A Nuvem Envenenada

Arthur Conan Doyle · Capítulo 2 de 7

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A Nuvem Envenenada

2- A Onda da Morte

Enquanto atravessávamos o vestíbulo, a campainha do telefone tocou e, desta forma, acabamos ouvindo involuntariamente o fim da seguinte conversa do professor Challenger. Falei em nós, mas ninguém no raio de cem metros poderia ter deixado de ouvir o trovão daquela voz assustadora que ecoava por toda a casa. As respostas dele ficaram na minha memória:

“Sim, sim, claro que sou eu; pois é, o professor Challenger, eu mesmo... o famoso professor... Certamente, está correta em cada uma das suas palavras, pois de outra forma não teria escrito... Não ficaria nem um pouco surpreso... Tudo nos leva a pensar isto, daqui a um dia ou dois, no máximo... Mas não há coisa alguma que eu possa fazer a respeito!... Sinto muito, mas acredito que a coisa irá incomodar pessoas até mais importantes que o senhor. De nada adianta queixar-se... Não, não há nada que eu possa fazer. Terão de dar um jeito com os seus próprios recursos... Agora chega, meu senhor, tenho coisas bem mais importantes a fazer do que ficar ouvindo essa lengalenga queixosa...”

Desligou o telefone e nos levou ao primeiro andar, para a grande e arejada sala que era o seu escritório. Na imponente escrivaninha de mogno jaziam sete ou oito telegramas ainda fechados.

“Acho que os meus correspondentes”, disse enquanto pegava as mensagens, “poupariam um bom dinheiro se eu tivesse um endereço telegráfico. Talvez ‘Noé-Rotherfield’ fosse o mais apropriado...”

Como costumava fazer toda vez que se entregava a algum obscuro jogo de palavras, apoiou-se na escrivaninha e começou a rir rumorosamente. O seu corpo estremecia todo e, de tanta agitação, as mãos nem conseguiam abrir os telegramas.

“Noé, Noé!”, gritou, enquanto Lord John e eu sorríamos para contentá-lo, e Summerlee sacudia a cabeça em sinal de comiseração.

Finalmente, Challenger começou a abrir os telegramas, enquanto nós três ficávamos perto da grande janela para admirar o panorama.

E de fato valia a pena olhar. A estrada, com suas curvas sinuosas, tinha deixado para baixo o vale e subira a uma altura que, como mais tarde soubemos, era de quase trezentos metros. A casa de Challenger ficava justamente no topo da colina e, da fachada norte onde se encontrava a janela do escritório, podia-se admirar uma vista realmente magnífica.

Os olhos alcançavam aldeias e lugares conhecidos e, para o sul, como que encravado nos bosques, podia-se ver um ramal da linha ferroviária principal entre Londres e Brighton. Logo abaixo de nós havia um pequeno pátio fechado, onde descansava o automóvel que nos trouxera da estação...

Uma exclamação de Challenger chamou a nossa atenção. Já lera os telegramas e os empilhara metodicamente sobre a escrivaninha. O seu rosto, ou o pouco dele que se podia ver sob a enorme barba, estava quase congestionado: parecia ter sofrido o impacto de algum acontecimento excepcional.

“Muito bem, meus senhores”, disse. “A nossa é de fato uma reunião bastante interessante, que ocorre em circunstâncias extraordinárias, aliás, em circunstâncias nunca vistas. Permitam que eu pergunte se repararam em alguma coisa fora do comum durante a sua viagem.”

“A única coisa que notei”, disse Summerlee, “é que os modos do nosso jovem amigo aqui presente não melhoraram muito desde a última vez que estivemos juntos. Lastimo constatar que fui forçado a queixar-me seriamente do seu comportamento no trem, e estaria mentindo se não afirmasse enfaticamente que ele deixou em mim uma impressão decididamente desagradável.”

“Ora, ora! Todos nós temos as nossas fraquezas”, disse Lord John.

“Não é preciso censurar este jovem. Ele pertence a um dos mais famosos times de futebol e, mesmo que demore meia hora para descrever um jogo, tem mais direito de fazer isto do que muitos outros.”

