A questão de Sócrates: uma introdução
Fig Ura I
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
que Platão reproduz as conversas de Sócrates por meio de
tipos, o Êutifron tam bém perm ite compreender em que me
dida um saber absoluto do bem não é possível em princípio.
A multiplicidade das situações concretas, a falta de clareza
sobre os conceitos e as vias argumentativas, bem como a pobre
orientação racional dos participantes, jam ais podem ser defi
nitivamente superadas, quer através de uma definição, ainda
que muito clara, quer através de um conhecimento intuitivo do
“bem”. M uito antes, a pré-compreensão do “bem” esboçada e
assumida igualmente por Sócrates e Platão tem de ser, a cada
vez, novamente inspecionada e preenchida com a vida prática.
Portanto, caso se procure ler o Êutifron com acurácia exemplar,
desempenhando teórica e praticamente o trabalho de conhe
cimento exigido por Sócrates, pode-se conhecer - em parte,
possivelmente contra a intenção do próprio Platão - a limitada
amplitude não apenas do saber definitório, mas também do
saber intuitivo. A pergunta “o que é isso?” é a escada que só se
pode jogar fora após seu uso, mas que, havendo necessidade, é
preciso ir buscar de novo.
A pergunta pela piedade no Êutifron leva ao núcleo da
questão de Sócrates. Se na Apologia ele se defende da acusação
d e' 'impiedade” ou “ateísmo”, aqui ele submete a representação
tradicional de piedade a uma inspeção crítica. Em ambos os
casos, lida-se com a pergunta fundamental, decisiva para Só
crates: como podemos “viver melhor a vida” (16a)? Enquanto
Sócrates sustenta que a orientação conforme ao bem é a ade-
Sofistica, ironia e aporia I 01
I «
quada, sem exigir dela um saber seguro, Êutifron, o sacerdote
e adivinho que ele encontra a cam inho do tribunal, é alguém
que, cheio de autoconfiança, reivindica para si um saber e um
agir corretos, bem como a capacidade de "dizer” ou explicar
esse alegado saber (5c s., 15d s.). Com o interesse dissimulado
de aprender com um especialista o que seria a piedade para
poder tratar de assuntos pessoais, Sócrates lança mão do mé
todo “probatório” caracterizado por Aristóteles e refuta Êuti-
fron passo a passo com base nas próprias premissas dele. N o
entanto, ao fazê-lo, Sócrates também propõe o tempo todo
assunções plausíveis, conformes à arte da conversa “dialética”.
Além disso, faz intervir recursos "erísticos”, derrotando seu
adversário de traços sofísticos com as próprias armas dele, tal
como o tipo Sócrates nas Nuvens de Aristófanes.
N a verdade, por causa de sua posição profissional e de
sua crença no mundo tradicional dos deuses, Êutifron, um ho
mem “direito", participa do senso comum próprio aos cidadãos
orientados por mitos e convenções. Entretanto, ele tem traços
inequivocamente sofísticos, com os quais Platão quer caracte
rizar menos o tipo peculiar dos sofistas históricos e mais um
: I' modo geral de viver e pensar. Q ual fosse um sofista, Êutifron l
•i 1 ; : l é muitas vezes saudado por Sócrates de maneira altamente
i irônica, como “sábio" e como “mestre” providencial (4a s., 5a
s., 12e, 13e, 14d, 15d). Porém, ao longo de uma luta argumen-
tativa impiedosa, Êutifron é ao mesmo tempo desmascarado
em seu saber presunçoso. Além disso, Sócrates não crê que
« ·* ele, sendo tão seguro de si, tenha capacidade para a busca em
comum da verdade, tratando-o como um mero adversário na
disputa verbal. Assim, Sócrates critica Êutifron como alguém
“hesitante por causa da abundância de saber” e, quando este
não o compreende de imediato, Sócrates lhe exorta de uma
Ç2 I A questão de Sócrates
maneira um tanto rude: “Concentra-te um pouco mais, pois
náo é difícil de entender o que quero dizer" (12a, 14b s.).
D e uma maneira tipicamente socrática, o diálogo parte
de um acontecim ento arbitrário e incidental, e term ina com
a autoinspeção de Eutifron acerca da situação em que se en
contram seu saber e seu modo de viver. O motivo incidental
do diálogo é o processo em que Eutifron faz uma denúncia de
assassinato contra o próprio pai. Este havia mandado lançar
em uma cova um empregado que, estando bêbado, matara
outro empregado em uma briga. Enquanto seu pai mandava
alguém ir ter com um exegeta do colégio sagrado para obter
instruções relativas ao pecado de morte, o próprio assassino
morreu na cova de fome e de frio. Eutifron julgava o ato do
pai como um caso evidente de impiedade, enquanto seu pai e
os demais parentes contestavam isso: primeiro, o empregado
morto seria ele mesmo um assassino; além disso, não teria
sido morto premeditadamente, por fim, mesmo nesse caso,
um filho não teria permissão para acusar de assassinato o
próprio pai. É m anifesto que a diferença entre as partes não
consiste na afirm ação ou negação do fato, mas no modo de
avaliar a impiedade. Todavia, o controverso não é a subsunção
do caso particular sob a determ inação universal da piedade,
mas a determ inação do próprio universal. Portanto, a de
term inação universal pressuposta tem de ser logo de início
expressamente citada, e somente depois ela pode ser inspecio
nada em sua coerência; em contrapartida, da inspeção resul
tam consequências para o julgam ento das ações de Eutifron
e de seu pai, as quais, porém, têm em vista sobretudo uma
possível mudança no agir de Eutifron.
D ar o primeiro passo na direção de um saber e um agir
melhores é, portanto, colocar a conhecida pergunta “o que é
Sofistica, ironia e aporiaI 9 3
isso?” "Então diz-me agora, por Z eus, aquilo que há pouco
afirmavas saber tão bem. Com efeito, em que consiste, segundo
tua afirmação, o pio e o ímpio, quer em relação ao assassínio,
quer em relação a tudo mais? Acaso o pio não é idêntico a
si mesmo em toda ação, e o ímpio, por sua vez, o contrário
a todo pio e igual a si mesmo, de modo que tudo que é dito
ímpio, no que toca à sua impiedade, tem uma certa forma (έχον
μίαν tivèc ιδέαν)?” (5 c 7 -d 4 ). D o ponto de vista terminológico,
nessa passagem fala-se de idéa pela primeira vez nos diálogos
de Platão. Portanto, poderia parecer que, já nos diálogos so-
cráticos da fase inicial, a pergunta "o que é isso?” teria como
meta a ideia platônica.
