A Noiva Jovem

Alessandro Baricco · Capítulo 1 de 1 · parte 6/6

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A Noiva Jovem

A Noiva jovem

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 6 partes.

A Noiva jovem balançou a cabeça.

O senhor não está bem.

De fato, disse o Tio. Incomoda-se de fazer umas coisas por mim?, perguntou.

Não, disse a Noiva jovem.

Então, por gentileza, encha a banheira com água muito quente. Além disso, abra o baú amarelo, aquele pequeno, e encontrará ali uma garrafa lacrada, com um pó branco dentro. Pegue-a.

Era uma frase longa, e devia tê-lo esgotado, porque ele voltou a cair no sono.

A Noiva jovem não se moveu. Pensou em si mesma, no Filho e na vida.

Quando teve a impressão de que o Tio estava prestes a despertar, levantou-se.

Vou chamar um médico, disse.

Não, por favor, não faça isso, não é o caso. Sei o que é.

Fez uma longa pausa e deu um cochilo.

Ou melhor, não sei o que é, mas sei como tratar. Bastarão um banho quente e esse pó branco, acredite. Naturalmente, dormir um pouco me fará bem.

Dormiu por três dias, quase ininterruptamente, aquartelado no corredor do primeiro andar, aquele das sete janelas. Ficava deitado sobre a pedra do pavimento, a cabeça apoiada numa camisa dobrada em quatro. Não comia, raramente bebia. A intervalos regulares, a Noiva jovem subia para colocar ao lado dele um copo no qual havia dissolvido o pó branco: a cada ocasião o encontrava em outro ponto do corredor, às vezes enrodilhado em um canto, outras deitado abaixo de uma janela, recatado, tranquilo, mas trêmulo: imaginava-o rastejando sobre a pedra, como um animal de que tivessem decepado as patas. Volta e meia se detinha para observá-lo, sem dizer nada. Sob uma roupa encharcada de suor, intuía um corpo que parecia ter todas as idades, disseminadas nos detalhes, sem um desenho preciso: mãos de um garoto, pernas de velho. Uma vez passou-lhe os dedos entre os cabelos, grudentos. Ele não se moveu. Com surpresa, ela se deu conta de pensar, sem a mínima perturbação, que aquele homem talvez estivesse morrendo: nada lhe pareceu mais impróprio do que tentar impedir isso. Voltou para baixo, e recomeçou a esperar o Filho, com a intensidade que lhe parecia a mesma, e a mesma beleza de antes. Mas naquela noite, quando voltou para perto do Tio, ele lhe apertou um pulso, com estranha energia, e, dormindo, disse que estava tremendamente mortificado.

Por quê?, perguntou a Noiva jovem.

Eu lhe arruinei tudo, disse ele.

E a Noiva jovem compreendeu que era verdade. Primeiro a surpresa, depois o instinto de ser útil, tinham-na impedido de perceber que a chegada do Tio havia estragado algo perfeito, e desviado um voo que estava avançando sem erros. Repassou todos os próprios gestos, magníficos, que não cessara de realizar, e compreendeu que desde a chegada daquele homem eles se haviam sucedido sem felicidade e sem fé. Parei de esperar, disse a si mesma.

Voltou para baixo sem dizer uma palavra, e começou a caminhar pelos aposentos, primeiro furiosa, depois desolada. Fitou demoradamente a porta, até que compreendeu com inexorável lucidez que ela havia sido aberta para deixar passar o homem errado, no momento errado, por razões erradas. Chegou a pensar que, de algum modo misterioso, o Filho devia ter se dado conta disso, quando subia o caminho que o levaria para casa: viu-o no instante em que ele pousava uma mala no chão, deixava partir um trem sem embarcar, parava um carro e desligava o motor. Não, por favor, não, lhe disse. Eu lhe imploro, se disse.

Quando o Tio desceu ao térreo, depois de seis dias, perfeitamente barbeado e bastante elegante em um terno cor de tabaco, encontrou-a sentada no chão, em um canto, o rosto irreconhecível. Olhou-a só por um instante e se dirigiu à cozinha, onde adormeceu. Havia muito tempo que não comia: enfim o fez, com certo comedimento, sem parar de dormir. Depois desceu até a adega, e ali desapareceu por duas ou três horas: foi o tempo de que precisou para escolher uma garrafa de champanhe e uma de vinho tinto. Voltou à cozinha, onde colocou o champanhe no gelo. Sem descansar um só instante, abriu a garrafa de vinho e deixou-a respirando sobre a bancada. Exaurido pela trabalheira, arrastou-se até a sala de refeições e desabou numa poltrona, bem diante da Noiva jovem. Dormiu uns dez minutos, e então abriu os olhos.

Amanhã eles voltam, disse.

A Noiva jovem fez um aceno com a cabeça. Podia também querer dizer que não se importava nada com isso.

Eu estava me perguntando se a senhorita tem compromissos para esta noite, continuou o Tio.

A Noiva jovem não disse nada. Não se moveu.

Tomo seu silêncio por um não, informou-a o Tio. Neste caso, para mim será uma honra convidá-la para jantar, se a coisa não lhe trouxer incômodo ou até transtorno.

Em seguida adormeceu.

A Noiva jovem ficou olhando para ele. Perguntou a si mesma se o odiava. Sim, sem dúvida, odiava-o: não mais, porém, do que odiava todo mundo. Não lhe parecia que lhe tivessem restado doçura, loucura e beleza, em algum lugar, desde quando todos haviam entrado em acordo para lhe saquear a alma. Podia fazer algo diferente de odiá-los? Se você não tem futuro, odiar é um instinto.

Aonde quer me levar?, perguntou.

Precisou esperar a resposta por uns dez minutos.

Oh, a nenhum lugar. Pensei em jantar aqui, eu cuido de tudo. Prometo-lhe alguma coisa de certo nível.

O senhor cozinha?

Às vezes.

Dormindo?

O Tio abriu os olhos. Fitou demoradamente a Noiva jovem. Era uma coisa que ele não fazia nunca. Fitar alguém demoradamente.

Sim, dormindo, disse afinal.

Levantou-se, cochilou apoiado ao guarda-louças, e em seguida dirigiu-se à porta de entrada.

Creio que vou fazer uma caminhada breve, disse.

Depois, antes de sair, virou-se para a Noiva jovem.

Espero a senhorita às nove. Seria muito incômodo apresentar-se com uma roupa esplêndida?