“Meia hora para descrever um jogo?”, gritei indignado. “Quem nos fez perder meia hora com a sua interminável história de búfalos e marajás foi o senhor mesmo, ora essa! O professor Summerlee é testemunha...”

“Francamente não saberia dizer qual dos dois pareceu-me menos sério”, disse Summerlee. “E posso garantir, Challenger, que perdi qualquer vontade de ouvir falar em futebol e búfalos...”

“Mas se nem mesmo cheguei a mencionar o futebol!”, protestei. John fez uma careta, e Summerlee meneou a cabeça.

“Foi no começo da viagem”, disse. “Uma coisa realmente desagradável. Enquanto eu ficava em triste e pensativo silêncio...”

“Em silêncio!?” Berrou Lord John. “Mas se não parou um momento de fazer ridículas imitações, tanto assim que parecia mais uma vitrola do que um homem?...”

Summerlee empertigou-se para protestar amargamente.

“O senhor se diverte bancando o engraçado, Lord John!”, disse com expressão sombria.

“Engraçado coisíssima nenhuma! Isto é uma verdadeira loucura!”, insurgiu Lord John. “Ao que parece, cada um de nós sabe o que os outros fizeram, mas ninguém sabe o que ele mesmo fez. Vamos tentar reconstituir os fatos. Antes de mais nada entramos num vagão de primeira classe para fumantes: pelo menos quanto a isto estamos todos de acordo, não é? Aí começamos a discutir devido à carta do nosso amigo Challenger no Times.”

“Foi isto que fizeram?”, resmungou o nosso anfitrião.

“O senhor, Summerlee, disse que naquelas afirmações não podia haver nem sombra de verdade...”

“Ai de mim!”, exclamou Challenger. “Nem sombra de verdade? E posso perguntar com quais argumentos o grande e famoso professor Summerlee tentou destruir o humilde indivíduo que ousou expressar uma opinião sobre um assunto de possibilidade científica? Talvez, antes de trucidar esta pobre nulidade que eu sou, ele se digne de citar algumas das razões que o induziram a pensar de outra forma...”

As mãos de Challenger torciam-se convulsamente enquanto ele falava com o seu sarcasmo tão delicado quanto uma patada de elefante.

“As minhas razões são muito simples”, disse Summerlee. “Eu afirmava que se o éter que cerca a terra–numa área determinada–fosse tóxico a ponto de provocar perigosos sintomas, não seria possível explicar por que nós três que estávamos no carro ferroviário não mostrávamos o menor sinal de sofrer os seus efeitos.”

Esta explicação só conseguiu encher de alegria Challenger. Ele continuou rindo até que tudo na sala pareceu tremer e tilintar.

“Aquilo que o senhor está dizendo, Summerlee, e não é a primeira vez que isto acontece, não corresponde à realidade dos fatos”, disse afinal. “Só para começar, meus senhores, não posso deixar de contar-lhes o que me aconteceu esta manhã. Depois de me ouvirem, poderão muito mais facilmente perdoar a si mesmos. Serão mais indulgentes com os seus próprios erros, pois saberão que eu mesmo tive momentos em que o meu próprio equilíbrio ficou abalado.”

Já faz bastante tempo que nós temos, aqui em casa, uma criada chamada Sara cujo sobrenome nunca consigo lembrar. É uma mulher de aparência séria e comedida, totalmente impassível, uma mulher completamente incapaz de mostrar qualquer tipo de emoção.

Enquanto eu tomava sozinho o café da manhã, pois a senhora Challenger ainda estava na cama, de repente fiquei pensando que seria bastante divertido estabelecer até que ponto a imperturbabilidade daquela mulher poderia manter-se inabalável. De forma que aprontei uma experiência fácil e eficiente. Depois de entornar na toalha um pequeno vaso de flores que estava ao lado da cafeteira, toquei a campainha e escondi-me embaixo da mesa. A mulher chegou e, vendo o aposento vazio, pensou que eu já fora para o escritório.

