A Noiva Jovem
A Noiva jovem
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 6 partes.
Preste atenção, menina. Eu cresci como você, era a única filha fêmea no meio de muitos filhos machos. Não contando os mortos, somavam seis. Mais um: meu pai. Nossa família é gente que trabalha com animais, desafia a terra a cada dia e raramente se permite o luxo de pensar. As mães envelhecem depressa, as filhas têm traseiros duros e seios brancos, os invernos são intermináveis, os verões tórridos. Consegue entender qual é o problema?
Obscuramente, mas a Noiva jovem podia entendê-lo.
A avó abriu os olhos e fitou a neta.
Não pense que vai se safar escapulindo. Eles correm mais depressa do que você. E quando não querem correr, esperam que você volte, e depois atacam.
A avó fechou os olhos e fez uma careta, porque algo dentro dela a estava devorando e o fazia com mordidas, repentinas e imprevisíveis. Quando passava, ela recomeçava a respirar e cuspia no chão um líquido fedorento, tingido de cores que só a morte pode inventar.
Sabe o que fiz?, perguntou.
A Noiva jovem não sabia.
Fiz me desejarem até que ficassem doidos, depois me entreguei, e depois os mantive presos pelos colhões por toda a vida. Já se perguntou quem manda nesta família?
A Noiva jovem acenou que não com a cabeça.
Eu, imbecil.
Outra mordida me tirou o fôlego. Cuspi aquele troço, já nem queria saber onde. Só tomava o cuidado de não cuspir sobre mim. Aquilo ia parar nas cobertas, nem caía mais no chão.
Tenho cinquenta e três anos, estou à beira da morte e posso lhe dizer com segurança uma coisa: não faça como eu. Não é um conselho, é uma ordem. Não faça como eu. Entendeu?
Por quê?
Perguntou com uma voz adulta, quase agressiva. De uma hora para outra já não havia nela nada de criança. Tinha ficado aborrecida, de repente. A coisa me agradou. Empertiguei-me um pouco no travesseiro e compreendi que com aquela menina eu podia ser dura, má e fantástica tal como havia sido, com grande prazer, a cada instante daquela vida que agora me fugia a fisgadas no ventre.
Porque não funciona, respondi. Todos ficam malucos, não há mais nada que se ajeite, e mais cedo ou mais tarde você se vê de barriga.
Como assim?
Seu irmão vem para cima de você, mete o passarinho e lhe deixa um filho no bucho. Quando não é seu pai que faz isso. Ficou claro agora?
A Noiva jovem permaneceu impassível. Mais claro, sim.
Não imagine que seja uma coisa desagradável. Na maioria das vezes, deixa você enlouquecida.
A Noiva jovem não disse nada.
Mas isso você não pode entender agora. Limite-se a gravar na mente minhas palavras. Está claro?
Sim.
Portanto, não faça como eu, está tudo errado. Eu sei o que você deve fazer, preste bem atenção, vou lhe dizer o que deve fazer. Chamei você aqui para dizer o que deve fazer.
Tirou as mãos de sob as cobertas, precisava delas para se explicar. Eram mãos feias, mas se via que, se dependesse delas, ainda esperariam um bom tempo antes de acabar embaixo da terra.
Isso que você tem no meio das pernas, esqueça. Não basta esconder. Deve esquecer. Nem mesmo você deve saber que tem essa coisa. Não existe. Esqueça que é uma mulher, não se vista como mulher, não se mova como mulher, corte os cabelos, mova-se como um rapaz, não se olhe no espelho, arruíne as mãos, resseque a pele, nunca deseje ser bonita, não procure agradar a ninguém, nem sequer a você mesma. Tem que causar repulsa, e então eles a deixam em paz, se esquecem de você. Está me entendendo?
Acenei que sim com a cabeça.
Não dance, nunca durma com eles, não se lave, acostume-se a feder, não olhe os outros homens, não faça amizade com nenhuma mulher, prefira os trabalhos mais duros, mate-se de cansaço, não acredite nas histórias de amor e nunca sonhe de olhos abertos.
Eu escutava. A avó me olhou bem, para ter certeza de que eu a escutava. Depois baixou a voz, e então se percebia que estava para vir a parte mais difícil.
Mas preste muita atenção a uma coisa: guarde nos olhos e na boca a mulher que você é, jogue tudo fora mas conserve os olhos e a boca: um dia você vai precisar deles.
Ficou pensando um instante.
Se realmente for inevitável, renuncie aos olhos, acostume-se a olhar para o chão. Mas salve a boca, do contrário não vai saber por onde recomeçar, quando lhe for necessário.
A Noiva jovem a observava com olhos que haviam se tornado enormes.
Quando me vai ser necessário?, perguntou.
Quando você encontrar um homem que lhe agrade. Vá buscá-lo e case-se com ele, é uma coisa que convém fazer. Mas você deverá ir buscá-lo, e então vai precisar de sua boca. E em seguida dos cabelos, das mãos, dos olhos, da voz, da astúcia, da paciência e da habilidade do ventre. Terá que reaprender tudo desde o início: faça isso depressa, senão eles vão chegar antes desse homem. Compreende o que eu quero dizer?
Sim.
Verá que tudo vai voltar em um instante. Você deve somente se apressar. Escutou bem?
Sim.
Então repita.
A Noiva jovem fez isso, palavra por palavra, e quando não se lembrava da palavra certa usava uma das suas.
Você é uma mulher esperta, disse a avó. Disse exatamente mulher.
Esboçou um gesto no ar, talvez fosse uma carícia não feita.
E agora vá, disse.
Tinha sentido uma daquelas mordidas, soltou um ganido, de animal. Voltou a colocar as mãos sob as cobertas, para apertar onde a morte comia, no ventre.
A Noiva jovem se levantou e por um tempinho ficou imóvel, ao lado da cama. Pretendia perguntar uma coisa, mas não era fácil encontrar o jeito.
Meu pai, falei. E logo travei.
A avó se voltou para me esquadrinhar, com olhos de animal acuado.
Mas eu era uma menina esperta, portanto não me detive e perguntei Meu pai nasceu daquele modo lá?
Que modo?
Meu pai nasceu de um homem da nossa família, daquele modo lá?
A avó me encarou e o que ela pensou eu posso compreender hoje: que nunca se morre verdadeiramente, porque o sangue continua, levando consigo pela eternidade todo o melhor e o pior de nós.
Deixe-me morrer em paz, menina, respondeu. Agora me deixe morrer em paz.
