A Nuvem Envenenada

Arthur Conan Doyle · Capítulo 3 de 7

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A Nuvem Envenenada

3- Submersos

O aposento que iria servir de palco para as nossas inesquecíveis peripécias era uma graciosa saleta tipicamente feminina, com uma área de mais ou menos sete metros quadrados. No fundo, separado apenas por uma cortina de veludo vermelho, havia um cubículo que era o quarto de vestir do professor. Dali, passava-se diretamente para um amplo quarto de dormir.

A cortina estava no devido lugar, mas na verdade a saleta e o quartinho de vestir formavam uma coisa só, pelo menos em relação à experiência que estávamos prestes a enfrentar. Uma porta e as frestas de uma janela haviam sido vedadas com papel impermeável, como se tivessem sido lacradas. Sobre a outra porta havia um grande ventilador que podia ser acionado com um cordão se porventura isto se tornasse necessário.

“A ventilação é um assunto delicado mas de fundamental importância, pois precisamos nos livrar do excesso de dióxido de carbono sem estragarmos rapidamente o nosso oxigênio”, disse Challenger olhando-se em volta, depois que os botijões foram colocados um ao lado do outro ao longo da parede. “Se pudesse ter tido mais tempo para os preparativos, teria concentrado toda a minha inteligência no estudo do problema mas, por como andam as coisas, teremos de nos contentar com o que temos. Dois dos recipientes de oxigênio já estão prontos para serem usados a qualquer hora, de forma que não seremos pegos de surpresa. Também acho bom ficarmos perto daqui, pois a crise pode ser repentina.”

Havia, na saleta, uma larga janela baixa que dava para uma varanda. A vista era a mesma que já tínhamos admirado do escritório. Olhando a paisagem, não consegui descobrir sinal algum do desastre que se aproximava.

Não muito longe, havia uma estrada que descrevia uma ampla curva na encosta da colina. Uma carruagem da estação, um daqueles veículos pré-históricos que só se encontram no interior da Inglaterra, subia lentamente pelo aclive. Um pouco mais para baixo via-se uma babá que empurrava um carrinho com um neném, e segurava outra criança pela mão.

Os penachos de fumaça azulada que saíam das casas senhoriais davam à paisagem um ar de ordeira tranqüilidade. Não havia uma nuvem no céu, e na terra abençoada pelo sol nada podia ser visto que pudesse deixar adivinhar a catástrofe. Os ceifeiros já haviam voltado ao trabalho e os jogadores de golfe estavam mais uma vez empenhados em seus acirrados jogos. Sentia algo tão estranho na minha cabeça, e os meus nervos estavam tão agitados, que a insensibilidade daquelas pessoas parecia-me irreal.

“Esse pessoal parece totalmente imune ao veneno”, comentei, apontando para os golfistas.

“O senhor joga golfe?”, perguntou Lord John.

“Não, nunca joguei.”

“Pois é, meu bom rapaz, quando tiver a oportunidade de experimentar, vai descobrir que nem mesmo o fim do mundo pode distrair um verdadeiro golfista quando está empenhado num jogo. Ali, ouça: o telefone está tocando de novo...”

De vez em quando, durante e após o almoço, aquele tilintar agudo e insistente tinha exigido que o professor fosse atender. E ao voltar, com lacônicas frases, ele nos transmitia as notícias que acabava de receber.

Notícias tão terríveis, na verdade, que não havia registro delas na história do mundo. A imensa sombra subia do sul, e espalhava-se como uma grande maré de morte. O Egito já se apagara no delírio, e estava agora em estado comatoso. A Espanha e Portugal, depois de uma fase frenética em que os anarquistas e os defensores do clericalismo se tinham engalfinhado sangrentamente, estavam agora escondidos atrás de uma cortina de silêncio. Já não chegavam mais telegramas da América do Sul. Na América do Norte, depois de terríveis revoluções, os Estados sulinos haviam sucumbido ao veneno. No Maryland setentrional os efeitos ainda eram leves e no Canadá só começavam a aparecer os primeiros sintomas. A Bélgica, a Holanda e a Dinamarca já haviam sido atingidas.

