Agridoce

Colleen McCullough · Capítulo 7 de 7 · parte 1/3

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Agridoce

PARTE SEIS: Cortar a Cabeça

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

PARTE SEIS

CORTAR A CABEÇA

À medida que a Depressão piorava, também o governo ia de mal a pior, sobretudo o governo federal em Camberra. Agora primeiro-ministro da Nova Gales do Sul, Jack Lang recusou-se a pagar os juros do Estado sobre os empréstimos, obrigando Camberra a pagar no seu lugar. Depois, quando Camberra exigiu a restituição do dinheiro, Lang recusou. O Partido Trabalhista federal estava em risco, dividido em fações irreconciliáveis; o primeiro-ministro da Austrália, James Scullin, voltou a nomear o seu alegadamente desonesto tesoureiro, o que levou Joe Lyons a demitir-se, primeiro do seu ministério e, em março de 1931, do Partido Trabalhista. Já bastante debilitado, o Partido Nacionalista conservador acabou por sucumbir e nasceu um novo partido político, o Partido Unido da Austrália, liderado por Joe Lyons, que defendia a continuação da contenção de despesas. Uma nova eleição garantiu a vitória do Partido Unido da Austrália e Joe Lyons tornou-se primeiro-ministro.

Não era a altura ideal para lançar uma nova carreira! Por isso, Charles Burdum continuou a escrever nos seus livros de exercícios e a esboçar uma constituição para um partido político verdadeiramente novo. O casamento da sua cunhada com Sir Rawson Schiller em novembro-dezembro de 1931 parecia uma espécie de mau presságio espiritual para Charles, embora ele ainda não tivesse decidido se por causa do seu próprio casamento ou pelo facto de Schiller ser maior que ele em todos os aspetos. Quem poderia alguma vez imaginar que Edda apanharia um Schiller?

Parecendo um guaxinim (graças a Deus que este não era nativo da Austrália), Charles viu-se obrigado a ausentar-se do hospital durante todo o mês de dezembro; refugiou-se na sua biblioteca a encher livros de exercícios com a sua filosofia política. A meio do seu curso, Tufts era praticamente capaz de gerir o hospital sozinha. O que ele se recusava a admitir era que o insulto em si inclinava a balança a favor do autoexílio: se ouvisse Liam Finucan cantar «Dois Lindos Olhos Negros» mais uma vez, ia gritar!

Com o casamento em farrapos devido às perversas irmãs da mulher, a sua mente movia-se em círculos cada vez mais pequenos, estando no seu centro a questão ridícula sobre para quem a lealdade da esposa deveria ir e a da sua não ia. Os boatos por todo o distrito irritavam-no tanto que era preferível esconder-se em casa do que sair para o meio de uma floresta de línguas mexeriqueiras e tagarelas. É óbvio que culpava Grace e as funcionárias do orfanato pelos mexericos; nunca lhe ocorreu por um instante que a verdadeira origem destes fosse o seu empregado importado, Coates, cuja língua era mais afiada e ativa do que a de qualquer outra pessoa. Oh, que dor! Esperava-se que ele, Charles Burdum, se ajoelhasse perante Kitty e implorasse uma noite na sua cama, como se ela, legalmente, não tivesse feito votos de passar todas as noites na sua cama. E visto que ele não era, nem de longe nem de perto, um Soames Forsyte, só lhe restava ficar em lume brando, com cuidado para não ferver, e acrescentar novos registos à sua lista de rancores. A sua esposa era sua, as prioridades dela já não eram as da sua infância.

O reverendo tentou.

— Charles, meu caro amigo, és o príncipe dos maridos — disse o senhor Latimer durante uma visita à Casa Burdum —, mas receio que o teu conhecimento sobre mulheres em geral, e esposas em particular, não esteja ao nível desta questão. Nós existimos no reinado de Jorge V, não da rainha Vitória, e os homens têm de mudar a forma como pensam a questão das esposas. As velhas leis foram, ou vão ser, revogadas para dar às mulheres um estatuto igual no casamento. Um indicador da mudança é a facilidade cada vez maior em conceder o divórcio às mulheres queixosas e a ocasional atribuição de um rendimento pós-conjugal. Embora os juízes tenham tendência para o evitar. Quaisquer que sejam as tuas opiniões pessoais, não podes expressá-las por aí para todos ouvirem. Eu percebo que as tuas palavras sobre Edda tenham resultado de um estado de nervos, uma explosão de temperamento… Edda foi um instrumento que usaste para magoar Kitty. No entanto, o elo que existe entre as minhas filhas já vem do berço. O que disseste é uma mentira e Kitty reagiu a uma mentira.

