Agridoce

Colleen McCullough · Capítulo 6 de 7

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Agridoce

PARTE CINCO: Cravar a Estaca

PARTE CINCO

CRAVAR A ESTACA

Quando surgiu uma oportunidade inesperada para conhecer Sir Rawson Schiller K.C., Charles apressou-se a agarrá-la. Para um homem com apenas quarenta anos, Schiller já fora muito longe e muito rapidamente, incluindo ter conseguido um título de nobreza na idade espantosamente jovem de trinta e sete anos, depois de uma série de vitórias legais no Supremo Tribunal da Austrália e no Conselho Privado do Reino Unido ao serviço do comércio e das finanças. Possuía todas as vantagens da vida: nascimento, riqueza, educação e uma história familiar nas colónias impressionante; pelo lado do pai, era um junker prussiano, pelo lado da mãe, um cavalheiro inglês; o «von» tinha sido abandonado há muito por ser inapropriado numa sociedade como a australiana, onde a família possuía uma boa parcela de Queensland, do Território do Norte e o norte da Austrália Ocidental. Como pastagem, muito desse terreno era tão pobre que só apascentava um touro por cada quarenta hectares, mas alguma dessa terra era extremamente arável e bucólica, e em alguns locais a sua riqueza mineral era incrível, incluindo locais que só os Schiller conheciam. Nunca um arrastar de grilhetas de um condenado maculara o nome dos Schiller ou dos Rawson: colonos livres desde sempre.

Sir Rawson vivia e trabalhava em Melbourne, onde o dinheiro dos Schiller estava concentrado; pouco surpreendente, pois, que as suas ações beneficentes estivessem na generalidade confinadas a Melbourne, incluindo o jantar do presidente da Câmara a £50 por pessoa em benefício das crianças espásticas. Mal soube do jantar, Charles comprou dois lugares para a mesa dos oradores (custavam £100 cada), uma vez que Sir Rawson era o orador convidado e a principal atração da noite, que também alardeava uma orquestra de música de dança para aqueles com energia para ficarem acordados até de madrugada.

Seria um acontecimento deslumbrante: fraque e laço branco para os homens, vestidos compridos para as mulheres, e, uma vez que Kitty abominava Melbourne, Charles levou Edda no seu lugar. Por acaso, Edda ia assistir naquela semana a um seminário sobre enfermagem no bloco operatório em Melbourne, por isso, quando Charles lhe propôs pagar a estadia num quarto com banho no hotel se ela o acompanhasse ao jantar, Edda apressou-se a aceitar. O seu cálice transbordou quando ele lhe deu cem libras para comprar um vestido de baile para ir ao jantar de beneficência do presidente da Câmara. Como era ela que fazia toda a sua roupa, Edda usou o dinheiro para comprar onze cortes de tecidos diferentes para fazer onze conjuntos diferentes. Nem mesmo os jornalistas de moda que rondavam na periferia destas funções suspeitaram que o enganadoramente simples vestido de seda cor de vinho era feito por ela; estavam demasiado ocupados a comentar com entusiasmo a sua origem obviamente parisiense. O seu único toque de ostentação era um par de brincos de diamantes que Kitty lhe emprestara.

Ela foi com Charles num Rolls alugado, como sempre deslumbrada pelo seu ar impassível: ele enfrentava a disparidade de altura entre eles como se esta fosse a ordem natural das coisas. Ele tolerava bem a cintilação azul das explosões das lâmpadas dos flashes; o ouvido apurado de Edda notou que o secretário dele para a imprensa lhe chamava «Irmã Edda Latimer» sempre que a apresentava. Gosto!, pensou Edda, interiormente feliz, exteriormente indiferente. Charlie está a dizer ao mundo que eu sou uma mulher que trabalha, não um lírio dourado da sociedade ou uma prostituta da classe alta, e agradeço-lhe pela sua consideração. Oh, se pelo menos o meu título fosse «Doutora»! Porém, apesar de toda a sua liberalidade, Charlie nunca me aceitaria em medicina, pela mesma razão por que o meu pai não o fez anos antes: não é uma carreira apropriada para uma mulher. Como eu gostava de ser médica!

— Kitty devia estar aqui esta noite — disse Charles ao subirem as escadas. — É terrivelmente estranho ter de explicar que tu és a minha cunhada e não a minha mulher.

Então é por isso que ele está de mau humor! Está rabugento e irritável desde que saímos. Oh, Kitty! Não te matava se tivesses feito esse pequeno sacrifício pelo teu marido… porque não o fizeste? Todos os teus sonhos e energias se voltaram numa direção, e uma direção apenas: uma casa cheia de crianças. Sendo esse o caso, tens o parceiro de vida errado. Charlie não se importa de ter crianças, mas nunca viverá para elas. Ele vive para a vida pública.

Por um capricho do destino, nem Charles nem Edda viram o orador convidado durante os quarenta minutos que passaram a bebericar xerez e a conversar na antessala; por outro capricho do destino, estavam entre os primeiros a entrar no salão de dança onde ia decorrer o jantar. A recordação de Edda era ter percorrido uma sala ampla, com grandes mesas redondas, em direção à mesa principal na orla de uma grande pista de dança, sob o pódio do orador.

— Para de resmungar, Charlie! — murmurou ela sotto voce, com o olhar fixo em… Sir

Rawson Schiller King’s Counsel 1?

Sim, tinha de ser Sir Rawson Schiller K.C. Inesquecível. Um Charlie com mais de um metro e oitenta de altura? Não, isso era comparar um diamante com uma esmeralda ou um Da Vinci com um Velasquez. Não havia comparação possível. Não que Edda se tivesse apaixonado: não tinha. Era mais como se reconhecesse a única pessoa que sempre tinha faltado na sua vida, e, no fugaz segundo em que os olhos dele encontraram os dela, ela teve a certeza de que ele estava a pensar o mesmo pensamento. Depois, ele olhou para outro lado, e o momento e a certeza passaram.

Um homem magro e flexível, com um metro e noventa de altura, de constituição delgada, mas com uma cabeça grande e alongada cujo crânio albergava um cérebro grande. Atraente, porém não bonito: cabelo grisalho ondulado penteado para trás de uma testa maciça, maçãs do rosto altas, lábios finos, pestanas e sobrancelhas negras, e olhos azuis cintilantes. O seu nariz era largo e adunco, a maxila inferior e o queixo também largos.

Ela e Charles estavam a meia mesa de distância e não foram trocados apertos de mão; apenas sorrisos e acenos. Só uma parelha de cavalos selvagens teriam arrastado Charlie suficientemente perto para ter de olhar tão para cima, Edda sabia-o ao sentar-se juntando-se à população da mesa, onze em número: Sir Rawson viera desacompanhado.

— Mas ele fá-lo sempre — disse a vizinha mais próxima numa voz sofredora.

— Porquê? — perguntou Edda.

— Está a trabalhar esta noite, querida.

Nunca tendo sido tratada por querida, Edda remeteu-se ao silêncio. Oh, pensou exasperada, porque é que os australianos importantes insistiam em casar com donas de casa incultas? Naquela mesa, os homens faziam as honras da conversa, as mulheres confinavam a sua tagarelice umas às outras. E Charlie ficava cada vez mais descontente a cada minuto que passava, provavelmente porque não conhecia ninguém e a gárgula obliterou a estrela de cinema da existência. Habitualmente, ninguém era mais encantador que ele, mas, quando a gárgula reinava sozinha, Charles era horrível. O efeito de Sir Rawson Schiller, certamente. Por uma vez na sua carreira, Charlie sentiu-se completamente eclipsado.

Um humor que o discurso de uma hora de Sir Rawson não mais fez que exacerbar. O assunto (podia ser outro?) era a Depressão, e tirou o fôlego a Edda muitas vezes, pois Sir Rawson tinha o incomparável dom de uma eloquência tão perfeitamente complementada pela voz e a fraseologia que, num momento, as lágrimas rolavam sobre cada rosto para, no momento seguinte, cada rosto estar franzido de riso. Secretamente, Edda pensou que muitas das pessoas que o ouviram iriam lembrar-se para sempre do que ele dissera e de como ele o dissera.

Sir Rawson falou depois de um generoso primeiro prato; após o prato principal, o orador respondeu a perguntas do pódio durante meia hora. Uma dura noite de trabalho; ele deu tudo por tudo para fazer a sua audiência sentir que £50 era uma pechincha.

Pelo menos um membro da audiência sentiu que aquilo não tinha valido o dinheiro gasto: Charles Burdum. O qual, murmurando alguma coisa ao ouvido de Edda, deixou a sua cadeira quando a sobremesa chegou. Toda a gente na mesa assumiu que ele se tinha ido aliviar, mas Edda sabia que ele não voltaria e começou a explicar aos outros convivas que assuntos urgentes o tinham obrigado a ausentar-se.

Mais de dois terços dos seus companheiros de jantar estavam a dançar quando Sir Rawson se levantou e usurpou a cadeira de Charles, virando-a para Edda.

— E a senhora é? — perguntou ele, sorrindo.

— Irmã Edda Latimer. Vim com Charles Burdum.

— Irmã Latimer, mas não freira.

— Por profissão, sou enfermeira no bloco operatório.

— Podem prescindir de si, Edda? Posso chamar-lhe assim?

— Certamente, Sir Rawson.

— Olho por olho. Chame-me Rawson. Podem prescindir de si?

— Facilmente. De facto, sou tão excedente para as necessidades que estou a brincar com a ideia de procurar trabalho em Melbourne. Fui extremamente bem treinada e tenho muita experiência, por isso, mesmo com a Depressão, devo ser capaz de arranjar trabalho. Fiz alguns contactos aqui no seminário.

— Tinha esperança de conversar com Charles Burdum. Ele foi-se embora?

— Foi chamado para alguma coisa que não podia esperar.

— Deixando-a por sua conta?

— Oh, ele é da família, casado com a minha irmã. Não pensou. — Os olhos fundos, velados, cintilaram. — É casado? — perguntou ela.

A franqueza da pergunta levou-o a responder.

— Há dezassete anos, uma coisa da juventude. Divorciámo-nos.

— O senhor estava branco como a neve ou era a parte culpada?

— A menina faz perguntas pessoais de uma forma tão crua que parece americana. Eu estava tão imaculado quanto a neve soprada pelo vento.

— A cor perfeita para um político.

— A única cor — disse ele significativamente.

— Uma pena, isso. Não sente que é exigir muito de um homem?

— Políticos, aspirantes ou outros quaisquer, nunca devem agir movidos pelos sentimentos. Unicamente pela realidade. E a realidade pode ser gelada.

— É do Partido Nacionalista, um conservador?

— Um conservador obstinado, embora por quanto mais tempo existirá um Partido Nacionalista esteja no colo dos deuses. O Partido Trabalhista está cada vez mais inclinado para a direita, mas não tão à direita quanto eu.

— Quando está a planear entrar… Federal? Parlamento?

— Definitivamente, federal. O partido tem um assento elegível para mim em Melbourne, o que quer dizer que não tenho de mudar o meu local de residência. — Ele fez uma careta. — Um assunto abominável, mudar de casa.

— Especialmente por algo tão efémero como votos — disse ela.

Interessado, ele inclinou-se para a frente.

— É uma mulher invulgar, irmã Latimer. Leu muito e é culta, presumo. Pode fazer malabarismos com aço afiado numa sala de tormento anestesiado, mas não é isso que quer fazer, nem a sua vida começou aí. De facto, pensa que acabou aí.

— Eu sou tudo o que um ultraconservador deplora numa mulher, conselheiro — retorquiu ela calmamente, os olhos a brilharem face à sua estranha perspicácia. — Tenho-me como igual a qualquer homem (devia-me ter sido permitido estudar medicina e escolher especializar-me no que quer que eu quisesse) e nunca me casarei. Casar-me é subordinar-me por lei ao meu marido como meu superior.

— Oh, bravo! — exclamou ele, sorrindo e inclinando-se para trás. — Eu sabia que ia gostar imenso de si! Então, queria ser médica.

De repente, os problemas de Edda desapareceram; todo o tipo de ideias perpassavam pelo seu cérebro — uma confusão de sobrancelhas móveis, expressões faciais, alguma coisa a espreitar para lá da visão, dedos finos e leves, um certo sulco irónico na boca fina. Visões intrincadas que deslizavam e se encaixavam no seu lugar para formar uma certa entidade masculina… Ela capturou o seu olhar azul e reteve-o firmemente, prendendo-o como só os seus estranhos olhos o podiam fazer. E ele, embaraçado, estranhamente amedrontado, esperou.

