se o Pai do Pai contemplou a possibilidade de redesenhar sua vida sobre aquela paixão tardia e sobre aquela progênie imprevista, porque, se o fez, não lhe foi dado o tempo para dizê-lo a si mesmo e ao mundo: morreu, uma noite, entre as pernas da mocinha, em um movimento do ventre, na penumbra de um quarto que desde então mais ninguém usou. Se você ouvir dizer que foi uma inexatidão do coração a traí-lo, finja acreditar. Mas foram obviamente a inquietação, a surpresa, talvez o cansaço, talvez o alívio de não precisar inventar para si um fim diferente. A mocinha ficou ali, apertando-o entre as pernas, acariciando-lhe os cabelos, falando-lhe em voz baixa de viagens e inventores, por todo o tempo que foi necessário para mandar alguém até o campo, a fim de avisar as pessoas em casa. Fez-se tudo com uma discrição aprendida de cor, e isso porque muitos homens morrem nos bordéis, mas nenhum homem morre em um bordel, como se sabe. Por isso todos sabiam exatamente o que fazer, e como fazer. Um pouquinho antes do alvorecer, chegou o Filho. Hoje você o chama o Pai, mas ele estava então com pouco mais de vinte anos e, por causa da inexatidão do coração, tinha fama de rapaz esmaecido, elegante e misterioso. No bordel fora visto poucas vezes, e nessas poucas vezes dificilmente as pessoas se deram conta de sua passagem. Confiava apenas em uma mulher, uma moça portuguesa que em geral trabalhava para certas senhoras entediadas, muito ricas: mandavam-lhe as filhas, para aprender. Foi ela quem se dirigiu a ele, naquela noite. Levou-o para um quarto, deitou-se ao seu lado e contou o que ele estava prestes a ver, explicando-lhe cada coisa e respondendo a todas as suas perguntas. Certo, disse ele. Levantou-se e foi até onde estava o pai. Naquele preciso momento, a Família era pouco mais do que uma hipótese, pendente da vida ainda não nascida de um bebê equivocado e da saúde precária de um rapaz. Mas ninguém compreendera de que rapaz se tratava, e ninguém podia saber que a intimidade cotidiana com a morte nos torna perspicazes e ambiciosos. Sentou-se numa poltrona, em um canto do quarto, e, mantendo as duas mãos pressionadas sobre o coração, a fim de protegê-lo, permaneceu longo tempo olhando o dorso pétreo de seu pai, e o rosto daquela jovem que falava em voz baixa, pernas abertas, velando um morto. Compreendeu que algo de estranho se desarrumara, no destino da Família, algo pelo qual ficara difícil separar o nascer do morrer, o construir do destruir, e o desejar do matar. Perguntou a si mesmo se fazia algum sentido opor-se à inércia da sorte, e se deu conta de que lhe bastariam uns dez minutos para arruinar tudo. Mas ele não tinha nascido, nem sua mãe tinha morrido, para isso. Levantou-se e mandou chamar o fiel serviçal com quem havia chegado — um homem de excepcional dignidade. Disse-lhe que o Pai morrera em casa, na própria cama, às três e quarenta e dois da madrugada, vestido em seu melhor pijama e sem ter tido tempo de pedir ajuda. Claro que sim, disse o serviçal. Provavelmente uma inexatidão do coração, disse o Filho. É óbvio, disse o serviçal, enquanto já se aproximava da mocinha e, com uma frase inesquecível — Permite? —, se inclinava sobre o corpo do Pai. Com uma força insuspeitável, tomou-o nos braços. Depois deu um jeito de fazer o corpo desaparecer do bordel de maneira invisível, sem estragar o prazer e a festa que, entre estas paredes, eram e são uma obrigação inflexível, sempre. Tendo ficado sozinho com a jovem, o Filho se apresentou. Perguntou-lhe se sabia algo sobre ele. Tudo, respondeu a jovem. Ótimo, isso nos fará poupar tempo, comentou o Filho. Em seguida lhe explicou que os dois se casariam e que o bebê que ela trazia no ventre havia sido gerado com ele e seria para sempre o amado filho do casal. Por quê?, perguntou a mocinha.
Para reorganizar o mundo, respondeu ele.
