A Noiva Jovem

Alessandro Baricco · Capítulo 1 de 1 · parte 3/6

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A Noiva Jovem

A Noiva jovem

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 6 partes.

Disse que o Filho tinha desaparecido.

Como assim?, indagou o Pai. Fez a pergunta ainda sem desmanchar o sorriso que as duas fúteis tagarelagens com que os dois tinham se aquecido lhe deixaram no rosto.

Não temos condições de saber onde ele está, esclareceu Comandini.

É impossível, decidiu o Pai, perdido o sorriso.

Comandini permaneceu imóvel.

Não foi isso que eu lhe pedi, disse então o Pai, e Comandini sabia exatamente o significado dessas palavras porque se lembrava bem de quando, três anos antes, sentado naquela mesma poltrona, como um peão em F2, ouvira do Pai algumas ordens corteses cuja essência era: tratemos, com certa discrição, de ficar de olho no Filho durante esta sua temporada inglesa, e possivelmente de lhe oferecer, de modo invisível, as ocasiões apropriadas para deduzir por si mesmo a inutilidade de um casamento tão desprovido de perspectivas e, no fundo, de razões fundamentadas e, em última análise, de bom senso. O Pai acrescentara que um vínculo com uma família inglesa, sobretudo se não fosse estranha ao setor têxtil, seria desejável. Naquela ocasião Comandini não havia discutido, e sim procurado entender até onde poderia ir para desviar os destinos do Filho. Tinha em mente diferentes gradações de violência, no gesto que deveria mudar uma vida, ou melhor, duas. O Pai então balançara a cabeça, como se expulsasse uma tentação. Oh, nada além de um firme acompanhamento das coisas, esclarecera. Eu consideraria suficientemente elegante reservar à Noiva jovem uma mínima chance, explicara. E essas tinham sido as últimas palavras pronunciadas por ele sobre o assunto. Do qual, depois, por três anos, se havia quase desinteressado.

Aqui, porém, as remessas continuam a chegar, objetou, pensando nos carneiros e em todo o resto.

Ele tem uma série de agentes, explicou Comandini, espalhados mais ou menos por toda a Inglaterra. Procurei investigar, mas estes também sabem pouco. Têm ordens de expedição, e só. Nunca viram o Filho, não sabem quem é. Ele pagou com antecedência e deu indicações muito precisas, quase maníacas.

Sim, é típico dele.

Mas não é típico dele desaparecer assim.

O Pai ficou em silêncio. Era um homem que, ao menos por razões médicas, não podia se permitir uma propensão à ansiedade: além disso, acreditava firmemente em uma objetiva tendência das coisas a se resolverem por si mesmas. Contudo, naquele momento, percebeu um baque do estado de espírito que raramente havia conhecido, algo como o abrir-se de uma clareira, em algum lugar, no bosque denso de sua tranquilidade. Então levantou-se da poltrona e por um tempinho ficou de pé, esperando que as coisas se rearranjassem em seu âmago por alguma razão mecânica, como em geral acontecia no caso de certos incômodos que o aguilhoavam sobretudo no início da tarde. Obteve apenas uma controlável urgência de soltar um pum. Ao mesmo tempo não desapareceu aquela sensação que agora ele conseguia focalizar melhor e poderia resumir na absurda ideia de que o Filho estava desaparecendo não na Inglaterra, mas em algum lugar dentro dele, onde antes havia a solidez de uma permanência e agora o vazio de um silêncio. Não lhe pareceu ilógico porque, embora a imposição da época previsse para os pais um papel vago, distante e comedido, não tinha sido assim para ele, com aquele Filho, que ele havia querido contra toda lógica e que, por razões das quais conhecia todas as nuances, era a origem de sua única ambição. Assim, pareceu-lhe razoável registrar como, no desaparecimento daquele rapaz, também ele estava desaparecendo um pouco: podia perceber isso como uma minúscula hemorragia, e misteriosamente sabia que, se a negligenciasse, ela se ampliaria sem trégua.

Quando foi visto pela última vez?, perguntou.

Oito dias atrás. Estava em Newport, comprando um cúter.

O que é isso?

Uma pequena embarcação a vela.

Imagino que a veremos ser descarregada diante do portão, um destes dias.

É possível.

Modesto não vai ficar muito entusiasmado.

Mas haveria também outra possibilidade, arriscou Comandini.

Qual?

Pode tê-la usado para lançar-se ao mar.

Ele?

Por que não? Se imaginarmos certa vontade, por parte dele, de desaparecer…

Ele odeia o mar.

Sim, mas…

Certa vontade, por parte dele, de desaparecer?

O desejo de se tornar inencontrável.

Mas por quê?

Ignoro.

Como assim?

Ignoro.

O Pai sentiu uma rachadura se abrir, em algum lugar, dentro dele — mais uma. A possibilidade de Comandini ignorar alguma coisa o golpeou traiçoeiramente, já que devia àquele homem, no fundo, modesto, mas maravilhosamente pragmático, a convicção de que a qualquer pergunta correspondia uma resposta, talvez inexata, mas real, e suficiente para desfazer qualquer possibilidade de perigoso aturdimento. Assim, ergueu, estupefato, o olhar para Comandini. Contemplou-lhe no rosto uma expressão que não conhecia, e então sentiu um estalido em seu coração de vidro, percebeu um perfume adocicado que reconheceu, e soube com segurança que naquele momento havia começado a morrer.

Encontre-o, disse.

Estou tentando, senhor. Aliás, é até possível que acabemos vendo-o chegar tranquilamente à porta, um dia destes, talvez casado com uma inglesa de pele cor de leite e pernas esplêndidas, o senhor sabe, o criador as dotou de pernas incríveis, já que quanto às tetas não conseguiu imaginar algo decente.

Tinha voltado o Comandini de sempre. O Pai lhe ficou agradecido.

Faça-me um favor, nunca mais use aquela palavra, disse.

Tetas?

Não. Desaparecer. Não me agrada. Não existe.

Uso-a com frequência a propósito das minhas economias.

Sim, compreendo, mas, aplicada aos seres humanos, me desorienta, os seres humanos não desaparecem, no máximo morrem.

Não é o caso do seu filho, tenho certeza.

Ainda bem.

Estou disposto a lhe prometer isso, disse Comandini, com uma sombra de hesitação.

O Pai sorriu para ele, com infinita gratidão. Depois foi tomado por uma inexplicável curiosidade.

Comandini, o senhor já entendeu por que sempre perde no jogo?, perguntou.

Tenho algumas hipóteses.

Por exemplo?

A mais pungente me foi sugerida por um turco que, jogando em Marrakech, eu vi perder uma ilha.

Uma ilha?

Uma ilha grega, acho, posse da família havia séculos.

Está me dizendo que é possível apostar uma ilha na mesa de pôquer?