De toda parte chegavam aos grandes centros da civilização desesperados pedidos de socorro, solicitando que os mais famosos médicos e químicos expressassem a sua opinião. Uma verdadeira avalanche de pedidos também chegava aos astrônomos. E nada podia ser feito. O desastre era universal e muito além da ciência humana. Era a morte, sem sofrimento, mas inevitável. A morte para o jovem assim como para o velho, para o fraco assim como para o forte, para o pobre assim como para o rico: sem a menor esperança de salvação. Era a conclusão à qual podíamos chegar a partir das mensagens confusas e desesperadas que nos eram transmitidas pelo telefone.

As grandes cidades já conheciam o que esperava por elas e, pelo que podíamos entender, preparavam-se a enfrentar o destino com dignidade e resignação.

E mesmo assim ainda havia os nossos jogadores de golfe, e os lavradores ceifando suas searas, que continuavam calmos como o cordeiro sob o relampejar da faca. Parecia impossível, mas por outro lado não havia como eles pudessem ficar a par dos acontecimentos. A grande desgraça chegara inesperada como um raio num dia de sol, e até mesmo os jornais daquela manhã não tiveram tempo para espalhar as terríveis novidades.

Mais tarde, no entanto, enquanto estávamos observando, algumas notícias pareceram chegar, pois os lavradores começaram a deixar os campos correndo, e até alguns golfistas desistiram de suas jogadas. Corriam como se estivessem querendo fugir de uma tempestade. Havia outros, entretanto, que continuavam com suas tacadas. A babá dera meia volta e estava voltando, e empurrava o carrinho na maior agitação. A carruagem parara e o cavalo, cansado e cabisbaixo, parecia recuperar o fôlego.

Acima destes fatos miúdos havia o céu típico do verão, uma imensa abóbada de azul imaculado a não ser por umas pequenas nuvens brancas que se avistavam ao longe. Se era destino que a raça humana tivesse de perecer naquele dia, pelo menos iria morrer num esplêndido cenário! Mas a excepcional beleza da paisagem tornava ainda mais assustadora a terrível e cada vez mais próxima aniquilação. Naquele momento, o mundo revelava-se um lugar bonito demais para que dele pudéssemos nos afastar sem uma fisgada de magoada saudade!

Mas como eu estava dizendo, o telefone tocara mais uma vez. Logo a seguir ouvi a poderosa voz de Challenger que chamava do vestíbulo.

“Malone”, gritou, “é para o senhor...”

Fui atender. Era Mc Ardle que me chamava de Londres.

“É o senhor, Malone?”, gritou a voz que eu tão bem conhecia. “Pelo amor de Deus, Malone, veja quanto antes se o professor Challenger tem alguma sugestão para nós...”“Não pode sugerir absolutamente nada”, respondi. “Acredita que a crise seja universal e inevitável. Temos aqui uma pequena reserva de oxigênio, mas só pode servir a prolongar a nossa vida por algumas horas.”

“Oxigênio?”, gritou a voz. “Aqui já é muito tarde para procurar. Desde que o senhor saiu, a redação virou um verdadeiro caos. A metade dos redatores desmaiou. Da janela, posso ver as pessoas caídas, sem sentidos, na Fleet Street. Pelo que dizem os mais recentes telegramas, o mundo inteiro...”

A voz dele perdera o vigor para depois calar-se. Logo a seguir ouvi pelo telefone um baque surdo, como se a cabeça do diretor tivesse batido pesadamente na escrivaninha.

“Sr. Mc Ardle!”, gritei. “Sr. Mc Ardle!...”

Ninguém respondeu. Enquanto desligava o aparelho, dizia a mim mesmo que nunca mais iria ouvir a voz do meu chefe.

Naquela mesma hora, justamente quando estava para afastar-me do telefone, o desastre começou.

Éramos como banhistas com a água à altura dos ombros, que de repente ficam submersos com a chegada de uma inesperada onda. Uma presa invisível parecia estar apertando delicadamente a minha garganta, empurrando com a mesma delicadeza qualquer sinal de vida fora do meu corpo. Podia sentir um grande peso no peito, uma indizível pressão na cabeça, um surdo zumbido nos ouvidos, e diante dos meus olhos podia ver o faiscar de grandes fagulhas.

