A Nuvem Envenenada
4- O Diário da Agonia
Como soa estranho este título no começo da página ainda branca do meu caderninho! E ainda mais estranho é que este relato acabe sendo escrito justamente por mim, Edward Malone, que há apenas doze horas estava tranqüilamente em casa, sem nem de longe imaginar os fatos incríveis que iria testemunhar no decorrer do dia!
A minha memória volta à seqüência dos acontecimentos, à conversa com Mc Ardle, ao primeiro sinal de alarme de Challenger no Times, à atribulada viagem de trem, ao simpático almoço, ao começo da catástrofe, até este momento em que estamos sozinhos num planeta vazio. O nosso fado está tão certo que estas linhas só encontram justificação naquilo que posso chamar de hábito profissional, uma vez que ninguém irá lê-las: são como as palavras de alguém que já morreu, pois falta muito pouco para que eu também me perca nas sombras junto com os meus amigos.
Compreendo agora toda a verdade que havia nas palavras de Challenger quando dizia que a verdadeira tragédia seria o fato de sobrevivermos depois de todas as coisas nobres, boas e belas do mundo terem desaparecido. Mas não há possibilidade disto acontecer. O nosso segundo botijão de oxigênio já está quase no fim: podemos calcular a vida que nos resta com precisão quase matemática.
Ficamos mais de quinze minutos ouvindo uma palestra de Challenger: estava tão animado e falava com tanta veemência que quase parecia estar entretendo um numeroso público em alguma grande sala londrina. Os seus ouvintes, no entanto, eram deveras estranhos: a mulher dele, sempre pronta a aclamá-lo e totalmente ignara do sentido das frases que ouvia; Summerlee, sentado na sombra, disposto a criticar e a insurgir ruidosamente, mas honestamente interessado; Lord John, quase escondido num canto e, sem dúvida, enfadado; e finalmente eu, que estava perto da janela e olhava a cena com uma atenção digamos assim distraídas, como que assistindo ao desenrolar-se de um sonho ou de alguma coisa na qual não estivesse diretamente envolvido.
Challenger está sentado sob a lâmpada que ilumina o microscópio que foi buscar no escritório. Parece que nestes últimos tempos tem estudado profundamente as formas mais elementares de vida, e agora está muito contente porque o microscópio demonstra que uma ameba, colocada sob a lente no dia anterior, ainda está viva.
“Os senhores mesmos podem ver”, diz na maior animação. “Summerlee, faça o favor de vir aqui, para ver com os seus próprios olhos. Malone, quer confirmar o que estou dizendo? Aqui, à direita, podem ver claramente uma ameba se mexendo vivamente através do diafragma. Controlem e verão que não estou mentindo...”
Summerlee olha e se declara convencido. O mesmo faço eu, depois de conseguir distinguir uma minúscula criatura. Quanto a Lord John, acredita sem precisar de provas.
“Não vou quebrar a minha cabeça só para saber se o bicho está morto ou vivo”, diz. “Por que deveria estar interessado se nem mesmo tenho o prazer de conhecê-lo de vista? Acho que ele não se preocupa nem um pouco com as nossas condições de saúde...”
Rio com a piadinha, mas Challenger me fulmina com uma olhada gélida; e garanto que não é nada fácil agüentar aquele olhar.
“A leviandade das pessoas instruídas só pela metade é mais prejudicial, para a ciência, que a obtusidade dos ignorantes”, sentencia. “Se Lord John Roxton tiver a bondade...”
“Meu querido George, não seja tão mordaz!”, diz a mulher afagando com a mão a cabeça do marido, curvo no microscópio. “Que diferença pode fazer se a ameba está viva ou morta?”
“Uma diferença enorme!”, resmunga Challenger.
“Então explique-se!”, diz Lord John, quase em tom de pilhéria. “Este assunto é tão bom quanto qualquer outro. Se o senhor achar que fui indelicado com esse insignificante bichinho e que ofendi a sua sensibilidade, estou pronto a pedir desculpas...”
Quanto a mim”, observa Summerlee, “não consigo entender por que dá tanta importância ao fato dessa criatura ainda estar viva. Ela se encontra na nossa mesma atmosfera e é óbvio, portanto, que não tenha sido afetada pelo veneno. Se ao contrário tivesse ficado fora desta sala, teria morrido como todo o resto da vida animal.”
