A questão de Sócrates: uma introdução
sivelmente provocados pela contraproposta de Sócrates
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
concreta, tantas vezes celebrado em Sócrates, não pode ser visto
em sua forma pura ou sequer aproximada em nenhum dos qua
tro diálogos, tampouco nos outros escritos de Platão ou em ou
tras fontes. Ao contrário, quando se lê, por exemplo, o Êutifron,
é preciso dar razão àqueles que criticam semelhante “diálogo
socrático” como manipulador e tendenciosamente racionalista.2
N o Êutifron e na maioria dos outros diálogos da fase inicial, o
diálogo socrático real só se torna visível ex negativo. N o Críton,
ao menos, podem ser encontrados vestígios da séria busca da
verdade já antes praticada por Sócrates no círculo restrito de
seus amigos. N o Fédon, por fim, a busca da verdade como saber
metafísico atinge sua meta. Em face da morte, Sócrates conduz
conversas serenas e descontraídas em meio a seus amigos mais
2 Cf., p or exemplo, B O D E N H E IM E R , A ron R onald: Warum? Von der Obszö nität des Fragens, S tu ttg art, 1984, pp. 20-35.
I J 2 I A questão de Sócrates íntimos, entrecortando-as com narrativas míticas mais longas.
Em tais conversas, ele está comprometido, em última instân
cia, apenas com o lógos e, de fato, não busca mais a verdade do
“bem-viver”. Aqui, Sócrates já aprendeu a filosofar como morrer.
Evidentemente, ainda que se possa em certa medida for
mular enunciados certeiros sobre a atividade de Sócrates e
sobre o método, os temas e a finalidade dela, é em medida
bem menos satisfatória que Sócrates pode se apresentar como
intérprete de si mesmo ao advogar em causa própria diante do
tribunal. Muito antes, sua questão é a realidade inspecionada
e vivida do próprio bem-viver. Enunciados em forma propo-
sicional, ao contrário, sobretudo em forma escrita, fixadora,
dissimulam um saber que, qual um objeto, podería ser des
vinculado daquele que o sabe como se fosse um bem dispo
nível a qualquer um. Para Sócrates, proposições ou conceitos,
pouco importa se em forma oral ou escrita, somente ganham
seu significado em vista da própria questão como realidade
vivida. O poder-viver prático pressupõe o saber-viver teórico.
Mas ambos juntos são "saber viver bem”.3 A práxis como “bem-
3 A análise de H eidegger do “ser à m ão” [Zuhandenheit] e do “ser de ante m ão subsistente" [Vorhandenhat] (Ser e Tempo § § 13, 1 5) - p o r exemplo, de um m artelo com o “instrum ento” (πράγμα) e com o "puro aspecto” o u "ponto de vista” (είδος) - , ainda que ten h a em vista um a crítica ao racionalism o socrático-platônico, revela de todo m odo, ju stam en te con tra a recepção pre dom inante, o significado originário do conceito socrático de saber (da areté). Cf. tam bém a crítica de H u b e rt L . Dreyfus, de orientação heideggeriana, ao racionalismo pretensam ente socrático-platônico da inteligência artificial. D R E Y F U S , H u b e rt L .: Die Grenzen künstlicher Intelligenz. Was Computer nicht können, Robin C ack ett, K önigstein i. T ., 1 9 8 5 ; (org. W hat computers cant do. A critique o f artifical reason, H a rp e r and Row, N Y , 1 9 7 2 ). Sobre a fundam en tação "pragm ática" do saber do είδος, ver tam b ém de C a rl Friedrich von W eizsäcker: Parmenides und die Graugans; in: W E I Z S Ä C K E R , C .F .: Ein Blick au f Platon, S tu ttg art, 1981, p. 17 ss.
Notas de rodapé sobre Sócrates I I 7J
viver” não é acessível a nenhum conhecimento direto e livre
de dúvidas, mas, segundo Sócrates, carece da inspeção crítica,
argumentativa, das situações em que as convicções se tornaram
problemáticas.
A atividade inspecionadora de Sócrates tem por meta a
própria questão como atividade vivida. A resposta na Apologia
à pergunta “Sócrates, qual é a tua questão (Sache/ π ράγμα)?”
articula assim três significados de πράγμα: [1] a atividade exte
rior e embaraçosa de Sócrates como questionador da pergunta
"o que é isso?”; [2] a realidade efetiva, a coisa em questão; [3] a
praxis do bem-viver. Sua filosofia, portanto, seria diminuída
em uma dimensão essencial, caso se quisesse ver nela somente
o "método socrático” da inspeção crítica de conceitos éticos [1],
desligando-a de seu objeto [2] bem como de sua meta prática
[3], Tampouco ela se exaure em uma “ignorância socrática”
meramente aporética. Por um lado, a própria ignorância tam
bém deve ser entendida, a cada vez conforme o contexto dialó-
gico, como uma resistência a um saber puramente conceituai,
convencional ou evidente; por outro lado, ela está inevitavel
mente ligada a um certo saber. O saber socrático abrange tanto
saberes formais - como sinonímia, determinações de conceito
e inferência - quanto conhecimentos conteudísticos como po
esia, mitologia, história e filosofia pré-socrática. Enfim, o saber
socrático continha ainda saberes práticos, como a condução do
diálogo, a faculdade de julgar e a prontidão disputativa. Seu
ponto central, porém, é a exigência fundamental da morali
dade incondicionada e da racionalidade para a determinação
do homem como um ser orientado moral e racionalmente.
Esta exigência fundamental pode ser reconhecida em to
dos os quatro diálogos, desde o início, como “questão principal”
sob o pano de fundo da condução socrática do diálogo (cf.
174 I A questão de Sócrates Êutijron 14a). Com a incondicionalidade de sua ordem de mo
ralidade e racionalidade, Sócrates demonstra ser não apenas
um moralista e um pensador metódico, mas além disso um
metafísico. À diferença sobretudo de Platão, porém, na meta
física socrática devem ser foitas algumas restrições essenciais.
