A questão de Sócrates: uma introdução
Fig Ura I
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
causa da influência perniciosa que, com seu saber aparente,
os poetas de orientação sofistica ou seus intérpretes exercem
sobre os ouvintes, a educação sofistica por meio da poesia an
tiga deve ser excluída do ideal de Estado platônico - mas não
por causa de uma aversão fundamental à poesia ou a outras
formas de arte, como se imputa frequentemente a Platão. Em
suas magistrais obras literárias, Platão foi um artista grandioso
demais para ter semelhante aversão. Q ue na República, com
efeito, não se trate de uma crítica aos poetas em geral, mas
sim de uma crítica à sua funcionalização sofistica, isso Sócrates
deixa claro desde o início, quando descreve a Gláucon como é
um artesão que reivindica produzir "tudo” na terra e no céu.
Conform e a expectativa, logo em seguida, Gláucon chama
tal artesão de “sofista totalm ente maravilhoso” (596d), num
exagero irônico que torna imediatamente visível o absurdo da
onisciência sofistica (cf. Htpias I I 368a-369a).
M ais exatamente, segundo Sócrates, o sofista, com seu
pretenso saber, está afastado da verdade numa gradação de
três níveis e, mesmo nela, ocupa apenas o terceiro lugar. Para
fundamentar sua afirmação, Sócrates parte, “como de hábito”,
do fato de que temos uma "visão” ou uma “figura" (είδος) das
muitas coisas diante de nós às quais damos o mesmo nome.
Oralidade e escrita I 65 É na direção dessa figura, por ele mesmo não produzida, que
o artesão olha quando produz a mesa "que usamos” (República,
596a s.). Q ue não se trata, com o "saber das idéias”, de um
conhecimento puramente intuitivo, mas ao mesmo tempo de
uma experiência prática, de um "uso”, isso se tornará ainda
mais claro no que se segue.6 Sócrates distingue, de início, o
“produtor da essência”, que fez a única cama ideal, o "produtor
da obra”, que produz segundo esse modelo as muitas e diver
sas camas, e enfim o "reprodutor da imagem” das camas. Este
ele subdivide igualmente em três níveis: em primeiro lugar
vem quem reespelha todas as coisas; em segundo, quem as
repinta; em terceiro, quem as repoetiza "em palavras e nomes”
(601a). Aquele que conhece tão só palavras e nomes não tem
absolutamente nenhum saber. O saber realmente efetivo só é
obtido com o uso prático: “mas agora, com efeito, a excelência
(άρετή), a beleza e a retidão de cada aparelho e instrumento,
bem como de todo ser vivo e de toda ação, não se relaciona a
nada mais senão justam ente ao uso para o qual cada coisa é
fabricada ou, por natureza, produzida” (601d).
Se aqui o Sócrates platônico relaciona o saber de uso à areté
dos objetos e das ações em conjunto, ele se distingue claramente
do Sócrates histórico, o qual, segundo todos os testemunhos
disponíveis, perguntou tão só pela areté no sentido estrito de
“virtude ética” ou de "bem-viver” Em ambos os casos, porém,
não há como evitar que o saber de uso seja submetido a uma
elucidação e a uma inspeção feitas com auxílio de um saber
proposicional. A realização do saber de uso tem êxito sem o
6 Cf. também MARTENS, E.: Platonischer Pragmatismus und aristotelischer Essentialismus; in: STACHOWIAK, Herbert (org.), Pragmatik, vol. 1, Ham burg, 1986, pp. 108-125.
66 I A questão de Sócrates
saber proposicional, mas não a sua comunicação e inspeção.
Com base em sua habilidade prática, o artesão pode produzir
uma mesa ou uma cama, mas, se interrogado a respeito disso
pelo usuário ou pelo pupilo, ele tem de poder fazer-se compre
ender com o auxílio de um saber proposicional. Inversamente,
porém, é só através de sua referência ao saber de uso, na forma
de discurso dialogado ou de ações concretas, que o saber pro
posicional escapa do perigo de enrijecer-se em um esquema
universal. Quem produz ou utiliza mesas ou camas, todavia,
vê um saber de manual, no melhor dos casos, como um recurso
possível para a própria experiência e transm ite sua habilidade
prefèrencialmente por meio de um produzir em comum.
Caso se retenha na memória a conexão entre saber de
uso e saber proposicional, escapa-se do perigo de conceber
a estrutura da escrita como a estrutura da coisa em questão,
e de transcrever a metáfora da escrita em uma doutrina das
idéias ingênua, reificante. Deveras, tais tendências não podem
ser ignoradas em Platão, mas podem ser facilm ente corrigidas
após sua crítica à ingênua doutrina das idéias, no Parmênides, e
à escrita, na Carta Sete e no Livro X da República. Em muitas
passagens, Platão busca o auxílio da metáfora da escrita para
elucidar o conhecimento das idéias. A imagem da escrita como
uma unidade articulada em si mesma de letras individuais, sí
labas e proposições sugere uma representação segundo a qual
a essência das coisas estaria igualmente inscrita na alma na
forma de uma unidade articulada como escrita originária, da
qual a escrita habitual seria apenas uma imitação. Por exemplo,
no Político (277e-278c; cf. Teeteto 207d-208b), o “estrangeiro”
compara a dialética, enquanto conhecer da essência de uma
coisa, com o aprender a ler. As crianças primeiro aprendem a
reconhecer as letras nas sílabas mais simples, depois também
Oralidade e escrita I 67
nas mais difíceis, que lhes são apresentadas pelo professor
em exercícios progressivos. Desse modo, elas podem por fim
distinguir a cada vez nas sílabas ou nas “ligações” quais são as
“mesmas” letras e quais são as letras “diferentes". Sem elhan
tem ente, a dialética tam bém consiste em apreender a coisa
em questão como um todo que perpassa muitas distinções.
Em medida ainda mais forte, no Filebo (16c-18d) a compa
ração com as letras articuladas de modo numericamente exato
sugere a representação de um mundo das idéias fixo, articulado
conforme os números. D a multiplicidade inicialmente difusa
de barulhos, destacam-se fonemas e sons individuais que são,
por fim , ao menos no alfabeto jônico, distribuídos numerica
mente de modo preciso em grupos de letras: vogais, consoantes
e ditongos. Portanto, “a arte de ler e escrever" (γραμματική)
pode servir de ilustração da dialética como arte da divisão
exata dos conceitos em superiores e inferiores. O próprio pro
cesso do conhecimento também é comparado por Platão com
o processo da escrita. M ais à frente no Filebo (38e-39c), diz-se
que, no “livro” da alma, são, “por assim dizer, inscritos discur
sos” que repousam sobre a memória e as percepções.
