Agridoce
PARTE DOIS: Uma Já Foi, Faltam Três
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
PARTE DOIS
UMA JÁ FOI, FALTAM TRÊS
Grace estava sempre metida em sarilhos. Quanto mais a sua carreira de enfermeira se prolongava, mais coisas irritantes havia para memorizar, até que, por fim, mesmo os ensinamentos mais básicos de enfermagem se tornaram demasiado difíceis de lembrar.
— Explique-me o registo de equilíbrio de fluidos, enfermeira Faulding — ordenou a enfermeira-chefe, chamada a intervir como último recurso.
— É mantido um registo de equilíbrio de fluidos do paciente para garantir que a entrada de líquidos é suficiente para compensar a saída — respondeu Grace num tom que diz a qualquer professor que o seu aluno é um papagaio.
— A que entidade diz respeito o registo de equilíbrio de fluidos?
Grace parecia confusa.
— Ao equilíbrio de fluidos, enfermeira-chefe.
— Isso até um cego conseguia perceber, Faulding. O que quero dizer é: a quem pertence o registo de equilíbrio de fluidos?
Grace parecia ainda mais confusa.
— Ao hospital, enfermeira-chefe.
— É propriedade de quem? — insistiu a enfermeira-chefe.
— Do hospital? — perguntou Grace, hesitante.
A enfermeira-chefe suspirou de impaciência.
— Dada a qualidade das suas três irmãs, Faulding, recuso-me a acreditar que seja burra como uma porta, mas é um facto que põe a minha fé à prova! O registo do equilíbrio de fluidos pertence a algo chamado paciente, e é na verdade um registo da quantidade de fluidos que o paciente, a quem pertence o registo, ingere, bem como a quantidade de fluidos que ele ou ela produz, sobretudo sob a forma de urina, mas que também pode incluir…?
— Hum… fezes? — perguntou Grace, cheia de esperança.
— Não, se já estiverem formadas, Faulding. Fluidos são líquidos, não é verdade? O registo também deverá incluir outras medidas como vómito, sangue, expetoração e saliva, se em quantidades mensuráveis — disse a enfermeira-chefe, que não estava a gostar nada daquilo.
O que o Hospital de Corunda precisava era de uma irmã Explicadora… e urgentemente!
— Porque é necessário manter um registo do equilíbrio de fluidos?
— Ah, essa é fácil — disse Grace sem hesitar. — Hidropisia!
A goma do uniforme da enfermeira-chefe rangeu perigosamente.
— A hidropisia é parte dos sintomas indicativos de insuficiência renal inicial, Faulding, é apenas um aspeto. Ainda não me respondeu porque é necessário manter um registo de equilíbrio de fluidos, apenas me disse que pode indicar insuficiência renal. E as doenças hepáticas? Úlceras? O que tem de fazer quando o registo de equilíbrio de fluidos indica que o paciente vomita mais do que urina? Volte para a biblioteca e leia, depois escreva um relatório de cinco páginas sobre o registo de equilíbrio de fluidos, enfermeira.
A cara de Grace foi inundada por um enorme desânimo. Engoliu em seco.
— Sim, enfermeira-chefe. Peço desculpa, enfermeira-chefe.
— O seu pedido de desculpa é escusado, não faz qualquer sentido nesta discussão. — As unhas curtas, mas bem arranjadas, da enfermeira-chefe assentavam na ponta dos seus dedos como campanários no topo de uma igreja. — Não escapou à minha atenção que as suas tarefas diárias são executadas de forma desleixada. Onde anda com a cabeça, enfermeira Faulding? Não posso tolerar uma cabeça no ar, e a sua está completamente desorientada, como a cauda de uma vaca numa praga de moscas: aqui, ali, em todo o lado. Tem de parar, ouviu-me? Já agora, gosta de enfermagem? Ou é algo que continua a aguentar para poder ficar perto das suas irmãs?
E ali estava a pergunta, aquela que desejava há tanto tempo que lhe fosse feita, na certeza de que, quando surgisse, todas as dúvidas e problemas sairiam disparados. No entanto, era a enfermeira-chefe que estava a fazer a pergunta e como podia um humilde verme como ela ter coragem para contar as suas preocupações insignificantes a tão imponente figura? Grace engoliu convulsivamente, cerrou as mãos e olhou para elas com um ar determinado.
— É claro que gosto de enfermagem, enfermeira-chefe — mentiu ela. — Como disse, o que me falta é a capacidade de governar a minha mente. Ela… vagueia.
— Então, trate de encontrar essa capacidade, enfermeira. Está dispensada.
Poderia ter sido pior, pensou Grace, percorrendo apressadamente a rampa em direção a casa. Hoje começavam três dias de folga… que felicidade! Lembrou-se do relatório que a enfermeira-chefe a mandara fazer e suspirou. Não, não iria passar os seus dias de lazer a fazer um relatório! Podia fazê-lo nos dias em que estivesse de serviço, afinal, não fora dado nenhum prazo de entrega.
Com os doze primeiros meses passados, a casa das irmãs Latimer não lembrava muito uma casa rústica, visto que as quatro tinham tendências decorativas muito acentuadas, se não completamente diferentes. Pintaram paredes, penduraram quadros, «deram uns toques mais atrevidos ao exterior», como dizia Kitty, e criaram um jardim campestre. A irmã Marjorie Bainbridge, que vivia ao lado na sua casa particular, não se podia queixar que as irmãs desleixassem a sua acomodação. Viviam felizes.
Não que Grace planeasse ficar em casa naquele dia. Enquanto cantarolava baixinho, Grace desenterrou a roupa gasta de um tom vermelho-ferrugem que usava para se dedicar ao seu passatempo: observar locomotivas a vapor. As gares eram locais demasiado sujos para vestir roupa boa e, além disso, Grace não queria dar nas vistas, queria antes passar despercebida em circunstâncias tão invulgares. Desde que descobrira os comboios a vapor aos dez anos que estes a encantavam, de tal maneira que nem a troça das irmãs a desencorajava.