A Noiva jovem não respondeu.

 

Ainda posso ver aquela mesa posta, a mesma dos desjejuns, mas agora dotada de uma elegância essencial, com a simetria dos dois lugares, um diante do outro, e o branco da toalha espalhando-se ao redor. A luz era correta, meticulosa a ordem dos talheres, impecável o alinhamento dos copos. Nos pratos estava à espera uma composição de alimentos que pareciam escolhidos por suas cores. Cinco velas, e mais nada.

O vestido que escolhi era irresistível. O mesmo em que eu tinha vivido e transpirado nos últimos dias, comprido até os pés, pouco decotado, sujo, levíssimo. Mas por baixo eu havia tirado tudo. Não me preocupei com o que era visível de fora: bastava-me a sensação, muito simples, daquele momento: eu estava indo a um jantar, nua. Não tinha me lavado, as mãos estavam como havia dias, e nos pés continuavam a poeira, a imundície, o odor. Tinha chorado mil vezes, e não passei nem água no rosto. Mas com os cabelos fiz uma coisa de que a Mãe iria gostar: escovei-os o dia inteiro, com escovas perfumadas: diante do espelho, recolhi-os sobre a cabeça, experimentando mil arquiteturas para encontrar a mais sedutora e para fazer passarem as horas. Escolhi um penteado alto, um pouco arrogante, mas inocente na frente, e complexo a ponto de sugerir a suspeita de uma maquilagem. Eu podia desmanchar tudo, em um instante, apenas com um hábil movimento do pescoço.

De tudo isso, não conhecia o porquê. Tinha me movido por instinto, sem pensar. Nada me podia ser mais estranho, naquele momento, do que a ambição por um objetivo, ou a expectativa de algum resultado. O tempo fora substituído por um calor infinito, qualquer saber por uma distraída indolência e todos os meus desejos por uma dor inócua, surda, por trás do coração. Nunca existi tão pouco quanto neste navio, que brandamente rasga a umidade fervente da noite, transportando a mim e as minhas onze coisas à brancura de uma ilha que nada sabe sobre mim — pouco ou nada, eu, sobre ela. Da terra seremos invisíveis, ambos, no tempo de um pensamento — para o mundo, desaparecidos. Porém, envolta por uma desorganizada beleza, às nove eu estava ali, em uma curiosa homenagem à exatidão que agora, sinceramente, não sei compreender. Escutei o Tio agitar-se na cozinha, e depois o vi chegar. Ele também não tinha trocado de roupa, havia apenas tirado o paletó. Trazia na mão a garrafa de champanhe, gelada.

A comida está nos pratos, disse.

Sentou-se à mesa e adormeceu. Mal tinha me olhado. Comecei a comer — escolhia as cores, uma a uma. Ele bebia, no sono. Eu comia sem usar os talheres, limpava os dedos no vestido. Mas não sei por quê. De vez em quando, sem abrir os olhos, o Tio me servia champanhe. Não recordo ter me feito perguntas sobre a absurda exatidão daquele gesto, nem sobre sua improvável pontualidade. Eu bebia, e era tudo. Aliás, naquela casa interrompida, no segredo das nossas liturgias insanas, assediados pelas nossas poéticas enfermidades, éramos personagens órfãos de qualquer lógica. Eu continuava a comer, ele dormia. Eu não estava constrangida, aquilo me agradava — justamente porque era absurdo, me agradava. Comecei a pensar que aquele seria um dos melhores jantares da minha vida. Não me entediava, era eu mesma, bebia champanhe. A certa altura comecei a falar, mas devagar, e só de bobagens. O Tio, no sono, de vez em quando sorria. Ou fazia um gesto no ar, com a mão. Ficava me escutando, de algum modo, e a mim era agradável lhe falar. Era tudo muito leve, inexpugnável. Eu não saberia dizer o que estava vivendo. Era um encantamento. Senti-o estreitar-se sobre nós e quando não houve mais nada, no mundo, além da minha voz, intuí que na realidade nada estava acontecendo daquilo que estava acontecendo, nem jamais aconteceria. Por um motivo que devia proceder da intensidade absurda de nossas derrotas, nada daquilo que podíamos fazer, nós dois, naquela noite, permaneceria no livro-razão da vida. Nenhum cálculo nos levaria em conta, nenhuma soma sairia diferente em relação ao nosso fazer, nenhuma dívida seria coberta, nenhum crédito se abriria. Estávamos escondidos em uma dobra da criação, invisíveis à sorte e dispensados de qualquer consequência. Assim, enquanto comia, com os dedos nas cores tépidas daquele alimento arrumado com cuidado maníaco, compreendi com absoluta certeza que aquele adorável vazio, sem direção e sem objetivo, exilado de qualquer passado e incapaz de qualquer futuro, devia ser, literalmente, o encantamento no qual aquele homem vivia, a cada minuto, havia anos. Compreendi que aquele era o mundo em que ele tinha ido se esconder — inacessível, sem nomes, paralelo aos nossos, imutável — e entendi que naquela noite eu havia sido admitida ali, em virtude da minha loucura. Devia ter sido necessária muita coragem, àquele homem, para se decidir a imaginar um convite do gênero. Ou muita solidão, pensei. Ele agora dormia, diante de mim, e eu, pela primeira vez, sabia o que ele estava de fato fazendo. Estava traduzindo a intolerável distância que havia escolhido para si em uma metáfora educada, legível por qualquer um, irônica, inócua. Porque era um homem gentil.

Limpei os dedos no vestido. Olhei-o. Ele dormia.

Há quanto tempo não dorme?, perguntei.

Ele abriu os olhos.

Há anos, senhorita.

Talvez tenha se comovido, ou fui eu que imaginei isso.

Mais que de tudo, sinto falta dos sonhos, disse.

E permaneceu com os olhos abertos, despertos, me fitando. Havia pouca luz, não era fácil perceber de que cor eram. Cinza-azulados, talvez. Com algo de dourado. Eu nunca os tinha visto.

Está tudo muito gostoso, comentei.

Obrigado.

O senhor deveria cozinhar mais vezes.

Acha?

Não havia também uma garrafa de vinho tinto?

Tem razão, desculpe.

Levantou-se, desapareceu na cozinha.

Eu também me levantei. Peguei minha taça e fui me sentar no chão, em um canto do aposento.