Primeiro, o saber metafísico de Sócrates se dirige exclusiva
mente ao domínio da areté ou do “bem-viver”, não a todos os
domínios do conhecível; por conseguinte, no plano do objeto,
Sócrates é representante de uma metafísica prática. Ademais,
ele não fundamenta suas suposições metafísicas com o auxílio
da razão teórica, na forma de demonstrações racionais, mas
sim com o auxílio da razão prática, na forma de exigências
absolutas. Portanto, mesmo no plano da fundamentação, sua
metafísica pode ser caracterizada como prática. Por fim, S ó
crates incorpora a incondicionalidade da moralidade e da racio
nalidade ao seu próprio viver e morrer, de modo que também
no plano da finalidade sua metafísica é prática e comprova-se
primeiramente como convicção prática. É com base em uma
confiança fundamental ou em uma esperança na razão e na
bondade do todo como “cosmos” que Sócrates sabe viver e
morrer da maneira correta.4
Enfim, ainda que só possa realizar sua arte de viver fi
losófica em um círculo mais íntimo, Sócrates não a restringe
em princípio a esta condição. Platão, ao contrário, sobretudo
na República, entende a filosofia tanto como domínio de si,
através da ascese, quanto como domínio do alheio, através do
saber proposicional, tomando ambos como irrealizáveis para
4 Embora Helmut Kuhn destaque igualmente a “confiança no ser” como
traço fundamental da piedade socrática” ele não o liga à fundamentação do
bem-agir. In: KUHN, Helmut: Sokrates. Versuch über den Ursprung der M eta physik, München, 1959, p. 103.
Notas de rodapé sobre Sócrates I Z 75 “os muitos”, se não em princípio, ao menos no tocante às suas
experiências históricas particulares. Em consequência disso,
Platão exige na República a instituição do “rei filósofo” e de
fende, nas Leis, uma regulação rigorosa de quase a totalidade
dos domínios privados e públicos da vida. A metafísica do
Sócrates que diz sim à vida, do sileno entretido com as musas,
mas também inspecionador cético e ignorante, assume em Pla
tão, cada vez mais, os traços de uma dogmática hostil à vida.
Segundo Cícero, Sócrates trouxe a filosofia do céu para a
terra. Ele procurou entender o “cosmos” dos filósofos jônicos
da natureza, por exemplo Anaxágoras, em sua racionalidade
não apenas causai, mas também teleológica, como ordem fun
damental do “bem-viver". Desta ordem surge a exigência fun
damental da moralidade e da racionalidade, à qual Sócrates
também vincula tanto a questão dos sofistas, por exemplo
Protágoras, relativa à areté do indivíduo e da pólis, quanto o
método sofistico de análise conceituai. O logos do discurso tem
de orientar-se no logos do pensamento, e este, por sua vez, é
expressão do logos do todo.
Com efeito, o lógos inspecionador depende de uma expe
riência humana fundamental do "cosmos”, como a transmi
tida de maneira exemplar pelo mito. Assim, Homero descreve
no célebre escudo de Aquiles a construção bem ordenada do
mundo, no qual astros divinos, homens, animais, plantas e
minerais têm seu lugar adequado (Ilíada X V I II , 481-608).5
Embora o mito também não esteja plenamente separado do
lógos, mas contenha estruturas e princípios de ordem, Sócrates,
s C f. S C H A D E W A L D T , W olfgan g: Tübinger Vorlesungen, vol. 1: Die A n fänge der Philosophie bei den Griechen. D ie Vorsokratiker und ihre Voraussetzungen, Fra n k fu rt a. M ., 19 7 8 , pp. 47 -6 1 .
176 I A questão de Sócrates seguindo aqui uma tradição na linha de Xenófanes, submete o
mito a uma inspeção crítica, tal como faz diante de qualquer
orientação intelectual ou reivindicação de saber. As experiên
cias de ruptura de sua época haviam abalado a confiança em
uma orientação mitológica da espécie do sacerdote Êutifron ou
da espécie do cidadão atenienese médio, bem como a confiança
em Homero como "educador da Grécia" (República X , 606e).
Sócrates é um pensador da arkhé, que pensa e vive a partir
das origens ou dos princípios. É verdade que ele traz a filosofia
do céu para a terra, o que também é ilustrado através de seu
envolvimento com a "atividade trivial das musas” na cena inau
gural do Fédon. N o entanto, antes disso Sócrates já havia se de
morado "nas profundezas do céu, ou melhor, nas profundezas
da consciência”, tal como nota Hegel com razão, rejeitando o
equívoco praticista. Contudo, Sócrates é um pensador “origi
nal” em sentido não apenas sistemático, mas também histórico.
Nele é possível encontrar uma abundância de meditações e
idéias sobre princípios e fundamentos básicos que ainda não
haviam sido especificamente diferenciados e sistematicamente
elaborados. Por isso, não é de admirar que, com sua vida e sua
doutrina, ele tenha encontrado sempre, até os dias de hoje,
adeptos e críticos, incitando todos a continuar a pensar.
Como ponto de ligação das variantes do socratismo, S ó
crates inspirou, de modo sempre novo, não apenas as diferentes
escolas socráticas, mas toda a filosofia até o presente. Assim
como Platão na Antiguidade, quem continua a desenvolver
expressamente e em larga medida os pensamentos fundamen
tais de Sócrates na modernidade é sobretudo Kant, tanto ao
elogiar o método dialógico6 quanto ao afirmar o primado da
6 Sobre Kant, ver cap. 1, pp. 23-4.
Notas de rodapé sobre Sócrates I 177
razão prática, o imperativo categórico, a certeza moral versus
a lógica e a indemonstrabilidade de deus, da liberdade e da
imortalidade. Além disso, como um dos últimos filósofos da
modernidade, K ant dá prosseguimento à concepção socrática
de “filosofia como forma de vida” (H adot) e exercício prático
quando, ao fim da Metafísica dos costumes, dedica ao ascetismo
ético uma seção à parte (§35).
E Platão, no entanto, quem oferece o texto supremo de
toda a filosofia escrita e elaborada sistematicamente, contanto
esteja correta a sentença de W hitehead: “A mais segura carac
terização geral da tradição filosófica europeia é que ela con
siste em uma série de notas de rodapé sobre Platão".7 M as,
na medida em que a filosofia não é absorvida por um saber
proposicional oral ou escrito e tampouco pode ser delegada
a um outro saber, ela sempre só pode consistir em notas de
rodapé sobre um "texto” que, como "tecido” vivo, não é nem
pode ser escrito. Assim , o veredito de W hitehead deve ser
consequentemente complementado: a filosofia de Platão, de
sua parte, tal como qualquer outra, consiste apenas em uma
série de notas de rodapé sobre Sócrates.