Agora cor de caqui, os olhos de Charles fixaram-se em Thomas Latimer num misto de afeto e exasperação.

— O Tom constrói uma frase como se estudasse ao pormenor e analisasse a questão dentro da sua cabeça antes de proferir uma única palavra, e eu ouvi o que disse. Mas não me convence. Kitty tem de aprender a quem deve ser leal! As suas irmãs deviam ocupar… bem, senão um lugar pouco relevante na sua vida, pelo menos um lugar secundário.

O reverendo desistiu.

— Se ainda estás cego em relação a isso, Charlie, não vais ganhar esta batalha, porque simplesmente não és capaz. Deixa Kitty conviver com as irmãs e não esperes que elas ou Kitty ajam para te agradar. — Thomas colocou o chapéu na cabeça e pegou na bengala. — Lembra-te de que és tu o intruso! Não o digo de uma maneira depreciativa, mas tu és um segmento de tempo na vida dela. Há muitas coisas que não compreendes porque não estavas aqui.

Ele não conseguiu evitá-lo; Charles sorriu com ar de gozo.

— A famosa cobra na festa de chá? Talvez o verdadeiro significado desse incidente seja o facto de Edda ter uma verdadeira afinidade com cobras.

O reverendo Latimer dirigiu-se para a porta.

— A política — disse ele, abrindo-a — pode dividir as pessoas tão facilmente como a religião. A tua intransigência, genro, tem por base algo tão meretrício quanto repelente. Bom dia.

Sentindo-se como se tivesse perdido este encontro, mas tendo a certeza de que, por direito, o devia ter ganhado, Charles regressou ao trabalho com um péssimo humor.

 

Kitty ia receber Tufts e Grace para tomar chá na suíte lilás, sem saber que o seu pai invadira a parte de Charles da casa.

Quando Tufts entrou, Kitty ficou sem fôlego. Vestida com a sua roupa habitual, Tufts parecia extremamente bem na vida, mas não arrogante, porém não podia existir qualquer dúvida em relação à importância desta figura pequena e impressionante, com o seu vestido de tweed matizado feito por medida, o cabelo apanhado num coque solto que ondeava, cada movimento pensado, subtilmente intencional. A sua boca tomara a forma de uma flor, que ainda lembrava o botão, e os olhos cor de âmbar permaneciam inabaláveis, tão austeros e francos. Kitty sentiu vontade de chorar… porquê, não sabia, exceto pelo facto de a sua irmã gémea ter chegado tão longe.

A viúva Olsen entrou despreocupada, rainha de Trelawney, desde o seu elegante chapéu preto de abas largas, feito por si, até ao seu único par de meias de seda cerzidas com primor. Encontrara na viuvez a sua vocação, pois o que lhe parecera em tempos ridículo era agora nobre, e a sua beleza aumentara imenso. O cabelo negro tinha várias riscas fininhas brancas e caíam sobre os ombros com uma obediência natural; começara a escurecer as pestanas grossas com rímel para realçar o cinzento dos olhos, e a sua linda boca estava tingida de um vermelho sumptuoso, que atraía todos os olhares. Edda dera-lhe a maquilhagem, e ela não fora demasiado orgulhosa para a aceitar. A sua magreza atenuara-se nos locais que mais a favoreciam, e tornara-se uma costureira suficientemente boa para fazer roupa que lhe assentava muito bem. Não admirava que Jack Thurlow ainda se mantivesse por perto a arranjar a porta da capoeira ou a plantar batatas!

— A decoração cor de malva fica bem com os teus olhos, Kits — disse Tufts, sentando-se.

— Pergunto-me por que razão — refletiu Grace, sempre em contacto com as pessoas vulgares — os snobes insistem em chamar lilás à cor de malva? Essa cor é, sem dúvida alguma, a cor da classe trabalhadora, enquanto o lilás é preferido pelas pessoas mais finas.

— Que se lixe isso! — disse Tufts, provando assim que o cargo de diretora encorajava uma língua mais afiada. — Charlie já cedeu, Kits?

