A questão de Sócrates: uma introdução
sivelmente provocados pela contraproposta de Sócrates
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
claramente incontestes entre ambos. Tem-se a impressão de
que dois velhos e íntimos amigos remontam a conversas e
meditações anteriores, reafirmando assim convicções já antes
alcançadas para aplicá-las ao caso presente. Contudo, carac
terizar Críton como amigo “fiel, mas limitado em seu juízo e
carente de afeto"3 significa considerar o diálogo e seus inter
locutores isoladamente um do outro, bem como separá-los
de uma comunidade de diálogo e de ação. Em oposição ao
“carente" Críton, Sócrates deveria então ser qualificado como
dogmático e autoritário. A distinção de Xenofonte entre os
3 A P E L T , O tto (org.): Platon: Sämtliche Dialoge, vol. I, H am b u rg , 19 8 8 , p. 74 (Introdução i tradu ção do C ríton ) [reimpr. da edição de 1 922-37].
14 6 I A questão de Sócrates
dois diferentes tipos de prática dialógica socrática dá ensejo,
entretanto, a uma interpretação dos diálogos platônicos da
fase inicial que faz jus ao saber especificamente socrático como
pano de fundo de sua ignorância.
Ademais, no Críton não se trata somente de uma argu
mentação teórica, mas de um comportamento prático, da fuga
que foi proposta a Sócrates. Tam bém aqui, tal como antes
Sócrates inculcara a Críton no Eutidemo, a filosofia é questão
de exercício. Da práxis dos argumentos e das ações no Críton,
pode-se imaginar facilmente como Sócrates, no seu mais es
treito círculo de amigos mencionado por Xenofonte, sempre
seguia sua máxima fundamental, inspecionando diferentes
regras de ação para aplicá-las a um agir concreto, inclusive
a seu próprio comportamento. Ademais, é provável que, no
curso das “conversas diárias com seus amigos” (Xenofonte),
algumas regras e tipos de comportamento tenham se tornado
uma parte fixa e constante de seu modo de vida. A filosofia
como uma questão de exercício moral e prático distingue-se
fundamentalmente da filosofia como uma questão de exercí
cio erístico e teórico. E claro que, entre o público ateniense,
ambas as coisas eram percebidas como "filosofia", e é por isso
que no Eutidemo Sócrates recomenda que se preste atenção não
no nome da profissão, mas sim na “própria coisa em questão".
O fato lembrado por Xenofonte de que, em seu círculo
de amigos, Sócrates se esforçava por um saber positivo e o
aplicava em sua própria vida encontra no Críton mais uma con
firmação e concretização. A imagem do Sócrates ignorante é
apenas o primeiro plano. Quando se inverte sua imagem usual
e se lê os diálogos platônicos do ponto de vista do Sócrates
sábio, sua questão aparece sob uma nova luz, de modo que
se tornam compreensíveis tanto a fascinação que ele exercia
Saber socrático e arte de viver I 147
sobre os atenienses quanto o seu contínuo impacto. O Críton
é ,além disso, a peça de ligaçáo que faltava entre o Sócrates
de Xenofonte, que dá conselhos práticos sobre a vida, e a tese
de Pierre Hadot, segundo a qual, para escolas helenísticas e
romanas subsequentes a Sócrates, a filosofia não consistia “na
doutrina de uma teoria abstrata e tampouco na interpretação
de textos, mas sim na arte de viver'“. Com a propagação da
espiritualidade cristã, porém, "a filosofia passou a perder seu
conteúdo existencial” e, portanto, o cristianismo “contribuiu
para restringir a filosofia a um discurso teórico". Todavia, “a
figura de Sócrates” teria permanecido “o símbolo sempre vivo
de um filósofo que sabe viver e morrer”4 4 5.
As exposições de Hadot sobre a filosofia como “arte de
viver” lançam uma nova luz sobre o Críton e os demais diálo
gos socráticos. Inversamente, estes concretizam e confirmam a
própria tese de Hadot, que todavia é desenvolvida sem o apoio
da filosofia socrática. Entre os epicuristas e os estoicos, como
mostra Hadot, a filosofia enquanto arte de viver exige “regras de
vida” (κανόνες) claras e facilmente aplicáveis em uma situação
prática, mas também o "exercício intelectual” para certificação
e inspeção dessas regras6. Em duas listas transmitidas por Füon
de Alexandria encontra-se, segundo Hadot, um "panorama bas
tante completo de uma terapia filosófica sob influência estoico-
4 H A D O T , Pierre: Philosophie als Lebensform. Geistige Übungen in der Antike, Berlin, 1991, p. 15. [orig. La philosophic comme manière de vivre]. P ara a influ ência de H a d o t sobre Foucault e seu conceito de filosofia antiga com o “cui dado de si mesmo", ver tam bém o posfácio. E m contrapartida, cf. a análise de Frankenas d o Críton com o m odelo exem plar da argum entação ética; in: F R A N K E N A , W illiam K .: Analitische Ethik, M ünchen, 1 9 7 2 , pp. 17-20 [orig. Ethics, Englew ood C liffs, N .J., 1 9 6 3 ],
s H A D O T (1 9 9 1 ), p. 10.
6 Idem, p. 18 s.
148 I A questão de Sócrates
platônica”: investigação (ζήτησις), exame minucioso (σκήψις),
leituras, escuta, vigília (προσοχή), domínio de si (έγκράτεια),
indiferença perante as coisas indiferentes” e, ademais, “exercícios
de meditação (μελέται), terapia das paixões, recordações daquilo
que é bom e cumprimento das obrigações”7.
A atitude de Sócrates no tribunal, na cadeia e diante
da morte pode ser entendida como resultado de um longo
exercício, que H adot descreve da seguinte maneira: “Im
primem-se na memória as máximas mais contundentes, as
quais, quando chegado o momento, irão nos ajudar a aceitar
os acontecimentos”8. Caso se faça uma relação entre as in
vestigações de Hadot sobre a filosofia como arte de viver e o
Críton, pode-se entender as convicções não fundamentadas por
Sócrates em seus pormenores como retomada de uma antiga
prática comum do filosofar e de uma vida conduzida segundo
regras filosóficas. E por isso que, como ponto de partida bá
sico e comum, tais convicções precisam ser recordadas e, em
seguida, mais uma vez confirmadas por Críton:
(a’) A máxima fundamental é praticada por Sócrates em to
das as fontes escritas conservadas que chegaram até nós,
exceto em sua apresentação como sofista nas Nuvem de
Aristófanes. Além disso, Sócrates reforça esta máxima
no Êutifron e a fundamenta na Apologia (ver I e III).
