A Nuvem Envenenada
1- As Linhas Maculadas
Índice
A Nuvem Envenenada
1- As Linhas Maculadas
2- A Onda da Morte
3- Submersos
4- O Diário da Agonia
5- O Mundo Morto
6. O Grande Despertar
O Capitão da Estrela Polar
1- As Linhas Maculadas
Preciso fixar logo no papel estes acontecimentos fabulosos, enquanto ainda consigo lembrar claramente os detalhes e antes que o tempo possa embotar-me a memória. Mas agora mesmo, na mesma hora em que me preparo a relatar tais fatos extraordinários, ainda não consigo deixar de surpreender-me por tudo isto ter sido presenciado justamente pelo nosso pequeno grupo: o professor Challenger, o professor Summerlee, o Lord Roxton e eu.
Há alguns anos, quando relatei no Daily Gazette a nossa famosa viagem à América do Sul, nem passou pela minha mente que logo eu teria de contar fatos ainda mais extraordinários, acontecimentos que certamente não tem comparação nos anais da humanidade, talvez fadados a nunca mais se repetirem na história.
Os fatos em si são realmente surpreendentes, mas a circunstância que fez com que nós quatro estivéssemos ali, juntos, para presencia-los aconteceu de forma extremamente natural. Contarei esta primeira parte da nossa aventura da maneira mais clara e concisa possível, embora acredite que o leitor, diante da importância do assunto, talvez preferisse uma maior fartura de detalhes.
Era uma sexta-feira, 27 de agosto, uma data que ficará marcada na história, e eu cheguei à redação do meu jornal e pedi três dias de licença ao Sr. Mc Ardle, o nosso diretor.
Este último, um escocês da gema, sacudiu a cabeça, agitou os cabelos rebeldes que lhe encobriam a testa e acabou explicando que não tinha a menor vontade de contentar-me.
“Estava pensando agorinha mesmo, Sr. Malone, que quase certamente iremos precisar dos seus serviços nos próximos dias. Há uma coisa, com efeito, que só o senhor parece estar apto a levar a cabo satisfatoriamente.”
“Fico muito decepcionado ao ouvir isto”, respondi. “Mas é claro que, se for de fato necessário, estou disposto a desistir dos meus planos embora, eu garanto, se trate de algo extremamente importante. Se porventura fosse possível dispensar a minha presença...”
“Nem pense nisto. A sua presença é absolutamente indispensável.”
Fiquei profundamente chateado, mas achei melhor levar a coisa na esportiva. Afinal de contas, a culpa era minha, pois nunca deveria ter esquecido a regra pela qual um jornalista jamais pode dispor à vontade do seu tempo...
“Vamos esquecer o assunto, então”, eu disse aparentando a maior calma. “O que deseja de mim?”
“Quero que vá entrevistar aquele sujeito difícil que mora lá pras bandas de Rotherfield.”
“Está falando do professor Challenger?”
“O próprio. Na semana passada arrastou aquele repórter novato, o Simpson, por mais de uma milha ao longo da rodovia, segurando-o pelo pescoço e empurrando-o pelas costas. O senhor deve ter lido a respeito do assunto no relatório policial. Não é de se espantar, portanto, que agora os nossos jornalistas prefiram entrevistar os Jacarés do jardim zoológico antes que ter uma conversinha com o homem. No seu caso, no entanto, a coisa é diferente, pois me disseram que vocês são bons amigos.”
“Sem problemas!”, respondi aliviado. “A coisa vai ser muito fácil. Ainda mais porque queria os três dias de licença justamente para visitar o professor Challenger em Rotherfield. Estamos perto do terceiro aniversário da nossa grande aventura no Planalto, e ele convidou o grupo para festejar o acontecimento na casa dele.”
“Perfeito!”, gritou Mc Ardle, todo animado. “Acho que o senhor não terá a menor dificuldade em conseguir dele uma explicação detalhada. Se fosse outra pessoa, não a levaria a sério. Mas ele já demonstrou em várias ocasiões ter a cabeça no devido lugar, e nunca se sabe...”
“O que deseja que lhe pergunte?”, indaguei. “ O que foi que ele fez, desta vez?”
“Ainda não leu a carta que ele mandou a “Possibilidades Científicas”, no Times de hoje?”