Como eu esperava, aproximou-se e debruçou-se na mesa para endireitar o vaso. Nesta altura, pude entrever uma meia de algodão e uma botinha de mola. Aí, espichando a cabeça, dei uma mordida na panturrilha dela. A experiência teve um sucesso superior a qualquer expectativa. Por alguns momentos ficou parada, petrificada, de olhos fixos na minha cabeça. Aí, gritando, recobrou-se e saiu correndo da sala.

Eu fui atrás, com o propósito de dar-lhe uma explicação, mas ela já estava correndo colina abaixo e, depois de alguns minutos, só conseguia vê-Ia usando o binóculo do exército. Estou lhes contando isto para que possam entender o sentido da história. Conseguiu iluminá-los? Despertou alguma coisa dentro de vocês? O que acha disto, Lord John?”

O fidalgo meneou a cabeça, pensativo.

“Se não consultar um médico quanto antes, o senhor vai acabar tendo alguma doença muito séria”, respondeu afinal.

“Algum comentário, Summerlee?”

“Esqueça o trabalho e vá imediatamente passar pelo menos três meses em algum sanatório”, disse o anatomista.

“ótimo conselho!”, exclamou Challenger. “Então, Sr. Malone, será possível que logo da sua boca possa sair a sabedoria, enquanto os mais velhos só foram capazes de dizer bobagens?”

De fato, e, por favor, entendam que digo isto com a maior modéstia possível, consegui entender a verdade. Para vocês leitores, que daqui a pouco saberão o que estava acontecendo, poderá parecer fácil, mas não foi nada fácil para mim naquele momento. A revelação da verdade abriu caminho na minha mente de forma repentina.

“Veneno!”, exclamei.

E logo após dizer isto, a minha memória voltou a todos os acontecimentos daquela manhã, à história do búfalo de Lord John, ao meu pranto histérico, ao comportamento inconveniente do professor Summerlee, às coisas estranhas vistas em Londres, à desastrada maneira de guiar do motorista, a briga em frente à distribuidora de oxigênio. Tudo isto acabou formando um conjunto muito claro diante dos meus olhos.

“Claro!”, repeti. “Só pode ser veneno. Estamos todos envenenados...”

“Exatamente”, disse Challenger esfregando as mãos. “Estamos todos envenenados. O nosso planeta entrou no halo de éter envenenado e neste momento está atravessando-o a uma velocidade de alguns milhões de milhas por minuto. O nosso jovem amigo definiu a causa de todas as nossas dores de cabeça com uma única palavra: veneno!”

Ficamos olhando uns para os outros em silêncio. Ninguém achou oportuno fazer comentários.

“Há uma espécie de inibição mental que pode nos ajudar a identificar estes sintomas”, disse Challenger. “Não posso exigir que tal inibição esteja desenvolvida em vocês da mesma forma que em mim, pois suponho que a força dos nossos vários processos mentais não seja igual em nós todos. Mas é evidente que, sob este aspecto, o nosso jovem amigo está muito bem servido”.

Depois do meu curto ataque de loucura, que tanto sobressaltou a nossa criada, sentei para pensar cuidadosamente no assunto. Ficou logo bem claro que eu nunca tinha cedido ao impulso de morder alguém aqui em casa. O impulso havia, portanto, sido anormal, e só levei um momento para descobrir a verdade.

O exame do meu pulso revelava dez batimentos acima do normal. Procurei então juntar todas as minhas faculdades mais altas e sadias, e mandei o verdadeiro G.E. Challenger sentar, sereno e alheio a qualquer influência daquela estranha situação. Avisei-o para que ficasse precavido contra as loucas brincadeiras mentais provocadas pelo veneno, e descobri que ainda estava apto a controlar a situação.

Percebi que ainda podia botar nos eixos a minha mente perturbada. De forma que, quando a minha mulher desceu do andar de cima e eu me senti compelido a esconder-me atrás da porta para dar-lhe um susto com algum grito bestial, fui capaz de dominar este impulso e de cumprimentá-la com dignidade e graça. Mais tarde, quando fui ao pátio para pedir que.o carro ficasse pronto, e encontrei Agostinho deitado sob o veículo para algum conserto, consegui dominar a minha mão aberta impedindo que golpeasse o infeliz com um safanão que provavelmente convencê-lo-ia a seguir as pegadas da criada fugitiva. Em lugar disso, só dei um leve tapinha no seu ombro e mandei que aprontasse o carro para que chegássemos à estação na hora certa para recebê-los.