Quando ele voltou, veio me servir vinho, e depois ficou ali, em pé, sem saber bem o que fazer.

Sente-se aqui, disse eu.

Era uma poltrona imensa, um daqueles lugares onde eu o tinha visto dormir mil vezes, enquanto os desjejuns corriam fluviais. Pensando bem, era a mesma poltrona da qual ele havia saudado meu retorno, com uma frase que eu não tinha esquecido: Deve ter dançado muito, senhorita, lá onde se encontrava. Isso me alegra.

O senhor gosta de dançar?, perguntei.

Gostava muito, sim.

De que outras coisas gostava?

De tudo. Demais, talvez.

O que mais lhe faz falta?

Além dos sonhos?

Além deles.

Os sonhos, aqueles que temos durante o dia.

Tinha muitos?

Sim.

E os realizou?

Sim.

E como é?

Inútil.

Não acredito.

De fato, não deve acreditar. É cedo demais para acreditar nisso, em sua idade.

Que idade eu tenho?

Uma idade pequena.

Faz alguma diferença?

Sim.

Explique.

A senhorita vai descobrir, um dia.

Quero saber agora.

Não lhe seria de nenhuma utilidade.

De novo com essa história?

Qual?

De que é tudo inútil.

Eu não disse isso.

Disse que é inútil realizar os próprios sonhos.

Isto, sim.

Por quê?

Porque para mim foi inútil.

Conte-me.

Não.

Conte.

Senhorita, realmente devo lhe pedir por favor que…

E fechou os olhos, deixando a cabeça cair para trás, sobre o espaldar. Parecia atraído por uma força invisível.

Ah, não, disse eu.

Pousei a taça, me levantei e fui para cima dele, pernas abertas. Vi-me com meu sexo sobre o seu, não era o que eu queria. Mas comecei a me balançar. Mantendo a coluna ereta, me remexia lentamente sobre ele, mãos apoiadas em seus ombros, encarando-o.

Ele abriu os olhos.

Por favor, repetiu.

O senhor me deve alguma coisa, me basta sua história, respondi.

Não creio que lhe devo nada.

Oh, sim.

É mesmo?

Não era o senhor quem devia voltar, era o Filho.

Lamento.

Não pense que vai se livrar facilmente.

Não?

O senhor me arruinou tudo, agora quero em troca pelo menos sua verdadeira história.

Ele olhou o ponto exato em que eu me remexia.

É uma história como muitas outras, disse.

Não importa, quero mesmo assim.

Eu não saberia nem por onde começar.

Comece pelo fim. O momento em que começou a dormir e parou de viver.

Eu estava à mesinha de um Café.

Havia alguém com o senhor?

Não mais.

Estava sozinho.

Sim. Adormeci sem nem sequer inclinar a cabeça. Terminei meu Pastis dormindo, e aquela foi a primeira vez. Quando acordei e vi o copo vazio, compreendi que seria assim para sempre.

E as pessoas ao redor?

Em que sentido?

Bom, os garçons, ninguém veio acordá-lo?

Era um Café um pouco decadente, com garçons muito velhos. Nessa idade, você compreende muitas coisas.

Então o deixaram dormir.

Sim.

Que horas eram?

Não sei, era de tarde.

Como o senhor tinha ido parar nesse Café?

Já disse que é uma história longa, não sei se tenho vontade de contá-la, e além disso a senhorita está se balançando em cima de mim, e eu não entendo por quê.

Para não o deixar retornar ao seu mundo.

Ah.

A história.

Se eu lhe contar, a senhorita voltará a se sentar no chão?

Nem pensar, estou gostando disto. O senhor, não?

Como assim?

Perguntei se não está gostando.

De quê?

Disto, minhas pernas abertas, meu sexo se esfregando no seu.

Ele fechou os olhos, a cabeça deslizou um pouco para trás, eu fiz pressão com os dedos sobre seus ombros, ele voltou a abrir os olhos, me encarou.

Havia uma mulher, que amei muito, disse.

***

Havia uma mulher, que amei muito. Tinha um jeito bonito de fazer qualquer coisa. Não há no mundo ninguém igual a ela.

Um dia chegou com um livrinho, usado, a capa de um azul-claro muito elegante. O bonito é que ela atravessara a cidade para me trazer esse livro, tinha-o visto em uma velha livraria, e agora deixara tudo de lado para trazê-lo imediatamente, tão irresistível o considerava, e precioso. O título era magnífico: Como abandonar um navio. Era um manualzinho. Os caracteres da capa eram limpos, perfeitos. As ilustrações, dentro, paginadas com infinito cuidado. A senhorita consegue compreender que um livro desses vale mais do que muita literatura?

Talvez.

Não acha pelo menos que ele tinha um título irresistível?

Talvez.

Não importa. O que importa é que ela chegou com aquele livrinho. Por muito tempo carreguei-o comigo, de tanto que o amava. Era pequeno, cabia no bolso. Quando eu ia dar aula, pousava-o sobre a cátedra, e depois o guardava de volta no bolso. Devo ter lido só umas duas páginas, era uma coisa bastante tediosa, mas não era esse o ponto. Era bom tê-lo nas mãos, folheá-lo. Era bom pensar que, por mais que a vida pudesse ser desagradável, eu tinha aquele livrinho no bolso e, ao meu lado, a mulher de quem o havia ganhado. E isso, a senhorita consegue compreender?

Claro, não sou tola.

Ah, já ia esquecendo a coisa mais bonita. Na primeira página, branca, havia uma dedicatória, muito pungente. Era um livro usado, como eu disse, e na primeira página havia esta dedicatória: Para Terry, depois do primeiro mês de sua estada no Hospital de St. Thomas. Papai e mamãe. É possível fantasiar dias inteiros, sobre uma dedicatória assim. Era aquele tipo de beleza que eu achava lancinante. E que a mulher a quem tanto amei sabia compreender. Por que estou lhe contando tudo isto? Ah, sim, o Café. Tem certeza de que deseja continuar?

Tenho.

O tempo passou, e nesse tempo eu perdi a mulher que tanto amava, por razões que não nos interessam aqui. Aliás, não estou seguro de tê-las compreendido. Seja como for, continuei carregando comigo…

Ei, um instante. Quem disse que não nos interessam?

Eu.

Fale por si.

Não, falo por nós dois, se não concordar desça daí, e a história, peça ao Filho que lhe conte, quando chegar.