Tratava-se de blackjack, no caso. Mas é possível, sim. A pessoa pode apostar até uma ilha, se tiver a coragem e a poesia necessárias. Ele tinha. Voltamos juntos para o hotel, era quase de manhã, eu também tinha perdido muito, mas não parecia, caminhávamos como príncipes, e sem sequer expressar isso nos sentíamos belíssimos, e eternos. A inaudita elegância de um homem que perdeu, disse o turco.

O Pai sorriu.

Então, o senhor perde por uma questão de elegância?, perguntou.

Como eu disse, é só uma hipótese.

Há outras?

Muitas. Quer a mais provável?

Eu gostaria.

Perco porque jogo mal.

Desta vez, o Pai riu.

Depois decidiu que morreria sem pressa, com cuidado e não em vão.

 

Às sete em ponto a Mãe a esperava, de fato, no gesto que lhe era habitual àquela hora, ou seja, aperfeiçoar o próprio esplendor: só enfrentava a noite em beauté absoluta — nunca permitiria que a morte a surpreendesse em um estado que pudesse decepcionar os primeiros a quem caberia descobri-la pronta para os vermes.

Assim, a Noiva jovem encontrou-a sentada diante do espelho e a viu como jamais a vira, usando somente uma túnica levíssima, os cabelos soltos sobre os ombros, caindo até os quadris: uma moça muito novinha, quase uma menina, escovava-os: o gesto descia a uma velocidade sempre igual, a cada vez luzia um reflexo castanho-dourado.

A Mãe mal se voltou, apenas o suficiente para presentear um olhar.

Ah, pronto, disse, então é hoje mesmo, me veio a dúvida de que hoje fosse ontem, o que me acontece com muita frequência, para não falar de quando tenho certeza de que é amanhã. Sente-se, meu bem. Queria falar comigo? Ah, esta aqui, a menina, chama-se Dolores, faço questão de sublinhar que é surda-muda de nascença, me foi arranjada pelas freiras do Bom Conselho, deus as tenha em sua glória, agora você entenderá por que sinto por elas uma devoção que em certos momentos pode ter lhe parecido exagerada.

Deve ter sido invadida pela dúvida de que o raciocínio pudesse não resultar inteiramente compreensível. Então concedeu uma explicação veloz.

Bem, nunca se deixar pentear por alguém que tenha possibilidade de falar, isto é óbvio. Por que não se senta?

A Noiva jovem não se sentava porque não havia imaginado nada do gênero e no momento não tinha muitas outras ideias, afora a de sair do quarto e recomeçar tudo. Levava sob o braço o seu livro: parecia-lhe um modo de ir direto ao âmago do problema. Porém a Mãe nem parecia tê-lo visto. Era estranho, porque naquela casa uma pessoa com um livro na mão deveria saltar aos olhos, pelo menos tanto quanto uma velhinha que se apresentasse ao rosário vespertino empunhando uma balestra. Na mente da Noiva jovem, o plano era entrar naquele quarto com o Dom Quixote bem à vista e, no lapso de tempo que a presumível surpresa da Mãe lhe concederia, pronunciar a seguinte frase: Não pode fazer mal a ninguém, é belíssimo, e eu não queria permanecer nesta casa sem dizer a alguém que o leio todos os dias. Posso dizer à Senhora?

Não era um plano ruim.

Mas agora a Mãe era como uma aparição, e a Noiva jovem sentiu que havia naquele quarto algo muito mais urgente a resolver.

Então se sentou. Pousou o Dom Quixote no chão e se sentou.

A Mãe girou a cadeira para observá-la melhor. Dolores acompanhou-a nesse movimento, a fim de encontrar a posição em que pudesse continuar seu gesto paciente. Não era apenas surda-muda, era também próxima à invisibilidade. A Mãe parecia estabelecer com ela a mesma relação que poderia ter com um xale jogado sobre os ombros.

Sim, disse, você não é feinha, alguma coisa aconteceu, anos atrás não merecia nem sequer ser olhada, com certeza vai me explicar o que lhe passava pela cabeça ou o que pretendia obter arruinando-se daquele jeito, naquela que sem sombra de dúvida é uma forma de descortesia imotivada para com o mundo, descortesia a evitar, acredite, tão inútil, o desperdício… mas não existe riqueza sem desperdício, ao que parece, portanto não vale a pena isso de… De todo modo, o que quero dizer é que você não é feinha, não é em absoluto, então imagino que seria o caso de se tornar bonita, de algum modo, deve ter pensado nisso, imagino, não vai querer passar a vida neste estado, assim sem graça, santo deus, você tem dezoito anos… tem dezoito anos, não?, sim, tem dezoito, bem, francamente, nessa idade não se pode verdadeiramente ser bonita, mas pelo menos é obrigatório ser escandalosamente desejável, quanto a isso não deveria haver dúvidas, e então, se eu me perguntar se você é escandalosamente adorável, mas talvez eu tenha dito desejável, sim, provavelmente eu disse desejável, é mais exato, então se eu me perguntar… levante-se um pouquinho, meu bem, me faça esse favor, pronto, obrigada, pode se sentar de novo, é claro, a resposta é não, você não é escandalosamente desejável, me desagrada dizer isso, aliás muitas coisas são desagradáveis, você com certeza notou quantas coisas desagradam, se ao menos… mas a terra vista da lua não deve ser diferente, não crê?, eu creio, sou levada a crer, e também por isso não penso ser o caso de… desesperar-se talvez seja forte demais… ficar melancólica, é isso, com certeza não é o caso de ficar melancólica, eu jamais iria querer vê-la melancólica, é uma coisinha de nada, afinal se trata apenas de uma decisão, veja bem, você deveria se render à ideia e parar de opor resistência, creio que você deveria decidir ser bonita, só isso, talvez sem esperar demais, o Filho está chegando, eu se fosse você me apressaria, ele é capaz de chegar de um momento para outro, não vai poder continuar eternamente expedindo carneiros selvagens e rodas dentadas… ainda que agora me ocorra que você talvez tenha vindo aqui para me perguntar alguma coisa, ou então a estou confundindo com alguém, há tanta gente que quer coisas, o número das pessoas que desejam de nós alguma coisa é estranhamente… você veio para me perguntar alguma coisa, meu bem?

Sim.

O que era?

Como se faz.

Como se faz o quê?

Para ser bonita.

Ah.

Entregou um pente a Dolores do mesmo modo que poderia ter ajeitado o xale que deslizara de um ombro. A menina o pegou e continuou seu trabalho com esse. Provavelmente o objeto tinha certo alinhamento milimétrico dos dentes que, naquela particular fase da operação, devia ser de indiscutível necessidade. Talvez tivesse importância específica até mesmo o material de que era feito. Osso.