— És homossexual — disse Edda suavemente.

— Isso é um disparate sem fundamento que te pode levar a tribunal — retorquiu ele, conseguindo controlar cada parcela de si mesmo, exceto a respiração.

— Não faço tenção de espalhar o facto. Por que diabo o faria? Para que o meu cunhado pudesse cantar vitória? Já tem que baste de que se vangloriar.

— Quem te disse? Quem sabe? — perguntou ele, muito calmamente.

— Ninguém me disse. De facto, escondes o teu segredo extremamente bem. Mas, quando te vi pela primeira vez, surpreendeste-me… era um pouco como… oh, chegar a casa. E tive uma impressão estranha sobre ti. Deve ter sido por isso — rematou ela, sorrindo-lhe com ternura.

Sem ser capaz de negar, ele olhou-a fixamente como um pugilista exausto a quem tinham dito que tinha de lutar mais um round, sem fazer qualquer ideia de como o conseguiria.

— Quanto queres? — perguntou-lhe com lassidão.

— Chantagem? — Edda riu-se. — Não, chantagem está totalmente fora de questão. Só muito remotamente posso imaginar o que terás passado ao longo dos anos… é um segredo terrível, o pior segredo que um homem com ambições políticas pode ter. Quero ser tua amiga, é tudo. Quando os nossos olhos se encontraram, isso era o que eu sabia… que eu era, e sou, a tua melhor amiga. — Ela engoliu em seco. — Não espero que compreendas, embora gostasse que o fizesses, porque pensei que essa impressão tivesse sido recíproca.

A orquestra retumbava, os metais abafavam os sons mais suaves das cordas e dos instrumentos de sopro, e a mesa recebia todo o embate do barulho ao mesmo tempo que pares determinados dançavam apenas a alguns centímetros de distância.

Um saxofone gritou e gemeu; ele estremeceu.

— Queres ir a minha casa para uma bebida sossegada e conversar? — perguntou ele.

Ela levantou-se de imediato.

— Quanto mais cedo, melhor.

— Burdum?

— Ele desertou primeiro.

 

Casa para Sir Rawson Schiller K.C. era todo o andar de cima de um dos prédios mais altos de Melbourne, com quinze andares, e incluía um espaçoso jardim no telhado, abrigado do barulho do trânsito e de mirones por uma sebe alta e densa. O interior dos doze quartos, todos com um tamanho generoso, tinha sido mobilado e decorado por uma empresa proeminente de design e sem dúvida refletia o gosto do proprietário: conservador, confortável, em tons outonais, sóbrio.

— O que queres beber? — perguntou Rawson levando-a para a biblioteca, claramente o quarto que ele usava mais.

— Dado que reparei na presença discreta de empregados, preferia uma chávena de bom café, mas, à falta deste, uma chávena do que Charles Burdum chama «chá de alcatrão de hulha» serve perfeitamente — disse ela acomodando-se numa cadeira acolchoada com veludo de seda cor de âmbar.

— Ainda bem que não escolheste couro para as cadeiras. Com a pele nua, faz transpirar.

— O couro também pode ser horrível para os homens na sua própria casa — disse ele. — Café será.

Os seus olhos observaram-na, um prazer demorado. Que criatura elegante, sofisticada! Estrutura óssea perfeita, pele imaculada, feições lindas e mãos de morrer por elas, graciosas e expressivas apesar das unhas curtas. Apenas os seus olhos revelavam uma mente brilhante limitada pelo seu sexo, uma sede de se envolver, uma fome por coisas maiores para fazer que era sempre negada. E que olhos! Um lobo branco, desconcertantes e sinistros, emoldurados por longas e cerradas pestanas.

Conversaram de modo casual até que as chávenas de café foram levadas.

— Foi o melhor café que alguma vez bebi — disse ela então.

— Não era exatamente um pedido difícil de satisfazer — retorquiu ele sorrindo. — Acontece eu gostar de um bom café.

Caiu então um silêncio, tão fácil e familiar que Edda deu por si a pensar que o conhecia desde sempre; por que razão, não fazia a mais remota ideia. Cada parcela de si compreendeu por que motivo Charlie tinha fugido da companhia deste homem no minuto em que a boa educação o permitiu; para Charlie, este relativamente novo nobre era um preconceituoso sem tempo para o homem trabalhador. Edda traduziu isto como inveja da altura de Sir Rawson e da aristocracia tipicamente australiana. O arquiconservadorismo sugeria de facto um homem preconceituoso, mas Edda não acreditava que Rawson o fosse. Respostas simples não podiam resolver o enigma de um homem tão complexo, disso tinha ela a certeza.

O silêncio foi seguido por uma troca de ideias sobre muitas coisas, nenhuma delas política, algumas delas do domínio da filosofia, algumas do sexo. Certamente, ele estava faminto de uma amizade sincera com uma mulher em quem pudesse confiar cegamente, e nitidamente até agora que isso lhe tinha sido negado. Nela, Edda, ele começava a sentir um pouco dessa confiança cega; ela resolveu dizer sempre o que sentia.

— O que te impeliu a casar? — perguntou ela.

— Pânico, combinado com as expectativas da família — respondeu ele, e por momentos o pânico cintilou nos seus olhos. A sua boca fechou-se, travada.

— Não, diz-me — disse ela com firmeza.

Um sorriso apologético e ele continuou.

— Eu estava extremamente confuso e conhecia Anne desde muito pequeno, éramos vizinhos. Fizesse o que fizesse, fosse onde fosse, Anne estava por perto. As nossas escolas eram parceiras em todos os eventos sociais e fomos para a universidade juntos. Eu fiz direito, ela fez artes, depois um curso de secretariado. Fomos para a mesma firma de advogados, eu como advogado, ela como secretária de um dos sócios seniores. Então ela propôs-me casarmos, penso que por estar farta de esperar que eu o fizesse. As nossas famílias ficaram encantadas. De facto, eu era a única mosca na sopa. Também, percebi que, se queria manter o meu segredo, teria de casar. Sendo assim, casámos. Tínhamos os dois vinte e três anos.

— E é claro que foi um desastre — disse Edda.

— Pavoroso! Não consegui fazer amor com ela, e a única razão lógica que arranjei foi dizer que me sentia de tal forma seu irmão que não podia ser seu marido. Aquilo arrastou-se por dois anos. Depois, ela conheceu alguém e eu concordei com o divórcio sem o contestar.

— Tenho muita pena!

— Não tenhas. Eu guardei o meu segredo, mesmo de Anne.

— Tens um amante?

Desta vez, o seu sorriso era pesaroso.

— Não me atrevo, Edda.

— Recuso-me a acreditar que usas rapazes pagos.

— Rapaz pago… Porque não pôr os pontos nos is e chamar-lhe prostituto? Alguma vez olhaste para os olhos de um rapaz pago? Mortos… tão mortos! Caímos num abismo e perguntamo-nos como é que aquilo começou… Não, não para mim. Vou para o estrangeiro por um mês, geralmente no inverno e verão.

— Gostaria que tivesses lugar na tua vida para uma boa amiga — disse ela.

Os olhos intensamente azuis brilharam.

— Trabalharias aqui em Melbourne para seres minha amiga?

— Imediatamente, mas não sei nada de leis, o que significa que não posso ser uma amiga adequada.

Aquilo fê-lo rir.

— Minha querida, a última coisa que se quer de um amigo é uma mente estreitada pelas leis. — Ele inclinou-se para tomar as mãos dela nas suas, mantendo o seu olhar com o que ela supôs ser uma espécie de amor. — Há trinta anos que levo uma vida muito solitária, irmã Edda Latimer, mas agora penso que finalmente encontrei uma amiga com quem posso partilhar todos os meus segredos. Um ligeiro traço de paranoia protegeu-me de amizades muito próximas, mas agora… que estranho! Não sinto isso.

— Vou começar amanhã a fazer diligências nos maiores hospitais — disse Edda desejando chorar, sabendo que não se atrevia.

— Não, ainda não — retorquiu ele vivamente. — Acreditas que tenho influência para adiar a atribuição de qualquer cargo num hospital por, digamos, duas ou três semanas?

Atónita, ela franziu as sobrancelhas.

— Acredito, estamos em Melbourne. Tens influência — retorquiu ela.

— Então dá-me duas semanas do teu tempo, a começar na segunda-feira de manhã. Dá-mas sem saberes para que te quero, acredita que no fim dessas semanas o emprego no hospital estará à tua espera — continuou Rawson.

— Podes ter o teu tempo — disse Edda com gravidade.

Ele respirou fundo, bateu com os punhos nos joelhos e apertou as mãos dela antes de as largar.

— Oh, muito bem! O mistério deve manter-se, mas vou explicar-te o suficiente para te poderes organizar. No andar debaixo deste, tenho um apartamento para hóspedes. É muito mais pequeno que este, mas suficientemente espaçoso para alguém de passagem. Vais mudar-te para lá amanhã à tarde e na segunda-feira começarás as duas semanas em que farás o que eu te pedir. A tua pena acabará no domingo à noite, duas semanas a contar de amanhã.

— Bem, apedrejem os corvos — exclamou ela, sentindo que era apropriado algum tipo de protesto. — Duas semanas de trabalho misterioso para Sir Rawson Schiller a sair. Pergunto-me o que poderá ser.

— O tempo o dirá — retorquiu ele rindo baixinho. — Só vou dizer que tive uma inspiração. Esta noite, falámos de sapatos, navios, lacre, medicina, hospitais, tribunais, música, livros e Deus sabe que mais, e no meio de toda esta confusão tive uma ideia maravilhosa. Eu não acredito que todos os homens tenham sido criados iguais, se assim fosse porque é que há tantos idiotas por aí? Mas acredito firmemente que o mundo contém tantas mulheres inteligentes quanto homens inteligentes.

— O que digo a Charles Burdum? — perguntou ela.

Ele encolheu os ombros.

— O que te aprouver. Presumo que ele saiba que andas à procura de um emprego em Melbourne?

— De facto, sabe. Vim para participar num seminário e o que ouvi nas conversas de circunstância nos intervalos inspirou-me a ideia de ficar em Melbourne. Dir-lhe-ei alguma coisa para lhe dar esperança.

— Esperança? Esperança de quê?

— De que a sua menos amada e incómoda cunhada se decida a viver a seiscentos quilómetros de distância, em Melbourne. Isso significaria que ele teria mais hipóteses de desencorajar a esposa de procurar a companhia das irmãs.

— Oh, estou a ver. Um marido possessivo.

— Muito. E eu sou quem levanta ondas.

— Às vezes pode ser mais eficaz levantar ondas à distância — disse ele maliciosamente.

Ela riu.

— Ocasionalmente, tenho um vislumbre da razão por que ganhaste tantos casos em tribunal. Diz-me para que precisas de mim durante duas semanas!

— Não, e tentares sondar-me também não vai resultar. — Ele mudou de assunto. — Interessante que Burdum e eu nos detestemos. Como deixar cair água sobre fósforo. Contudo, os nossos sentimentos não nos impedirão de colaborar no parlamento federal. Ele está destinado a ser um homem do Partido Nacionalista.

As sobrancelhas de Edda levantaram-se.

— Charlie, um conservador? Nem num ataque de loucura. Não digo que se torne membro do Partido Trabalhista, mas estará do lado deles em muitas questões. Para um socialista, ele poderá ser de direita, mas para um conservador ele será definitavamente de esquerda.

Schiller pareceu atónito, depois bufou de exasperação.

— O meu instinto estava certo, então. Ele é um desses tipos lamentáveis que anseiam corromper o status quo. Provavelmente, pensa que a política fiscal de Jack Lang é a resposta.

— Muita gente de todos os quadrantes admira Jack Lang — ripostou ela.

— Então mais enganam! Quando se pede dinheiro emprestado, assume-se um compromisso de honra de pagar o empréstimo com o juro acordado, qualquer que ele seja.

— Não sei o suficiente para discutir contigo, Rawson — disse ela —, por isso vamos acordar em diferir. Apesar das minhas querelas com Charles, devo-lhe lealdade e apoio por razões que não têm nada que ver contigo, ou Melbourne, ou política. Tem tudo que ver com o amor que as irmãs têm umas pelas outras… Tens irmãs?

— Não. Tenho um irmão mais velho e um mais novo.

Ela teve de suprimir um bocejo.

— Oh, estou com sono! Posso voltar para o meu hotel, por favor?

— Se me disseres do que gostas em Charle Burdum.