(b’) A exigência de agir apenas conforme o conhecimento
técnico, de modo análogo ao artesão, é uma conhecida
regra socrática (ver Apologia (2)) e dá uma fundamentação
pragmática adicional à máxima socrática fundamental.
7 Idem, p. 16.
* Idem, p. 18.
Saber socrútico e arte de viver I 149
( c ) As regras “Viver bem é mais importante que (sobre)viver”
e “Viver bem é viver de modo honrado e justo” tornam-
se ainda mais ostensivas à medida que uma convicção já
conhecida e muitas vezes inspecionada sem maior eluci
dação e fundamentação é mencionada e mais uma vez
reforçada por Sócrates e Críton (ver Apologia, I).
(d’) As regras “N ão é lícito cometer injustiça em qualquer
circunstância” e “A injustiça é nociva e vergonhosa àquele
que a comete” também já são conhecidas ao menos desde
a Apologia ((3),(4) e (5)).
(e’) Ademais, a regra “Um compromisso deve ser mantido”
não recebe fundamentação, sendo simplesmente apli
cada a uma situação concreta. Com isso, lança-se mão
de outras assunções: primeiro, Sócrates deve obediên
cia às leis de Atenas porque as reconheceu voluntaria
mente (51d); além disso, ele as reconheceu não apenas
em palavras, mas também em atos durante sua longa
vida em Atenas (52d); por fim, é preciso “ou seguir as
leis, ou persuadi-las por meio do convencimento” (51b,
52a), mas, como Sócrates não foi capaz de convencer
os jurados, ele tem de submeter-se à sua sentença ainda
que ela seja injusta, não lhe sendo lícito fugir, pois assim
infringiría a regra (d).
(Γ) Por último, a observação de que as leis da pólis devem ser
confirmadas pelas “leis do Hades” pressupõe a regra de
que as leis existentes estão incondicionalmente submeti
das às leis morais (“do Hades”); enquanto Críton, como
íntimo discípulo de Sócrates, manifèstamente não precisa
de nenhum esforço para entender esta breve indicação,
Êutifron, que não pertencia ao círculo dos discípulos de
questão de Sócrates
Sócrates, não foi capaz de captar a alusão "subliminar” à
reinterpretação moral do mundo dos deuses.
Quando se relacionam os testemunhos de Platão e Xeno-
fonte entre si, a prática do Sócrates histórico distingue-se da
prática didática dos sofistas sobretudo pelo fato de que Sócra
tes não apenas transmite ou “ensina” uma habilidade retórica
e argumentativa ou um mero saber dos fatos. Antes, a meta
de seu filosofar é um modo de viver racionalmente orientado,
que ele busca exercitar através de regras de vida firmes, mas
sempre sujeitas à inspeção de seus fundamentos racionais. Se
nos diálogos de Platão é possível extrair o saber da ignorância,
Xenofonte acentua apenas o saber de Sócrates, sem vestígios
reconhecíveis de uma ignorância. Não obstante, ambos, Platão
e Xenofonte, estão em concordância ao dar testemunho da
filosofia socrática como arte da vida.
A oposição entre as práticas didáticas sofistica e socrá
tica relativas à areté também é ilustrada por um diálogo curto
entre Hípias e Sócrates nos Memoráveis de Xenofonte (IV
4,6). Depois de Sócrates já ter indicado que é necessária uma
correlação objetiva entre ensino e aprendizado da areté, Hípias
lhe pergunta sarcasticamente: "Tu ainda estás a falar da mesma
coisa que eu há anos escuto de ti?” Sócrates responde: “Sim,
Hípias, e o que é mais terrível, eu não apenas faço sempre as
mesmas afirmações, como também sobre as mesmas coisas.
Mas tu, como homem de múltiplos conhecimentos, prova
velmente jamais falas o mesmo das mesmas coisas”. E Hípias
concorda: "Não te preocupa, sempre tento trazer algo novo”.
A questão de Sócrates é a areté ou o bem-viver. Quanto
a isso, não se pode mudar constantemente as próprias con
vicções, como também ressalta Sócrates no Górgias de Platão
Saber socrático e arte de viver I IS I
(482a, 490e, 509a). Q ue Xenofonte igualmente não entenda
as regras de vida socrática como um saber proposicional, mas
sim como um “saber ativo"9, isto fica claro no desenrolar do
diálogo que relata. Depois de Hípias ter se vangloriado por
causa de seu saber da justiça, e de Sócrates tê-lo exortado,
ironicamente, a compartilhar com ele este "achado magnífico”,
Hípias se recusa a fazê-lo:
H í p i a s: “B a s ta d iss o . D e p o is d e d iz e r q u e o s o u tr o s são o s m e lh o re s, t u p a s s a s a in te rro g á -lo s, d e ix a n d o -o s a c u a d o s, m a s ja m a is d iriges u m d is c u rs o a a lg u é m e ta m p o u c o q u e re s rev elar tu a op in ião.”
S ó c r a t e s : “C o m o , H íp ia s , n ã o p e rc e b e s te q u e e u ja m a is ce sso d e m o s tr a r à lu z d o d ia a q u ilo q u e te n h o p elo ju s t o ? ”
H í p i a s: “E q u a l é te u d is c u r s o a re s p e ito d is s o ? ”
S ó c r a t e s : " N ã o é atrav és d e p alav ras q u e e u o m o s tro ,
m a s s im atra v és d a a ç ã o . E a a ç ã o n ã o é u m a p ro v a m e lh o r d o q u e a p a la v r a ? ” ( I V 4 ,9 s .; cf. P la tã o , Laques 1 8 8 c ss.)