Neste mesmo instante sinto uma vontade quase incontrolável de segurar o professor Summerlee pela sua ignóbil barbicha e de sacudir violentamente a sua cabeça. Apesar disso, como podem ver, consigo dominar-me perfeitamente, e, aliás, aconselho aos senhores procurem fazer exatamente o mesmo.”

“Procurarei manter longe aquele búfalo!”, disse Lord John.

“E eu esquecerei aquele jogo de futebol...”

“Talvez tenha razão, Challenger”, disse Summerlee. “Estou disposto a admitir que a minha mente gosta mais de criticar que de concretizar, e que não é nada fácil converter-me a uma nova ordem de idéias, principalmente quando se trata de alguma teoria incomum e fantástica como a sua. Se, no entanto, eu considerar os acontecimentos de hoje e o comportamento dos meus companheiros, vejo-me forçado a admitir que algum veneno de tipo excitante seja responsável por todos estes sintomas.”

Challenger deu um tapa nas costas do colega.

“Estamos fazendo progressos!”, disse. “Não há a menor dúvida quanto a isto, notáveis progressos...”

“E então, meu bom amigo”, disse Summerlee com humildade, “o que está realmente acontecendo?”

“Com licença de vocês todos, direi algumas palavras a respeito do assunto.” E Challenger sentou-se na escrivaninha, com as perninhas a balançarem no vazio. “Estamos presenciando um fenômeno terrível. Pelo que posso entender, estamos chegando ao fim do mundo...”

O fim do mundo!... Viramos os olhos para a janela do escritório e contemplamos a beleza estival dos campos, o verde das colinas, a serena suavidade das pastagens. O fim do mundo! Mais cedo ou mais tarde, todos nós acabamos ouvindo esta frase, mas o fato dela poder ter um significado prático e imediato, dela tornar-se realidade, não num futuro incerto e nebuloso, mas sim agorinha mesmo, naquele mesmo dia, era certamente uma idéia pavorosa e perturbadora.

Ficamos como que petrificados, esperando silenciosamente que Challenger continuasse. A sua barbuda imponência acrescentava tanta força à solenidade das suas palavras que, por um instante, todas as extravagâncias do homem desapareciam e ele nos parecia um personagem de majestosa importância, colocado acima da humanidade comum.

“Imaginem cachos”, disse, “infestados por microscópicas bactérias. O jardineiro mergulha-os numa substância desinfetante. Mergulha-os no veneno e as bactérias desaparecem. Neste momento, o nosso jardineiro–no meu entender–está desinfetando o sistema solar, e a bactéria humana está a ponto de desaparecer...”

Houve mais um longo silêncio, interrompido afinal pela campainha do telefone.

“Deve ser alguma bactéria pedindo ajuda!”, disse Challenger.

Saiu do escritório por um minuto ou dois e nenhum de nós ousou falar durante a sua ausência. Qualquer palavra e qualquer comentário pareciam inúteis diante de uma situação tão excepcional.

“Era o posto de saúde de Brighton”, disse Challenger ao voltar. “Por alguma razão que desconheço, os sintomas parecem desenvolver-se mais rapidamente no nível do mar. A altura desta colina dá-nos alguma vantagem. Parece que muitos já se convenceram disto, principalmente, ·depois da minha carta aos Times. A pessoa com a qual falei pelo telefone logo depois que vocês chegaram era o prefeito de uma cidadezinha do interior. Obviamente, ele atribuía a própria vida um valor exagerado, e procurava algum meio de salvar-se. Eu, no entanto, levei-o a pensar de forma mais modesta.”

Summerlee levantara-se, aproximando-se da janela. Suas mãos finas e ossudas tremiam.