E todavia, no Féàon (91c), o diálogo sobre a imortalidade
da alma, Sócrates exorta seus amigos: “Se quereis me seguir,
não vos preocupeis tanto com Sócrates, mas antes com a ver
dade”. A questão de Sócrates, quer no diálogo oral, quer no
texto supremo de Platão, quer em notas de rodapé, é a verdade
do “bem-viver” inspecionado e vivido.
7 W H I T E H E A D , Alfred N o rth : Prozess und Realität Entw urf einer Kosmologie, Fra n k fu rt a. M ., 19 7 9 , p. 91 [orig. Process and Reality, an Essay in Cosmology (Processo e realidade. Ensaio de uma cosmologia), Cam bridge, 1 9 2 9 ].
178 I A questão de Sócrates
C a p í t u l o io
M é to d o s d o filo s o fa r s o c r á tic o
Sobretudo por sua perspectiva metódica, mas também
pela atitude e pela práxis de uma forma de vida filosófica, a
filosofia socrática está indubitavelmente determinada como a
atividade do filosofar. Todavia, nela também importam deter
minados conteúdos, que se apresentam não apenas na forma
de perguntas, mas também na forma de respostas o mais
bem fundamentadas possível, ainda que não fundamentáveis
de maneira absolutamente segura. N o que toca ao conteúdo,
importa a Sócrates o "bem-viver”, cuja meta é a arte prática
de saber viver bem (capítulo 7). Em primeiro lugar, portanto,
para Sócrates, só “vale a pena ser vivida” esta vida que busca
orientação no e através do pensamento (Apologia 38a, Críton
46b). O bem-viver é um viver reflexivo - ao menos até onde
isto é exigível e possível em cada ocasião. Em segundo lugar,
o bem-viver não é orientado somente segundo a sobrevivência
ou a vida materialmente folgada, mas, como mostra cada um
dos diálogos da fase inicial, segundo medidas como coragem,
justiça e prudência. As próprias medidas, em terceiro lugar,
devem ser entendidas dentro de um conceito geral do equilí
brio entre extremos na pólis e na alma do indivíduo. Aqui, de
acordo com a coisa em questão, Sócrates se orienta segundo
o conceito de justiça elaborado por Sólon como equilíbrio, ou
ainda segundo o "meio-termo” aristotélico entre os extremos;
por exemplo, a coragem como meio-termo entre a temeridade
e a covardia. Em quarto lugar, o olhar de Sócrates se lança na
Métodos do filosofar socrático 170 vastidão, indo do todo da alma para o todo da polis, até chegar
ao todo do cosmos como "ornamento e ordem” (Górgias 508a;
cf. Cármides 156d ss.).1
Além disso, quanto ao conteúdo, no conceito socrático de
bem-viver estão contidas determinadas representações, acentu
adas em particular na Apologia, que têm afinidade com as qua
tro questões kantianas sobre o saber, o fazer, o esperar e o ser
humano (Lógica A 25/26). Sócrates confia poder orientar-se
pelo saber, isto é, pelo pensamento. Com o enfatiza sobretudo
Popper, porém, ele ao mesmo tempo não confia em pretensões
absolutas ao saber e se conforma com uma “sabedoria humana".
Conform e assinalado em especial por Aristóteles (capítulo 4),
embora Sócrates tampouco defenda, com sua pergunta “o que
é isso?", qualquer doutrina das idéias pré-platônica, ele acentua
expressamente a necessidade de rememorar-se das próprias re
presentações universalmente válidas concernentes às “virtudes”
e ao “bem”. Ele também aposta em um agir ou fazer "virtuoso"
e o submete todo dia a uma inspeção. Ademais, como insiste
ao fim da Apologia, Sócrates espera por uma vida feliz, filo
sófica, no aquém e, ainda que não exclua esperanças em um
além, não se arroga expressamente nenhum saber metafísico,
sequer no Fédon (capítulo 8). Enfim , por mais que se veja como
um homem chamado e apto a uma vida meditativa e orientada
pela razão, ele está arrebatado de lá para cá entre as paixões
de um monstro como T ífon e a razão de um ser divino, “mais
delicado e simples" (Fedro 230a).
A inda que prefira sobretudo a form a oral do filosofar,
Sócrates praticava, transversalmente à distinção entre “orali- 1
1 V e r W O L F , U rsu la: D ie Suche nach dem guten Leben. Platons Frühdialoge, Reinbeck bei H am b u rg , 1 9 9 6 , p. 151 ss.
180 I A questão de Sócrates
dade e escritura” diferentes métodos do filosofar. O questio
nar socrático, portanto, não deve ser simplesmente comple
mentado por certos conteúdos ou pelo modo de responder
socrático. Tampouco lhe cabe restringir-se quer a um diálogo
oral ou a uma "conversa socrática”, no sentido de Leonard
Nelson,2 quer à clarificação analítica de conceitos especifi
camente éticos, sobretudo como na tradição aristotélica de
Hare e Vlastos.3 M uito antes, o método socrático abrange
um amplo espectro de variados modos filosóficos de pen
sar e trabalhar, e os integra em um processo de pensamento
que, em seu todo, é dialógico ou orientado por argumentos e
contra-argumentos. Porém, antes de qualquer diferenciação
da área da filosofia e de estreitamentos próprios à divisão do
trabalho, concernentes a métodos e direções particulares, o
elemento específico do filosofar socrático consiste sobretudo
na plenitude do mundo da vida e na proximidade da lingua
gem cotidiana, como destacado, por exemplo, por Theodor
W . Adorno em Terminologia filosófica: “Que a filosofia empreste
seus conceitos, em tão grande medida, da linguagem falada
por todos os homens, nisto ela tem sua relação com o todo; é
assim que presumivelmente acontecia a Sócrates quando ele se
entretinha com os cidadãos nas ruas de Atenas a respeito das
questões filosóficas, pois há questões que tocam a todos estes
homens e também podem ser tratadas em sua linguagem.
Através do processo de divisão em áreas ou especialização,
2 NELSON, Leonard: Die sokratische Methode(1922); in: NELSON, Leo nard: Gesammelte Schriften, vol. 1, Hamburg, 1970, pp. 271-316; ver tam bém DIETER, Birbacher & KROHN, Dietfer (org.): Das sokratische Gespräch, Stuttgart, 2002.
3 ARISTOTELES, MetafísicaXIII 4 1078b 16-32; VLASTOS, Gregory: Socrates. Ironist and Moral Philosopher,Cambridge, 1991; HARE, Richard Μ.: Platon. Eine Einführung,Stuttgart, 1990 (engl. 1982).