— É fácil! Gosto da sua paixão pelas pessoas como seres humanos pensantes, em vez de meros números sobre folhas de papel — respondeu ela de imediato. — Ele transformou o nosso hospital distrital de patético para o melhor no Estado, não por meio de reduções maciças e grandes convulsões, mas pondo estacas redondas em buracos redondos e estacas quadradas em buracos quadrados. A discriminação por razões raciais, sexuais ou religiosas é um anátema para ele, por isso chineses e católicos, mulheres e homossexuais, podem encontrar emprego no hospital como iguais. Ele é arrogante e autocrático, no entanto, a sua cegueira está confinada ao campo pessoal, como com a sua mulher, em relação à qual é ultrapossessivo. Ele sofre de uma dicotomia curiosa: a mente de um corretor da Bolsa e a de um médico.

— Darias uma boa advogada.

— Obrigada, mas é nos hospitais que o meu coração está. — Ela levantou-se e começou a vaguear pela sala, vendo os títulos dos livros dele, enquanto Schiller a observava. O seu corpo era magnífico: nada em excesso, tudo combinado num todo por uma graciosidade de movimentos que não continha nada de artificial e que advinha do seu treino de enfermeira, certamente. E onde tinha ela comprado o seu vestido? Nenhum costureiro cortaria aquela seda sumptuosa daquela maneira, mas era brilhante e favorecia-a.

— A tua biblioteca inclina-se fortemente para o lado das leis — disse ela, pegando no seu agasalho e entregando-o a Rawson — e não vejo nenhum romance. É uma pena. Quase todos os grandes livros do mundo são romances, desde Crime e Castigo até A Feira das Vaidades. Certamente que leste alguns dos novos escritores como William Faulkner e o não tão novo Henry James?

— As mentes dos homens da lei são estreitas, admito-o de boa vontade — retorquiu ele pegando no agasalho e examinando-o. — Nenhum homem te ofereceu um casaco de peles?

— Não aceito presentes de homens.

— A tua estola está muito bem feita. Quem a fez?

— Eu. Sou demasiado pobre para comprar a roupa de que gosto, por isso faço-a. — Ela permitiu que ele a envolvesse com a estola.

— E não me permitirias que eu to comprasse?

— Não, embora te agradeça, se isso foi uma oferta. Não gosto da ideia de ser sustentada por um homem, mesmo dentro do casamento.

Ele suspirou.

— Então, escolto-te a casa, irmã Latimer.

 

Quando Edda se mudou para o apartamento de hóspedes de Sir Rawson Schiller, descobriu a sua sorte, diferente de tudo o que poderia ter imaginado. Entre as possibilidades que lhe tinham passado pela cabeça, estavam vários tipos de trabalho relacionados com a saúde, hospitais, enfermagem, processos legais na área da saúde; ocorrera-lhe que talvez ele estivesse na administração de alguma obra de beneficência empenhada numa nova abordagem à cirurgia e quisesse o ponto de vista de uma enfermeira da sala de operações; cursos e programas de estudo afluíram à sua mente, projetos para os quais ele precisava de ajuda: a sua mente andava às voltas, sem chegar a lado nenhum.

No domingo à noite, ela mudou-se e jantou no apartamento de cima com ele; no fim da refeição, ele esclareceu-a.

— Não te verei de todo até teres acabado — disse ele como introdução ao assunto —, porque de amanhã às nove horas em diante vais ficar de cabeça baixa a estudar sem parar durante duas semanas.

— A estudar?

— A estudar. Especificamente, a estudar anatomia humana, fisiologia e a nova ciência de química orgânica e bioquímica. Essas três matérias, nada mais. A campainha da porta tocará às nove horas e deixarás entrar o teu tutor nas três disciplinas, um indivíduo a quem chamarás John Smith. Não é o seu verdadeiro nome, mas não interessa. Ele é o melhor professor nessas áreas, asseguraram-me. No domingo, de hoje a duas semanas, farás um exame de cada disciplina, depois disso, veremos — rematou o seu algoz recostando-se com o seu balão de conhaque e sorrindo.

— Nunca teria adivinhado — disse ela lentamente. — Pensaste nisto a noite passada?

— Sim.

— E em menos de vinte e quatro horas arquitetaste tudo, incluindo um tutor, John Smith?

— Sim.

— Estou a ver porque te deram um título de nobreza. Qualquer coisa para se livrarem de ti. O título tornou-te tão caro que te deram um pontapé para uma carreira no parlamento, rematada com um lugar garantido e a bancada da frente. Edda pousou o seu copo e riu-se a bandeiras despregadas.

— E a senhora é extremamente esperta — disse ele. — Oh, espero realmente que passes os exames para que o Plano Schiller possa prosseguir.

— Eu sou o Plano Schiller?

— Sim.

Um som ronronante saiu da sua garganta.

— Chique ter um programa com o seu nome. Estou ansiosa por começar a estudar.

O que era uma sorte; a quantidade de conhecimentos que Edda tinha de absorver era imensa, mas surpreendeu-a descobrir que muito desse conhecimento já ela o tinha dos seus estudos de enfermagem e graças à sua curiosidade imperiosa de saber mais do que era realmente preciso. John Smith era a epítome do seu nome, anónimo e sem qualquer exigência de atenção pessoal; desde que ela trabalhasse no que ele lhe dava, não pedia nada. Chegava às nove horas e ia para casa às cinco, embora ela nunca tenha descoberto para onde ou para quem ele voltava. As refeições de Edda eram enviadas para baixo do apartamento de Schiller, incluindo o almoço para John Smith.

Cada livro e gráfico de que ela precisava eram fornecidos, quadros negros e pódios, modelos de moléculas, cérebros, corações, um esqueleto. E Edda adorou cada momento daquelas estranhas duas semanas, aparentemente sem objetivo, em especial os últimos dias, quando se sentiu capaz de contrapor os seus conhecimentos aos de John Smith.

Ao fim das duas semanas, ela fez três exames escritos. A manhã foi destinada à bioquímica, a tarde à fisiologia e o fim da tarde à anatomia. Algumas das perguntas eram difíceis, mas, quando ela acabou anatomia às oito dessa noite, sentiu que se tinha saído tão bem como um estudante do segundo ano de medicina o teria feito no mesmo tipo de exame.

Um cartão chegou com a ceia.

«Deixo-te em paz até amanhã à noite, segunda-feira, altura em que ficarei encantado por te ver ao jantar. R.S.»

 

Edda precisou de todas as horas seguintes para descer das alturas a que aquela quinzena de estudo frenética e apaixonada a levara, embora a razão por que decidiu usar vermelho-vivo para o jantar lhe escapasse. Era uma cor triunfante, talvez, e ela sentia-se como se tivesse sobrevivido a algum tipo de teste acima e para lá de meros exames.

— Vermelho-vivo — exclamou Rawson, recebendo a bolsa dela e as luvas.

— Como uma caixa do correio ou uma cabina telefónica, deduzo — disse ela serenamente, aceitando um cálice de xerez e afundando-se numa cadeira.

— Fica-te bem, mas isso já o sabes. Provavelmente, tens muito vermelho no teu guarda-roupa, mas isso é um sintoma de não teres dinheiro suficiente para te dares ao luxo de comprares coisas que não uses tão frequentemente porque não são da tua cor preferida. — Rawson sentou-se onde podia olhar para ela de frente. — Gostaria de te ver com azul-elétrico, jade ou verde-esmeralda, âmbar, roxo e alguns estampados interessantes.

— Quando eu for enfermeira-adjunta e puder gastar para ostentar.

— Gastar para ostentar pode ser arranjado — murmurou ele —, mas acho que vou guardar o que tenho para dizer até depois do jantar. Desse modo, se me deixares, pelo menos irás de barriga cheia.

— É um bom negócio. O que é que vamos comer?

— Lagostim e caranguejo num molho oriental para começar, depois franguinho assado.

Uma ementa a que Edda fez justiça, apesar de consumida pela curiosidade. Depois, instalados na biblioteca, ele mostrou-lhe um molho de papéis e acenou-lhe com eles.

— Parabéns, minha querida — disse Rawson Schiller. — Passaste nas três matérias com distinção.

Atordoada, tudo o que ela conseguiu dizer foi: «O quê?»

— Organizei os teus exames e mandei-os para uns amigos que corrigem e classificam os exames de Medicina II na Universidade de Melbourne — disse ele, parecendo contente consigo mesmo.

— Medicina II?

— Sim. Não vi razão para prosseguir com a minha ideia até descobrir com exatidão que nível de conhecimentos já tinhas da tua carreira como enfermeira, por isso entrei numa espécie de conspiração com alguns amigos meus da Faculdade de Medicina. Melbourne tem um recorde admirável no que se refere à admissão de mulheres em medicina, ao passo que Sydney, estrangulada por uma universidade escocesa, sempre se opôs vergonhosamente à entrada de mulheres. É fascinante pensar que intolerâncias nacionais sem sentido que pertencem ao outro extremo do mundo possam ter influenciado de tal modo uma faculdade tão importante como a de Medicina, porém isso aconteceu, para eterna vergonha de Sydney. Mas divago.

Edda parecia ter ultrapassado o ponto de ouvir seriamente, os seus olhos estavam fixos no rosto de Rawson com uma expressão que ele nunca tinha visto: a de uma dor insuportável ressuscitada inesperadamente, uma dor contra a qual ela não tinha defesas.

Por isso ele apressou-se, ansioso por destruir a raiz dessa dor, sabendo que conseguiria — se ela deixasse.

— Em fevereiro do próximo ano, Edda, quando a universidade abrir, tens um lugar como estudante de Medicina III, tendo por base estes exames. Aqui, em Melbourne. Começando como estudante do terceiro ano, faltar-te-ão apenas quatro anos de medicina para te licenciares, o que farás em novembro de 1935. Depois de um ano de internato, terás licença para exerceres no final de 1936. Pensa nisso! Serás uma médica qualificada aos trinta e um, com anos e anos de trabalho produtivo à tua frente.

O corpo de Edda contorceu-se convulsivamente, ela começou a levantar-se, o seu rosto uma máscara de pânico.

— Não, para! — gritou ele. — Ouve-me, Edda, por favor!

— Não aceito caridade, especialmente de um amigo querido.

— Isto não é caridade. Tem um preço considerável.

Aquilo imobilizou-a, suavizou o rito de angústia

— Tem um preço considerável? Que preço?

— Eu preciso de uma mulher — disse ele sem rodeios. — É esse o meu preço. Casa-te comigo e podes fazer medicina, comprar um vestido azul-elétrico ou verde-jade, usar casacos de peles, não há limites, eu sou um homem muito rico. Mas preciso de uma mulher. Se eu tivesse uma mulher, já estaria no parlamento. Os homens da minha idade solteiros são suspeitos, mesmo que a sua reputação seja imaculada. Mas não consegui encontrá-la, Edda, simplesmente não consegui, até que te conheci. Sofisticada, inteligente, culta, compreensiva… até humana! Pelo que isso possa valer, serás Lady Schiller. Muitas mulheres matariam por o ser, mas isso não te impressiona, pois não?

Pequenos trinados de riso tomaram-na, uma corrente de pequenas bolhas ganhando velocidade e volume até que finalmente Edda gritou — ou chorou? Mesmo ela não tinha a certeza.

— Também descobri que te acho muito atraente — continuou Rawson, determinado a dar voz a todas as suas ideias enquanto ainda tinha coragem. — Talvez em algum momento no futuro possamos tentar ter um filho. Não sei se consigo, mas mais tarde, quando estivermos em paz um com o outro, e sempre desde que o queiras também, gostaria de tentar. A ajuda de amas e enfermeiras tornariam tudo mais fácil… — Ele bateu com o punho na sobrancelha. — Estou a ir demasiado depressa, isto são coisas para o futuro, não para agora! Edda, casa comigo, por favor!

O que é que havia para pensar, até e incluindo aquele filho?

— Sim, Rawson, caso contigo — disse ela com a voz rouca.

Ele levantou-se, pegou-lhe na mão e beijou-a com reverência.

— Um casamento de conveniência — exclamou ela, estalando os dedos e sorrindo-lhe. — Não posso negar, Rawson, que aceito a tua proposta por uma única razão: dá-me o que eu desejo com todo o meu coração, uma licenciatura em medicina.

— Estou perfeitamente consciente disso; mas não aceitarias se eu fosse o tipo de homem que te repugnasse. A amizade que nasceu entre nós é muito importante, não tentes negá-lo — disse ele rigidamente artificial.

— Que estranho! Ficaste tão pouco à vontade — disse Edda.

— Bem, não é exatamente uma proposta de casamento tradicional. É muito fria e vazia!

— Então vamos falar da logística — disse ela — e volta a sentar-te. Vamos fazer um grande casamento, ou um casamento íntimo, ou um casamento em segredo?