Por isso, naquela noite tórrida, quando a Filha, fitando-me com uma mansidão que podia também ser maldade, me repetiu que experimentasse, e portanto que recordasse o que eu tinha entre as pernas, eu soube de imediato que não era um momento qualquer, e sim o encontro de que minha avó havia me falado, enquanto cuspia morte ao redor: à Filha, aquilo podia parecer um jogo, mas para mim era um limiar. Eu o adiara sistematicamente, com uma determinação feroz, porque também havia herdado um medo, como todos, e dedicado a ele boa parte da minha vida. Tinha conseguido fazer o que me ensinaram. Mas, desde quando conheci o Filho, sabia que agora faltava o último gesto, talvez o mais difícil. Devia reaprender tudo desde o início, e agora que ele estava chegando convinha fazer isso depressa. Pensei que a voz mansa da Filha — a voz maldosa da Filha — era um presente da sorte. E, já que ela me dizia que experimentasse, obedeci e experimentei, sabendo perfeitamente que estava tomando um caminho sem retorno.
Como acontece às vezes na vida, percebeu que sabia muito bem o que fazer, embora ignorasse o que estava fazendo. Era um début e um baile, teve a impressão de haver trabalhado nisso durante anos, em horas de exercício das quais agora não tinha memória. Deixou tudo seguir sem pressa, esperava que os gestos certos chegassem, vinham com um ritmo de lembranças, desconexas mas exatas até o detalhe. Gostou quando a respiração começa a soar na voz, e dos momentos em que é o caso de parar. Na mente não tinha pensamentos, até lhe ocorrer que desejava se ver, senão de tudo isso só lhe restaria uma sombra feita de sensações, e ela queria uma imagem, verdadeira. Então abriu os olhos, e o que viu permaneceu durante anos em minha mente como uma imagem capaz, em sua simplicidade, de explicar coisas, ou de identificar um início, ou de excitar a fantasia. Sobretudo o primeiro lampejo, no qual tudo era inesperado. Não me deixou mais. Porque a gente nasce muitas vezes, e naquele lampejo eu tinha nascido para uma vida que depois viria a ser a minha mais verdadeira, e irremediável, e violenta. Assim, até hoje, quando tudo já aconteceu, e é a estação dos esquecimentos, me seria difícil recordar se de fato a Filha a certa altura realmente se ajoelhou ao lado da minha cama, e me acariciou os cabelos e me beijou as têmporas, coisa que eu talvez tenha apenas sonhado, mas ainda recordo com absoluta precisão que de fato ela me comprimiu a boca com uma mão quando eu, no fim, não consegui sufocar um grito, e disso tenho certeza, porque ainda posso recordar o sabor daquela mão e o estranho instinto de lambê-la, como faria um animal.
Se você gritar vai ser descoberta, disse-lhe a Filha, afastando a mão da boca da Noiva jovem.
Eu gritei?
Sim.
Que vergonha.
Por quê? É só que podem descobri-la.
Que cansaço.
Durma.
E você?
Durma, eu vou dormir.
Que vergonha.
Durma.
Na manhã seguinte, à mesa dos desjejuns, tudo lhe pareceu mais simples, e, por razões incompreensíveis, tudo mais lento. Percebeu que deslizava pelas conversas e que se esgueirava delas com uma facilidade da qual nunca se consideraria capaz. Não era uma impressão somente sua. Intuiu um véu de galanteria em um pequeno gesto do Inspetor dos Correios e convenceu-se de que os olhos da Mãe verdadeiramente a viam, até com um instante de hesitação, quando passavam sobre ela. Buscou com o olhar a taça de creme, à qual não tinha ainda ousado aspirar e, antes mesmo de encontrá-la, viu que Modesto a estendia para ela com o comentário de dois inequívocos pigarros. Ela o encarou, sem compreender. Ele, estendendo-lhe o creme, fez uma reverência em que escondeu uma frase quase imperceptível, mas claríssima.
Brilhe, hoje, senhorita. Tome cuidado.
O Filho começou a chegar em meados de junho, e a todos pareceu claro, após alguns dias, que aquilo levaria um tempo. A primeira coisa a ser entregue foi uma pianola dinamarquesa, desmontada, e até aí se podia inclusive pensar que um fragmento enlouquecido tivesse fugido à lógica que o Filho dera seguramente ao transporte de seus objetos, acabando por preceder, com certo efeito cômico, o grosso da expedição. Mas no dia seguinte foram entregues dois carneiros galeses da raça Fordshire, assim como um baú lacrado e identificado com a escrita MATERIAL EXPLOSIVO. Seguiram-se, em cadência cotidiana, um tecnígrafo produzido em Manchester, três quadros de naturezas-mortas, a maquete de um estábulo escocês, um uniforme de operário, um par de rodas dentadas de difícil destinação, doze mantas de lã levíssima, uma chapeleira vazia e um painel com os horários da estação londrina de Waterloo. Como a procissão não parecia prever um fim, o Pai se sentiu no dever de tranquilizar a Família esclarecendo que estava tudo sob controle e que, tal como o Filho havia tratado de lhe anunciar por carta, o retorno da Inglaterra estava acontecendo dentro das maneiras mais apropriadas a evitar inúteis superposições e danosas complicações. Modesto, que tivera suas dificuldades em instalar os dois carneiros da raça Fordshire, permitiu-se um pigarro seco, e então o Pai teve de acrescentar que convinha levar em conta um mínimo de incômodo. Como Modesto parecia não ter resolvido seus problemas laríngeos, o Pai concluiu assegurando que lhe parecia razoável prever a chegada do Filho a tempo para o veraneio.
O veraneio, em família, era um aborrecido costume que se resolvia em duas semanas passadas nas montanhas francesas: em geral era interpretado como um dever e suportado por todos com elegante resignação. Quando chegava o momento, era tradição deixar a casa completamente vazia, e isso por um instinto de origem camponesa, que tinha a ver com a rotação das culturas: pensava-se que ela devia ser deixada em repouso a fim de que, no retorno, fosse possível voltar a semear, com sucesso, a efervescência dos membros da Família, seguros de poder contar com a costumeira e abundante colheita. Por esse motivo, os serviçais eram mandados para suas casas, e até Modesto era convidado a dispor daquilo que outros chamariam de férias e ele interpretava como uma suspensão imotivada do tempo. Via de regra, tudo acontecia em torno do feriado de 15 de agosto: devia-se deduzir, por conseguinte, que a procissão de objetos ainda se prolongaria durante uns cinquenta dias. Estava-se em meados de junho.
Não entendi, ele chega ou não chega?, perguntou a Noiva jovem à Filha quando ficaram sozinhas, terminado o desjejum.
Está chegando, a cada dia chega um pouco, acabará de chegar dentro de um mês, se tanto, respondeu a Filha. Você sabe como ele é, acrescentou.