N o entanto, a pergunta de Sócrates pelo universal tam
bém tem sentido sem a assunção das idéias separadas, exis
tentes por si mesmas, como afirm a A ristóteles com razão.
Pois, com a falta de clareza do significado das palavras, como
no presente caso, é possível indagar sobre o que deve ser mais
precisamente aquilo de que se fala. N a medida em que se trata
de palavras que se relacionam com diversas ações e coisas indi
viduais, importa uma definição de conteúdos conceituais que
estejam ligados, ao menos implicitamente, ao uso das palavras,
e que tenham de ser explicitados ("ditos”) e definidos apenas
em casos polêmicos. N essa passagem, portanto, com a palavra
"ideia” não está visado de início nada mais que um conceito
ou uma predicação que possa ser enunciada como predicado
de muitas ações ou objetos e, caso necessário, anunciada até
mesmo como objeto de uma definição. A distinção entre pre
dicação e predicado cria dificuldades a Eutifron tam bém pelo
fato de que ele não é capaz de tom ar nenhuma distância crítica
perante seu próprio agir. M as, uma vez que esse agir, como ele
mesmo relata, havia sido criticado como “ímpio” por seu pai
9 4 I A questão de Sócrates e seus parentes, é preciso que ele questione a si mesmo para
saber se designa com razão seu próprio agir como “pio".
D ito de modo geral, trata-se aqui da questão: é correto
que um determinado agir polêmico “y" (o predicado) seja atri
buído ao conceito “x” (como predicação) ? M ais precisamente,
porém, antes da justificação da subsunção ou do julgamento do
caso particular, a própria justificação da predicação universal
assumida é polêmica. É evidente que Êutifron e seu pai, bem
como os outros parentes, partem de representações distintas e
sem clareza a respeito do que é propriamente pio ou ju sto. A
pergunta "o que é isso?” se dirige, por conseguinte, à predicação
universal como tal, ao “x" como “x-dade”.2
Em contraste, como é típico nos diálogos da fase inicial,
Êutifron não é em absoluto consciente da necessidade de uma
clarificação dos conceitos desde os fundamentos, mas, em sua
resposta à pergunta de Sócrates, equipara seu próprio modo
de agir com o conceito questionado: “Digo justam ente que pio
é isso que eu faço agora, a saber, perseguir [...] o malfeitor”
(5d). Como "prova” (τεκμήριον), ele apresenta Zeus, que teria
igualmente perseguido o próprio pai, e este, por sua vez, o pró
prio pai. Como fundamentação de sua ação, portanto, Êutifron
escolhe um exemplo que ele ju stifica com o mito tradicional
dos deuses. Sócrates, por sua vez, exige, em vez de uma fun
damentação da ação por meio de exemplos e mitos, critérios
universalmente aceitos e comprováveis.3 Contudo, o exemplo
escolhido por Êutifron não é gratuito, pois, à época de Platão,
o leitor certam ente o conhecia da Teogonia de Hesíodo ( V 147
2 O term o "x-dade” é form ado com o sufixo “-dade” ( ' ver-dade”, “falsi-dade", etc.) e, com o na literatura anglossaxá, deve caracterizar a palavra F-ness, o conceito universal.
3 C f. R O S , A rn o : Begründung und Begriff, H am b u rg , 1989, vol. 1, p. 41 s.
Sofistica, ironia e aporia I 95
ss. e 453 ss.). O mesmo exemplo foi empregado inclusive em
encenações teatrais, como nas Eumênides de Ésquilo (v. 640
ss.) e nas Nuvens de Aristófanes (v. 904 ss.). Além disso, ele
tam bém desempenha um papel central na crítica de Platão
aos m itos dos deuses na República (II, 377e s.)
É claro que, com o eminente exemplo, está em discus
são a instância de fundamentação dos m itos divinos em vista
de um agir ju sto ou pio. N o m ito transm itido por Hesíodo,
Cronos teria cortado seu pai Urano em pedaços porque este
teria expulsado seus filhos para o fundo da terra. Depois que
Cronos devorou seus filhos com medo de que eles lhe tomas
sem o poder, sua mulher Reia lhe deu, quando Zeus nasceu,
em vez do recém-nascido, uma pedra enrolada em panos, que
ele devorou tal e qual. Em seguida, Cronos teve de vomitar e
regurgitou a pedra ju nto com os demais filhos. Ao fim, como
tem ia, ele teve o poder tomado por seu filho Zeus. Segundo o
mito, portanto, a ordem do mundo de Zeus, do "mais excelente
e ju sto de todos os deuses” (Êutifron 5e), surge de uma longa
série de lutas por poder. A crença nas lutas por poder entre
os deuses também é expressamente sublinhada por Êutifron
quando ele alude à narrativa dos “poetas" - decerto Homero
e Hesíodo - e à apresentação da gigantomaquia sobre o ta
pete da procissão das Grandes Panateneias em Atenas (6 f
s.). Contra isso, Sócrates objeta que ele próprio rejeita “tais”
representações dos deuses e que presumivelmente está sendo
acusado de impiedade por essa razão (6a; cf. 5c, 7s.). Para ele,
o que é ju sto não pode ser legitimado pelo que é injusto.
Com sua breve observação, Sócrates põe em jogo o ponto
de vista decisivo para todo o decurso restante do diálogo, a
saber, que a ju stiça e o agir correto não são uma questão de
poder, como querem fazer acreditar o m ito tradicional dos
96 I A questão de Sócrates deuses e sofistas do porte de Górgias ou Trasímaco (República
I). Muito antes, segundo a convicção de Sócrates, tanto deuses
como homens estão igualmente subordinados à lei moral. Por
isso é que deve ser inteiramente repensado o “discurso sobre
deus” como “teo-logia” (θεολογία, República II, 379a) no sen
tido de uma instância moral absoluta. A convicção de que os
deuses são "bons” (Memoráveis I V 3) também é defendida pelo
Sócrates xenofôntico, a despeito de passagens onde se revela
sua concepção ingênua da solicitude concreta das divindades.