“Não.”
Mc Ardle esticou-se para pegar o jornal no chão.
“Leia em voz alta”, pediu, apontando com o dedo para uma coluna. “Gostaria de ouvir mais uma vez o que ele diz, pois ainda não creio ter entendido direito o que quer dizer...”
E aqui está a carta que li ao meu diretor:
Possibilidades Científicas
Senhor, li com divertido prazer, para não mencionar outra emoção menos
delicada, o artigo totalmente imbecil do Sr. James Wilson Mac Phail, que apareceu
recentemente no seu jornal a propósito das manchas nas Linhas de Frauenhofer,
visíveis nos espectros dos planetas que orbitam em volta das estrelas fixas. Ele
considera o fenômeno insignificante enquanto, para uma mente mais perspicaz,
resulta claro que a coisa é tão importante que chega a ser um perigo para qualquer
homem, mulher e criança do nosso planeta.
Não pretendo absolutamente explicar o meu ponto numa linguagem científica,
pois a maioria dos leitores que fundamentam a sua cultura naquilo que lêem nos
jornais não iria entender. Assim sendo, procurarei nivelar-me com a mentalidade da
ralé e explicar a situação recorrendo a uma analogia elementar ao alcance da
inteligência dos seus leitores.
“Este homem é uma verdadeira figura!”, exclamou Mc Ardle. Sabe muito bem como lidar com as pessoas. Mas prossiga, vamos ouvir a analogia...”
Vamos supor–recomecei a ler–que uma série de rolhas de cortiça presas umas às
outras seja jogada numa correnteza que a leve através do oceano Atlântico.
As rolhas bóiam e avançam lentamente, cercadas pelas mesmas condições
ambientais. Se as rolhas tivessem inteligência, podemos supor que considerariam as
tais condições permanentes e seguras. Nós, no entanto, com os nossos conhecimentos
superiores, sabemos muito bem que as rolhas poderiam ter inúmeras surpresas.
Poderiam, por exemplo, bater num navio, ou numa baleia adormecida, ou então
encalhar num banco de areia. De qualquer maneira, a viagem quase certamente
acabaria em algum ponto da costa rochosa do Labrador.
Mas o que poderiam as rolhas pensar disto tudo, ao navegarem despreocupadas
em condições que julgam imutáveis e ilimitadas?
Provavelmente os seus leitores conseguirão entender que o Atlântico representa
o desmedido oceano de espaço no qual nos movemos, e que as rolhas nada mais são
do que o pequeno e mesquinho sistema planetário ao qual pertencemos. Uma vez que
somos apenas uma estrela de terceira grandeza com um séquito de insignificantes
satélites, estamos boiando exatamente como os pedaços de cortiça, rumo a uma
terrível catástrofe que irá nos surpreender nos confins do espaço, quando seremos
tragados por algum etéreo Niagara ou jogados contra um inesperado Labrador. Não
consigo entender o ingênuo otimismo do seu colaborador James Wilson Mac Phail
enquanto vejo inúmeras razões para ficarmos de sobreaviso diante de qualquer
transformação ambiental no universo que nos cerca, da qual poderá depender o
nosso destino final.
“Este homem poderia ter sido um político e tanto!”, exclamou Mc Ardle. “Ressoa como um órgão! Vejamos então o que o preocupa.”
As manchas nas Linhas de Frauenhofer–continuava a carta–indicam, no meu
entender, uma grande transformação cósmica de tipo bastante singular. A luz que
nos chega de um planeta é uma luz refletida do sol. A luz que chega até nós de uma
estrela, por sua vez, é uma luz que podemos chamar de autogerada, produzida pela
própria estrela. Agora, acontece que os espectros dos planetas assim como os das
estrelas revelam ter sofrido, todos eles, a mesma mudança. Haverá então uma
idêntica transformação afetando tanto os planetas quanto as estrelas?
No meu entender, uma idéia destas é simplesmente inconcebível. Que tipo de transformação poderia com efeito atingi-los ao mesmo tempo? Seria
então alguma transformação na nossa própria atmosfera? É possível, mas
extremamente improvável, pelo menos até quando não descobrirmos algum sinal
disto à nossa volta.