Enquanto a crítica platônica da escrita e sua ênfase na
oralidade e no saber de uso falam contra uma reificação da
doutrina das idéias, Eric A. Havelock defende a tese de que
Sócrates ainda teria sido um pensador oral, enquanto Platão
teria reificado as idéias na esteira da cultura escrita estabelecida:
“O lógos socrático era oral, o eidos platônico é textual"7. Todavia,
Havelock vê na textualização ou reificação do pensamento um
7 “T h e Socratic logos was oral, the Platonic eidos is textual”. C f. H A V E L O C K , E ric A .: T h e Orality o f Socrates and T h e Literacy of Plato; in: K E L L Y , Eugene (org.): New Essays on Socrates, Lan ham , W ashin gton D .C ., 1984, p. 90 .
68 I A questão de Sócrates progresso. Platão é até mesmo, para Havelock, um expoente de
uma revolução no modo de pensar resultante de uma revolução
na técnica de comunicação, na medida em que a invenção da
escrita alfabética trouxe consigo a invenção do pensamento abs
trato, distanciado do imediatismo da situação oral. O s gregos
não inventaram simplesmente um alfabeto; eles inventaram a
cultura letrada e a base letrada do pensamento moderno”8. Ora-
lidade e escrita são variantes distintas da comunicação humana
no desenvolvimento da civilização e podem ser particularmente
bem estudadas, segundo Havelock, com base nos textos legados
na passagem de Sócrates para Platão.
Em seu livro Prefácio a Platão, que define rumos impor
tantes para a pesquisa sobre a transição da oralidade para
a escrita, Havelock parte da tese fundam ental de que toda
civilização humana repousa sobre um "livro cultural” oral
ou escrito, que arm azena e transm ite as mais im portantes
informações e prescrições práticas9. Para a Grécia, inclusive
na época de Sócrates e Platão, os épicos de H om ero teriam
tido a função de "instrum ento didático”.10 11 Em Homero, “autor
didático", encontrar-se-iam, por exemplo, não apenas infor
mações sobre o ramo da navegação, que era imprescindível à
sobrevivência (Ilíada 1 141 ss., 308 ss., 432 ss.), mas também
sobre o agir prático-moral, como quando Aquiles, na disputa
por Briseida como despojo de guerra, refreia sua ira contra
Agamêmnon em favor da luta comum contra Troia (Ilíada I).11
8 H A V E L O C K , E . A .: Schriftlichkeit: das griechische Alphabet als kulturelle Re volution, W einheim , 19 9 0 , p. 71 [orig. The Literate Revolution in Greece and Its Cultural Consequences, Princeton, 1 9 8 2 ].
9 H A V E L O C K , E ric A .: Preface to Plato, Cam bridge, 1963, p. 43. 10 Idem, p. 61.
11 Idem, p. 91.
Oralidade e escrita I 69
Ainda que - como Havelock continua a explicar - os épi
cos homéricos, após uma transmissão puramente oral, mais de
morada, tenham sido por fim compostos em forma literária, sua
recepção através dos rapsodos permaneceu essencialmente rela
cionada ao efeito oral sobre um círculo de ouvintes. Nessa forma
de oralidade, Havelock não considera que haja um intercâmbio
livre entre discursos contrários, mas sim que o efeito didático
de Homero teria subsistido em uma identificação meramente
emocional, de tipo hipnótico, entre os ouvintes e o que era por
eles escutado. Seria justamente este o núcleo da crítica de Platão
à poesia na República. O s meios empregados por Homero seriam
sobretudo a repetição estereotipada das fórmulas (já exposta por
M ilm an Parry), a métrica rítm ica do verso, bem como o modo
de falar concreto acerca das ações e dos acontecimentos, sem um
sujeito agente e reflexionante.12 O s ouvintes seriam animados a
seguir como modelo de identificação as ações e acontecimentos
do mundo dos deuses narrados na epopeia.
Segundo Havelock, somente a descoberta da escrita efe
tuou uma alteração fundamental na produção e recepção de
informações e padrões de ação. A fixação do que foi ouvido
antes, de maneira meramente fugaz, em um padrão escrito do
saber infundido permitiu, segundo Havelock, um “segundo
olhar" sobre este saber, tanto arrogado por H om ero e seus
rapsodos quanto sugestionado aos seus ouvintes.13 * 15 A separa
ção entre quem sabe e o que se sabe seria uma consequência
da descoberta da escrita, bem como a autoafirmação da alma
12 Idem, p. 2 0 8 . C o n tra isso, m as sobretudo contra S N E L L , B ru no: Die Entde ckung des Geistes, R ich ard G askin ten ta com provar que já em H o m ero o ponto de p artid a precisaria te r sido o de u m sujeito responsável. G A S K IN , R .: Do Homeric Heroes M ake Real Decisions?; in : Classical Quarterly 4 0 (1 9 9 0 ) pp. 1-15. 15 Idem, p. 197 ss.
70 I A questão de Sócrates como uma instância da inspeção crítica do saber e da decisão
moral.14 Segundo Havelock, cabe sobretudo a Sócrates o mé
rito de ter levado à frente o método do pensamento crítico e
a investigação de questões morais. Sua exortação aos inter
locutores - "O que queres dizer? Diga-o novamente?” - já
pressuporia o "segundo olhar" através da escrita distanciada.
A diferença de Platão, porém, Sócrates não teria concebido os
conceitos universais ou as idéias como coisas visíveis ao espírito.
Ao expor a crítica de Platão à oralidade no Livro X da
República, Havelock acentua um ponto de vista via de regra
negligenciado nas outras pesquisas sobre a crítica de Platão à
escrita, e também destaca, em especial, os lados positivos da
cultura escrita para o desenvolvimento do pensamento. Con
tudo, ele negligencia, de sua parte, a crítica de Platão à escrita.