Na manhã seguinte, ordenou que o luto durasse nove dias, contados a partir da data do enterro. No décimo, anunciou seu casamento com a mocinha, e no primeiro dia de verão o matrimônio foi celebrado com inesquecível regozijo. Três meses depois a jovem pariu, sem morrer, um filho homem, que você dentro em pouco desposará: desde então, todos a chamam a Mãe. Na casa que você conheceu, ela se tornou mulher, de modo diligente, e é a luz que permite, àquele homem que agora todos chamam o Pai, viver na penumbra, enquanto com ferocidade mantém o mundo em ordem. Existe algo que os liga, mas obviamente a palavra amor, neste caso, não explica nada. É mais forte o segredo que compartilham, assim como a tarefa que escolheram para si. Um dia, quando já fazia um ano que viviam sob o mesmo teto, sem jamais dividir a cama, sentiram-se suficientemente fortes para desafiarem juntos os dois medos que se haviam habituado a associar ao sexo: ele de morrer, ela de matar. Fecharam-se num quarto e só saíram quando tiveram certeza de que, se existia um encantamento sobre eles, tinham-no desfeito. Por isso existe a Filha, que naquelas noites foi concebida: se a sorte a quis aleijada e belíssima, foi sem dúvida para escrever uma mensagem cifrada, que ninguém conseguiu compreender ainda. Mas é só questão de tempo, mais cedo ou mais tarde se saberá. Quando você organiza o mundo, diz o Pai, não pode ser também você a decidir em qual velocidade ele lhe permitirá fazer isso. Queria que eu lhe contasse esta história, não sei por quê. Contei. Agora não me olhe assim e acabe seu vinho, mocinha.
Mas a Noiva jovem permaneceu imóvel, o olhar cravado na Mulher elegante. Parecia escutar, absorta, palavras que se haviam atrasado ao longo do caminho e agora se acotovelavam retardatárias, desprovidas de qualquer som. Instintivamente, recebia-as com enfado. Perguntava-se o que acontecera àquele dia para torná-lo tão efeminado, a ponto de desfazer qualquer segredo e despedaçar o dom da ignorância. Não compreendia o que desejava dela essa gente, repentinamente ávida e generosa de verdades que lhe pareciam arriscadas. Sem refletir, lançou uma pergunta, mordendo as palavras.
Se é uma história secreta, como é que você a conhece?
A Mulher elegante não abriu mão de sua leveza.
Eu nasci em Portugal, ensino sexo às mocinhas da alta sociedade, disse.
Você.
Precisa de alguma lição?
Não preciso de nada.
Não precisa de nada, certo.
Ou talvez de uma coisa.
Diga.
Poderia me deixar sozinha um pouco?
A Mulher elegante não respondeu. Limitou-se a erguer os olhos para a sala, mas como se os baixasse sobre um tabuleiro no qual alguém tinha iniciado uma partida cujo resultado ela era capaz de prever, sem incertezas. Em seguida, o que fez foi descalçar com certa lentidão as esplêndidas luvas de seda, que eram vermelhas e longas, até acima do cotovelo, e pousá-las no colo da Noiva jovem.
Quer ficar sozinha, disse.
Sim.
Certo.
Levantou-se, a Mulher elegante, sem desapontamento, sem pressa, sem nada. Devia ter se levantado daquele modo de muitos divãs, muitos leitos, muitas alcovas, muitas vidas.
L. também se levantou, mas não com a mesma paz, não conhecia paz, que eu soubesse. Esticou-se e olhou a hora.
Caralho.
Precisa ir embora?
Já devia ter ido há um tempão.
Você foi embora há um tempão.
Não nesse sentido, seu bobo.
Quando foi embora você esqueceu em cima da cama um maço de cigarros, pela metade. Andei com ele durante meses. De vez em quando fumava um. Por fim acabaram.
Não comece.
Não estou começando.
E pare de se matar nesta porcaria de alojamento que parece a toca de um maníaco.
Chamo um táxi para você?
Não, estou de carro.
Vestiu a jaqueta e, no reflexo de uma janela, deu uma ajeitada nos cabelos. Depois ficou parada um instante, de pé, me encarando, pensei que ela estivesse decidindo se me daria um beijo de despedida, mas na realidade estava pensando em outra coisa.
Por que todo aquele sexo?
Como assim?
No livro, todo aquele sexo.
Quase sempre há sexo, nos meus livros.
Sim, mas neste é uma obsessão.
Acha?
Você sabe disso.
Obsessão me parece um pouco exagerado.
Pode ser. Mas evidentemente existe alguma coisa que o atrai, nisso de escrever sobre sexo.
Sim.
O que é?
O fato de ser difícil.
L. começou a rir.
Você não muda nunca, hein?
Foi a última coisa que disse. Afastou-se sem sequer se voltar ou se despedir, era algo que ela fazia inclusive antes, e de que eu gostava.