Tudo bem, tudo bem, não há necessidade de…

Portanto eram tempos estranhos para mim, eu tinha um pouco a impressão de estar viúvo, caminhava como os viúvos, sabe?, um pouco desfalecidos, com aqueles olhos de passarinho que não compreende bem. Sabe o que quero dizer?

Sim, creio que sim.

Mas sempre com meu livrinho no bolso. Era idiota, eu deveria ter jogado fora tudo o que a mulher a quem tinha amado tanto havia deixado para trás, mas o que fazer?, é como um naufrágio, fica uma série de coisas boiando, e de todos os tipos, nesses casos. Realmente você não pode fazer nenhuma limpeza. E deve se agarrar a alguma coisa, quando já não consegue nadar. Por isso eu mantinha aquele livrinho no bolso, naquele dia, no Café, e veja que já se haviam passado meses, desde quando tudo acabara. Mas eu o levava no bolso. Tinha encontro com uma mulher, nada de muito importante, não era uma mulher especial, eu mal a conhecia. Gostava do jeito como se vestia. Tinha uma bela risada, só isso. Falava pouco, e ali, no Café, naquele dia, falou tão pouco que tudo me pareceu tremendamente deprimente. Então puxei o livrinho e comecei a falar sobre ele, dizendo que acabava de comprá-lo. Ela achou toda aquela história muito estranha, mas de algum modo curiosa, então se soltou um pouco, passou a me perguntar sobre mim, começamos a conversar, eu disse alguma coisa que a fez rir. Foi tudo bem simples, até agradável. Ela me pareceu mais bonita, de vez em quando nos debruçávamos um para a outra, nos esquecemos das pessoas nas outras mesas, éramos nós dois, era delicioso. Depois ela teve que ir embora, e pareceu natural trocarmos um beijo. Eu a vi desaparecer atrás de uma esquina, com um andar muito atraente. Então baixei o olhar. Sobre a mesinha estavam nossos dois copos de Pastis, meio cheios, e o livrinho azul. Apoiei uma mão sobre ele e de repente pensei em sua ilimitada neutralidade. Muito amor, e tempo, e desvelo, haviam sido depositados naquele livro, desde a época de Terry até a minha, e por conseguinte muita vida, e da melhor espécie: e no entanto ele não era nada, não apresentara a mínima resistência à minha pequena infâmia, não se rebelara, limitando-se a ficar ali, disponível a qualquer outra aventura, completamente desprovido de um sentido permanente, leve e vazio como um objeto que tivesse nascido naquele instante, em vez de ter crescido no coração de muitas vidas. Então me aconteceu compreender nossa derrota, em todo o seu trágico alcance, e me senti vencido por um cansaço indizível e definitivo. Talvez tenha me dado conta de que algo havia se quebrado, para sempre, dentro de mim. Senti que deslizava a certa distância das coisas, e que nunca mais me seria possível percorrer de novo aquele caminho. Deixei-me levar. Foi esplêndido. Percebi que qualquer angústia se desfazia dentro de mim, e desaparecia. Então me vi em uma luminosa serenidade, ligeiramente sulcada de tristeza, e reconheci a terra que sempre havia procurado. As pessoas, ao redor, viram que eu adormecia. Foi isso.

O senhor não vai querer me fazer acreditar que, se dorme há anos, é por causa de uma bobagem do gênero…

Era só a gota d’água de uma série impressionante de bobagens do gênero…

Como, por exemplo?

A traição das coisas. Sabe do que estou falando?

Não.

É muito instrutivo: ver como os objetos não trazem em si nada do sentido que nós lhes damos. Basta uma circunstância oblíqua, um pequeno ajuste da trajetória, e em um instante eles são parte de uma história totalmente diversa. Acha que esta poltrona será diferente por ter escutado minhas palavras e acolhido seu corpo e o meu? Talvez, daqui a meses, alguém morra nesta poltrona e, por mais que tornemos inesquecível esta noite, ela acolherá essa morte e pronto. Fará isso da melhor maneira possível, e como se tivesse sido construída para tal fim. Tampouco reagirá quando, talvez somente uma hora depois, alguém se deixar cair sobre ela, e rir de uma tirada vulgar, ou contar uma historinha em que o defunto fará as vezes do perfeito imbecil. Percebe? A neutralidade infinita?

É tão importante assim?

Claro. No comportamento das coisas aprende-se um fenômeno que vale um pouco para tudo. Acredite, dá-se o mesmo com os lugares, com as pessoas, até com os sentimentos, até com as ideias.

Como assim?

Temos essa força incrível com a qual damos um sentido às coisas, aos lugares, a tudo: no entanto não conseguimos fixar nada, tudo volta logo a ser neutro, objetos tomados de empréstimo, ideias de passagem, sentimentos frágeis como cristal. Até os corpos, o desejo dos corpos: imprevisível. Podemos tomar como alvo qualquer pedaço de mundo com toda a intensidade de que somos capazes e ele, uma hora depois, volta a ser recém-nascido. Você pode compreender uma coisa, sabê-la profundamente, e ela já mudou, não sabe nada de você, tem sua própria vida misteriosa, que não leva em conta o que você fez dela. Aqueles que nos amam nos traem, e nós traímos aqueles que amamos. Não conseguimos fixar nada, acredite. Quando eu era jovem, ao procurar explicações para a dor surda que se grudava a mim, tinha me convencido de que o problema se situava na minha incapacidade de encontrar o meu caminho: mas, veja, na realidade se caminha muito, e até com coragem, intuito, paixão, e cada um pelo próprio caminho certo, sem erros. Mas não deixamos rastros. Não sei por quê. Nossa passagem não deixa rastros. Talvez sejamos animais astutos, velozes, maus, mas incapazes de deixar marcas na terra. Não sei. Mas, acredite, não deixamos rastros nem sequer em nós mesmos. Assim, não há nada que sobreviva à nossa intenção, e aquilo que construímos nunca é construído.

Acredita mesmo nisso?

Sim.

Talvez seja uma coisa que só diz respeito ao senhor.

Não creio.

Diz respeito a mim também?

Imagino que sim.

De que modo?

De muitos.

Diga um.

Aqueles que nos amam nos traem, e nós traímos aqueles que amamos.

E o que eu tenho a ver com isso?

É o que está lhe acontecendo.

Não estou traindo ninguém.

Ah, não? E isto, como o chama?