Embora Havelock apresente de maneira convincente o poder
de sugestão da recitação homérica e o efeito libertário da escrita
distanciada (ao qual também chama a atenção Vernant, tendo
em consideração o desenvolvimento de um saber público, de
mocrático, na Grécia15), escapa-lhe, desde seu ponto de partida
fundamental, o caráter ambivalente dos discursos, tanto oral
quanto escrito, uma vez que suas investigações sociológico-
culturais e suas críticas da mídia desviam sistematicamente o
foco da referência objetiva de cada discurso, que para Sócrates
e Platão é decisiva. A este processo de libertação da oralidade
sugestionante através da escrita distanciada, analisado por H a
velock, já se segue em uma próxima fase, segundo a visão de
Sócrates e Platão, o perigo da escrita fixadora. Com o solução 14 15
14 Idem, p. 2 0 9 .
15 Cf. V E R N A N T , Jean-P ierre: Die Entstehung des griechischen Denkens, Frank fu rt a.. M ain, 19 8 2 , p. 4 7 ss. [orig. Les origines de lapenséegrecque, Paris, 1 9 6 2 ).
Oralidade e escrita I 71
contra ela, Sócrates e Platão apontam para o primado da pró
pria coisa em questão, com a qual o uso da oralidade ou da
literalidade tem de haver-se.
Entretanto, contra a supervalorização da metáfora da
escrita para a explicação do pensamento distanciado, deve-se
lembrar que Sócrates, em vez disso, prefere a comparação de
sua atividade com a de um escultor e a de uma parteira. Por
exemplo, no diálogo com Êutifron, Sócrates invoca como pro
tótipo de sua atividade Dédalo, que ele e seu pai, o escultor ou
canteiro Sofronisco, têm como “patriarca” (Êutifron 11b-c, cf,
Mênon 97d). Conta-se que o legendário artesão Dédalo pro
duziu, à diferença das outras esculturas fixas, arcaicas, figuras
com membros móveis. Tal e qual, Sócrates põe em movimento
as fixações dogmáticas de seus interlocutores e liberta o olhar
deles para a própria coisa em questão. Além disso, como se
guidor da arte de sua mãe, a parteira Fenarete, ele não tem
de lidar com o próprio "nascimento”, mas sim com o de seus
interlocutores (Teeteto 149a, 160e-161b).
Ambas as figuras, o escultor e a parteira, não tratam me
ramente de palavras, conceitos e proposições, mas lidam com
uma realidade que pode ser experienciada. T al realidade é,
como acentua a comparação com a parteira, nossa própria vida,
que nenhum outro pode inspecionar e viver substitutivamente
por nós. A comparação com a atividade do escultor, em con
traste, destaca o trato do modelador com uma matéria-prima
não trabalhada. A ligação entre a arte da parteira e a do escul
tor, por fim , manifesta a imagem de Sócrates como Sábio Si-
leno, como um produto de sua autoformação ao longo da vida.
72 I A questão de Sócrates
C a p í t u l o 4
A p e r g u n ta “o q u e é is s o ? ”
A pergunta “o que é isso?", a despeito do estado contra
ditório das fontes, descortina-se como o núcleo da atividade
socrática. Evidentemente, na imagem do sábio sileno mistu
ram-se traços sérios, existenciais, com o prazer no lógos como
pensamento exato, como jogo de palavras e como polêmica
retórica. Mesmo com toda a atitude ambivalente perante o
tipo Sócrates como homem teórico, também N ietzsche o elo
gia, com palavras quase hínicas, como modelo de um modo
de viver que repousa sobre a razão em lugar da exaltação: Ό
que entende de Platão, o que entende da filosofia antiga quem
não escuta o contínuo júbilo que perpassa toda fala e resposta
de um diálogo platônico, o júbilo com a nova invenção do pen
samento racional? O utrora as almas sentiam a si mesmas com
embriaguez, quando era praticado o jogo rigproso e sóbrio dos
conceitos, da universalização, refutação, stretto1 - quiçá com
aquela embriaguez conhecida pelos velhos, grandes, rigorosos
e sóbrios contrapontistas da música. Outrora, na Grécia, ainda
se tinha na ponta da língua o outro gosto mais antigo, então
onipotente: e dele destacou-se a novidade com tal encanto que
se cantava e se balbuciava a respeito da dialética, da arte divina,
como em loucura de amor. Aquele pensamento antigo, porém,
era o pensamento sob o fascínio da moralidade; para ele ha
1 [N .T .] Stretto = Engführung. T erm o m usical que designa a superposição de tem a e resposta, nu m a fuga.
A pergunta “o que é isso
via tão só juízos estabelecidos, causas estabelecidas, nenhuma
outra razão senão a da autoridade, de modo que pensar era
um redizer, e todo gozo da fala e da conversa tinha de residir
na.forma [...] Foi Sócrates que descobriu o encanto contrário,
o de causa e efeito, de razão e consequência [...]";2
Porém, com respeito à interpretação, à avaliação e ao efeito
de seu método, de seu conteúdo e de sua meta, a pergunta so-
crática “o que é isso?” é polêmica entre os intérpretes e adeptos
de Sócrates, e já o era à época de sua própria vida. O s amigos
ao redor de Sócrates - Fédon, Esquines e outros - a tomavam
como motivo para refletir seriamente sobre seu modo de viver
e extraíam daí consequências práticas, enquanto seus alunos
temporários - C rítias e Alcibíades - levaram uma vida que é
tudo, menos filosófica; Aristófanes equiparou tal pergunta à
sinonímica e à retórica sofistica como mera torção de palavras;
Platão parece tê-la entendido como pergunta aporética e está
gio prelim inar de sua doutrina das idéias; para Xenofonte, ela
serviu como asseveramento das representações de valor válidas
na pólis; por fim , na Metafísica, Aristóteles deu uma primeira
classificação histórico-filosófica de Sócrates como pensador do
método científico para as perguntas éticas.
A pergunta socrática "o que é isso?” não pode ser enten
dida sem que se busque o auxílio das fontes controversas, tal
como mais acima nosso olhar não poderia ter vislumbrado a
imagem do sábio sileno sem os testemunhos escritos como pano
de fundo da interpretação. Com isso, incide-se evidentemente
em um círculo: por um lado, só com auxílio de diferentes fontes
escritas e imagéticas é possível conquistar uma visão adequada
e mais abrangente de Sócrates; por outro lado, é preciso desen
2 N I E T Z S C H E , F .: Morgenrõtbe [Aurora], K S A 3, p. 314 s.
7 4 I A questão de Sócrates volver esta visão justam ente contra tais fontes. H á que se empre
ender uma estratificação crítica do material presente, mas não
se dispõe de nenhum critério exterior confiável. O círculo na
interpretação da pergunta socrática “o que é isso?" - “o que é
a pergunta socrática o que é isso?”' no entanto, já se dá nela
mesma e não somente em um metaestágio. Este círculo aliás
já era do conhecimento do Sócrates platônico. Após M ênon
mostrar-se incapaz de responder à pergunta de Sócrates so
bre a areté (virtude), e Sócrates asseverar a própria ignorância,
pergunta-lhe M ênon: "M as então de que maneira, Sócrates,
buscas aquilo que absolutamente não sabes o que é? Pois o que
é isso que não sabes e antepões a ti mesmo em tua busca? O u,
ainda que no melhor dos casos depares com ele, como saberás
que é exatamente isso que não sabias?” (Mênon 80d).