É evidente que o Sócrates histórico de feto levou adiante a
crítica aos mitos divinos de Homero e Hesíodo que, antes
dele, já fora feita com toda a agudeza por Xenófenes (Diels/
Kranz, frag. B 11, B 23).4
Através das raras alusões de Sócrates à correta “teo-logia”,
ditas en passant na encenação do diálogo concebida por Platão,
abrem-se no Êutijron dois diferentes planos dialógicos: de um
lado, o diálogo do leitor com Sócrates sobre a própria coisa
em questão; de outro, a contenda verbal com Êutifron. Como
na "alegoria da caverna" de Platão, por trás da luta de sombras
com as palavras, desenrola-se a história propriamente dita, a
qual, porém, só é reproduzível caso o olhar esteja dirigido para
a própria coisa em questão. Em contrapartida, Êutifron - e,
em igual medida, todo intérprete unidimensional - se perde
desesperadamente em suas próprias afirmações e permanece
imóvel em sua posição, preso aos grilhões de sua ignorância.
Com a narração de um exemplo, Êutifron erra, do ponto
de vista tanto conteudístico quanto formal, a definição re
querida por Sócrates como fundamentação de sua polêmica 1
1 V er D IE L S , H erm an n : Die Fragmente der Vorsokratiker, g r./al., 12 ed., edi tado por W alth er K ran z, 2 vols., Dublin, Z ü rich , 19 6 6 .
Sofistica, ironia e aporia I 0 7
maneira de agir. Eis como Sócrates o critica: "Anteriormente
tu não me ensinaste de modo satisfatório quando perguntado
sobre o que porventura é o pio (το όσιον ότι ποτ’ είη), mas
me disseste apenas que justamente isso que fazes agora seria
por acaso (τυγχάνει) pio" (6d 1-3). O erro de Êutifron reside
no fato de que ele tenta fundamentar sua ação não com um
critério universalmente válido, mas com um exemplo encon
trado "por acaso”.
N o entanto, não é de modo externo que Sócrates apre
senta a Êutifron a maneira correta de responder; ao contrário,
ele desenvolve a resposta a partir daquilo que o próprio Êuti-
ífon admite (cf. Mênon 71e ss.). Com isso, Êutifron concede
em três pontos: (1) sua ação é apenas um caso (possível) entre
muitos casos de piedade; (2) pergunta-se por uma ideia (είδος,
ιδέα) por meio da qual todos esses casos são pios; (3) a ideia
deve setvir como critério para a discussão sobre a ação polê
mica. O modo de falar ontológico em (2) sobre o ser-causa da
ideia para os casos individuais ( Ή é x por meio da x-dade), um
equívoco segundo muito intérpretes de Platão, é substituído
por Sócrates em (3) por um modo de falar normativo: "Essa
forma mesma, portanto, me ensina o que ela é, a fim de que
eu, mirando-a e servindo-me dela como modelo (παράδειγμα),
declare como pio aquilo que o é nas tuas ações e nas de qual
quer outro, mas o exclua daquilo que nelas não o é” (6e 4-7).
O s dois termos gregos centrais nesse contexto, ιδέα e
παράδειγμα, são compreensíveis em seu uso pré-filosófico
mesmo para Êutifron, e não estão ligados a nenhuma assunção
ulterior tal como a doutrina das idéias platônica. Literalmente,
παράδειγμα significa o “mostrado ao lado” (παραδεικνύναι =
mostrar ao lado); crianças, por exemplo, aprendem a ler e es
crever quando lhes são mostradas, ao lado das combinações
98 I A questão de Sócrates
de letras já conhecidas, as ainda desconhecidas, de modo que
elas podem identificar as letras como "diferentes” ou "iguais”
(Político 278a s.). De maneira similar, a concepção do Êutifron
supõe claramente que as marcas distintivas do “protótipo” da
piedade (x-dade) sejam mantidas ao lado das marcas do agir
pio em questão (y) e podem ser identificadas como “semelhan
tes" ou “contrapostas” (cf. 5d).
O uso de ιδέα, além disso, também não é terminologi-
camente problemático. Enunciar algo, ou predicar algo como
algo, é um ato classificatório, o subsumir de um caso individual
a uma classe. O uso classificatório de ιδέα e είδος (ambos sinô
nimos) pode ser atestado, segundo H ans Diller, já no período
pré-platônico, e não se restringe de modo algum, como fre
quentemente afirmado, à qualificação pitagórica das estruturas
geométricas5. O s mais antigos testemunhos encontram-se em
abundância já em Homero, onde είδος, em correspondência a
seu significado diacrônico de “ver” (οΐδα = eu vi = eu sei), sig
nifica "aquilo que é visto, que aparece visualmente"6. Em uma
espécie de fisiognomia elementar, homens ou seres vivos são,
em geral, divididos em determinados grupos com determina
das expectativas segundo seu aspecto ou είδος. Por exemplo,
Argos, o cachorro de Odisseu, permite que, "conforme seu
aspecto”, dele se espere velocidade (Homero, Odisséia 17, 308).
Entretanto, expectativas também podem ser frustradas, tal
como Odisseu, já de volta a Itaca, confronta Antínoo, o preten
dente de Penélope: “Pelos deuses, quão pouco se assemelham
teu coração e tua figura!” (17,454).
5 D IL L E R , H a n s: Z um Gebrauch von eidos und idea in der vorplatonischer Zeit; in: E U L N E R , H a n s-H e in z (ei alli) (o rg .): Medizingeschichte in unserer Zeit, S u ttgart, 1971, pp. 2 3 -3 0 .
6 Idem, p. 24.
Sofistica, ironia e aporia I 00
A distinção de homens, seres vivos e coisas em grupos
formados segundo seu aspecto é bastante recorrente em He-
ródoto e Tucídides, mas sobretudo nos escritos hipocráticos.
Além das expectativas oriundas de propriedades sensíveis,
com o termo είδος também estão visadas espécies de com
portamento ou de situação. Assim, Tucídides fala do είδος
ou da ιδέα da peste, da morte ou da guerra. Por fim, com
είδος também é designado um procedimento: nos escritos
hipocráticos, o procedimento médico diante das enfermidades
(as maneiras de repor em seu lugar o braço deslocado ou de
fazer ataduras, etc.); em Heródoto e Tucídides, as maneiras
de planejar e agir militarmente.
Portanto, por trás do uso que Sócrates faz da palavra είδος
ou ιδέα no Êutifron, não é preciso supor nenhuma ampla assun
ção de idéias "eternas” ou "separadas”, conforme nota Aristóteles
com razão. Sócrates apenas gostaria de saber de Êutifron como
ele emprega o conceito “piedade” no sentido classificatório e
usual de είδος, a fim de classificar ou julgar corretamente a ação
polêmica. Ao estatuto ontológico dos conceitos universais - se
ele é m s coisas, se é separado delas, se é mera síntese dos indiví
duos - ele presumivelmente não dedicou nenhuma meditação.