Isto o quê?

Sabe muitíssimo bem.

Isto não tem nada a ver.

Justamente. Não tem nada a ver com o seu grande amor, não tem nada a ver com o Filho, não tem nada a ver com a ideia que a senhorita faz de si mesma. Não há rastros de tudo isso nos gestos que a senhorita está fazendo neste momento. Não lhe parece curioso? Nenhum rastro.

Fiquei aqui esperando por ele, isso não significa nada?

Não sei. Diga-me a senhorita.

Nunca deixei de amá-lo, estou aqui por causa dele, ele está sempre comigo.

Está convencida disso?

Claro. Nunca deixamos de estar juntos.

No entanto, não o vejo aqui.

Está chegando.

É o que todos acreditam.

E então?

Talvez a verdade possa lhe interessar.

A verdade é que o Filho está chegando.

Temo que não, senhorita.

O que sabe quanto a isso?

Sei que a última vez em que o viram foi um ano atrás. Estava entrando em um cúter, uma pequena embarcação a vela. Desde então, ninguém soube mais nada dele.

Mas que diabo o senhor está dizendo?

Naturalmente, não era uma coisa que pudesse ser comunicada ao Pai com muita crueza, e de modo repentino. Então, preferiu-se primeiro adiá-la e depois administrá-la de um modo, digamos assim, mais gradual. Também não se excluía a hipótese, aliás, de que o Filho reaparecesse do nada, mais dia, menos dia. Parou de se remexer, senhorita.

Mas o senhor, não.

Eu, não, é verdade.

Por que me conta essas mentiras? Quer me magoar?

Não sei.

São mentiras?

Não.

Diga a verdade.

É a verdade: o Filho desapareceu.

Quando?

Faz um ano.

E quem lhe disse?

Comandini, que era quem se ocupava do assunto.

Ah, ele.

Ele era o único a saber, até alguns dias atrás. Depois veio me contar, pouco antes de partirmos. Queria um conselho.

E todas aquelas coisas?

Os dois carneiros e o resto?

Sim.

Bem, a situação se complicou um pouco quando a senhorita chegou. Era difícil fazê-la durar por um prazo muito maior. Então Comandini achou que uma mudança longuíssima, infinita, podia nos fazer ganhar algum tempo.

Era Comandini quem mandava aquelas coisas?

Sim.

Não posso acreditar.

Era uma forma de cortesia para com o Pai.

Loucuras…

Lamento, senhorita.

Odiarei todos vocês, com toda a alma, para sempre, até o dia em que o Filho voltar.

O Tio fechou os olhos, senti sob minhas mãos os ombros dele mudando de peso.

Aumentei a pressão dos dedos.

Não faça isso, pedi. Não vá embora.

Ele voltou a abrir as pálpebras, o olhar vazio.

Agora me deixe ir, senhorita, por favor.

Nem pensar.

Por favor.

Eu não fico sozinha, aqui.

Por favor.

Fechou de novo os olhos, estava partindo rumo ao seu encantamento.

O senhor me ouviu?, eu não fico sozinha, aqui.

Preciso ir, realmente.

Já estava me falando no sono.

Então apertei sua garganta com a mão. Ele abriu os olhos, estupefato. Eu o fitava, e dessa vez era um olhar parado, talvez maldoso.

Aonde acha que vai, por cristo?, perguntei.

O Tio olhou ao redor, sobretudo para fugir da minha mirada. Ou para procurar uma resposta, nas coisas.

Eu não fico aqui, sozinha, repeti. O senhor vai embora comigo.

Vi suas pálpebras descerem, enquanto ele respirava demoradamente. Mas eu sabia que não o deixaria ir. Sob meu sexo ainda sentia o dele, eu não tinha parado um só instante de dançar. Despi o vestido, pela cabeça, com um gesto que não pudesse assustá-lo. Ele voltou a abrir os olhos e me encarou. Tirei de seus ombros as mãos e comecei a lhe desabotoar a camisa porque a Mãe havia me ensinado que era um direito que me cabia. Não me inclinei para beijá-lo, não o acariciei, nunca. Em um instante, com um só movimento do pescoço, soltei meus cabelos. Desci até o último botão da camisa e depois não parei mais. Continuava fitando o Tio nos olhos, não o deixaria retornar ao seu encantamento. Ele observava minhas mãos, depois me mirava nos olhos, depois voltava a observar minhas mãos. Não parecia ter medo, nem perguntas, nem curiosidade. Segurei seu sexo e, por um tempinho, mantive-o imóvel, apertado na palma, como alguma coisa que eu tinha voltado de longe para recuperar. Levei à frente minhas pernas abertas, e me lembrei da bela expressão da vovó: a habilidade do ventre. Eu estava prestes a compreender-lhe o significado.

Não o faça com ódio, disse o Tio.

Desci sobre ele e o recebi dentro de mim.

Não o faço por amor, enunciei — e todo o resto eu o recordo mas o mantenho para mim, daquela noite estranha, passada em uma greta do mundo, inencontrável no livro-razão dos viventes, roubada por horas à derrota, e restituída durante o alvorecer, quando a primeira luz se filtrou pelas persianas e eu, estreitando aquele homem nos braços, o adormeci, dessa vez para valer, e o devolvi aos seus sonhos.

Quando acordamos era tarde. Olhamo-nos e compreendemos que não nos deixaríamos encontrar assim. O instinto de recomeçar, sempre. Arrumamos tudo, às pressas, eu me troquei, ele subiu ao seu quarto. Movia-se como eu nunca o tinha visto, enfileirando os gestos com segurança, os olhos vivazes, os passos elegantes. Cheguei a pensar que seria fácil, para a Filha, amá-lo.

Não trocamos uma palavra. Somente, a certa altura, eu perguntei:

E agora, o que o senhor fará?

E a senhorita?, respondeu ele.

No sol do meio-dia alguém bateu à porta, de maneira respeitosa mas firme.

Modesto.

 

Foi mais ou menos neste ponto que esqueci meu computador no assento de um micro-ônibus. Um micro-ônibus que atravessava a ilha de norte a sul, esgueirando-se por estradinhas pouco mais largas do que ele. Fazia isso com milimétrica inépcia. A certa altura saltei e esqueci o computador sobre o assento. Quando me dei conta, o micro-ônibus já desaparecera. Era um bom computador, ainda por cima. Dentro estava o meu livro.