Apoiei-me na balaustrada da escada que levava ao primeiro andar. Naquela mesma hora, ofegante e bufando como um touro, Challenger passou ao meu lado. Era uma visão horrível, o rosto congestionado, de cabelo eriçado na cabeça e olhos arregalados. A pequena mulher, evidentemente desmaiada, agarrava-se aos seus grandes ombros, e ele arrastava-se penosamente escada acima, trombando e cambaleando, mas mesmo assim conseguindo avançar através daquela atmosfera mefítica rumo à relativa segurança da nossa momentânea salvação.

Animado pelo seu exemplo, eu também agarrei o corrimão, escorregando, caindo nos degraus, apoiando-me no tapete, até ficar espichado, quase sem sentidos, no patamar do andar de cima. Os dedos de aço de Lord John seguraram-me pela gola do casaco e, logo a seguir, eu estava deitado de costas, incapaz de falar e de mexer-me, no carpete da saleta. A dona da casa jazia ao meu lado, e Summerlee encolhia-se numa poltrona perto da janela, com a cabeça quase a roçar-lhe os joelhos.

Quase que sonhando, vi Challenger que, como uma monstruosa barata, se arrastava lentamente no chão. Logo depois ouvi o sopro delicado do oxigênio que saía de um dos botijões.

Challenger respirou fundo umas duas ou três vezes.,

“Está fazendo efeito!”, gritou exultante. “As minhas suposições estavam certas!”

E ficou de pé, vigoroso e em plena forma. Arrastando o botijão, precipitou-se para a mulher e aproximou o sopro vital do rosto dela. Depois de alguns instantes ela bocejou, espreguiçou-se e ficou sentada. Foi então a minha vez, e a vida voltou imediatamente a correr pelas minhas artérias.

A razão dizia-me que se tratava apenas de uma salvação temporária e de curta duração, mas naquela hora qualquer momento de vida a mais parecia-me uma dádiva de inestimável valor. Nunca experimentei uma sensação tão deliciosa quanto aquela que acompanhou a volta do fluxo vital ao meu corpo! Os meus pulmões ficaram leves, a opressão na cabeça desapareceu e uma calma maravilhosa tomou conta de mim.

Graças ao mesmo remédio, Summerlee também estava recobrando-se; e então foi a vez de Lord John. Este ficou de pé com um pulo, e ofereceu-me a mão para que eu fizesse o mesmo, enquanto Challenger ajudava a mulher levando-a até o sofá.

“George querido, quase me arrependo que me tenha trazido de volta ela murmurou, segurando-lhe a mão. “Como você mesmo disse, uma vez superado o momento do medo, o Além é suave e bonito! Por que me trouxe de volta?”

“Porque quero que embarquemos nesta grande viagem juntos. Já passamos tantos anos juntos, que agora seria muito triste termos de nos separar nesta hora tão grave...”

Por um momento, notei na voz dele uma ternura que me fez pensar num novo Challenger, um Challenger diferente do homem irritadiço e arrogante que, conforme o caso, passara a vida inteira surpreendendo ou ofendendo toda a sua geração. Na sombra da morte aparecia um novo Challenger, um Challenger que deixava bem claro como, em certa altura da vida, podia ter conquistado o amor de mulher.

Mas aí a. sua atitude mudou de repente, e ele voltou a ser o nos enérgico chefe.

“Entre todos os homens, eu fui o único capaz de prever e de anunciar esta catástrofe!”, disse com uma certa exaltação e um toque triunfo científico na voz. “No que me diz respeito, Summerlee, espero que as suas últimas dúvidas tenham desaparecido, e que já não insista mais em dizer que a carta por mim enviada ao Times baseava-se apenas numa ilusão...”

Pelo menos desta vez, o nosso combativo amigo mostrou-se surdo ao desafio. Continuou sentado, apertando os joelhos com as mãos quase quisesse ter certeza da sua permanência neste velho mundo.

Challenger aproximou-se do botijão de oxigênio e ouvimos o som do zumbido do gás que saía, até o barulho se transformar em algo parecido com um sopro inaudível...

“Precisamos administrar com cuidado a nossa reserva de gás”, replicou. “A atmosfera desta saleta tem agora um nível de oxigenação muito acima do normal, e confio que nenhum de nós possa apresentar sintomas alarmantes. Com a experiência que acabamos de fazer, podemos determinar a quantidade de oxigênio que precisamos acrescentar ao ar para neutralizarmos o veneno. Vejamos então como estão as coisas.”