“Challenger”, falou ansiosamente, “trata-se de uma coisa séria demais para que fiquemos brincando. Não pense que queira questioná-lo só para irritá-lo, só gostaria de saber se porventura pode haver alguma possibilidade de erro no seu raciocínio e nas suas informações. Lá fora o sol brilha no céu azul como de costume, e há searas, flores, pássaros. Há jovens que continuam se divertindo e jogando golfe como sempre fizeram, e lavradores ceifando o trigo”.

Está nos dizendo que estamos à beira do abismo e que este dia luminoso pode ser o último para a raça humana. Pelo que nos é dado entender, o senhor só baseia esta aterradora convicção em algumas linhas anormais de um espectro, numas poucas notícias que vieram de Sumatra, e em algum estranho comportamento que cada um de nós notou nos companheiros. Sabe muito bem, Challenger, que não vale a pena esconder o jogo com a gente. Todos nós já encaramos a morte. Fale claro, portanto, conte exatamente o que está havendo e o que, a seu ver, podemos esperar.”

Foram palavras corajosas e eficazes, palavras dignas do espírito forte e correto que o velho anatomista escondia por trás do seu rabugento azedume. Lord John levantou-se e apertou-lhe a mão.

“Estou plenamente de acordo!”, disse. “E agora, Challenger, cabe ao senhor explicar a situação. Não somos pessoas que se deixam vencer facilmente pelo nervosismo, como o senhor bem sabe; mas parece-me justo recebermos alguma explicação enquanto estamos mergulhando de cabeça no dia do juízo final. Qual é exatamente o perigo? O que precisamos recear? E o que podemos fazer para enfrentá-lo?”

Estava parado, a sua robusta figura de pé na grande luz da janela, com uma das mãos ossudas apoiada na mão de Summerlee. Eu estava espichado numa poltrona, com um cigarro apagado entre os lábios, naquele estado todo especial em que as impressões chegam ao nosso espírito perfeitamente claras.

Pode ser que se tratasse de uma nova fase do envenenamento, mas os impulsos delirantes tinham desaparecido, deixando um estado mental bastante lânguido e ao mesmo tempo extremamente lúcido. Sentia-me como um espectador, e parecia-me que nada pudesse ter alguma coisa a ver diretamente comigo. Mas na minha frente havia três homens excepcionais enfrentando uma grande crise, e era sobremodo interessante observar as suas reações.

Pelos gestos que fez, deu logo para entender que Challenger estava escolhendo cuidadosamente as palavras que iria proferir.

“Quais eram as últimas notícias, quando partiram de Londres?”, perguntou-me.

“Estava na redação do Gazette, lá pelas dez horas da manhã”, respondi. “Acabava de chegar uma notícia da agência Reuter, de Cingapura, informando que a epidemia alastrara-se em Sumatra e que, devido a isto, os faróis no Estreito da Sonda haviam deixado de funcionar.”

“Ao que parece, já não dá mais para controlar os eventos!”, disse Challenger esticando a mão para a pilha de telegramas. “Eu mantenho um bom relacionamento com as autoridades e com a imprensa, de forma que recebo um farto noticiário de muitos lados. Todo o mundo está insistindo para que eu volte a Londres. Mas com que finalidade? Pelas notícias que recebi, parece que os efeitos do envenenamento começam com uma espécie de excitação mental. Dizem que hoje de manhã houve manifestações extremamente violentas em Paris, e os mineiros do Gales estão na maior agitação”.

Segundo aquilo que até agora foi possível averiguar, a este primeiro estágio, que varia conforme as raças e os indivíduos, segue-se uma certa exaltação e lucidez mental da qual parece-me distinguir alguns sinais no nosso jovem amigo aqui presente, que depois de algum tempo transforma-se por sua vez em coma, levando à morte. Por aquilo que o meu conhecimento da toxicologia me permite entender, acredito que se trate de algum veneno vegetal que afeta o sistema nervoso.”

“Daturon!”, sugeriu Summerlee.