M étodos do filosofar socrático I l 8 l estes term os tam bém são atingidos, estas palavras que S ó
crates ainda empregava nas esquinas são estreitadas de uma
maneira específica".4
O amplo espectro do método do filosofar socrático, bem
como sua proximidade do mundo da vida e da linguagem coti
diana, se deixam m ostrar particularm ente bem no diálogo de
Platão Laques. Em bora se trate no Laques, em primeiro plano,
de um típico diálogo sobre a areté, que busca definir concei-
tualm ente a coragem através da pergunta “o que é isso?”, tal
pergunta analítico-conceitual só é colocada no meio do diálogo
(190d), sendo antecedida por meditações minuciosas sobre o
modo de proceder ou o método em seu todo. O que importa
a Sócrates do ponto de vista do conteúdo torna-se claro ao
fim das meditações metodológicas, quando N ícias avisa seus
colegas militares e Laques de que, no diálogo com Sócrates,
como ele viría a saber por experiência própria, “é-se conduzido
no discurso sem descanso, até que se chega ao ponto em que
é preciso prestar contas de si mesmo, acerca de como se vive
agora e de como se viveu na vida pregressa”. O próprio N ícias,
de qualquer modo, não teria por “mal nenhum ser rememo
rado (ύπομιμνήσκεσθαι) disso em que não tenhamos agido ou
ainda não ajamos corretamente" (187e s.). O conteúdo do filo
sofar socrático, portanto, é a própria práxis da vida, enquanto
o método é a anamnese entendida pré-terminologicamente,
isto é, a elaboração da memória como ação que seria melhor
traduzida não na voz passiva, mas sim na voz média, como
“rememorar-se". Com efeito, no subsequente diálogo com Só
crates, revela-se que N ícias é sobretudo um homem de discur-
4 A D O R N O , T h e o d o r W .: Philosophische Terminologie [Terminologiafilosófica], vol. 1, F ran k fu rt a. M ., 19 7 3 , p. 4 8 .
182 A questão de Sócrates
sos sobre a coragem, ao passo que Laques aparece antes como
um guerreiro experiente e corajoso. Este intervém pelo vigor
irracional, aquele pela razão sem vigor. Claramente, porém, a
ambos falta sobretudo a compreensão de por que propriamente
a coragem há de ser um bem para eles como generais ou para
suas vidas de um modo geral.
N a elaboração socrática da memória, como fica nítido no
Laques, absolutamente não se trata de uma mera busca aporé-
tica como estágio preliminar de um conhecimento metafísico
das idéias no sentido da doutrina da anamnese de Platão no
Mênon - e mesmo esse conhecimento é primordialmente en
tendido como condição de possibilidade pragmática da busca
filosófica da verdade (Mênon 86b). Muito antes, na descrição
platônica do filosofar socrático, mostra-se uma busca de co
nhecimento “pré-metafísica”, auxiliada por métodos variados
e necessariamente conectados entre si. Com isto, o método
socrático não pode ser reduzido nem a um polêmico "diá
logo socrático” enquanto busca comum e aporética da verdade,
nem a um igualmente polêmico "intelectualismo socrático”
enquanto "saber da virtude" centrado em determinações con
ceituais éticas, como em Aristóteles. Ao contrário, o filosofar
socrático é uma práxis concreta da rememoração, que abarca
toda a pessoa e estaria, sob o termo "reflexão”, insuficiente
mente determinada como mera teoria.
Primeiro, é preciso destacar no Laques a forma especu
lativa ou o método do filosofar socrático. N a disposição cê
nica total do diálogo, pode-se avistar uma indicação de que o
filosofar como elaboração da memória da própria práxis de
vida é uma forma de vida muitíssimo incomum, meramente
“especulativa” no sentido prosaico da palavra, práxis compre
ensivamente escarnecida como devaneio aéreo por Aristófanes
M étodos do filosofar socrático I 183 nas Nuvens ou pela serviçal trácia no Teeteto de Platão (174a
ss.).5 M as justam ente generais e cidadãos experientes como
Nícias e Laques admitem-se em um diálogo com alguém como
Sócrates, e procuram orientar-se através do pensamento e não
através de opiniões não inspecionadas. O quão especulativo é
o filosofar, isto se torna visível não só no próprio transcurso
do diálogo, mas também na vida de ambos os generais, bem
como na execução de Sócrates. À época narrativa do diálogo
(após a Batalha de Délio, de 423, e antes da Paz de N ícias, de
421), ambos os generais estavam no ápice de sua fama; porém,
à época da composição do diálogo, eram conhecidos por todos
os atenienses como corresponsáveis pela derrota na Guerra do
Peloponeso. Além disso, o destino de Sócrates também estava
diante dos olhos de todo ateniense. Por isso, com base em
toda encenação, o Laques pode ser lido como um experimento
intelectual feito por Platão: a vida de ambos os generais e da
polis ateniense poderia ter-se transformado para melhor, caso
o esforço pelo que é realmente bom tivesse prevalecido de fato
sobre o poder e a fama?
O que pode parecer um mero devaneio ao leitor dos di
álogos de Platão da época, ou ao mesmo hodierno, é a espe
rança de Sócrates, inatestável por qualquer empiria e inabalável
a despeito das experiências em contrário, de que, no fundo,
todos os homens filosofem, ou, como se diz no Banquete (203b-
204c), de que todo homem esteja animado pelo Eros que deseja
o bem real. E essa esperança, da qual Platão está convencido
ju nto com Sócrates, pode ser rememorada em qualquer indi
víduo, por princípio, através do diálogo sobre a própria práxis
de vida, mesmo em tiranos como N ícias e Cármides (sendo
5 C f. M A R T E N S , E .: (2 0 0 0 ) .
184 I A questão de Sócrates
este último um parente próximo de Platão e personagem de
seu diálogo Cármides) ou em um aferrado tirano como o tipo
discutido no Górgias (466d ss.).