— Estou mais inclinado para um casamento em segredo por várias razões. — Rawson acabou por se sentar. — Queres ouvi-las?

— Sim, por favor.

— Em primeiro lugar, porque duvido que um casamento íntimo seja possível. Ainda tenho os meus pais vivos, dois irmãos, duas cunhadas, três sobrinhas e três sobrinhos, e ainda uma quantidade exagerada de tias, tios e primos. Eles teriam de estar presentes no casamento íntimo.

— A minha situação é quase tão má… três irmãs, um cunhado, um pai são e uma mãe com Alzheimer, dois homens que não são cunhados, mas que teriam de ser convidados, e, pelo menos, uma dúzia de mulheres que não poderia ignorar. Isto, para mim, seria íntimo, agravado pelo facto de o meu pai insistir em casar-nos na sua igreja — queixou-se ela.

Dois pares de olhos alarmados fixaram-se um no outro.

— Minha querida Edda, isto é terrível! O teu pai é pastor de uma religião?

— Da Igreja Anglicana, numa paróquia importante de uma zona rural enorme da Nova Gales do Sul, e até a Depressão chegar um homem muito influente na Igreja de Inglaterra. — Edda soltou uma gargalhada. — Arcebispos? Bispos? Conheço-os todos muito bem e posso dizer-te que, em criança, me sentei nos joelhos cobertos de púrpura de todos eles.

— Meu Deus, Edda, eu sabia que eras adequada, mas não tanto!

— A única coisa a que a tua família pode objetar em mim, Rawson, é a falta de dinheiro. Os meus antecedentes e o meu passado são tudo o que devem ser. — Edda pareceu desconfortável. — Quanto ao grande casamento, meu querido Rawson, o meu pai não pode pagar.

— Um grande casamento não seria nem nunca será considerado — disse Rawson, varrendo o grande casamento para para baixo do tapete mais velho e coçado que a sua imaginação conseguia conjeturar. — Não, minha querida Edda, dada a nossa idade, acho melhor escolhermos um casamento secreto. É provável que as nossas famílias se sintam desconsideradas, mas o bisturi vai cortar com a mesma precisão para os dois lados do altar. Deixa que todas as apresentações e opiniões e quezílias aconteçam depois do casamento, que eu sugiro que aconteça daqui a um mês no registo em Melbourne.

— Mordialloc?

Rawson olhou-a desconcertado.

— Mordialloc? Porquê aí?

— Gosto do nome.

— Podes gostar dos nomes todos que quiseres, minha amiga excêntrica, mas ainda assim vamos casar num registo incógnito no coração da cidade de Melbourne — disse Rawson com firmeza. — Depois apanhamos um pequeno transatlântico de Sydney para a Califórnia, um lugar lendário, onde passaremos a lua de mel até ao novo ano de 1932. Enquanto estivermos fora, deixamos a tempestade cair… a nível privado e público. Parentes, amigos, colegas e inimigos ficarão a saber no mesmo dia. Choque, horror e consternação vão reinar. Mas vamo-nos preocupar com isso enquanto somos mimados pelas mesmas mãos que apaparicam as estrelas de cinema? Não! A realidade será adiada até ao nosso regresso. — De repente, Rawson parecia um miúdo travesso. — Depois, será altura de enfrentar a situação! Apenas os nossos trabalhos se vão manter inalterados… tu na universidade, eu na política.

— Quantas expectativas pões tu nessa palavra, política! Espero ser uma esposa à altura — disse Edda, tomada por remorsos.

— Minha querida Edda, em ti, pretendo mostrar a este país o que a esposa de um político deveria ser e não é. Não és tímida, sabes manter uma conversa interessante, a tua aparência é deslumbrante e, quando se descobrir que tens a tua própria carreira profissional, irás assustar os meus colegas. Quando um jornalista te pedir uma opinião, é precisamente isso que vai ter… e ficará impressionado. — Rawson recuperou o fôlego. — Ambos os meus irmãos casaram bem, no que diz respeito às origens e fortunas das suas esposas, mas, dito isto, as esposas tendem a ser aborrecidas, incultas e, dependendo do contexto, uma autêntica desvantagem para os maridos. Tu nunca serás isso! Mesmo estando na sua periferia, vais apreciar a vida na política. Não vou prejudicar a tua carreira em medicina, mas vou pedir a tua ajuda.

— E eu vou dar-ta com todo o gosto — disse ela, carinhosamente, a sorrir. — Oh, só de pensar que, dentro de cinco anos, vou estar registada e poderei praticar medicina! Com o meu próprio nome. Teria pena dos pacientes cuja consulta fosse com Lady Schiller! Esse nome, deixo para o teu mundo. — Edda olhou para cima. — Quanto tempo demora a planear um casamento em segredo?

— Um mês. Continuarás a dormir lá em baixo até o meu anel estar no teu dedo… um rubi para o teu anel de noivado?

— Sabes que preferia uma esmeralda? Toda a gente em Corunda acha que os rubis são antiquados.

— Uma esmeralda será. Amanhã de manhã, apresento-te George Winyates e Karl Einmann, os meus secretários, em cuja discrição podes confiar plenamente. Eles terão conhecimento dos nossos planos, mas mais ninguém. Vão abrir contas para ti nos locais onde costumas fazer compras, incluindo livrarias. As contas ficarão temporariamente em teu nome, mas depois de darmos o nó passarão para Lady Schiller.

— Lady Edda — disse ela, de forma sonhadora, e riu. — Soa-me, não sei, a algo surreal.

— E é. Não és Lady Edda, és Lady Schiller. As mulheres que juntam o seu nome de batismo ao título são filhas de duques ou marqueses. As esposas dos nobres cujo título não é hereditário não têm esse privilégio.

— Que extraordinário! Já estou a aprender.

— Deverás ter peles de raposa e zibelina, mas nunca de visom — disse ele, fazendo uma careta. — A pele de visom é áspera ao toque e demasiado Hollywood.

— Medicina! — exclamou ela, dizendo-lhe onde a sua paixão residia e como daria pouco valor às peles de animais no exercício da sua profissão. — Rawson, não te consigo agradecer o suficiente por esta oportunidade, e digo-te isto do âmago da minha alma. Vou escolher cirurgia, abdominal e geral. Gosto de neurocirurgia, mas já tenho demasiada idade para isso e é uma área muito exigente. — Um pensamento diferente entrou-lhe na cabeça. — Vamos viver neste apartamento?

— Tens alguma objeção?

— Nenhuma. Só queria saber.

— Existe uma suíte com quatro quartos para lá do meu quarto, e pensei em ficares tu com ela. — O grande nariz e o enorme queixo que o salvavam de ser atraente tentavam encontrar-se sobre a sua boca; comprimiu os lábios, um contra o outro, depois riu-se. — Eu ressono muito, por isso não vou pedir que partilhes a cama comigo. Terás um quarto de dormir, um quarto de vestir, uma casa de banho e uma sala, e podes falar com os decoradores de interiores que fizeram alguns trabalhos para mim e dizer-lhes o que queres. Eles obedecerão a cada um dos teus pedidos. Pensei que pudesses usar o apartamento de hóspedes lá em baixo como teu refúgio de medicina, mantendo, assim, os teus estudos separados da nossa vida em conjunto.

— E os outros inquilinos não se vão importar?

— É melhor que não se importem — disse ele, secamente. — Eu sou dono do edifício.

A cabeça de Edda andava à roda, uma combinação de cansaço (passara a maior parte do dia a andar) e choque.

— Vai dormir lá para baixo — ordenou ele, puxando-a da cadeira. — Sobe para tomares o pequeno-almoço às oito, e depois começamos a resolver as coisas. E, Edda?

— Sim? — perguntou ela, sorrindo para ele, confusa.

— Adoro-te. Talvez não da mesma maneira que um homem adora a esposa escolhida, mas é sincero e ardente. Adoro-te mesmo.

E se ao menos, pensou Edda, subindo para a cama, ele a amasse da mesma maneira que um homem ama a sua esposa! Bem, isso não pode ser. Mas tantas compensações! Um curso de medicina e Lady Schiller, a anfitriã que percebe de política. Que estranho e maravilhoso!

Parecia um conto de fadas e era assim que todos o iriam ver, da sua família à dele, passando pelo mundo inteiro. Tal como Kitty, outro romance digno de um conto de fadas que levava a um casamento com um homem rico, atraente, ativo e bem-sucedido. E olhem só para Kitty, com uma enorme casa vazia e dois abortos para mostrar como prova de quase dois anos de vida de casada. Oh, Kitty!

O que trará o meu casamento?, perguntou-se Edda, certa de que os seus sofrimentos seriam superiores aos seus prazeres. Exceto a medicina. Isso valia qualquer preço que os deuses decidissem cobrar. Pelo menos conhecia o segredo de Rawson, tinha algum poder de negociação. Kitty acabara por ficar sem qualquer poder, e Edda era demasiado moderna na sua forma de pensar para considerar isso uma coisa boa, mesmo que fosse essa a tradição. Edda sabia que nunca usaria o segredo de Rawson contra ele para satisfazer um desejo seu. Ele não voltaria atrás com a sua oferta de lhe permitir frequentar o curso de medicina, o único fator que a poderia tentar a fazê-lo.

A sempre pensativa Edda não conseguia parar de pensar nisso; a sua cabeça fervilhava com o desejo manifesto de Rawson de conceber um filho… porém, quando seria a melhor altura para estar grávida? Nunca, concluiu ela, suspirando… o que também significava qualquer altura que fosse. Se ele a apressasse, ela ficaria grávida, continuaria a trabalhar até as águas rebentarem e regressaria ao trabalho uns dias depois. Porque não? Antigamente, esperava-se que as mulheres fizessem precisamente isso… o que mudara, com a exceção das atitudes sociais? Sim, pensou Edda, penso no assunto quando chegar a altura e lido com a situação de forma tranquila. Tem de ser! Sou uma mulher do século vinte, tenho as oportunidades que as minhas antepassadas nem sonhavam ter. E vou fazê-lo de forma confortável, porque vou estar casada com um homem maravilhoso que carrega um fardo terrível.

Seria fantástico se pudesse contar às irmãs! Ou se, pelo menos, pudesse contar a Grace. Que estranho! Grace, que vivia momentos difíceis, rodeada por todas as preocupações de uma viúva, desde filhos sem pai a falta de rendimentos, no entanto, era a esta mesma Grace que ansiava tanto contar? A irmã verdadeira, sim, mas também sua gémea. Kitty seria contra o casamento, sabendo o sofrimento que iria trazer; Tufts aceitaria, mas nunca perdoaria, vendo neste casamento apenas os elementos de uma venda; e Grace deploraria a união devido à sua inveja e mesquinhice. No entanto, ela, Edda, desejava confrontá-las antes de acontecer. Por qualquer razão, contar-lhes depois parecia-lhe uma traição.

Mesmo tendo em conta as suas reações, Edda queria que Grace, Kitty e Tufts estivessem presentes no seu casamento. Tal não podia ser, ela compreendia. Grace falaria disso a toda a gente, Kitty contaria a Charlie e Tufts… bem, Tufts era Tufts, pura e simplesmente.

 

Sir Rawson Schiller decidiu emitir um elegante comunicado de imprensa sobre o seu casamento, que só chegaria aos seus recetores quando ele e Edda estivessem em alto-mar, a caminho da Califórnia, e que deixaria umas centenas de pessoas perplexas sem ninguém com quem falar. O comunicado incluía uma fotografia a preto-e-branco da noiva e do noivo, a primeira vez que a maioria via a irmã Edda Latimer. Estranho, no mínimo. O casal lado a lado, ele com um fato de três peças, ela com roupa informal, a olharem, não um para o outro, mas diretamente para a câmara. O melhor colorista de fotografias em Melbourne fora instruído para pintar versões em sépia mate, revelando que a noiva optara por vestir um conjunto vermelho-escuro de uma incomparável elegância. Chique até às luvas vermelho-escuras com sete botões. Uma beleza austera, ligeiramente arrogante, era a opinião consensual; Lady Schiller parecia, aos membros do Partido Nacionalista, a esposa ideal para o homem que esperavam vir a ser seu líder no futuro.

Já existia uma Lady Schiller, claro. O pai de Rawson era Knight Commander da Ordem de São Miguel e de São Jorge graças ao seu negócio e à sua carreira pastoral. Sir Martin e a sua Lady Schiller olharam fixamente para a sua cópia do comunicado de imprensa, suavizada pela inclusão de uma carta pessoal do seu filho do meio.