Ficamos sentados em silenciosa expectativa por mais ou menos cinco minutos, medindo as nossas sensações. Eu já estava achando que uma certa opressão voltara a pesar sobre a minha cabeça, martelando as têmporas, quando a senhora Challenger chamou do sofá onde ficara deitada. O marido deixou sair mais um pouco de gás.

“Antigamente”, disse, “costumava-se manter um ratinho branco nos submarinos para que, se porventura o ar se tornasse rarefeito demais, o bichinho pudesse ser o primeiro a avisar os marinheiros. Você, minha querida, será o nosso ratinho branco. Aumentei a quantidade de oxigênio e você já está se sentindo melhor.”

“Sem dúvida, muito melhor...”

“É possível que tenhamos acertado quase de imediato a quantidade de oxigênio necessária. Agora precisamos averiguar a duração desta quantidade para então calcular quantas horas ainda nos restam de vida. Infelizmente, nestas nossas tentativas, já gastamos uma parte considerável do primeiro botijão.”

“Qual é a diferença?”, exclamou Lord John, que ficara de pé ao lado da janela, com as mãos nos bolsos. “Se tivermos de partir, de que adianta adiarmos a partida? Não vai me dizer que ainda acredita haver alguma esperança para nós...”

Challenger sorriu e sacudiu a cabeça.

“Será então que o senhor acha mais digno ir ao encontro do desastre, em lugar de esperar por ele? Neste caso, tanto faz recitarmos logo as nossas orações, e abrirmos as janelas soltando o oxigênio...”

“E por que não?”, a mulher disse corajosamente. “George, acho que Lord John talvez esteja certo...”

“Vejo-me forçado a opor-me com todas as minhas forças!”, exclamou Summerlee, com voz tremula. “Quando chegar a hora de morrer, morreremos com a maior dignidade; mas francamente, antecipar a morte parece-me uma ação insana e injustificável.”

“E o nosso jovem amigo”, perguntou Challenger, “o que pensa a respeito?”

“Acho que devemos assistir ao espetáculo até o fim...”

“E eu estou completamente de acordo”, ele acrescentou.

“Se esta for a sua opinião, George, eu também penso da mesma forma”, afirmou a mulher.

“Ora, ora”, disse Lord John, “só falei por falar. Se quiserem assistir o espetáculo até o fim, aceitarei sua decisão. É óbvio que vai valer a pena. Já vivi muitas aventuras incríveis na minha vida, mas desta vez acredito estar diante da mais estranha de todas.”

“Se admitirmos a continuidade da vida”, disse Challenger num tom doutoral, “nenhum de nós pode prever os tesouros que iremos encontrar. É claro que, enquanto estivermos vivos, poderemos perceber os fenômenos materiais à nossa volta. E, além disso, se quisermos levar conosco, para qualquer futura existência, uma idéia clara da mais extraordinária aventura de todos os tempos, precisamos ficar vivos durante estas poucas horas a mais que nós mesmos nos concedemos. Quanto a mim, acho que seria uma verdadeira pena desistirmos até de um único minuto do tempo que nos resta...”

“Estou plenamente de acordo!”, exclamou Summerlee.

“Então, todos concordamos”, disse Lord John. “Vejam só! Aquele coitado do seu motorista está caído no chão, lá no pátio, e acredito que já tenha se despedido da vida. Acham que seria possível busca-lo?”

“Seria uma loucura!”, exclamou Summerlee.

“Também acho”, disse Challenger. “Nunca conseguiríamos salvá-lo e espalharíamos o oxigênio pela casa inteira, mesmo admitindo que pudéssemos voltar até aqui vivos. Mas olhem, vejam só aqueles passarinhos sob as árvores...”

Aproximamos as cadeiras da ampla janela baixa, enquanto a senhora permanecia de olhos fechados, deitada no sofá. Lembro que Idéia monstruosa e grotesca tomou conta de mim–talvez ela continuasse na minha mente devido ao ar pesado que estávamos respirando–isto é, que estávamos na primeira fila de um teatro, assistindo ao último ato da tragédia do fim do mundo...