A Noiva jovem sabia como ele era, mas não muito bem, nem em detalhes, nem de modo particularmente claro. Na realidade, o Filho lhe agradara justamente porque não era compreensível, ao contrário de todos os outros rapazes de sua idade, em quem não havia nada a compreender. Na primeira vez em que os dois se viram, ele a impressionou pela elegância de doente com que exibia os gestos, e por certa beleza de moribundo. Estava muitíssimo bem, que ela soubesse, mas uma pessoa com os dias contados se moveria como ele, e sobretudo silenciaria ao máximo, como ele, para falar somente de vez em quando, em voz baixa, e com uma intensidade irrazoável. Parecia marcado por alguma coisa, mas que se tratasse de um destino trágico era uma dedução literária demais que a Noiva jovem aprendeu cedo, e por instinto, a superar. Na realidade, na trama daqueles fragilíssimos traços e daqueles gestos convalescentes, o Filho escondia uma assustadora avidez de vida e uma rara facilidade de imaginação: virtudes, ambas, que naquele ambiente rural eram de uma inutilidade espetacular. Todos o consideravam inteligentíssimo, coisa que na sensibilidade comum equivalia a considerá-lo anêmico, ou daltônico: uma doença inofensiva e elegante. Mas o Pai, de longe, espiava-o e sabia; a Mãe, mais de perto, protegia-o e intuía: tinham um filho especial. Com instinto de animalzinho, a Noiva jovem também compreendeu isso, e tinha somente quinze anos. Então passou a ficar perto dele, a troco de nada, sempre que a ocasião se oferecia, e, como ao longo dos anos fizera de si mesma uma espécie de garoto agreste, tornou-se para o Filho uma espécie de fiel amigo estranho, mais jovem, um pouco selvagem e tão misterioso quanto ele. Ficavam em silêncio. A Noiva jovem, sobretudo, em silêncio. Compartilhavam o gosto pelas frases suspensas, a predileção por certos ângulos de luz e a indiferença por toda mesquinhez. Era estranho vê-los, ele em sua elegância, ela obstinadamente malcuidada, e se havia um traço feminino, em algum ponto, naquele casal, seria mais fácil encontrá-lo nele. Começaram a conversar, quando conversavam, dizendo nós. Eram vistos correndo ao longo da cheia do rio, mas seguidos por alguma coisa da qual não havia rastro na imensidão do campo. Foram vistos no alto do campanário, depois de terem copiado a escrita gravada dentro do sino grande. Tinham sido vistos na fábrica perscrutando os movimentos dos operários sem dizer uma só palavra, durante horas, mas anotando números em um caderninho. As pessoas acabaram se habituando a eles, coisa que os tornou invisíveis. Quando aconteceu, a Noiva jovem se lembrou das palavras de sua avó, e sem pensar muito reconheceu aquilo que ela lhe havia prenunciado, ou talvez até prometido. Não se lavou, não prendeu os cabelos, manteve as roupas imundas de sempre, a terra embaixo das unhas e o odor áspero entre as coxas; e mesmo os olhos, aos quais tinha renunciado havia tempos, ela continuou a movê-los sem mistério, imitando a matreira obtusidade dos animais domésticos. Mas quando um dia o Filho, ao término de um silêncio que a Noiva jovem achou de duração perfeita, virou-se para ela e fez uma simples pergunta, ela, em vez de responder, usou aquilo que durante seis anos tinha mantido reservado para ele, e o beijou.
Não era o primeiro beijo, para o Filho, mas de certo modo o foi. Antes, e em tempos diferentes, outras duas mulheres tinham-no beijado: coerentemente com o tipo de rapaz que ele era — sem idade —, duas mulheres maduras, amigas da Mãe. Tudo havia sido feito por elas, uma em um canto do jardim e a outra em um vagão ferroviário. Mais do que qualquer outra coisa ele recordava, em ambas, o estorvo do batom. Não a primeira, por delicadeza, mas a segunda, por puro desejo, havia se abaixado para tocá-lo e tomá-lo na boca demorada e lentamente, até fazê-lo gozar. Depois não se seguira nada, por outro lado eram duas mulheres cultas, mas quando lhe acontecia encontrá-las o Filho lia nos olhos delas uma longa prosa secreta que, afinal, era a parte de tudo aquilo que lhe resultava mais excitante. Quanto ao acasalamento propriamente dito, digamos completo, o Pai, homem bonachão e, dependendo, feroz, havia fixado o prazo para o momento certo e no bordel de família, na cidade. Uma vez que ali sabiam reconhecer depressa as predileções de cada um, tudo aconteceu de modo que o Filho achou confortável e apropriado. Apreciou a velocidade com que a primeira mulher da sua vida compreendeu que ele faria aquilo vestido e de olhos abertos, e que ela deveria fazer em silêncio e completamente nua. Era alta, falava com um sotaque do Sul e abria as pernas com solenidade. Ao se despedir, passou-lhe um dedo sobre os lábios — que ele tinha exangues, de doente, mas belíssimos, de mártir — e disse que ele teria sucesso com as mulheres, porque nada as excita tanto quanto o mistério.
Portanto, tinha um passado, o Filho, e mesmo assim o beijo virgem da Noiva jovem o deixou estupefato: porque a Noiva jovem era um garoto, porque era um pensamento impensável, porque era um pensamento que na realidade ele sempre havia pensado, e porque agora era um segredo que ele conhecia. Além disso, ela beijava de um modo… Assim, o Filho ficou perturbado, e ainda meses depois, quando a Mãe, sentada ao seu lado, pediu-lhe que explicasse, por piedade, por que diabos queria ficar noivo de uma garota que, ao que ela sabia, não dispunha nem de peitos, nem de bunda, nem de tornozelos, ele fez um dos seus intermináveis silêncios e depois respondeu apenas: sua boca. A Mãe procurou no índice de lembranças algo que ligasse aquela garota ao termo boca, mas não encontrou nada. Então deu um longo suspiro, prometendo-se prestar mais atenção no futuro, porque evidentemente alguma coisa tinha lhe escapado. Foi o instante, pode-se dizer, em que lhe nasceu uma curiosidade que, anos depois, iria lhe ditar um gesto instintivo e memorável, como se verá. Naquele momento, porém, limitou-se a dizer: Aliás, sabe-se que os rios correm para o mar, e não o contrário (muitos dos seus silogismos eram de fato imperscrutáveis).