A resposta de Sócrates - segundo a qual, na pergunta
sobre a areté, sempre já se possui um prévio saber ou uma pré-
compreensão, sendo preciso, nessa busca, tão só “rememorá-la"
- antecipa a doutrina do círculo hermenêutico. Aqui decerto
se pode desconsiderar a doutrina metafísica da anamnese, que
afirma uma contemplação das idéias pré-nascimento e que o
próprio Sócrates, nesse contexto, não tom a como algo impor
tante (86b s.). Tam bém a pergunta pela pergunta socrática "o
que é isso?" está inevitavelmente dirigida por uma pré-com-
preensão que se trata de explicitar e comprovar nos textos. Ao
fazer a estratificação das fontes, pode-se partir inicialmente do
fato de que Sócrates não é meramente um sofista distorcedor
de palavras, como em Aristófanes, tampouco um conselheiro
maçante, como o descreve Xenofonte em algumas passagens;
ele pode inclusive não ter seguido nenhum interesse puramente
lógico pelos conceitos éticos, como A ristóteles o apresenta.
Caso contrário, mal se podería conceber, como notou corre-
A pergunta “o que é isso tamente Schleierm acher em Sokrates Werth als Philosoph, "por
que homens espirituosos, como C rítias e Alcibíades, e por
natureza especulativos, como Platão e Euclides, atribuíram
um valor tão grande a esse convívio [com Sócrates] e nisso
encontraram satisfação por tão longo tempo”.3
Por outro lado, não se faria justiça à imagem do sofista, do
conselheiro e do lógico que Aristófanes, Xenofonte e Aristóte
les delineiam de maneira plausível em linhas singulares, tam
pouco à imagem do sábio sileno, tal como ela é visível diante
do pano de fundo da tradição satírica a partir de retratos e
de apresentações escritas, caso se quisesse entender Sócrates,
por exemplo, somente como preparador da doutrina das idéias
atribuída a Platão. M uito antes, e de modo semelhante ao já
proposto por Schleierm acher, é preciso perguntar: o que Só
crates ainda pode ter sido, além daquilo que suas outras fontes
transmitem, de maneira crível, como traços típicos? E o que ele
tem de ter sido para poder ter inspirado Platão e outros à suas
meditações filosóficas? D e que maneira, portanto, as fontes
podem contribuir para responder à pergunta pela realidade
efetiva do bem-viver e da autoinspeção crítica através da per
gunta “o que é isso?" como a questão de Sócrates? Embora
não se possa esperar nenhuma resposta nítida e segura com
o guia de busca proposto, pode-se de todo modo ganhar uma
imagem de Sócrates mais abrangente do que quando se confia
apenas em uma fonte, mesmo que ela seja filosoficamente tão
estimulante e produtiva como os diálogos de Platão.
Justam ente contra a preponderância da imagem de Só
crates fornecida por Platão, recomenda-se consultar primeiro
seu mais agudo crítico: seu aluno Aristóteles. E verdade que
5 S C H L E I E R M A C H E R , F. E . D .: (1 8 1 8 ); in: P A T Z E R , A . (1 9 8 7 ) p. 4 8 .
76 I A questão de Sócrates também em Aristóteles não se pode deixar de constatar uma
visão de Sócrates unilateral e distorcida, resultante de seu pró
prio enfoque filosófico, mas ele ao menos chama a atenção para
outras visões possíveis que não a de Platão. Além disso, ainda
que Aristóteles não tenha conhecido o próprio Sócrates, pre
sumivelmente soube algo dele não só a partir da apresentação
de Platão. M uito antes, é provável que ele, aplicado como era,
em sua estadia de vários anos na Academia, em conversa com
amigos do falecido Sócrates ou a partir de fontes escritas a nós
desconhecidas, tenha podido formar para si uma representação
da atividade de Sócrates mais exata, independente de Platão.
Aristóteles desenvolve sua própria concepção de Sócrates
primeiramente em conexão com sua crítica à doutrina platô
nica das idéias e dos números ideais (Metafísica X I I 4, 1078b
16-32). Ele expõe com clareza o caráter tipicamente socrático
da pergunta “o que é isso?”, cuja particularidade observa ora
em seu direcionam ento tem ático, ora em seu caráter pura
mente conceituai. Em sua ocupação com o tem a das virtu
des éticas (τάς ηθικός άρετάς)4, Sócrates teria sido o primeiro
a tentar construir conceitos universais (όρίζεσθαι καθόλου).
Desse modo, ele não foi o primeiro a se ocupar nem com as
virtudes éticas, nem com os conceitos universais, mas foi o pri
meiro a ligar uns aos outros. Com o exemplo da ocupação com
virtudes éticas já antes de Sócrates, Aristóteles menciona os
pitagóricos. Estes teriam tratado, no entanto, apenas de poucos
temas como “a maturidade, o ju sto e o casamento”, e teriam,
sobretudo, reduzido a números os conceitos que buscavam.
4 Para a distinção entre as "virtudes éticas", com o bravura, prudência, genero sidade, am izade, justiça, etc., e as “virtudes do intelecto”, com o saber, com pre ensão ética, sabedoria, etc., ver A R I S T Ó T E L E S : Ética a Nicòmaco I I 1, V I 2 .
A pergunta "o que é isso?"I 77 Em contrapartida, dentre os físicos, Dem ócrito deveras teria
“dado uma espécie de definição do quente e do frio”, mas não
teria se ocupado com temas éticos.
