A Senhora Viscondessa
Capítulo XXXVII
Uma victima
E Cecilia? que será feito d'ella?
Pela callada das trévas, á meia noite, ha sombras que vagueiam pelas ruas como visões informes, famintas, esqueleticas. Á sahida dos theatros abeiram-se de nós vultos esfarrapados, cheios de dôr e de vergonha, que nos estendem a mão carcomida e triste. Cada um d'esses vultos representa, no grande drama social, uma consciencia offendida ou uma crença ludibriada. Não se descobrem nunca esses desgraçados, porque não desejam ser reconhecidos. Se é mãe e tem filhos, pede em nome dos filhos; se é pae e tem familia, pede em nome da familia; se é só e miseravel, pede em nome da miseria.
Cecilia não estava precisamente n'este caso. Cedendo, ainda que violentada, ás seducções do parocho, que por toda a parte a seguia com a voracidade de um lobo,--a joven aldeã, para quem o ideal se não havia de todo extinguido, veiu para a capital. Pobre mulher inexperiente, coitada! que media o mundo pela craveira da sua innocencia...
Emfim, depois de muito indagar, de muito ouvir e muito procurar, soube ella que o Sr. José Xavier era negociante e residia em Alcantara.
Sem delongas deu-se pressa a rapariga em chegar ao almejado paraiso. Quando subia a escada, açodada e veloz, como uma gazella, um creado a reteve.
--Que quer vm. cê--perguntou-lhe o guarda portão.
--Desejo fallar ao Sr. Julio--retorquiu Cecilia.
--Não é aqui que elle mora; póde procurar n'outra parte.--Ai! não, enganei-me; é ao Sr. José Xavier que eu pretendo...