A Nuvem Envenenada

Arthur Conan Doyle · Capítulo 5 de 7

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A Nuvem Envenenada

5- O Mundo Morto

Lembro que nos deixamos cair nas cadeiras enquanto a brisa suave nos acariciava o rosto e agitava as cortinas da janela. Não sei dizer quanto tempo ficamos sentados pois nunca chegamos a algum tipo de concordância, mesmo em seguida, quanto a este ponto.

Estávamos quase inconscientes, como que abobalhados. A nossa coragem nos preparara a enfrentar a morte, mas este novo destino aterrador–a sina de vivermos depois do desaparecimento de toda a raça à qual pertencíamos–abalou-nos de forma insuportável deixando-nos num estado de profunda prostração.

É claro que pouco a pouco os nossos mecanismos vitais recomeçaram a funcionar, fazendo com que as idéias voltassem a circular na nossa mente. Percebemos com cruel lucidez a relação entre presente, passado e futuro: a vida passada e aquela que esperava por nós.

Num silêncio terrível, ficamos olhando uns para os outros, lendo no rosto dos companheiros a mesma expressão interrogativa. Em lugar da alegria que se poderia esperar de homens tão milagrosamente salvos da morte iminente, demonstrávamos o aturdimento de quem se acha perdido nas trevas. Tudo aquilo que tínhamos amado no mundo havia sido varrido da terra e agora estávamos como que numa ilha deserta, sem amigos, sem esperança, sem aspirações! Continuaríamos andando por mais alguns anos entre os túmulos da raça humana, até nós mesmos chegarmos ao nosso fim...

“E horrível, George, é um verdadeiro pavor!”, murmurou a senhora, entre os soluços. “Teria sido melhor morrermos com os outros. Por que nos salvou? Sinto-me como se estivéssemos mortos e todos os demais continuassem vivos...”

O rosto de Challenger parecia concentrar-se em profundas meditações, enquanto seus dedos peludos apertavam a mão da mulher. Eu já notara que, nos momentos difíceis, ela esticava o braço para o marido como uma criança amedrontada que busca a proteção da mãe.

“Sem ser fatalista no sentido mais estrito da palavra”, disse Challenger, “sempre achei que a verdadeira sabedoria consiste em dobrar-se sem rebeldia diante dos acontecimentos.”

Falou lentamente, e havia uma vibração de sentimentos na sua voz profunda e sonora.

“Mas eu não costumo dobrar-me!”, disse Summerlee, com a birrenta firmeza que lhe era peculiar.

“Não creio que seja o caso de quebrarmos a cabeça para saber se esta aceitação passiva do destino vale ou não vale a pena”, observou Lord John. “Seja qual for a atitude que cada um queira assumir, não há como evitarmos os fatos. Para que discutir, então? Não me lembro de alguém ter-nos pedido licença, antes de a catástrofe acontecer, e acredito que agora mesmo ninguém irá perguntar a nossa opinião. Seja o que for que pensemos a respeito, portanto, não vai fazer diferença alguma.”

“Não concordo: acho que, ao contrário, poderá ser a diferença entre felicidade e desespero”, disse Challenger com ar meio ausente, continuando a acariciar a mão da mulher. “Podemos nos deixar levar pela catástrofe com a paz na alma e no coração, ou então resistir só conseguindo sofrimento e infelicidade. Aquilo que aconteceu está muito além das nossas forças, e a única coisa que podemos fazer é aceitar a situação sem pensarmos mais no assunto...”

“Mas o que faremos no mundo, sozinhos?”, eu disse, quase dirigindo esta desesperada pergunta ao céu azul e vazio. “O que irei eu fazer, por exemplo? Uma vez que não há mais jornais, a minha carreira acabou...”

“E uma vez que não há mais feras nem soldados, a minha carreira de caçador e militar também chegou ao fim”, disse Lord John.

“Isto também vale para mim, já que não há mais estudantes”, observou Summerlee.

“Tenho o meu marido e a minha casa, e portanto, posso agradecer ao céu por estar viva”, disse a senhora.

“E a minha carreira tampouco acabou”, acrescentou Challenger, “pois a ciência não morreu, e o próprio desastre que nos cerca proporciona um enorme campo de estudo e pesquisas.”

Nesta altura já tinha escancarado todas as janelas e nós estávamos cabisbaixos diante de um mundo que se mostrava imóvel e silencioso.