— Não sei… e, mais importante ainda, não me interessa.

— Ele está roído de inveja — disse Grace, metendo na boca um pedaço de bolo recheado com compota de morango e natas. — Oh, isto é bom!

— Come à vontade, rapariga. Sim, receio que Charlie seja muito ciumento.

— Ama-lo? — perguntou Tufts.

— Sim… e não — respondeu Kitty.

— Eu sei qual é o problema — disse Grace, já noutro pedaço de bolo.

— Qual é? — perguntaram as irmãs em coro.

— Meteste na cabeça que Charlie não é capaz de gerar bebés saudáveis.

Nem Kitty nem Tufts responderam; em seguida, Tufts serviu-se de mais chá, admirando a porcelana de Rockingham enquanto o fazia.

Por fim, Kitty suspirou.

— Sim, é isso que eu acho — respondeu ela.

— O que disse o doutor Ned Mason? — perguntou Tufts.

— A mesma coisa de sempre. Não existe razão física.

— Estás a pensar deixar o Charlie? — perguntou Grace. — Ele está com um aspeto terrível, mesmo sem contar com os dois olhos negros.

— Ele sabe que eu gosto mais de estar com os órfãos do que com ele, imagino — disse Kitty.

— Não tens qualquer lágrima nos olhos, Kitty.

— Não sei o que aconteceu, ao certo, exceto que é muito difícil viver com um homem tão possessivo. Como pode ele ter ciúmes das minhas irmãs? Mas a verdade é que tem, e eu começo a não gostar dele por causa disso — disse Kitty, sem lágrimas, mas perturbada. — Os poucos amigos casados que tenho dizem-me que isto é apenas uma fase pior, que o casamento tem altos e baixos… e eu até acreditaria nisso, não fosse o facto de perder sempre os meus bebés. Não sei mesmo como explicar, meninas.

— Atrevo-me a dizer que ela não sabe explicar — disse Grace a Tufts, enquanto desciam a Catholic Hill. — No entanto, eu sei.

Tufts estava a conduzir o Modelo T do hospital e lançou um rápido olhar de lado à irmã.

— Eu sou uma solteirona habituada a viver assim, minha querida Grace, por isso é melhor explicares como se eu fosse idiota.

— É simples — respondeu Grace, recorrendo ao seu fundo de conhecimentos sobre o estatuto de casados. — A Kitty deixou de gostar de Charlie.

— Deixou de gostar?

— Exatamente. Acontece. Oh, não frequentemente, mas acontece. A intimidade é uma coisa engraçada — continuou Grace como se fosse a própria voz da experiência —, e nem o homem nem a mulher sabem o que lhes vai acontecer quando começam a viver juntos, de forma íntima, como um casal. Quero dizer, coisas como os hábitos pessoais ou a invasão de certas privacidades… será que ele te vai deixar vê-lo fazer chichi, ou será que tu vais deixá-lo chupar o teu mamilo? Como será que se vão sentir quando se despirem à frente um do outro? Se ele tiver uma hemorroida, vai deixar-te dar uma vista de olhos? Oh, e por aí em diante! E isso é só em relação ao corpo. Será que te esqueceste e deixaste a tua toalha manchada de sangue à vista? E em relação à política, hã? E à religião? Um gostinho especial pela garrafa? Os homens odeiam esposas que os confrontam em frente dos amigalhaços. A intimidade é uma coisa muito complicada, Tufts. E, por vezes, uma das partes do casal deixa de gostar da outra. As pessoas de fora nunca saberão porquê. É óbvio que eu não sei por que razão Kitty deixou de gostar de Charlie. Tudo o que sei é que deixou mesmo. — O seu tom de voz baixou para um murmúrio conspiratório. — Uma coisa te posso dizer: provavelmente nem Kitty sabe porquê. Não caias no queixume de o-Charlie-não-consegue-fazer-bebés, é uma treta absoluta. Não foi por essa razão que ela deixou de gostar dele.

— Valha-me Deus! — disse Tufts, sem forças. — Tu surpreendes-me, Grace. Não há nada que possamos fazer?

— Apenas ficar por perto para apanhar os pedacinhos que caírem, Tufts, só isso.