Depois daquele primeiro beijo, as coisas se precipitaram de modo geométrico, primeiro secretamente, depois à luz do sol, até gerar aquela espécie de lento matrimônio que é de fato o tema da história que me vejo contando aqui, e a propósito da qual um velho amigo me perguntou ontem, com doçura, se teria a ver alguma coisa com as vicissitudes que estão me matando nestes meses, ou seja, no mesmo período em que me revejo contando esta história que, pensava o velho amigo, podia também ter a ver com a história daquilo que está me matando. A resposta correta — não — não era difícil de dar, e no entanto fiquei mergulhado no silêncio e não respondi nada, e isso porque deveria explicar como tudo o que escrevemos tem naturalmente a ver com o que somos, ou o que fomos, mas quanto a mim jamais pensei que se possa resolver o ofício de escrever confeccionando de maneira literária os próprios assuntos, com o penoso estratagema de mudar os nomes e às vezes a sequência dos fatos, quando em vez disso o sentido mais correto do que podemos fazer sempre me tenha parecido inserir entre nossa vida e aquilo que escrevemos uma distância magnífica que, primeiro produzida pela imaginação e depois preenchida pelo ofício e pela dedicação, nos leva a um alhures onde surgem mundos, antes inexistentes, nos quais tudo o que existe de intimamente nosso, inconfessavelmente nosso, volta a existir, mas quase desconhecido por nós, e tocado pela graça de formas delicadíssimas, como de fósseis ou de borboletas. Decerto o velho amigo teria tido dificuldades para compreender e este é o motivo por que me mantive mergulhado no silêncio e não respondi nada, mas agora percebo que eu poderia ter mais proveitosamente caído na gargalhada perguntando-lhe, e me perguntando, o que caralho pode ter a ver a história de uma família que faz o desjejum até as três da tarde, ou de um tio que dorme o tempo todo, com a repentina derrota que está me cancelando da face da terra (ou pelo menos é essa a sensação que experimento). Nada, mas absolutamente nada. Se não o fiz, porém, não foi só porque rir me custa muito, nestes tempos, mas também porque sei, com segurança, que de maneira sutil teria dito uma falsidade. Uma vez que os fósseis e as borboletas estão ali, e você começa a descobri-los já enquanto escreve, às vezes não deve nem esperar anos, relendo a frio — de vez em quando os intui enquanto a fornalha está incandescente e você está malhando o ferro. Por exemplo, eu deveria ter contado ao velho amigo que escrevendo sobre a Noiva jovem me acontece mudar mais ou menos bruscamente a voz narrativa, por razões que no momento me parecem requintadamente técnicas, e no máximo debilmente estéticas, com o evidente resultado de complicar a vida do leitor, coisa por si irrelevante, mas também com um aborrecido efeito de virtuosismo que em um primeiro momento até procurei combater, mas me rendendo depois à evidência de que simplesmente não conseguia sentir aquelas frases senão as fazendo deslizar daquele modo, como se o sólido apoio de uma voz narrativa clara e distinta fosse algo em que eu não acreditava mais, ou que para mim se tornara impossível de apreciar. Uma simulação para a qual eu tinha perdido a inocência necessária. No final me caberia admitir diante do velho amigo que, mesmo sem intuir os detalhes da coisa, posso chegar a pensar que exista uma assonância entre o eventual deslizamento da voz narrativa nas minhas frases e o que me coube descobrir nestes meses, a propósito de mim e de outros, vale dizer, o assomar possível à vida de acontecimentos que não têm uma direção, e por conseguinte não são histórias, por conseguinte não é possível contá-los, e em última análise são enigmas sem forma destinados a me queimar os miolos, tal como meu caso está demonstrando. De maneira quase involuntária eu reverbero o desconcertante absurdo disso no gesto artesanal que faço para ganhar a vida, ocorre-me agora dizer ao meu velho amigo, conquanto tardiamente, implorando-lhe compreender que sim, estou escrevendo um livro que provavelmente tem a ver com o que está me matando, mas peço que considere isso uma admissão arriscada e muito confidencial, completamente inútil de recordar, já que no fim a sólida realidade dos fatos, que chega a surpreender até a mim, juro, é que no fim, apesar de tudo o que está me acontecendo ao redor, e dentro, agora a coisa que mais me parece necessitada de cuidados é depurar a narrativa de quando, no geométrico fluir de sua paixão, o Filho e a Noiva jovem tropeçaram na variante inesperada daquela migração para a Argentina, nascida da férvida imaginação de um pai inquieto — ou louco. O Filho, em particular, não ficou muito perturbado, porque herdara da Família uma ideia de tempo um tanto evanescente, à luz da qual três anos não eram substancialmente distinguíveis de três dias: tratava-se de formas provisórias da provisória eternidade deles. A Noiva jovem, contudo, ficou aterrorizada. Ela, de sua família, herdara um medo preciso, e naquele momento compreendeu que, se os preceitos da avó tinham-na defendido e salvado até então, tudo seria mais difícil naquela terra estrangeira, longínqua e secreta. Sua condição de esposa prometida deixava-a aparentemente em segurança, mas também trazia à tona aquilo que durante anos ela conseguira sepultar, ou seja, a óbvia verdade de que era uma mulher. Acolheu com nervosismo a decisão do pai de levá-la logo consigo, claramente inútil como seria ela naqueles confins, e chegou a se perguntar se na repentina decisão do pai não se escondia uma intenção oblíqua. Partiu para a Argentina com a mala leve e o coração pesado.
Como se viu, fosse o que fosse o acontecido lá — e sem dúvida havia acontecido, como se verá —, a Noiva jovem voltou pontualmente, bastante polida, os cabelos devidamente recolhidos, a pele cândida e o passo gentil. De longe, tinha voltado para tomar posse do que lhe cabia e, pelo que sabia, nada a impediria de apresentar-se pontual, o coração intacto, para resgatar a delícia daquilo que lhe fora prometido.
No dizer de todos, isso aconteceria antes do veraneio.
Modesto.
Sim?
Aquela história dos livros.
Sim?
Podemos falar sobre isso um instante?
Se a senhorita desejar. Mas não aqui.
Estavam na cozinha e Modesto tinha uma ideia um pouquinho rígida quanto à destinação de cada espaço naquela casa. Na cozinha, cozinhava-se.
Se a senhorita quiser me acompanhar, eu estava justamente indo colher umas ervas aromáticas na horta, acrescentou.
O jardim, por exemplo, era um lugar adequado para falar.
O dia estava luminoso, não trazia vestígios da untuosa bruma que em geral, naquela estação, afligia os olhos e os humores. Pararam ao lado da sebe das ervas, à sombra comedida de um lilás.
Eu estava me perguntando se não seria possível uma dispensa, disse a Noiva jovem.
Como assim?
Eu queria permissão para ler. Ter livros. Não ser obrigada a ler no banheiro.
A senhorita faz a leitura no banheiro?
O senhor tem outros lugares para sugerir?
Modesto silenciou um instante.