A razão de Sócrates perguntar por "aquilo que algo é" (tò
τί έστιν), conforme indica Aristóteles, repousa no fato de que
ele queria "extrair inferências” (συλλογίζεσθαι) e, para tanto,
precisava das definições interrogadas como premissas. A “dia
lética" à época de Sócrates, todavia, ainda não seria capaz de
extrair a contento inferências puramente formais, sem deter
minação conteudística das premissas. Com essa afirmação,
Aristóteles visa presumivelmente à espécie de dialética que
pode ser achada, por exemplo, através das inferências extraídas
das premissas do "um e do múltiplo" no Parmênides de Platão.
Em bora a inferência conteudística socrática não seja elucidada
por Aristóteles através de nenhum exemplo, nos diálogos pla
tônicos é possível achar exemplos aos montes, como no Mê-
non (86c ss.). Lá se infere, a partir das definições da virtude
como saber ou não-saber (ignorância), a sua ensinabilidade ou
não-ensinabilidade: é possível ensinar apenas “saber”; virtude
é um “saber" ou um “não-saber”; portanto, é possível ou não é
possível ensinar a virtude.
Evidentemente, A ristóteles tinha muito claro para si que
era preciso distinguir, entre as interpretações de Sócrates, as
sustentáveis e as insustentáveis, quando acrescenta que, ao
lado dos conceitos universais, tam bém se podem atribuir a
Sócrates, "com justiça" (δικαίως), as inferências indutivas (τούς
έπακτικούς λόγους). N o presente contexto, Aristóteles decerto
entende sob tal expressão “o caminho do indivíduo para o uni
versal” (Tópicos 1 ,1 0 ), a saber, ou através da universalização de
casos individuais, ou através de inferências analógicas - para
ambos os casos, podem ser achados exemplos igualmente nu
78 I A questão de Sócrates merosos em Platão e Xenofonte (entre outros, Xenofonte,
Memoráveis IV 6 ; Platão, Loques 184d-185a). N o entanto, A ris
tóteles não afirm a que Sócrates descobriu o conceito universal
e a inferência indutiva, mas somente que ele foi o primeiro a
aplicar ambos às questões éticas.
Além da tem ática ética, Aristóteles sublinha como uma
segunda particularidade a condição puramente conceituai da
pergunta socrática "o que é isso?” "Sócrates, porém, não pro
põe o universal (τά καθόλου) e as determinações conceituais
(τούς ορισμούς) como essências separadas (χωριστά); os adep
tos da doutrina das idéias, todavia, o separam e o chamam de
idéias das coisas (τών όντων ιδέας).” (Metafísica X I I I 4 , 1078b
30 s.) N a discussão com a doutrina das idéias de seu mestre
Platão, Aristóteles vê no próprio mestre de Platão, Sócrates,
um aliado para sua concepção do conceito universal, e assim
toma a si mesmo, abertamente, como o verdadeiro pupilo de
Sócrates. Aristóteles pretende concordar com ele no fato de
que, sem conhecimento ou uso de conceitos universais, deveras
não se podería falar de saber, mas nem por isso seria necessá
rio reificar os conceitos universais em “idéias” existentes por
si mesmas (Metafísica X III 9 , 1086b 1-7).
A análise aristotélica do tem a e do método da pergunta
socrática “o que é isso?” está de acordo com as outras fontes. E
o que Aristóteles diz dos limites de uma doutrina que afirme
idéias existentes por si mesmas é confirm ado nos diálogos
platônicos da fase inicial. Contudo, da análise de Aristóteles
dois pontos permanecem particularm ente questionáveis: sua
interpretação da doutrina das idéias de Platão e sua afirmação
da condição exclusivamente lógico-conceitual da pergunta so
crática. Enquanto o primeiro ponto pode permanecer aqui sem
consideração e deve ser respondido somente com a indicação
A pergunta “o que é isso?" I 70
da própria crítica de Platão a uma doutrina das idéias ingênua
em seu diálogo Parmenides (da fase interm ediária), o segundo
ponto leva à pergunta pela meta da atividade socrática e deve,
portanto, ser contemplado de mais perto no que se segue.
Com seu saber da virtude, Sócrates estava interessado,
segundo Aristóteles, sobretudo no aclaramento de conceitos
éticos, e viu esta espécie de saber de definições já como condi
ção suficiente para um agir “virtuoso” ou para um “bem-viver":
“M as Sócrates, o ancião5 6, pensava que a meta (télos) seria o
conhecimento da virtude, e cuidava de perguntar o que é (τί
έστιν) a justiça, e o que é a coragem, e o que é cada parte da
virtude. Fazia isso, com efeito, de modo bem fundamentado,
pois pensava que todas as virtudes seriam saberes (έπιστήμας),
de modo que coincidiríam ao mesmo tempo o saber da justiça
e o ser justo. Pois, se já aprendemos geometria e arquitetura,
então somos ao mesmo tempo arquitetos e geômetras. E justa
mente por isso que ele cuidava de perguntar o que é a virtude,
mas não como e através do que ela surge” (Ética a Eudemo I 5,
1216b 3-11). Entretanto, o que vale para o saber “teórico" não
se aplica ao saber “prático’16: “Pois não queremos saber o que é
coragem, mas queremos ser corajosos, e não queremos saber o
que é justiça, mas ser justos - tal como também queremos ser
de preferência saudáveis a conhecer o que é saúde, e sentir-nos
bem a saber o que isto é” (1216b 22-24).
5 [N .T .] O epíteto π ρ εσ βύτης quer dizer “(venerável) ancião” e servia para distinguir o S ó crates m estre de P latão de u m ou tro S ó crates m ais jovem e pupilo de Platão.
6 E m oposição à distinção entre saber prático (agente) (πρακτική) e saber produtivo (ποιητική) n a Metafisica ( V I 1), A ristóteles (o presum ido autor da Ética a Eudemo) concen tra nessa passagem (1 216b 11-22) am bas as form as de saber sob a ποιητική; im porta-lhe aqui som ente à oposição com o saber “teórico” (θεω ρητική).
8o I A questão de Sócrates
A distinção de Aristóteles entre os saberes prático e teó
rico, no entanto, contrariamente a seu modo de entender, não é
apropriada para a crítica, mas sim para o aclaramento da meta
do questionar socrático. O pensamento de que o saber ético
seria suficiente para o agir e viver correspondente é criticado
por Sócrates como variante sofistica da pergunta "o que é isso:1”
Em contrapartida, ao lado da comprovação crítica do saber
arrogado pelo seu interlocutor acerca do que seria a areté ou o
“bem-viver”, importa a Sócrates sobretudo harmonizar o saber e
o viver como um “saber de si”7 teórico e prático (έπίστασθαι). N o
mesmo sentido da distinção aristotélica, no Mênon de Platão é
perguntado expressamente até mesmo se a areté seria “ensinável”,
teria de ser “exercitada” ou moraria no homem “por natureza”.