Poderia haver, então, uma terceira hipótese? Creio que sim, e ela seria a
seguinte: a transformação estaria acontecendo naquele espaço incrivelmente tênue
que vai de uma estrela para a outra e que ocupa o inteiro universo. Nós estamos
boiando no meio deste oceano, levados por uma vagarosa correnteza. E o que
impede que esta correnteza nos levem para os indefinidos halos que representam
novos fenômenos, halos cujas propriedades são para nós novas e das quais não
temos a menor idéia?
É uma possibilidade que de forma alguma podemos descartar. E a atual
perturbação cósmica do espectro é prova disto. Pode ser uma mudança para melhor,
mas também pode ser uma mudança fatal ou até mesmo inócua. É justamente este o
ponto que desconhecemos. Observadores superficiais e desatentos poderão não levar
em conta este fato, mas a profundidade do verdadeiro filósofo logo perceberá que as
possibilidades do universo são incalculáveis, e que o sábio deve manter-se
preparado a aceitar os acontecimentos mais imprevisíveis.
Para dar um exemplo bem claro, quem pode jurar que a estranha epidemia da
qual hoje mesmo o seu jornal fala, e que de repente acomete um grande número de
nativos em Sumatra, não esteja relacionada com alguma mudança cósmica que
afetou aqueles indígenas mais rapidamente que os povos da Europa? Esta minha
idéia, repito, não passa de uma hipótese sem maior fundamento, e de nada
adiantaria, por enquanto, defendê-la ou negá-la. Seria, no entanto, muito tolo aquele
que não quisesse admitir que tais fenômenos são perfeitamente aceitáveis dentro das
possibilidades científicas.
Despeço-me atenciosamente.
George Edward Challenger
Brias-Rotherfield
“Uma carta e tanto”, disse Mc Ardle enquanto procurava um cigarro na mesa. “O que pensa disto, Sr. Malone?”
Tive de admitir a minha total ignorância a respeito do assunto. O que vinham a ser, por exemplo, as Linhas de Frauenhofer?
Ao contrário de mim, o Sr. Mc Ardle tinha examinado profundamente a questão com a ajuda do nosso redator científico. Apanhou na mesa duas folhas coloridas e mostrou-me umas linhas pretas que se cruzavam sobre um fundo de cores vivazes que, do vermelho alaranjado ao roxo, passavam por todas as tonalidades do espectro solar.
“Estes riscos escuros são as Linhas de Frauenhofer”, disse, “e as cores indicam as luzes. Mas isto não vem ao caso. O que interessa são as linhas, pois elas variam segundo aquilo que pode produzir a luz. São justamente estas linhas que, na semana passada, apareceram manchadas em vez de límpidas, e todos os astrônomos continuam até agora tentando descobrir a razão disto. Aqui está a foto das linhas maculadas para a nossa edição de amanhã. Por enquanto o público não se mostrou muito interessado no assunto, mas acredito que ficará bastante curioso depois de ler a carta de Challenger no Times.
“E o que aconteceu em Sumatra?”
“Está havendo uma estranha epidemia, e um cabograma que acaba de chegar de Cingapura avisa que todos os faróis do Estreito da Sonda estão apagados, o que já provocou o naufrágio, de dois navios. Seja como for, acho aconselhável que o senhor entreviste Challenger a respeito do assunto. Se conseguir alguma coisa, prepare uma matéria para a edição de segunda-feira.”
Eu já,estava saindo da sala do diretor, pensando na tarefa que me aguardava, quando ouvi o meu nome sendo gritado por alguém que segurava um telegrama.
A mensagem era justamente do homem a respeito do qual acabávamos de conversar, e dizia: “Malone, Hill Street 17, Streatham. Traga oxigênio. Challenger”.
“Traga oxigênio”! Eu sabia muito bem que o professor era conhecido pelo seu humorismo bastante excêntrico, e que era capaz das atitudes mais bizarras. Seria então, aquela, mais uma das piadas que provocavam nele estrondosas risadas durante as quais a sua grande barba se agitava como navio entre vagas tempestuosas? Parei para considerar as palavras da mensagem, mas nada encontrei que pudesse justificar a hipótese de um chiste. Evidentemente, tratava-se de uma ordem: embora, sem dúvida, de uma ordem bastante estranha.