Afastou-se com beleza, sem nem sequer se voltar ou se despedir, pensou a Noiva jovem, observando a Mulher elegante atravessar a sala. Gosto disso. Sabe lá quantas noites é preciso passar para se tornar assim. E quantos dias desperdiçar, pensou. Anos. Serviu-se de mais vinho. Tanto faz. A estranha solidão de quem está só no meio de uma festa como aquela. A minha solidão, disse a si mesma em voz baixa. Empertigou o dorso, jogou os ombros para trás. Agora vou colocar nos respectivos lugares os meus pensamentos, e em ordem alfabética os meus medos, pensou. Mas sua mente permaneceu imóvel, incapaz de percorrer a via estreita dos pensamentos: vazia. Gostaria de se perguntar o que ainda lhe pertencia, depois daquele dia de narrativas. Fez uma breve tentativa. A primeira coisa é que não tenho mais ninguém. Nunca tive, então não muda nada. Mas em seguida a mente voltou a ficar vazia, imóvel. Um animal preguiçoso. Melhor que todos saibam, posso finalmente ser eu mesma, saber disso foi melhor inclusive para mim, eu ficaria com um pai atravessado na garganta, a vida toda, melhor que ele tenha morrido, melhor agora. Um dia vou entender se fui eu que o matei, agora sou jovem demais, devo tomar cuidado para não me matar. Adeus, pai, adeus, irmãos. Mas depois o vazio, novamente, nem sequer doloroso, apenas incorrigível. Ergueu o olhar para a festa que crepitava ao seu redor, e se deu conta de ser uma sombra, em sua roupa inadequada, um lance indecifrável à margem da partida. Não se importava. Baixou a vista e fitou aquelas luvas vermelhas, de seda, longas, pousadas em seu regaço. Difícil dizer se tinham um significado. Tirou a jaqueta, permanecendo em seu vestido ordinário, que lhe deixava descobertos os braços. Pegou as luvas e calçou-as com cuidado mas sem objetivo, ou mal entrevendo consequências que lhe eram desconhecidas. Gostou de encontrar para cada dedo uma acomodação macia, e em seguida de fazer a seda vermelha deslizar sobre a pele, até acima do cotovelo. Dedicar-se a um gesto inútil lhe fazia bem. Aqui eu poderia aprender muitas coisas, disse a si mesma. Quero voltar, devo me vestir de outra maneira, talvez o Pai me deixe voltar. Quem sabe se a Filha já esteve aqui. E a Mãe, aqui, ainda mocinha, que espetáculo não terá sido? Glorioso. Olhou as próprias mãos, pareciam mãos que ela havia perdido e que agora alguém lhe restituíra. Devem estar grotescas, com este vestido, pensou. Não se importava. Perguntou-se com o que se importava, naquele momento. Nada. Depois percebeu que um homem tinha parado, de pé, diante dela. Ergueu o olhar: ele era jovem, parecia educado, e estava lhe dizendo alguma coisa, provavelmente alguma coisa brilhante — sorria. Não estou escutando você, pensou a Noiva jovem. Mas o homem não saía dali. Não estou escutando você mas é verdade, você é jovem, não está bêbado, usa um belo paletó. Ele continuava sorrindo para ela. Depois se inclinou com elegância e perguntou, de um modo bonito, se podia sentar-se ao lado dela. A Noiva jovem olhou-o demoradamente, como se devesse recapitular toda uma história sem a qual não seria capaz de dar uma resposta. Por fim deixou-o se sentar, sem um sorriso. O homem voltou a falar, e a Noiva jovem permaneceu observando-o sem escutar uma só palavra: mas, quando ele lhe estendeu a taça de champanhe que mantinha entre os dedos, ela a levou aos lábios, sem cautelas. Ele a fitou, com ar de quem estuda um enigma.
Pode perguntar, se não estiver entendendo, disse a Noiva jovem.
Eu nunca a vi aqui, disse o homem.
Não, eu também nunca me vi aqui, disse ela. Nem sequer agora estou me vendo, pensou.
O homem registrou a sorte de ter encontrado uma moça inexperiente e limpa, uma circunstância que naquele tipo de jogo resultava rara e apresentava um atrativo todo especial. Mas, como sabia que com frequência se tratava de uma encenação hábil, inclinou-se para diante a fim de pousar os lábios no pescoço da Noiva jovem e, quando esta instintivamente se retraiu, ele começou a pensar que naquela tarde a sorte estava de fato lhe concedendo um deleite que, sob a condição de certa paciência, tornaria memorável sua noitada.
Peço desculpas, disse.
A Noiva jovem o encarou.
Não, disse, não se preocupe comigo, faça de novo, é que eu não esperava.