Grace vestiu-se, pôs o chapéu e as luvas e saiu pelo portão lateral estipulado que dava para o parque. Caminhou para oeste pela Victoria Street. Enquanto caminhava, a sua mente debatia-se com a sua outra preocupação: o oculto, tão em voga, e descrito de forma tão sedutora nas revistas, nas quais as videntes previam catástrofes que se tornavam realidade e que, por coincidência, lançavam dicas sobre a realidade da vida das estrelas de cinema. Nem todos os seus pensamentos eram superficiais. Grace desconfiava que a adulação e a riqueza que chegara a estas pessoas jovens e lindas sem grande esforço tinham levado algumas delas a cometer excessos hedonísticos de que os seus clubes de fãs não gostavam.
Atrás da última fileira de edifícios públicos na Victoria Street encontrava-se uma vedação rematada com lanças de ferro, que circundava a estação de manobras dos comboios. Grace contorceu o corpo elegante por entre um molinete improvisado e entrou nos terrenos do caminho de ferro.
Ninguém a viu. Cada linha dupla dos carris estava oculta por filas e filas de vagões: vagonetas que transportavam carvão vindo de Wollongong, vagões cobertos de ripas de madeira que levavam os cordeiros para os matadouros de Sydney e Melbourne, vagões de bordas baixas para transportar maquinaria, carruagens de transporte de minérios, todo o tipo de locomotivas. Grace adorava os odores: ferrugem, óleo, fumo, excremento seco de cordeiro, cânhamo das sacas, metais, eucalipto, erva seca.
Os barracões das locomotivas surgiram da névoa. Grace abrandou, à procura do melhor lugar que a disposição dos vagões lhe oferecia hoje, e encontrou o pouso ideal no topo de uma carruagem de madeira. Não foi difícil trepar até lá para se sentar. Aninhou-se confortavelmente e recostou-se para desfrutar da vista em sossego.
Grace encontrava-se ali para observar as locomotivas, os enormes motores movidos a vapor que rebocavam todo o tipo de vagões para dentro e para fora da estação, por toda a rede ferroviária da Nova Gales do Sul. Hoje havia cinco locomotivas, um número habitual. Corunda era o ponto mais alto da linha do sul e, por essa razão, era acrescentada uma locomotiva extra para ajudar a puxar o frete pela colina acima ou era retirada uma depois de a subida ser ultrapassada. O outro terminal de locomotivas ficava mais perto de Sydney, a apenas oitenta quilómetros de distância, mas era em Corunda que havia o estaleiro e os barracões de armazenamento permanente de locomotivas, uma indústria próspera.
Grace não sabia explicar por que razão ver uma locomotiva a vapor C-36 ou C-38 a deixava tão encantada. Simplesmente, desde o seu décimo aniversário, quando esteve ao lado de uma pela primeira vez, a visão daquelas enormes mulas de ferro, envoltas em fumo e vapor, fascinava-a. Ficava sentada durante horas a observá-las, deliciada com o poder que fazia as rodas mexer, rodas mais altas que ela, capazes de a reduzir a pó. Os rugidos, os estrondos, os assobios e a agitação deslizante dos sopros das locomotivas deixavam-na extasiada e, quando via uma a percorrer os carris a toda a velocidade, soltando pequenas explosões em staccato de um denso fumo preto, desejava tornar-se parte da locomotiva, sentir a sua enorme pujança interior.
Como se aperceberia muito em breve, o dia de hoje reservava-lhe uma surpresa maravilhosa. Corunda tinha uma plataforma giratória, uma roda de ferro rotativa enorme com um diâmetro maior que o comprimento de uma locomotiva C-38 com tênder, e o seu conjunto único de carris comunicava com os carris que se encontravam de cada lado do seu círculo. As locomotivas tinham uma capacidade limitada de se virar sozinhas. Uma curva pouco acentuada ao longo de vários quilómetros podia alterar significativamente a direção da locomotiva, mas a única forma de mudar a direção sem consumir quilómetros era a plataforma giratória. A locomotiva e o tênder eram posicionados em cima da plataforma, que executava a rotação.
De repente, alguém apareceu ao seu lado. Grace virou-se ligeiramente e viu um homem de fato e, em seguida, decidiu que ele ali estava pela mesma razão que ela e acabou por o esquecer no meio de todo o entusiasmo de ver um maquinista experiente a posicionar com enorme precisão uma locomotiva gigantesca sobre a plataforma giratória.
— Eu sonhava ser aquele homem ali quando era pequeno — disse o homem sentado na ripa ao seu lado.
— Então, porque não é? — perguntou ela num tom indiferente, quando a plataforma começou a girar.
— Não tenho conhecimentos nos sindicatos dos caminhos de ferro.
— Oh.
A conversa morreu, estavam ambos demasiado absortos nos comboios e nas suas rotações. Contudo, passado pouco tempo, o espetáculo terminou. Grace saltou da ripa antes que o homem tivesse tempo para a ajudar.
— Foi fantástico — disse ele, equilibrando-se num carril e passando as pontas dos dedos pelo rebordo do chapéu. — Obrigado pela companhia.
— Posso dizer o mesmo. Partilhar torna o momento mais excitante.
— É um passatempo pouco usual para uma jovem senhora.
— Eu sei. As minhas irmãs passam a vida a gozar comigo.
Ele riu.
— Posso pedir-lhe um favor, menina?
— Pode pedir — ripostou ela realçando delicadamente a palavra «pode».
Quem quer que ele fosse, não recebera uma boa educação.
— Posso ver o seu rosto?
Foi a vez de Grace rir.
— Pode — respondeu ela, olhando-o de frente.
— Não, quero dizer, sem esse chapéu ridículo.