O professor era a última pessoa no mundo à qual eu ousaria desobedecer. Talvez estivesse preparando alguma experiência química; talvez... mas não cabia a mim quebrar a cabeça só para adivinhar o que ele estava aprontando... Eu só precisava obedecer.
Ainda teria de esperar quase uma hora antes de pegar o trem na Victoria Station. Depois de procurar o endereço na lista telefônica, peguei um táxi e fui até uma firma produtora de oxigênio, a Oxygen Tube Supply Company, na Oxford Street.
Ao chegar na firma, dois jovens estavam saíndo dela carregando um botijão metálico que, com alguma dificuldade, colocaram dentro de um carro parado. A operação estava sendo dirigida por um idoso cavalheiro que, em certa altura, virou-se para mim. Não havia como errar, pois o cavanhaque de bode e os traços severos eram inconfundíveis. Tratava-se do meu velho companheiro de aventuras, o professor Summerlee.
“Ora, ora!”, exclamou. “O senhor também recebeu um daqueles enigmáticos telegramas que pedem oxigênio?”
Mostrei-lhe a mensagem.
“Pois é! Eu também recebi e, como pode ver, tomei logo as devidas providências mesmo sem entender a razão do pedido. Como sempre, o nosso amigo é bastante exigente. Presumo que não se trate de uma coisa urgente, pois neste caso ele mesmo teria cuidado do assunto. Não entendo o motivo pelo qual ele não encomendou o oxigênio diretamente.”
Limitei-me a comentar que devia ter lá os seus motivos.
“De qualquer maneira, agora é desnecessário que o senhor também compre um botijão. Acho que já temos o bastante...”
“É evidente que ele também quer que eu leve a minha parte. Acho melhor seguir à risca as suas ordens.”
Aí, apesar dos resmungos e dos suspiros enfadados de Summerlee, pedi outro botijão de oxigênio e mandei colocá-lo junto do outro, no carro, uma vez que o meu companheiro oferecera-se para levar-me à estação.
Afastei-me um momento para pagar o motorista do táxi, o qual demonstrou uma descabida grosseria. Voltando para Summerlee, encontrei-o todo preso numa discussão em com os homens que haviam carregado o oxigênio. Estava tão irado que a sua barbicha não parava de fremir. Lembro que um dos dois homens chamou-o de velho gorila, e este impropério ofendeu o motorista do professor a ponto de tirá-lo do carro e quase envolvê-lo numa ruidosa briga de rua que só pôde ser evitada graças aos nossos titânicos esforços.
Poder-se-ia pensar que é inútil relatar estas bobagens sem maior importância e, com efeito, na hora que aconteceram, eu também as considerei totalmente irrelevantes. Agora, no entanto, quando volto a lembrar o passado, percebo claramente a conexão que elas tinham com a história que comecei a contar.
Pelo que eu pude entender, o motorista, devia novato, ou então ficara muito perturbado com a briga, pois dirigiu até a estação de forma lastimável. Guiou tão mal que quase chegou a bater, em mais dois veículos, que por sua vez estavam sendo dirigidos com bastante imprudência. Lembro-me, aliás, que o próprio Summerlee chegou a comentar a dificuldade com que já se podiam encontrar motoristas competentes em Londres.
Em certa altura quase atropelamos um grupo de pessoas que assistiam a uma briga. Os cidadãos, sobremodo indignados, começaram e gritar contra nós e um deles agarrou-se no carro agitando uma bengala sobre as nossas cabeças. Consegui jogá-lo ao chão, mas confesso que só respirei aliviado quando deixamos a turma para trás.
Esta seqüência de pequenos fatos desagradáveis que se sucediam sem parar deixou-me um tanto nervoso; e, ao mesmo tempo, as maneiras petulantes do meu companheiro revelavam que a sua paciência não tinha de forma alguma aumentado com o passar dos anos.
Ficamos novamente serenos, no entanto, quando vimos Lord John Roxton que esperava na plataforma da estação, com sua robusta figura fechada numa roupa de caça de cor amarelada.
O seu rosto franco, com seus olhos inesquecíveis, revelou verdadeira alegria quando nos viu. O velho amigo caiu na gargalhada ao reparar nos dois botijões de oxigênio que trazíamos conosco.