O homem então se inclinou de novo sobre ela, e a Noiva jovem se deixou beijar no pescoço, fechando os olhos. Pensou que o homem sabia beijar com garbo. Ele levantou a mão para lhe tocar o rosto, numa carícia polida. Quando se distanciou dela, não afastou a mão de seu rosto, pelo contrário, demorou-se em acariciá-lo até que, com a ponta dos dedos, roçou os lábios, que não se deu conta de estar fitando, surpreso: então o vestido dela deixou de lhe parecer tão inexplicavelmente inadequado, e por um instante ele duvidou da própria certeza. Ela sabia por que e, surpreendendo a si mesma, prendeu entre os lábios aqueles dedos, manteve-os um instante, aquecendo-se, e em seguida, girando a cabeça, afastou o homem com um gesto cortês e disse que nem sequer sabia quem ele era. Quem eu sou?, perguntou ele, sem parar de fitar os lábios dela.
Pode até inventar, disse a Noiva jovem.
Então ele sorriu, e permaneceu um instante fitando-a em silêncio, porque já não tinha muita certeza sobre o que estava acontecendo.
Não vivo aqui, disse.
Onde, então?
Ah, em outro lugar, disse ele. Depois acrescentou que era um estudioso.
De quê?
Ele explicou e, sem sequer compreender bem por quê, fez isso escolhendo atentamente as palavras, e com o desejo de que ela entendesse de verdade.
Está inventando?, perguntou ela.
Não.
Mesmo?
Juro.
Fez menção de beijá-la na boca, mas ela recuou e, em vez de conceder um beijo, segurou-lhe uma mão e pousou-a sobre os joelhos, impelindo-a em seguida para a barra do vestido, mas de um modo indecifrável, que podia parecer um insignificante, milimétrico gesto escapado a uma intenção real. Nem mesmo ela sabia, naquele momento, o que estava buscando. Mas se deu conta de que em algum lugar, em seu corpo, estava o absurdo desejo de fazer-se tocar pela mão daquele homem. Não porque aquele homem lhe agradasse, era-lhe indiferente: sentia antes a urgência de descartar alguma coisa de si, e abrir as pernas à carícia daquele homem lhe pareceu de pronto o modo mais breve, ou simples. Fitou-o com um olhar que não significava nada. O homem silenciava. Depois levou a mão até embaixo do vestido, com cautela. Perguntou a ela de onde vinha, e quem era. E a Noiva jovem respondeu. Enquanto tentava recordar até onde subiam suas meias e onde começaria a pele sob os dedos do homem, pôs-se a falar. Inesperadamente, escutou a própria voz, calma, quase fria, pronunciando a verdade. Disse que havia crescido na Argentina e, para a própria surpresa, contou o sonho de seu pai, os pampas, os rebanhos de gado, o casarão no meio do nada. Falou de sua família. Não fazia sentido, mas contei tudo. Ele, lentamente, com certa elegância, me acariciava o joelho, às vezes mantendo a palma imóvel e mexendo só os dedos. Eu disse que aquilo que na Itália havia parecido fácil tinha se revelado, na Argentina, muito mais complicado, e quase sem perceber me surpreendi confidenciando pela primeira vez a alguém o meu segredo, dizendo que a certa altura meu pai precisara vender tudo o que possuía na Itália para continuar com seu sonho. Era obstinado, em suas ilusões, e corajoso, em seus erros, eu disse. Então vendeu tudo o que tínhamos para pagar as dívidas e recomeçar um pouco mais a leste, onde a cor da grama lhe pareceu a melhor e as profecias de uma feiticeira lhe prometeram ilimitada e tardia fortuna. O homem escutava. Fitava-me nos olhos, depois descia para fitar os lábios — eu sabia por quê. Começou a subir com a mão por baixo do vestido e não opus resistência, porque, misteriosamente, era aquilo que eu queria. Contei que havia regras, lá, que não compreendíamos, ou talvez não compreendêssemos a terra, a água, o vento, os animais. Havia guerras antigas às quais chegávamos por último, e uma ideia misteriosa de propriedade, e um conceito fugidio de justiça. Também uma violência invisível, que era fácil de perceber mas impossível de decifrar. Não recordo ao certo quando, disse a Noiva jovem, mas a certa altura tivemos todos a certeza de que tudo estava se arruinando e de que, se permanecêssemos lá por mais um dia, não haveria como voltar atrás. O homem se inclinou para beijá-la na boca, mas ela recuou porque devia terminar de pronunciar o nome de certa verdade, e aquela era a primeira vez em que o fazia em voz alta. Os homens da família se fixaram nos olhos, disse, e o único que não os abaixou foi meu pai. Então compreendi que não nos salvaríamos mais.