É uma coisa importante para a senhorita?
É. Eu cresci numa família de camponeses.
Ofício nobilíssimo.
Pode ser, mas não é esse o ponto.
Não?
Frequentei um pouco uma escola de freiras, e só. Sabe por que não sou completamente ignorante?
Porque leu livros.
Exato. A descoberta ocorreu na Argentina. Não havia mais nada para fazer. Quem me passava os livros era um médico, levava-os para mim na ocasião em que aparecia em nossa casa, uma vez por mês, talvez fosse seu modo de me cortejar. Eu entendia pouco, eram em espanhol, mas os devorava mesmo assim. Era ele que escolhia os títulos, eu achava tudo ótimo. Era a melhor coisa que eu fazia, por lá.
Posso entender.
Agora sinto falta.
Mas no banheiro consegue ler alguma coisa.
O único livro que eu trouxe. Daqui a pouco vou poder repeti-lo de cor.
Posso me conceder a liberdade de lhe perguntar de que se trata?
Dom Quixote.
Ah, esse.
Conhece?
Um tantinho lento, não acha?
Descontínuo, digamos.
Eu não queria chegar a tanto.
Mas uma língua belíssima, acredite.
Acredito.
Cantante.
Imagino.
Seria de fato impossível encontrar algum outro, nesta casa? E ter a permissão para lê-lo?
Agora?
Sim, agora, por que não?
A senhorita se casará dentro em pouco. Quando estiver em sua casa, poderá fazer o que quiser.
O senhor deve ter notado que o andar das coisas está um pouco vagaroso.
Sim, é uma impressão que eu também tive.
Modesto ficou pensando um tempinho. Claro que ele mesmo, pessoalmente, poderia ajudar, sabia onde encontrar os livros e não seria difícil, nem desagradável, fazer chegar algum à Noiva jovem: mas era claro que a coisa representaria uma infração para a qual não tinha certeza de estar preparado. Após longa hesitação, pigarreou. A Noiva jovem não podia saber disso, mas era o prefixo laríngeo com que ele introduzia as comunicações a que atribuía particular caráter de reserva.
Fale a respeito com a Mãe, disse.
Com a Mãe?
O Pai é muito rígido quanto a este assunto. Já a Mãe, em segredo, lê. Poesias.
A Noiva jovem relembrou os silogismos imperscrutáveis e começou a compreender de onde vinham.
E quando o faz?
À tarde, no quarto dela.
Achei que recebia visitas.
Nem sempre.
A Mãe lê. Inacreditável.
Naturalmente, nunca lhe contei isso e a senhorita o ignora.
Claro.
Mas, se estivesse no seu lugar, eu recorreria à Mãe. Tenha a ousadia de pedir-lhe uma conversa em particular.
Bater à porta dela, sem muita cerimônia, parece-lhe uma coisa impraticável?
Modesto ficou imóvel.
Como?
Quero dizer, será suficiente ir bater à porta dela, imagino.
Modesto estava inclinado sobre a horta. Empertigou-se.
A senhorita tem consciência de quem estamos falando, não?
Claro. Da Mãe.
Mas no mesmo tom poderia ter dito “no porão” a alguém que lhe tivesse perguntado onde estavam as cadeiras quebradas a serem descartadas, e assim Modesto compreendeu que a Noiva jovem não sabia, ou pelo menos não sabia tudo, e amargurou-se profundamente, já que naquele momento percebeu que falhara na ambição com que despertava a cada manhã — ser perfeito —, por ter concedido àquela jovem o privilégio da confiança sem haver medido a circunferência da ignorância dela. Ficou perturbado e, por um longo instante, acabou refém de uma hesitação que não fazia parte nem dos seus deveres nem dos seus hábitos. A Noiva jovem até acreditou, por um átimo, que Modesto vacilava — só um titubeio no espaço —, e aliás vacilar é exatamente o que nos sucede quando percebemos traiçoeiramente a distância abissal que se produz, à nossa revelia, entre nossas intenções e a evidência dos fatos, experiência que me coube fazer reiteradas vezes, nos últimos tempos, como natural consequência de escolhas minhas e alheias. Como volta e meia tento explicar a quem se aventura a me escutar, a sensação que experimento, não particularmente original, é de não estar em lugar nenhum, mas a tal ponto que nem mesmo deus, se por capricho, naquele instante, decidisse lançar um olhar sobre a criação, poderia notar minha presença, de tão provisoriamente inexistente que sou. Naturalmente há fármacos para semelhantes circunstâncias, mas afinal cada um tem seus sistemas para entreter-se durante essas mortes intermitentes, e por exemplo eu tendo a organizar objetos, vez ou outra pensamentos, raramente pessoas. Modesto limitou-se a habitar o vazio por um punhado de segundos — muitíssimos, tratando-se dele —, e um dos privilégios do meu ofício é conhecer em detalhes o que lhe passou pela mente, vale dizer, a quantidade surpreendente de coisas que a Noiva jovem, evidentemente, não sabia. E o que a Noiva jovem não sabia era, evidentemente, a Mãe. A lenda, da Mãe.