Vocês também estão levando? “, gritou. “O meu já está no vagão de carga. O que será que o nosso camarada está aprontando desta vez?”
“Já viu a carta no Times?”, perguntei.
“Qual é o assunto?”
“Desvarios!”, resmungou Summerlee, quase com desprezo.
“Acredito que deve haver alguma relação entre a carta e o pedido de oxigênio”, afirmei.
“Desvarios!”, repetiu Summerlee, desta vez quase com fúria.
Enquanto isso, tínhamos entrado num carro de primeira classe para fumantes, e ele acendera o curto cachimbo que sempre parecia querer botar fogo na ponta do seu longo nariz agressivo
“O bom Challenger é um homem inteligente,” exclamou em seguida, com grande veemência. “Ninguém pode negar, e quem negar isto só pode ser um louco. Estão lembrando o seu grande chapéu? Dentro dele há um grande cérebro, uma máquina poderosa, funcionando ininterruptamente e sem a menor falha! Infelizmente, no entanto, é um verdadeiro charlatão, e vocês sabem que eu disse isto bem na cara dele. Um incorrigível charlatão que adora ver o seu nome nas manchetes dos jornais! Já faz algum tempo que não se fala nele, de forma que agora o amigo Challenger está mais uma vez procurando botar a boca no trombone. Não vão me dizer que realmente acreditam nele quando fala todas essas bobagens acerca de mudanças no espaço e de perigos para a raça humana...”
E encolheu-se no assento, fazendo um grande estardalhaço com seus motejos e risadas.
Diante disto, eu quase me deixei vencer pela indignação. Não ficava bem falar assim do nosso chefe, daquele que havia sido a causa da nossa fama e que nos deixara participar de aventuras que nenhum outro homem tinha vivido. Estava a ponto de abrir a boca para dízer-lhe umas boas, quando Lord John adiantou-se.
“Lembro que uma vez o senhor teve uma divergência com o velho Challenger”, disse friamente, “e ele só levou dez segundos para acabar com os seus argumentos. A meu ver, meu caro professor, trata-se de um homem de nível superior ao seu, e o melhor que o senhor pode fazer é simplesmente deixá-lo em paz...”
“Por não falar no fato de sempre ter sido um ótimo amigo de nós todos. Pode até ter algum defeito, mas não acho que tenha o hábito de falar mal dos seus companheiros por trás das costas...”
“Isto mesmo, meu rapaz!”, disse Lord Roxton. Aí, com um sorriso gentil, deu um tapinha nos ombros do professor Summerlee, ao qual se dirigiu em tom amigável:
“Vamos lá, Herr Professor, será que realmente vamos ter de brigar? Já passamos por muitas aventuras juntos. Mas cuidado quando quiser dar umas alfinetadas em Challenger, porque tanto eu quanto este rapaz temos um fraco pelo nosso velho companheiro...”
Summerlee, entretanto, não estava minimamente a fim de assinar um armistício. O seu rosto logo revelou que não concordava conosco, e desabafou o seu mau humor com densas nuvens de fumaça que se avolumaram em voltado do seu cachimbo.
“Quanto ao senhor, Lord John Roxton”, gargalhou escarnecedor, A sua opinião sobre assuntos científicos tem para mim a mesma importância que, aos seus olhos, teria o meu ponto de vista acerca de questões de caça. Eu penso com a minha cabeça, senhor, e uso o meu julgamento da forma que eu bem quiser! Será que agora, só porque uma vez a minha cabeça falhou, terei de aceitar como evangelho tudo aquilo que Challenger decidir defender? Será que de repente querem nomeá-lo papa das ciências, guia infalível, e aceitar sem discussão todas as suas lorotas? Repito, meu senhor, que penso com o meu próprio cérebro, e que se assim não fosse, sentir-me-ia completamente inútil, um escravo! Se os senhores acharem melhor acreditar nessas bobagens de éter e de Linhas de Frauenhofer, fiquem à vontade; mas por favor não exijam que alguém mais velho e sábio que vocês os acompanhe nessa loucura! Não lhes parece óbvio que, se as condições do éter fossem atualmente prejudiciais à saúde dos homens, isto já teria ficado patente?” E aí riu triunfalmente. “Pois é, meus senhores, nesta altura nós todos já estaríamos apresentando sinais de anormalidade, e em lugar de estarmos aqui tranqüilamente sentados, examinando um problema científico dentro de um vagão ferroviário, já estaríamos revelando os sintomas do veneno dentro de nós. Digam, estão por acaso vendo algum sinal deste envenenamento?”