Lá fora, bem diante dos nossos olhos, havia o pequeno quintal com o automóvel limpo só pela metade. Agostinho, o motorista, quase certamente já devia estar morto, pois jazia no chão, imóvel, perto de uma roda do carro, com uma grande mancha escura na testa, onde esta tinha-se chocado com o solo. Ainda apertava com uma das mãos o balde com que estava lavando o veículo. Num canto do quintal havia umas pequenas árvores e, embaixo delas, podiam-se ver várias bolotas de plumas desgrenhadas: eram passarinhos, com suas patinhas viradas para cima. A foice da morte atingira todos, grandes e pequenos!

Por cima da mureta do quintal, víamos a estrada que levava à estação. Alguns camponeses que há pouco haviam tentado fugir dos campos, estavam agora espalhados em volta, imóveis, com os corpos caídos uns em cima dos outros. Mais adiante, a babá jazia no chão, com a cabeça e os ombros apoiados no limiar de uma pastagem. Tirara do carrinho o neném, que agora não passava de um confuso e inerte amontoado de fraldas.

Perto dali, uma pequena mancha escura ao lado do caminho indicava onde havia caído a criança mais velha. Não muito longe, podíamos ver a viatura da estação com o cavalo–morto– que, preso às estacas do carro, continuava de pé. O velho cocheiro sentava na boléia, de braços caídos.Através da janela, via-se um jovem que ainda segurava a porta entreaberta da carruagem: a sua mão apertava o fecho como que numa derradeira tentativa de fuga de última hora.

Mais longe havia o campo de golfe, pontilhado pelas escuras figuras dos jogadores, agora imóveis no chão. Numa única clareira, podiam ser vistos oito corpos. Nenhum pássaro percorria os azuis caminhos do céu, e nem homem nem animal mexia-se no grande palco que se abria diante de nós. O sol, já perto do ocaso–ainda iluminava o cenário mas, na grande paz da hora, percebia-se a solidão e o silêncio da morte universal, uma morte que dentro em breve também iria nos alcançar.

Ainda por algumas horas, a ciência e a previdência de um homem iriam preservar o nosso pequeno oásis de vida naquele imenso deserto de morte, livrando-nos da catástrofe geral! Aí o oxigênio iria lentamente acabar, nós tombaríamos no tapete da saleta, e o destino de toda a raça humana e de toda a vida terrestre cumprir-se-ia.

Ficamos um bom tempo parados, observando a tragédia do mundo, num silêncio que era solene demais para que qualquer um de nós ousasse quebrá-lo.

“Há uma casa pegando fogo!”, exclamou finalmente Challenger, indicando uma coluna de fumaça que aparecia ao longe, acima das árvores. “Acho que vai haver muitos outros incêndios, cidades inteiras em chamas, aliás, pois deve haver um grande número de pessoas que caíram ao chão quando ainda seguravam lumes ou lanternas. Vejam: lá está outro incêndio naquela colina! Deve ser a sede do clube de golfe. Dá até para ver o relógio da igreja. Seria interessante ver como um mecanismo criado pelo homem pode sobreviver à raça que o construiu.”

“Por Júpiter!”, exclamou Lord John dando um pulo. “O que é aquela nuvem de fumaça? Ah, é um trem...”

Ouvimos o estrondo do comboio, que passou diante dos nossos olhos a uma velocidade que me pareceu espantosa. Não dava para entender como nem de onde estivesse vindo. Só podia ter continuado a sua corrida por um verdadeiro milagre; mas nós estávamos lá justamente para assistir ao seu fim. Outro trem, um cargueiro de carvão, estava parado nos trilhos.

Seguramos a respiração enquanto o expresso continuava a sua descontrolada corrida na mesma linha. O choque foi pavoroso. A locomotiva e os vagões tornaram-se logo um amontoado de lascas de madeira e de pedaços de ferro retorcidos. Pequenas chamas avermelhadas logo se elevaram dos escombros, transformando-se em seguida num gigantesco incêndio. Ficamos sentados nos nossos lugares por quase meia hora, fascinados e atordoados por aquele espetáculo dantesco.

“Coitados!”, exclamou a senhora Challenger, agarrando-se com força ao braço do marido.