D e modo geral, há muitas razões para que se aceite, por
trás da práxis dialógica de Sócrates (que por vezes é de fato
sofistica), também uma práxis da arte de viver e um saber
socráticos. Evidentemente, também a “doutrina não escrita”
de Platão é menos a teoria das idéias orientada pela mate
mática e transmitida apenas oralmente a um grupo restrito,
como assume sobretudo a Escola de Tübingen10, do que o ideal,
inspirado em Sócrates, de uma orientação prática conforme
5 STENZEL, Julius: Platon, der Erzieher, Hamburg, 1961(2), p. 78 [reimp. da edição de Leipzig, 1928],
10 Cf. sobretudo GAISER, Konrad: Platons ungeschriebene Lehre, Stuttgart, 1962; para a crítica, ver WIELAND, Wolfgang: Platon und die Formen des Wissens, Göttingen, 1982.
152 I A questão de Sócrates
à filosofia11. D e todo modo, mesmo em Platão, na Carta V II
(340b-342a), em conexão com sua crítica à escrita, a “vida em
comum” é apresentada como o ponto de partida e de chegada
da aspiração filosófica ao conhecimento.
Do ponto de vista do conteúdo, todos os casos investiga
dos de saber socrático se referem à pergunta fundamental de
Sócrates pela areté ou pelo bem-viver na realidade empírica e
criticamente inspecionada. N o que toca às espécies de saber,
Sócrates também não dispensa elementos de definições e evi
dências. Entretanto, o que é característico no saber de Sócrates
são experiências práticas fundamentais da vida em comum,
convicções morais e esperanças escatológicas. Em nenhum
lugar, porém, ele se arroga um saber teórico que repouse tão
só em fundamentos racionais. O saber não proposicional, não
convencional e não evidente é, portanto, plenamente conciliável
com um saber provisório e sempre sujeito a novas inspeções.
Ambos, aliás, definem o limite um do outro. O saber socrático
se move entre a mera "opinião” não inspecionada e arbitraria
mente colocada e o "saber evidente” imediato, subtraído a uma
inspeção. Por isso, ele tem a forma da "representação verdadeira
bem fundamentada" (ή μετά λόγου άληθής δόξα) que Platão
desenvolve no Teeteto (201 c ss.), correspondendo à máxima
socrática fundamental de buscar e seguir a cada vez, após uma
inspeção ou meditação minuciosa, a melhor convicção.
11 E m conexão com W ieland, cf. tam bém M IT T E L S T R A S S , Jürgen: Versuch
über den sokratiscben Dialog; in: M I T T E L S T R A S S , J .: Wissen als Lebensform,
F ran k fo rt a. Μ ., 19 8 2 , pp. 13 8 -1 6 2 . N o entanto, quanto a M ittelstrass, cabe
ría com plem entar que o saber socrático n ão tem p o r m eta apenas u m a práxis
do diálogo, m as tam bém um a práxis da ação; além disso, é preciso revelar
tal saber com o pano de fondo da práxis aporética e frequentem ente erística
dos diálogos de Platão, não sendo possível igualá-lo sem m ais ao diálogo lá praticado com o “form a de vida".
Saber socrático e arte de viverI 153
Com essa forma de saber, a ignorância tipicamente asso
ciada a Sócrates e o saber das idéias atribuído a Platão não
estão mais em rígida oposição. Sócrates não permaneceu preso
à mera recusa das diferentes formas de saber presumido, assim
como Platão, apesar de sua tendência às soluções definitivas,
não considerou humanamente possível um saber certo e der
radeiro, a não ser em raros momentos de iluminação intuitiva
e não ensinável (Carta V II, 341c s.; República V II, 504e s.). N o
Banquete, convém à filosofia igualmente uma posição inter
mediária entre a ignorância total e o saber total. Somente os
deuses têm um saber total; os "sofistas” apenas o arrogam para
si. O filósofo, ao contrário, é amante, não dono da sabedoria
(Banquete 204a s.).
N o Banquete, aquilo que o Sócrates platônico reproduz
da narrativa de Diotima sobre Eros e a filosofia é claramente
aceitável para o Sócrates histórico e para Platão. Mas, diferen
temente de Platão e, tanto mais, de Xenofonte, Sócrates acen
tua em seu saber a necessidade da inspeção crítica e se remete
à areté; Platão, ao contrário, preocupa-se com todo o campo do
conhecível e fundamenta a possibilidade do saber na doutrina
das idéias. Em Platão, e igualmente em Sócrates, o saber cer
tamente está, a cada ocasião, atado à tensão entre “o um e o
múltiplo” e assim, por razões sistemáticas, não é separável de
certa ignorância. Contra a inequívoca tendência de Platão - e
tanto mais do platonismo - a um "saber das evidências” defi
nitivo, subtraído de comprovações, a unidade socrática entre
ignorância e saber pode ter o valor de um corretivo.
154 I Λ questão de Sócrates
C a p í t u l o 8
“A s m u s a s ” e a m e ta fís ic a
Fédon, o último dos quatro diálogos socráticos, descreve
como Sócrates passa o dia de sua morte cercado de amigos, do
raiar ao pôr do sol, filosofando com eles sobre a imortalidade
da alma e a existência de idéias eternas, até beber serenamente
a taça de cicuta. Por causa da atmosfera comovente e da te
mática existencial, o diálogo exerceu desde a Antiguidade um
forte impacto sobre seus leitores. Conta-se que Cleômbrotos,
um aluno de Sócrates, após a sua leitura se atirou ao mar do
alto de uma muralha, a fim de ir voluntariamente ao encon
tro da morte (Cícero, Diálogos em Tusculum I, 84). Por causa
de seu modo de morrer, Sócrates era tido na antiga Roma
como o modelo do sábio estoico. Assim, a morte de Catão, o
mais jovem, que corresponde a este modelo, manifestamente
pertencia às "histórias mais repetidas em todas as escolas”,
segundo Sêneca. Porém, para consolar seu amigo Lucílio, que
estava ameaçado de prescrição ou de morte, Sêneca lhe narrou
mais uma vez “como, na última noite, ele [Catão], lendo um
livro de Platão, pousou o sabre ao lado da própria cabeça. Ele
havia se precavido com estes dois recursos para uma situação
extrema: um para querer morrer, outro para poder morrer"
(Cartas a Lucílio, III, 24,6)1.