“Vamos fazer uns cálculos”, disse Challenger. “Eram mais ou menos as três da tarde de ontem quando o mundo entrou na nuvem e ficou inteiramente submerso. Já são nove horas. Agora, o que precisamos saber é quando ficamos fora de perigo.”

“O ar já estava péssimo ao raiar do sol”, comentei.

“Não, era mais tarde”, disse a senhora Challenger. “Já deviam ser quase oito horas quando senti a minha garganta fechada como acontecera no começo.”

“Podemos então supor que o perigo passou depois das oito. O mundo ficou mergulhado na nuvem envenenada por dezessete horas. Durante este tempo, o Grande Jardineiro levou adiante a sua obra de limpeza. Não seria possível, no entanto, que outras pessoas, além de nós cinco, continuem vivas?”

“Era nisto mesmo que eu estava pensando”, disse Lord John. “Não vejo por que deveríamos ser os únicos sobreviventes.”

“É absurdo pensar que outras pessoas ainda estejam vivas”, disse Summerlee com convicção. “Todos nós constatamos que o veneno era tão mortal que nem mesmo um homem forte como um touro e totalmente desprovido de nervos, como o nosso Malone, poderia resistir-lhe por mais de um minuto. Como seria possível, então, que alguém resistisse por várias horas?”

“A não ser que este alguém tenha previsto o desastre e tomado as devidas providências exatamente como o nosso velho amigo Challenger.”

“Parece-me sobremodo improvável”, disse Challenger, puxando pensativamente a barba. “O conjunto de observação, intuição e imaginação profética que me permitiu prever o perigo é coisa tão rara que dificilmente poderia acontecer duas vezes na mesma geração”.

“Acredita, então, que todos de fato morreram?”

“Não vejo como duvidar disto. Não podemos esquecer, no entanto, que o veneno funcionava de baixo para cima e que provavelmente foi menos virulento nas camadas mais altas da atmosfera. É estranho que seja assim, mas este detalhe representa um excelente campo de estudo para as nossas pesquisas futuras. Seja como for, podemos imaginar que se alguém fosse porventura procurar sobreviventes, teria mais oportunidade de encontrá-los em algum perdido vilarejo do Tibete ou dos Alpes, a alguns milhares de metros acima do nível do mar.”

“Mas como não dispomos de trens ou navios para averiguarmos pessoalmente, tanto faz imaginar que há sobreviventes na lua”, disse Lord John. “O que realmente me preocupa é saber se o perigo de fato passou, ou se estamos apenas no olho do furacão...”

Summerlee virou a cabeça para dar uma olhada panorâmica no horizonte.

“O tempo está ótimo”, disse. “Mas afinal, ontem também estava maravilhoso. Por mim, eu não juraria que o perigo passou.”

Challenger meneou a cabeça em sinal de desaprovação.

“Estão caindo no fatalismo de sempre!”, disse. “Se o mundo já passou por um desastre como este, o que não é nem um pouco impossível, isto certamente aconteceu em época muito distante, o que nos permite esperar que a repetição só dar-se-á num futuro extremamente remoto.”

“Tudo bem”, disse Lord John, “mas quando acontece um terremoto, é muito provável que outro tremor esteja a caminho. Acho que o melhor a fazer seria darmos uma saída e respirarmos um pouco de ar puro enquanto a situação permite. Uma vez que o oxigênio acabou, tanto faz sermos pegos ao ar livre.”

Nem dá para contar a estranha letargia que tomara conta de nós; parecia uma espécie de reação às terríveis emoções das últimas vinte e quatro horas. Era um letargo ao mesmo tempo físico e mental, e nada conseguia dominá-lo. O próprio Challenger tivera de sujeitar-se, e estava agora sentado com a cabeça entre as mãos. Em certa altura, Lord John e eu seguramos os seus braços, forçando-o a ficar de pé. Isto nos proporcionou uns resmungos que lembravam um mastim de mau humor.

Mas quais seriam os nossos primeiros passos? Como iríamos enfrentar um mundo transformado em túmulo? Claro, as nossas necessidades físicas, as comodidades e até o luxo não representavam um problema, pois podíamos contar com todos os depósitos de mantimentos, com todos os armazéns de tecidos, e com todos os tesouros artísticos do planeta. Mas quais seriam as nossas providências imediatas? Quais seriam as primeiras tarefas com que iríamos ocupar o nosso tempo?