 

A eleição federal agendada para 19 de dezembro de 1931 não incomodava Charles, pois não planeava candidatar-se. Naquela altura, Charles ter-se-ia declarado um independente, com liberdade para votar como quisesse em todos os assuntos. No entanto, Kitty não era propriamente a mulher política no verdadeiro sentido da palavra, apenas uma ajudante leal: oh, mas uma ajudante bem informada e politicamente empenhada!

Assim, sozinho e achando-se um asno, Charles foi à escola pública de East Corunda no dia 19 de dezembro para votar.

— Doutor Burdum?

Hesitante em frente dos degraus da entrada da escola, deu por si a olhar para um rosto longo e vagamente parecido com o de um cavalo. Os seus olhos pálidos eram de tal forma penetrantes que mais pareciam que iam rebentar, a estrutura óssea do seu rosto era normal à exceção de um maxilar superior saliente, que obrigava os seus dentes a saírem o suficiente para dar azo ao surgimento de imagens equinas quando a descreviam. Vestida com roupa horrível, sem qualquer gosto, o seu corpo magro estava numa posição de muda interrogação, reforçada por um bloco de notas e um lápis.

— Eu sou Charles Burdum — disse ele com um sorriso de estrela de cinema.

— O meu nome é Dorcas Chandler e trabalho para o Corunda Post. Importa-se que lhe faça algumas perguntas? — perguntou ela com um tom de voz suave e melodioso que lhe assentava de forma tão estranha como o seu nome ou aqueles olhos contraditórios.

— Trabalha recentemente para o Post, senhora Chandler?

— Sim, este é o meu primeiro trabalho para o Post. Antes estava ao serviço do Telegraph.

— Posso votar primeiro? — perguntou ele, ainda a sorrir. — Depois de fazer isso, posso dar-lhe toda a atenção.

— Com certeza. Podemos encontrar-nos lá fora, por baixo do eucalipto.

— Com certeza!

O eucalipto era uma árvore nobre, que abrigara do sol cinquenta anos de crianças daquele modo ténue e mosqueado típico das árvores australianas, incapazes de produzir uma sombra densa; a roupa dela em tons de verde e preto sobressaía contra a casca da árvore ligeiramente acetinada e creme, como uma cicatriz deixada por um relâmpago. Será um presságio?, pensou ele à medida que se aproximava da senhora Dorcas Chandler. Será ela um mau agouro para o meu futuro? Porque ela vai ser importante, vai lançar um raio de destruição em alguma parte da minha vida… ideais, esperanças, medos, planos… não sei mesmo.

— Esperava-se que o senhor se candidatasse a este cargo — disse ela.

— Eu tinha ambições, é verdade, senhora Chandler, mas este ano foi pautado por tanta confusão política dentro dos grandes partidos políticos que acabei por decidir que a altura não era a mais acertada — disse ele com jovialidade.

— Oh, não creio que o seu motivo tenha sido assim tão linear — continuou ela, encostando-se contra o enorme tronco da árvore.

Charles pestanejou.

— Desculpe?

— O doutor Burdum anda à procura de uma nova filosofia política que sirva os interesses da Austrália, e está a ser uma tarefa mais difícil do que esperava.

— Então, vamos arranjar um lugar para nos sentarmos, Dorcas, mas não aqui, entre as formigas voadoras. Posso tratá-la por Dorcas? Vai ser minha amiga, não vai? — perguntou ele com a mão por baixo do cotovelo dela e consciente de que, para o fazer, tinha de levantar bastante o braço. A senhora Dorcas Chandler tinha um metro e oitenta, descalça. — Café no Parthenon?

Ela riu.

— Com todo o gosto, doutor Burdum.

— Charles! O meu nome é Charles! Não Charlie, mas Charles.

— Doutor Burdum — disse ela, baixinho —, o senhor não é nem nunca será um Charlie.

O café tornou-se um almoço; Charles não se importava, tão absorto estava no que esta mulher tão extraordinária tinha para dizer. Até que enfim! Encontrara, por fim, a sua conselheira política, a sua ajudante.

Quando expressou os seus receios relativamente a Rawson Schiller, Dorcas resfolegou.