Naturalmente não seria difícil recuperá-lo, mas a verdade é que deixei para lá. Para compreender isso é preciso levar em conta a luz, o mar ao redor, os cães vagarosos ao sol, a maneira como vive aquela gente ali. O Sul do mundo sugere curiosas prioridades. Tem-se uma abordagem particular aos problemas — resolvê-los não é o primeiro gesto que nos vem à mente. Por tal motivo caminhei um pouco, me sentei sobre uma mureta, no porto, e depois passei a observar o vaivém dos barcos. Agrada-me que, não importa o que façam, eles o fazem lentamente. Se os olharmos de longe, quero dizer. É uma espécie de dança, parece comportar alguma forma de sabedoria, ou de solenidade. Há também desencanto, às vezes. Talvez uma esfumatura de renúncia — branda. É a maravilha dos portos.

Por tal motivo eu me mantinha ali, e tudo ia bem.

Depois, à noite, voltei a pensar no computador, mas sem ansiedades específicas, ou medos. Pode parecer estranho, visto que escrever naquele computador, e construir meu livro, era, havia meses, a única atividade que eu conseguia desenvolver com suficiente paixão e inalterado capricho. Eu deveria ter me cagado de terror, eis o que eu deveria ter feito. Em vez disso, muito simplesmente, pensei que continuaria a escrever, e que o faria em minha mente. Pareceu-me até um epílogo natural, e inevitável. Aquilo dos dedos sobre o teclado me pareceu, de repente, uma inútil aspereza, ou um apêndice excessivamente complicado a um gesto que podia ser muito mais leve, e invencível. Por outro lado, fazia tempo que eu escrevia meu livro caminhando, ou deitado no chão, ou de noite na escuridão da minha insônia: depois, no computador, apertava os parafusos, lustrava com cera, embalava adequadamente — todo aquele repertório de cuidados artesanais cujo objetivo, para ser sincero, agora já não recordo ao certo. Devia haver um, com certeza. Mas eu o esqueci. Talvez não fosse assim tão importante.

Além disso convém considerar que, se a pessoa nasceu para fazê-lo, escrever é um gesto que coincide com a memória: aquilo que você escreve, você recorda. Portanto, de fato seria inexato afirmar que eu tinha perdido meu livro, já que, para dizer as coisas como realmente são, eu podia recitá-lo todo em voz alta, ou, se não todo, digamos pelo menos as partes que tinham alguma importância. No máximo eu podia não recordar exatamente certas frases: mas também deve ser dito que ao trazê-las de volta à superfície, do lugar para o qual haviam deslizado, acabava por reescrevê-las em minha mente, sob uma forma muito próxima da original mas não exatamente idêntica, com o resultado de produzir uma espécie de desfoque, ou revérbero, ou duplicação, em que amadurecia, esplendidamente, tudo o que eu havia imaginado escrever. Já que, afinal de contas, a única frase que poderia traduzir exatamente uma particular intenção de quem escreve não é nunca uma frase, mas a soma estratificada de todas as frases que a pessoa imaginou antes, e depois escreveu, e depois recordou: elas deveriam ser apoiadas uma sobre a outra, transparentes, e percebidas simultaneamente, como um acorde. Isso é o que a memória faz, em sua visionária imprecisão. Assim, objetivamente falando, eu não havia perdido meu livro, mas sim, em certo sentido, tinha-o reencontrado em sua plenitude, agora que ele se desmaterializara, retirando-se para os quartéis de inverno da minha mente. Eu podia voltar a convocá-lo à superfície a qualquer momento com um esforço quase imperceptível, colocado em algum recesso do meu corpo que eu não sabia identificar: ele reaparecia em um esplendor evanescente diante do qual a nítida ordem de uma página impressa revelava a fixidez de uma pedra tumular.

Ou pelo menos assim me pareceu, sentado ali, em uma trattoria do porto, naquela noite, na ilha. Sou um gênio em fazer evoluírem bem as coisas que funcionaram mal. Eu poderia encontrar vantagens até mesmo em ficar preso dentro de um elevador no dia de Natal. É um truque que aprendi com meu pai (ah, ele ainda é vivo e de noite continua perambulando em seu campo pessoal de golfe de nove buracos). Ter alguma coisa para contar no almoço do dia de Santo Estêvão, por exemplo.

Eu pensava nessas coisas e, enquanto isso, relia um pouco do livro, aqui e ali o reescrevia, tudo em minha cabeça: enquanto mecanicamente passava o pão no molho das almôndegas.

A certa altura um sujeito gordo e feliz, sentado a uma mesa vizinha, também sozinho, me perguntou se estava tudo bem. Imaginei que eu devia ter feito algo estranho — era até possível, quando leio ou escrevo o livro na minha cabeça já não controlo bem as outras partes do corpo. Aquelas nas quais o livro não foi se enfiar, quero dizer. Sei lá, os tornozelos.

Saí do meu livro e respondi que tudo ia muito bem.

Eu estava escrevendo, disse.

O homem fez sinal de sim com a cabeça, como se aquilo fosse uma coisa que sempre acontecia também com ele, anos antes, quando ainda era jovem.

Agora estava na casa dos sessenta.

Plácido e satisfeito de si, quis me informar sobre o fato de que estava ali, à beira-mar, porque havia obtido de um médico complacente a prescrição de sete dias de balneoterapia. Não podem dizer nada, observou. Referia-se aos seus empregadores, creio. Explicou que com o termo balneoterapia você ficava protegido praticamente em uma armadura. Podem me mandar a perícia, não importa, disse. Em seguida passou à política e me perguntou se a Itália se salvaria.

Obviamente não, se todos forem como nós dois, respondi.

Ele achou aquilo muito divertido, deve ter lhe parecido como o início de uma amizade, ou algo do gênero. Decidiu que éramos feitos um para o outro, e depois foi embora. Precisava voltar cedo para casa porque tinha sido convidado pelos vizinhos para comer berinjelas no dia seguinte: o nexo entre as duas coisas devia lhe parecer tão evidente que não precisava de explicações.

Então permaneci ali, e era o último. Esta é outra coisa que me agrada: fecharem os restaurantes na minha cara, à noite. Perceber aos poucos que começaram a apagar as luzes, a virar as cadeiras sobre as mesas. Gosto sobretudo quando vejo os garçons indo para casa, mas vestidos como cristãos, sem o paletó branco ou o avental, repentinamente retornados à terra. Caminham meio oblíquos, parecem animais do bosque fugidos de um encantamento.