Sem parar de me acariciar, o homem me olhou, talvez estivesse procurando compreender se alguma coisa daquilo que eu estava dizendo me importava. Fiquei em silêncio, apenas o encarei com uma graça que tinha sabor de desafio. Sentia a mão dele, sob o vestido, entre as pernas, e me ocorreu, de repente, que eu podia fazer daquela mão o que quisesse. É incrível como pronunciar uma verdade mantida oculta por muito tempo nos torna arrogantes, ou seguros, ou não sei — fortes. Inclinei um pouco a cabeça para trás, fechei os olhos e senti a mão subindo pelas minhas pernas. Bastou um pequeno suspiro para levá-la até onde as meias acabavam e senti-la sobre a pele. Perguntei-me se de fato era capaz de detê-la. Então abri os olhos e disse com uma voz absurdamente doce que meu pai, à noite, fazia exatamente aquele gesto, com sua mão lenhosa — sentava-se ao meu lado e, enquanto meus irmãos saíam mudos do aposento, deslizava justamente daquele modo sob a minha saia, com sua mão de madeira cansada. O homem parou. Voltou com a mão até o joelho, mas sem um gesto brusco, simplesmente como se já pensasse em fazê-lo havia tempo. Não era mais o pai que eu tinha conhecido, disse a Noiva jovem, era um homem destroçado. Estávamos tão sozinhos que o voo de um falcão já era uma presença, ou a chegada de um homem da crista da colina, um acontecimento. Ao dizer isso ela era encantadora, a tal ponto os olhos se perdiam em uma obscura distância, e firme era a sua voz. Então o homem se inclinou para ela, a fim de beijá-la na boca, em um gesto em que nem mesmo ele poderia distinguir entre a urgência do desejo e a cortesia de um gesto protetor. A Noiva jovem se deixou beijar, porque naquele momento estava subindo a encosta da verdade, e qualquer outro gesto lhe era indiferente — era a outro lugar que estava se dirigindo. Mal sentiu a língua do homem, não lhe importava. Sentiu, mas com uma percepção periférica, que aquela mão, sob o vestido, se aproximava do seu sexo. Afastou-se da boca do homem e disse que por fim a única solução que encontrou foi a de chegar a um acordo com certa gente, lá na Argentina, e isso significava que ela deveria desposar um homem que mal conhecia. Nem era um homem desagradável, sorriu a Noiva jovem, mas eu estava comprometida com um rapaz que amava, aqui na Itália. Que amo, disse. Abri um pouquinho as pernas e deixei que os dedos do homem encontrassem o meu sexo. Então disse ao meu pai que jamais o faria, e que iria partir, como desde sempre havíamos decidido, para me casar aqui, e que nada poderia me impedir. Ele disse que assim eu o arruinaria. Disse que, se eu partisse, ele se mataria no dia seguinte. O homem abriu meu sexo, com os dedos. Eu disse que fugi em plena noite, com a ajuda dos meus irmãos, e que não olhei para trás, enquanto não acabei de atravessar o oceano. E quando o homem enfiou os dedos no meu sexo eu disse que, um dia depois da minha fuga, meu pai tinha se matado. O homem se deteve. Dizem que caiu bêbado em um rio, acrescentei, mas eu sei que ele deu um tiro na cabeça com sua espingarda, porque me havia descrito exatamente como o faria, e me havia prometido que, no último instante, não teria nem medo nem pesares. Então o homem me fitou nos olhos, queria saber o que estava acontecendo. Peguei com doçura a sua mão e tirei-a de sob meu vestido. Levei-a à boca e prendi seus dedos entre os lábios, por um instante. Depois disse que lhe seria infinitamente grata se ele fizesse a cortesia de me deixar sozinha. Ele me olhou sem entender. Eu lhe seria infinitamente grata se agora o senhor fizesse a cortesia de me deixar sozinha, repetiu a Noiva jovem. O homem fez uma pergunta. Por favor, disse a Noiva jovem. Então o homem se levantou, por um reflexo instintivo de educação, e sem compreender o que lhe acontecera. Disse uma frase de circunstância, mas em seguida se manteve de pé, prolongando alguma coisa que ele não sabia. Por fim disse que não era aquele o modo mais adequado de entreter um homem, naquele lugar. Não posso lhe tirar a razão e peço que o senhor aceite minhas desculpas, disse a Noiva jovem: mas tranquila, sem a sombra de um pesar. O homem se despediu com uma inclinação. Várias vezes, depois, na vida, tentaria esquecer aquele encontro, sem conseguir, ou contá-lo a alguém, sem achar as palavras certas para fazê-lo.