1 Q u e o “livro de Platão" seja o Fédon, isto pode ser inferido d o con texto: pouco antes, Sêneca n arrara brevem ente a m orte de S ó crates (cf. S Ê N E C A : Fédon, I II, 2 4 , 4 ) . J á e m P lu tarco, o Fédon é expressam ente m encion ado (cf. P L U T A R C O : Vidas paralelas, vol. 5 C atão , o jovem , 6 8 ) . C f. tam bém
‘As musas” e a metafísica I 155
Por fim, a cena da morte de Sócrates tornou-se um tópos
literário, por exemplo, na descrição que Tácito fez do suicí
dio de Sêneca (Anais, Livro X V , caps. 62-64). Além disso,
o diálogo de Platão teve numerosas imitações. Em seu Fédon
(1764), por exemplo, Mendelssohn expõe em particular a prova
da imortalidade da alma e, com isso, atrai para si a crítica de
Kant (Crítica da Razão Pura B 413). A obra de Lamartine, La
mort de Socrate [A morte de Sócrates] (1823), enfim, reinterpreta
a metafísica de Platão no sentido do credo cristão. Sem dú
vida, o Fédon de Platão pertence às obras-primas da história
filosófico-literária da Europa e, como livro fundamental da
metafísica, sempre teve interpretações e recepções muitíssimo
variadas. Portanto, caso se queira encontrar os vestígios de
Sócrates como "sábio sileno”, é preciso tentar lê-lo contra o
modo de recepção predominante.
A postura exemplar do Sócrates que morre sereno e
calmo corresponde plenamente à maneira como, ao final da
Apologia, ele fala sobre a morte. O Fédon também confirma o
efeito fascinante que Sócrates exerceu sobre seus discípulos e
leitores, e sublinha mais uma vez que não lhe importa um sa
ber sobre a filosofia, mas sim uma vida a partir dela. Entretanto,
o Sócrates do Fédon, que funda sua atividade inspecionadora
e sua exigência por justiça incondicional sobre uma doutrina
metafísica da existência das idéias e da imortalidade da alma,
não corresponde mais ao Sócrates apresentado nas outras
fontes e nos diálogos platônicos da fase inicial. N o Fédon, ao
que parece, a questão de Sócrates tornou-se definitivamente
a questão de Platão.
M O N T A I G N E , M ich el d e: Ensaios I, 1 9 : “Filosofia significa aprender a m orrer".
156 I A questão de Sócrates
Para resolver a contradição que opõe o Sócrates questio-
nador e ignorante dos diálogos da fase inicial ao Sócrates sábio
e metafísico dos diálogos da fase intermediária, Vlastos distin
gue entre um Sócrates “anterior”, que é histórico, e um Sócrates
"intermediário", que é produto de Platão. Enquanto um seria,
em primeiro plano, um filósofo moral e ironista, o segundo te-
ria reelaborado todo o domínio da filosofia e defendido, sobre
a base de uma doutrina metafísica de dois mundos, um saber
completo em si mesmo.2 A tese de Vlastos se baseia sobretudo
na interpretação aristotélica de Platão e Sócrates e, sem dú
vida, encontra um apoio justamente no Féâon. M as também
é possível interpretar o diálogo contra as inegáveis tendências
plantônicas a uma doutrina metafísica de dois mundos, e ainda
mais contra a recepção platônica dominante. Mudando-se a
perspectiva, portanto, o Fédott deve ser lido não conforme a
visão de Platão, mas sim conforme a de Sócrates.
O eixo central de uma tal mudança de perspectiva reside
na cena inaugural do sonho de Sócrates (60b-61c), quase como
se a figura do Sócrates real quisesse afirmar-se contra a própria
intenção da reconfiguração platônica. Depois que Críton, a pe
dido de Sócrates, levou embora a chorosa Xantipa e seus filhos,
Cebes relata que o poeta Eveno teria procurado Sócrates para
saber o que este pretendia em seu recente envolvimento com a
arte poética. Em seguida, Sócrates lhe conta que um mesmo
sonho muitas vezes o teria exortado: "Sócrates, ocupa-te com
2 V L A S T O S , G regory: Socrates. Ironist and Moral Philosopher, C am b ridge 1991, pp. 4 7 -4 9 . D e m aneira sem elhante, co m a distinção entre o m etafísico “Paton” e o lógico “Laton ”, H a re procura justificar as rupturas e contradições m anifestas na obra de Platão. Ele não adentra, porém , a discussão d o papel do Sócrates. In : H A R E , R .M .: Platon. Eine Einführung, S tu ttg art, 1 9 9 0 , p. 4 8 ss. (orig. Plato,O xford, 1 9 8 2 ).
"As musas” e a metafísica I J57
as musas (μουσικήν ποίει)!”. D e início, ele teria captado isto
como um encorajamento para continuar a praticar a filosofia,
“a mais sublime atividade das musas”. Mas somente na cadeia,
para não ser desobediente à exortação do sonho, ele enfim te
ria tentado dedicar-se também à "atividade trivial das musas”.
Assim, primeiro teria composto um poema a Apoio, de quem
ele se dissera servidor na Apologia; além disso, teria transposto
para versos algumas fábulas de Esopo, já que ele mesmo não
seria capaz de compor nenhuma fábula. Por fim, Sócrates
ainda incumbe Cebes de, em seu nome, exortar Eveno a seguir-
lhe os passos para a morte, pois, afinal, Eveno também seria
um filósofo. Estando sobre a cama, depois de ter esfregado
sua perna há pouco liberada dos grilhões, Sócrates baixa os
pés para o chão, como que para reforçar que eles ainda estão
firmes sobre a terra, e assim sentado continua a falar.
Em oposição ao vínculo de Sócrates com a terra, Platão
parece pôr na boca do mestre sua própria doutrina transcen
dente das idéias quando faz Sócrates afirmar que até então te
ria se ocupado somente com a filosofia como “atividade sublime
das musas”. N a República, entende-se sob tal termo a dialética,
na medida em que esta procura apreender a pura estrutura
do ser ou de seu complexo de idéias como “melodia” (νόμος)
(República V I I 532al). Com isto, a dialética se assemelharia à
apreensão numérica da harmonia dos sons estabelecida pelos
pitagóricos. O s demais teóricos da música, em contrapartida,
procuram medir, comparativamente, os acordes e os tons tão
só com os ouvidos e “atentam mais aos ouvidos que à razão”
(531a). D e modo semelhante, também os astrônomos sem
orientação matemática atentam mais aos olhos que à razão
(529a ss.). É no Teeteto, por fim, que Platão irá desenvolver
sua teoria do conhecimento estritamente antissensualista: as
158 \ A questão de Sócrates percepções sensíveis repousam primordialmente sobre o apre
ender das estruturas dos dados sensíveis “através da alma” ou
da “razão” ainda que "não sem” os diferentes órgãos dos sen
tidos (Teeteto 184b ss.).