Em geral, é algo que leva anos, disse a Mãe.

Creio que tenho certa pressa, disse a Noiva jovem.

Sem dúvida.

Posso aprender rápido.

Não sei. É possível. Poderia levantar os cabelos?, perguntou a mãe. Recolha-os sobre a nuca.

A Noiva jovem obedeceu.

O que é isso?, indagou a Mãe.

Levantei os cabelos.

Justamente.

Era o que eu devia fazer.

Não se recolhem os cabelos sobre a nuca para recolher uns cabelos sem graça sobre uma nuca sem graça.

Não?

Experimente de novo.

A Noiva jovem experimentou.

Meu bem, está me olhando? Olhe para mim. Bom, o único objetivo por que levantamos e recolhemos os cabelos sobre a nuca é tirar o fôlego de todos os que estiverem por perto, lembrando-lhes, com a simples força desse gesto, que qualquer coisa que estejam fazendo naquele momento é tremendamente inadequada, uma vez que, como recordaram no exato instante em que viram você enrolando os cabelos sobre a nuca, só existe uma coisa que eles desejam de verdade fazer na vida: trepar.

Verdade?

Claro, não desejam outra coisa.

Não, quero dizer, verdade que levantamos os cabelos para…

Oh, meu deus, você também pode fazer isso como se amarrasse os sapatos, muitas o fazem, mas estávamos falando de outra coisa, acho eu, não? De ser bonita.

Sim.

Pois é.

A Noiva jovem então soltou os cabelos, ficou um pouquinho em silêncio, em seguida voltou a pegá-los e lentamente os levantou até enrolá-los sobre a nuca e prendê-los em um nó frouxo, e concluiu o gesto ajeitando atrás das orelhas os dois cachinhos que, de um lado e de outro de seu rosto, haviam fugido à operação. Em seguida pousou as mãos no regaço.

Bem…

Esqueci alguma coisa?

Você tem um dorso. Use-o.

Quando?

Sempre. Recomece desde o início.

A Noiva jovem inclinou um pouco a cabeça para a frente e levou as mãos à nuca para soltar os cabelos que havia acabado de prender.

Pare. Sua nuca está coçando, por acaso?

Não.

Estranho, a gente baixa a cabeça para se coçar.

E então?

Cabeça levemente inclinada para trás, obrigada. Assim, muito bem. Agora deve ser balançada duas ou três vezes com garbo, enquanto as mãos vão desatar o nó, e isso a levará inevitavelmente a arquear o dorso naquilo que para qualquer macho presente soará como uma espécie de anúncio, ou de promessa. Pare, assim. Sentiu o dorso?

Senti.

Agora leve as mãos à fronte e recolha todos os cabelos, com cuidado, mais cuidado do que o necessário, então jogue a cabeça bem para trás e, deixando as mãos passarem sobre a cabeça, segure os cabelos à altura da nuca para fazê-los cair bem. Quanto mais embaixo os segurar, mais o dorso se arqueará e você assumirá a posição correta.

Assim?

De novo.

Está doendo.

Bobagem. Quanto mais para trás vão os braços, mais o seio é impelido para a frente e mais o dorso se arqueia. Pronto, assim, olhos para o alto, parada. Consegue se ver?

Com os olhos para cima…

Sentir-se, quero dizer. Sente em que posição está?

Sim. Acho.

Não é uma posição qualquer.

É incômoda.

É a posição em que uma mulher goza, segundo a fantasia um tanto moderada dos homens.

Ah.

Daí em diante, é tudo mais simples. Não economize nas rotações do pescoço e retome esses cabelos, enrolando-os como preferir. É como se seu robe tivesse se aberto e agora você o fecha de novo, simples. Um robe sem nada por baixo, quero dizer.

A Noiva jovem fechou de novo o robe, com certo garbo.

Não se esqueça de sempre deixar que alguns fios escapem à operação: ajeitá-los por último com gestos vagamente imprecisos dá certo toque infantil que os tranquiliza. Os machos, não os cabelos. Pronto, assim, isso você faz bem, admito.

Obrigada.

Agora, tudo de novo.

Desde o início?

Trata-se de fazer isso não como se tivesse que levantar uma amassadeira de pão da cozinha, mas como se fosse a coisa que você faz com a maior naturalidade do mundo. Não pode funcionar de verdade se a primeira a se excitar não for você.

Eu?

Sabe do que estamos falando, não?

Creio que sim.

Ficar excitada. Já deve ter acontecido com você, espero.

Não enquanto eu ajeitava os cabelos.

É exatamente o erro que estamos tentando corrigir.

Certo.

Pronta?

Não tenho certeza.

Talvez uma pequena recapitulação possa ajudá-la.

Como assim?

A Mãe fez um gesto imperceptível, Dolores parou de penteá-la e deu dois passos para trás. Se antes estava próxima da invisibilidade, naquele instante pareceu desaparecer. Então a Mãe soltou um pequeno suspiro, e depois simplesmente levantou e ajeitou os cabelos sobre a nuca devagarzinho, em um tempo que à Noiva jovem pareceu um instante dilatado até o inverossímil. Teve a irrazoável impressão de que a Mãe se despira para ela, e o tinha feito por uma duração misteriosa, suficiente para suscitar o desejo mas também tão comedida que impedia qualquer lembrança. Era como tê-la visto nua para sempre e não tê-la visto nunca.

Naturalmente, acrescentou a Mãe, o efeito é mais devastador se, ao executar a operação, tivermos a astúcia de falar de assuntos fúteis, como a maturação do salame, a morte de algum parente ou as condições das estradas no campo. Não convém dar a impressão de que estamos nos empenhando, entende?

Sim.

Bem, agora é sua vez.

Não creio que…

Bobagem, faça e pronto.

Um instante…

Faça. Não esqueça que tem dezoito anos. Já venceu antes de começar. Eles a desejam há pelo menos três anos. Trata-se apenas de lembrá-los disso.

Certo.

A Noiva jovem refletiu que tinha dezoito anos, que já vencera antes de começar, que eles a desejavam havia pelo menos três anos e que do Dom Quixote já não recordava nem sequer a trama. Passou um instante dilatado de maneira incompreensível e no final estava ali, os cabelos recolhidos sobre a nuca, o queixo levemente erguido e um olhar que ela não recordava ter tido nunca.

A Mãe silenciou por um bom tempo, encarando-a.

Estava pensando no Filho, naquele longo silêncio e naquelas palavras dele: sua boca.

Inclinou um tantinho a cabeça, para olhar melhor.

A Noiva jovem se mantinha imóvel.

A boca estava entreaberta.

Foi bom?, perguntou a Mãe.

Sim.

Agora precisa compreender o quanto foi bom.

Existe algum modo de saber?

Sim. Se gostou verdadeiramente, você agora sente uma grande vontade de fazer amor.