O velho tornava-se cada vez mais furioso. Havia algo bastante agressivo e irritante no desabafo de Summerlee.
“Acho que se o senhor estivesse mais a par dos acontecimentos, seria menos rígido na sua maneira de pensar!”, ousei dizer.
Summerlee tirou o cachimbo da boca e lançou-me um olhar interrogativamente cortante.
“Gostaria de dizer-lhe que, na hora de sair do jornal, soube pelo meu diretor que havia chegado um cabograma confirmando a epidemia entre os nativos de Sumatra, assim como a falta de funcionamento dos faróis do Estreito da Sonda.”
“Na verdade, a loucura humana deveria ter limites!”, berrou Summerlee, totalmente descontrolado. “Será possível que vocês não entendam que o éter, se quisermos aceitar por um momento a louca hipótese de Challenger, é uma substância universal, a mesma aqui do outro lado do mundo? Ou será que acreditam num éter inglês e em outro, diferente, em Sumatra? Só me resta dizer que a ignorância e a credulidade dos homens são infinitas! Como é que alguém pode, pensar que em Sumatra o éter é pernicioso a ponto de provocar uma doença geral, enquanto o dos países em que moramos não consegue ter efeito algum sobre nós? Quanto a mim, posso afirmar em sã consciência,que nunca me senti tão bem como agora.”
“Pode ser. Eu não sou um cientista”, opinei. “Mas acho que, justamente por termos tão escassas noções acerca do éter, nada impede que este sofra, sem que nós percebamos, a influência de condições locais, em diferentes partes do mundo, e tenha nestas áreas efeitos que só mais tarde ficarão patentes entre nós.”
“Com os seus ‘talvez’ e ‘pode ser’, o senhor não está provando coisa alguma!”, exclamou Summerlee. “Os porcos podem voar, sim senhor: eu poderia afirmar que os porcos podem voar, mas na verdade eles não voam. Nem vale a pena conversar com vocês. Challenger encheu-lhes a cabeça com as suas lorotas, e nenhum dos dois já consegue raciocinar. Seria o mesmo que conversar com as almofadas deste camarote!”
“Vejo-me forçado a dizer, professor Summerlee, que os seus modos não parecem ter melhorado desde a última vez que tive o prazer de encontrá-lo”, disse Lord John.
“Vocês nobres não estão acostumados a ouvir a verdade!”, respondeu Summerlee com um sorriso azedo. “Quando alguém lhes demonstra que todos os seus títulos de nada adiantam para diminuir a sua ignorância, quase parece que estão recebendo uma paulada na moleira...”
“Palavra de honra”, disse Lord John, realmente indignado, “se o senhor fosse mais jovem, não deixaria que me falasse desta forma!”Summerlee esticou o pescoço para a frente, a sua barbicha tremendo como nunca.
“Fique sabendo, meu senhor, que tanto na juventude quanto na velhice, em momento algum tive medo de falar às claras com um molengão ignorante! Isto mesmo, um molengão inútil e ignorante!...”
Por um momento os olhos de Lord John faiscaram. Aí, com a maior dificuldade, dominou a sua indignação e voltou a sentar-se de braços cruzados. Para mim, aquela cena era bastante constrangedora. A minha memória voltava ao passado, à antiga camaradagem, aos dias aventurosos e felizes, a tudo aquilo que tínhamos vivido e vencido juntos. Como era possível que aqueles dois tivessem chegado às injúrias? De repente caí em prantos... soluçando sem poder esconder aquela súbita fraqueza. Os companheiros olharam para mim, atônitos, e eu cobri o meu rosto com as mãos.
“Não foi nada”, expliquei. “Só que... só que fiquei com muita pena...”
“O senhor está doente, meu rapaz: não pode haver outra explicação!”, disse Lord John. “Pareceu-me muito nervoso desde o primeiro momento que o vi!”