— Ela não é fantástica em termos de estatuto social, mas é aceitável — disse Lady Schiller. — Um conjunto sofisticado, embora a cor seja demasiado arriscada para uma noiva. Vinte e seis anos… não é uma rapariga de dezoito anos de cabelo oxigenado, de maneira nenhuma, pelo que devemos estar gratos. O pai, pastor da Igreja Anglicana… a mãe era Adelaide Faulding, que também é de uma boa família, se é a que eu estou a pensar. Duvido que Rawson se casasse com alguém abaixo do seu nível.

— Ela tem uns olhos lindos — disse Sir Martin. — Muito invulgares.

— Segundo a carta de Rawson, é estudante de medicina… não gosto muito disso — disse a mãe de Rawson.

— Então, quer dizer que é inteligente — respondeu o pai de Rawson, cuja esposa não o era.

— A inteligência não devia ser o que um homem procura numa esposa. A medicina não é apropriada para uma senhora, toda aquela nudez vulgar e exposição a doenças.

Martin Junior, o filho mais velho, afável e obediente, e que fora designado para tomar conta dos negócios da família Schiller, disse estar encantado.

— Já era altura de Rawson esquecer Anne — disse ele. — Vamos ser sinceros, mãe, ele é o Schiller que mais vai brilhar, e a sua esposa parece o par ideal. Inteligência e inteligência.

— Concordo — disse Rolf, o filho mais novo, escolhido para gerir o império pastoral da família. — Demasiado invulgar para ser uma beleza extraordinária, mas ainda assim assusta-me.

— Ela é uma harpia interesseira! — disse Gillian, irritada.

A esposa de Martin Junior acabara de fazer quarenta anos e sabia que não envelhecera da forma mais graciosa. Quatro filhos e uma enorme gulodice tinham arruinado a sua figura, e Martin Junior, a sua disposição.

— Concordo com Gilly — disse Constance, a mulher de Rolf. — Ela montou uma armadilha para o coitado do pateta do Rawson, eu sei que sim.

Os três homens soltaram gargalhadas ruidosas. Lady Schiller sénior sorriu. As linhas foram estabelecidas onde ela achou que seriam. Nem Gilly nem Connie tinham a mínima noção de como se vestir e algo em tons de vermelho-escuro tê-las-ia feito parecer doentes terminais. Tal como Rawson, o filho do meio de quem ninguém esperava muito, eclipsara os seus irmãos, a nova e bastante jovem Lady Schiller iria atirar de vez as suas duas cunhadas para a sombra. Quando à primeira Lady Schiller, o tempo dar-lhe-ia a resposta certa.

 

Em Corunda, onde o comunicado de imprensa foi suavizado pelas quatro cartas de Edda ao pai e às três irmãs, a novidade causou sensação. No entanto, não de forma tão intensa como a Charles Burdum. Quando Kitty, a acenar com a sua carta e o comunicado de imprensa, lhe contou a novidade no seu regresso à Casa Burdum, naquele movimentado final de dia no início de dezembro de 1931, Charles pareceu prestes a desmaiar. Apoiando-se numa cadeira, afundou-se nela pesadamente e segurou a cópia do comunicado de imprensa, afastando a carta de Edda.

— Edda? Edda casou com Rawson Schiller?

De olhos arregalados, Kitty apercebeu-se do seu choque e preparou-lhe uma bebida.

— Charlie, parece que aconteceu algo desastroso! Porquê, por amor de Deus? É uma notícia maravilhosa! Lê a carta dela, por favor, lê! Em fevereiro, ela vai começar Medicina III em Melbourne… o seu maior sonho, o desejo do seu coração, e agora conseguiu.

— A que preço? — perguntou ele amargurado, irritado.

— Isso é problema dela, Charlie, não teu. Como é que podemos saber o que se passa entre eles? Só que Edda não pode ser comprada, e fico até ofendida com a tua sugestão de que pode.

— Se eu soubesse que ela desejava assim tanto um curso de medicina, eu teria pago para que isso acontecesse! — disse ele de forma brusca.

— Tretas! — explodiu Kitty, perdendo a paciência e a tolerância. — Sempre soubeste, e Deus sabe que tens dinheiro, mas Edda não é uma das tuas pessoas preferidas, eu sei disso. Ela diz-te o que pensa, desde as coisas mais banais, como eu não ter meio de transporte para sair desta colina, até ao modo como estás a construir o hospital. Sempre gostaste do facto de Edda não poder ter o que mais desejava, e não te incomodes a tentar negá-lo. Contigo, Charlie, tudo se passa ao nível do inconsciente, para depois poderes dizer a ti mesmo que és um tipo sensacional! Charles Burdum, a rocha sobre a qual Corunda assenta. Foste alimentando falsas esperanças a Edda, prometendo-lhe uma nova sala de operações, quando sabias perfeitamente que uma era suficiente e que esta pertencia a Dot Marshall. Bem, ela estava a candidatar-se para um hospital em Melbourne para dirigir uma sala de operações quando conheceu Rawson Schiller.

O álcool já estava a fazer efeito; Charles endireitou-se ainda mais na cadeira.

— Oh, sim! Ela conheceu Rawson Schiller através de mim, não de qualquer outra pessoa! Visto que tu, minha senhora, não vens comigo a Melbourne, tive de levar a tua irmã ao jantar de caridade do presidente da Câmara. O lugar dela na mesa custou-me cem dólares, e este é o agradecimento que recebo… ela decide e casa-se com um fanático ultraconservador, que defende o pagamento de ordenados miseráveis aos trabalhadores, aos deportados chineses e aos melanésios nos campos de açúcar, e a exclusão das mulheres do mercado de trabalho. Se a tua irmã casou com um homem como Rawson Schiller, então não é melhor que uma prostituta vulgar!

Pah! Pah! As pancadas de Kitty em cada face de Charles aconteceram mais rapidamente que um relâmpago. Num momento estava sentada na cadeira a discutir com ele… oh, furiosamente, talvez, mas de uma forma civilizada… e, no momento seguinte, os ouvidos dele zuniam, a cabeça doía. Com os olhos num tom magenta-fogo, Kitty inclinou-se sobre ele e continuou a bater-lhe nas orelhas, nos olhos, nas faces, no maxilar.

— Não te atrevas a chamar prostituta à minha irmã, sua versão administrativa de médico com sífilis, arrogante, porco, pomposo! És um eunuco sem tomates e sem coragem!

Protegendo-se dos golpes, Charles conseguiu esgueirar-se da cadeira e chegar à porta.

— Prostituta! Rameira! Meretriz! E tu, minha senhora, vai lavar a boca com sabão! Que vulgaridade nojenta!

— Vai para o inferno! — gritou ela num tom agudo. — Tu não queres saber do homem trabalhador, tu só queres saber de ti próprio. Foste tu que abandonaste Edda naquele jantar, deixaste-a sozinha numa mesa cheia de desconhecidos… Ela contou-me! Rawson Schiller salvou-a! E sabes que mais? Ele é alto! Ninguém lhe pode chamar Napoleão, não é, Napoleãozinho?

Em seguida, Kitty empurrou-o para o afastar, correu para a porta das traseiras e saiu de casa. Ouviu-se o som de um carro velho a pegar: a seguir, silêncio.

Charles dirigiu-se primeiro para o armário das bebidas e depois voltou para a cadeira, onde se sentou e tremeu de tal maneira que demorou cinco minutos a conseguir levar o copo à boca sem derramar a bebida. Fora tão repentino, tão convulsivo, tão espontâneo. Sem tempo para pensar e sem tempo para evitar dizer em voz alta o que deveria ter mantido para si mesmo. Edda era uma prostituta, mas nenhuma irmã seria capaz de aceitar um insulto tão franco. Ainda estava possuído pela cólera, incitado agora pela imensa raiva desenfreada que sentia pela sua esposa, cujo amor por ele sempre fora esmagado e reduzido pelo que ela sentia por aquelas malditas irmãs. Kitty era sua mulher… legalmente, emocionalmente, totalmente dele! No entanto, Kitty guardava sempre parte dela para dar às irmãs. Não estava certo!

Edda era uma prostituta… uma mulher fácil e leviana, que mantinha relações sexuais fora do casamento com homens como Jack Thurlow. E Kitty sabia disso! Como podia ela perdoar a irmã, sem admitir primeiro que ela era uma prostituta? Quereria isto dizer que Kitty era virgem por mero acaso quando se casou? Será que já tinha praticado todos os tipos de sexo sem chegar ao derradeiro ato?

Vinte minutos depois, o reverendo ligou: Kitty estava com ele e regressaria a casa mais tarde, não havia necessidade de se preocupar.

 

— Eu não vou voltar — chorou ela para o pai. — Papá, ele chamou a Edda prostituta por se ter casado com Rawson Schiller! Como se ela tivesse elaborado um plano!

— Sim, sim, minha querida, é bastante infundado, eu sei. No entanto, pelo que Charlie me contou quando regressou de Melbourne, eu presumi que, ao conhecer Schiller, ele se comportou como um cão pequeno e agressivo de olhos fixos num gato grande e particularmente complacente. Pensa nisso, querida Kitty. Por baixo da pele, são tão parecidos, apesar das diferenças políticas… e essas podem ser assumidas e descartadas num abrir e fechar de olhos… vemos exemplos disso todos os dias. A política tem de ser disputada como um jogo, e aqueles que se dedicam a ela de corpo e alma estão condenados a ser cruelmente desiludidos, pois não é um jogo justo ou limpo. É um manto de mentiras… deceções… ambições pessoais… falsas esperanças. É desprovida de ética ou moralidade e concebida para dar a vitória àqueles que têm falta de princípios. Um homem com aspirações genuínas de servir a Humanidade estaria envolvido em trabalho social ou medicina ou algo com ganhos positivos visíveis. — O reverendo engoliu em seco e pareceu confuso. — Oh, céus! Oh, céus! Eu devia estar a apontar as semelhanças entre eles, não é? Acredita no velhote, eles são autênticos irmãos em polos completamente opostos.

Uma Kitty bastante espantada olhava fixamente para o pai.

— O papá é um cínico! Não fazia ideia.

O reverendo sentiu-se ofendido.

— Eu não sou cínico, sou realista!

— Sim, é claro. Desculpe.

— Kitty, o nosso cérebro é o instrumento mais fantástico que Deus alguma vez ofereceu às criaturas vivas. Desenvolve-se numa imensa glória nos seres humanos, e devemos usá-lo, não sufocá-lo com futilidades e porcaria. Por isso, pensa! Charlie e o meu novo genro têm poucas diferenças comparado com o que têm em comum. O meu instinto diz-me que Charlie não é tão de esquerda como Rawson acredita, nem Rawson é tão de direita como Charlie acredita. No entanto, existe uma diferença.

— E eu sei outra diferença, a mais importante — disse Kitty, acalmando-se. — Rawson é quase trinta centímetros mais alto que Charlie. — Kitty suspirou. — A inferioridade que sente em relação à sua altura vai acabar por ser a sua ruína.

— Faz com que ele vá para o parlamento. É o lugar ideal para homens baixos.

— Nada pode desculpar a atitude dele para com Edda — murmurou Kitty.

— Oh, Kitty, foi dito para te magoar a ti, não a Edda. Ele não acha que ela seja uma rameira, mesmo quando o disse em voz alta. — Thomas Latimer pôs a chaleira ao lume para fazer um bule de chá. — Bebe um chá.

Kitty reprimiu uma gargalhada.

— Receio que lhe tenha posto os dois olhos negros.

— Meu Deus! Alguém estava irritado! Fico contente que as minhas meninas tenham tanto amor e lealdade umas pelas outras, mas não deves esquecer que o teu primeiro amor e a tua maior lealdade é para com o teu marido.

A porta de tela das traseiras bateu e Grace entrou pela velha cozinha adentro, segurando na mão a sua carta e o comunicado de imprensa.

— Oh, Kitty, chegaste antes de mim! — A rainha de Trelawney sentou-se. — Adoraria uma chávena de chá, papá. Que choque, hem? A minha irmã gémea é agora Lady Schiller.

— Estás aborrecida, Grace? — perguntou Kitty, com o lábio a tremer.

— Aborrecida? Porque havia de estar aborrecida? — perguntou Grace, espantada. — Contudo, consigo perceber porque o fizeram em segredo… imaginem tentar planear um casamento daquele tamanho! Metade da fina-flor de Melbourne teria de ser convidada e o papá nunca conseguiria pagar a despesa. É sempre de mau tom ser o noivo a pagar, acho eu. Lady Schiller! Que bom para Edda! E vai finalmente tirar o curso de medicina!