Pode ser constatada no Laques uma primeira característica
da elaboração socrática da memória. Nesse diálogo, a ence
nação do que parece um devaneio, o experimento intelectual,
pertence ao método especulativo para rememorar nossas es
peranças ou concepções metafísicas acerca do todo da existên
cia humana e do mundo, as quais residem “além da empiria”
(são metafísicas) e são ainda anteriores a uma fundamentação
discursiva. Também a própria atividade inspecionadora como
um todo é fundamentada por Sócrates pré-discursivamente,
através da indicação de uma instância além, quando ele narra
que o deus Apoio o teria encarregado de tal atividade (Apologia
23b, 28e, 30d s.) ou quando narra que seu “demônio" o teria
impedido de tomar determinadas ações - por exemplo, filoso
far com qualquer um (Apologia 31d). Entretanto, o encargo de
Apoio também é submetido por Sócrates a uma comprovação
crítica (Apologia 21b ss.; cf. Êutifron). A metafísica socrática de
veras não deriva da razão, mas se realiza conforme a razão. De
modo semelhante, Platão também emprega experimentos inte
lectuais, imagens, metáforas, mitos ou narrativas; por exemplo:
a experiência intelectual a respeito de Giges e do anel, a fim
de expressar a orientação segundo o que é justo e bom como
um fim em si mesmo (República II 359b-360d); a alegoria da
caverna, a fim de trazer aos nossos olhos a situação humana
entre o aquém e o além (República V I I 514a-517a); a metáfora
da parelha de cavalos da alma, a fim de visualizar o papel da
razão, dos instintos e da vontade (Fedro 246a-257a); ou, ainda,
o mito dos andróginos como forma esférica e originária, a fim
de rememorar a perda e a nostalgia da condição de “ser em si
Métodos do fü osofar socrático I 185 mesmo um mundo", de ser quase edenicamente total ou lite
ralmente “íntegro” (ολον) (Banquete 189d-191d).
Filosofia é, tanto em Sócrates quanto em Platão, a ten
tativa de m anter acordada a memória de que vivemos na "ca
verna” e somos “dilacerados”, alienados de nosso próprio ser
integral. Como “retorno à caverna”, porém, ela também é a ten
tativa de no mínimo superar a alienação - todavia, não através
do recurso a uma verdade intuitiva, inquestionável, mas sim de
um trabalho de rememoração penoso, metodicamente muito
diversificado. Q uanto ao conteúdo, portanto, as filosofias so-
crática e platônica são m etafísicas; quanto ao método, entre
tanto, a filosofia de Sócrates é de todo modo pré-metafísica,
ao passo que a de Platão, ao menos em algumas passagens, é
m etafísica no sentido de uma fundamentação racional última.
Ao método especulativo de empregar experimentos inte
lectuais, imagens, mitos ou narrativas para rememorar-se do
próprio impulso metafísico, sobrevêm como segunda caracte
rística metódica a orientação de princípio em experiências ou
fenômenos em um sentido amplo e pré-terminológico (pré-
husserliano) - também Aristóteles, por exemplo, na Ética a Ni-
cômaco recomenda primeiro “assegurar os fenômenos” (τιθήναι
τά φαινόμενα, Ε Ν V I I 1 ,1145b 2-7). N o Loques, Sócrates de
imediato torna plausível o “modo de investigação” (189e) atra
vés da analogia com diferentes decisões do cotidiano. Como na
decisão sobre o cuidado do corpo, tam bém na decisão sobre a
educação como “cuidado da alma” (185e) evidentemente não
se pode confiar em opiniões não inspecionadas, mas apenas
na razão. D e modo semelhante à orientação segundo o bem,
contudo, a orientação segundo a razão não admite nenhuma
fundamentação racional últim a e forçosa. Ao contrário, já de
antemão o procedimento indutivo de Sócrates parte de sua
i 8 6 I A questão de Sócrates
esperança especulativa na razão. De todo modo, a recomen
dação das diferentes decisões do cotidiano põe o racionalista
da finalidade na obrigação de decidir, diante de uma questão
tão importante quanto a educação, por que ele se limita à in
vestigação dos meios e não quer investigar também as metas,
no caso, a coragem como meta do aprendizado das armas.
Semelhantemente a Platão no Banquete, que em uma "feno-
menologia dos estados de paixão”, como diz Wolfgang Detel
de modo também pré-terminológico, amplia “a capacidade de
percepção dos fenômenos eróticos” até o verdadeiro amor,6
também Sócrates, em uma fenomenologia do modo de ser
racional, amplia a percepção dos fenômenos até o verdadeiro
saber; por exemplo, no Laques, com a pergunta pelo “especia
lista” (τεχνικός, 185a) no "cuidado com a alma”, que evidente
mente tem de ser distinguido de um outro especialista cujo
saber seja demonstrável e conduzido por regras.
A pergunta pelo verdadeiro conhecimento especializado,
também proposta em outros diálogos de Sócrates, não está
visada nem no sentido de um saber artesanal, nem no sentido
de um saber metafísico de circunscrições, proposições ou defi
nições, mas deve - mais uma vez, de modo pré-terminológico
- tão só dirigir o olhar para o saber necessário da coragem ver
dadeira e do bem, diferindo de um mero opinar que se tornou
problemático. Com isto, o mundo das coisas sensíveis ou das
opiniões (δόξα) não é - pelo menos no caso de Sócrates - aban
donado em favor do mundo das idéias ou do saber (έπιστήμη),
mas é inspecionado com relação a estruturas e pressupostos
ocultos. Para simplesmente evitar um eco pejorativo na palavra
6 D E T E L , W o lfg a n g : Macht, Moral, Wissen. Foucault und die griechische Antike, Frank fu rt a. M ., 19 9 8 , pp. 2 3 5 e 2 4 2 .
M étodos do filosofar socrático I 187
dóxa tomada como mera opinião, dever-se-ia traduzi-la de modo
mais feliz por "apreensão" (Auffassen), como G ernot Böhme:
"dóxa conecta-se ao verbo dékhomai, que significa receber', acei
tar’, esperar’ e coisas semelhantes. N a dáxa eu recebo algo como
algo. Este receber é totalm ente ativo, mas permanece acrítico.
Em certa medida, ele responde espontaneamente àquilo que se
dá a mim como uma impressão”.7 Dóxa, poder-se-ia dizer, é uma
palavra utilizada por Sócrates em um sentido fenomenológico.
Além disso, Sócrates procede fenomenologicamente não
apenas no apreender da práxis decisória como práxis inteira
mente orientada segundo a razão, mas também na escolha do
objeto de investigação, a coragem. O trabalho de rememoração
intervém em uma situação na qual um fenômeno até então
apreendido sem questionamento torna-se problema, isto é, algo
que literalmente “se lança à nossa frente” (προβάλλειν), como
um penhasco no caminho de uma orla que até então parecia
plana. E assim que o historiador Tucídides descreve como, por
causa dos acontecimentos da Guerra do Peloponeso, "o signifi
cado habitual das palavras também se alterou arbitrariamente,
ao sabor da situação. Doravante temeridade valia como brava
prontidão para a luta... A impetuosidade violenta era conside
rada viril” (III, 82).