Que era bela eu já devo ter mencionado, mas agora é o caso de especificar que sua beleza era, na percepção comum, e naquele mundo circunscrito, algo de mitológico. Suas origens mergulhavam nos anos da adolescência vivida na cidade, e por isso, no campo, só se conheciam ecos longínquos desse período, narrações lendárias, detalhes de insondável origem. Sabia-se, contudo, que a Mãe havia assumido sua beleza muito cedo e feito dela um uso, durante certo tempo, espetacular. Tinha se casado com o Pai à idade de vinte e cinco anos, quando muitas coisas já haviam acontecido, e por outro lado nunca tinha se arrependido de nada. Inútil esconder que o casamento não fazia nenhum sentido aparente, sendo o Pai um homem fisicamente irrelevante e sexualmente vinculado a cautelas previsíveis, mas tudo ficará mais claro na tarde, ou mais provavelmente na noite, em que eu sentir ter nos dedos as arestas adequadas a contar ao certo como as coisas se passaram, e portanto não agora, neste dia de sol em que me sinto antes capaz da suavidade necessária para resumir o que Modesto sabia e a Noiva jovem não, vale dizer, por exemplo, como era heterogênea a esteira de loucura que a Mãe deixara atrás de si, em seu simples deslizar pela vida citadina, experimentando sobre debilidades alheias a força do próprio encanto. Sabe-se que dois se mataram, um ingerindo uma dose até excessiva de veneno, o outro desaparecendo nos sorvedouros do rio. Mas inclusive um padre, de certa notoriedade, excelente pregador, havia sumido atrás dos muros de um convento, e um cardiologista estimado tinha encontrado abrigo nos corredores de um manicômio. Eram incontáveis os casais em que esposas nada desprezíveis conviviam com maridos cuja certeza era a de ter nascido para amar uma outra, isto é, a Mãe. Além disso, conheciam-se analogamente pelo menos três moças, todas de ótima família, todas regularmente casadas, que lhe estiveram tão próximas, nos anos verdes, a ponto de maturar uma repulsa perpétua pelo corpo masculino e pelas respectivas necessidades sexuais. O que ela concedera, a cada uma dessas vítimas, para levá-las a extremos, é notícia de que só existem vagos contornos, mas em dois fatos irrefutáveis pode-se confiar. O primeiro, e aparentemente mais previsível: o Pai desposou uma moça que não era virgem. O segundo, que deve ser tomado ao pé da letra: à Mãe, no tempo da juventude, não era necessário conceder nada para enlouquecer alguém: bastava amplamente o seu simples estar ali. Se isso pode parecer pouco crível, vejo-me obrigado a exemplificar escolhendo um detalhe, talvez o mais significativo, e sem dúvida o mais divulgado. Tudo era esplêndido, nela, mas, se falarmos de décolleté, ou mesmo daquilo que mantinha a promessa formulada pelo décolleté — estamos falando de seio —, então somos obrigados a nos alçar a um nível que é difícil definir, a menos que se queira recorrer a termos como encantamento. Baretti, em seu Índice, ao qual a referência é inevitável se quisermos dar à coisa um contorno objetivo, arrisca até a expressão feitiçaria, mas esta sempre foi uma passagem muito discutida de seu trabalho, elogiável sob todos os outros aspectos: é que, simplesmente, o termo feitiçaria sugere uma intenção maligna que de modo algum restitui a felicidade cristalina, conhecida por todos, que o olhar, mesmo fugaz, ao seio da Mãe proporcionava a quem tivesse a coragem de ousá-lo, ou o privilégio de poder ousá-lo. Com o tempo, o próprio Baretti concordou com isso. Nas mais tardias declamações do seu Índice, quando ele já era um ancião, embora digníssimo, a referência à feitiçaria tendia a desaparecer, dizem as testemunhas. Usei o termo declamação porque, como talvez não seja universalmente conhecido, o Índice de Baretti não era um livro, ou um documento escrito, mas uma espécie de liturgia oral por ele oficiada, que ademais se desenvolvia raramente, e nunca era anunciada com antecedência. Tinha em média uma frequência bienal, costumava cair no verão, e uma só coisa era fixa: começava à meia-noite em ponto. Mas de qual dia, isso ninguém sabia. Não raro acontecia que, pela imprevisibilidade do evento, Baretti se exibisse na presença de poucas testemunhas, se não até de duas únicas testemunhas, e em certo ano — que depois se revelou de seca — diante de ninguém. A coisa não parecia lhe importar, e isso deve esclarecer como a disciplina do Índice era nele uma necessidade pessoal, uma urgência que lhe concernia intimamente, e que só acidentalmente podia concernir aos outros. Aliás, ele era um homem de elegante modéstia, como se podia logicamente deduzir de seu ofício: trabalhava como alfaiate, na província.
Tudo começara quando — talvez para ostentar certa benevolência, talvez obrigada por uma urgência repentina — a Mãe foi à casa dele um dia, para mandar consertar um vestido de noite ao qual, na cidade, não tinham evidentemente dedicado o cuidado necessário. Por isso, o resultado do decote havia ficado impreciso.
Baretti estava, à época, com trinta e oito anos. Era casado. Tinha dois filhos. Gostaria de ter um terceiro. Naquele dia, porém, tornou-se velho, e simultaneamente menino, e definitivamente um artista.
Tal como ele depois teve oportunidade de contar incontáveis vezes, a Mãe o fez notar logo de início que, se ele teimasse em olhar para outro lado, para ela não seria fácil fazê-lo compreender o que desejava.
Desculpe, mas não creio ter a necessária imprudência para lhe ser útil, esquivou-se Baretti, sempre mantendo os olhos longe do decote.
Não diga bobagens, o senhor é alfaiate, não?
Em geral, me dedico à moda masculina.
Isso não é bom. Seus negócios vão se ressentir.
De fato.
Dedique-se às mulheres, vai lhe trazer vantagens indubitáveis.
Acha mesmo?
Não tenho dúvidas.
Acredito.
Então olhe para mim, santo Deus.
Baretti olhou.
Está vendo aqui?
Aqui era onde o tecido acompanhava a curva do seio, concedendo algo ao olhar e sugerindo muitíssimo à imaginação. Baretti era alfaiate, portanto a nudez não lhe era indispensável, e ele sabia ler os corpos sob o tecido: quer fossem os ombros ossudos de um velho tabelião ou a seda dos músculos em um padre jovem. Assim, quando se voltou para estudar o problema, o que constatou em um instante era como se curvavam os seios da Mãe, como os mamilos os giravam muito de leve para fora e ao mesmo tempo os remetiam para o alto, e que a pele era alva, salpicada de sardas que mal se anunciavam na área descoberta mas que sem dúvida desciam até onde a maioria das pessoas não podia ver. Sentiu na palma das mãos o que podiam ter sentido os amantes daquela mulher, e intuiu que eles haviam conhecido a perfeição, e decerto o desespero. Imaginou-os apertando, na cegueira da paixão, e acariciando, quando tudo já estava perdido: mas não encontrou em todo o reino natural um fruto que pudesse recordar mesmo de longe o misto de plenitude e de tepidez que eles deviam ter encontrado no fundo de seus gestos. Assim, pronunciou uma frase de que nunca se acreditaria capaz.
Por que tão fechado?
Como disse?
Por que usa um decote tão fechado? É um pecado. Um pecado imperdoável.
Quer saber mesmo?
Sim, disse Baretti, contra todas as suas convicções.
Estou cansada de acidentes.
Acidentes de que tipo?
Acidentes. Se o senhor quiser, dou uns exemplos.
Gostaria muito. E, se não lhe for incômodo, enquanto isso vou mexer nestas pences, que me parecem totalmente fora de lugar.
Foi assim que nasceu o Índice de Baretti, primeiro construído sobre os exemplos que a Mãe lhe forneceu, generosamente, e depois integrado por copiosíssimos depoimentos, recolhidos ao longo dos anos, e sistematizados em uma só narração litúrgica que alguns denominavam Saga, outros Catálogo e Baretti, com uma pontinha de megalomania, Poema épico. O tema era constituído pelos curiosos efeitos que, ao longo dos anos, o fato de ter tocado, entrevisto, afagado, intuído ou beijado o seio da Mãe havia produzido sobre quem tinha embarcado, incautamente, em uma das supracitadas cinco operações: aqueles efeitos que a Mãe definia, em uma rara exibição de síntese, como acidentes. A habilidade de Baretti foi memorizar tudo, sem incertezas; seu engenho, remeter a multiforme e incalculável casuística em questão a um esquema formular de indubitável eficácia e de certo valor poético. A primeira seção era fixa:
Não convém esquecer que
Entre o convém e o esquecer, muitas vezes aparecia, por razões musicais, um advérbio.