Naquela noite, porém, nem os vi. O fato é que eu estava escrevendo. Na verdade, nem sequer recordo se paguei a conta. Estava escrevendo na minha mente: sobre quando a Noiva jovem partiu. Isso devia acontecer, mais cedo ou mais tarde, e no dia em que aconteceu todos souberam fazer os gestos mais apropriados, sugeridos pela educação e aprovados por décadas de compostura. Foram banidas as perguntas. Evitou-se a banalidade das recomendações. Não agradou entregar-se ao sentimentalismo. Quando a viram desaparecer atrás da curva, ninguém seria capaz de dizer para onde ela estava indo: mas o atraso bíblico do Filho, e a suspensão do tempo que aquele atraso imprimira aos dias deles, tornara-os inaptos a interrogar-se sobre a pálida relação que reúne, em geral, uma partida e uma chegada, uma intenção e um comportamento. Então a viram partir como, no fundo, tinham-na visto chegar: ignaros de tudo, de tudo sabedores.

Seus dezoito anos, a Noiva jovem foi depositá-los no lugar que lhe pareceu mais apropriado e menos ilógico. Agora poderá parecer surpreendente o resultado de semelhante operação mental, mas convém recordar que jamais, nem sequer por um instante, residindo no mundo abstrato da Família, aquela moça havia parado de aprender. Então, agora sabia que não existem muitos destinos, mas uma só história, e que o único gesto exato é a repetição. Perguntou-se onde esperaria o Filho, segura de que ele voltaria, e para onde o Filho voltaria, segura de que para sempre ela o esperaria. Não teve dúvidas sobre a resposta. Apresentou-se no bordel, na cidade, e perguntou se podia viver ali.

Não é exatamente um ofício que se aprenda de um dia para outro, disse-lhe a Mulher portuguesa.

Não tenho pressa, disse a Noiva jovem. Estou esperando uma pessoa.

Quando já fazia quase dois anos que ela ganhava a vida daquele modo, alguém mandou chamá-la no meio da noite. Ela estava no quarto com um viajante russo — um homem lá pelos quarenta anos, muito nervoso e insolitamente educado. No mesmo instante em que o tocou pela primeira vez, a Noiva jovem compreendera que ele era homossexual e não sabia.

Na realidade, eles sabem perfeitamente, havia lhe esclarecido certa vez a Mulher portuguesa. É que não se permitem admitir isso.

Então, o que esperam de nós?, tinha perguntado a Noiva jovem.

Uma ajuda para a mentira.

Em seguida a Mulher portuguesa havia enumerado sete truques para fazê-los gozar e sair dali em paz consigo mesmos.

Tal como depois a Noiva jovem pudera constatar reiteradas vezes, tratava-se de sete truques infalíveis: naquele momento, portanto, estava deslizando com elegância rumo ao primeiro quando vieram chamá-la. Como era regra imprescindível do bordel que o trabalho das moças não fosse interrompido por nenhuma razão no mundo, compreendeu que algo de especial havia acontecido. Porém, não pensou no Filho. Não que tivesse deixado de esperá-lo ou de acreditar em seu retorno. Pelo contrário: se por acaso houvesse alimentado alguma dúvida, teria descartado todas as que restassem no dia em que, no bordel, Comandini aparecera, sem se fazer anunciar. Depois de perguntar por ela, havia se apresentado com o chapéu na mão. Os dois não se viam desde mais de um ano antes.

Queria somente falar um instantinho com a senhorita, esclarecera ele.

A Noiva jovem o odiava.

O preço é o mesmo, disse, e se o senhor quiser somente falar o problema é seu.

Então Comandini desembolsou uma soma não desprezível para se sentar diante da Noiva jovem, em um quarto de decoração vagamente otomana, e lhe dizer a verdade. Ou pelo menos o que ele sabia da verdade. Contou desde quando não se sabia mais nada do Filho. Explicou toda a história das remessas, dos dois carneiros em diante. Esclareceu que na verdade o último gesto conhecido do Filho tinha sido comprar um pequeno cúter em Newport. Acrescentou que não havia notícia de uma eventual morte dele, ou de qualquer acidente que pudesse ter lhe ocorrido. Ele tinha desaparecido no nada, e só.

A Noiva jovem havia feito um aceno de assentimento com a cabeça, e depois resumido toda a história a seu modo.

Bom. Então, ele está vivo e voltará.

Depois perguntou se devia se despir.

Convém registrar, infelizmente, que Comandini hesitou um longo momento antes de dizer Não, obrigado, levantar-se e dirigir-se para a porta.

Estava saindo quando a Noiva jovem o deteve com uma pergunta.

Por que diabos o senhor enviou o Dom Quixote?

Como assim?

Por que diabos, com todos os livros que existem, o senhor enviou justamente o Dom Quixote?

Comandini precisou recapitular uma lembrança que evidentemente não havia considerado útil manter ao alcance da mão. Em seguida explicou que não entendia muito de livros, tinha simplesmente escolhido um título que havia visto por acaso na capa de um volume abandonado em um canto, no quarto da Mãe.

No quarto da Mãe?, perguntou a Noiva jovem.

Exatamente, respondeu Comandini, com certa dureza. Depois, sem se despedir, foi embora.

Por tal motivo, enquanto caminhava pelo corredor, fechando sobre o peito um leve agasalho, a Noiva jovem poderia ter pensado no Filho — teria razão de fazê-lo, e até desejo. Contudo, desde quando um tio devorado pela febre havia chegado, em vez do homem que dava um sentido à sua juventude, a Noiva jovem tinha parado de esperar da vida movimentos previsíveis. Por isso, limitou-se a deixar-se conduzir — a mente livre de pensamentos, o coração ausente — até o aposento onde alguém estava à sua espera.

Entrou e viu Modesto e o Pai.

Estavam ambos vestidos com ordem e elegância. O Pai estava deitado na cama, os traços do rosto transtornados.

Modesto emitiu dois pequenos pigarros. A Noiva jovem nunca os escutara, mas compreendeu perfeitamente. Leu neles uma estudada mescla de consternação, surpresa, embaraço e nostalgia.

Sim, disse, com um sorriso.