— Ele tem mais vocação para a administração pública ou a diplomacia, Charles, não é um político. É demasiado rico e demasiado bem-nascido para liderar qualquer ministério, até mesmo o dos Negócios Estrangeiros, por isso tem de enfrentar o seu dilema por caminhos tortuosos, por assim dizer. Quero dizer, tornar-se ministro do governo. Nessa altura será o chefe dos funcionários públicos e poderá começar a fazer as suas mudanças. No entanto, acaba por ser prejudicado pela fragilidade dessa abordagem… quer dizer, nos períodos em que o partido está na oposição e não tem poder.

— Não é isso que eu estou a insinuar? Que ele tenciona ser primeiro-ministro? — perguntou Charles, sem expressão.

— Oh, céus, não — disse a senhora Chandler. — Schiller é um homem muito inteligente e antecipa todas as dificuldades. O que, na verdade, é bastante invulgar num advogado. Quem o Charles devia manter debaixo de olho é um jovem, também de Melbourne, chamado Robert Gordon Menzies. Um advogado com as características certas para liderar um partido político. Menzies tem tendências conservadoras, mas não as manifesta de forma ultrajante e tem um grande interesse pela legislação social. Aos vinte e cinco anos ganhou no Supremo Tribunal da Austrália um caso para a Amalgamated Society of Engineers… um caso histórico! Desde essa altura, nunca mais olhou para trás, e isso foi em 1920. Também é um homem extremamente atraente, com a exceção de que passa demasiado tempo à mesa… nota-se quando se olha para a sua barriga.

— Menzies — disse Charles, pensativo. — Sim, é claro que já ouvi falar dele, mas toda a gente se foca em Schiller.

— Schiller tem um calcanhar de Aquiles. Não sei o que é, mas ele tem um — disse a senhora Chandler, sensatamente.

Um plano formava-se agora na cabeça de Charles, mas primeiro tinha de descobrir mais sobre a senhora Dorcas Chandler. Por esta altura, o movimento da hora do almoço passara e Con Decopoulos tinha tempo livre suficiente para cismar sobre este par bastante peculiar… Charles Burdum com uma mulher de trinta anos, que bem poderia ser a imagem de um póster para uma instituição de caridade em prol de crianças desfavorecidas? Como arranjavam tanto assunto para conversarem de forma tão animada durante tanto tempo? Ela tinha um bloco de notas, mas não escrevera nada nele, e os seus pálidos olhos azuis estavam fixos em Charlie como se ele fosse o príncipe encantado em pessoa. Bem, isso era de esperar! Um bom número de mulheres menos bem-parecidas em Corunda olhava para Charlie da mesma maneira. A diferença era que, normalmente, Charles fugia a sete pés, não ficava a conversar durante várias horas.

Também não demorou muito até Charles saber o que queria, pois Dorcas Chandler estava demasiado ansiosa por lhe contar a sua pequena história. Com origens no que Charles gostava de chamar «classe trabalhadora com pretensões sociais mais elevadas», Dorcas tinha exatamente trinta e cinco anos e obtivera boas notas a nível académico; até tivera a melhor classificação do Estado a inglês, segundo ela. Graças ao apetite voraz da Grande Guerra por homens, ela fora aprendiz de jornalismo no próspero império de notícias de Ezra Norton, mas no final de 1920 a sua sorte entrou em declínio. Os homens, agora completamente desmobilizados, tinham-na empurrado das notícias mais interessantes para o inevitável mundo jornalístico das mulheres: sociedade, estrelas de teatro e cinema, moda e a ocasional história comovente. Em seguida, pouco tempo depois de ter começado a trabalhar para o Sydney Daily Telegraph, a Grande Depressão deixou a família Chandler sem nada; Dorcas foi a única que manteve o emprego. O Telegraph mandava-a para exposições de flores, bailes, desfiles de moda, exibições de gatos e eventos de caridade. Visto que era muito boa a cobrir este tipo de eventos, tornou-se motivo de chacota: os seus colegas chamavam-na «o terror que acertou em cheio». Dorcas estava de tal forma vulnerável aos encantos de Charles que até lhe falou desta terrível alcunha!

Porque as mulheres recebiam bem menos que os homens, quando Tom Jenner morreu, o Corunda Post anunciou que procurava uma mulher para o substituir; pouco importava o aspeto da senhora Dorcas Chandler, visto que as suas reportagens eram excelentes e a sua experiência vasta. Ao reparar na sua paixão por jornalismo relacionado com política, economia e negócios, o chefe de redação do Corunda Post decidiu que ela era ideal para Corunda e contratou-a por um pouco mais de metade do que pagava a Tom Jenner. Na verdade, Dorcas era uma pessoa muito versátil, capaz de trabalhar em qualquer matéria… até sabia quem jogava críquete na equipa da Nova Gales do Sul e compreendia a diferença entre rugby e futebol americano.