Surpreendida e algo atrapalhada, Grace tirou o chapéu da cabeça e avaliou por sua vez a fisionomia do jovem: bastante apresentável, mas invulgarmente pálido, como se tivesse sido mergulhado num balde de geada, embora a sua pele fosse morena em vez de rosada e cheia de sardas. Como se, pensou a sempre fantasiosa Grace, o seu sol do norte brilhasse em céus sem nuvens e por isso exigisse aos seus antepassados que tivessem uma pele mais pigmentada. Aprendi alguma coisa!, disse ela para si mesma. Afinal, assimilara alguns dos ensinamentos de enfermagem.
— A menina é adorável — dizia ele. — Para onde vai? Posso acompanhá-la? Há muitos ladrões escondidos nas gares.
Nunca ninguém lhe chamara adorável, apenas «choramingas» ou «tormento». Podia não ter educação, mas tinha bom coração. Na verdade, pensou Grace com satisfação, duvido que chamem «adorável» a Kitty ou a Edda. Não vendo qualquer maldade nele, Grace sorriu e acenou com a cabeça.
— Obrigada, senhor…?
— Björn Olsen. Mas pode tratar-me por Bear (urso). É o que toda a gente faz. Björn é a palavra sueca para urso. Qual é o seu nome?
— Grace Latimer. Sou enfermeira no hospital, onde me tratam por Faulding para evitar confusões. Somos quatro no hospital com o apelido Latimer.
Sentia os pés leves, como se o chão que pisavam fosse uma nuvem macia; satisfeita ao reparar que ele era bastante mais alto que o seu metro e setenta, Grace esqueceu por completo a realidade. Só estava ciente dos passos que dava ao lado de Bear Olsen, de querer descobrir tudo sobre ele. E o seu coração flutuava no tempo juntamente com os seus pés, apenas de forma diferente, quente e resplandecente. Que idade teria? Que faria da vida? Ele achava-a adorável e os seus luminosos olhos azuis acariciavam-na.
Quando chegaram ao molinete improvisado, caminharam para as traseiras do parque e encontraram um banco numa esquina deserta. Não se encontrava ninguém por perto numa terça-feira, parecia que o mundo inteiro lhes pertencia, como se fossem as únicas pessoas que o habitavam.
— Não se importa que nos sentemos aqui? — perguntou ela inquieta.
— Preferia levá-la a qualquer lado onde lhe pudesse oferecer uma chávena de chá e um scone — disse ele, dentes brancos num sorriso que revelava um incisivo lascado. Tão encantador! — O hospital não tem cafetaria?
Grace olhou para ele horrorizada, apavorada.
— Não! Oh, não! Não posso levá-lo comigo para o hospital, é contra as regras. Estaria metida em grandes sarilhos, e parece que isso está constantemente a acontecer-me. Estou a estudar para me tornar enfermeira e as regras são rígidas como ferro. Ferro!
Ligeiramente sem fôlego, ele olhou para ela. O pobre coitado!
— Parece mais uma prisão do que um emprego — disse ele.
— É complicado — respondeu ela desanimada.
— Estaria metida em sarilhos se fosse ter comigo ao Parthenon ou ao Olympus? — perguntou ele.
— Oh não, nada disso — disse ela, aliviada. — Desde que não façamos nada que vá contra a lei, a enfermeira-chefe não se importa com o que fazemos quando estamos sem o uniforme e fora dos terrenos do hospital.
— Um convento, não uma prisão — disse Bear.
Grace soltou uma gargalhada.
— Em parte sim, mas sem as orações.
— A Grace é católica?
— Não, o meu pai é pastor da Igreja Anglicana de St. Mark, protestante convicto, anglicano.
Ele parecia confuso.
— A sério? — perguntou ele de forma vaga.
Apenas o avançar das sombras fez com que Grace regressasse ao mundo real. Depois de concordar almoçar com Bear no dia seguinte no café Parthenon, Grace foi-se embora apressada, com o chapéu ainda na mão enluvada e o coração aos pulos.
Bear Olsen! Grace tinha consciência de que ele estava bastante abaixo do seu nível, mas não queria saber disso para nada. Bear dissera-lhe que era o tipo de homem famoso por ter várias namoradas e, no pior dos casos, várias esposas ao mesmo tempo. Sim, Bear era um indivíduo um pouco duvidoso, um caixeiro-viajante! Era difícil ser-se fiel quando o trabalho envolvia viajar de um lado para o outro num circuito muito grande que se repetia vezes sem conta, mas de forma muito lenta. Os caixeiros-viajantes eram bem-falantes e sempre sedutores para as mulheres, chegavam a ser conhecidos por conseguirem vender chamas no Inferno. O papá ficaria furioso se ficasse a saber de Bear, mas Grace não tencionava contar-lhe e muito menos à sua madrasta. Podia confiar nas irmãs, nunca contariam a ninguém, independentemente do que pensassem sobre o assunto. Para começar, Edda nunca consideraria Bear suficientemente bom. No entanto, nada disso importava… Grace sabia qual era o seu destino. Numa tarde apenas apaixonara-se por Bear Olsen e ia casar-se com ele. Oh, não era para já, nem seria sem a oposição dos seus pais. Mas ia casar-se com ele!
Bear era um homem da Perkins, o que tinha de contar para alguma coisa. Não era um Bear Olsen preguiçoso, com cabelo escorrido e colado à cabeça, e um bigode com a forma de uma escova de dentes, que vendia uma dúzia de collants de seda à mulher de um agricultor do interior! A Perkins produzia e vendia bálsamos, tónicos, linimentos, pomadas, loções, emolientes, laxantes, antissépticos, elixires, eméticos, pequenos comprimidos azuis para o fígado e pequenos comprimidos cor de malva para os rins, sabonetes e uma bebida salgada gaseificada que poderia ter um de dois efeitos: fazer o paciente vomitar tudo ou acalmar o estômago. Toda a gente comprava artigos do homem da Perkins. O linimento de cavalo e a pomada da Perkins eram muito eficazes e todas as casas tinham uma lata de pó salino da Perkins. As crianças gostavam do sabor do laxante da Perkins e era um produto muito popular, tendo em conta que a alternativa era o óleo de rícino. As avozinhas punham as mãos no fogo pelos comprimidinhos cor de malva e os avozinhos pelos azuis, enquanto toda a gente garantia o efeito maravilhoso do tónico, cheio de álcool e creosoto. Depois de trabalhar tanto tempo como enfermeira, até Grace sabia que só se chamava o médico em último recurso. Quando as pessoas se sentiam doentes, automedicavam-se, habitualmente com algo com o rótulo da Perkins. Era mais barato que o médico e quase sempre tão eficaz.