“Os seus hábitos não mudaram”, disse Summerlee sacudindo a cabeça. Reparei na estranheza do seu comportamento desde a hora em que nos encontramos. Não desperdice a sua simpatia, Lord John. Estas lágrimas são simplesmente alcoólicas: este homem deve estar bêbedo! Pois é, Lord John, há pouco chamei-o de ‘molengão ignorante’ e talvez tenha exagerado; mas era apenas uma maneira de falar, um banal resquício da minha juventude.O senhor só me conhece como cientista sério. Pois bem, acreditaria em mim se lhe dissesse que houve um tempo em que era muito conhecido–nas famílias onde houvesse crianças – como imitador de bichos? Gostaria de ouvir a minha imitação de canto do galo?”
“Não senhor”, disse Lord John, ainda ofendido. “Posso garantir-lhe que não faço a menor questão...”
“O meu cacarejar de galinha que acaba de pôr o ovo era particularmente apreciado. Posso tentar?”
“Por Deus, não! Nem pense nisto.”
Mas, apesar das reclamações, o professor Summerlee guardou o cachimbo e, pelo resto da viagem, entreteve-nos com toda uma série de imitações de pássaros e outros animais. A coisa toda era tão extravagante que, de uma hora para a outra, as minhas lágrimas transformaram-se numa sonora gargalhada.
Em certa altura Lord John indicou-me o jornal que estava segurando, na borda do qual escrevera a lápis: “Pobre coitado! Enlouqueceu de vez!”
Enquanto isto tudo acontecia, por sua vez Lord John insistia em contar-me uma interminável história sobre um búfalo e um marajá indiano, história que, a meu ver, não tinha pés nem cabeça. O professor Summerlee acabava de começar a cantar como um canário e Lord John parecia ter finalmente chegado à parte interessante do seu relato, quando o trem parou em Jarvis Brook, a estação mais próxima de Rotherfield.
O próprio Challenger estava esperando por nós. Parecia radiante.
Nenhum pavão poderia jamais chegar perto da altiva dignidade com que ele passeava na plataforma. E isto sem falar do sorriso condescendente com que olhava os vis mortais que passavam perto dele.
Evidentemente, estes traços do seu caráter acentuaram-se desde a última vez que eu o vira. A grande cabeça, com a ampla testa limitada pela floresta de cabelos negros, parecia ainda maior. A barba negra, caindo como catarata, e os olhos de um cinza claro que faiscavam um olhar perenemente insolente e sarcástico, formavam um conjunto mais imponente do que nunca.
Recebeu-me com benevolente aperto de mão e o sorriso encorajador com que o mestre trata um garotinho na escola e, depois de cumprimentar os outros e ajudá-los com a bagagem e os botijões de oxigênio, empurrou todos para dentro de um grande carro dirigido pelo mesmo impassível Agostinho, o homem de poucas palavras que eu conhecera como camareiro quando da minha primeira visita.
O automóvel começou a subir pelas encostas de umas suaves colinas, no meio de uma linda região. Eu sentava na frente, ao lado do motorista, e ouvia atrás de mim os três companheiros que continuavam conversando. Pelo que pude entender, Lord John continuava insistindo em seu confuso relato sobre o búfalo e o marajá, mas também pude ouvir a voz profunda de Challenger e o tagarelar de Summerlee enquanto os dois se empenhavam numa douta conversa científica. De repente Agostinho virou o rosto crioulo para mim e, sem deixar de ficar de olho na estrada, disse:
“Já chega para mim. Não agüento mais!”
“Será possível?”, exclamei.
Naquele dia só aconteciam coisas estranhas, e todos diziam coisas inesperadas e extravagantes. Parecia-me estar sonhando!
“E a quadragésima-sétima vez!”, disse Agostinho, muito sério.
“Quando vai nos deixar?”, perguntei com a esperança de saber alguma coisa mais precisa.
“Não estou indo embora”, respondeu Agostinho.
Tudo indicava que a conversa ia ficar por isto mesmo, mas ele apressou-se a continuar.
“Se eu for embora, quem irá cuidar dele?” E ao dizer isto piscava o olho indicando o patrão. “Quem mais iria agüentar trabalhar para ele?”
“Alguém iria certamente aceitar o emprego”, eu disse ingenuamente.