Assim, Charles ouviu Dorcas falar durante várias horas sem se arrepender de um único minuto, sentindo-se com sorte.

— A Dorcas está irrevogavelmente dedicada à carreira de jornalismo? — perguntou ele, quando ela finalmente ficou em silêncio depois de expor as suas teorias políticas e de fazer um apanhado das suas origens.

— Céus, não! — exclamou ela, resfolegando no final da gargalhada, um hábito seu. — A minha verdadeira obsessão é a política, mas, como sou mulher, tenho o acesso barrado.

— Aceitaria trabalhar para mim a tempo inteiro como minha consultora política?

A oferta foi, obviamente, um choque para ela; Dorcas recostou-se na cadeira tão apreensiva como um gato confrontado com um cãozinho.

— Desculpe?

— A senhora ouviu-me. Corunda e eu também precisamos de um lobista.

Um brilho feroz invadiu o olhar de Dorcas.

— Teríamos algum tipo de contrato? Um tempo limite? Existem outros incentivos para além de um salário, pois é óbvio que não quer um mero assalariado. Como solteirona independente, tenho de considerar o que significa uma mudança tão radical de emprego, doutor Burdum. Como o doutor não é proprietário de uma grande empresa comercial ou industrial, como poderia compensar-me, tirando o salário? Preciso de saber todos os pormenores antes de considerar a sua oferta — disse ela com voz firme.

Que criatura ponderada e lógica!, pensou ele… também não é dada a impulsos. Pensando rapidamente, Charles estava preparado para lhe responder.

— O seu salário seriam quinhentas e vinte libras por ano… uma quantia fabulosa, eu sei. O seu escritório privado seria dentro da minha propriedade, a Casa Burdum, e iria viver numa casa de hóspedes, com total privacidade. Terá um bom carro ao seu inteiro dispor e eu pagaria todas as suas despesas de deslocação… desde que estivesse ao meu serviço. O uso do carro é mais flexível, estaria disposto a ser mais maleável. Se ao fim de cinco anos ainda estiver ao meu serviço, tratarei de instituir uma anuidade a pagar quando se reformar, cujo montante dependerá dos anos de serviço — disse Charles, num tom enérgico, o rosto cordialmente interessado.

De olhos opacos, Dorcas estava sentada com o ouvido esquerdo virado para ele (seria um pouco surda?) e ambas as mãos à volta da chávena de chá. O que estaria a pensar? A sua generosidade era incrível e ele sabia-o, mas, ao olhar para ela, não conseguia perceber, mesmo se a sua vida dependesse disso, se ela estava esmagada com a sua generosidade ou secretamente convencida de que valia cada tostão? Gratidão ou prerrogativa? Ela não estava disposta a conceder-lhe a vitória deixando-o perceber o que sentia.

Então, Charles voltou ao ataque, graças a Kitty.

— Vai ter de se vestir muito melhor.

— Se aceitar a sua oferta, vou ter dinheiro para o fazer.

— E vai aceitá-la?

— Se o seu advogado elaborar um contrato de trabalho.

— Esplêndido! — exclamou ele, a faceta de estrela de cinema ao de cima. — Agora tenho de ir, senhora Chandler. Encontramo-nos no meu gabinete no hospital no segundo dia de janeiro às dez. Podemos assinar os papéis lá, depois levo-a até à Casa Burdum e mostro-lhe o seu gabinete, bem como a sua casa. A casa está completamente mobilada, mas o interior é muito desengraçado, no entanto, tenho a certeza de que vai conseguir dar-lhe o seu cunho pessoal. É a única pessoa que pode mobilar o seu escritório, incluindo os livros.

Dorcas abriu a sua mala gasta, colocou o bloco de notas e o lápis no interior e deslizou as mãos para umas luvas de tecido puídas.

— Vou aproveitar o meu tempo livre para fazer uma lista de livros, mas não vou encomendar nenhum até saber que obras o doutor Burdum já tem.

— Não, não, encomende os seus próprios livros — disse ele, estendendo a sua mão para apertar a dela de forma calorosa. — Obrigado, Dorcas. Até ao dia dois.