Tais meditações epistemológicas eram estranhas a S ó
crates. Todavia, por experiência própria, ele certamente sabia
como as relações harmônicas de frases, sons e movimentos se
descerravam nas atividades das musas relativas à composição
poética, à música e à dança. Semelhante experiência manifesta-
se muito típica dos gregos antigos3 e é apreendida pelos pitagó-
ricos apenas posteriormente, em sua teoria dos números. Por
isso, bem antes de lembrar qualquer teoria ou metafísica, a
dedicação de Sócrates às atividades triviais das musas também
lembra as relações harmônicas que podem ser experimentadas
nos ritmos, melodias e coreografias. Tal experiência também
se deixa transpor do domínio das musas ao domínio prático-
moral. Assim, Sócrates sabe por experiência própria que é
melhor viver entre cidadãos honestos que entre ruins, que cada
um de seus concidadãos preferiría receber antes um auxílio
que um dano, ou que ninguém quer realmente inflingir um
dano a si mesmo. Em sua total obviedade, todas essas coisas
já haviam sido mencionadas por Sócrates na Apologia como
experiências humanas fundamentais.
3 V er H A V E L O C K , E . A .: Preface to Plato (1963) p. 1 2 8 : "What we call the Greek sense i f beauty, in architecture, sculpture, painting and poetry was more than anything else a sense o f elastic andfluid proportion [ . .. ] perfected by an unusual degree o f exercise in acoustic, verbal, and musical rhythms" [ Ό que chamamos de sentido grego para a beleza em arquitetura, escultura, pintura e poesia era, antes de mais nada, o sentido de uma proporção fluida e elástica [ . .. ] promovido por um nível incomum de exercícios acústicos, verbais e musicais”. C f. tam bém K I T T O , H u m p hrey D .F .: D ie Griechen, traduzido d o inglês p o r H en tin g, F ran k fu rt a. M ., 1 9 6 0 , p. 152 ss. (original: T h e Greeks, H arm o n d s W o rth , 1951).
"Aí musas” e a m etafísica I ISO
N o entanto, da perspectiva platônica, e tanto mais da
platonista, a dedicação à "atividade costumeira das musas” é
apenas uma complementação posterior à pura filosofia, a qual,
em verdade, preferiría permanecer fechada em si mesma, des
cobrindo apenas no último momento - pouco antes da morte
- seu inevitável telurismo. Também no plano educacional da
República (III, 398c-403c), as atividades relacionadas à música
servem meramente ao aprimoramento precoce do compor
tamento autocontrolado, por exemplo, na escolha dos tons e
dos instrumentos musicais: “pois o que é musical deve ter seu
termo no amor ao belo” (403c). Contudo, as atividades das mu
sas não têm um valor próprio como experiência de harmonia
e beleza. Afinal, Platão as transforma em instrumentos com
uma função disciplinar.
Em nenhuma outra passagem Platão relata que Sócrates
teria se ocupado, na prática, com a arte “trivial” da música.
Sua atividade como canteiro ou escultor, que não está segu
ramente testemunhada, era um mero trabalho artesanal na
avaliação dos gregos. Todavia, em seu Banquete, Xenofonte íãla
de uma arte socrática da dança. Sócrates teria tentado, a des
peito de toda a sua feiura exterior, “levar tudo ao equilíbrio”
através de movimentos de dança (Banquete II, 17). Ainda que
na arte socrática da dança não passe despercebido o ponto
de vista da utilidade, comum a outros momentos da obra de
Xenofonte, prepondera em Sócrates, emanando da atmos
fera descontraída do banquete, a alegria com os movimentos
harmônicos. A caracterização de Sócrates como sileno ou
sátiro certamente permite presumir que ele de fato estimava
as atividades das musas como dança, música e poesia nos
banquetes em homenagem ao deus Dioniso descritos por
Xenofonte e Platão.
160 I A questão de Sócrates
D a perspectiva de Sócrates, seu conselho a Eveno de
seguir-lhe na morte também não pode ser interpretado como
conselho para a fuga do mundo ou para a contemplação das
idéias; aliás, tampouco pode estar dirigido à pessoa de Eveno.
Ao contrário do que afirma, Sócrates absolutamente não o
toma seriamente por filósofo. N a Apologia, ele o escarnece
como sofista (19b s.) e, no Fédon, é com muita ironia que o
inclui entre os filósofos. O que Sócrates diz de Eveno, por
tanto, é pura sátira e jogo erístico. Em sua visão, também
deve aparecer como pura ironia a afirmação de que alma e
corpo seriam substâncias por si mesmas “separadas” (χωρίς),
cabendo ao filósofo o cuidado com a alma como suma e única
meta e, por isso, o desprezo por tudo que é corporal (64c ss.).
Assim, a consequência daí derivada, a saber, que o verdadeiro
filósofo "esforça-se pelo verdadeiro ser sem comunidade e
comércio com o corpo” (65c), é para o Sócrates telúrico e
cercado de amigos íntimos uma representação do "bem-viver”
absolutamente inaceitável.
Que filosofar como "aprender a morrer” (64a, 67e) não
signifique nenhuma fuga do mundo para um além, isto já fi
cou nítido, ao menos de uma perspectiva socrática. M as resta
aclarar o que então o filosofar podería significar e por que
Sócrates consegue atrair seus interlocutores Cebes e Símias -
e com eles, os leitores - para uma trilha tão claramente falsa.
Caso se considere o contexto dialógico com maior exatidão,
vê-se imediatamente que o equívoco resulta da ironia socrática.