A Noiva jovem tentou encontrar uma resposta em algum lugar, dentro de si.

E então?, perguntou a Mãe.

Creio que sim.

Crê?

Sinto uma grande vontade de fazer amor, sim.

A Mãe sorriu. Depois fez um movimento imperceptível com os ombros, levantou-os um nada.

Devia ter esboçado algum gesto invisível, em um momento invisível, porque já não havia rastro de Dolores no quarto, alguma porta igualmente invisível a engolira.

Então venha cá, disse a Mãe.

A Noiva jovem se aproximou e se deteve de pé à frente da Mãe, que enfiou uma mão embaixo da saia dela, afastou um pouco a calcinha e lhe abriu o sexo, lentamente, com um dedo.

Sim, disse, está com vontade.

Em seguida retirou a mão e pousou o dedo sobre os lábios da Noiva jovem, relembrando aquilo que o filho lhe havia dito, muito tempo antes. Deslizou o dedo sobre os lábios da Noiva jovem e depois o empurrou até lhe tocar a língua.

É o seu sabor, aprenda a reconhecê-lo, disse.

A Noiva jovem o lambeu de leve.

Não. Saboreie.

A Noiva jovem fez isso, e a Mãe começou a compreender o que seu Filho queria dizer, naquela vez. Recolheu o dedo, como se tivesse se queimado.

Agora, faça você, disse.

A Noiva jovem não teve certeza de ter compreendido. Enfiou a mão embaixo da própria saia.

Não, disse a Mãe.

Então a Noiva jovem compreendeu e precisou se debruçar um pouco para enfiar a mão sob a roupa da Mãe, cujo comprimento chegava quase até o chão. A Mãe abriu um tantinho as coxas, a jovem subiu os dedos ao longo da pele dela e encontrou o sexo sem topar com mais nada. Viu-se com ele entre os dedos. Moveu-os de leve, e em seguida tirou a mão dali. Olhou-a. Os dedos luziam. A Mãe fez um gesto e ela obedeceu, deslizando aqueles dedos entre os próprios lábios e sugando-os lentamente.

A Mãe a deixou agir, antes de dizer:

Deixe-me provar também.

Debruçou-se um pouco, não fechou os olhos e foi beijar aquela boca porque sentia vontade e porque jamais desprezaria uma só oportunidade de compreender o mistério do próprio Filho tão amado. Com a língua, foi recuperar duas coisas que eram suas, e que vinham de seu ventre.

Afastou-se por um instante.

Sim, disse.

Em seguida abriu de novo, com a língua, os lábios da Noiva jovem.

Agora, muitos anos depois, agora que a Mãe nem existe mais, ainda consigo me surpreender com a lucidez com que ela fez tudo. Quero dizer, era fantástica, durante o dia, em seu devaneio contínuo, perdida de si mesma, errante em suas palavras, imperscrutável em seus silogismos. Mas me dou conta, na nitidez imprecisa da lembrança, de como desde o primeiro momento em que nos aproximamos, ainda que só para falar de beleza, tudo havia mudado nela, e em direção a um domínio absoluto, que começava justamente a partir das palavras, para em seguida transbordar nos gestos. Quando eu lhe disse isso, a certa altura daquela noite, ela parou um instante de me acariciar e me sussurrou “O Albatroz” de Baudelaire, leia, já que você lê, e só muito tempo depois, quando efetivamente o li, compreendi que ela era um animal solene, quando voava em seu corpo e no dos outros, e um volátil desajeitado em qualquer outro momento — e essa era a sua maravilha. Recordo que enrubesci, quando ela disse aquela frase, porque nos senti descobertos, eu e o meu Dom Quixote, e então enrubesci, na quase escuridão do quarto, e isso até hoje me parece tão absurdo, enrubescer por causa de um livro enquanto uma mulher mais velha do que eu, a quem mal conhecia, me lambia a pele, e isso eu a deixava fazer, sem enrubescer, sem a mínima vergonha. Ela me tirou qualquer vergonha, é isso. Por todo o tempo falou comigo, enquanto guiava minhas mãos, e movia as suas, falou comigo lentamente, no ritmo que lhe permitia usar sua boca sobre mim ou usá-la para falar comigo, um ritmo que depois sempre procurei em todos os homens que tive, mas sem voltar a encontrá-lo. Explicou-me que com frequência o amor não tinha a ver com tudo aquilo, ou pelo menos ela não estava a par de que tivesse com muita frequência. Era antes uma coisa animal, que dizia respeito à salvação dos corpos. Disse-me que, se você simplesmente evitar atribuir um sentido demasiado sentimental àquilo que está fazendo, então cada detalhe se torna um segredo a arrebatar, e cada canto do corpo um apelo irresistível. Recordo que por todo o tempo não parou nunca de me falar do corpo dos homens, e do modo primitivo de desejar que eles têm, para que me ficasse claro que, por mais que me fosse adorável aquele misturar-se dos nossos corpos simétricos, o que ela queria me presentear era só uma simulação que, no momento certo, me ajudasse a não perder nada do que o corpo de um homem podia me oferecer. Ensinou-me que não se deve ter medo dos odores e dos sabores — são o sal da terra, e me explicou que os rostos mudam, no sexo, mudam os traços, e não compreender isso seria uma pena, porque com um homem dentro, e movendo-se em cima dele, você pode ler-lhe na face toda a vida, do menino ao velho moribundo, e é um livro que naquele momento ele não pode fechar. Com ela aprendi a começar lambendo, contra qualquer etiqueta amorosa, porque é um gesto servil e régio, de sujeição e de posse, vergonhoso e corajoso — E não estou dizendo que você deva lamber de imediato o sexo dele, alertava, é a pele que você deve lamber, as mãos, as pálpebras, o pescoço — não pense que seja uma humilhação, faça isso como uma rainha, um animal rainha. Explicou-me que não se devia ter medo de falar, ao fazer amor, porque a voz que temos quando fazemos amor é o que temos de mais secreto em nós, e as palavras de que somos capazes a única nudez total, escandalosa, final, de que dispomos. Disse que eu não fingisse nunca, é somente cansativo — acrescentou que se pode fazer tudo, e até muito mais do que acreditaríamos querer fazer, e mesmo assim existe a vulgaridade, e mata o prazer, e recomendou muito que eu a mantivesse longe de mim. De vez em quando, disse, os homens, enquanto fazem, fecham os olhos e sorriem: ame esses homens, disse. De vez em quando abrem os braços e se rendem: ame esses também. Não ame os que choram enquanto trepam, guarde-se dos que na primeira vez se despem sozinhos — despi-los você mesma é um prazer que lhe cabe. Ela falava, e nem por um instante se detinha, alguma coisa no seu corpo estava sempre me buscando, porque, explicou, fazer amor é uma tentativa sem fim de procurar uma posição na qual se confundam um no outro, posição que não existe, mas existe o procurá-la, e saber fazer isso é uma arte. Com os dentes, com as mãos, me machucava às vezes, apertando ou mordendo ou colocando nos gestos uma força quase má, e a certa altura me disse que não sabia por quê, mas aquilo também tinha a ver com o prazer, portanto não convinha ter medo de morder ou de apertar ou de usar a força, embora o segredo fosse saber fazê-lo com legível transparência, para ele saber que você sabe o que está fazendo, e que o faz por ele. Ensinou-me que só os idiotas fazem sexo para gozar. Você sabe o que significa gozar, não sabe?, perguntou. Contei-lhe sobre a Filha, não sei por quê, contei tudo. Ela sorriu. Passamos aos segredos, disse. Então me contou que durante anos fizera os homens enlouquecerem porque se recusava a gozar fazendo amor com eles. A certa altura se afastava, encolhia-se em um canto da cama e gozava sozinha, acariciando-se. Ficavam malucos, disse. A alguns, me lembro, eu pedia que fizessem o mesmo, eles também. Quando sentia uma espécie de cansaço final, eu me desprendia deles e dizia Acaricie-se, faça isso. É bom vê-los gozar, diante de você, sem sequer tocá-los. Uma vez, só uma, me disse, eu estava com um homem que me agradava tanto que no fim, sem sequer dizer nada a ele, nos afastamos e, nos olhando de longe, não muito, só um pouco de longe, nos acariciamos, cada um por si, mas nos olhando, até gozar. Depois ficou muito tempo calada, segurando minha cabeça entre as mãos e empurrando-a devagar até onde queria sentir minha boca, no pescoço, depois mais embaixo, e onde quer que lhe agradasse. Mas é uma das poucas coisas que recordo com distinção, em sequência, porque o resto da noite me parece agora, deixando-o voltar à memória, um lago sem início nem fim, onde cada reflexo ainda está ali luzindo, mas cada margem está perdida, e a brisa é ilegível. Sei, porém, que não tinha mãos, antes daquele lago, nem havia jamais respirado daquele modo, junto a alguma outra pessoa, ou perdido meu corpo em uma pele que não era a minha. Posso recordar quando ela pousou uma mão sobre meus olhos e me pediu que abrisse as pernas, e muitas vezes revi, nos momentos mais estranhos, o gesto com que de vez em quando ela enfiava sua mão entre seu sexo e minha boca, para deter alguma coisa que não sei: à minha boca reservava a palma, o dorso ao seu sexo. Devo àquela noite toda a inocência que gastei mais tarde em muitos gestos de amor, para sair deles limpa, e devo àquela mulher a certeza de que o sexo infeliz é o único desperdício que nos torna piores. Ela era lenta ao fazê-lo, menina e solene, magnífica quando ria no prazer, e desejável em cada desejo seu. Não tenho em minha memória cansada as palavras que ela me disse por último, e lamento havê-las perdido. Recordo que adormeci nos seus cabelos.