Descemos para a cozinha e colocamos as duas criadas nas respectivas camas. Pareciam ter morrido sem dor, uma na cadeira perto do fogo e a outra no chão. Aí fomos buscar o coitado do Agostinho no quintal. Os seus músculos tinham ficado extremamente rígidos e a boca estava torcida no espasmo de um sorriso sardônico.

Era uma particularidade que podia ser vista em todos os que haviam morrido por causa do veneno. Mais tarde, por onde passássemos, sempre encontrávamos as mesmas caretas que pareciam troçar da nossa pavorosa condição e escarnecer silenciosamente os infelizes sobreviventes da raça humana.

“A propósito”, disse Lord John que ficara num canto da sala de jantar enquanto nós fazíamos um lanche, “não sei o que vocês tencionam fazer, mas eu, por mim, não tenho a menor idéia de ficar aqui sentado sem fazer coisa alguma.”

“Talvez”, respondeu Challenger, “o senhor tenha a bondade de sugerir alguma coisa que considere mais oportuna.”

“Precisamos sair para ver exatamente o que aconteceu.”

“É o que eu mesmo ia propor.”

“Mas não nesta pequena aldeia. Já podemos ver, pela janela, tudo aquilo que o lugarejo tem a mostrar.”

“E aonde deveríamos ir, então?”

“Para Londres.”

“Ótima idéia!”, resmungou Summerlee. “Uma linda caminhada de quase setenta quilômetros que certamente o senhor pode agüentar; mas, com aquelas perninhas curtas, não estou lá muito certo quanto a Challenger, embora não tenha a menor dúvida no que me diz respeito.”

Challenger não gostou nem um pouco.

“Acho melhor o senhor se limitar a cuidar dos seus próprios negócios, pois até mesmo no que diz respeito às pernas, não me parece de fato que alguém possa invejá-lo.”

“Não tinha intenção de ofendê-lo, meu caro Challenger”, disse o nosso incorrigível amigo. “Ninguém pode culpá-lo pelo físico que tem. Uma vez que a natureza brindou-o com um corpo tão atarracado e disforme, era fatal que as suas pernas fossem curtinhas.”

Challenger estava indignado demais para conseguir responder. Só conseguia resmungar bufando como uma locomotiva. E Lord John apressou-se a entrar na conversa antes que a disputa se tomasse mais violenta.

“Ouvi falar em caminhada; mas quem disse que deveríamos ir a pé?”, perguntou.

“O senhor está propondo uma viagem de trem?”, insinuou Challenger, ironicamente.

“Não estão esquecendo o automóvel? Por que não poderíamos usa-lo?.”

“Não sou grande coisa, como motorista”, disse Challenger alisando a barba. “Mas o senhor está certo: a inteligência humana, nas suas manifestações mais elevadas, é suficientemente flexível para sair-se bem em qualquer empreendimento. Ótima idéia, Lord John. Eu mesmo os levarei para Londres.”

“Acho melhor nem pensar numa coisa dessas!”, insurgiu Summerlee com tom decidido.

“Não, George, não faça isto”, disse a mulher. “Já tentou dirigir uma vez e, como bem sabe, acabou batendo na porta da garagem.”

“Foi uma momentânea falta de concentração”, resmungou Challenger. “Já decidi: levarei vocês todos para Londres de automóvel.”

Quem salvou a situação foi Lord John.

“Que carro é?”, perguntou.

“Um vinte cavalos.”

“Ótimo! Costumava guiar um há alguns anos”, disse. “Ora essa”, comentou em seguida, “nunca poderia imaginar que iria levar toda a humanidade num só automóvel! Se a lembrança não me falha, há justamente cinco lugares. Aprontem as suas coisas e, às dez em ponto, estarei esperando por vocês diante da casa.”

E com efeito, na hora marcada, o veículo saiu pontualmente do pátio com Lord John na direção. Sentei-me ao lado dele, enquanto a senhora ficava entre os dois homens no assento de trás. Lord John engatou então a,marcha, passou rapidamente da primeira para a quarta, e nós começamos a corrida mais estranha que o mundo já vira desde que o primeiro homem pisara na terra.

Nem dá para descrever o viço da natureza naquela manhã de agosto, o frescor do ar matinal, a glória do sol de verão, o céu sem sombra de nuvens, o magnífico verde dos bosques do Sussex.