Seguindo o método praticado nos diálogos da fase inicial, aqui
Sócrates não ensina suas próprias concepções, mas inspeciona
o saber ou as premissas de seus interlocutores. Ele confronta
Cebes e Símias, apresentados por Platão de modo inequívoco
como adeptos de doutinas pitagórico-órficas sobre o além (61d,
‘As musas” e a metafísicaI l6 l 62b, 69c, 70c), com as teses que eles próprios defendem. Não é
Sócrates, mas são eles que afirmam que corpo e alma seriam
radicalmente separados e que o corpo seria tão só um impedi
mento ou uma "prisão" para a alma. A sua conhecida maneira
"peirástica", Sócrates os conduz passo a passo à compreensão
de que eles estariam forçados, a partir de suas próprias assun
ções, à atitude consequente de saudar a morte de seu amigo, e
não de deplorá-la, como estariam fazendo agora. Eles teriam,
portanto, ou de desistir de suas premissas sobre a separação
alma-corpo, ou de aceitar a consequência de não mais prantear
a morte iminente do amigo.
S e se toma a inspeção dialógica a que Sócrates submete
Cebes e Símias como exemplo de sua atividade filosófica, tal
como ela é conhecida através dos diálogos da fase inicial, então,
de uma perspectiva socrática, filosofar como aprender a morrer
significa, em um sentido negativo, a inspeção crítica de nossas
assunções fundamentais e vitais como um despedir-se da posse
pretensamente segura do saber sobre o “bem-viver”. Porém, nos
diálogos da fase inicial também se tornou reconhecível, além
da ignorância, um saber. Filosofar como aprender a morrer
é, portanto, não apenas um afastar-se do saber aparente, mas
também um aproximar-se do saber efetivo e do modo de vida
correspondente. Assim, da perspectiva socrática, a diferença
entre aquém e além pode ser firmada como diferença entre
falso e verdadeiro. N o entanto, em contraste com a metafísica
das idéias de Platão, ao menos tal como ela pode ser depre
endida do Fédon, o saber de Sócrates sobre o "bem-viver” não
pode ser reduzido à evidência de uma demonstração racional,
repousando antes sobre uma exigência incondicional.
T al exigência incondicional do bem é expressada por S ó
crates no Fédon na forma de mito, da mesma maneira que
162 I A questão de Sócrates
ele também se serve de mitos em muitas outras passagens.4
“Mito” (μύθος), literalmente "conto”, é polissêmico em grego.
Primeiro, pode significar a “invenção poética” em contraste
com a “exposição do real", como distingue o próprio Sócrates
ao falar do poeta na cena inaugural do Fédon (61b). Segundo,
pode significar as “sagas dos deuses” transmitidas sobretudo
por Homero e Hesíodo, tal qual na República de Platão (II,
377a ss.). Por fim, Sócrates e Platão manifestamente concor
dam quanto a um terceiro significado, segundo o qual o mito
é uma exposição, inspecionada no lógos, das verdades últimas,
incondicionais. Esta exposição não pode ser deduzida de fun
damentos puramente racionais; antes provém de uma expe
riência humana fundamental. Mas, em especial, as sagas dos
deuses de Homero e Hesíodo também têm de ser inspeciona
das com respeito à sua pretensão de validade, como demonstra
Sócrates, por exemplo, no Êutrijron, dando assim continuidade
à crítica dos mitos de Xenófanes.5
Mas enquanto os sofistas e seus adeptos, como Crítias, o
tio de Platão, interpretam as sagas dos deuses de modo fun
cional - como invenção astuta dos poderosos para estabilizar
seu domínio (Diels/ Kranz 88, frag. 25) - , Sócrates procura
extrair dos mitos o seu núcleo racional, que para ele é sem
pre moral. W ilhelm Nestle também entende que a célebre
expressão "do mito ao lógos”, por ele mesmo cunhada no livro
que a leva por título, não associa tais fenômenos de maneira
antitética, mas sim complementar. Segundo ele, porém, entre
ambos os polos subsiste uma relação assimétrica, na medida
4 Sobre os diferentes m itos, ver F R IE D L Ä N D E R , Paul: Platon, vol 1, Berlim, 1 9 6 4 , cap. 9 : M ythos, pp. 1 8 2 -2 2 2 .
5 Cf. V L A S T O S , G : Socrates (1 9 9 1 ).
“As musas” e a metafisica I 163
em que o mito está submetido à questão da verdade própria
do logos. Em contrapartida, diz Nestle, o logos não apreende a
realidade sem deixar restos, mas se depara com algo irracional;
este irracional seria "o suprassensível, o transcendente”, ou “o
antirracional”6. Em Nestle, todavia, "o antirracional" como
“pseudo-causalidade” permanece insuficientemente determi
nado, ao passo que para Sócrates ele consiste antes de mais
nada na amoralidade das sagas tradicionais dos deuses.
Também no Fédort, "mito” não é para Sócrates nenhuma
solução para o impasse que deve encobrir uma ignorância
através da mera narrativa poética, mas sim expressão de uma
inspiração por assim dizer divina, de um insight que não re
pousa sobre fundamentos racionais. Por isso, na Apologia (22c),
Sócrates atribui expressamente aos poetas, apesar de toda sua
crítica, um saber provindo do "entusiasmo", da possessão di
vina. O s poetas, porém, e tanto mais os rapsodos como íon,
devem ser criticados por confundirem seus profundos insights
com um saber racionalmente fúndamentável (íon 533c ss.).
Assim, na atitude socrática de aproximar-se da "música tri
vial” também repousa a clara indicação de confiar não só em
seu traço racional, apreensível em números, mas também em
seu caráter irracional. É também nesta direção que Nietzsche
capta a exortação dirigida a Sócrates pelo sonho; "Será - assim
ele devia perguntar-se - que o não-compreensível para mim
não é também, de imediato, o incompreensível? Será que há
um reino da sabedoria do qual o lógico está proscrito? Será
que a arte é até mesmo um correlativum necessário e um su
plemento à ciência?”7.