Muitas horas depois se ouviram as portas do quarto se abrindo e a voz de Modesto que escandia, Bom dia, calor opressivo e umidade maçante. Ele tinha, em tais circunstâncias, um olhar de cego em que estava inscrita sua superior capacidade de ver tudo e não recordar nada.

Mas veja só, disse a Mãe, nos safamos também desta noite, eu contava com isso, mais um dia presenteado, não vamos deixá-lo escapar — e efetivamente já descera da cama e sem sequer lançar um olhar para o espelho já saía do quarto para o desjejum, anunciando em voz alta, mas não sei a quem, que a colheita devia ter começado, visto que fazia alguns dias que ela acordava com uma sede imotivada e aborrecida (muitos dos seus silogismos eram de fato imperscrutáveis). Eu, porém, continuei na cama, eu que não temia a noite, e muito devagar deslizei de sob os lençóis, porque pela primeira vez tinha a impressão de estar me movendo com um corpo dotado de quadris, de pernas, de dedos, de odores, de lábios e de pele. Repassei mentalmente o índice que minha avó me havia listado e registrei que, se quisesse ser detalhista, ainda me faltavam a astúcia e a habilidade do ventre, não importando o que isso queria dizer. Eu encontraria o sistema para aprender também aquilo. Uma olhada para o espelho me deu a resposta. Naquilo que vi, eu soube, pela primeira vez com absoluta certeza, que o Filho iria voltar. Agora sei que não me enganava, mas também que a vida pode ter modos muito elaborados de nos dar razão.

Descer à sala dos desjejuns foi estranho porque em nenhuma outra manhã eu tinha descido com um corpo e agora me parecia muito incauto, ou absurdo, levá-lo à mesa saindo diretamente da noite, tal como ele estava, protegido apenas por uma camisola da qual só agora eu percebia que me deixava as coxas descobertas e que se abria na frente, quando me inclinava — coisas que eu jamais tinha tomado o cuidado de registrar. O odor nos dedos, o sabor na boca. Mas era assim, fazia-se assim, éramos todos malucos, de uma maluquice feliz.

Chegou a Filha, sorria, quase corria, arrastando a perna, mas isso não lhe importava, veio direto a mim, a Filha, eu a tinha esquecido, minha cama vazia, ela sozinha no quarto, nem de longe me ocorrera pensar nisso. Ela me abraçou. Eu ia dizendo alguma coisa, ela balançou a cabeça, sempre sorrindo. Não quero saber nada, disse. Depois me beijou, de leve, na boca.

Hoje ao anoitecer você vai comigo ao lago, me disse, quero lhe mostrar uma coisa.

 

E fomos mesmo, ao lago, na luz declinante do fim de tarde, cortando caminho pelos pomares para seguir mais depressa e chegar na hora certa, uma hora que a Filha conhecia com exatidão — aquele era o seu lago. Era difícil compreender como aquela obtusa campina o acolhera em seu regaço, mas sem dúvida, ao fazer isso, tinha-o feito bem e em definitivo: assim, a água era inexplicavelmente clara, imóvel, gélida e magicamente indiferente às estações. Não congelava no inverno, não secava no verão. Era um lago sem lógica, e talvez por isso ninguém havia jamais conseguido lhe dar um nome. Aos forasteiros, os velhos diziam que ele não existia.