Ademais, o método fenomenológico também pode entrar
em ação no preenchimento de conteúdo da coragem, como na
ocasião em que Sócrates, primeiro, amplia a estreita referência
fenomênica de Laques, delimitada pela luta hoplítica, à “cava
laria e a todo domínio da guerra", para em seguida relacionar a
coragem, como comportamento universal não mais apreendido
de modo restrito (e literal) como "hombridade”, à praxis total da
7 B Ö H M E , G ern o t: Platons theoretische Philosophie, S tu ttg art, 2 0 0 0 , p. 211.
188 I A questão de Sócrates
vida. Sócrates pergunta a Laques quem é corajoso "também nos
perigos do mar, e quem o é nas doenças e na pobreza ou na vida
política, e ainda quem é corajoso não apenas perante as dores
e o medo, mas também forte para lutar contra os apetites e o
prazer, quer enfrentando-os, quer evitando-os” (191d). Então, na
continuidade do diálogo, a valorosa busca pela coragem (194a)
dá uma forma redonda e completa à fenomenologia da coragem.
Assim, tal qual se observa na fenomenologia do estado de paixão
do Banquete ou na fenomenologia do modo de ser racional do
início do Laques, a Sócrates importa primordialmente a forma
abrangente da coragem, a qual ele equipara no Mênon à incan
sável busca filosófica da verdade em seu todo (86b s.). Por fim,
é descerrada de uma maneira também fenomenológica a forma
da resposta intencionada. Após o alargamento do campo de ex
periência do comportamento corajoso, Sócrates exorta Laques
a dizer o que é a coragem: "Sendo o quê (τι õv), ela é o mesmo
(ταυτόν έστιν) em todas estas situações?" (191e), conforme a tra
dução de Schleiermacher.8 Fiel e intrincada, tal tradução repro
duz exatamente a pergunta de Sócrates, que causa estranheza
por causa de seu conteúdo e de sua forma pouco coloquial. Ela
não deve ser entendida, em absoluto, como se fosse a pergunta
platônica pela essência, como primeiro alegou Aristóteles. Após
muitas tentativas insuficientes de resposta, Sócrates explicita o
sentido de seu estranho questionamento "por meio da necessi
dade de saber lidar com a indeterminação fenomênica”.9 Com
efeito, em uma formulação típica dos diálogos da fase inicial, a
coragem só pode ser "aproximativamente” encontrada (193a-c).
8 [N .T .] O riginal grego: πάλιν ούν πειρώ είπεΐν άνδρείαν πρώ τον, τί öv έν πάσι τούτοις τα ύτόν έστιν. T rad ução alem ã: "Noch einmal also versuche zuerst die Tapferkeit zu erklären, was doch seiend sie in allem diesem dasselhige ist" 9 Idem, p. 43.
M étodos do filosofar socrútico I 180
M as, para não falar apenas de “bobagens vazias” (μάτην,
196b) ou de assuntos alheios (198b), como um advogado so
fista perante o tribunal, é preciso saber do que se fala quando
se trata de um assunto tão im portante como a educação. T o
davia, jam ais temos sucesso em estabelecer efetivamente algo
como uma única e mesma coisa, sem pensá-la ao mesmo tempo
em suas muitas diferenciações e variadas nuances. N o Laques,
de todo modo, não repousa sobre a pergunta socrática “o que é
isso?” qualquer decisão prévia sobre o estatuto epistemológico
ou ontológico da resposta procurada.
Apreender algo como algo também significa, em acréscimo
à rememoração dos próprios impulsos metafísicos e dos fenôme
nos que podem ser encontrados através de seu preenchimento
não lacunar, a rememoração hermenêutica das interpretações
que são ajuntadas aos fenômenos visados - eis uma terceira ca
racterística do método socrático em sua descrição platônica.
Somente uma compreensão da própria pré-compreensão do fe
nômeno10 11 torna acessível a dóxa ou “apreensão” (G em ot Böhme)
como desempenho interpretativo de uma inspeção crítica. A
compreensão hermenêutica, porém, é constituída linguistica-
mente, e é por isso que Sócrates incita Laques a dizer o que ele
sabe ou, traduzindo literalmente, o que ele "já viu” (190c)u. Para
Laques, entretanto, é difícil “expressar o que vejo no espírito”.
Como a descrição de Platão tom a claro, os fenômenos visados e
“vistos” por nós não são captáveis em uma intuição de essência12
10 [N .T .] C f. acim a, cap. 2 , n. 2.
11 [N .T .] E m grego, o verbo que corresponde sem anticam ente a “saber” é είδέναι (eidénai). Etim ologfeam ente, trata-se de u m perfeito do verbo ópõv (horân), que significa "ver”. P o rtan to , para o falante do grego, “saber algo” é o m esm o que “já te r visto algo”, “possuir a im agem de algo". 12 [N .T .] T e rm o típico d a fenom enologia de H u sserl: Wesensschau = intuição da essência.
IÇO I A questão de Sócrates
direta. Tampouco eles são comunicáveis, mas sim intermedia
dos linguístico-conceitualmente, como também assinala Platão
em seu escalonamento da fenomenologia do conhecer na Carta
VII (342a-344d). Em sentido inverso, porém, do fracasso ou
do sucesso de uma compreensão linguístico-conceitual não se
pode inferir retroativamente uma ignorância ou um saber do
fenômeno em questão. A pedra de toque derradeira é, muito
antes, o saber como “saber de si”; por exemplo, o saber de si no
comportamento corajoso de Sócrates e dos generais na Batalha
de Délion, e tanto mais na busca da verdade (188c-189b, 194a).
Se a práxis corajosa é a pedra de toque para definir o que é
ser corajoso, pergunta-se em contrapartida justamente pelo que
é a coragem. A relação manifestamente circular entre saber prá
tico e teórico, como mostra o percurso total da investigação do
diálogo, não pode ser evitada, mas deve ser revelada e inspecio
nada na memória da pré-compreensão que sempre está em sua
base. Assim, no Laques, Sócrates chama a atenção para o fato de
que, em sua interpretação da coragem, os generais orientam-se
em larga medida segundo as descrições heróicas de Homero,
servindo-se de seu modelo de caráter linguístico (191a, 201b).