“A sua observação, meu bom Summerlee”, diz Challenger fazendo um incrível esforço para dominar-se (ah, se eu pudesse desenhar a arrogância daquele rosto prepotente, no vívido reflexo circular do espelho, do microscópio!), “mostra que não está entendendo todas as facetas desta situação. A ameba foi colocada ali ontem, e fechada hermeticamente, e, portanto o nosso oxigênio não pode alcançá-la. O éter, por sua vez, certamente alcançou-a da mesma forma que alcançou qualquer outro ponto do universo, e apesar disto o bichinho, como vocês o chamam, resistiu ao veneno. Por conseguinte, podemos dizer que qualquer ameba fora desta sala, em vez de morrer como o senhor erroneamente afirmou, sobreviveu à catástrofe.”
“Que seja! Mas continuo sem a menor disposição de dar pulos de alegria por isto! “, diz Lord John. “Não interessa.”
“E claro que interessa, pois quer dizer que o mundo não está morto. Se o senhor tivesse algum pendor pela ciência, poderia partir deste pequeno fato e vislumbrar num longínquo futuro–daqui. a alguns milhões de anos, que são um piscar de olhos no decorrer das eras–o mundo inteiro ressurgir, com a vida animal e humana brotando desta minúscula semente.
Já tiveram a oportunidade de ver uma pradaria em chamas? Depois da passagem do fogo, qualquer sinal de grama e de plantas desaparece do solo, deixando apenas um deserto enegrecido. Isto poderia sugerir que o lugar iria ficar eternamente daquele jeito, mas as raízes ainda estão lá e, se vocês passarem por lá depois de alguns anos, já não saberiam reconhecer o local do incêndio. Pois bem, nesta minúscula criatura estão as raízes do futuro mundo animal; com o passar do tempo, com o seu desenvolvimento e a sua evolução, esta ameba cancelará qualquer sinal da crise excepcional da qual somos testemunhas.”
“Muito interessante”, diz Lord John aproximando-se e dando uma espiada no microscópio. “Nunca podia pensar que este bichinho fosse digno de tanto respeito!”
“O ponto mais escuro é o núcleo”, comenta Challenger com o ar de um mestre-escola que ensina o bê-á-bá.
“Pensando melhor, não há motivo de ficarmos tristes”, diz sorrindo Lord John. “Deixamos alguma coisa viva na terra...”
“Challenger, o senhor parece acreditar piamente”, observa Summerlee, “que o mundo foi criado especificamente para gerar e alimentar a vida humana...”
“E daí? Alguma objeção?”, pergunta Challenger, irritado com esta nova contestação.
“Às vezes chego a pensar que somente o conceito exagerado que o homem tem de si mesmo faz com que ele imagine o mundo como algo feito para ser unicamente o palco das suas ações.”
“Não podemos ser dogmáticos na hora de falarmos numa coisa dessas mas, pelo menos, e sem aquilo que o senhor chamou de conceito exagerado, podemos afirmar com toda certeza que nós representamos a parte mais alta da natureza...”
“A mais alta daquilo que conhecemos...”
“É implícito, meu senhor.”
“Pensem em todos os milhões e talvez bilhões de anos em que a terra girou vazia pelo espaço. Ou pelo menos, para não dizermos realmente vazia, sem sombra da raça humana. Pensem na terra de então, lavada pela chuva e queimada pelo sol durante uma espantosa seqüência de anos! Do ponto de vista geológico, o homem só entrou em cena ontem. E então? Por que deveríamos supor que toda esta maravilhosa preparação foi feita exclusivamente para ele?”
“E por que teria sido feita, então, e para que?”
Summerlee deu de ombros.
“Não podemos saber. Certamente, por alguma razão que está acima da nossa compreensão.”
Registrei nos meus apontamentos as palavras exatas daquela conversa, mas nesta altura ela degenerou numa verdadeira confusão recheada de termos científicos. Assistir ao debate de duas mentes superiores sobre assuntos tão elevados é de fato uma honra; mas por outro lado, uma vez que aqueles dois nunca param de discutir, homens mais simplórios como Lord John e eu têm todo o direito de se sentirem um tanto cansados.
Os dois cientistas acabam se neutralizando reciprocamente, de forma que nós ficamos na mesma. A gritaria acabou, e agora Challenger está sentado na cadeira; continua mexendo nas lentes do microscópio e os seus resmungos lembram as surdas ameaças de um mar tempestuoso.
Lord John se aproxima e ambos ficamos olhando na noite.
Há uma pálida lua, a última que olhos humanos poderão ver, e as estrelas brilham no céu. Nunca vi tanta vivacidade de luz, nem mesmo nas noites da América do Sul. Provavelmente o fenômeno etéreo deve influenciar de alguma forma o brilho das estrelas. A fúnebre fogueira de Brighton, ainda não se apagou, e percebe-se no céu uma grande sombra para o ocidente, uma sombra que indica incêndios em Arundel, ou então Chester, e talvez até Portsmouth. Volto para a minha cadeira e escrevo mais estas linhas: ,
“A beleza da noite é impressionante. Quem poderia pensar que este incomparável cenário serve de gólgota para a espécie humana?”