Além disso, a história concreta do diálogo torna improvável
que ele considerasse sensata uma regra livre de contexto, uni
versalmente válida para todos os casos individuais. Muito an
tes, Sócrates claramente considerou os conceitos como pontos
de vista provisórios para a classificação dos fenômenos, isto é,
! X como universais hipotéticos. Ademais, "a piedade” ou "o bem”
não eram para ele um mero conteúdo conceituai que deveria
ser entendido dessa ou daquela maneira, mas sim uma questão
fática no sentido duplo de πράγμα, que pode ser experienciada
e deve ser realizada pelo próprio indivíduo.
100 I A questão de Sócrates
Depois de aparentemente aclarado o modo como a res
posta deve ser buscada, Êutifron dá uma primeira definição
formalmente correta: "Aquilo que é amável aos deuses é pio;
o que não é amável é infame” (6e 11 s.). Sócrates dessa vez
está satisfeito com o modo como (ώς) a reposta foi dada, mas
logo em seguida ele a submete a uma inspeção de conteúdo
(άληθώς), partindo novamente das afirmações admitidas por
Êutifron. Para obter uma impressão do procedimento con
creto de Sócrates e poder pensar por si mesmo junto com ele,
recomenda-se observar cada um de seus passos um pouco
mais precisamente (7a-8b). Piedade e impiedade são opostos
[1]. O s deuses são inimigos recíprocos e em discordância [2],
Diferentemente das questões matemáticas (calcular, medir,
pesar), as questões morais (o justo, o nobre, o bem) não le
vam a nenhuma “decisão suficiente” (ικανή κρίσις) e por isso
levam à discordância [3]. D e [2] e [3] se segue que homens e
deuses são igualmente discordantes quanto às questões morais
[4], De [4] resulta que a mesma coisa é amada e odiada pelos
deuses [5]. Consequentemente, "a mesma coisa" seria "tanto
pia quanto ímpia" [6]. A inferência [6] contradiz a premissa
[1], o que é constatado em [7]. A ação de Êutifron também
é, ao mesmo tempo, pia (amada por Zeus) e infame (odiada
por Cronos e Urano) [8J.
Com isso, Sócrates refuta a definição de Êutifron. Para
justificar seu próprio agir, Êutifron tenta então salvá-la por
meio de uma afirmação contra [3]: todos os deuses estão em
concordância quanto ao fato de que “teria de sofrer punição"
todo aquele “que matou injustamente um outro” (8b 8 s.) [3'].
Sócrates, por sua vez, toma o ponto [3] mais preciso, partindo
das próprias afirmações admitidas por Êutifron: o princípio
por este afirmado não é polêmico, mas sim sua aplicação ao
Sofistica, ironia e aporia I IO I
caso particular [3"]. Portanto, mesmo que se conceda o ponto
[3’], isso não tem importância para a argumentação. Sócrates,
porém, não retoma a questão fundamental, a saber: como, com
o auxílio da capacidade de julgar, um caso particular pode ser
referido a um universal? Antes, insistindo no ponto [3”], ele
exorta Êutifron a fundamentar seu próprio caso particular, a
demonstrar que todos os deuses estão de acordo quanto ao
fato de ser “justo” ele perseguir o pai em virtude do assassi
nato injusto de um empregado. Naturalmente, a demonstração
exigida não pode ser dada por Êutifron, que simplesmente
afirma que seu agir concreto faz justiça a todos os deuses [3’”].
N o entanto, como afirma Sócrates em seguida, ele de
todo modo não teria como salvar a demonstração aduzida,
pois, mesmo se o ato inicial do empregado fosse demonstrado
como “injusto” ou “odioso aos deuses”, disso resultaria uma
contradição, como argumenta Sócrates de uma maneira ex
tremamente sophisticated: o ato seria ao mesmo tempo "agra
dável aos deuses”, como resulta de [6], Mas com isso Sócra
tes encobre o nexo argumentativo. Naturalmente, ambos os
conceitos, pio e ímpio, não significavam per se o mesmo, mas
somente em razão da discordância dos deuses afirmada em
[3]. É justamente esta afirmação que Êutifron já negara, com
a anuência de Sócrates, por meio da afirmação em contrário
[3’]. É assim evidente que Sócrates argumenta de modo vi
cioso. N o nível do diálogo com Êutifron, sua argumentação
viciosa, manipuladora, tem a função de levar à frente, através
de uma nova hipótese (9d), a conversa até então pautada nas
afirmações infundadas de Êutifron. Em contrapartida, no ní
vel do diálogo com o leitor, a argumentação faz nova alusão
à luta de sombras, apenas sofistica, com meras palavras ou
“hipóteses” arbitrárias.
102 I A questão de Sócrates
Como nova definição, Sócrates declara que “o que todos
os deuses odeiam deve ser infame; e o que todos amam, pio”
(9d 2s.). Tal definição também é assumida por Êutifron. Em
seguida, Sócrates lhe dirige uma pergunta:
S ó c r a t e s: “Ora, não devemos tomar em consideração também isto [a nova definição], para saber se está bem dito, Êutifron? Devemos deixá-lo de lado, dando-nos logo por satisfeitos com nós mesmos e com os demais, de modo que, tão logo alguém afirme que algo se comporta de certa
maneira, nós logo o concedamos e aceitemos, ou é preciso primeiramente examinar o que com efeito diz quem diz algo? (σκεπτέον τι λέγει ό λέγων)?"
Ê u t i f r o n : “É preciso examiná-lo. M as acredito que está correto o que agora se disse.”
S ó c r a t e s : "Breve, m e u c a ro , n ó s o saberemos melhor.”
(9e s.)
A comprovação subsequente, por sua vez, assemelha-se a uma
conversação antes erística que orientada pela razão (10a-llb):
é preciso distinguir entre a causa e o efeito de uma ação [1];
o “pio" é causa [2]; como algo “amado pelos deuses”, o "pio”
seria porém efeito [3]. A definição proposta é falsa, porque de
[1] se segue que o “pio” não pode ser o "amado pelos deuses”;
além disso, não foi apresentada a “essência" (ούσία), mas ape
nas uma "propriedade” (πάθος) (o "ser amado pelo deuses”)
do buscado "pio” [4] 7
Porém, com uma consideração mais precisa, [4] não é
de fato procedente, pois [2] e [3] foram mais uma vez impin
gidos por Sócrates através de mera manipulação, sem terem 7
7 A distinção entre ουσία e π ά θο ς ( “substância” e “acidente”), im portante para a filosofia píatônico-aristotélica, está antecipada n o Êutifron (1 1 a s.).