 

O seu estado de espírito continuou elevado durante o resto do dia, nem sequer afundou com a perspetiva de uma noite em casa, sozinho com uma esposa que não fora capaz de manter encantada. Onde teria errado? Porque será que ela o culpava pela perda dos filhos? Ainda assim, estava habituado àquilo, e Dorcas Chandler era alguém novo e diferente. Alguém com quem podia conversar, sobretudo de política.

A murmurar uma canção que o rádio passava frequentemente, Charles entrou na sala de estar e encontrou Tufts com Kitty. Típico!

— Minha querida, que agradável — sussurrou ele, beijando a face de Tufts.

— Também é bom ver-te, Charlie — disse Tufts, muito direta.

— Liam não podia vir hoje para equilibrar as coisas?

— Se passasses mais tempo atrás da tua secretária de diretor, saberias que Liam está em Brisbane.

Kitty trouxe-lhe um uísque.

— É um jantar a três, Tufts à tua direita e eu à tua esquerda — disse ela, sorrindo. — Estás com um ar de gato que apanhou o canário… muito satisfeito.

— Estou muito satisfeito. Hoje encontrei uma pessoa essencial para o meu bem-estar: um consultor político. — A bebida estava suave. — Tu sabes fazer uma bebida, Kitty. Está perfeita.

— Eu sei fazer a tua bebida, mas não sei nada sobre o teu consultor — disse Kitty, feliz por ter a companhia da irmã.

Era uma situação muito difícil a que viviam nestes últimos tempos, mas não parecia que ele alguma vez fosse retirar os comentários que fizera sobre Edda e isso significava que a guerra continuava.

— Não é segredo nenhum que tenho ambições políticas — disse ele, bebericando com prazer — e cheguei a ter esperanças de me candidatar nestas eleições. Abandonei essa ideia devido à falta de aconselhamento experiente… ou de entusiasmo daqueles mais próximos de mim.

Kitty ficou tensa.

— Bem, isso não é verdade — disse Kitty numa voz controlada. — Eu fui entusiasta e tentei.

— Sem dúvida — respondeu ele, querendo continuar. — Qualquer que fosse a causa, faltou-me apoio entusiasta. Também não tinha percebido o quanto os políticos australianos são diferentes dos políticos ingleses. Precisava de um consultor político perspicaz e capaz, e desesperei à procura… É uma criatura rara, sabem? Aqueles que têm conhecimentos suficientes na área geralmente têm as suas próprias ambições políticas. — Charles tentou parecer indiferente, mas estava demasiado feliz para isso. Um sorriso encantador surgiu. — Hoje encontrei a pessoa ideal… uma mulher, o que é ainda melhor, pois mata quaisquer ambições pessoais. Chama-se Dorcas Chandler, tem trinta e cinco anos, solteira e jornalista de profissão. Vocês não a conhecem, ela acabou de chegar a Corunda. Mas se virem um esqueleto de um metro e oitenta com um rosto que mais parece um cavalo, aposto que é Dorcas. É uma criatura triste e pouco atraente, admito, mas com uma rara inteligência política, e contratei-a para meu uso exclusivo.

— Estás a colecionar um harém, Charlie? — perguntou Tufts.

Charles olhou fixamente para ela.

— Um harém? Eu?

— Mulheres para satisfazerem as tuas necessidades. Tufts (eu) que faz o teu trabalho sujo como subdiretora do hospital. Kitty, a esposa arrebatadoramente linda, para que todos os homens sintam inveja de ti. Edda para substituir Kitty nas viagens longas, até ela fazer o inimaginável e casar acima da sua classe social. Cynthia Norman, a tua secretária pessoal, devota a ti como uma criada, que não é capaz de separar as suas funções dentro e fora do hospital. E agora Dorcas Chandler, para te aconselhar nos assuntos relacionados com a política federal da Austrália — disse Tufts com ironia. — Sinceramente, Charlie, já tens mais que suficiente. Estou tentada a chamar-te paxá Burdum.

Dois pares de olhos fixaram-se nele sem qualquer compaixão, no entanto ele tinha de obter o consentimento de Kitty e Tufts para isto resultar… precisava da cooperação das duas! Tinha proposto importar esta nova contratação para o interior da sua casa pessoal, até mesmo acomodá-la na sua propriedade, e, apesar de a suíte lilás ficar bastante longe do quarto principal, era ainda assim uma situação doméstica. Fala, Charles Burdum, fala!