Ao admirarmos aquele estupendo panorama, qualquer pensamento acerca da imensa catástrofe teria desaparecido da nossa mente, não fosse por um sinistro detalhe que marcava soturnamente toda a aterradora realidade: o solene silêncio que reinava por toda parte. Até uma gleba solitária, por mais silenciosa que seja, sempre ressoa de sons perceptíveis por quem nela mora. O canto dos pássaros, os incansáveis ruídos dos insetos, ecos de longínquas cantigas, o lento tilintar dos sinos dos animais no pasto, latidos de cães ao longe, os chiados e os rangidos de carros e trens, mesmo confusos numa abafada distância, constituem no conjunto uma nota que não passa despercebida ao mais desatento dos ouvidos. Mas até esta nota faltava. O silêncio mortal era impressionante. Era um silêncio tão solene e tão pavoroso que o barulho do nosso carro parecia uma acintosa intromissão, uma indecente falta de respeito pela imensa mudez que envolvia as ruínas da humanidade.

Aí começaram as imagens da tragédia. Grupos de rostos contorcidos pela morte não paravam de aparecer diante dos nossos olhos. Aquelas caretas deformadas deixavam em nós uma impressão tão marcante que até hoje fico perturbado só de lembrar a babá com as duas crianças, ou o velho pangaré duro como pedra entre as estacas da carruagem, o cocheiro imóvel no assento, e o jovem dentro da viatura com a mão ainda apoiada na porta entreaberta, na tentativa de fugir. Mais adiante havia um grupo de seis lavradores, com os corpos amontoados e os olhos, ainda virados para a beleza do céu.

Revejo isto tudo como que numa foto. Mas então, por um providencial dom da natureza, os nossos nervos superexcitados pareceram acostumar-se à horrível situação. A enormidade da catástrofe tornou-nos frios diante dos particulares. As pessoas transformavam-se em grupos, os grupos em multidões, e as multidões fundiam-se num fenômeno universal alheio aos detalhes individuais. Só de vez em quando algum acidente particularmente brutal ou grotesco ainda conseguia chamar a nossa atenção fazendo voltar a nossa mente à realidade dos fatos.

O que mais impressionava era o destino que coubera às crianças: parecia-nos uma injustiça intolerável. É provável que os nossos olhos tenham chorado (e certamente chorou a senhora Challenger) quando passamos perto de uma escola do interior e vimos toda uma fileira de pequenas figuras espalhadas sem vida ao longo da estrada. Os alunos deviam ter sido liberados pelos mestres apavorados, e já estavam correndo para casa quando o veneno apoderou-se improvisamente deles.

Muitos eram os que haviam morrido enquanto se debruçavam nas janelas escancaradas das casas. Numa aldeia que atravessamos, não havia uma única janela na qual não se visse um rosto imóvel e retorcido. No último instante a falta de ar, aquela necessidade de oxigênio que nós sozinhos havíamos conseguido satisfazer, fizera com que todos corressem às janelas. As calçadas também estavam apinhadas de homens e mulheres sem chapéu, que haviam saído correndo das suas casas.

Foi realmente uma sorte descobrirmos em Lord John um motorista competente, pois não era nada fácil abrir caminho entre aquele amontoado de cadáveres. Ao atravessarmos aldeias e lugarejos, só conseguíamos prosseguir a passo; lembro-me até que uma vez, perto de uma escola, o carro teve de parar para que tirássemos do caminho os corpos que entulhavam a rua.

Em todo este sinistro panorama de morte que se descortinava nas estradas do Sussex e do Kent, algumas imagens permanecem particularmente vivas na minha memória. Lembro-me, entre outras coisas, de um grande automóvel parado diante do hotel de uma aldeia, que certamente havia trazido o que parecia ser uma turma de alegres veranistas.

Dentro do carro havia três mulheres graciosamente vestidas, todas jovens e bonitas, e uma tinha no colo um cachorrinho miniatura. Com as três mulheres, havia um homem já de meia idade e um jovem de traços aristocráticos, ainda de monóculo e de cigarro apagado entre os dedos elegantemente enluvados.

Sem dúvida a morte chegara de repente, fixando-os como que num instantâneo. Se o homem mais velho não tivesse, na última hora, rasgado o colarinho para respirar, quase poderia parecer que todos eles estavam dormindo.