Agradecido, Modesto fez uma leve reverência e se afastou da cama dando os primeiros passos para trás e em seguida girando sobre si mesmo, como se uma lufada, e não uma opção inoportuna de sua parte, tivesse decidido por ele. Saiu do quarto, e deste livro, sem dizer uma palavra.

Então a Noiva jovem se aproximou do Pai. Olharam-se. A palidez do homem era tremenda, e o sobressalto do seu peito, desprovido de qualquer ordem. Ele respirava como se mordesse o ar, não controlava os olhos. Parecia ter envelhecido mil anos. Reuniu todas as energias de que ainda podia dispor e pronunciou, com grande fadiga e insuspeitável firmeza, uma só frase.

Não morrerei de noite, mas sim à luz do sol.

Instintivamente, a Noiva jovem compreendeu tudo e ergueu o olhar para a janela. Pelas persianas semicerradas só se filtrava a escuridão. Virou-se para conferir a hora, no relógio de pêndulo que naquele quarto, como em todos os outros, media com certo luxo o tempo do trabalho. Não sabia em que momento chegaria o alvorecer. Mas compreendeu que eles tinham algumas horas a derrotar e um destino a desfazer. Decidiu que conseguiriam.

Muito depressa passou em revista os possíveis gestos a executar. Escolheu o que apresentava o defeito de ser arriscado e o preço de ser inevitável. Saiu do quarto, percorreu de novo o corredor, entrou no quartinho onde as moças guardavam seus pertences, abriu a gaveta que era reservada a ela, pegou um pequeno objeto — um presente que lhe era imensamente precioso — e, com ele na mão, voltou para perto do Pai. Chaveou a porta do quarto, aproximou-se da cama e tirou o agasalho. Retornou com a mente a uma imagem precisa, a da Mãe apertando entre as pernas o Pai do Pai, muitos anos antes, acariciando-lhe os cabelos e falando-lhe baixinho, como se ele estivesse vivo. Como aprendera que o único gesto exato é a repetição, subiu à cama, aproximou-se do Pai, segurou o corpo dele e com grande delicadeza pousou-o entre as pernas e sobre o peito. Tinha total segurança de que ele sabia o que ela estava fazendo.

Esperou que a respiração do Pai se tornasse um pouco mais regular, e pegou o presente que lhe era tão precioso. Era um livrinho. Mostrou-o ao Pai, e leu o título, em voz baixa.

Como abandonar um navio.

O Pai sorriu, porque não tinha forças para rir e porque quem tem senso de humor o tem para sempre.

A Noiva jovem abriu o livrinho na primeira página e começou a lê-lo, em voz alta. Como o havia folheado muitas vezes, sabia que ele era idêntico ao Pai: meticuloso, racional, lento, incontestável, aparentemente asséptico, secretamente poético. Tentou lê-lo o melhor que podia e, quando sentia o corpo do Pai adquirir peso ou perder vontade, acelerava o ritmo, para afugentar a morte. Estava na página 47, mais ou menos no meio do capítulo dedicado às regras de etiqueta que se impõem a bordo de um bote salva-vidas, quando pelas lâminas da persiana começou a se filtrar uma luz ligeiramente veiada de laranja. A Noiva jovem a viu planar sobre as páginas de cor creme, sobre cada letra e na própria voz. Não parou de ler, mas percebeu que qualquer cansaço havia se dissolvido nela. Prosseguiu listando as razões, surpreendentemente numerosas, que aconselham dispor mulheres e crianças na proa, e só quando passou a examinar os prós e os contras dos coletes salva-vidas em borracha viu o Pai girar o rosto para a janela, e permanecer com os olhos abertos, naquela luz, estupefato. Então leu ainda algumas palavras, mais devagar, e em seguida outras, com um fio de voz — e depois silêncio. O Pai continuava a fitar a luz. Baixou as pálpebras, a certa altura, para expulsar umas lágrimas que não havia levado em conta. Buscou uma das mãos da Noiva jovem e apertou-a. Disse alguma coisa. A Noiva jovem não compreendeu e então se inclinou sobre o Pai para ouvir melhor. Ele repetiu.

Diga ao meu filho que a noite acabou.

Morreu quando o sol mal se havia destacado do horizonte, e o fez sem um estertor, sem um movimento, em um suspiro igual a tantos outros, o último.

A Noiva jovem procurou o batimento de um coração, no corpo que estreitava entre os braços, e não o encontrou. Então passou a palma da mão sobre o rosto do Pai a fim de lhe fechar os olhos, em um gesto que desde sempre é privilégio dos vivos. Em seguida voltou a abrir o livrinho de capa azul e recomeçou a ler. Não tinha dúvidas de que o Pai gostaria assim, e em alguns trechos sentiu que nenhuma oração fúnebre poderia ser mais adequada. Não parou até o fim e, tendo chegado à última frase, leu-a com grande lentidão, como para proteger-se do risco de despedaçá-la.

Quatro anos depois — como me aconteceu escrever, dias atrás, em minha mente, enquanto eu fitava, sem ver, um mar que não abandonarei nunca mais —, apresentou-se no bordel um homem de fascínio anômalo, elegante em suas roupas simplicíssimas e fortalecido por uma calma inatural. Atravessou o salão quase sem olhar ao redor e, com segurança, foi parar diante da Noiva jovem, que, sentada numa dormeuse, com uma taça de champanhe na mão, estava escutando divertida as confissões de um ministro aposentado.

Ao vê-lo, a Noiva jovem apertou as pálpebras só um pouquinho. Depois se levantou.

Fitou o rosto do homem, os traços enxutos, os longos cabelos puxados para trás, a barba que emoldurava os lábios, semicerrados.

Você, disse.

O Filho tirou-lhe a taça de champanhe de entre os dedos e a entregou ao ministro aposentado, sem uma palavra. Depois tomou pela mão a Noiva jovem e levou-a dali consigo.

Saídos à rua, detiveram-se um instante, a fim de respirar o ar penetrante do entardecer. Tinham a vida inteira pela frente.

O Filho tirou o paletó, que era de uma lã dura e de uma cor encantadora, e o pousou sobre os ombros da Noiva jovem. Depois, sem a mínima inflexão de reprimenda, e em um tom de curiosidade quase infantil, fez uma pergunta.

Por que justamente em um bordel?

A Noiva jovem sabia com absoluta precisão a resposta, mas a manteve para si.

Aqui, quem faz as perguntas sou eu, disse.

FIM

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Alessandro Baricco

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