“Querida, os que chamou de coitados eram pessoas menos sensíveis que o carvão contra o qual se chocaram”, disse Challenger. “Era um trem de pessoas vivas quando saiu da Victoria Station, mas já estava sendo guiado pela morte muito antes de chegar ao seu destino final.”

“No mundo inteiro devem ter acontecido desastres como este”, eu disse, vislumbrando diante dos meus olhos uma série de horríveis calamidades. “Pensem nos navios que continuarão a navegar enquanto houver combustível para as máquinas ou até se espatifarem contra os recifes. Os veleiros também continuarão a levar pelos mares a sua carga de marinheiros mortos até descerem, um depois do outros, para o extremo descanso no fundo do mar. Pode ser que daqui a cem anos ainda haja no Atlântico alguns velhos cascos boiando.”

“Já pensaram nos mineiros das minas de carvão?”, exclamou Summerlee. “Se algum dia ainda voltar a haver no mundo algum estudioso de geologia, já pensaram nos incríveis debates provocados pela presença de ossadas humanas nas camadas carboníferas?”

“Não pretendo bancar o sabichão”, comentou Lord John, “mas acho que depois da catástrofe poderemos botar uma linda placa no mundo com os dizeres: ´Aluga-se: vazio’. Uma vez que a humanidade tenha sido varrida daqui, quem mais poderá substituí-la?”

“O mundo já ficou desabitado em outra ocasião”, respondeu solenemente Challenger, “e mesmo assim voltou a povoar-se. Por que pensar então que o mesmo não volte a acontecer?”

“Meu caro Challenger, o senhor deve estar brincando.”

“Não costumo brincar quando o assunto é tão sério, professor Summerlee. O seu comentário é descabido.”

Ao dizer isto, Challenger assumiu uma expressão carrancuda.

“O senhor sempre foi um dogmático cabeçudo, e quer continuar assim até o fim!”, disse Summerlee.

“E o senhor sempre foi um espírito de porco sem imaginação, e ao que tudo indica é assim mesmo que vai morrer!...”

“Até os seus críticos mais condescendentes nunca poderão acusá-lo de falta de imaginação!”, respondeu Summerlee.

“Francamente!”, exclamou Lord John. “Acham de fato que o melhor que podem fazer é ficar aí gastando as nossas últimas reservas de oxigênio insultando-se reciprocamente? Não importa que o mundo volte ou não a ser habitado: seja como for, nós já não existiremos mais...”

“Esta sua observação, senhor, é uma prova evidente da parvice das suas faculdades intelectuais”, disse Challenger com a maior tranqüilidade. “A mente realmente científica está completamente desligada do tempo e do espaço. Ela constrói. para si mesma um observatório no limiar do presente, que separa o infinito passado do infinito futuro. Deste seguro ponto de observação, lança o seu olhar para o começo e o fim de todas as coisas. E no que diz respeito à morte, a mente científica morre sem abandonar o seu posto, trabalhando de forma metódica e normal até o fim. E não perde tempo com coisas insignificantes como a nossa própria dissolução. Não estou certo, professor Summerlee?”

Summerlee declarou-se favorável, mas de forma bastante grosseira.

“Concordo”, resmungou, “mas com algumas restrições...”

“A verdadeira mente científica”, continuou Challenger, “(e uso a terceira pessoa para não deixar a impressão de estar falando de mim mesmo) deve manter a capacidade de pensar segundo um conhecimento abstrato até na hora em que o seu possuidor cai, digamos, de um balão e se espatifa no chão. Somente homens assim podem tomar-se os conquistadores da natureza e a vanguarda da verdade...”

“Desta vez, a natureza não me deixa lá muito convencido!”, disse Lord John olhando pela janela. “Já li artigos em que se afirmava que os cientistas tinham a capacidade de segurá-la, mas é evidente que ela conseguiu escapar.”

“Trata-se apenas de um tropeço temporário”, disse Challenger com convicção. “Pode ver claramente que o mundo vegetal sobreviveu. Dê uma olhada nas folhas daquelas árvores lá no fundo do quintal. Os pássaros morreram, mas as árvores continuam florescendo. Desta vida vegetal, atualmente em dissolução, surgirá um dia um pequeno ser microscópico que será o pioneiro do futuro grande exército da vida. Desde que uma forma qualquer de vida consiga estabelecer-se, o advento final do homem torna-se tão certo quanto o nascer da espiga. O antigo ciclo voltará a repetir-se...”