Não convém aliás esquecer que
Não convém ademais esquecer que
Não convém certamente esquecer que
Seguia-se uma breve colocação no tempo ou no espaço
na véspera da Páscoa
na entrada do Círculo de Oficiais
que introduzia a citação do protagonista, na maioria das vezes protegido sob uma expressão minimamente genérica
um suboficial da engenharia
um estrangeiro vindo no trem das 18 e 42
mas às vezes citado de maneira literal
o tabelião Gaslini
A reboque, seguia-se a enunciação do fato, que Baretti afirmava ser sempre verificado com rigor
dançou a quarta valsa do serão com a Mãe, estreitando-a por duas vezes, suficientes para sentir o seio dela comprimindo-lhe o fraque azul.
teve com a Mãe uma relação que durou três dias e três noites, aparentemente sem interrupções.
Nessa altura Baretti fazia uma pausa variável, às vezes quase imperceptível, segundo uma técnica teatral em que se tornou mestre, com o tempo. Quem assistiu a uma de suas declamações do Índice sabe que, naquela pausa, se formava um silêncio totalmente particular no qual é duvidável que alguém tivesse a ideia de respirar. Era como um ritmo animal, e Baretti o administrava esplendidamente. Na apneia geral, deixava então fluir a segunda parte da narração, a decisiva, aquela que dava conta das curiosas consequências que se seguiam ao fato citado — aquilo que a Mãe denominava acidentes. Essa era a seção menos rígida: a cada vez a métrica encontrava sotaques diferentes e o relato se desenrolava com certa liberdade, deixando espaço à invenção, à fantasia e, com frequência, à improvisação. Algo de verdadeiro havia sempre, no dizer de Baretti, mas todos concordam em afirmar que os contornos das circunstâncias sofriam de certa condescendência para com o maravilhoso. Aliás, era isso que todos esperavam — uma espécie de recompensa final e libertadora.
Em resumo, o esquema formular criado por Baretti previa duas seções, a primeira (inspirar) constituída de quatro subseções, e a segunda com maior liberdade mas sempre respeitando certa harmonia de conjunto (expirar). Deve-se levar em conta que esse esquema se repetia dezenas de vezes e — com o passar dos anos, por sucessivo acúmulo de exemplos — chegou a repetir-se centenas de vezes. Pode-se facilmente deduzir daí o efeito hipnótico, ou no mínimo acalentador, da singular declamação. Eu mesmo posso confirmar que assistir ao evento era uma experiência singular, raramente maçante, sempre deleitável. Ouvi em teatro coisas muito mais inúteis, quero dizer. E, naquelas oportunidades, eu tinha até pagado o ingresso. Não convém ademais esquecer que, em abril de 1907, o irmão de um notório exportador de vinhos, por causa de um repentino aguaceiro, viu-se atravessando a praça protegendo sob seu guarda-chuva a Mãe, que com naturalidade deu-lhe o braço, pressionando com aparente intenção o seio esquerdo contra ele. (Pausa) Sabe-se que o irmão do notório exportador de vinhos daí deduziu promessas que depois, não cumpridas, levaram-no a se transferir para o Sul, onde atualmente convive com um ator dialetal. Não convém esquecer que, durante o baile das jovens de dezoito anos em 1898, a Mãe tirou a pelerine e dançou sozinha, no meio do salão, como se tivesse sido tomada por uma repentina meninice, indiferente ao fato de que uma alça do vestido tivesse escorregado. (Pausa) Deve ter sido também pela idade, mas o fato é que nessa ocasião o deputado Astengo foi atingido por um infarto fulminante, morrendo enquanto formulava mentalmente a dúvida de ter se equivocado sobre certas prioridades da vida. Não convém por outro lado esquecer que Matteo Pani, pintor estimado, obteve da Mãe a permissão para retratá-la em um nu que ela, por uma forma tardia de pudor, exigiu que fosse em meio-busto. (Pausa) O retrato foi depois adquirido por um banqueiro suíço que passou os últimos onze anos de vida escrevendo todos os dias à Mãe, sem jamais obter resposta, pedindo-lhe para dormir uma só noite com ela. Também não convém certamente esquecer que na praia de Marina di Massa, onde a mãe passou por equívoco as férias de 1904 hospedada no Hotel Hermitage, a um jovem garçom coube por acaso socorrê-la e estreitá-la nos braços durante um desmaio sem dúvida causado pelo calor, e num momento em que a Mãe usava um simples roupão de banho sobre a pele nua. (Pausa) O garçom descobriu nessa ocasião a existência de ulteriores horizontes, abandonou a família e abriu um salão de baile no qual está até hoje exposto na entrada, sem lógica aparente, um roupão de hotel. Assim como não se pode esquecer que o terceiro filho da família Aliberti, doente dos nervos, durante uma festa privada pediu à Mãe, então muito jovem, que se despisse para ele, em troca de toda a sua herança. (Pausa) A Mãe, como se sabe, despiu a blusa, tirou o corselete e se deixou tocar, recusando depois a herança, bastando-lhe a satisfação de deixar ali, enquanto se vestia de novo, o terceiro filho da família Aliberti caído no chão, sem sentidos.
Acontece-lhe fazer gestos repetitivos?, me perguntou o Doutor (acabei procurando um doutor, os amigos insistiam, fiz isso sobretudo por gentileza em relação a eles). Na vida, não, respondi. Acontece-me quando escrevo, esclareci. Gosto de escrever listas de coisas, índices, catalogações, acrescentei. Ele achou isso interessante. Afirma que, se eu lhe mostrasse o que estou escrevendo, a coisa poderia revelar-se de grande utilidade.
Naturalmente é uma possibilidade que excluo.