— Sim, é maravilhoso — disse Kitty, calorosamente. — Estou muito feliz.

— Aposto que Charlie não está — disse Grace, bastante perspicaz. — Foi atirado para a sombra.

— Se não tens nada de agradável para dizer, Grace, faz a gentileza de não dizer nada — disse o reverendo, com firmeza.

— Oh, tretas, papá! Ele está aborrecido, Kits, não está?

— Não necessariamente aborrecido, Grace, apenas um pouco triste por Edda sair de Corunda.

Os dois rostos que observavam Kitty ficaram perplexos.

— Oh, não tinha parado para pensar nisso — disse Grace.

— Nem eu — concordou o reverendo.

No entanto, Tufts pensara nisso, como confidenciara a Liam Finucan enquanto tomavam o chá da manhã no seu gabinete no dia seguinte.

— Não se pode substituir Edda, isso é o mais triste. Tão estável e lógica, tão… oh, não sei, reta. Eu percebo porque é que ela se casou com ele, significa um curso de medicina, e ela também deve gostar muito dele.

— Estás a insinuar que o amor não existe nesta equação? — perguntou Liam.

— Oh, claro. Não acho que Edda seja capaz de amar. Pelo menos, não da mesma maneira que Kitty e Grace amam. Ela é uma cientista, não uma romântica.

— Isso é bastante claro. E quanto a ele, Heather?

Tufts franziu o sobrolho.

— Boa pergunta, seu velho desmancha-prazeres. Atrevo-me a dizer que ele deve amá-la imenso para casar com ela. Afinal, ele tem cerca de quarenta anos, é bem mais rico que Charlie, muito mais alto que Edda e famoso dentro do Império Britânico. Oh, como eu espero que resulte! Rezo por isso! Porque ela não casou com ele para se tornar Lady Schiller ou uma borboleta social. A Edda é a Edda, ela faz as suas próprias leis. Tenho de o conhecer, Liam! Não vou descansar até o conhecer.

Os sentimentos do reverendo eram os mesmo de Tufts, embora não discutissem o assunto entre eles. Ao longo da infância de Kitty, fora sempre Edda que detetara os sinais de alerta, Edda que salvara a pobre rapariga da estupidez da mãe, Edda que lhe dera força; e tudo isso indicava que Edda era extremamente perspicaz, sensível, afetuosa e protetora. Mas como iria lidar com um Rawson Schiller? Por que razão se teria ligado a ele de uma forma tão irrevogável? É óbvio que o senhor Latimer sabia da relação de Edda com Jack Thurlow; não era cego e, certamente, não era surdo para não ouvir os boatos. Apesar de ser contrário aos desígnios de Deus, o senhor Latimer preferia muito mais a relação que um casamento infeliz. Agora, aqui estava ela, com o título de Lady e uma futura médica. E, apesar de tentar, Thomas não conseguia abafar os seus receios.

Para Maude Latimer, as notícias chegaram demasiado tarde. Já fervera a água da chaleira até evaporar por completo e acabara por pegar fogo à cozinha do presbitério três vezes, sendo a última bastante grave. Depois de uma luta árdua consigo mesmo, o reverendo foi obrigado a interná-la no hospício, um lugar onde ela deambulava de um lado para o outro, aparentemente feliz, gabando a toda a gente a sua lindíssima filha bebé, Kitty. Quando lhe contaram do casamento de Edda, não ficou chocada. Era Kitty que iria fazer um belo casamento no futuro. Edda? Edda não era ninguém, não era nada.

 

Parecia que Charles Burdum nunca iria desmontar do seu cavalo alto. Fiel à sua palavra, o reverendo mandou Kitty para casa duas horas depois de ter saído, mas Kitty ia de nariz empinado e não sabia se seria capaz de perdoar Charles, embora estivesse disposta a tentar, pelo seu pai. Mas o que ela encontrou foi um marido frio e distante, que recusou o jantar e depois dormiu no seu quarto de vestir, onde pediu a Coates para montar uma cama. Com o rosto impassível, o homem fez o que lhe mandaram, mas Kitty sabia que a história se iria espalhar por toda a cidade de Corunda no dia seguinte… o empregado de Charles era fenomenal a desempenhar as suas funções e um bisbilhoteiro nato. Os bares podiam estar fechados e as pessoas a dormir, mas Coates arranjaria uma maneira. Havia vezes que Kitty dormira sozinha por «razões de saúde», mas tinha sido ela a abandonar a cama do amo. Desta vez era bem diferente… o amo abandonara a cama do casal. Notícias sensacionais!

Kitty interpretou a atitude de Charles como prova de que a prostituição era contagiosa e que ela a apanhara de Edda. Fora transmitida pelo ar, bem como pelo sangue. Sem dúvida, pensou Kitty fulminante, Tufts e Grace também tinham uma marca escarlate na testa. Como se atrevia ele a agir como um evangelista burguês! A pensar nisto, Kitty adormeceu.

Na manhã seguinte, acordou e apercebeu-se de que há muitas luas que não tinha uma noite tão tranquila; saltou da cama com uma energia vibrante. Apressou-se a ir tomar o pequeno-almoço. Não encontrou Charlie. Já se encontrava no hospital, disse a sua empregada doméstica de confiança, a senhora Simmons.

— Esplêndido! — disse Kitty, alegre. — Eu e ele tivemos uma discussão acesa, senhora Simmons, e eu vou deixar de dormir no nosso quarto. Gostaria que a senhora e Beatrix, oh, e Coates, pusessem as minhas coisas na suíte lilás. Charlie odeia a suíte lilás!

A senhora Simmons fechou a boca com ostentação, colocando a mão sobre o maxilar inferior descaído e puxando-o para cima.

— Credo, Kitty, isso é um pouco drástico, não? — perguntou ela com a típica atitude da gente de Corunda para com os patrões… não havia cá «senhoras» ou «donas» para a senhora Simmons!

Aceitando a reação da senhora Simmons como parte do seu comportamento habitual, Kitty permaneceu impassível.

— Sim, é drástico, mas ao menos não é monótono — respondeu ela. — Sabe o que fez aquele idiota? Chamou prostituta à minha irmã Edda por ter casado com um homem rico com um título de nobreza!

— Cruz, credo, não posso acreditar! Refere-se aos quartos cor de malva, Kitty?

— Sim, os quartos cor de malva.

Deixando as suas mudanças nas mãos capazes da senhora Simmons, Kitty foi para o orfanato e voluntariou-se para fazer por lá algum trabalho de enfermagem.

— Kitty, és uma dádiva do céu — disse a enfermeira-chefe Ida Dervish, a diretora da instituição que crescera vertiginosamente em apenas dois anos. — Uma enfermeira de saúde infantil qualificada! Minha querida, temos trabalho para te ocupar de manhã à noite, mas tens tempo para despender por aqui? O doutor Burdum deve manter-te ocupada.

— Tempo — disse Kitty — é algo que tenho imenso e nenhum governo me deixa fazer uso do meu treino e me dá emprego só porque sou casada. Bem, esta última condição é discutível. Tive uma discussão tão grande com o doutor Charles Burdum, que ele me considera um excedente para as suas necessidades. Um olhar em volta quando entrei no orfanato, Ida, disse-me que aqui, pelo menos, sou precisa. Charlie pode ir-se lixar!

— Kitty! — exclamou a enfermeira-chefe Dervish. — Se disseres essas coisas por aí, não tarda nada a cidade inteira sabe.

— Já está. O Coates, Ida, não te esqueças do Coates — disse a esposa indignada com um sorriso. — Oh, ele magoou-me e eu vou fazer jarreteiras com as entranhas dele!

— Quem, o Coates?

— Não, tonta! O Charlie. Tens alguma coisa para eu vestir até conseguir mandar vir uniformes simples de Sydney? É uma pena que as nossas lojas locais tenham fechado as portas em tão grande número. — Kitty suspirou, pensativa, o seu humor começava a cair. — Estou mesmo muito magoada, mas preferia morrer do que deixar Charlie ver isso. Chamar a Edda, entre todas as pessoas, uma prostituta!

— Foi isso que ele fez?

— Sim.

— O homem não é bom da cabeça. Já para não falar que é ciumento.

Um julgamento que muitos faziam em Corunda à medida que a notícia se espalhava, mas não era de todo universal. Charles Burdum possuía seguidores dedicados e fiéis em muitas áreas que não tinham qualquer dificuldade em ver a justeza por trás do comentário de Charles sobre Edda Latimer, que podia ser uma cabra arrogante e tinha uma moral muito duvidosa. Embora a razão da discussão dos Burdum fosse irrelevante; a sua importância residia nas suas participantes, até agora consideradas unidas de forma tão próxima como… bem, irmãs gémeas.

Durante uma semana, Charles ignorou Kitty, a natureza pública do seu dilema e o facto de a sua mulher estar agora a viver numa suíte de quartos horríveis nos fundos da sua própria casa. A luva que Charles atirara para o chão de forma tão irrefletida fora apanhada por Kitty com uma avidez indecente, e esta estava demasiado ocupada a bater-lhe com ela. Não ajudava que tivesse os dois olhos negros e que ninguém acreditasse que tinham sido o resultado de embater contra uma porta.

No final da semana, Charles estava disposto a ceder um pouco e aproveitou a oportunidade quando ouviu a porta da entrada bater às seis da tarde: a sua esposa regressava do seu trabalho ridículo no orfanato.

— Posso falar contigo, Kitty? — perguntou ele, educadamente, aparecendo na entrada da pequena sala de estar adjacente ao seu escritório.

Deveria parecer cansada, e com todo o direito, visto que o seu trabalho não era nenhuma sinecura… duro, pesado, brutal. A sua rede de espiões informara-o de que Kitty andava a ver todas as cabeças à procura de piolhos e lêndeas, a esfregar cada orifício sem misericórdia, todas as tarefas que os funcionários do orfanato, com falta de pessoal e excesso de crianças, não tinham tempo de fazer adequadamente.

No entanto, Kitty estava radiante, mais bonita do que nunca; os olhos azul-lilás cintilavam cheios de vida, a boca atraente exibia satisfação e a sua pele brilhava com imensa saúde. Esta mulher tinha tido nados-mortos? Nunca!

— Claro que sim — respondeu ela.

— Queres uma bebida?

— Uma cerveja fresca seria ótimo, obrigada.

Depois de a servir e de ela se acomodar na cadeira, Charles sentou-se.

— Isto tem de parar — disse ele.

— O que é que tem de parar? — perguntou ela, bebericando de forma voluptuosa.

— Estes joguinhos. Dizeres por aí que tu e eu temos discutido, que estás aborrecida, que não gostas da minha atitude em relação à tua família.

— Meu Deus, que litania de pecadilhos! — respondeu ela.

— Têm de parar.

— Porque tu dizes, são as tuas ordens?

— Sim, claro. Eu sou teu marido.

— E se eu me recusar a parar com os meus joguinhos?

— Então, serei obrigado a tomar medidas.

— Medidas… Explica-me, por favor.

— Posso cortar a tua pensão, recusar honrar as tuas dívidas, usar a minha influência para tornar impossível que faças qualquer tipo de trabalho não remunerado. Tu és minha esposa , Kitty — disse Charles com firmeza e uma autoridade inabalável.

Se ele estava à espera de que Kitty perdesse a calma, ficou desiludido. Kitty olhou fixamente para Charles como se ele fosse uma nova e bastante repulsiva espécie de inseto. Em seguida, os cantos dos lábios de Kitty subiram.

— Oh, Charlie, a sério? — disse ela, irritada, mas sem um pingo de raiva. — Não sejas um idiota maior do que Deus te fez! Corunda é a minha cidade-natal, não a tua. Tenta prejudicar-me em Corunda e vais colher um vendaval. Eu posso arruinar-te num segundo. Kitty Latimer, irmã daquela prostituta, a Edda, ambas muito queridas pelos habitantes locais? Não é possível. O mais importante é que tu sabes que não é possível. Isso é tudo bluff, o teu último ato desesperado para adquirires uma esposa obediente e subordinada. Bem podes comer merda!

— Tens o vocabulário de uma prostituta! — disse ele, precisando de responder alguma coisa, mas sem se lembrar de nada mais para dizer. Amava-a tanto! Porque estava tudo a correr tão mal para ele? Aquelas irmãs horríveis, sempre as suas irmãs… era difícil admitir os seus ciúmes, o seu sentimento de posse, pois nunca se sentira assim até Kitty entrar no seu mundo, e agora apercebia-se de que amá-la implicava nunca se ver livre das irmãs Latimer.