“Muito bem!”, exclamou Challenger. “Em nome da precisão científica, é aconselhável que identifiquemos logo o nosso agente tóxico. Ao senhor, meu caro Summerlee, cabe a honra (honra póstuma, infelizmente, mas a única possível) de ter dado um nome ao destruidor do universo, ao desinfetante do Grande Jardineiro”.

Os sintomas do Daturon podem ser reconhecidos conforme já falei. Os seus efeitos atuarão sobre o mundo inteiro, e creio poder afirmar com certeza que nenhuma vida humana será poupada. Por enquanto o veneno só mostrou os seus caprichos nos lugares por ele afetados; mas é só uma questão de horas, é como uma onda que avança encobrindo um areal depois do outro, até engolir tudo. No que diz respeito à ação e à distribuição do Daturon, há leis físicas que poderiam ter sido mais interessantes se tivéssemos tido o tempo de estudá-las devidamente.

Por aquilo que eu pude constatar”, e dizendo isto apontou para os telegramas, “as raças menos desenvolvidas foram as primeiras a sucumbir à influência do veneno. Chegam notícias assustadoras da África, e parece que também os aborígines da Austrália já foram exterminados. Até agora, as raças setentrionais mostraram-se mais resistentes do que as meridionais. Como podem ver, este telegrama foi enviado de Marselha, às quinze para as dez desta manhã. Leiam comigo:

Na Provença houve arruaças durante a noite toda, como se as pessoas estivessem

tomadas por delírio. Os vinicultores de Nimes participaram de violentas

manifestações. Em Toulon os socialistas invadiram as ruas. Nesta manhã, uma

repentina epidemia, seguida de coma, atacou a população. Uma verdadeira peste

fulminante! Inúmeros mortos nas ruas. Paralisia dos negócios e caos generalizado.

Uma hora mais tarde, recebi da mesma fonte a seguinte comunicação:

Existe a ameaça de um extermínio total. A catedral e as igrejas estão cheias de

pessoas apavoradas. O número dos mortos supera o dos vivos. É algo inconcebível e

terrível! Parece que a epidemia não provoca dor, mas é rápida e inevitável.

E há também outro telegrama vindo de Paris, onde o desenvolvimento do fenômeno ainda não se tomou tão agudo. Tudo indica que a índia e a Pérsia já não existem. A população eslava da Áustria foi atingida, enquanto as outras raças permanecem imunes. De um ponto de vista geral, os moradores das praias e das planícies parecem ter sido afetados pelo veneno mais rapidamente que os do interior e dos planaltos. Até mesmo um pequeno morro faz uma notável diferença, e se por acaso houver algum sobrevivente da raça humana, talvez possa ser encontrado num Ararát qualquer da vida. É muito provável que até esta pequena colina onde estamos possa representar uma ilhota de temporária salvação no meio do oceano do desastre. Mas, considerando-se a atual velocidade do avanço, só levará mais algumas horas para que tudo seja tragado pela terrível maré...”

Nesta altura, Lord John Roxton disse:

“O que mais me surpreende é que o senhor possa ficar aí, sentado e entregue ao riso, enquanto segura com a mão aquela pilha de terríveis telegramas. Poucas pessoas enfrentaram a morte mais vezes do que eu, mas precisamos convir que a morte universal é uma coisa aterradora...”

“No que diz respeito ao meu riso”, disse Challenger, “‘devem lembrar-se que, assim como os senhores, eu também fiquei exposto aos efeitos estimulantes do veneno cósmico. Mas quanto ao horror que parece inspirar-lhe a morte universal, quero salientar que ele é um tanto exagerado. Se, com efeito, o senhor estivesse só e derrelito numa pequena casca de noz no meio do oceano, rumo a um destino desconhecido, pode até compreender que a coragem viesse a faltar-lhe. O isolamento e a incerteza levariam a melhor. Mas se estivesse viajando num excelente navio que levasse, com o senhor, todos os seus parentes e amigos, certamente encontraria uma certa segurança ao pensar que, quaisquer que fossem as surpresas do futuro, poderia enfrentá-las ao lado dos entes queridos”.