Cortaram pelos pomares e por isso chegaram bem a tempo — deitaram-se à beira d’água, a Filha disse Não se mova, depois disse Estão vindo. E de fato, do nada, começaram a chegar, um a um, pequenos pássaros de barriga amarela, quase andorinhas, mas com um modo de mover-se desconhecido, e um reflexo de outros horizontes nas penas. Agora faça silêncio e escute, disse a Filha. Os passarinhos cortavam o lago com um voo pacato, a poucos palmos de altura. Depois, de repente, desciam ainda mais, e, velocíssimos, chegavam à flor d’água: ali, em um instante, devoravam em pleno voo um inseto que fora procurar abrigo, ou conforto, sobre a crosta úmida do lago. Faziam isso com uma desenvoltura divina e, ao fazê-lo, por um segundo riscavam a água com a barriga amarela: no silêncio absoluto da campina estonteada pelo calor, ouvia-se um ciciar argênteo, as penas fazendo soar brevemente a pele da água. É o rumor mais belo do mundo, disse a Filha. Deixou passar algum tempo, e um passarinho após o outro. Depois repetiu: É o rumor mais belo do mundo. Certa vez, acrescentou, o Tio me disse que muitas coisas, a respeito dos homens, só são compreensíveis se recordarmos que eles jamais serão capazes de um som desse tipo — a leveza, a velocidade, a graça. Então, me disse, não se deve esperar que proporcionem elegância, mas somente aceitar aquilo que são, predadores imperfeitos.

A Noiva jovem ficou um pouco em silêncio, escutando o rumor mais belo do mundo, e depois se voltou para a Filha.

Você sempre fala do Tio, sabe?, disse.

Sei.

Você gosta dele.

Claro. É com quem vou me casar.

A Noiva jovem caiu na risada.

Não faça barulho, senão eles vão embora, disse a Filha, irritada.

A Noiva jovem encolheu a cabeça entre os ombros e baixou a voz.

Você é maluca, ele é seu tio, não se pode desposar um tio, é uma coisa idiota, e sobretudo proibida. Não vão lhe permitir isso.

Quem mais você quer que me queira, aleijada como sou?

Está brincando, você é magnífica, você…

Além disso, ele não é meu tio.

O quê?

Não é meu tio.

Claro que é!

Quem disse?

Todo mundo sabe, vocês o chamam de Tio, ele é seu tio.

Não é.

Está dizendo que aquele homem…

Quer se calar um pouco? Se você não os olhar, eles param.

Então as duas voltaram aos passarinhos de penas amarelas, vindos de longe para fazer soar a água. Era surpreendente quantos detalhes haviam se encontrado em um só instante para produzir o saldo daquela perfeição: nada teria funcionado de maneira tão desenvolta com um lago pouco encrespado, e outros insetos, mais astutos, poderiam dificultar o voo dos pássaros, assim como, sem o silêncio da campina obtusa, qualquer som se perderia, mesmo que magnífico. Mas nenhum detalhe havia desertado, nem acumulado atrasos no caminho, nem cessado de crer na própria minúscula inevitabilidade: então, em cada ciciar das penas amarelas sobre a água, oferecia-se o espetáculo de uma passagem bem-sucedida da Criação. Ou, se quisermos, o mágico avesso de uma Criação não acontecida, isto é, um detalhe fugido à, de outro modo, casual gênese das coisas, uma exceção à desordem e à insensatez do todo. Em todo caso, um milagre.

Deixaram passar um tempo. A Filha encantada, a Noiva jovem atenta, embora ainda se demorando um pouco naquela história do Tio. Escapou às duas a elegância do ocaso — uma eventualidade que raramente acontece: como se deve ter notado, não existe quase nada que possa distrair a pessoa de um ocaso quando o tem diante dos olhos. A mim aconteceu uma só vez, que eu me lembre, pela presença de certa pessoa ao meu lado, mas foi a única vez — era de fato uma pessoa irrepetível. Normalmente isso não acontece — mas aconteceu à Filha e à Noiva jovem, que tinham nos olhos um ocaso de certa elegância e não o viram, porque estavam ali escutando o mais belo som do mundo repetir-se igual muitas vezes, e depois uma última vez, não diferente. Os passarinhos de penas amarelas desapareceram em uma distância cujo segredo só eles detinham, a campina voltou a ser óbvia como era, e o lago, mudo como o tinham encontrado. Só então a Filha, permanecendo deitada e continuando a fitar a superfície do lago, começou a falar e disse que num dia de muitos anos antes, era inverno, ela e o Filho se perderam. Ele tinha sete anos, eu cinco, disse, éramos crianças. Andávamos pelo campo, fazíamos isso com frequência, era o nosso mundo secreto. Mas fomos longe demais, ou não sei, seguindo alguma coisa, não me lembro — talvez uma ilusão, ou um pressentimento. Desceu a escuridão e, com a escuridão, a névoa. Só percebemos tarde demais, não havia como reconhecer nada, e o caminho de volta havia sido engolido por um muro que não conhecíamos. O Filho sentia medo, eu também. Caminhamos muito tempo, tentando manter sempre a mesma direção. Chorávamos os dois, mas silenciosamente. Depois tivemos a impressão de escutar um rumor, que perfurava a névoa, o Filho parou de chorar, recuperou uma voz firme, disse Vamos até lá. Nem víamos onde pousávamos os pés, de vez em quando era terra dura, gelada, de vez em quando eram fossos, ou lama, mas fomos adiante, seguíamos o rumor, que ouvíamos sempre mais perto. Afinal era a roda de um moinho, girava com as pás em uma espécie de canal, estava tudo quebrado, a roda girava com dificuldade, batendo por todos os lados, e aquele era o rumor. Em frente, parado, havia um automóvel. Não tínhamos visto muitos, em nossa vida, mas nosso pai possuía um, sabíamos do que se tratava. Sentado ao volante estava um homem, que dormia. Eu disse alguma coisa, o Filho não sabia o que fazer, então nos aproximamos, eu comecei a dizer que devíamos ir embora dali, e o Filho dizia Cale a boca, depois disse Nunca encontraremos o caminho de casa, o homem dormia. Falávamos baixo, para não o acordar, mas também levantando um pouco a voz, de vez em quando, porque estávamos brigando e tínhamos medo. O homem abriu os olhos, nos viu e disse: Subam aqui, eu levo vocês para casa.

Quando abriram a porta para nós, em casa, a Mãe gritou alguma coisa absurda, mas muito feliz. O Pai se aproximou daquele homem e pediu explicações. No final apertou-lhe a mão, ou o abraçou, não me lembro, e perguntou se podíamos fazer algo por ele. Sim, respondeu ele, estou muito cansado, será muito incômodo se eu ficar um pouco aqui, para dormir?, depois vou embora. Deitou-se no sofá, sem nem sequer esperar a resposta. E adormeceu. Daquele dia em diante não foi mais embora, porque ainda deve acabar de dormir, e porque seria tremendamente triste vê-lo partir. Quem o chamou de Tio a primeira vez foi o Filho, dias depois. E ele permaneceu sendo o Tio, para sempre.

A Noiva jovem ficou refletindo um pouco.

Vocês nem sabem quem ele é, disse.

Não. Mas, quando nos casarmos, ele me contará tudo.