— Sim, eu sempre fui a gémea respondona — disse ela, com um sorriso, gostando da ideia. — Quando se cresce a ser-se louvada como a criança mais bonita à face da terra, torna-se importante desenvolver uma característica que seja capaz de chocar e desiludir as pessoas. Não peço desculpa por isso, e não tenho a mínima intenção de te pedir desculpa, Charlie, por ter sofrido um insulto intolerável. A minha irmã Edda é uma mulher com uma integridade absoluta e um temperamento forte, sempre inteligente e sempre constante no que diz respeito à sua lealdade. Tu não gostas de Edda porque sentes uma qualidade nela que recusa ser propriedade de alguém. É uma qualidade que eu não tenho, infelizmente para mim. Mas disto eu tenho a certeza: Edda nunca se venderia, mesmo pela oportunidade de se tornar médica. O que significa que Rawson Schiller deve ter querido algo de Edda que anulou qualquer elemento de uma venda. É uma união entre iguais, Charlie, enquanto o nosso miserável esforço não me dá nada.

Durante bastante tempo, Charles não respondeu, limitou-se a ficar sentado e a olhar fixamente para a sua esposa, a qual amava, mas não conseguia agradar. Por fim, suspirou.

— Vais voltar para a minha cama? — perguntou ele.

— Não, acho que não.

Um enorme e profundo fosso engoliu o seu estômago.

— Acabou tudo?

— Eu não disse isso. Tal como a czarina Alexandra, eu adoro o meu boudoir cor de malva. Descobri que adoro ter o meu pequeno reino dentro do teu palácio. Não me importo de te receber na minha cama para termos relações sexuais, Charlie, se pedires e se vieres ter comigo, mas não durmo mais ao teu lado. Nem quero que toques no meu reino. É meu. Tenho vinte e quatro anos e já está na altura de ter a minha privacidade. Desejo muito ter filhos. Mas insisto em ter uma vida própria e isso significa que, pelo menos por agora, vou continuar a trabalhar no orfanato.

— És difícil, tão difícil — murmurou ele.

— Todas as mulheres o são, no fundo — disse Kitty, a sua compostura inalterada. — Os homens obrigam-nos a ser. Temos um pacto?

Sem saber bem se a amava mais do que a odiava, Charles acenou com a cabeça.

— Quando eu quiser ter relações contigo, peço-te, mas isso não inclui dormirmos juntos. Quanto tempo de convivência é que isso permite?

— Tanta quanto quiseres. Vou continuar a gerir a casa, a agir como anfitriã, a fazer as refeições contigo, a sentar-me e a falar contigo sobre os acontecimentos do dia ou da família, serei uma boa mãe para os teus filhos quando Deus permitir que eles vivam. Escapou-me alguma coisa, Charlie? Se sim, por favor diz-me — concluiu a nova Kitty.

— Existe alguma possibilidade de a magia entre nós voltar?

Kitty riu, um som tão frágil e límpido como o cristal.

— Para mim, Charlie, acho que nunca existiu. No entanto, tu querias essa magia, e a mim, e puxaste por mim até ao ponto de rutura. Quanto a agir de forma tresloucada, não! Nunca fui uma prostituta. — Um ar alegre invadiu-lhe o rosto, e sorriu. — É melhor continuares a rezar, meu querido marido, que eu não me torne uma prostituta. Na tua opinião, é algo que corre na minha família.

Já chegava de observações indiscretas, pensou Charles Burdum, retirando-se para a sua cama solitária. Até se ter casado com um membro do clã Latimer, nunca experimentara as emoções que existem entre irmãos, pois nunca os tivera. Como podia um filho único conhecer a força e a profundidade dos laços entre irmãs, sobretudo gémeas?

Kitty insinuara que Charles a pressionara demasiado… e o que dissera ela: até ao ponto de rutura? Desgastada, corroída, menosprezada. Mas isso era ridículo! Pensar dessa forma era rebaixar-se, era ter uma fraca opinião de si mesma. Depois, do nada, as memórias da sua conversa com Edda, quando chegara pela primeira vez a Corunda, vieram-lhe à cabeça. Edda dissera que Kitty tinha uma fraca opinião de si mesma, que a mãe a arruinara. Porque será que confidências deste tipo pareciam ter tão pouca importância na altura em que eram feitas? Ele não as assimilara como deveria ter feito… talvez estivesse sobrecarregado pela quantidade de informação que Edda lhe dera de uma vez.

Não, sê justo, Charles, disse para si mesmo; ouviste atentamente apenas aquilo que te interessava, apenas o que te ajudasse a conquistar Kitty. Nada mais. Kitty, a parceira perfeita, e Edda estava a tentar que a visses (e com toda a razão) como imperfeita. Ninguém é perfeito! Muito menos tu, Charles Henry Burdum. Agora criaste uma situação complicada. A tua mulher está magoada, sem culpa nenhuma disso, e tu não és a pessoa certa para a curar. Na verdade, ela fechou a porta ao casamento sem fugir aos seus deveres, e deveres é tudo o que são para ela. Será por isso que ela sofre abortos?

 

Tufts e Liam Finucan foram os primeiros habitantes de Corunda a conhecer Sir Rawson e Lady Schiller, que desembarcaram no porto de Sydney depois de navegarem de São Francisco no início de 1932. Liam ia assistir a uma conferência em Sydney e Tufts pediu uns dias de licença para ir com ele; tinham quartos adjacentes no Hotel Metropole, perto de Circular Quay, passavam os dias afastados, os finais de tarde juntos e as noites castamente separados pela parede do hotel. O que os satisfazia aos dois. No último dia, Tufts recebeu um telefonema de Edda.

— Rawson e eu estamos no Hotel Australia — disse ela —, e gostávamos muito que tu e Liam jantassem connosco esta noite.

— Não perderíamos a oportunidade por nada deste mundo.

Com os dias despenteados de Liam agora no passado, ele vestiu um fato elegante com uma gravata do Hospital Guy, e a pequena Tufts estava deslumbrante com um vestido de chiffon cor de âmbar. No entanto, o casal que se encontrava à sua espera no átrio do hotel roubava todos os olhares. Tufts e Liam esqueceram as maneiras e olharam fixamente. O homem era impressionante, nem que fosse pela sua fealdade, mas Edda estava magnífica com um vestido de seda verde-esmeralda, exatamente da mesma cor que o anel que tinha no terceiro dedo da mão esquerda, uma grande esmeralda quadrada rodeada de pequenos diamantes. À volta do pescoço usava uma simples gargantilha de diamantes, e em cada lóbulo da orelha um grande diamante de primeira-água.

— Meu Deus! — disse Tufts, em bicos dos pé para beijar a face de Edda. — Pareces um milhão de dólares!

— É quase isso que eu custo — disse Edda, rindo.

Em seguida, Tufts conheceu os olhos azuis do seu novo cunhado e gostou dele, o que foi um alívio tão grande que quase lhe faltou a força nos joelhos.

Ninguém esperava, pensou Edda ao ouvir Rawson e Liam falarem, que um advogado e um patologista tivessem tanto em comum, e talvez até nem tivessem, mas não lhes faltavam palavras, que eram trocadas numa conversa tão amigável que indicava a Edda que aquele irlandês reservado e meticuloso aprovava o seu novo marido.

— Estás feliz, Edda — disse Tufts na casa de banho.

— Estou, muito, exceto com os presentes. — Edda fez uma careta. — Não consegui evitar receber o anel de noivado, mas lutei arduamente contra os diamantes. Não adiantou de nada.

— São lindos, Eds, e de muito bom gosto. Simples.

— Sim, graças a Deus que não tenho de me preocupar com o gosto de Rawson. Combinamos surpreendentemente bem.

— E começas o curso de Medicina III em fevereiro?

— Sim, sim, sim! As joias vão ser guardadas no banco nessa altura, recuso-me a tê-las em casa. — Edda parou de falar, sorriu. — Casa! Um andar inteiro de um edifício alto na cidade de Melbourne, não é estranho? Tenho um apartamento inteiro no andar de baixo para estudar.

— Meu Deus! Deve ser um sonho.

— Sim, é mesmo, e tenho imenso medo de acordar.

— O homem ama-te.

— Achas?

Os olhos cor de âmbar pestanejaram.

— É só olhar para ele.

— Ele já moveu montanhas por mim.

— Desconfio — disse Tufts, enfiando o braço pelo da irmã — que ele seja o tipo de homem habituado a mover montanhas.

No entanto, ao caminhar de volta para o Hotel Metropole com Liam à meia-noite, Tufts expressou algumas preocupações.

— Oh, Liam, reza por ela! — exclamou Tufts.

— Será que ela precisa das nossas orações, Heather? — perguntou ele, surpreendido.

— Desconfio que sim. Rawson Schiller é bastante amável e eu gosto dele… mas ele tem várias facetas, e não sei se Edda as conhece todas.

— Bem, eles vão estar connosco no comboio amanhã, por isso mantém os olhos bem abertos e os ouvidos atentos. Eu partilho a tua opinião em relação a ele.

— Pelo menos não é forreta. Que joias!

Liam riu de forma ruidosa.

— Não me enganas, minha senhora! As joias não constam da tua lista de prioridades.

— Nem na de Edda, ai! É aí que está a questão.

— Só se ele achar que ela lhes dá valor. Tenho a sensação de que ele não acha que Edda lhes dê valor. Por outro lado, como sua esposa, ela tem de as usar quando a ocasião obriga.

 

Grace decidiu que a sua própria posição enquanto rainha de Trelawney se assemelhava ao título de cavaleiro de um reino e foi muito graciosa quando se conheceram; o encontro ocorreu na sua própria casa bege e verde em Trelawney Way, por altura do chá da manhã, um repasto que uma viúva com crianças pequenas conseguia preparar mais facilmente que um almoço, um lanche ou um jantar.

Como era o auge do verão, as crianças estavam de tronco nu e descalças, vestidas com calções de algodão.

— Brian vai frequentar a escola para o ano na East Corunda Public, e John começará no ano seguinte… eles têm pouca diferença de idade — disse ela às suas visitas, aparentemente pouco impressionada com a roupa de Edda ou o seu anel de esmeraldas.

— Deve ser muito difícil, Grace — disse Rawson num tom afetuoso —, mas não é difícil ver que és uma esplêndida dona de casa.

— Vou fazendo o que posso. Não vale a pena queixar-me e lamuriar-me, pois não? Temos de aceitar as coisas más, da mesma forma que aceitamos as coisas boas, como eu sempre digo.

— Preferias que os teus filhos fossem educados numa escola privada em vez de pública?

À superfície nada abalava Grace, e o choque da união de Edda já tinha agora tempo suficiente para ser incorporado no seu esquema mental das coisas, considerado como uma possibilidade, mas depois descartado… a não ser que, mais tarde, a situação mudasse, claro.

— Brian e John conhecem apenas um mundo, Trelawney — disse Grace a Rawson, exibindo encanto e nobreza. — Tenho a certeza de que a East Corunda Public pode proporcionar uma educação adequada. Quero que os meus filhos acabem a escola com distinção.

— E que grandes esperanças tens para o futuro deles? — insistiu Rawson.

— Como vítima da Grande Depressão, Rawson, a minha maior esperança é que, façam o que fizerem, a sua área de trabalho seja mais segura que a área das vendas. O pai deles era um vendedor brilhante, mas quando a Depressão se abateu sobre o país as pessoas deixaram de comprar. Não se poderão dedicar à terra, porque não temos qualquer pedaço de terra, mas o ensino ou uma carreira como oficial do exército ou da marinha seriam profissões seguras — disse Grace, com firmeza.

Rawson olhou para ela, impotente, sabendo que estava completamente confuso. Esta era a irmã gémea de Edda? Muito parecidas ao olhar, mas não tinham nada em comum ao nível mental e espiritual… absolutamente nada!

— Se eu alguma vez te puder ajudar, Grace, promete que vens ter comigo — disse ele, decidido. — Não te vou ofender ao repisar o assunto, mas lembra-te do que te disse.

— Eu compreendo, mas estamos bem — respondeu Grace. — Talvez a maior lição da vida seja termos expectativas baixas. Assim, não nos desiludimos.

— Disparate! — disse Edda bruscamente, encontrando a língua. — Se tiveres expectativas baixas, vais sempre ficar em baixo! Tens dois meninos fantásticos e espero que faças de tudo para que eles acabem a universidade e não apenas que se matriculem.

Grace virou-se para Rawson com um sorriso tolerante.