Sofistica, ironia e aporia I /OJ
sido demonstrados. A correta distinção entre causa e efeito de
uma ação, obtida em [1], é empregada em [2], e consequen
temente em [3], por meio de sua simples aplicação ao "pio” e
ao "agradável ao deuses”. Para preservar [2], Sócrates primeiro
reformula, de maneira plenamente correta do ponto de vista
gramatical, o enunciado originariamente ativo "o que todos
os deuses amam” (9d 2s.) em um enunciado passivo "o que é
amado por todos os deuses" (10d2; cf. 10a2). Possivelmente, a
formulação passiva induz Eutifron a aceitar o "pio” ativo como
causa do “ser-amado” (passivo). Assim, ele não percebe que
promove com isso um giro total em sua concepção original
do “pio” e, portanto, sobretudo na valoração de seu próprio
modo de agir. Se primeiramente ele havia designado seu pró
prio comportamento como pio, porque os deuses, ou ao menos
Zeus, o amariam, agora, ao contrário, ele propõe o “pio” como
causa acima das ações dos deuses e dos homens e, portanto,
acima de sua própria ação. Por conseguinte, Eutifron defende,
em conformidade com a coisa em questão, a convicção fun
damental de Sócrates, segundo a qual, em nosso agir, temos
de ter como medida absoluta de nossa orientação o justo ou
o bem (no presente caso, o pio).
Evidentemente, a posse de uma definição verbalmente
correta não garante em absoluto seu insight, tampouco tem
qualquer vínculo com um agir que lhe corresponda. Embora
Eutifron tivesse declarado verbalmente estar de prontidão para
a inspeção, seu comportamento mostra que ele tenta se subtrair
de uma autoinspeção real por meio de truques argumentativos,
ao fazer afirmações baseadas apenas no ponto de vista de seu
próprio interesse, sem fornecer a fundamentação necessária
ou adentrar os argumentos de seu interlocutor Sócrates de
modo a revelar suas falhas argumentativas evidentes. Decerto
I 04 I A questão de Sócrates
não se pode excluir que as fragilidades dos argumentos sejam
do próprio Platão como autor do diálogo. N o entanto, como
disputa verbal sofistica, o Êutifron sugere que se suponha em
tais fragilidades uma intenção da direção dramática de Platão.
A intenção de Platão, com efeito, não se exaure em esti
mular os leitores a uma autoinspeção crítica das falhas argu-
mentativas ou das obscuridades conceituais. Em acréscimo
ao plano sintático-semântico do diálogo, ele quer chamar a
atenção para o plano pragmático, para o acontecer do diálogo.
A dimensão pragmática da questão inspecionadora “o que é
isso?” é reconhecível apenas através da indicação indireta de
Sócrates aos leitores como testemunhas distantes do diálogo,
mas não através de uma comunicação direta de Sócrates a Êu
tifron como participante da disputa verbal. Em sua autocon
fiança, aliás, o adivinho parece ser mesmo incapaz de qualquer
autoinspeção. Somente com base na diferença entre discurso e
comportamento, o Êutifron ou qualquer outro diálogo da fase
inicial é mais do que uma acentuação trivial de regras lógicas
elementares da inspeção conceituai e argumentativa, sendo este
o mérito atribuído em tais diálogos, sobretudo desde Aristó
teles, ao Sócrates platônico.8
Espelhando a prontidão meramente exterior de Êutifron
em submeter-se a sério a uma inspeção de sua pretensão ao sa
ber e, portanto, a uma autoinspeção, a própria inspeção socrá-
tica no diálogo é meramente exterior. Sócrates tanto contraria
' D e m odo sem elhante. P atzig distingue entre um "erro argum entative in tencionado” e um a "fragilidade argum entativa que o próprio P latão ainda não pôde entrever com o tal"; em sua análise dos erros intencionados, porém , Patzig apaga o plano pragm ático do diálogo e se interessa por ambas as formas de erro argum entative som ente a p artir da visão da filosofia da linguagem analítica m oderna. C f. P A T Z IG , G ü n th er: Platon; in : H O E S T E R , N o rb e rt (otg.): Klassiker des philosophischen Denkens, vol. 1, M ünchen, 19 8 2 , p. 14.
Sofistica, ironia e aporia I IOS
de modo reiterado o comportamento de Êutifron através de
seu próprio comportamento quanto leva ao ápice a arbitrarie
dade sofistica na disputa verbal. Ele emprega na inspeção o
procedimento sinonímico de Pródico, manipulando-o ao ex
tremo para a refutação de seu adversário, ou seja, com a mera
finalidade de tornar o outro um perdedor ou de lhe "passar
a perna” (Eutidemo). Uma inspeção comum, orientada para a
verdade, não está mais uma vez em curso. Assim, Êutifron
de fato tem de conceder sua confusão, mas sem compreender
realmente sua ignorância e sem continuar a busca em comum
com Sócrates, como o escravo no Mênort (82a ss.). Ao con
trário, Êutifron fala várias vezes das “nossas” hipóteses que
não querem “permanecer”. Diante disso, Sócrates o lembra
reiteradamente de que as afirmações em discussão são apenas
dele, Êutifron. Por isso, também rejeita a comparação com seu
“ancestral” Dédalo, na medida em que não são os seus pró
prios artefatos verbais, mas sim os de Êutifron (11c s.) que se
movimentariam como as marionetes de Dédalo9.
Em seguida, uma vez que afirma estar interessado em
"discursos imóveis" ou em uma definição consistente, o próprio
Sócrates sugere como nova definição "que todo pio também
seja justo” ( li e 5). Com isso, ele remonta a algumas observa
ções precedentes, na verdade incidentals (5e 7 ,8b ss.), mas de
novo não dá seguimento à fundamentação de sua sugestão.
Em vez disso, na inspeção desta sugestão, que é aceita por
Êutifron, Sócrates procede mais uma vez em vários passos, de
uma maneira já conhecida: ou conceitos são de mesma abran
gência e predicáveis uns dos outros em proposições universais
’ Sobre D édalo, cf. M A R T E N S , E .: D er Faden der Ariadne, Leipzig, 2 0 0 0 , pp. 2 5 -3 8 .
ιο 6 I A questão de Sócrates reversíveis [1]; ou eles estão numa relação recíproca entre parte
e todo [2). O pio é uma parte do justo como todo [3]. Toda
parte tem de ser determinada mais precisamente como parte
do todo [4]. O pio, como "cuidado com os deuses", é mais
precisamente uma parte do justo [5].