Antes da pergunta pela intermediação, porém, Sócrates pre
tender colocar a pergunta pela essência. N o avançar do diálogo,
então, apresenta-se a aporia insolúvel, segundo a qual, por um
lado, a virtude não poderia ser um saber porque, do contrário,
os pais atenienses teriam de ter educado melhor seus filhos;
por outro lado, a virtude não poderia ser uma mera questão
de disposição natural ou de exercício. Com a distinção entre
os saberes teórico e prático, porém, a aporia seria solúvel: como
saber teórico de definições, a areté pode ser ensinada; em con
traste, como saber prático, somente exercitada.
M as, para Sócrates, ambos se pertencem reciprocamente.
Uma análise mais precisa do diálogo Êutifron pode m ostrar a
variante sofistica de um saber de definições meramente teó
rico, sem autorreferência ao agir e viver de quem o sabe, en
quanto a Apologia e o Críton exemplificam a variante socrática
do saber da areté especificamente como “saber de si” (cf. caps.
7 [N .T .] Sich-auf-etwas-verstehen - έπίστασθαι.
A pergunta “o que é isso? ” I 81 5-7). Decerto, ambas as variantes apenas podem ser entendi
das mais precisamente com base em outras fontes. Enquanto
Aristóteles chama a atenção para o saber teórico da areté e,
em conformidade com a questão, impele Sócrates para perto
dos sofistas (como antes já fizera Aristófanes nas Nuvens),
Xenofonte descreve Sócrates nos Memoráveis sobretudo como
conselheiro prático.
Com a pergunta pelo saber, coloca-se em seguida a per
gunta pela ignorância. Já na passagem estudada da Metafísica,
Aristóteles fala muitas vezes da "tentativa” de Sócrates de achar
os conceitos universais da virtude. D e modo ainda mais claro,
ele sublinha a ignorância de Sócrates nas Refutações sofisticas (I
34, 183b7 s.): “Sócrates perguntava e não respondia porque
admitia não saber de nada". Por causa de sua ignorância, den
tre os quatro diferentes "gêneros de diálogo” (διαλέγεσθαι...
γένη), obviamente compete a Sócrates apenas o “probatório”
(πειραστικοι λόγοι), que inspeciona o saber arrogado pelo in
terlocutor como premissa. Em contrapartida, o ignorante S ó
crates não pode empregar a "arte dialética", que procura refutar
o outro a partir das próprias assunções prováveis; obviamente
tampouco compete a Sócrates, segundo Aristóteles, nem a arte
"didática”, da preleção de um saber seguro, nem a arte "erís-
tica” do diálogo, que tem seu ponto de partida em verdades
meramente aparentes, simuladas (cf. Refutações sofisticas I 2).
M as é questionável se Aristóteles tem razão em sua afir
mação de que Sócrates, por causa de sua ignorância, teria
apenas perguntado e não respondido. Por causa da distância
temporal em relação a Sócrates e por causa de seu interesse
primordialmente histórico-filosófico, escapou a Aristóteles a
referência à época histórica da atividade socrática e, com isso,
sua contenda com os sofistas. É sobretudo contra a firme pre-
82 I A questão de Sócrates tensão ao saber deles que Sócrates afirm a sua ignorância e ins
peciona as afirmações de seus interlocutores. M as, na conversa
com amigos, como no Críton e no Fédon, e tanto mais nos Me
moráveis de Xenofonte, ele próprio sustenta certas afirmações
e confia a si mesmo um saber, ainda que sob a condição de
inspecioná-lo reiteradamente. Ademais, também se imiscuem
na argumentação de Sócrates claros traços "erísticos", como o
prazer na disputa verbal ou como a crítica irônica aos recursos
da retórica sofistica, o que é particularm ente nítido nos diálo
gos platônicos Eutidemo e Êutifron.
N as Nuvens de Aristófanes, a mais antiga fonte em que
se encontram inform ações pormenorizadas sobre Sócrates,
sua atividade é comparada pelo coro de nuvens à prática didá
tica sofistica. “M as tu, ó sacerdote da palavra sutil, anucia-nos
agora teu desejo! Pois, dentre todos os tagarelas de sutilezas,
a nenhum outro nós nos dedicamos tanto quanto a Pródico.”
Nascido na ilha de Céos, Pródico frequentemente atendia a
pedidos de viagem a Atenas e, como enviado de sua cidade
natal, lá sustentava com grande êxito palestras públicas de ca
ráter didático. Entre seus ouvintes conta-se Platão, ao lado de
Euripides, Isocrates e também Sócrates (Crátilo 84b). A sino-
nímica fundada por Pródico, como arte de distinguir palavras
de sentido aparentado, manifestamente não era tida em alta
estima por Sócrates. É verdade que ele aconselha Eutidemo a
aprender a sinonímica como "primícias do relicário sofistico",
“pois, como disse Pródico, primeiro é preciso que se aprenda
o uso correto das palavras” (Eutidemo 277e). M as não se trata
aqui de uma mera “brincadeira”. Sócrates fundam enta sua
baixa estim a da sinonímica, ou da pura definição nominal,
no fato de que, por meio dela, “nada se sabe do modo como
as coisas em questão (πράγματα) se comportam". Com seu
A pergunta “o que é isso?” I 83
auxílio, alguém seria “hábil apenas em ludibriar as pessoas ao
passar-lhes a perna e tirá-las de si através das diferentes acep
ções das palavras; como alguém que puxa para trás a cadeira
quando um outro vai se sentar, alegrando-se e gargalhando
quando o vê cair de costas no chão” (278b s.). Portanto, se
Sócrates envia a Pródico quem não sabe de si no uso preciso
das palavras, em contrapartida, quem só sabe de si nisso seria
ainda menos capaz da séria busca pela verdade (Teeíeto 151b).