“Não. Ninguém ir a agüentar mais de uma semana. Se eu for embora, a casa vai parar como um relógio de mola quebrada. Estou desabafando com o senhor porque o considero amigo e já sabe de muita coisa...”
“Por que acredita que ninguém agüentaria?”, perguntei.
“Porque ninguém saberia suportá-lo como eu faço. É um homem inteligente, até inteligente demais às vezes. Mas também faz coisas que ninguém acreditaria. Sabe o que fez hoje de manhã, por exemplo?”
“O que foi?”
Agostinho aproximou-se.
“Deu uma mordida na arrumadeira”, murmurou num tom que dava para perceber o espanto.
“Deu uma mordida nela?”
“Isto mesmo. Deu-lhe uma mordida na perna. Vi com os meus próprios olhos a pobre mulher que fugia assustada, queixando-se.”
“Incrível!”
“Pois é, incrível mesmo! E o senhor, também diria isto se tivesse visto um montão de outras coisas. Ele não tem amigos entre os vizinhos. Alguns deles dizem que quando o professor ficou entre aqueles monstros sobre os quais o senhor escreveu um livro, devia sentir-se perfeitamente à vontade, e que ninguém poderia imaginar para ele companhia mais apropriada. É o que os vizinhos dizem. Mas eu, que estou ao serviço dele há dez anos e lhe quero bem, digo que é um grande homem quando suas ordens são obedecidas ao pé da letra, e que trabalhar para ele é uma honra. Mas às vezes parece quase achar graça na sua própria crueldade. Por exemplo, veja o senhor mesmo. Certamente, não podemos considerar isto uma prova da antiga hospitalidade inglesa. Olhe, leia o senhor mesmo...”
O carro, avançando lentamente, estava enfrentando uma curva. Depois da virada, havia uma placa de madeira fincada na margem da estrada. Como dissera Agostinho, não era difícil ler o aviso, pois se tratava de poucas palavras, capazes de tirar o ânimo de qualquer um:
AVISO:
Visitantes, representantes da imprensa e mendigos
não são bem-vindos
G.E. Challenger
“Não é propriamente o que eu chamaria de boas-vindas!”, disse Agostinho, sacudindo a cabeça e mantendo os olhos fixos na desanimadora advertência. “Queira desculpar-me, senhor, ainda mais porque nunca falei assim nestes anos todos. Mas acontece que hoje quase me parece sentir mais compreensão por ele. Pode maltratar-me, mas não irei embora. Sou o empregado e ele é o meu patrão, e juro que vai continuar assim até o fim dos meus dias...”
Tínhamos superado as colunas de um portal, e agora avançávamos por uma sinuosa avenida flanqueada por rododendros. No fim da avenida havia uma casa de tijolos, baixa, enfeitada com luminosas janelas brancas. Parecia um lugar muito aconchegante, e a senhora Challenger, uma figurinha toda cheia de sorrisos, estava na porta para nos receber.
“Querida”, disse o professor saindo apressadamente do carro, “aqui estão os nossos hóspedes. É uma novidade e tanto, para nós, termos visitas. Com efeito, não há lá muita fartura de sentimentos amorosos entre nós e os nossos vizinhos! Acho que se pudessem botar um pouco de estricnina no nosso pão, eles o fariam com o maior prazer: os nossos vizinhos...”
“É horrível, realmente horrível!”, exclamou a dama que não dava para saber se ria ou chorava. “George vive brigando com todo o mundo. Não temos um amigo sequer em toda a vizinhança...”
“Esta solidão faz com que eu possa concentrar a minha atenção na minha incomparável mulher”, disse Challenger apertando com seu braço curto e gorducho a cintura dela. “Imaginem um gorila e uma gazela e poderão ter uma idéia da situação. Mas é melhor deixarmos estas agruras de lado: vamos, vamos! Estes senhores devem estar cansados com a viagem e o almoço já deveria estar saindo. Sara já voltou?”
A dama sacudiu a cabeça para dizer que não e o professor entregou-se a uma de suas risadas.
“Agostinho, depois de guardar o carro na garagem, tenha a bondade de ajudar a senhora a preparar o almoço. Agora, senhores, queiram-me honrar com sua presençano meu escritório, pois há algumas coisas importantes que quero lhes contar quanto antes”.