Uma morte isolada pode ser terrível, mas uma morte universal que além do mais promete ser indolor–não me parece coisa capaz de justificar preocupação. Com efeito, concordo plenamente com quem disse que o, terror só pode advir da idéia de tudo aquilo que amamos, aprendemos e exaltamos se perder para sempre. Mas antes disto, acho que o verdadeiro terror decorre da idéia de ficarmos definitivamente isolados, vivos e sozinhos num mundo de mortos.”

“Qual é a sua proposta, então?”, perguntou Summerlee, que pelo menos desta vez mostrara-se de acordo com as idéias do colega.

“Tenciono almoçar”, disse Challenger, enquanto pela casa ecoavam os toques de um gongo. “Temos uma cozinheira cujas omeletes só podem ser superados pelas suas costeletas. E podem ter certeza de uma coisa: nenhum distúrbio cósmico obscureceu as suas qualidades. E as minhas excelentes garrafas da safra de 96 merecem ser salvas daquele que também será um pavoroso desastre para os vinhos.” Dizendo isto, desceu da escrivaninha na qual sentara para anunciar o fim do mundo. “Venham”, disse então. “Se de fato ainda nos resta muito pouco tempo, tanto faz que o aproveitemos da melhor forma possível.”

E, com efeito, o almoço foi realmente excelente. Mas não pense, querido leitor, que estávamos despreocupados. Toda a solene seriedade dos fatos estava diante de nós e moldava os nossos pensamentos. Sem dúvida nenhuma, a morte amedronta, e amedronta ainda mais aqueles que nunca estiveram cara a cara com ela. Nós, por nossa vez, tínhamos tido grande familiaridade com ela numa hora muito importante da nossa existência. Quanto à dona da casa, ela tinha a maior confiança no grande marido, e obedecia-lhe em tudo sem maiores problemas.

O futuro estava nas mãos do destino. O presente ainda nos pertencia, e nós procuramos vivê-lo de forma bastante amena, entre bons amigos. A nossa mente, como já salientei, estava particularmente lúcida. Quanto a Challenger, demonstrava-se realmente maravilhoso. Nunca, como naquele momento, compreendi toda a grandeza e a segurança daquele homem.

Summerlee continuava alfinetando-o com as suas críticas, enquanto Lord John e eu nos divertíamos com a disputa e a senhora, com uma mão carinhosamente apoiada no ombro do marido, parecia fascinada pela voz dele. A vida, a morte, o destino, eram estes os magníficos assuntos daquela hora memorável. Com o almoço chegando ao fim, a solenidade do momento tornava-se ainda maior devido a repentinas exaltações mentais e formigamentos nas pernas que nos avisavam da lenta e silenciosa chegada da maré de morte.

Tive a ocasião de ver Lord John que de repente encobria os olhos com a mão, e Summerlee recostou-se prostrado no espaldar da cadeira. Cada vez que respirávamos, o ar parecia carregado de estranhas forças, e mesmo assim a nossa mente permanecia serena e funcionando perfeitamente.

Agostinho apareceu então com os cigarros e aprontou-se a tirar a mesa.

“Agostinho!”, disse o patrão.

“As ordens, senhor...”

“Quero agradecer-lhe estes anos de fiéis serviços.”

Um sorriso apareceu no rosto do criado.

“Só cumpri o meu dever, senhor...”

“Quanto a mim, creio que hoje seja o dia do fim do mundo, Agostinho...”

“Muito bem, senhor, A que horas?”

Não sei ao certo. Provavelmente, antes do anoitecer...”

“Perfeitamente, senhor.”

O taciturno Agostinho fez uma mesura e saiu da sala. Challenger acendeu um cigarro e, encostando a cadeira à da mulher, ficou de braço dado com ela.

“Você já sabe o que está acontecendo, querida”, disse, “ e eu expliquei os fatos aos nossos amigos. Está com medo, querida?”

“Vamos sofrer, George?”

“Vai ser o mesmo que a anestesia do dentista. Toda vez que o dentista a faz adormecer, é como se estivesse morta.”

“Mas é uma sensação até agradável!”