Aí, quase sem dar-me conta, começo a rir...
“O que é isso, meu rapaz?”, pergunta Lord John, surpreso. “Parece-lhe haver algum motivo de riso? O que houve?”
“Estava pensando em todos aqueles grandes problemas que ficarão irresolutos”, respondo, “A todas as divergências que por tanto tempo dividiram os homens das várias nações. Quem poderia pensar que iriam resolver-se de forma tão extraordinária?”
Ficamos algum tempo calados. Aposto que todos nós estamos pensando nos amigos que nos antecederam na morte. A senhora Challenger soluça baixinho, e o marido sussurra-lhe alguma coisa. A minha mente volta a uma porção de gente que imagino imóvel no chão, inerte como o pobre Agostinho que jaz no meio do pátio.
Penso, por exemplo, em Mc Ardle. Sei muito bem onde está, com o rosto apoiado na escrivaninha e a mão que continua-segurando o telefone. Também revejo Beaumont, o dono do jornal, que imagino deitado no tapete turco vermelho e turquesa que enfeita o seu escritório. E lá estão os meus companheiros de redação: Mc Dorma, Murray e Bond. Quase na certa, morreram trabalhando febrilmente, com os caderninhos repletos de anotações e impressões sobre os estranhos acontecimentos aos quais estavam assistindo.
Imagino que um deles tenha sido enviado a entrevistar os médicos, outro os políticos, e o terceiro as autoridades religiosas. Inúmeras matérias de primeira página, com reboantes manchetes, devem ter sido a última visão a aparecer diante dos seus olhos! Quantas maravilhosas informações fadadas a nunca chegar às máquinas impressoras!
Parece-me quase estar vendo as manchetes de Mc Donna: “Ainda temos esperança!– Entrevista com Soley Wilson–O famoso especialista afirma: Nem tudo está perdido!”
O nosso repórter encontrou o conceituado cientista sentado no telhado, onde se
abrigara para fugir da multidão de cidadãos apavorados que lhe pediam ajuda. Com
palavras que demonstravam claramente a gravidade com que encarava a situação, o
médico recusou-se a admitir que já não havia esperança.
Era assim que Mc Donna teria começado a sua matéria; com toda a probabilidade, Bond iria cuidar da catedral Saint Paul, entregando-se completamente às suas tendências literárias. Que assunto, para um homem como ele!
Do pequeno corredor interno que dá a volta da abóbada, enquanto olhava aquela
multidão de humanidade ferida que, em seus últimos estertores arrastava-se na
presença de um poder superior até então quase ignorado ou esquecido, subiram até
aos meus ouvidos gritos de horror e tão formidáveis pedidos de salvação que...
e assim por diante.
Um fim realmente terrível para um jornalista, ter de morrer assim, cercado de tesouros que não poderão ser contados ao seu público! Bond, aquele jovem rapaz promissor, teria feito qualquer coisa para ver as suas iniciais assinando uma matéria destas!
Mas por que perder tempo com estas bobagens? Talvez faça isto somente para tirar da minha cabeça os pensamentos desta hora terrível. A senhora Challenger foi para o quarto e o marido diz que adormeceu. Ele, por sua vez, continua a escrever anotações e a consultar livros com toda a calma: quase parece que ainda poderá dispor de vários anos de tranqüila pesquisa.
Summerlee abandonou-se na poltrona e só de vez em quando dá os ares da sua graça com um discreto roncar. Lord John está recostado no espaldar da cadeira, de olhos fechados e com as mãos nos bolsos. Francamente, não consigo entender como numa situação destas ainda haja pessoas capazes de dormir.
Já são três e meia da manhã. Acabo de despertar, quase com um pulo. Eram onze horas e cinco minutos quando escrevi as últimas linhas. Lembro que olhei o relógio e tomei nota da hora. Quer dizer, portanto, que desperdicei quase cinco horas do pouco tempo que nos resta.
Nunca poderia ter imaginado que até eu iria adormecer! Agora, entretanto, sinto-me muito mais descansado e preparado para o meu destino... Ou, pelo menos, tento convercer-me disto. Com efeito, quanto mais forte é um homem, mais se sente dolorosamente oprimido pelo peso da morte. E justamente por isto que devemos considerar mais sábia a natureza que, por via de regra, faz com que as últimas horas de um homem sejam antecedidas por uma progressiva diminuição das suas forças.