De um lado, vía-se um criado no ato de aproximar-se do estribo do carro. Do outro, dois mendigos, um homem e uma mulher. O homem ainda estava de braço esticado, como quem está a pedir esmola. Por um momento fugaz, o jovem aristocrata, o criado, as mulheres, o mendigo e o cachorrinho se haviam juntado num único quadro da vida, num idêntico princípio de dissolução!

Lembro outra cena singular, quando já faltavam poucas milhas para chegarmos a Londres. Em certa altura há um grande convento cercado por uma ampla clareira verde. Nesta clareira podia-se ver um grande número de alunos, todos ajoelhados rezando. Na frente dos meninos havia uma fileira de freiras e, no topo do aclive, bem diante de todos, aparecia uma figura solitária que achamos ser a superiora. Ao contrário das pessoas vistas no carro, todos estes infelizes deviam de algum modo ter pressentido o perigo e haviam escolhido uma linda morte, todos juntos: professoras e alunos, como que reunidos para uma última aula.

A minha mente continua abalada com as impressões daquela terrível viagem, e mal consigo encontrar termos apropriados para relatar eficazmente o que então senti. A dificuldade de explicar as sensações leva-me a pensar que talvez seja melhor limitar-me apenas à frieza dos fatos.

Challenger e Summerlee também ficaram abalados com aquilo que viam, e com efeito nenhum comentário deles podia ser ouvido entre os cometidos soluços da velha senhora. Quanto a Lord John, estava ocupado demais na difícil tarefa de evitar os obstáculos para ter tempo ou vontade de conversar. Ficava repetindo o tempo todo a mesma frase, e com tamanha insistência que até hoje me lembro.“Um desastre e tanto! Não é?”.

Era o que não se cansava de dizer diante de qualquer nova visão de morte ou destruição.“Um desastre e tanto! Não é?”, repetiu ao entrarmos no imenso cemitério em que Londres se transformara.

Foi justamente quando esta exclamação ainda ecoava no ar que todos nós quase ficamos petrificados. Na janela de uma humilde casa de esquina apareceu um lenço que esvoaçava na ponta de um longo e fino braço humano. Nenhum dos muitos sinais da morte repentina tinha até então provocado em nós a mesma comoção despertada por aquele inesperado sinal de vida! Lord John parou o carro e logo a seguir, estávamos todos correndo pela porta aberta da casa até o segundo andar, de onde aparecera o estranho sinal.

Uma mulher muito velha estava sentada numa poltrona perto da janela aberta e, ao seu lado, havia outra poltrona com um botijão de oxigênio, menor mas do mesmo tipo daqueles que salvaram a nossa vida. A mulher virou para nós o rosto chupado, encimado por um grande par de óculos, no exato momento em que entrávamos no aposento.

“Achei que tinha ficado sozinha, aqui, para sempre”, disse, “porque sou paralítica e não posso mexer-me...”

“Acontece, minha cara senhora”, disse Challenger, “que só passamos por aqui por acaso...”

“Preciso fazer-lhe uma pergunta extremamente importante”, prosseguiu a mulher, “e espero, senhores, que tenham a bondade de serem sinceros comigo. Como é que isto tudo irá afetar a cotação das ações das Ferrovias do Nordeste?”

Teríamos certamente caído na gargalhada se a velhota não demonstrasse a maior aflição, enquanto esperava ansiosamente a resposta. A senhora, que se chamava Burston, era uma viúva que tinha como seu único sustento os rendimentos de uma pequena quantidade de títulos da Ferrovia. A sua vida já se acostumara a melhorar ou piorar segundo os dividendos daquelas ações, e agora ela simplesmente não conseguia conceber uma existência de alguma forma desligada do desempenho daqueles papéis no mercado. Tentamos inutilmente explicar-lhe que já podia, se quisesse, dispor de todo o dinheiro do mundo e que, mesmo assim, isto de nada lhe adiantaria. A sua mente de anciã não sabia adaptar-se à nova situação, e começou a chorar amargamente pensando no destino das suas ações.

“Eram toda a minha riqueza”, soluçava, “e agora que se foram, não tenho mais razão de viver!”

Enquanto choramingava as suas lamúrias, conseguimos entender como aquela velha planta pudera sobreviver ao passo que a floresta inteira perecera. Além de paralítica, a velha também sofria de asma. O médico prescrevera-lhe oxigênio e, por isto, havia um botijão do gás no seu quarto para a hora da crise. Ela simplesmente inalara uma certa quantidade de oxigênio como sempre fazia quando tinha alguma dificuldade respiratória. Como a coisa aliviara o seu estado, continuara a aspirar lentamente o gás durante a noite inteira. No fim, adormecera, e só acordara ao ouvir o barulho do nosso carro.