“Mas tudo isto não acabará sendo afetado pelo veneno?”, perguntei.

“O veneno pode ser apenas uma camada do éter, alguma coisa que como uma mefítica correnteza atravessa o oceano em que nós boiamos. Ou teremos então uma adaptação, e a vida ajustar-se-á às novas condições. O próprio fato de nós podermos lutar contra o veneno com uma hiperoxigenação relativamente pequena do nosso sangue demonstra, por si só, que não é preciso haver grandes mudanças para que a vida animal se acostume a ele sem maiores prejuízos”.

A casa atrás das árvores, da qual subia uma coluna de fumaça, estava agora completamente em chamas. Podíamos ver as irrequietas labaredas que chispavam no ar.

“Há nisto uma fatalidade assustadora!”, murmurou Lord John, que estava abalado como nunca o vira antes.

“Será que no fundo precisamos realmente ficar tão abalados?”, observei. “O mundo morreu e a cremação pode ser um ritual bastante apropriado.”

“Se o fogo chegasse até esta casa, a nossa agonia seria certamente mais curta.”

“Previ este perigo”, disse Challenger, “e pedi que a minha mulher tomasse as devidas precauções.”

“Pensei em tudo, querido. A minha cabeça está novamente ficando pesada. Que atmosfera insuportável!”

“Vamos dar um jeito nisto!”, disse Challenger, e aproximou-se do botijão de oxigênio.

“Já está quase vazio”, disse. “Durou três horas e meia, e já são quase oito. Poderemos passar a noite sem maiores dificuldades. Acredito que o fim chegará amanhã, lá pelas nove horas. Teremos o privilégio de assistir a uma alvorada que só existirá para nós cinco...”

Abriu o segundo botijão e acionou por meio minuto o ventilador que, estava em cima da porta. O ar tornou-se um pouco mais respirável mas, uma vez que os sintomas pioravam, desligou o ventilador.

“Não podemos esquecer que o homem não vive apenas de oxigênio”, disse. “já estamos meia hora atrasados para o jantar. Garanto, meus senhores, que quando os convidei para uma reunião que esperava ser interessante, achei que a minha cozinha devia manter-se à altura da sua fama. Seja como for, vamos fazer o possível. Acredito que todos considerariam uma verdadeira loucura gastarmos desnecessariamente o nosso ar ligando o fogão a gás. Aprontei umas modestas provisões de carne fria, fruta e pão que, juntamente com umas boas garrafas de vinho, vão servir muita bem. Devo agradecer isto tudo a você, minha querida. Continua sendo, como de costume, a rainha das donas de casa.”

E era realmente motivo de maravilha ver a decorosa dedicação doméstica, tão típica da dona de casa inglesa, com que a senhora aprontou em poucos minutos a mesa com uma toalha branca como neve, distribuiu os guardanapos, e trouxe a carne fria perfeitamente arrumada na bandeja. Colocou então a lâmpada elétrica no meio da mesa e nós descobrimos, com ainda mais espantada surpresa, que estávamos com um formidável apetite.

“Está na medida das nossas emoções”, disse Challenger. “Passamos por uma crise que gerou uma grande atividade molecular, e todo este gasto exige uma compensação. Às grandes dores e alegrias sempre se acompanha uma fome voraz que nada tem a ver com a inapetência de que tanto falam as histórias românticas.”

“Deve ser por isto que os camponeses sempre dão grandes jantares depois dos enterros”, ousei observar.

“Exatamente! O nosso jovem amigo encontrou um ótimo exemplo. Permitam que lhes ofereça mais uma fatia de língua.”

“Acontece o mesmo com os selvagens”, disse Lord.John, servindo-se de outra fatia de carne. “Assisti ao enterro de um cacique ao longo de um rio da África e vi os nativos comerem um hipopótamo que devia pesar mais que a tribo inteira. Sem contar que alguns aborígines da Nova Guiné chegam ao ponto de devorar o morto. De todas as cerimônia fúnebres, entretanto, acho que a nossa seja a mais extraordinária...”