Bear contara a Grace que vinha dos subúrbios do lado ocidental de Sydney, de um local chamado Clyde, onde ficavam situados os estaleiros dos caminhos de ferro. Passara a sua infância a ouvir os sopros, os apitos e os uivos das locomotivas a vapor, mas o seu pai, um bêbedo incorrigível, nunca cortejou os sindicatos dos caminhos de ferro e, assim, a sua tribo de filhos tornou-se um bando de trabalhadores não qualificados, longe dos caminhos de ferro. Bear, o mais novo, estava determinado a sair de Sydney e respondeu a um anúncio do jornal para trabalhar como caixeiro-viajante para a Perkins.
O subgerente que o entrevistou era tão implacável quanto experiente e o que ele viu em Bear, presumiu Grace enquanto este contava a história, despertou-lhe o interesse, apesar das suas limitações académicas. Bear tinha um ar honesto, a sua aparência não assustava uma mulher sozinha em casa e arvorava uma certa autoconfiança, era generoso, sendo capaz de se oferecer a uma senhora para cortar lenha para o fogão. O que mais encantou aquele subgerente foi a aptidão de Bear com os carros, aliada a um jeito natural para os arranjar. O resultado? Bear ficou com o emprego.
Segundo o que Bear disse, nunca olhou para trás. Em primeiro lugar, porque descobriu que adorava vender. E também não estragou a oportunidade gastando mais do que o que a empresa lhe dava para despesas. Aos poucos, foi subindo na carreira, conseguindo circuitos cada vez melhores, foi-lhe dado o primeiro carro da empresa e um aumento do dinheiro para despesas, bem como vários aumentos de ordenado. Após cinco anos, encontrava-se no topo da carreira enquanto homem da Perkins na Nova Gales do Sul, e nos quatro anos que se seguiram continuou a ser o melhor vendedor de toda a Austrália e Nova Zelândia. Aos trinta, disse a Grace alegremente, estava bem na vida: tinha uma carreira segura e dinheiro no banco.
Era óbvio que ele se sentia atraído por ela, sobretudo porque os dois partilhavam aquela estranha obsessão por comboios a vapor. Ele também lhe fizera perguntas sobre a sua vida e ficara encantado ao perceber que Grace era de uma classe social superior à dele, o que significava que ela seria a esposa perfeita, que os seus filhos seriam educados como senhoras e cavalheiros e que as suas aspirações relativamente à educação escolar deles seriam elevadas. Restava agora saber como iria convencer a família de Grace a acreditar que ele era o marido certo, o único marido para ela?
Bear não perdeu tempo a discutir tudo com Grace assim que se sentaram numa mesa ao fundo do Parthenon. Ela pediu sanduíches de ovo com caril e ele, um bife com batatas fritas, tomate e cogumelos selvagens. Que maravilha! Ninguém reparou neles! Con Decopoulos, o proprietário, estava a servir os almoços e não havia nenhuma empregada de mesa metediça por ali.
— Eu sei que não estou à tua altura, Grace — disse Bear com seriedade, enquanto bebia chá e comia um gelado —, mas vou casar contigo. Não existe mais nenhuma mulher para mim, soube-o no momento em que soltaste aquele guincho junto à locomotiva C-38, que puxa o Espírito do Progresso. Depois vi o teu rosto: adorável! Tem de dar em casamento, e não aceito um não como resposta. — Ele segurou-lhe a mão. — Quanto mais cedo, melhor, minha querida. Amo-te.
Os olhos de Grace ficaram mais escuros com as novas e estranhas emoções que sentiu naquele momento, e olhou fixamente para o rosto de Bear, pálido como gelo, sem conseguir acreditar no que ele lhe dizia. Casamento?
Contudo, ele não tinha terminado. Enquanto falava com ela, acariciava a palma da sua mão com o polegar.
— Eu consigo vender qualquer coisa, minha querida. Nunca vou ficar sem emprego. Adoro vender os produtos da Perkins, porque são muito bons e posso ser honesto. Vender de forma honesta é tão importante para mim como a minha própria vida. Tenho duas mil libras no banco, o que é suficiente para comprar uma boa casa em Corunda e ainda sobrar dinheiro. Oh, não será tão requintada como o tipo de casa a que estás habituada e não poderíamos ter mais do que uma empregada de limpeza, mas eu vou subir na empresa, Grace, vou sim! Um dia, vais viver com todo o luxo.
Grace retribuiu a sua carícia com dedos trémulos.
— Oh, Bear! Como se algum tempo passado na tua companhia fosse difícil! Também o devo ter sabido, porque desde que te conheci ontem que não consigo pensar em mais nada e em mais ninguém, só em ti.
O rosto dele, decidiu Grace naquele momento, mergulhando na intensa paixão dos seus olhos, era vigorosamente belo. Ontem achei a cor do seu cabelo quase branco pouco atraente, demasiado estranha, mas hoje faz parte de mim, para sempre. As suas sobrancelhas pareciam congeladas, as suas pestanas brilhavam como cristal… de onde vinha aquela pele morena? E nunca vi olhos tão azuis, tão cativantes… O nariz dele é como o meu e o da Edda. Vamos ter filhos com características tão bonitas e vão ser altos. Oh, gémeos não, por favor! Apenas um casal, um menino e depois uma menina…
— Casas comigo? — insistiu Bear.
— Sim, meu querido Bear, claro que sim — disse Grace.