Enquanto Sócrates demonstra com [1] e [2] uma peça
não problemática da doutrina elementar dos conjuntos, que
também Eutifron entende imediatamente a partir da compa
ração entre os números pares e ímpares, em [3] mais uma vez
não é reconstituível por que o pio deve evidenciar-se precisa
mente como parte do justo, e não inversamente o justo como
parte do pio. Como explicação seria imaginável que já antes se
falara de passagem neste sentido (8b ss.). Porém, mais interes
sante que este novo testemunho de argumentação erística "por
todos os lados" é o exemplo para [4], a divisão dos números
em pares e ímpares: "Par é o número que não é escaleno, mas
isosceles" (12d 9s.). Esta definição e o significado da mate
mática para o filosofar socrático, no entanto, é compreensível
apenas diante do pano de fundo da exposição pitagórica dos
números como figuras. Por isso, no que se segue, ela será elu
cidada mais de perto10.
Com a ajuda de pedrinhas (ψήφοι), os pitagóricos com
punham figuras nas quais se podia “ver" as relações entre os
números. Assim, os números ímpares (1, 3, 5, 7) menciona
dos no exemplo de Sócrates podem ser vistos em quadrados
(1, 4, 9, 16) (imagem 1), e os números pares (2, 4, 6, 8) em
retângulos (2, 6, 12, 20) (imagem 2). Para poder ver e con
servar os quadrados com a forma (n.n) ou os retângulos com
10 C f. B E C K E R , O skar: Die Grundlagen der Mathematik in geschichtlicher E n twicklung, Freiburg i. B r./M ü n ch en , 19 6 4 , esp. pp. 3 4 -3 6 .
Sofistica, ironia e aporia I 107
a forma (n [n + 1]), dispõe-se a cada vez, ao redor da figura
de partida, respectivamente de uma ou duas pedrinhas o anel
adequado composto pelas pedrinhas seguintes, o assim cha
mado gnômon (“indicador"). Caso se considere cada um dos
gnômones correspondentemente, reconhece-se com facilidade
que, nos quadrados, eles têm a forma (η + n + 1 = 2n + 1) e, nos
retângulos, a forma (n + n = 2n ) . Caso se verifique em seguida,
em ambas as figuras, o número das pedrinhas nos gnômones,
pode-se ver mais uma vez com facilidade que os números ím
pares (3, 5, 7) nos quadrados (4, 9, 16) são "capengas” (n[tt +
1]), mas os números pares (4 ,6 ,8 ) nos retângulos (6 ,1 2 , 20)
são “de pernas iguais” (2n).
Que a filosofia de Platão se orienta até certo ponto pelo
modelo da matemática ou da geometria, isto já é sabido11. Em
contrapartida, menos conhecido é o papel que o Sócrates his
tórico imputou à matemática em sua filosofia. Para come
çar, ele de fato parece ter se interessado também por questões
11 C f. M I T T E L S T R A S S , Jü rgen : Die geometrischen Wurzel der Platonischen Ideenlehre, in: Gymnasium 9 2 (1 9 8 5 ) pp. 3 9 9 -4 1 8 ; para a relativizaçáo desta interpretação, cf. W I E L A N D , W olfgan g: Platon und die Formen des Wissens, G öttin gen 19 8 2 , p. 2 1 4 : Ό m atem ático é propriam ente o platônico’ no sen tido corren te da palavra. Ele - e apenas ele - está caracterizad o por um a m entalidade à qual convém um a representação de dois m undos. T a l m enta lidade lhe sugere desconhecer o caráter hipotético de seus pressupostos e ver neles elem entos objetivos de um nível de realidade m ais alto”.
ιο 8 I A questão de Sócrates
matemáticas, como sugerem fontes contemporâneas. Assim,
Aristófanes o escarnece nas Nuvens (v. 202 ss.) por causa de
sua "geometria”, com a qual ele gostaria de medir não apenas
"lotes, jardins”, por exemplo, mas sim rapidamente "o todo,
tudo". Embora não se possa deixar de observar que em Aris
tófanes a figura de Sócrates enfeixa todos os traços possíveis
da especulação física e da sofistica contemporâneas, por outro
lado é manifesto que determinadas objeções a Sócrates - in
clusive a objeção da especulação geométrica inútil - mantêm-
se tenazmente de pé, na medida em que não podem ter sido
levantadas sem qualquer fundamento. De qualquer modo, em
sua intenção apologética, Xenofonte também sai em defesa de
Sócrates contra semelhante objeção. Em verdade, Sócrates
teria aceitado a geometria para fins práticos, como a medição
de terrenos (γεωμετρία = "arte de medir a terra”), e recusado
o aprendizado de "figuras difíceis de entender”: "Embora não
fosse inexperiente no assunto, ele dizia que não compreendia
para que elas deveríam servir, e considerava que tais investiga
ções requeriam toda uma vida humana, enquanto outros co
nhecimentos úteis eram negligenciados” (Memoráveis I V 7,2 s.).
As passagens de Aristófanes e Xenofonte tornam plau
sível que os exemplos matemáticos no Êutifron ou o diálogo
com o escravo no Mênon são, quanto ao Sócrates histórico,
plenamente dignos de fé. C om elas podem-se demonstrar
alguns insights filosóficos importantes. Primeiro, a figura sen
sível das pedrinhas como gnômon “mostra" apenas a figura de
determinadas relações numéricas àquele que já sabe “desde
antes” o que são números e que pode “rememorar-se" delas
através da disposição das pedrinhas. Para Sócrates, clara
mente a “doutrina da anamnese” só é importante em vista de
um prévio saber da areté ou do bem, não como pré-encarnada
Sofistica, ironia e aporia I IOÇ
contemplação das idéias. Segundo, não se pode captar intui
tivamente a “figura” dos números com um único olhar, sem
um trabalho cognitivo precedente, mas é preciso dispor cada
pedrinha uma após a outra, peça por peça, até que se veja
de repente sua conexão como "uma figura”. Exatamente da
mesma maneira, também é preciso “discutir" uma afirmação
passo a passo, até que ela “de repente" se evidencie a alguém
como um todo. Terceiro, o prévio saber e a discussão de uma
questão levam à divisão ou diérese de um todo em suas partes,
tal como Platão pratica a diérese enquanto arte dialética, em
especial no Filebo e no Sofista.