6 N E S T L E , W . (1 9 7 5 ), p. 3 s. [cf. cap. 6, nota 5 ].
7 N I E T Z S C H E , Fried rich : Die G eburt... K S A I , p. 9 6 .
164 I A questão de Sócrates
Para Sócrates, entretanto, o lógos como "correlativum" é
indispensável no mito ou no “não-compreensível”. Por isso, ele
inspecionou até mesmo - como relata na Apologia - o oráculo
de Delfos e quis, ainda que em vão, comprovar ao deus que
haveria de fato outros mais sábios que ele próprio. N o Fédon,
igualmente, Sócrates procura não aceitar simplesmente a exor
tação do sonho como inspiração, mas sim entendê-la racional
mente. Ademais, logo ao início do diálogo, Sócrates anuncia
que prestará contas (λόγον άποδοϋναι) dos mitos do além, de
sua “esperança” (εύελπίς) de que no além o verdadeiro filósofo
"alcançará o bem em plena medida” (63e s.). Sem que fosse
dada uma fundamentação, a mesma esperança ou convicção já
havia sido defendida por Sócrates na Apologia. A fundamenta
ção ou o “núcleo racional" desta esperança reside, para ele, na
exigência incondicional de agir bem, à qual devem se sujeitar
inclusive os deuses. Para Sócrates, o “além” é o domínio da
moralidade incondicionada, que jamais pode ser plenamente
satisfeita na experiência empírica.
N o Fédon, importa a Sócrates, com sua crença no além,
a moralidade incondicionada do “bem-viver”, não a vida após
a morte do indivíduo (80e ss., 91b, 107c). Assim entendida,
embora não possa ser racionalmente demonstrada, a crença
no além é compensadora para a vida humana. Por isso, Sócra
tes também chama sua descrição do além de “um belo mito”
(110b) e a crença nele de uma “bela ousadia” (114d). Por meio
de uma experiência fundamental compreensível a qualquer
um, Sócrates apenas busca trazer à memória o fato de que é
um dever admitir sem restrições, contra toda experiência empí
rica, a ousadia de um “bem-viver” e, para tanto, ainda levar em
conta desvantagens exteriores. É em razão disso que ele tem de
expressar sua esperança na forma de um mito sobre a vida após
‘As musas" e a metafísica I 165
a morte e a recompensa despendida pelos deuses. A metafísica
de Sócrates é uma convicção que vai além da realidade ime
diatamente experienciável e provém de uma experiência fun
damental, a qual, ademais, como espera Sócrates na Apologia
e no Críton, por fim também se comprova no convívio prático.
Além do sonho de Sócrates, do filosofar como apren
der a morrer e da esperança no além, as demonstrações da
imortalidade no Fédon também podem ser consideradas de
uma perspectiva socrática. A primeira demonstração remete à
imortalidade da alma, entre outras coisas, à doutrina da re-
memoração (72e ss.). Se nela Sócrates argumenta que a alma
podería se recordar de idéias adquiridas antes do nascimento
e que, por isso, seria necessariamente imortal, isto não pa
rece ser dito, segundo a distinção de Vlastos, pelo Sócrates
da fase inicial, mas sim pelo da fase intermediária, pois já no
Mênon ele teria defendido semelhante doutrina. Também no
Mênon (81b), porém, a doutrina da rememoração não é intro
duzida como um saber teórico, mas é relatada como narrativa
de sábios sacerdotes e sacerdotisas. A narrativa mitológica da
contemplação de idéias eternas antes do nascimento, todavia,
é expressamente designada como secundária e avaliada tão
só em suas consequências práticas: “E , de resto, eu não me
aferraria muito ao que foi dito. M as que seríamos melhores,
mais valentes e menos indolentes ao acreditar que é preciso
buscar aquilo que não sabemos, em vez de acreditar que não
poderiamos nem achar nem buscar aquilo que não sabemos.
Ora, por isto eu lutaria muito se pudesse, tanto com a palavra
quanto com a ação" (86b s.; cf. 81d s.).
Dirigida ao "bem-viver”, a pergunta socrática "o que é
isso?” pressupõe que já estamos conduzidos por um pressen
timento, que temos então de tentar captar conceitualmente da
166 I A questão de Sócrates
maneira mais exata e fazer valer em nosso agir. O Sócrates do
Fédon, no entanto, amplia a questão da areté até os conceitos
matemáticos e lógicos ao elucidar o argumento da rememo-
ração através do exemplo do conhecimento das coisas "iguais"
(74a ss.). Todas as fontes concordam que, com isso, a perspec
tiva socrática está claramente abandonada. Contudo, na pró
pria exposição platônica de como Sócrates teria chegado à su
posição das idéias, também é possível vislumbrar indiretamente
a restrição originária ao domínio do "bem”. Pois, como Platão
o fez relatar, Sócrates mostrou-se decepcionado após a leitura
dos escritos do filósofo da natureza Anaxágoras, pois este,
com seu princípio da razão (νους), não podia dar nenhuma
fundamentação para o bem-agir. Assim, o fundamento para
não fugir da prisão não seriam, conforme o conceito mecânico
de razão anaxagórico, os “tendões e ossos” de Sócrates, mas
sim sua convicção acerca do modo bom e justo de viver (97b-
99d). Para Sócrates, a recusa da filosofia mecânica da natureza
tem motivação prático-moral e ainda encontra continuidade
na própria cosmologia platônica do Timeu, que está orientada
segundo uma “natureza" normativa.8
Também a segunda demonstração, que estabelece o paren
tesco da alma imortal com as idéias imutáveis (78b ss.), não
pressupõe, na visão de Sócrates, nenhuma estrita “doutrina
de dois mundos". Muito antes, a imutabilidade das idéias está
novamente fundamentada em uma exigência prática. Pois, sem
a "arte" de sempre relacionar de novo aspectos cambiantes e
distintos dos conceitos a idéias que sejam firmes como normas,
é inevitável uma "hostilidade ao discurso" (89c ss.). Temos de
s C f. M A R T E N S , E .: Platon; in: B Ö H M E , G e m o t (org.): Klassiker der N a turphilosophie, M ünchen, pp. 2 9 -4 4 .
‘As musas” e a metafísica I l 6 j pressupor idéias imutáveis para julgar e compreender a mu
dança de fenômenos, concepções e definições do bem-viver,
tal como, já no Êutifron, Sócrates argumenta do ponto de vista
prático contra as colocações arbitrárias de seu interlocutor. A
suposição de idéias como exigência de conceitos normativos
universais passíveis de inspeção é introduzida por Sócrates
no Êutifron na prática concreta da inspeção da "piedade", sem
ulteriores pressuposições metafísicas.