N as Nuvens, o “jogo” com as palavras não é apenas escar
necido e imputado a Sócrates como intencional; além disso, ele
também é criticado como perigosa torção das palavras. Com
seu auxílio, poder-se-ia, em proveito próprio, “fazer mais forte
o argumento mais fraco” (v. 111 ss.) na assembléia popular ou
no tribunal. E justam ente com essa finalidade que o camponês
Estrepsíades, apresentado como um bronco, envia seu filho
Fidípides à cidade, para ir ter com Sócrates. O filho contra
íra altas dívidas e, por causa de sua liquidação pendente, fora
acusado no tribunal. Após a aula com Sócrates, o pai saúda
o filho, cheio de esperanças no sucesso de seu aprendizado:
“Com o me faz feliz esta tua cor pálida. S ó agora a gente te
reconhece como uma pessoa do contra, um altercador, flo
rescendo em tua face aquele atrevido Ό que tu queres dizer
com isso?' (τί λέγεις σύ), por meio do qual alguém parece ter
sofrido uma injustiça quando na verdade a cometeu” (v. 1171
ss.). Só depois Estrepsíades nota que a retórica sofistica cor
rompeu completamente seu filho e o tornou rebelde perante
toda autoridade, sobretudo a sua própria. Por causa disso, ele
incendeia cheio de ira, ju nto com outros atenienses, o "pen-
satório" de Sócrates. N a visão dos atenienses conservadores,
através da pergunta sofistica "o que é isso?” ou “o que queres
dizer?” as tradicionais representações de valor são confundi
8 4 A questão de Sócrates
das, por exemplo, no “debate” (antüogia) entre os argumentos
“justo” e “injusto” (889 ss.). N ele, o que vale como “ju sto”, a
saber, a veneração aos deuses e aos pais, o pudor e a prudência,
é convertido em seu oposto.
Todavia, é improvável que tenham sido os sofistas a causa
da crise de valores. Ao contrário, auxiliados pela prática didá
tica sobre o saber da realidade, a sinonímica, as habilidades
argumentativas e a retórica, eles tentaram dar à crise uma
resposta apropriada, que Sócrates não criticava totalm ente,
mas tão só em suas tendências manipulativas. Afinal, também
o próprio Sócrates se beneficiou bastante do saber sofistico.
M uito tempo antes, as tradicionais representações de valor
da sociedade aristocrática já haviam sido relativizadas pelas
experiências comerciais e coloniais na Jônia e no sul da Itália.
Ademais, sobrevieram as mudanças decorrentes da Guerra do
Peloponeso. A descrição delas feita por Tucídides em sua His-
tória da Guerra do Peloponeso ( I I I 82) transm ite uma impressão
bem objetiva do pano de fundo histórico por trás da contenda
de Sócrates com os sofistas: "N o tempo que se seguiu, toda
a Hélade entrou, por assim dizer, em movimento. Por toda a
parte surgiu a discórdia, uma vez que os líderes do povo tenta
vam trazer para o seu lado os atenienses, e os nobres tentavam
o mesmo com os espartanos. [...] O significado habitual das
palavras também se alterou arbitrariam ente, ao sabor da situ
ação. Doravante temeridade valia como brava prontidão para
a luta, o hesitar inteligente como medo bem dissimulado, o
comportamento prudente como subterfúgio para a covardia.
Caso se buscasse agir de maneira sensata sob qualquer ponto
de vista, era-se chamado de um completo inerte. A impetu
osidade violenta era considerada viril. Quando se exigia uma
serena deliberação para um empreendimento, isso era tido
A pergunta “o que é isso?" I 85 como disfarçado pretexto para se furtar dos problemas. [...]
Am bos os partidos faziam de suas paixões o prumo de seu
comportamento e buscavam, através de processos injustos ou
de violência explícita, satisfazer sua sanha por rivalidade. Isso
foi tão longe que mais nenhum homem tinha olhos para a
piedade, mas só se falava bem daquele que realizava os feitos
mais aloucados. Cidadãos que não tomavam nenhum partido
eram pisoteados pelos dois partidos.”
Pode-se ler a descrição de Tucídides como um comentá
rio à pergunta de Sócrates Ό que é a piedade?” no diálogo
platônico Êutijron. Para os dois, trata-se do “significado das
palavras” (άξίωσις των ονομάτων) como critérios de ação, no
sentido axiomático, valorativo. Além disso, em ambos os casos
está em discussão o modo peculiar como deveria suceder uma
discussão, uma vez que o “hábito” não basta mais. Por fim,
Tucídides e Sócrates tam bém concordam com o fato de que
uma orientação simplesmente arbitrária deveria ser recusada
como método (notem-se as expressões "a bel-prazer”, "paixões”,
“violência explícita”). Porém, enquanto Tucídides apenas faz
menção geral à “piedade”, Sócrates pergunta o que propria
mente é “piedade", justam ente porque ela se tornara polêmica,
como as restantes representações de valor.
Q ue Sócrates tenha se ocupado com definições de con
ceitos éticos, isso tam bém é confirmado por Xenofonte em
seus Memoráveis (I 1,16): “Ele próprio sempre se entretinha
com aquilo que diz respeito ao homem, e investigava o que
seria o pio e o ímpio, o nobre e o ignóbil, o ju sto e o injusto,
bem como o que seria prudência, loucura, coragem, covardia,
e tam bém o que seria um Estado, um cidadão, um governo e
um governante”. N a pergunta sobre “o que seria cada coisa” (τί
έκαστον έίη τών όντων) (IV 6,1), no entanto, Xenofonte não
86 I A questão de Sócrates vê nenhum enfraquecimento das representações de orientação
prática, ao contrário dos atenienses conservadores nas Nuvens
de Aristófanes. M uito antes, tal pergunta serviría para seu
fortalecimento. N o método de Sócrates, Xenofonte faz uma
distinção entre a refutação das afirmações contrárias e a de
monstração das próprias teses. Para Sócrates, em ambos os
casos, “as verdades mais reconhecidas” seriam o fundamento
seguro da prova (IV 6 , 14s.). Assim, segundo a interpretação
de Xenofonte, Sócrates praticou plenamente a arte da conver
sação “dialética”, considerada por Aristóteles como inconciliável
com a ignorância. D e acordo com Xenofonte, a pergunta socrá-
tíca “o que é isso?” visa à confirmação, e não à destruição, das
representações de valor correntes na polis. Por conseguinte, em
Xenofonte não se fala da ignorância de Sócrates, a qual parece
caracterizá-lo nos diálogos platônicos da fase inicial. M as, com
uma análise mais precisa, nestes também se encontram vestí
gios nítidos daquele saber socrático que im porta a Xenofonte.
Inversamente, portanto, sua visão unilateral do saber socrático
pode ajudar a corrigir certas unilateralidades ou obscuridades
na apresentação platônica da ignorância socrática.