Porém, de maneira semelhante à imagem escrita, com
suas letras numericamente apreensíveis (Filebo 17a-18d), ou
às divisões tabelares, como do justo e injusto no diálogo de
Sócrates com Eutidemo (Xenofonte, Memoráveis I V 2), a
orientação matemática também pode levar facilmente a es-
quematizações e fixações do conhecer conceituai, e inspirar
um duplo equívoco. Por um lado, as figuras geométricas e as
relações numéricas poderíam, como entre os pitagóricos, ser
concebidas como a estrutura de todos os domínios da reali
'1
dade (nesse caso, a aretè podería inclusive aparecer como uma
u
ordem rigidamente amarrada da realidade, nítida ou mais
seguramente apreensível através do procedimento dierético12).
Por outro lado, o saber da virtude também podería aparecer
como saber que se relaciona a um domínio de objetos inde
pendente do sujeito.
Todavia, é justamente ao exigir que Eutifron, em ana
logia à diérese matemática, faça igualmente uma diérese da
12 P ara a "explicação m atem ática da diérese das idéias", cf. G A IS E R , K onrad: Platons ungeschriebene Lehre, S tu ttg art, 1963, esp. pp. 1 2 5 -1 2 8 .
IIO I A questão de Sócrates buscada piedade como parte da justiça, que Sócrates leva ad
absurdum sua própria representação de um saber esquemá-
tico, separável do sujeito. Em contraste com o saber mate-
mático, desde o começo a peculiaridade do saber da areté é
nitidamente salientada, ao menos no plano do diálogo com
o leitor. Já no início do diálogo, o próprio Êutifron assem
tira expressamente a Sócrates que, em oposição às questões
matemáticas, não há no domínio do pio, do justo e do bem
qualquer “decisão suficiente" (7b-d), mais segura, embora
ele não tenha extraído disso, face à polêmica ação de acu
sação contra o próprio pai, as consequências para sua pre
sunção autoconfiante ao saber. Através do contraste com a
separação entre discurso e ação que caracteriza Êutifron,
no decorrer de todo o diálogo é indicado ao leitor de modo
suficientemente claro que no incerto saber da areté repousa
uma unidade entre o conhecer, quem conhece e a ação. N o
entanto, é sobretudo na pessoa do próprio Sócrates que tal
unidade se incorpora.
Ainda que, com bastante segurança, o Sócrates histórico
tenha relacionado entre si o conhecimento matemático e o
saber da areté, nisso nem é possível censurar-lhe fixações, nem
é lícito imputar-lhe uma confusão entre os saberes teórico e
prático - como fez, em particular, Aristóteles. Caso também
se leiam os diálogos platônicos da fase inicial e tardia par a
par com a compreensão socrática da matemática, podem ser
igualmente descobertas antes as diferenças do que as comu
nhões entre o conhecer matemático e o filosófico. Enquanto
na matemática lida-se com um conhecimento teórico isento
de dúvidas, próprio de um domínio de objetos independente
de quem conhece, no conhecimento da areté ou do bem-viver
lida-se com um conhecimento prático, a ser inspecionado
Sofistica, ironia e aporia I I I I
renovadamente a cada caso singular. Nele, o conhecer, quem
conhece e a ação formam uma unidade13.
Quão pouco um conhecimento orientado pela clareza
conceituai matemática é de maior ajuda para o saber da areté
mostra-o manifestamente, mais uma vez, o desfecho aporético
do diálogo. Com sua resposta de que o pio seria a parte do
justo que concerne ao "cuidado com os deuses” (12e), Êutifron
de fato faz uma definição formalmente correta segundo o mo
delo da distinção numérica; no entanto, ele não chega a um
insight real. Apesar das refutações precedentes, ele permanece
em sua autoconfiança inicial e continua claramente conven
cido de que a acusação judicial contra seu pai é uma ação "pia”
enquanto serviço ou "cuidado com os deuses". Ademais, ele
não compreende as consequências práticas de uma correção
sugerida por Sócrates: ainda que os homens tenham a pos
sibilidade de servir aos deuses, estes, em sua autarquia, não
careceríam de qualquer cuidado da parte dos homens (13d).
Em vez disso, Êutifron só é capaz de concordar com uma
ulterior distinção verbal, própria da sinonímica de Pródico: o
polissêmico θεραπεία (terapia) pode também significar, além
de "cuidado”, "serviço”.
Várias vezes exortado por Sócrates, de maneira bas
tante ostensiva, a nomear o mais importante, "o capital” (tò
κεφάλαιον) dentre as "muitas e belas” obras dos deuses nas
quais um homem poderia auxiliá-los (14a), Eutifiron se apro
xima verbalmente de uma solução tangível, ao responder que
se trata do bem-estar do indivíduo e da pólis (14b 4s.). Po
rém, se desde uma observação lateral ao início do Êutifron
13 N esse sentido, seja feita aqui u m a breve alusão à filosofia “construtivista” da m atem ática.
112 I A questão de Sócrates esta buscada figura da piedade podia ser entrevista ao menos
em esboço às costas de Êutifron, no fim do diálogo ela resta
plenamente obscura e é ainda mais embaciada por palavras e
frases confusas. Como Sócrates finalmente explica em uma
resposta posterior, na Apologia, sua inspeção crítica do saber
seria uma boa ação a serviço do deus Apoio e em favor dos
indivíduos e da pólis (23a s.) A buscada piedade consistiría,
portanto, em "viver melhor a vida" (Êutifron 16a) e em fazer
valer como medida suprema os mandamentos da justiça di
vina. N o nível do diálogo com Êutifron, permanece-se na
aporia e na ironia; no nível do diálogo com os leitores, porém,
torna-se reconhecível o caminho correto através da ignorância
ironicamente reiterada por Sócrates do início ao fim. Retros
pectivamente, este caminho já fora tomado por Sócrates e
pelos leitores nos primeiros passos do diálogo.
Sofistica, ironia e aporia 113
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1
C a p í t u l o 6
“B e m -v iv e r ” e ig n o r â n c ia s o c r á t ic a
A Apologia de Platão, o segundo diálogo socrático, é uma
justificação filosófica da atividade socrática, mas não uma de
fesa jurídica para sua absolvição ou um documento histórico
de sua atividade. À diferença do Êutifron ou de outros diálogos
da fase inicial, Sócrates não inspeciona a pretensão ao saber de
outros, mas tem de prestar contas de si, sozinho, diante dos
jurados atenienses. Com isto, como de costume, a sua defesa
incorre na inspeção dos próprios acusadores. M as é apenas
em primeiro plano que Sócrates oferece informações sobre
o seu saber e o seu agir; na realidade, estão em discussão os
critérios de seus críticos. Sócrates faz do processo político um
processo filosófico. Por outro lado, Sócrates não é para Platão
nenhum sábio desconectado de seu tempo, mas um pensador
que entendia a si mesmo como “ferrão” (30e 5) de sua cidade
natal, Atenas, e que também se ocupava integralmente com
política concreta do dia a dia.