Volta e meia ele se cala, e eu também, sentados um diante do outro. Por muito tempo. Presumo que ele atribui a essa atitude certo poder terapêutico. Deve imaginar que eu, naquele silêncio, percorro algum caminho dentro de mim. Na realidade, penso no meu livro. Notei que me agrada, mais do que no passado, deixá-lo deslizar para longe da via principal, despencar de repentinas escarpas. Naturalmente nunca o perco de vista, mas, visto que me aconteceu, trabalhando em outras histórias, proibir-me qualquer evasão desse tipo, na intenção de construir relógios perfeitos com os quais eu me comprazia tanto mais quanto conseguia remetê-los a uma limpeza absoluta, agora me agrada deixar o que escrevo ficar à deriva na corrente, em um aparente efeito de adernamento que o Doutor, sem erro, em sua douta ignorância, não hesitaria em vincular ao aluimento incontrolado da minha vida pessoal, segundo uma dedução que me seria penosíssimo escutar, em sua ilimitada idiotice. Jamais conseguirei explicar-lhe que se trata de uma coisa refinadamente técnica, ou no máximo estética, muito clara a quem pratica, com conhecimento, o meu ofício. Trata-se de dominar um movimento afim àquele das marés: conhecendo-as bem, pode-se deixar o barco encalhar alegremente, e de pés descalços andar por praias recolhendo moluscos ou animaizinhos que de outro modo seriam invisíveis. Depois, basta não se fazer surpreender pelo retorno da maré, voltar a bordo e deixar apenas que o mar retome a quilha com doçura, levando-a a zarpar de novo. Com a mesma suavidade, eu, após ter demorado recolhendo todas aquelas estrofes de Baretti e outros moluscos do gênero, sinto voltarem, por exemplo, um velho e uma moça, e vejo-os tornarem-se um velho de pé, imobilizado diante de uma sebe de ervas aromáticas, e uma Noiva jovem diante dele, tentando compreender o que há de tão grave em simplesmente ir bater à porta da Mãe. Sinto com distinção a água retomar a quilha do meu livro e vejo cada coisa zarpar de novo na voz do velho que diz
Não creio que a senhorita disponha de todas as informações necessárias para poder julgar o modo mais oportuno de aproximar-se da Mãe.
Acha?
Acho.
Então seguirei seu conselho. Pedirei a ela uma conversa em particular, e farei isso durante o desjejum. É uma boa ideia?
Melhor, disse Modesto. E, se a senhorita confia em mim, acrescentou, não economize na cautela, ao lidar com ela.
Manterei uma postura de absoluto respeito, prometo ao senhor.
O respeito eu já daria por certo. Se me permite, o que sugiro é certa cautela.
Em que sentido?
Ela é uma mulher notável, sob todos os aspectos.
Eu sei.
Modesto baixou o olhar e o que ele disse, disse-o à meia-voz, com uma repentina entonação melancólica.
Não, não sabe.
Em seguida, inclinou-se de novo sobre a sebe das ervas aromáticas.
Não acha que a segurelha tem um modo extremamente elegante de se aprumar?, perguntou com súbito entusiasmo, e isso significava que a conversa havia terminado.
Assim, no dia seguinte, a Noiva jovem se aproximou da Mãe, durante o desjejum, e perguntou com certa discrição se não lhe seria incômodo, durante a tarde, recebê-la em sua saleta, e trocar umas palavras com ela, em particular.
Mas claro, meu bem, disse a Mãe. Venha quando quiser. Às sete em ponto, por exemplo.
Em seguida acrescentou algo sobre as geleias inglesas.
***
Depois foram chegando da Ilha, em cadência cotidiana, nesta ordem, uma escrivaninha em nogueira, treze volumes de uma enciclopédia em alemão, vinte e sete metros de algodão egípcio, um receituário desprovido de ilustrações, duas máquinas de escrever (uma pequena, uma grande), um volume de estampas japonesas, outras duas rodas dentadas, idênticas em tudo àquelas entregues dias antes, oito quintais de forragem, o brasão de uma família eslava, três caixas de uísque escocês, um apetrecho algo misterioso que depois se revelou ser um taco de golfe, as credenciais de um banco londrino, um cão de caça e um tapete indiano. Era uma marcação do tempo, ao seu modo, e a Família se habituou a isso a tal ponto que, se por execráveis disfunções no serviço de expedição lhes acontecesse passar um dia inteiro sem uma entrega, todos se ressentiam de uma imperceptível desorientação, como se tivesse vindo a lhes faltar o badalar do sino do campanário, ao meio-dia. Gradativamente, começou a fazer parte dos hábitos familiares chamar os dias pelo nome do objeto, em geral absurdo, que havia chegado naquela data. O primeiro a intuir a utilidade de semelhante método foi, desnecessário dizer, o Tio, quando, durante um desjejum particularmente divertido, alguém se perguntou desde quando não caía uma gota de chuva naquela maldita campina e ele, constatando no sono que ninguém era capaz de articular uma resposta plausível, virou-se no sofá e, com a autoridade que lhe era habitual, disse que o último aguaceiro, aliás decepcionante, havia sido no dia dos Dois Carneiros. Depois voltou a adormecer.
Assim, agora podemos dizer que o dia do Tapete Indiano foi aquele em que, sem se fazer preceder pelo costumeiro telegrama, e por conseguinte ditando certo desconcerto na alegre comunidade reunida em torno da mesa dos desjejuns, apareceu Comandini, do nada, com ar de ter algo urgente a comunicar.
O que aconteceu, ganhou no jogo, Comandini?, perguntou bonachão o Pai.
Quem dera.
E foram se trancar no escritório.
Onde eu os vi incontáveis vezes, durante aquelas noites a que já tive oportunidade de aludir, dispondo-os como peças sobre um tabuleiro de xadrez, e jogando com eles todas as partidas possíveis, justamente para desviar meus pensamentos insones, que sem isso me levariam a dispor sobre um semelhante tabuleiro as peças da minha vida atual, coisa que prefiro evitar. Deles, ali sentados cada um na própria poltrona, vermelha a do Pai, negra a de Comandini, acabei por conhecer cada detalhe, por causa daquelas noites insones — mas eu deveria dizer de preferência manhãs insones, embora isso tampouco defina bem aquela hesitação fatal que a aurora inflige a quem não consegue dormir — como um atraso ruinoso, e sádico. Conheço por conseguinte cada palavra dita e cada gesto feito, naquele encontro, mas por outro lado jamais sonharia registrá-los todos aqui, visto que, como todos sabem, meu ofício consiste exatamente em ver cada detalhe e escolher alguns poucos, como faz quem desenha um mapa, do contrário seria antes um fotografar o mundo, coisa talvez útil mas que não tem a ver com o gesto de narrar. Que é, em vez disso, escolher. Então descarto de bom grado qualquer outra coisa que sei, para salvar o movimento com o qual Comandini se ajeitou melhor na poltrona, deslocando o peso de uma nádega para a outra, e, inclinando-se minimamente para diante, disse uma coisa que ele temia dizer, e que de fato não disse de seu modo habitual, isto é, com torrencial e brilhante loquacidade, mas no curto respiro de pouquíssimas palavras.