Uma vez que não podíamos levá-la conosco, fizemos o possível para que tivesse por perto tudo aquilo de que precisaria para viver e prometemos que iríamos voltar no máximo dentro de uns dois dias. Quando a deixamos, estava mais uma vez chorando devido ao destino das suas ações!

Quanto mais nos aproximávamos do Tâmisa, mais difícil se tomava o nosso avanço entre obstáculos cada vez mais estorvantes. Só com muita paciência e entre mil dificuldades conseguimos seguir adiante rumo à Ponte de Londres.

Nas proximidades da ponte, o número de cadáveres e de veículos de todo tipo que entulhavam o caminho e formavam pilhas insuperáveis tomou-se tão formidável que simplesmente desistimos de Prosseguir. Um navio estava em chamas num dos cais que margeiam a ponte, e toda a área ressoava no acre crepitar daquele incêndio no rio. Via-se uma espessa coluna de fumaça perto do Palácio do Parlamento, mas de onde estávamos não dava para distinguir ao certo o local do incêndio.

“Não sei se acontece o mesmo com vocês”, disse Lord John enquanto parava o carro, “mas a cidade deixa-me muito mais impressionado do que o campo. Morta deste jeito, Londres começa a deixar-me nervoso. Aconselharia uma rápida olhada de reconhecimento, para voltarmos logo em seguida a Rotherfield.”

“Confesso que eu também não vejo razão de ficarmos aqui”, disse o professor Summerlee.

“Mesmo assim”, disse Challenger, e a sua voz trovejante ecoou estranhamente no silêncio irreal, “parece-me um tanto impossível que, de sete milhões de habitantes, só tenha sobrevivido à catástrofe aquela única mulher, uma velha, devido às condições especiais da sua saúde.”

“Mas admitindo que haja mais sobreviventes, como acha que poderíamos encontrá-los?”, perguntou a senhora. “A meu ver, acho quer só poderemos voltar para casa depois de termos certeza de que estão todos mortos...”

Saímos do carro que deixamos junto da calçada, avançamos com alguma dificuldade pela entulhada King William Street e entramos nos escritórios de uma grande firma de seguros.

Era um prédio de esquina, e optamos por ele uma vez que dali podíamos dominar a cidade em todas as direções. Para chegarmos às escadas tivemos de atravessar uma sala em que ainda havia oito funcionários sentados em volta de uma grande mesa.

Lá em cima, paramos diante de uma porta envidraçada que dava para um balcão. Dali podemos dar uma olhada nas apinhadas ruas da City que se afastavam em todas as direções, e na rua logo abaixo que parecia preta devido ao grande número de carros parados um ao lado do outro.

Todos ou quase todos os mortos caídos na rua estavam virados para a periferia da cidade, e isto demonstrava que os apavorados londrinos tinham feito uma extrema tentativa para se juntarem às famílias nos subúrbios ou no campo.

Entre os numerosos carros de praça podiam-se ver os reluzentes automóveis dos ricaços, parados e impotentes no engarrafamento. Podíamos ver um carrão destes bem embaixo de nós, com o dono, um velho balofo, que debruçava quase a metade do corpo fora da viatura. A sua mão gorducha reluzia de diamantes, e ainda estava esticada para o motorista quase ordenando-lhe um último esforço para sair dali.

No meio daquele tumultuado engarrafamento destacavam-se dez ou doze ônibus de dois andares, parecendo ilhotas, com os passageiros caídos uns em cima dos outros como brinquedos no quarto de uma criança.

Apoiado num lampião, ao longo da calçada, um robusto policeman tinha ficado em pé, numa postura tão natural que quase não dava para acreditar que estivesse morto. Ao seu lado, com toda a sua pilha de jornais espalhada em volta, podia-se ver um pequeno jornaleiro.

O pequeno furgão de algum jornal ainda mostrava os cartazes amarelos com grandes letras pretas com que anunciava as últimas notícias: “Acirrada disputa na Câmara dos Lordes. A contenda permanece sem solução”. Evidentemente as escritas tinham a ver com a primeira edição, pois havia outras dizendo: “Estamos chegando ao fim?A advertência de um grande cientista” Outra manchete dizia: “Será que Challenger está certo? Avisos proféticos”.