— Minha querida Edda! — exclamou ela. — Uma reação típica de Edda, sabes? Mas como poderias saber? Eu sou gémea dela. Eu conheço-a. Ambiciosa! Oh, meu Deus, ela tem ambição suficiente para ganhar um concurso. Embora eu esteja muito contente por ela ir fazer, finalmente, o curso de medicina. Não que lhe vá trazer alguma alegria. Não é um mundo fácil para as mulheres médicas.

— Edda vai ser bem-sucedida — disse ele suavemente.

— Come outro pedaço de torrada, Rawson. A geleia de maçã que ela tem por cima é caseira, feita com maçãs Granny Smith da minha própria macieira. Faz muito melhor do que aquelas coisas compradas. Quem vive com um orçamento apertado resultante da Depressão pode até ter uma alimentação mais monótona, mas é muito mais saudável. Caseira!

— A geleia de maçã é deliciosa — disse ele com sinceridade.

— E — disse Edda, entredentes, enquanto se afastavam no carro do reverendo — Grace é absolutamente insuportável! Eu pensava que não havia pior do que a velha Grace lamurienta, mas a Grace conquistadora, rainha de Trelawney, é muito pior. Insuportável!

— Mas tu ama-la tanto — disse ele, sorrindo.

Edda emitiu um som, metade queixume, metade riso.

— Sim, é verdade.

— A água nivela-se por si, Edda, e Grace é a água que se encontra no fundo de uma cascata. Não é superficial… tem várias profundidades ocultas. Enquanto tu és a cascata, sempre em movimento, cheia de energia, gloriosa de se ver.

Edda corou, adorando o elogio inesperado.

— Kitty é a cascata… brilhante, dançante, uma sinfonia de som e arco-íris.

— E Tufts?

— O oceano Pacífico, nada menos que isso.

— Ela e Kitty também mantiveram uma forte semelhança física, embora todas vocês sejam mais diferentes umas das outras do que iguais — disse ele.

— Eu sei o que queres dizer. Cada uma de nós foi modificada pela vida. — Edda suspirou. — Estava errada quando pressionei Kitty para casar com Charlie… mas ela estava tão hesitante, Rawson! Tufts e eu pensámos que a única coisa que a estava a impedir de ficar com ele era o facto de as pessoas a considerarem uma oportunista. E acredito genuinamente que ela precisava de um homem que a idolatrasse. Charlie fazia-o. Ela atingiu-o como um cabo de alta tensão, ele ficou um pouco louco de amor por ela. O que nós desconhecíamos tornou-se a sua ruína… Charles é ciumento e possessivo.

— Sim, ele parece o tipo de homem que fecha a mulher a sete chaves.

 

Edda enfrentou a família de Rawson na noite a seguir ao seu regresso de Melbourne. O único que teve uma noite agradável foi o próprio Rawson, livre para se recostar na cadeira e observar o efeito da sua nova esposa em três gerações típicas de uma família colonial abastada. Os Schiller, pensou ele, esqueceram-se de tudo exceto de como manter a sua posição social e de como continuar a aumentar a sua fortuna. Os seus irmãos casaram com mulheres abaixo do seu pedigree, mulheres que tinham sérias dificuldades em escrever um racado… a minha mãe é uma snobe, com uma árvore genealógica impecável… o meu pai é um homem severo e tacanho de espírito que acha que o lugar das mulheres é em casa… só existe um Schiller com curso universitário, eu… as minhas três sobrinhas vão ser autorizadas a deixar a escola, e os meus três sobrinhos vão continuar a estudar, mas não irão para a universidade. No entanto, os Schiller são pessoas importantes.

E, aqui, como um raio vermelho, atirei o relâmpago da minha esposa para estilhaçar a sua complacência, para dividir em pedaços a sua ignorância. Olhem para ela! Sofisticada é a palavra que me ocorre primeiro, porque a sua beleza é permeada por todas as qualidades que a experiência aliada à inteligência podem dar; o sofrimento expandiu a sua maneira de ser, uma necessidade nata de assumir total responsabilidade dotou-a de uma força incomparável, e uma paixão pelo conhecimento vai sempre motivá-la a ir mais além do que as paredes de uma casa, de uma cozinha ou quarto de bebé. Tem tanto estilo! Isso é um dom, não pode ser adquirido.

Coitada da tola da Constance, a tentar humilhar Edda com comentários sobre o facto de as suas unhas não estarem arranjadas, de não serem dignas de um anel de esmeralda… De que forma tão encantadora Edda lhe explicou que as luvas de borracha de uma enfermeira do bloco operatório a impediam de ter unhas compridas, bem como o regulamento do hospital a proibia de usar verniz vermelho nas mesmas. E Constance, Gillian e até a minha mãe permaneceram sentadas a lembrar aquelas mulheres incríveis que as persuadiam gentilmente a usar uma arrastadeira ou lhes mostravam formas de lidar com as indignidades daquela niveladora drástica, a dor…

O meu pai está perplexo, faz conversa de circunstância porque é suficientemente esperto para perceber que a minha esposa é mais inteligente que ele, que poderia até fazer mais dinheiro que ele se fosse esse o seu desejo. Graças a Deus que não é. O meu irmão mais novo, Rolf, é o que está mais perto de gostar dela… é um homem do campo, bastante pragmático e mais em sintonia com os grandes ciclos da natureza. Porque, para ele, Edda é uma Deusa Grandiosa que viu o seu poder sobre os homens ser-lhe arrancado.

— O que achou o nosso observador? — perguntou ela depois de regressarem ao seu apartamento.

— O nosso observador viu que tu os aterrorizaste — disse ele, sorrindo.

— Se o nosso observador não se importar, gostava de manter o terror.

— Importar? O observador adora a ideia.

 

Habitar um andar inteiro no último piso de um edifício, que até incluía um jardim no topo, significava que Sir Rawson Schiller tinha quartos vagos. Nem atribuir o seu antigo apartamento para hóspedes a Edda provocara qualquer inconveniente para ele, visto que os três andares de cima estavam subdivididos em apartamentos, que mantinha para hospedar familiares em visita ou empregados em horários ou funções que tornavam difícil viver longe de Rawson.

Um casal nos seus quarenta, Ivan e Sonia Petrov, tinham cuidado de Rawson durante doze anos; juntamente com a cozinheira, Daphne, a ajudante de cozinha, Betty, e a empregada doméstica chamada Wanda, constituíam a sua equipa de empregados. Os Petrov e Daphne viviam no edifício, enquanto Betty e Wanda viajavam de elétrico de algures em Melbourne. Os horários de trabalho, sobretudo para os Petrov, pareciam ser flexíveis, mas Edda desconfiava que Rawson não era o tipo de empregador que se preocupasse com tostões no que dizia respeito a ordenados e regalias; era óbvio que os seus empregados o adoravam, incluindo os seus secretários, vivendo ambos no prédio. É uma espécie de pequena colónia aqui, pensou ela, divertida e comovida. Quanto ao segredo dele… ninguém sabia.

Daphne geria a cozinha, os Petrov tudo o resto. Ao corrente das lutas de Kitty com Charlie em relação ao chef, Edda viu de imediato a diferença de atitude. Charles tinha apenas em conta um homem com formação numa escola Cordon Bleu; Rawson contratara uma mulher sem formação e tinha, de longe, uma cozinheira melhor e mais versátil.

Ivan e Sonia tinham fugido da Revolução Vermelha na Rússia, mas não por serem aristocratas ricos; odiavam Lenine e todos os seus ideais, os seus motivos eram demasiado russos para Edda compreender. O que percebeu foi que Sir Rawson lhes ofereceu a ideia que eles tinham do que era o paraíso para um trabalhador. Uma semana depois de Edda se mudar para lá como esposa de Rawson, Nina começou a trabalhar como sua criada de quarto. Nina era a filha de dezanove anos dos Petrov, que vivia com eles e que fora treinada para servir uma senhora, função que desempenhava desde os quinze anos.

— Servi-la é perfeito! — disse Nina com um sotaque acentuado de Melbourne.

— Não é uma carreira um pouco ultrapassada, Nina? — perguntou Edda. — Podias ser professora, enfermeira, secretária… isto é uma posição servil.

— Sim, mas — disse Nina, com os cantos da boca a revirar para cima — as melhores criadas ganham ordenados fantásticos. A minha mãe treinou-me. Deixei Lady Maskell-Turvey para a servir a si, e ela teria oferecido o dobro do dinheiro para ficar comigo. Mas servi-la é maravilhoso, mesmo que prefira que eu a trate por Edda.

Ao lembrar-se do ordenado miserável que uma estagiária de enfermagem recebia, Edda calou-se. Se esta criatura inteligente, de cabelos claros e olhos azuis, filha de refugiados, não se importava de lavar roupa interior e passar vestidos a ferro por o que parecia ser um ordenado chorudo, porque havia Edda de se opor?

No entanto, era um enorme alívio descobrir que todos os empregados de Rawson gostavam genuinamente dela. Era bastante óbvio que estavam muitos contentes por vê-lo casado com a Lady Certa, pois era assim que a consideravam.

A suíte de quartos de Edda ficava ao fundo do apartamento, e era ideal. No entanto, Edda nunca conseguia desfrutar deles, a não ser para dormir, tomar banho e vestir-se. O seu lazer viria a acontecer no andar de baixo, enquanto preparava o apartamento para o estudo de medicina, incluindo deixar a cama feita e toalhas na casa de banho. Não havia dúvida de que os empregados comentavam, mas pelo menos metade deles fazia-o em russo. Não havia grande perigo aí; os Petrov sabiam quem lhes punha o pão na mesa.

Livros, livros e mais livros enchiam as prateleiras, e havia sempre mais a serem adicionados. Edda comprou um microscópio, um estetoscópio, lâminas de vidro e lamelas, tubos de ensaio, instrumentos cirúrgicos básicos de aço inoxidável sueco, pilhas de vestidos simples de algodão que podiam ser lavados e passados a ferro com facilidade, casacos curtos brancos e sapatos resistentes de enfermeira. Quando a Medicina III começasse, Edda queria ter tudo pronto para não ter de perder tempo a comprar à pressa coisas de que se esquecera. A sua mente precisa e organizada tinha tudo sob controlo.

Edda também gostava do tempo que passava com Rawson, que era fiel à sua palavra e usava os serviços sociais dela. Parecia impressionante, mas a verdade é que ele adorava ouvi-la falar com entusiasmo sobre o seu «apartamento de medicina», como ela lhe chamava, e sentia-se revigorado ao final de uma noite na sua companhia. A sua juventude, beleza e poder fascinavam-no, chegando até a ressentir o facto de a sua própria orientação sexual manter Edda numa órbita distante da sua vida; pois ela não era sua esposa na verdadeira aceção da palavra, e Rawson não sentia qualquer inclinação para mudar isso. Talvez o que sentisse por ela fosse mais de natureza paternal?

Os seus colegas da área do direito e da política, céticos em relação à sua recente união, sucumbiram gradualmente aos encantos de Edda, embora as suas esposas não o tenham feito de forma tão rápida e, algumas delas, nunca tenham sequer chegado a fazê-lo. Lady Schiller sénior era famosa por a detestar, principalmente porque não tinha dinheiro próprio e era exímia a gastar o de Rawson. Que ele pudesse sustentar uma esposa dispendiosa, todos sabiam; o que ninguém compreendia é que os vestidos, as joias, as peles e o seu custo de vida crescente procediam dos impulsos e desejos dele, não dela. Apenas o tempo ensinaria ao mundo de Sir Rawson Schiller que a sua esposa se contentava com pouco mais do que um curso de medicina.

Quanto ao próprio Rawson, o casamento trouxe-lhe todas as coisas que há muito lhe eram negadas por ser solteiro. Em todos os aspetos, casara com a mulher certa, ninguém questionou por que razão um homem há tanto tempo solteiro se apaixonara por esta mulher, e não outra. Edda era incrivelmente elegante, bem como bonita, e era óbvio que vinha de uma boa família, sabia conversar sobre uma série de assuntos, era capaz de seduzir aqueles que Rawson necessitava de seduzir, conseguia insultar com inteligência e autodomínio e ainda manter a compostura… sim, Edda era ideal, e ninguém o censurava por casar com uma mulher tão fascinante e invulgar. Uma estudante de medicina, por amor de Deus!

No entanto, Edda não fez amizades entre as mulheres do mundo de Rawson apenas porque os seus estudos não lhe davam tempo. Ocasionalmente, encontrava-se com pessoas de quem gostava muito, mas como poderia ela despender duas horas de manhã para tomar um café ou três horas para almoçar? Impossível! Os livros chamavam por ela como a canção de uma sereia, e ela ficava enfeitiçada.

 

1 Conselheiro do Rei. (N. da T.)