N o Fédon, similarmente, a assunção das idéias é pressu
posta como não problemática (76d, 100b). Ela também pode
ría ser fundamentada sem uma metafísica platônica das idéias,
mas expressões como “idéias imutáveis” ou “contemplação do
ente” de fato despertam, na terceira demonstração (100b ss.), a
impressão de que Platão pretendería pôr na boca de seu mestre
a sua própria doutrina, segundo a qual há idéias separadas do
mundo sensível que podemos apreender em um saber evidente
como coisas de natureza intelectual. As dificuldades a que con
duz semelhante assunção são mostradas pelo próprio Platão
posteriormente no Parmênides, de maneira ainda mais drástica
que Aristóteles em sua crítica às idéias. Mas o Sócrates da íãse
inicial (histórico), segundo todas as outras fontes e mesmo
segundo o próprio testemunho de Platão, jam ais defendeu
uma doutrina das idéias ao modo do Sócrates platônico dos
diálogos da fase intermediária, como o Fédon.
Em contrapartida, a afirmação de Aristóteles de que S ó
crates teria sido o primeiro a perguntar por conceitos univer
sais de virtudes éticas encontra no Fédon uma confirmação,
ao menos quando não se dá atenção à metafísica idealista de
Platão subjacente à retrospectiva autobiográfica de Sócrates.
Sócrates relata que, após sua decepção com a filosofia da natu
reza empirista de Anaxágoras, em uma “segunda viagem” (não
168 A questão de Sócrates em uma "segunda melhor via”, como normalmente traduzido)
ele teria se afastado da contemplação imediata da realidade
sensível e "encontrado refugio nos conceitos (λόγοι), para neles
contemplar a verdade das coisas” (99c-100a). Se com isso S ó
crates descreve seu próprio procedimento “hipotético”, segundo
o qual ele partiría a cada vez das premissas “mais fortes” e
inspecionaria as consequências delas decorrentes, encontra-se
aí uma caracterização certeira de seu método de inspeção nos
diálogos da fase inicial.
O comentário seguinte na exposição da doutrina das
idéias (100b ss.), no entanto, pode ser totalmente separado
da autodescrição de Sócrates. Esta não está em nenhuma
contradição com o comentário, mas é independente dele. D a
mesma maneira, a serenidade de Sócrates diante da morte
também não se funda em demonstrações metafísicas, mas
sim na confiança depositada na exigência absoluta da morali
dade e da racionalidade, a base prática de toda a sua conduta
de vida. Embora Platão também edifique sua metafísica das
idéias sobre a confiança fundamental vivida por Sócrates e
testemunhada por ele próprio - e, portanto, tenha razão em
sentir-se em dívida com seu mestre - , a questão de Sócrates
tem seus contornos bem delineados mesmo sem a filosofia de
Platão, e não carece de uma complementação através da dou
trina das idéias. Caso se leia o Fédon da perspectiva socrática,
tem-se a impressão de que Platão teria tido a intenção de deixar
entrever a autonomia de tal perspectiva em face de sua própria
maneira de ver. Mas, de todo modo, mesmo contra a intenção
de Platão, com o auxílio dos outros diálogos socráticos e das
demais fontes, a perspectiva socrática se deixa revelar em suas
linhas gerais. Sócrates, o satírico “sábio sileno”, joga seu próprio
jogo pelas costas de Platão.
'“Ay musas” e a metafísica I IÓQ
C a p í t u l o 9
N o ta s d e r o d a p é s o b re S ó c r a te s
Quando se lança um olhar sobre o conjunto dos quatro
diálogos socráticos investigados e as demais fontes, alguns
traços da questão de Sócrates podem ser esboçados. Em todos
os quatro diálogos, a cada vez conforme a ocasião concreta e o
contexto dialógico, Sócrates defende sua questão de maneira
diferente.1 Por isso, não se pode falar nem “do” método soerá-
tico nem "da” ignorância socrática. O Êutifron, com sua per
gunta "o que é isso?” dirigida a uma única virtude, a piedade,
é antes de mais nada um diálogo da fase inicial tipicamente
socrático, no qual as pretensões sofisticas e convencionais ao
saber são criticadas com muita ironia. Mas, no pano de fundo
deste diálogo erístico, que termina por se mostrar aporético em
seu todo, Sócrates oferece uma indicação, “dita de passagem”
ao leitor, daquilo em que podería consistir o saber questiona-
dor. Em contrapartida, na Apologia, com exceção de algumas
breves passagens, Sócrates não exerce sua atividade inspeciona-
dora; em lugar disso, ele informa o tribunal sobre ela e "expõe”
(άποδείξαι; 20d 2 s.) em que consiste sua pretensa "sabedoria”.
Também na Apologia, entretanto, é apenas indiretamente
que se obtém alguma notícia da real sabedoria de Sócrates.
1 R om ano G uardini tam bém tom a os quatro diálogos com o base de seu livro sobre Sócrates. Todavia, sua interpretação os unifica sob a perspectiva do Fédon lido de m aneira m etafísico-existencialista. C f. G U A R D IN I, R om ano: D er Tod des Sokrates. Eine Interpretation der platonischen Schriften Euthyphron, Apologie, Kriton, Phaidon, B ern, 1945.
Notas de rodapé sobre Sócrates I I J I
Em verdade, é preciso que ela já tenha sido anteriormente
compreeendida. Nâo é diante do público de um tribunal e
tampouco através de exposições teóricas que se pode com
preender a questão de Sócrates, mas sim observando-se os
colóquios em seu círculo de amigos e por meio do exercício
prático pessoal. Uma tal filosofia, como arte de viver praticada
em comum, é o que o Críton claramente pressupõe com seu
tom de conversa familiar entre velhos amigos. Nele prepondera
o saber socrático e sua aplicação à situação concreta: a recusa
da proposta de fuga. A doutrina das idéias no Fédon, por fim,
também pode ser lida contra a corrente, a partir da perspectiva
socrática, como a exigência absoluta de orientar-se segundo a
razão e a moralidade, exigência fundamentada e seguida por
Sócrates em seu viver e morrer.
Todavia, o diálogo aberto e orientado por uma questão