Porém, os tradicionais modelos interpretativos de Homero,
que, segundo Platão, "formou toda a Hélade” (República X ,
606e), são justamente aqueles que, de acordo com a descrição
de Tucídides, se tornaram problemáticos como orientação para
o agir, carecendo portanto de uma nova comprovação.
Desse modo, no Laques, a representação da coragem he
róica como “virilidade” aristocrática, além de ser difusa, está
longe de corresponder ao preenchimento total do fenômeno
do comportamento corajoso e, sobretudo, à coragem como
orientação segundo o bem almejada por "nós”, conforme “re
memora” Sócrates. Ademais, as representações tradicionais
M étodos do filosofar socrático I IQ I contêm obscuridades linguísticas e contradições lógicas que são
reveladas e criticadas por Sócrates em um quarto método, a ser
aqui chamado de analítico. N ele, como Sócrates torna claro, a
expressão de caráter conceituai “o que é isso?” (τί έστιν, 190d),
ainda que seja necessária, está muito longe de ser suficiente.
Ao contrário, é a formulação conceituai que está assentada na
formulação fenomenológica e hermenêutica da pergunta “o que
é isso?”. Com habilidade, mas em parte eristicamente, Sócra
tes também emprega a “arte da distinção” ou da definição do
sofista Pródico, designando aliás a si mesmo como um aluno
dele (Protágoras 341a). Aliás, caso necessário, ele inclusive remete
seus próprios interlocutores à propedêutica lógica de Pródico
(Teeteto 151b). Contudo, no Laques (186c-197d), Sócrates ao
mesmo tempo se distancia amplamente da tese sofistica de que
o procurado "entendimento especializado” da coragem consista
em um mero saber da definição, sem referência ao bem. O li
mitado ganho de conhecimento do método analítico também
se torna claro no 'Laques pelo fato de que os exercícios de defi
nição executados por Sócrates com seus dois interlocutores, eles
mesmos sob influência sofistica, por vezes mais encobrem que
revelam a procurada coragem, ainda que esta, através de uma
orientação mais fortemente voltada para o próprio fenômeno,
venha a se mostrar plenamente visível como correta relação de
comando entre afetos e razão.
Por fim, o quinto método, o dialético, pertence ao filosofar
socrático de uma maneira dupla: tanto como inspeção de si no
discurso e no contradiscurso dialógicos quanto como pensa
mento na tensão insolúvel do um e do múltiplo. Contrariamente
ao que se anuncia no começo do diálogo, a inspeção dialética de
si acontece no Laques somente na forma de ataques verbais e de
ofensas recíprocas (200a ss.), situação, aliás, em que Sócrates
I9 2 I A questão de Sócrates
mal parece estar interessado em auxiliar Laques e N ícias no
conhecimento de si. Entretanto, ao fazer Sócrates conduzir o
diálogo desta maneira, Platão parece sobretudo querer expor
a sofistica ao ridículo, mostrando-a como um palco negativo
para o filosofar orientado para a verdade. A despeito disso, a
busca dialética da verdade torna-se plenamente visível por trás
da fachada do telecatch sofistico. N ão há uma compreensão séria
de nada sem referência a algo como "um e o mesmo”, mas este
"um e o mesmo” não é apreensível e comunicável sem a multi
plicidade dos fenômenos, das interpretações e da linguagem.
Com uma observação mais precisa, portanto, torna-se bem
visível no Laques, ao menos em esboço, a estrutura “única" da
procurada coragem, sobretudo através das reiteradas menções
a Dámon e à tonalidade dórica (180c, 188d, 193d, 197d). N a
teoria musical de Dámon (que não tem como ser descortinada
com exatidão), a "tonalidade dórica” tem seu valor definido
como calmo e viril, formando o "meio” (aristotélico) entre dois
extremos: a tonalidade suave e indolente dos jônicos e lídios e
a tonalidade apaixonada dos ffígios. Dámon, que aliás foi pro
fessor de Pérides, não ensinou apenas a ética das tonalidades,
mas também a afinidade da música com as emoções da alma,
bem como seu significado para o agir do indivíduo e da pólis,
ao que Platão faz referência expressa na República (III, 389c ss.).
Assim, com a menção a Dámon, há uma antecipação temática
da doutrina exposta na Politeia acerca das partes da alma e de
suas virtudes específicas.
Ao definir a coragem no Livro IV da República, Platão
tampouco invoca uma visão intuitiva da essência como a que
parece defender em sua "doutrina das idéias” no Fédon. M uito
antes, através de uma análise fenomênica, ele distingue entre si
as partes racional, apetitiva e corajosa da alma: “N ão notamos
Métodos do filosofar socrútico I JQJ
nós muitas vezes que, quando os apetites forçam um homem
contra seu pensamento racional, ele censura a si mesmo e se
exaspera com aquilo que dentro de si o força? E não notamos
que, desse modo, na luta de uma coisa contra a outra, seu ardor
se torna um aliado da razão?” (440a s.). Por fim, com base em
sua análise fenomênica, Platão oferece uma definição do com
portamento corajoso. O ra , denominamos um indivíduo como
corajoso, creio eu, graças a esta parte [ardorosa], quando seu
ardor preserva fielmente, em meio ao prazer e ao desprazer,
o que foi anunciado pela razão como terrível e não terrível”
(442b-c). M as a solução da tensão entre o um e o múltiplo,
que é reconhecível já no Laques, aparece na República apenas no
plano da definição, como saber da estrutura “única” da coragem.
Em contrapartida, para o saber e o agir na “multiplicidade" da
situação concreta, esta tensão permanece insolúvel. Através da
"força" (δύναμις, 191b) psíquica e realmente ativa, ela tem de ser
sempre reequilibrada e referida ao bem nas variadas situações
que envolvem o comportamento corajoso.
A aporia final do Laques (200e), na qual parecem subsistir
uma ao lado da outra, sem mediação, a referência à razão e a
referência aos afetos, pode portanto ter sua solução em uma
definição verbal. Entretanto, ela subsiste sobretudo como um
esforço corajoso e incansável pelo bem realmente efetivo. A
sabedoria tipicamente “humana" (Apologia 20d), a sabería da
ignorância socrática, também é acentuada por Platão no Ban-
quete (201d ss.) como um "modo de ser intermediário” entre um
saber absoluto, pertencente só aos deuses mas presumido pelos
sofistas e outros “especialistas”, e uma mera ignorância, própria
da compreensão cotidiana e não inspecionada.