A senhora Challenger continua no quarto e o marido adormeceu na cadeira. Um espetáculo e tanto! A sua poderosa figura está jogada para trás, com as mãos curtas e peludas agarradas no colete, enquanto a cabeça está tão caída sobre o peito que quase não dá para ver a grande barba: agita-se segundo as vibrações do seu roncar. De vez em quando Summerlee acrescenta o seu ressonar de tenor ao ronco profundo e sonoro de Challenger. Lord John também está dormindo, com o corpo dobrado sobre o braço da poltrona. O primeiro palpitar da alvorada penetra na sala e tudo é cinzento e triste.
Viro-me para ver a aurora: a indizível aurora que vai brilhar num mundo despovoado. A raça humana desapareceu, extinta num só dia; mas os planetas continuam no seu curso, e os ventos sopram, com a natureza que prossegue no seu caminho, com as suas criaturas mais elementares, até ameba.
Lá no pátio já posso ver Agostinho, de pernas abertas e rosto cinzento nas primeiras luzes da alvorada. Neste momento, toda a raça humana parece resumir-se nesta figura meio repulsiva e meio, patética que jaz sem vida ao lado da máquina que um dia dominou.
Às minhas anotações terminam aqui. Em seguida foi tudo rápido e estonteante demais para que eu pudesse escrever; mas cada Coisa está tão claramente gravada na minha memória que nunca poderei esquecer um detalhe sequer.
Uma certa ardência na garganta fez com que virasse os olhos para os botijões de oxigênio, e fiquei simplesmente abismado com o que vi.
Os derradeiros momentos da nossa vida estavam se esvaindo inexoravelmente. Em certa altura da noite, Challenger tinha tirado o cano da saída do terceiro botijão e o ligara ao quarto. Estava claro que este também já estava no fim. O fato de saber que o oxigênio estava acabando deixou-me um tanto abalado.
Levantei-me para ligar o último botijão que sobrava. Ao fazer isto, quase me senti culpado: pensei que, sem oxigênio, talvez os meus companheiros pudessem morrer suavemente enquanto estavam dormindo, sem nada perceberem. Mas logo tive de abandonar este pensamento ao ouvir a senhora gritar, entre as lágrimas:
“George, George! Não consigo respirar...”
“Calma, minha senhora! Nada de pânico!”, respondi enquanto os demais ficavam imediatamente de pé. “Acabo de ligar outro botijão.”
Mesmo numa hora tão terrível, não pude deixar de sorrir ao ver Challenger que, esfregando os olhos com os dedos peludos, parecia um meninão grande que acabava de acordar.
Summerlee parecia estar a ponto de chorar, quase tivesse desistido da atitude estóica própria de um cientista. Lord John, por sua vez, estava alegre e saltitante como se estivesse prestes a sair para uma matinal caçada.
“Quinta e última!”, comentou indicando o botijão. “Por falar nisso, meu rapaz, está querendo dizer que passou estas últimas horas escrevendo no seu caderninho as suas impressões?”
“Procurei registrar umas anotações só para passar o tempo...”
“Só um irlandês seria capaz de tal desatino. Acho que terá de esperar um bom tempo antes de encontrar um leitor. Pois bem, professor, quais são as previsões?”
Challenger estava observando os vastos bancos de neblina que enevoavam o horizonte. No meio da cortina esbranquiçada despontavam, como ilhas cônicas, as colinas.
“Devem estar todos morrendo de frio”, disse a senhora Challenger ao voltar para a saleta. “Passei a noite toda sob os cobertores enquanto vocês ficaram desprotegidos em suas poltronas. Agora vamos dar um jeito nisso...”
A boa mulher saiu apressada e, logo a seguir, ouvimo-la atarefada na cozinha. Não demorou em voltar com cinco fumegantes xícaras de chocolate numa bandeja.
“Tomem isto”, disse. “Vão se sentir muito melhor.”
Obedecemos. Summerlee pediu licença para acender o cachimbo, e todos nos lembramos que tínhamos cigarros. Achávamos que fumar poderia acalmar os nossos nervos, mas na verdade só conseguiu criar uma atmosfera insuportável na sala. Challenger viu-se forçado a ligar o ventilador.
“Quanto tempo ainda nos resta, Challenger?”, perguntou Lord John.
“Calculo mais ou menos três horas.”
“Antes eu estava com medo”, disse a mulher, “mas quanto mais me aproximo do fim, mais me sinto tranqüila. George, não acha que talvez fosse melhor rezarmos?’
“Reze à vontade, se assim quiser”, respondeu amavelmente o grande homem. “Cada um de nós tem uma maneira própria de rezar. A minha consiste na aceitação total daquilo que o destino manda.”