Challenger mostrou aqueles dizeres à mulher com ar de triunfo. Para a sua complexa personalidade, o fato de Londres ter morrido com o seu nome e as suas palavras na mente de todos era um motivo de orgulho e de satisfação. Os seus sentimentos eram tão patentes que provocaram um comentário irônico por parte do colega.

“Até que enfim estão levando-o a sério, Challenger!”, observou Summerlee.

“É o que parece”, respondeu complacente. “Pois é–acrescentou então, ainda observando o espetáculo das ruas silenciosas e cheias de morte–não vejo razão de ficarmos mais tempo em Londres. Proponho voltar imediatamente a Rotherfield, para escolhermos a melhor maneira de aproveitar os anos que nos restam.”

Só quero relatar mais uma cena que ficou gravada na minha memória enquanto estávamos nos afastando da cidade morta. Foi a fugaz visão que tivemos do interior da velha igreja de Holy Mary, bem em frente de onde tínhamos deixado o carro.

Mal conseguindo passar entre as pessoas deitadas na escadaria, empurramos o portão do templo e entramos. O espetáculo era impressionante. A igreja estava apinhada de fiéis ajoelhados, todos numa atitude de súplica. Na pavorosa hora final, tendo de encarar repentinamente as realidades da vida, aquelas terríveis realidades que nos dominam mesmo quando parecemos esquecê-las, a população entrara correndo nas igrejas da velha City, que há várias gerações já não viam, tamanha multidão. Ombro a ombro, como fugitivos, todos haviam ficado de joelhos e, no tumulto da hora, muitos até haviam-se esquecido de tirar o chapéu.

Acima da congregação, no púlpito, havia um jovem de roupa esporte, que evidentemente discursava para aquela multidão quando todos foram surpreendidos pelo mesmo destino. E agora o jovem estava lá, de cabeça e braços caídos fora do púlpito.

A escura igreja empoeirada, com todos aqueles rostos contraídos na morte, tomava o silencioso espetáculo um verdadeiro pesadelo.

Demos mais alguns passos na ponta dos pés, tentando evitar qualquer barulho desnecessário.

Aí eu tive uma idéia. Num canto da igreja, perto da entrada e atrás da antiga pia batismal, havia um escuro cubículo com as cordas dos sinos. Por que não lançar nos céus de Londres uma mensagem? As badaladas poderiam avisar da nossa presença quem porventura ainda estivesse vivo. Saí correndo e agarrei animadamente uma das cordas: fiquei surpreso ao constatar que movimentar o sino era muito mais difícil do que esperava. Lord John estava ao meu lado.

“Por Júpiter, meu rapaz!”, disse tirando o casaco. “Ótima idéia! Vamos tentar juntos e conseguiremos tocar o sino.”

Mas era tão pesado que nem mesmo juntos conseguimos movê-lo. Só quando Challenger e Summerlee também se penduraram na corda ouvimos a voz do monstro de bronze ressoar acima das nossas cabeças. A nossa mensagem de esperança e de afeto por qualquer sobrevivente ecoou por toda a cidade morta!

Aquele solene chamado metálico fazia bem aos nossos corações, e continuamos a tocar o sino com cada vez mais animação. Cada vez que a corda nos puxava, levantava-nos cinqüenta ou sessenta centímetros do chão. Challenger, que era o mais baixo, dedicava-se à tarefa com toda a sua força, subindo e descendo como um gigantesco sapo.

Teria sido ótimo se um artista tivesse estado presente naquele momento para retratar os quatro companheiros, os amigos que já tinham enfrentado tantas peripécias juntos e que agora o destino decidira reunir para mais esta extraordinária aventura.

Labutamos por mais de meia hora, até suarmos em bicas e ficarmos com os músculos doloridos. Aí saímos sob os arcos da igreja, olhando para as ruelas silenciosas. Nada se mexia, nenhuma voz respondia ao nosso chamado.

“Perda de tempo!”, exclamei, “não sobrou ninguém ...”

“Nada mais podemos fazer!”, disse a senhora Challenger. “Em nome de Deus, George, vamos voltar logo a Rotherfield! Se tiver de ficar mais uma hora nesta pavorosa cidade, vou ficar louca...”

Voltamos para o carro sem mais comentários. Lord John fez manobra e retomou o caminho do sul.

Para nós, o assunto estava encerrado. Nem podíamos imaginar o estranho e novo capítulo que estava para começar.