O insight socrático a respeito da própria ignorância e da
busca pela verdade só pode ser realizado por um saber em um
194 I A questão de Sócrates
“modo de ser intermediário”. Como pano de fundo do trans
curso sofistico e apoiético do diálogo, este saber tomou-se visível
no Laques em uma configuração dupla de saber tanto formal
quanto material, que se delineia em uma pré-concepção espe
culativa como esperança atuante na prática e como saber vivido,
isto é, arte da vida (ver capítulo 7).
O saber formal de Sócrates consiste tanto no fato de que é
melhor para nós orientarmo-nos de modo geral com a ajuda do
saber, e não de opiniões e afetos cegos, quanto no fato de que
um tal saber é conforme ao trabalho de rememoração metódico
acima descrito. Com isto, os diferentes métodos da própria
busca da verdade formam uma unidade rica em tensões, quer
porque nenhum método tem por si mesmo, isoladamente, um
valor de conhecimento, quer porque não se pode renunciar
a nenhum método. A especulação metafísica, como se torna
visível em Sócrates, é o fundamento do filosofar, mas carece
de uma concretização através de referências fenomênicas, que
aliás devem ser destacadas como nossas interpretações ativas.
Por sua vez, nossas interpretações carecem de uma elucidação
conceitual-argumentativa e, por fim, devem ser mantidas em
aberto em sua tensão dialética. Como vem à luz na Laques, o
saber formal de Sócrates se liga a um saber conteudístico que
é idealmente o “bem" procurado e jam ais plenamente conhecí-
vel ou realizável: um "cosmos” (em grego: “ornamento, ordem,
harmonia”) em uma relação de tensão frágil, a ser sempre re-
dimensionada e suportada, que envolve "forças” em conflito
na alma do indivíduo, na pólis e até mesmo no mundo em seu
todo (Górgias 506e ss.).
Caso se m antenha diante dos olhos a abundância dos
métodos do filosofar socrático, pode-se ter a impressão in
tegral de que a filosofia moderna, mas sobretudo a filosofia
Métodos do filosofar socrático I ZÇK
ultraespecializada e setorizada como ciência, ainda mal po
dería rememorar-se de um filosofar em toda sua abundância
conteudística e metodológica, como aponta com razão a crítica
de G ernot Böhm e: "As filosofias analíticas ensinam apenas
filosofia analítica, creem e fazem juras em seu nome, enquanto
as outras filosofias fazem, por exemplo, fenomenologia. (...)
Em vez disso, deve-se exigir em sala de aula que sejam plura-
listicamente aprendidos diferentes métodos filosóficos, a saber,
o linguístico-analítico, o hermenêutico e o fenomenológico, e
que o universitário conheça e aprenda a dominá-los paralela
mente e com o mesmo valor".13 Todavia, também devem ser
aprendidos, como se podería acrescentar, os métodos dialético
e especulativo, e não apenas "paralelamente”, mas conjunta ou
interconectadamente e com ênfases diferenciadas. A crítica à
especialização pode ser superada pela filosofia como ciência e
inclusive lhe ser útil no processo de pesquisa setorizada. Po
rém, para um filosofar como forma de vida praticada ou como
processo de formação, como o que atualm ente se estabelece
cada vez mais nas escolas, o paradigma do filosofar socrático
abrangente, pré-científico, é uma orientação melhor que a fi
losofia como ciência necessariamente especializada e restrita.
Assim, sobretudo para a práxis da formação filosófica e para
outras formas de fazer filosofia na práxis, é bom recordar-se
dos métodos do filosofar socrático.14
13 B Ö H M E , G e rn o t: D ie Aufgaben der Philosophie. Ein Gespräch mit Gernot Böhme; in Information Philosophie 5 ,1 9 9 9 , p. 22 .
14 V e r M A R T E N S , E .: Methodik des Ethik und Philosophieunterrichts. Philoso phieren als elementare Kulturtechnik, H annover, 2 0 0 3 .
19 6 I A questão de Sócrates
S o b r e o a u t o r
E k k e h a r d M a r t e n s, nascido em 1943, estudou filosofia,
grego, latim e pedagogia em Frankfurt, Tübingen e Hamburg.
Ao térm ino de uma bolsa de estudos ju nto ao Max-Planck-
Institut zur Erforschung der Lebensbedingungen der wissenschaftlich-
technischen Welt [Instituto M ax-Planck para investigação das
condições de vida do mundo técnico-científico], em Starnberg
(orientação de Carl Friedrich von W eizsäcker), doutorou-se
em filosofia em 1972 e habilitou-se como professor universi
tário em 1977. Atuou como conselheiro acadêmico e profes
sor assistente na Pädagogische Hochschule Münster: Desde 1978
é professor de didática de filosofia e de línguas clássicas na
Universität Hamburg.
Publicações m ais recentes
Como autor:
♦ Philosophieren mit Kindern - eine Einführung in die Philosophie,
Reclam, Stuttgart, 1997.
♦ Der Faden der Ariadne oder: Warum alle Philosophen spinnen,
M etzler, Stu ttgart, 1991 (N euausgabe Reclam , Stu ttgart,
2000).
♦ Vom Staunen oder: Die Rückkehr der Neugier, Reclam , Leipzig,
2003.
♦ Methodik des Ethik und Philosophieunterrichts. Philosophieren als
elementare Kulturtechnik, Siebert, Hannover, 2003.
♦ Sokrates - eine Einführung, Reclam, Stuttgart, 2004.
♦ Platon - Grundwissen Philosophie, Reclam, Stuttgart, 2009.
Sobre o autor I 19 7 ♦ Lob des Alters. Ein philosophisches Lesebuch, Artem is & W inkler,
M annheim, 2011.
Como organizador/editor:
♦ Zeitschrift für Dialektik der Philosophie und Ethik (desde 1978).
♦ Praxishandbücher Philosophie / Ethik, 4 Bde. (H rsg. zus. mit
H . H astedt / J . Rohbeck, V. Steenblock), Siebert, Hannover,
2003/2004.
Como tradutor dos diálogos de Platão para o alemão:
♦ Charmides, Reclam , Stuttgart, 1986.
♦ Theãtet, Reclam, Stuttgart, 1986.
♦ Parmenides, Reclam , Stuttgart, 1986.
198 I A questão de Sócrates
— I II — Í i á â