Não seria melhor pedir-lhe que conte e depois, se for o caso, casar-se com ele?

Já tentei.

E ele?

Continuou dormindo.

Aliás, é mais ou menos o que continuei fazendo quando o Doutor, em um sobressalto insuportável de obviedade, me comunicou que o cerne do problema estava na minha incapacidade de compreender quem sou. Como permaneci calado, o Doutor repetiu sua obviedade, talvez esperando que eu reagisse de algum modo, por exemplo, explicando quem eu era, ou, ao contrário, admitindo não ter a mais pálida ideia a respeito. Mas na realidade o que fiz foi continuar cochilando mais um pouco. Em seguida me levantei e cansadamente me dirigi à porta, dizendo que nossa colaboração acabava ali. Recordo haver usado exatamente essas palavras, ainda que agora me pareçam excessivamente formais. Ele então caiu na risada, mas uma risada forçada, provavelmente prevista pelos compêndios, algo estudado nos livros, algo que me pareceu tão insuportável que me induziu a um gesto inesperado — tanto para o Doutor quanto para mim —, ou seja, empunhar o primeiro objeto que tive ao alcance da mão — um relógio de mesa de limitadas dimensões, mas não desprovido de ângulos e de certa consistência — e arremessá-lo contra o Doutor, acertando-o em cheio no ombro — e não na cabeça, como depois relataram equivocadamente os jornais —, com o resultado de fazê-lo perder os sentidos, não ficou claro se pela dor ou pela surpresa. Tampouco é verdade que depois eu tenha me encarniçado contra o Doutor a pontapés, como sustentou um jornal que me odeia há anos — ou pelo menos não recordo ter feito isso. Seguiram-se alguns dias extremamente desagradáveis, em que me recusei a emitir qualquer declaração, por mínima que fosse, aguentando todo tipo de insuportável mexerico e recebendo, sem particular interesse, uma denúncia por agressão. Como é compreensível, desde então vivo encerrado em casa, limitando as saídas ao estritamente necessário, e afundando aos poucos em uma solidão pela qual me sinto aterrorizado, e ao mesmo tempo protegido.

Devo admitir que, pelas fotos enviadas por meu advogado, pareceria que de fato eu golpeei o Doutor na cabeça. Que pontaria.

Afinal voltaram quando a escuridão já estava a caminho, a Filha com seu passo cubista, a Noiva jovem com a mente em certos pensamentos seus, esfumados.

 

Fingiram não se dar conta, mas a verdade é que as entregas começaram a rarear, deixando dias vazios sem nome, segundo ritmos que pareciam ter pouco de racional e portanto algo de incoerente com a mente do Filho, tal como a tinham conhecido. Chegou uma harpa irlandesa, e no dia seguinte vieram duas toalhas de mesa bordadas. Depois nada, porém, por dois dias. Sacos de sementes, numa quarta-feira, e nada até o domingo. Uma barraca amarela, três raquetes de tênis, mas no meio quatro dias sem nada. Quando uma semana inteira se passou sem que um só toque do correio chegasse para medir o tempo de espera, Modesto se decidiu a solicitar, respeitosamente, uma conversa com o Pai. Havia preparado com cuidado a frase de abertura. Era coerente com as enraizadas inclinações da Família, historicamente estranhas a qualquer pessimismo.

Terá com certeza registrado, senhor, certo espaçamento das entregas, nos últimos tempos. Eu estava me perguntando se não seria o caso de deduzir daí a iminente chegada do Filho.

O Pai o encarou, silencioso. Vinha de pensamentos longínquos, mas registrou em alguma nesga periférica da mente a beleza da fidelidade a um estilo, com frequência mais visível nos servos do que nos patrões. Certificou-a com um sorriso imperceptível. Mas, como ele continuava silencioso, Modesto prosseguiu.

Aconteceu-me notar, por outro lado, que o último telegrama matutino remonta a vinte e dois dias atrás, disse.

O Pai também havia notado. Não seria capaz de remontar a um dia exato, mas sabia que desde algum tempo antes o Filho havia parado de tranquilizar a Família sobre o resultado de suas noites.

Acenou que sim, com a cabeça. Mas permaneceu silencioso.

Na severa interpretação que dava ao seu ofício, Modesto considerava que se calar em companhia de um patrão era uma prática excessivamente íntima, e por conseguinte a evitava sistematicamente recorrendo a duas operações elementares: pedir permissão para sair, ou continuar falando. Em geral preferia a primeira. Naquele dia, arriscou a segunda.

Então, se o senhor me der licença para tal, iniciarei os preparativos para a chegada, e disponho-me a dedicar a isso todo o meu empenho, dado o afeto que sinto pelo Filho e considerando a alegria que o fato de revê-lo irá trazer para toda a casa.

O Pai quase se comoveu. Conhecia aquele homem desde sempre, então naquele momento era perfeitamente capaz de compreender o que ele estava verdadeiramente lhe dizendo, no avesso de suas palavras, com uma generosidade e uma elegância irrepreensíveis. Modesto dizia que alguma coisa não ia bem com o Filho, e que ele estava ali para fazer tudo o que fosse necessário a fim de que não fosse perturbada a regra que, naqueles aposentos, não permitia a ninguém render-se à dor. Provavelmente, estava também recordando ao Pai que sua própria devoção pelo Filho era tal que nenhuma tarefa lhe pareceria imprópria, se o objetivo fosse o de suavizar o destino dele.