“O mais estranho”, disse a senhora Challenger, “é que não consigo sentir pena daqueles que morreram. E vejam bem que tinha papai e mamãe em Bedford. Sei que morreram e mesmo assim, nesta assustadora tragédia universal, não consigo comover-me...”

“E a minha velha mãe, na sua casinha na Irlanda?”, eu disse. “Parece que a estou vendo, com o seu xale e a touquinha, sentada na grande cadeira de balanço, de olhos fechados e com os óculos na ponta do nariz, ao lado da janela. Por que deveria chorar por ela? Morreu, mas eu também estou prestes a morrer, e talvez dentro em breve estarei ao lado dela.”

“No que diz respeito ao corpo”, observou Challenger, “não choramos sobre os pedaços de unhas que cortamos e tampouco sobre os cabelos que o barbeiro apara: e mesmo assim são partes de nós. E o perneta tampouco chora por causa do membro que perdeu. Por via de regra, o nosso corpo físico é para nós fonte de sofrimento ou de cansaço, e o indicador constante dos limites das nossas possibilidades. Por que deveríamos chorar ao nos separarmos dele?”

“Que seja”, rosnou Summerlee, “mas a morte universal continua sendo uma coisa aterradora...”

“Como já disse”, continuou Challenger, “uma morte geral deveria ser muito menos terrível do que uma isolada.”

“E o que acontece na guerra”, disse Lord John. “Se houver um só homem deitado no chão com o peito estraçalhado, ficamos comovidos. Mas se houver dez mil, como tive ocasião de ver no Sudão, ficamos completamente insensíveis a qualquer sentimento de pena. E aí, na hora de escrevermos a história, a vida individual de um homem é inteiramente irrelevante. Quando milhões de homens morrem de uma só vez, como aconteceu hoje, não temos o direito de nos preocupar com a nossa pequena existência...”

“Gostaria que nós também já estivéssemos no além”, disse a senhora, um tanto chorosa. “Oh, George, estou tão amedrontada!”

“Acredito, ao contrário, que será a mais corajosa entre nós, minha querida, quando chegar a hora. Tenho sido um marido rude, mas você não pode esquecer que G.E. Challenger é deste jeito mesmo e não pode mudar. Afinal de contas, gostaria de ter tido um marido diferente?”

“De jeito nenhum, querido!”, ela disse, e jogou os braços em volta do pescoço taurino do esposo.

Nós três chegamos perto da janela e ficamos atônitos com o espetáculo que sedescortinava diante dos nossos olhos. Já era noite e o mundo morto mostrava-se indefinido, nas sombras. Para o sul, no entanto, aparecia no horizonte uma longa faixa de um vermelho escarlate que palpitava em chamas.”

“Deve ser Lewes”, arrisquei.

“É grande demais”, disse Challenger. “Deve ser Brighton que está sendo devorada pelo fogo.”

Havia chamejantes pontos vermelhos em vários lugares, e o montão de escombros na linha férrea ainda estava em brasas, mas todas estas luzes pareciam apenas pontinhos em comparação com o imenso incêndio que avistávamos ao longe.

Que reportagem fantástica poderia ter sido para o meu jornal! Será que algum outro jornalista no mundo já tivera uma oportunidade daquelas? E sem chance de aproveitá-la! A notícia de todas as notícias estava ali, ao alcance da mão, mas faltava o público para apreciá-la!

E aí, de repente, o velho instinto jornalístico despertou dentro de mim. Se os cientistas meus amigos julgavam-se capazes de continuar o seu trabalho mental até o fim, porque então deveria eu esquecer minha profissão? Nenhum olho humano jamais leria os meus papéis, mas de qualquer forma eu precisava encontrar um jeito de passar aquela noite que mal começara, ainda mais porque percebia que não conseguiria dormir. As anotações iriam ajudar-me a passar o tempo ocupando a minha mente.

É por isto que agora estou aqui com o meu caderninho cheio de rabiscos: anotações escritas de qualquer jeito, em cima dos joelhos e na escassa luz da nossa única lâmpada elétrica. Se porventura eu tivesse algum dom literário, agora estas notas seriam dignas da hora em que foram escritas. Assim como são, podem de qualquer forma transmitir aos outros as angustiantes emoções e ansiedades daquela noite pavorosa...