A Senhora Viscondessa
(Ao leitor)
Este romance não mira aos applausos da galeria. Tão pouco prima, nem pelo complicado do enredo nem pelo difficil das situações. São capitulos singelos, estes, que acabam de lêr-se, só pela arte inspirados e por amor d'ella concluidos.
E a arte é a verdade.
Por muitos hão de estas paginas ser aborrecidas. Por muitos hão de ellas ser odiadas. Nada importa. A consciencia acima de tudo.
Entendeu o auctor que era sobre tudo descriptivo o romance moderno, profundamente descriptivo, cheio de analyse, critica, de bom-senso e da naturalidade; de pouco dialogo e de muita observação; havendo todo o escrupulo em pôr de parte o devaneio, na dissecação dos homens e das cousas.
Ao ideal d'este livro presidiram, pois, as realidades presentes e passadas. O typo da Viscondessa, atraz esboçado, poderá não agradar a todos, é verdade; mas é, no entanto, um typo real, perfeitamente real. Uma mulher ingenua, simples, caprichosa, sacrifica o seu coração, a sua tranquillidade, o seu amor a um elegante rapaz, filho dos restaurantes, e, como os restaurantes, viciado e corrupto. D'aqui a perdição da heroina e o triumpho do galã.
Outro tanto succede com a figura angelica da aldeã. Victima do confessionario, cahiu, andorinha ferida, a quem roubam o ninho e os filhos; sedenta de prazer, resvalou no abysmo.
Alfredo, se bem que generoso e sympathico, é, todavia, um moço perdido, alucinado pelos vinhos e pelas grandes ceias, incapaz de conceber outros pensamentos que não sejam o da sua indolencia e o do seu bem-estar. Acaba porisso como, naturalmente, devia acabar--nas costas d'Africa.