Com o rosto iluminado, Bear encheu-se de orgulho.
— Vamos voltar para o nosso banco no parque, mulher! Quero beijar-te.
Bear apressou-a, embora Grace não tenha dado conta do passo acelerado a que iam, com a cabeça a rodopiar e o coração a cantar. Pela primeira vez na sua vida, sentia-se idilicamente feliz e temeu que tudo terminasse. Bear amava-a, Bear queria casar com ela! A alegria era tão grande que chegava a doer, e o futuro apresentava-se à sua frente como um enorme nascer do sol róseo, demasiado glorioso para ser assimilado. Nunca mais vou estar sozinha: sou amada e amo! O que mais se pode querer da vida?
Não havia ninguém por perto. Afundaram-se no banco de madeira, virados um para o outro. Bear segurou a cabeça de Grace entre os dedos trémulos, olhando intensamente para os seus olhos sorridentes e incertos.
Em seguida, aproximou o seu rosto de tal maneira que Grace deixou de o conseguir ver. Grace fechou os olhos e esperou pelo toque dos seus lábios: frescos, macios, leves como uma pena. Depois do primeiro impacto, Grace moveu os lábios e começou a saborear as incríveis sensações de um beijo dado por alguém que amava e era amado. Foi como se nunca tivesse sido beijada por ninguém, era tão diferente, tão recíproco. Bear não abriu a sua boca antes de ela estar pronta, nem usou qualquer uma das técnicas que os outros rapazes pareciam convencidos de que as raparigas gostavam. O beijo tornou-se mais intenso e apaixonado com o empenho de Grace e o toque das suas mãos sobre os seus seios, apesar de cobertos pela roupa, foi eletrizante.
— Não vamos mais longe até te colocar a aliança de casamento no dedo — disse ele, afastando-a passados alguns minutos. — Nada é bom demais para ti, Grace, e não te vou desonrar.
Por uma invulgar coincidência, as suas três irmãs encontravam-se na sala comum quando Grace chegou. Ninguém estava a trabalhar no turno da tarde. Edda olhou para cima e ficou tensa.
— O vento apanhou-te outra vez, Grace — disse Edda.
Era uma velha expressão que tinham apanhado de uma das suas primeiras amas. Não conseguiam traduzi-la à letra, mas usavam-na sempre que uma delas se encontrava num estado de pura confusão, da mesma maneira que os animais ficam quando o vento sopra os odores dos seus inimigos sobre eles, todos ao mesmo tempo.
Grace desembuchou a sua novidade.
— Vou-me casar!
Até Tufts tirou os olhos do livro. Edda e Kitty ficaram boquiabertas, perplexas.
— Que disparate! — disse Tufts.
— Não, não, é verdade!
— Quem é o felizardo? — perguntou Edda em tom de brincadeira.
— Chama-se Bear Olsen e conheci-o ontem quando observava a plataforma giratória das locomotivas — respondeu Grace, e a sua exaltação começou a esmorecer sem que soubesse bem porquê.
— Ontem? — perguntou Kitty com uma terrível ênfase.
— Sim, ontem! Foi amor à primeira vista — disse Grace.
As outras três suspiraram.
— Grace, Grace, as coisas não acontecem assim! — exclamou Edda.
— Quando ele é o tal, sim, acontecem — insistiu Grace. — Ele é o tal, Edda, e eu vou casar com ele assim que puder!
— E que tal acabares o teu curso de enfermagem? — perguntou Tufts. — Assim, tens alguma garantia se as coisas não correrem bem, Grace.
— Eu odeio enfermagem! Só me quero casar com o Bear!
— A mamã nunca te vai deixar casar com alguém que ela não aprove — disse Kitty —, e pelo teu comportamento dá para perceber que esse tipo não é adequado para ti.
— Tenho vinte e um anos — disse Grace com um ar desafiador —, quem é que me pode impedir de casar com quem eu quiser?
— Não tens a coragem necessária — disse Edda friamente.
— Desta vez, vou ter! — declarou Grace, decidida. — Encontrei a minha alma gémea, Edda! Partilhamos o mesmo entusiasmo e ideais, já embarcámos juntos nesta viagem do destino! Digo-te com toda a sinceridade que vou casar com Bear Olsen, independentemente de quem se oponha!
— Como é que ele se chama? — perguntou Tufts.
— Björn Olsen. A família dele é sueca. Björn significa urso e é por isso que toda a gente o trata por Bear. Ele é um homem da Perkins, o melhor vendedor da empresa, e, apesar de não termos o mesmo estatuto social, ele é bem-sucedido. — Grace levantou o queixo e afirmou decidida: — Eu vou casar com ele!
— Não antes de dares às tuas irmãs a oportunidade de o inspecionarem — disse Kitty num tom afetuoso. — Vá, Grace, dá-nos uma oportunidade de conhecer esse Bear Olsen, por favor! Compreendo que aches que a mamã não o vai aprovar, mas talvez estejas a julgar o pai de forma demasiado precipitada. Ele não é um snobe, Grace, e, se gostar do teu homem, será um aliado valioso. Tens de trazer cá o Bear amanhã à tarde para tomar um chá connosco, quando nenhuma de nós está de serviço no segundo turno.
— Não o podemos convidar para vir cá! — disse Tufts, aturdida.
— Ah, não podemos? — perguntou Edda, levantando-se. — Vou falar com a enfermeira-chefe.
— Edda, não! — gritou Grace.
No entanto, era demasiado tarde: Edda já saíra e, com alguma sorte, encontrara a enfermeira-chefe com tempo para a receber.
— Sim, Latimer?
— Pode dar-me a sua permissão para convidar um jovem para lanchar na sala comum da nossa casa amanhã? Vamos estar as quatro presentes para o receber.
Não houve nenhuma explosão de raiva em resposta a este pedido; em vez disso, a enfermeira-chefe, sem qualquer expressão no rosto, indicou à sua suplicante uma cadeira vazia para se sentar.