Em seu todo, os diálogos platônicos da fase inicial, com
seus questionamentos acerca da coragem, da piedade, da pru
dência ou da justiça, parecem fazer ju s à pergunta socrática
"o que é isso?", sobretudo quando lidos com base na visão
corretora das outras fontes. Eles não apenas são escritos de
maneira magistral e contêm um material bem abragente sobre
tema, método e meta da atividade socrática, como também
estimulam ao filosofar autônomo no sentido socrático.
Por sua vez, ju nto com o Fédon (da fase interm ediária),
distinguem-se entre os diálogos da fase inicial o Êutijron, a Apo
logia e o Críton, na medida em que atam estreitam ente entre si
A pergunta “o que é isso?” I 8 j a pergunta “o que é isso?” e a prática de vida socrática. Todos
os quatro diálogos descrevem Sócrates pouco antes de sua
m orte: a acusação, o processo, o período de encarceramento e
o seu morrer. Claramente por causa das referências biográficas,
os quatro "diálogos socráticos”, como hão de ser chamados
doravante, estão inseridos como um grupo à parte no início
das obras de Platão, desde os mais antigos manuscritos até a
edição O xford de Platão organizada por Burnet. T al divisão
remonta ao menos a Trásilo, o astrólogo da corte do imperador
Tibério, no primeiro século depois de Cristo.8
N o que se segue, a tetralogia dos "diálogos socráticos”
deverá servir de base textual para revelar a questão de S ó
crates da m aneira m ais abrangente e diferenciada possível.
Para esse fim , também serão utilizadas as demais fontes an
tigas, enquanto a abundante literatura secundária relativa a
cada um dos diálogos poderá ser expressamente considerada
apenas em ocasiões pontuais. M uito antes, as interpretações
propostas hão de comprovar-se nos textos do próprio Platão
e, quiçá, possam estimular sua releitura do ponto de vista da
questão de Sócrates.
8 C f. R I T T E R , C on statin : Platon, sein Leben, seine Schriften, seine Lehre, M ü n chen, 1910, p. 1 9 7 s.
8 8 I A questão de Sócrates
C a p í t u l o 5
S o f is tic a , ir o n ia e a p o r ia
O Êutijron, o primeiro dos quatro diálogos socráticos, é
um típico exemplo do método socrático de inspeção do saber
e, embora pareça term inar de maneira aporética, permite re
conhecer uma solução através da ironia de Sócrates, no que
se assemelha a outros diálogos socráticos da fase inicial (como
Laques, Cármides, Lisis e íon). N o entanto, a solução dada não
consiste na solução buscada, mas antes na crítica do questio
namento. O que Sócrates critica é a reivindicação sofistica de
poder ensinar, com a ajuda de definições, a areté ou o bem-viver.
Embora também seja necessário, segundo Sócrates, obter uma
compreensão dos conceitos de orientação prática, tais concei
tos permanecem vazios, caso o interlocutor - eis, portanto, a
segunda parte da resposta socrática - não se recorde de sua
experiência básica do bem-viver, da "ideia do bem”. A respeito
do "bem”, diz-se na República de Platão (V I, 505d s.) que nin
guém se dá por satisfeito com a mera aparência dele; "muito
antes, cada um busca o que é realmente bom [...] ao pressentir
que havería algo assim, mesmo que hesite e não possa captar
ao certo o que ele é (τί ποτ’ έστίν)”.
N a medida em que, ao fim do Êutijron, a buscada defi
nição da "piedade” não é efetivam ente achada, o diálogo ter
m ina de maneira aporética. Entretanto, na medida em que, ao
menos para o leitor, com o auxílio das indicações escondidas,
a busca por meras definições pode ser reconhecida com o um
cam inho falso, a inspeção leva de qualquer modo a um pri-
Sofística, ironia e aporia 1 8p meiro resultado, ainda que negativo. Porém, perpassando os
caminhos equivocados e as aporias, assinala-se como um se
gundo resultado, agora positivo, uma resposta à pergunta pela
buscada “piedade”: o “saber do bem”. Como fórmula abstrata,
todavia, tal resposta não diz nada. Ela somente ganha vida no
acontecer do próprio diálogo, a partir dos contextos concretos
da conversa e do comportamento prático dos interlocutores, à
medida que procuram encontrar, um com o outro, a reposta
à questão proposta.
Portanto, caso se acompanhe, através de uma análise acu
rada, um diálogo como o Eutifron em cada um de seus passos,
que são muitas vezes de difícil reconstituição, pode-se chegar
a duas conclusões: por um lado, a limitada amplitude das de
finições para a compreensão da areté não é afirmada apenas
teoricamente contra a reivindicação sofistica, mas também
pode ser praticamente reconstituída; por outro lado, é refutado
do ponto de vista prático o equívoco (muitas vezes presumido,
sobretudo em Platão, e com efeito por vezes nele localizável)
segundo o qual o bem poderia ser a posse de um conhecimento
intuitivo como saber seguro, aplicável a todos os casos indivi
duais - por exemplo, na forma de um saber normativo livre
de contextualização1. Embora se fale na Carta V II de Platão
(341c s.) que é preciso uma labuta demorada e cansativa antes
do surgimento de um conhecer “repentino", em muitas outras
passagens, sobretudo na República, as exposições de Platão dão
1 H u b e rt L . D reyfus critica o saber norm ativo e livre de contextualização, atribuindo-o originariam ente a S ócrates. C f. D R E Y F U S , H u b e rt L .: What computers can't do. T h e limits o f artificial intelligence, N e w York, 1 9 7 2 ,1 9 7 9 . Para a reabilitação de S ó crates, cf. M A R T E N S , E .: Sokratischer-platoniscber Ratio nalismus im “Expertensystem”; in: Zeitschrift fü r philosophische Forschung 1 (1 9 9 2 ), pp. 5 6 -7 5 ; além disso, cf. M A T S O N , W allace I. SC L E I T E , A d am : Socrates critique of cognitivism·, in: Philosophy 6 6 (1991) pp. 145-167.
9 0 I A q u estã o d e S ó cra tes
a impressão de que, com a intuição "repentina”, ele pretende
pôr um ponto final e definitivo no esforço pelo conhecimento
e atribuir, ao menos ao filósofos-comandantes, um saber ab
soluto, claramente deduzível para todos os casos singulares.
Todavia, tal qual os outros diálogos da fase inicial, em