“Não creio que a minha atitude mental seja exatamente o que poderíamos chamar de resignação, e muito menos de solícita resignação”, resmungou Summerlee entre as baforadas. “Só aceito o destino porque não posso fazer outra coisa. Confesso que teria gostado de viver mais um ano para concluir a minha classificação dos fósseis calcários...”
“O seu trabalho inacabado é coisa sem importância”, disse Challenger, com ar de superioridade. “Totalmente irrelevante, se compararmos com a minha obra capital, A escala da vida, que ainda está nas primeiras páginas. A minha mente, a minha cultura, a minha experiência, tudo aquilo que possuo, em suma, deveria ser resumido neste volume que, sem dúvida, iria marcar época; e apesar de tudo, como podem ver, estou resignado.”
“Cada um de nós deixará certamente alguma coisa inacabada”, disse Lord John. “O que vai ser, no seu caso, meu rapaz?”
“Estava trabalhando num livro de poesias”, respondi.
“Eis um perigo que o mundo conseguiu evitar”, brincou Lord John. “Pensando bem, qualquer assunto desagradável da vida, por mais ruim que seja, sempre tem um lado positivo, um aspecto compensador.”
“E quanto ao senhor?”, perguntei.
“Pois é; tinha prometido a um amigo meu que iria caçar leopardos com ele no Tibete, na primavera. E a senhora, madame Challenger, que acabava de construir esta deliciosa casa de campo?”
“A minha casa está onde estiver o meu George. Ali, como gostaria de dar mais um passeio com ele no jardim, no frescor da manhã.“
Estas palavras ecoaram nos nossos corações. O sol dissipara a neblina matinal e agora toda a natureza estava envolvida numa luz dourada. Para nós, sentados numa atmosfera escura e envenenada, aquele panorama luminoso e nítido era como que um maravilhoso sonho de beleza.
A senhora Challenger levantou involuntariamente os braços para a vista. Aproximamos as cadeiras e formamos um semicírculo perto da janela. O ar já era quase irrespirável. Tive a impressão de que a sombra da morte já estava descendo sobre nós, como pano invisível a nos envolver por todos os lados.
“Este botijão não parece estar funcionando direito”, disse Lord John, escancarando a boca para respirar.
“A quantidade de oxigênio varia conforme os recipientes”, observou Challenger, “e depende da pressão e do cuidado com que foram recarregados. Como o senhor, Roxton, eu também desconfio que este último botijão seja de alguma forma defeituoso.”
“Quer dizer que fomos logrados: tiraram de nós a nossa última hora de vida”, observou amargamente Summerlee. “Eis aqui mais uma prova da época ignóbil em que vivemos. É a sua vez, Challenger, se quiser estudar o interessante fenômeno dadissolução física...”
“Sente-se no tapete, perto dos meus joelhos, e dê-me a mão”, disse Challenger à mulher. “Meus caros amigos, acredito que já não valha a pena ficarmos nesta sala. Você também prefere sair, não é, minha querida?”
A dama teve alguma coisa parecida com um soluço e apoiou a cabeça na perna do marido.
“Acho que a situação pior será a do último sobrevivente entre nós, que terá de assistir à agonia dos demais e morrer sozinho.”
“Prefere então abrir a janela e enfrentar o éter?”
“Melhor envenenados do que sufocados.”
Summerlee fez sinal de concordar plenamente e esticou o braço oferecendo a mão fina a Challenger.
“Passamos a vida inteira brigando, mas agora não se fala mais no assunto!”, disse. “Fomos ótimos amigos e, esquecendo as aparências sempre tivemos o maior respeito um pelo outro. Adeus!”
“Adeus, meu jovem!”, disse-me Lord John. “A janela está pregada hermeticamente e não podemos abri-la...”
Challenger levantou a mulher apertando-a contra o peito enquanto ela se agarrava ao seu pescoço.
“Dê-me o binóculo, Malone! “, ordenou muito sério. Passei-o para ele.
“Estamos nos entregando à Força que nos criou!”, gritou com sua voz trovejante e, ao pronunciar estas palavras, arremessou o binóculo contra os vidros da janela.
Antes de se apagar o tilintar dos cacos caídos no chão, um forte sopro de vento passou pelo vidro quebrado, fresco e suave, e investiu em cheio os nossos rostos.
Não sei dizer quanto tempo permanecemos calados, parados como estátuas de pedra. Aí, de repente, ouvi mais uma vez a voz de Challenger.
“As condições ambientais voltaram ao normal!”, gritou. “O mundo livrou-se do halo envenenado; mas de toda a humanidade, só nós ainda estamos vivos...”