Por isso manteve-se em silêncio, o Pai — tocado pela proximidade daquele homem. Pela inteligência, pelo controle. Estava, justamente naquela tarde, medindo a própria solidão, e ao observar Modesto deu-se conta de ver nele o único personagem, digno, que habitava naquelas horas a paisagem aberta do seu desconcerto. E de fato acontece, em momentos como aqueles, quando somos chamados a suportar dores secretas, ou não facilmente enunciáveis, que sejam personagens secundários, de programática modéstia, a quebrar de vez em quando o isolamento ao qual nos obrigamos, com o resultado de nos vermos, como aconteceu comigo há apenas alguns dias, concedendo a desconhecidos a entrada ilógica em nosso labirinto, na ilusão infantil de poder extrair disso uma sugestão, ou uma vantagem, ou mesmo apenas um alívio passageiro. No meu caso, tenho vergonha de dizê-lo, tratava-se do vendedor de um supermercado que com meticulosa atenção estava dispondo congelados no caixote apropriado — eu não saberia como chamá-lo exatamente —, e o fazia com as mãos avermelhadas pelo gelo. Não sei, pareceu-me que ele fazia algo afim àquilo que eu deveria fazer, relativamente ao caixote da minha alma — não saberia como chamá-lo exatamente. Acabei dizendo-lhe isso. Gostei de ver que ele não parava de trabalhar enquanto me dizia que não estava seguro de haver compreendido bem. Então expliquei melhor. Minha vida se despedaçou, contei, e não consigo repor os pedaços nos lugares certos. Minhas mãos estão cada vez mais geladas, faz algum tempo que já não sinto nada, acrescentei. Ele deve ter pensado estar lidando com um doido, e de fato aquela foi a primeira vez em que pensei que poderia até enlouquecer — possibilidade que o Doutor, tolamente, fazia questão de excluir, antes de eu o acertar a golpes de relógio. O segredo é fazê-lo todos os dias, me disse então o vendedor do supermercado. A pessoa faz as coisas todos os dias, e assim fica fácil. Eu faço isto todos os dias, nem percebo mais. O senhor faz alguma coisa todos os dias?, me perguntou. Escrevo, respondi. Ótimo. O que escreve? Livros, eu disse. Livros sobre o quê? Romances, respondi. Eu não tenho tempo de ler, comentou — é o que dizem sempre. Certo, compreendo, disse eu, não é grave. Tenho três filhos, disse ele — talvez fosse uma justificativa, mas eu em vez disso tomei-a pelo início de um diálogo, como uma autorização para trocarmos alguma coisa, então lhe expliquei que, embora possa parecer curioso, eu podia colocar pedaços de livro um sobre o outro sem sequer olhá-los, basta tocá-los com a ponta dos dedos, por assim dizer, enquanto a mesma operação me resulta proibitiva quando me aplico aos pedaços da minha vida, com os quais não consigo construir nada que tenha uma forma sensata, ou mesmo apenas educada, se não agradável, e isso apesar do fato de ser um gesto a que me aplico praticamente todo dia, e já faz tantos dias que, sabe, eu disse, minhas mãos estão geladas, não sinto mais nada.

Ele me encarou.

Sabe onde posso encontrar guardanapos de papel?, perguntei.

Claro, venha comigo.

Caminhava à minha frente, em seu uniforme branco, e por um instante vi o único personagem, digno, que habitava naquelas horas a paisagem aberta do meu desconcerto. Por isso consigo compreender por que o Pai, em vez de dizer alguma coisa a propósito do Filho, abriu uma gaveta e tirou dali um envelope, aberto, carregado de selos. Girou-o um pouco entre as mãos. Depois o estendeu a Modesto. Disse que vinha da Argentina.

Modesto não dispunha de imaginação — qualidade inútil em seu ofício, se não danosa —, de modo que não se moveu: estava-se falando do Filho, a Argentina não tinha a ver, ou, se tivesse, fazia-o mediante conexões cujo mapa ele não conhecia.

Mas o Pai estava apavorado com a própria solidão, por isso fez um gesto peremptório e disse:

Leia, Modesto.

Este pegou o envelope. Abrindo-o, viu-se pensando que, em cinquenta e nove anos de serviço, tivera acesso a uma série de segredos, e no entanto aquela era a primeira vez que alguém lhe ordenava expressamente que o fizesse. Estava se perguntando se isso mudaria de algum modo o estatuto de sua posição naquela Casa, quando as primeiras linhas o arrebataram de qualquer pensamento. A carta estava escrita em uma letra um tanto complicada, mas com uma ordem que apenas no fim se rendia ao cansaço. Nomeava as coisas sem buscar elegância ou precisão, mas sim remetendo tudo à simplicidade que se imagina terem os fatos, quando não se teve o privilégio de estudá-los. Não havia luxo, nem comoção, nem inteligência. As pedras, se falassem, falariam daquele modo. Era uma carta breve. Estava assinada com uma rubrica.

Modesto dobrou de novo o papel e, por vocação instintiva para a ordem, guardou-o no envelope. A primeira coisa que registrou, desorientado, foi que não havia rastro do Filho, naquela carta: o assunto era totalmente outro. Ele não estava habituado a enfrentar as coisas daquele modo — tinha sempre a argúcia de dispor os problemas em uma sequência linear, na qual fosse possível considerá-los um a cada vez: arrumar a mesa constituía a mais elevada exemplificação de tal preceito.

A segunda coisa que registrou, ele a disse em voz alta.

É terrível.

Sim, disse o Pai.

Modesto pousou a carta sobre a escrivaninha, como se ela queimasse.

Quando chegou?, perguntou. Não se lembrava de ter pronunciado uma pergunta tão direta ao Pai, nem ao Pai do Pai, em toda a sua vida.

Faz alguns dias, respondeu o Pai. Foi escrita por um informante de Comandini, eu tinha pedido a este que mantivesse a situação vagamente sob controle.

Modesto assentiu. Não admirava os modos de Comandini, mas sempre havia reconhecido a habilidade dele.

A Noiva jovem sabe?, perguntou.

Não, disse o Pai.

Será preciso informá-la.

O Pai se levantou.

Talvez, disse.

Por um instante hesitou entre ir até a janela, para esculpir uma pausa silenciosa, ou medir o aposento com passos lentos que fariam Modesto compreender seu cansaço, mas também sua calma. Optou por girar em torno da escrivaninha e deter-se, diante do serviçal. Olhou para ele.

Disse-lhe que muitos anos antes havia começado a fazer um gesto, e que desde então nunca tinha parado de se dedicar à ilusão de concluí-lo. Disse, um tanto obscuramente, que havia herdado de sua família um nó intricado em que já ninguém parecia conseguir distinguir qual era o fio da vida e qual o fio da morte, e disse que havia pensado em desatá-lo, e esse era o seu projeto. Podia recordar o dia preciso em que isso tinha lhe ocorrido, a saber, o dia da morte do seu pai — pelo modo como este havia morrido, como tinha querido morrer. A partir dali havia iniciado a trabalhar com paciência, convencido de que desencadear aquele gesto seria a passagem mais difícil: mas agora compreendia que o esperavam provas inesperadas, de que não tinha experiência, e diante das quais exibia um saber insuficiente. Porém não podia voltar atrás, a não ser que se fizesse perguntas para as quais não tinha nem talento nem respostas. Assim, ainda existia aquela trilha a percorrer de novo, e de repente ele constatara haver perdido os traços dela porque alguém tinha removido, ou baralhado, os sinais que ele havia predisposto no terreno. E por cima de tudo estava descendo uma névoa, ou um crepúsculo, não lhe era claro. Por isso nunca estivera tão próximo de se perder, e essa era a razão por que agora se via, estupefato, explicando tudo aquilo a um homem que eu recordo, eterno, movendo-se em torno da minha vida de menino, presente em toda parte e sempre ausente, tão inexplicável que um dia cheguei a perguntar ao meu pai quem era ele, ouvindo como resposta É um serviçal, nosso melhor serviçal. Então eu lhe perguntei o que fazia um serviçal. É um homem que não existe, me explicou meu pai.

Continuar: parte 4 de 6