Uma vez que Platão, em seu romanceado discurso de
defesa, pretendia dignificar e entender Sócrates a partir do
contexto histórico, ele não podia apenas invocar princípios
filosóficos universais, mas tinha de desenvolvê-los em uma
discussão com as circunstâncias da época. É presumível que
estas ainda estivessem largamente presentes aos seus leitores
quando ele compôs o texto, provavelmente logo após a execu
ção de Sócrates. O leitor hodierno da Apologia, em contraste,
precisa primeiro presentificar tais circunstâncias para obter
‘Bem-viver” e ignorância socrática I I I 5
0 pano de fundo necessário à leitura.1 As informações que se
seguem devem oferecer um auxílio nesse sentido.
(1) Tempo - O processo contra Sócrates aconteceu em 399
A .E.C . Precedera-o em 40 4 a capitulação de Atenas na
Guerra do Peloponeso e o regime dos Trinta Tiranos,
submisso a Esparta. Ao lado de Crítias e Cármides, tam
bém pertenciam aos Trinta outros alunos de Sócrates e
parentes próximos de Platão (Platão, Carta V II 324d;
Cármides). Embora o regime tenha sido extremamente
cruel e matado um em cada vinte dos cerca de 30 mil
cidadãos atenienses, em 403, após a restauração da de
mocracia promovida por Trasíbulo, foi decretada uma
anistia geral, segundo a qual os colaboradores deveríam
estar livres de punição.
(2) Tipo de acusação - A diferença de uma acusação privada
(ιδία δίκη), feita pela parte lesada ou por seu representante
(cf. Êutifron 2a s.), Sócrates teve de responder a uma acu
sação pública (δημοσία δίκη ou γραφή = petição pública),
que era prerrogativa de qualquer cidadão probo.
(3) Acusadores - Nominalmente, o principal acusador era
Meleto, do qual pouco se sabe; o acusador secundário
era o igualmente desconhecido Lícon, além de Anito,
prestigiado cidadão de Atenas, que entre 403 e 397 foi
estratego (chefe de exército), um oficio de alta responsa
bilidade. N o Mênon de Platão (90a-95a), Anito critica os
sofistas como professores, mas tem de conceder a Sócrates 1
1 Cf. FINLEY, Moses L: Sokrates und die Folgen[orig. Socrates and after];in: FINLEY, Moses I: Antike und moderne Demokratie [Democracy Ancient and modern],Stuttgart 1980, pp. 76-106. Ver também FUHRMANN, Manfred (org.): Platon: Apologie(gr./al.), Stuttgart, 1986.
i i 6 I A questão de Sócrates
que os prestigiosos cidadãos de Atenas tampouco são
bons professores de seus filhos. Embora seja uma predição
posteriormente formulada por Platão, a admoestação de
Anito a Sócrates, segundo a qual este deveria precaver-se
de tal crítica, caracteriza-o como um dos típicos represen
tantes dos valores convencionais com os quais Sócrates
entra em colisão.
(4) Instância jurídica - As acusações relativas a crimes religiosos
ou capitais eram da competência do “arconte basileu", um
alto magistrado que, como βασιλεύς (“rei”), assumiu na
Atenas democrática as funções da antiga realeza. A audi
ência principal acontecia diante de um tribunal de justiça
(δικαστήριον) composto por 501 jurados. Estes eram de
finidos por sorteio a partir de uma lista de 6 mil voluntá
rios, todos cidadãos atenienses escolhidos pela Assembléia
Popular. Entre eles estavam presumivelmente muitos que
queriam apenas ganhar o exíguo soldo de jurado e decerto
tinham diminuta afinidade com as arguições.
(5) Procedimentos do processo - Primeiro, com todos os meios
da retórica jurídica que lhes estavam à disposição, os acu
sadores elucidavam em pormenores sua acusação escrita
(17a-18a).2 Em seguida, o acusado tinha a oportunidade
de manifestar-se sobre a própria culpabilidade (18a-35d,
primeiro discurso de Sócrates), momento em que o acusa
dor estava legalmente obrigado a responder às perguntas
do acusado (25d). Enquanto no "processo sem avaliação
[de pena]” (άτίμητος άγών) a medida punitiva estava esta-
2 É provável que seja deste tipo a acusaçáo escrita por Polícrates contra Sócra tes, igualm ente forjada e preservada apenas e m poucos fragm entos. Possivel m ente, a “defesa” de P latão tam bém deveria dar-lhe u m a resposta adequada.
‘Bem-viver” e ignorância socrática I I I J
belecida legalmente, sendo possível apenas a condenação
ou a absolvição, no "processo com avaliação [de pena]"
(τίμητος αγών), ao qual pertencia também o julgamento
de impiedade, o acusador propunha uma determinada
pena que elucidava após a eventual condenação, na se
gunda parte do processo. Depois, o acusado tinha a opor
tunidade de propor uma pena mais leve (35e-37c, segundo
discurso de Sócrates). Por fim, o tribunal devia decidir-se
entre a proposta e a contraproposta de pena. Um discurso
final, como o que Sócrates dirige aos jurados após sua
condenação à morte (37c-42a), não estava prescrito.
(6) Acusação escrita - O s principais pontos de acusação (rene-
gação dos deuses da pólis, introdução de um "demônio”
próprio e "corrupção" da juventude) concordam entre si
segundo todas as fontes (Platão, Apologia 24b; Xenofonte,
Memoráveis 11,1 e Apologia 10; Diogenes Laércio, II 40)
e com bastante certeza são autênticos. Como relata Dio
genes Laércio ( I I 40), no início do século II E.C . o texto
ainda estava conservado no arquivo de Estado ateniense.
(7) Veredicto de culpa - N a primeira votação dos jurados, Só
crates foi considerado culpado pela estreita maioria de
trinta votos (Platão, Apologia 36a), ou seja, por 280 contra
220 votos3; segundo Diogenes Laércio ( I I 42), na segunda
votação decisiva sobre a pena de morte proposta pelo acu
sadores, juntaram-se à maioria mais oitenta jurados, pos