— É melhor sentar-se, Latimer, e explicar-me este pedido verdadeiramente extraordinário.
— É por causa da minha irmã Faulding, enfermeira-chefe.
— Já se apercebeu de que ela não gosta de enfermagem?
Edda suspirou e encolheu os ombros.
— Sim, senhora.
— Está metida em problemas outra vez?
— Ainda não, mas temo que, se não a protegermos, ela vá arranjar um sarilho muito grave. E, quando digo proteger, quero dizer que as irmãs têm de se unir à sua volta para a ajudar a resolver um dilema — disse Edda, esforçando-se por ser o mais vaga possível. — A nossa madrasta tem ideias muito fixas, o que é obviamente louvável, e a situação que se desenrolou implica que nós, as irmãs, tenhamos de descobrir mais sobre o assunto antes de a nossa madrasta ser informada.
Edda estendeu as mãos, como que a implorar.
— Grace conheceu um jovem com quem quer casar, mas infelizmente ele não é de Corunda. Na verdade, é um itinerante, um caixeiro-viajante. Um homem da Perkins, respeitável, mas temos de conhecer este jovem e de descobrir mais sobre ele. Um chá na nossa casa, à tarde, seria o ideal.
— Permissão concedida — disse a enfermeira-chefe, antecipando uma resposta às suas dificuldades com Grace. — Vou informar a irmã Bainbridge.
— Que jovem extremamente sensível que a Latimer é! — disse a enfermeira-chefe à irmã Bainbridge durante o jantar em sua casa. — Veio falar comigo, que é precisamente o que ela deveria ter feito. É fundamental que as enfermeiras tenham medo de nós, mas é tão refrescante que algumas vejam por baixo disso tudo. E é também uma jovem muito inteligente. Não saiu dos seus lábios uma única crítica a Maude Latimer, contudo, consegui perceber perfeitamente a situação. É óbvio que o jovem não tem estatuto social aos olhos de Maude. Devemos fazer o que pudermos para ajudar, Marjorie, mesmo que tenhamos de pedir a ajuda do diretor. O nosso cozinheiro pode preparar scones, compota e natas?
Duas horas passadas na companhia de Bear Olsen apaziguaram as irmãs em relação a esta mudança repentina na vida e no bem-estar futuro de Grace. Que ele a amava, era óbvio, e também não era um simples caixeiro-viajante preguiçoso, o que era igualmente importante. Era um autêntico homem da Perkins, o melhor nos antípodas, com uma carreira promissora, duas mil libras no banco e amigos em cargos de gestão importantes. Não bebia e seria um bom marido para Grace; as suas três irmãs terminaram a entrevista convencidas disso.
— Vou continuar neste circuito pelo menos mais uns cinco anos — explicou ele, tendo devorado os scones com compota e natas do cozinheiro das irmãs, um sinal da generosidade e aprovação da enfermeira-chefe que espantara os seus destinatários. Talvez se encontrasse um ser humano por baixo daquele icebergue. Um pensamento chocante e muito estranho. — Por essa razão — continuou Bear —, ainda não queria desenraizar Grace de Corunda e da sua família. Encontrei uma casa decente em Trelawney Way, o que significa que tem água canalizada e esgotos. Consigo ficar com ela por mil e cem libras, em dinheiro.
— Nada mau por uma casa com água e esgotos — disse Edda.
— Uma construção muito boa, Edda, honestamente! O telhado está revestido com alcatrão, as paredes interiores têm reboco e a sanita está numa divisão separada da banheira. O chão é todo de madeira e as janelas estão devidamente isoladas, pode-se até instalar facilmente rede para não deixar entrar moscas e mosquitos em casa.
— Isso é tudo muito bom — admitiu Edda. — E a mobília? Quantos quartos tem a casa?
— Três, e ainda me sobra dinheiro da compra da casa para Grace escolher a mobília de que mais goste — disse Bear, desconfortavelmente consciente de que tinha de se sair bem neste encontro se queria casar com a sua adorada Grace.
Grace ouvia a conversa, ansiosa, mas não disse uma única palavra, por puro terror, desconfiava ele. Bear reparara que as irmãs de Grace tinham tendência para a intimidar.
— Trelawney Way fica no itinerário do homem do gelo, outra coisa boa. Grace pode ter uma caixa de gelo. Isso é muito importante para os miúdos.
Miúdos? Três pares de olhos pousaram nele.
— Espero que tencionem limitar o tamanho da vossa família ao número de crianças a que puderem proporcionar uma boa educação — disse Tufts num tom severo.
— Acreditem em mim, os meus filhos serão bem-educados — prometeu Bear.
Grace acompanhou-o até aos limites da propriedade do hospital, deixando as outras três a discutir a situação.
— A mamã nunca vai abençoar esta união — disse Kitty desolada.
— Que disparate! — contestou rapidamente Edda — Só temos de lidar com Maude da maneira certa. O que significa que vamos ter de falar com o papá. É a questão do estatuto social que vai incomodar Maude, por isso temos de argumentar muito bem que um homem da Perkins não tem nada que ver com os vendedores duvidosos de remédios malucos e roupa interior feminina vulgar. Por outras palavras, asseguramos o apoio do papá para retirar Bear da categoria malvista de caixeiros-viajantes. Ao menos, ele não é assustador! Tem um ar muito respeitável, conduz um Modelo T novo e o nosso gestor bancário não poderá fazer troça dele. Na minha opinião, acho que a Grace escolheu muito bem.
— Concordo — disse Kitty —, e é o que vou dizer à mamã.
— Eu também — concordou Tufts. — Bear é o homem ideal para Grace. Eles até se conheceram numa gare enquanto admiravam locomotivas. Não é estranho? — Tufts riu-se. — Os bebés deles vão alimentar-se de carvão em vez de leite e apitar em vez de chorar.
— E qual é o problema? — quis saber Grace ao entrar na sala.