“E vai ser a mesma coisa com a morte. O nosso corpo não nos permite guardar este tipo de sensações, mas conhecemos muito bem o prazer que experimentamos sonhando ou sendo hipnotizados. Por outro lado, Summerlee, eu não concordo com o seu materialismo, pois afinal de contas acredito ser uma coisa grande demais para acabar sendo apenas um punhado de cinzas. Parece-me evidente que existe algo capaz de vencer a morte, e que a morte não pode vencer.”

“Que seja”, disse Lord John. “Sou um bom cristão, mas ainda concordo com os nossos antepassados que se faziam sepultar com seus arcos, suas flechas e demais objetos pessoais, Como se fossem viver no além da mesma forma de quando estavam vivos. O que acha disto, professor?”

“Bom”, disse Summerlee, “uma vez que pede a minha opinião, acho que voltaríamos pelo menos à idade da pedra. Eu, por minha vez, sou do século vinte, e desejo morrer como homem civilizado. Não creio estar mais apavorado que vocês, diante da morte, pois já estou velho e de qualquer maneira não me sobra muito tempo; mas ficar aqui parado, esperando morrer sem fazer coisa alguma, é contrário à minha natureza; sinto-me como um carneiro à espera da faca do açougueiro. Acha realmente, Challenger, que não há mais coisa alguma que possamos fazer?”

“Para sobrevivermos? Não, não acho!”, disse Challenger. “‘Acredito, ao contrário, que possamos prolongar por várias horas as nossas vidas, para assistirmos ao desfecho desta extraordinária tragédia, antes de nós mesmos sermos chamados a desempenhar o nosso fatídico papel. Fiz uns preparativos...”

“O oxigênio?”

“Isto mesmo: o oxigênio.”

“Mas de que adianta o oxigênio se o próprio éter está envenenado? Entre o oxigênio e o éter existe a mesma diferença que há entre um morcego e um gás. São coisas completamente diferentes. Não podem substituir-se mutuamente. Vamos, Challenger, não me diga que quer realmente defender uma tese dessas!”

“Meu bom Summerlee, este veneno cósmico está certamente sofrendo a influência de agentes materiais. Podemos claramente perceber isto examinando a evolução dos fatos. Não podíamos prever tal coisa, no começo, mas agora já está claro. De forma que me parece perfeitamente viável que um gás como o oxigênio, que aumenta a vitalidade e a resistência do organismo, consiga retardar a ação daquilo que tão propriamente o senhor chamou de Daturon. Pode ser que eu esteja errado, mas por enquanto acredito estar certo.”

“Mas se tivermos de ficar respirando como nenezinhos de chupeta na boca”, interrompeu Lord John, “eu desisto.”

“Não vai ser preciso”, respondeu Challenger. “Já foram tomadas providências que certamente despertarão a sua gratidão pela minha esposa, pois ela trancou a sua saleta da forma mais hermética possível, vedando qualquer fresta com papel impermeável.”

“Santo Deus, Challenger, não vai querer manter afastado o éter com papel impermeável...”

“Na verdade, meu caro amigo, o senhor simplesmente não quer encarar a situação. Estamos querendo vedar as frestas não tanto para evitar que o éter entre, quanto para evitar que o oxigênio saia. Acredito piamente que, se conseguirmos manter a atmosfera num certo nível de hiperoxigenação, poderemos não perder os sentidos. Já tenho dois botijões de oxigênio, e vocês trouxeram mais três. Não dá para salvar o mundo, mas já é alguma coisa...”

“Quanto tempo acha que vai durar?”

“Não sei dizer. Só iremos abrir as válvulas quando os sintomas se tornarem extremamente evidentes. Deixaremos então sair todo o gás, pois estaremos de fato precisando muito dele. Vai fazer com que possamos viver mais algumas horas–talvez até alguns dias–e enquanto isto poderemos observar o mundo destruído. O desfecho da nossa existência será portanto adiado, e nós cinco teremos provavelmente a singular honra de sermos a última retaguarda da raça humana na sua marcha rumo ao desconhecido. Confio que terão a bondade de ajudar-me no manejo dos botijões: o ar já parece estar ficando mais abafado.”