— Nada, minha querida, nada — disse Kitty. — Como vamos conseguir sacar um casamento à mamã?
— Eu não quero um casamento — disparou Grace secamente. — Não quer dizer que não vá usar um vestido branco e levar um ramo de flores, mas não quero confusões, como copo-d’água e discursos. Bear não tem família ou amigos próximos suficientes para encher um lado da igreja e não o vou fazer passar por essa vergonha. Assim, quero que o papá nos case com discrição, depois vou acompanhar Bear no seu próximo circuito, em vez de irmos de lua de mel.
Grace estava a transbordar de entusiasmo, nem mesmo a perspetiva da sombra de Maude Latimer tinha o poder de afetar a sua felicidade.
As quatro decidiram que seria Edda a mencionar o assunto do casamento de Grace ao reverendo Thomas Latimer e à sua esposa, e que o faria no início das suas próximas folgas.
Se Maude e o pastor ficaram surpreendidos por verem a sua filha mais velha, não o deram a entender e convidaram-na para almoçar.
— Não compreendo qual é o encanto da enfermagem — disse Maude, cujo sentido de autopreservação lhe dizia que Edda se tornara imune aos seus comentários e observações sarcásticas de outrora. Uma jovem confiante com uma indubitável consciência do seu próprio valor. Maude sentiu-se insignificante ao perceber que as raparigas, ao irem estudar enfermagem, a tinham superado em carácter, resolução e admirabilidade. Tudo sensações de que Maude não gostava.
— A enfermagem dota aqueles que realmente gostam do que fazem com um verdadeiro propósito — disse Edda, apreciando a comida do presbitério comparada com a do refeitório das enfermeiras. — Como é que a cozinheira consegue fazer uma shepherd’s pie tão deliciosa, madrasta? Os cozinheiros do hospital não a sabem fazer.
— Não faço ideia — retorquiu Maude com altivez. — A mim só me compete colocá-la na ementa todas as semanas.
— Isso é o que a irmã que governa a cozinha faz, mas os resultados são bem diferentes. — Os invulgares olhos de Edda procuraram os do seu pai e fitaram-no. — No entanto, Grace não gosta de enfermagem.
Maude suspirou.
— Hum! Porque será que isso não me espanta? A tua irmã gémea, Edda, é um caso perdido.
Edda riu.
— Esse comentário não me afetou, se era esse o seu objetivo. Contudo, indica que não se vai importar muito se Grace desistir da enfermagem para se casar com outro caso perdido.
Maude ficou tensa.
— O que queres dizer com isso?
— A senhora ouviu-me. Grace está prestes a casar com um homem da Perkins, um jovem simpático e muito apaixonado por ela. Foram feitos um para o outro, papá.
— A Grace não vai fazer tal coisa! — Maude virou-se para o pastor, que até àquela altura não fizera nenhum comentário sobre o comportamento de Grace nem deixara os seus pensamentos transparecerem. — Tom, não podes ficar calado! A Grace não vai casar com um caso perdido!
— Já tinha percebido isso com o que Edda nos explicou — disse o pastor calmamente, limpando os lábios com um guardanapo. — És demasiado dura com as pessoas, sobretudo com aquelas que estão mais próximas de ti e de quem gostas mais, Maude, e confesso que isso me assusta. Tenho a certeza de que um homem da Perkins não é um caso perdido, a tua despensa está cheia de produtos da Perkins, incluindo aquele creme de rosto que te deixou tão entusiasmada. — Thomas sorriu para Edda, um sorriso rasgado. — E tu, claro, és o soldado batedor, Edda?
— Sim, papá. O noivo de Grace chama-se Björn Olsen, mas todos o tratam por Bear. Dinheiro no banco, melhor vendedor da Perkins e completamente apaixonado pela Grace. Quer conhecer-vos assim que possível, pois não querem um noivado longo.
— Ela está grávida! — gritou Maude, rangendo os dentes.
— Não, não está! Que mente perversa que a senhora tem, madrasta!
O reverendo pousou o garfo e a faca em cima do prato, fazendo bastante barulho. Os seus doces olhos cinzentos brilharam.
— Para com isso, Maude! Se não consegues dizer nada de agradável, fica calada! Porque tens de ser tão maldizente?
Fascinada, Edda desviou os olhos do pai para a madrasta, e de volta para o pai. A brusquidão na voz do seu papá era novidade para ela… será que viver sozinho com Maude era um tormento assim tão grande?
— Vou receber o meu potencial genro amanhã ao meio-dia — disse o pastor a Edda —, e a Grace pode aparecer no presbitério ao meio-dia e meia. Maude, quero um almoço especial.
— Ela não está grávida, papá, mas sei que num futuro muito próximo vão existir netos para abraçar — disse Edda, com os olhos a dançar de um lado para o outro. — Estou feliz por ela porque o Bear nunca a vai desiludir e vai sempre cuidar dela.
Quase incapaz de acreditar que o pastor a tivesse repreendido (ainda por cima, em frente de Edda!), Maude Latimer passou o resto do almoço em silêncio, convencida de uma coisa: Grace iria pagar por isto. Na verdade, todos iriam pagar.
A enfermeira Grace Faulding-Latimer aguentou quinze meses como estagiária de nova geração e desistiu para se casar.
Foi um casamento pequeno, com apenas três convidados da parte do noivo, todos homens da Perkins, e a família e os amigos mais próximos da noiva. Casaram no início de julho de 1927, a meio do inverno, e o feliz casal teve uma lua de mel pouco convencional, mas muito educativa. Grace acompanhou Bear no seu circuito de vendas da Perkins pelo sudoeste da Nova Gales do Sul. Quando o circuito terminou, Grace não invejava muito a sina de Bear. Encantada com a ideia de ter casa própria, mudou-se para a casa que Bear comprou em Trelawney. Apesar de apenas Bear saber, Grace estava grávida.
Edda não fazia ideia do quanto lhe ia custar estar separada da irmã, visto que nunca tinham estado afastadas nos seus vinte e dois anos de vida. Pondo de parte as suas semelhanças físicas, Edda e Grace eram muito diferentes do ponto de vista temperamental e mental e não possuíam quaisquer características em comum das que geralmente são atribuídas aos gémeos idênticos. Muitas foram as vezes, pensava Edda agora, em que amaldiçoara Grace por andar sempre atrás dela, por não ser mais divertida, mais alegre e melhor companheira de equipa, pelo menos para uma menina ativa e mandona como Edda era. Não, Edda era sempre obrigada a assumir a liderança, e Grace compelida a segui-la. E agora que Grace já não estava por perto, Edda deu por si a sentir-se completamente destroçada.
— Quem me dera nunca ter pensado em Grace como um tumor maligno e inoperável — disse ela a Tufts, com quem se dava melhor do que com Kitty —, mas não posso negar que ser gémea de Grace fazia-me sentir que tinha um tumor. Agora, Hímen, deusa do casamento, separou-me deste tumor como um cirurgião implacável.
— Bem, minha querida, estás à deriva — disse Tufts com ternura. — Vai demorar algum tempo até te habituares a estar sem a Grace.
— Não percebes! — gritou Edda. — Sempre pensei que ia ficar felicíssima da vida por perder Grace.
— Sim, da mesma maneira que eu me vou sentir quando perder a Kitty, mas o meu senso comum diz-me que vou sofrer muito com a sua ausência. Tal como eu, Edda, também tu tens senso comum. Como poderia não ser uma mágoa colossal perder a nossa outra metade?
Edda suspirou de alívio.
— Como, de facto?
— Pelo menos eu e a Kitty compreendemos, não te esqueças disso.
Edda tentava lembrar-se disso, mas testemunhar a cumplicidade que as unia todos os dias só a fazia sentir a sua perda ainda mais. Não é que não existissem vantagens. A mais importante para Edda fora o surto de independência repentina do seu pai em relação a Maude, tão evidente que muita gente começou a reparar nisso com algum espanto. Não que tratasse a sua segunda esposa com menos respeito, mas a sua condescendência cega desaparecera. Demasiado superficial para refletir sobre o seu comportamento, Maude culpava o murchar da sua beleza pela nova atitude do reverendo e apressou-se a passar os três meses seguintes num sanatório nas Montanhas Azuis para fazer uma dieta, exercício e desabafar com pessoas conhecidas como «alienistas». Não poderia ter tomado uma pior decisão, pois acabou por estar ausente da vida do reverendo numa altura em que o primeiro casamento de uma das suas filhas o fez pensar que estava a ficar velho. A vida sem Maude, descobriu ele, era muito agradável: podia comer o que queria ao pequeno-almoço, escolher os hinos para o coro cantar, escrever os seus próprios sermões e visitar os membros mais carenciados da sua paróquia, e consequentemente os menos importantes para Maude, as vezes que quisesse. Quando Maude regressou do seu tratamento de saúde, o pastor recusou-se a abdicar destes hábitos. Parecia que os seus ouvidos tinham deixado de ouvir.
— É o que a madrasta merece — disse Edda alegremente a Jack Thurlow quando se encontraram no trilho equestre e desmontaram dos seus cavalos para «terem uma conversa como deve ser», como Jack dizia.
Não se encontravam muitas vezes. O curso de enfermagem não lhe deixava muito tempo livre, o que era bem diferente da altura em que as quatro irmãs tinham pouco que fazer para além de algumas tarefas domésticas para Maude. A enfermagem implicava uma tamanha exaustão física que fazia com que ir ao cinema ou, no caso da Edda, montar a cavalo fosse um esforço demasiado grande.
Edda ficou bastante divertida ao descobrir que Jack Thurlow não gostava da sua despromoção a, como ele costumava dizer, «algo prático que se guarda no armário e só se tira de lá quando apetece. Não sei porque é que imponho a minha presença».
O divertimento interior transformou-se em gargalhadas ruidosas. Edda não conseguia parar de rir.
— Oh, Jack, cresce! Tens mais onze anos que eu, mas comportas-te como um menino pequeno a quem a irmã mais velha roubou o brinquedo preferido. Eu agora trabalho para viver, e «trabalho» é mesmo o termo certo. Nada me dá mais prazer do que andar a cavalo contigo, mas não costumo ter tempo ou energia. Percebes?
— Quando começaste a estudar enfermagem, tinhas a ideia fixa de que os passeios a cavalo te ajudariam a lidar com a pressão, mas a verdade é que estás a exercer há imenso tempo e cada vez passeamos menos. O teu pai usa a Fatima para puxar a charrete de Maude, só para que a pobre criatura faça algum exercício.
Edda ficou boquiaberta, mas acenou com a cabeça em concordância.
— O papá tem razão, eu sei que não aprovas que os cavalos de montar estejam presos com arnês, e eu lamento. — O seu rosto arvorou a sua expressão mais sedutora. — O problema é que eu adoro montá-la sempre que posso e, se ela voltar para ti, deixo de ter essa oportunidade. É assim tão prejudicial para a Fatima puxar a Maude numa charrete levezinha? Eu sei por que razão me deste a Fatima, ela é uma égua burra, mas, ao mesmo tempo, muito calma. Maude até a treinou para puxar as aparas de relva e arbustos para o contentor do adubo.
Jack esboçou um sorriso forçado, que aos poucos se abriu.
— É pena que sejas mulher, Edda. Tens um político de qualidade dentro de ti.
— Então, só me resta casar com um político de qualidade — disse ela, sem dar grande importância ao comentário.
— Vem até minha casa, vamos beber um chá e comer um scone — disse ele, tentando convencê-la. — Sempre é mais confortável que as margens do rio.
Edda levantou-se de um pulo.
— E muito menos público — disse ela, montando Fatima, que era uma égua perfeita para todas as ocasiões, embora relutante em acatar ordens em todas elas. A sua burrice contribuía para que assim fosse.