— Oh, vá lá, Tufts, em que aspeto sou eu diferente de qualquer outro homem com demasiado trabalho em mãos e tempo insuficiente para o fazer? Para o observador mais cínico, talvez pareça um pouco um harém, mas isso é um conjunto de corpos cujo propósito é a satisfação sexual do amo e a produção de muitos filhos rapazes incontestavelmente seus. É certo que preferi mulheres a homens, mas apenas porque as considero mais leais, mais trabalhadoras e de grande importância. Não se esqueçam de que a maioria dos trabalhos que dei a mulheres são tradicionalmente desempenhados por homens, até o secretariado. — Charles fez uma pausa para respirar fundo e para se certificar de que ainda o ouviam… raios partam Tufts! — Voltando à senhora Dorcas Chandler, confesso que o seu sexo foi um mero acidente. A maioria dos consultores políticos são homens. O facto de o seu valor na área não ter sido apreciado é apenas mais um indicador de que eu, Charles Burdum, sou um pensador progressivo, cuja atitude relativamente às mulheres está à frente do seu tempo. Um harém? Disparate! Trata-se apenas de o núcleo do meu pessoal ser constituído por mulheres. Deviam agradecer-me, não ridicularizar-me.

Tufts inclinou a cabeça.

— E agradeço-te, Charlie, e tens todo o mérito nisso. — Um sorriso endiabrado arruinou as suas palavras, mas ao menos foram ditas. — Um núcleo de pessoal feminino, não um harém. Na verdade, nasceste para a política. Consegues fazer um monte de merda parecer um ramo de rosas. Estou ansiosa por conhecer a senhora Dorcas Chandler.

— Um esqueleto de um metro e oitenta com um rosto que mais parece um cavalo — disse Kitty. — Isso não vai durar muito.

— O que queres dizer, não vai durar?

Charles pegou no uísque que ela lhe estendia.

— Eu conheço-te, é o que quer dizer — disse Kitty, a sorrir. — Para começar, um bom salário vai engordá-la e fazer com que se vista melhor. Tu não permitirias ter num cargo público uma pessoa que possa ser motivo de chacota, e o trabalho dela implica ter um perfil bastante público em locais como Camberra, Sydney e Melbourne. — O seu pescoço fino arqueou, os olhos contemplaram o teto. — Repara como o teu gosto me mudou, de uma mulher demasiado espampanante cheia de folhos para uma extremamente bem vestida. E vais fazer o mesmo com ela… dar-lhe um chapéu ou um vestido ou um cinto que pensas que lhe fica bem… e não, a senhora Dorcas Chandler não vai levar a mal, porque os esqueletos desengonçados com cara de cavalo conhecem as suas limitações. Tens olho para roupa de mulher, Charlie, e ela vai reparar em breve. Se isso não acontecer, é uma Dorcas morta, por mais que perceba de política.

— Está bem, está bem! — Charles levantou as mãos, rendendo-se. — No caso da senhora Chandler, receio que vá demorar algum tempo a fazer a minha magia relativamente à roupa. Nunca vi uma mulher tão mal vestida… como se fizesse as suas compras no Exército da Salvação.

— Talvez faça — disse Kitty, pensativa. — Ela sustenta quantas pessoas da sua família?

— Não faço ideia.

— Deves ter uma ideia — disse Tufts.

— Segundo ela, a família perdeu tudo em 1929, mas não me parece que tenha irmãos. Ela sustenta os pais, ambos vivos. Vivem em… Lawson, acho eu.

— Uma parte pobre das Montanhas Azuis — disse Tufts, acenando com a cabeça. — Desconfio que sejam maluquinhos, ou alguém não divulgado é maluquinho. Nunca esteve sem emprego, dizes tu, e, embora as mulheres recebam menos que os homens, ela tem uma profissão e há alguma coisa mais do que pais velhos a sugar-lhe o dinheiro. As rendas em Lawson são baixas, os jardins suficientemente grandes para ter galinhas e vegetais… é uma colónia de artistas.

— Raios partam! — explodiu Charles. — Eu sabia que era bom demais para ser verdade!

— Isto é tudo especulação — disse Tufts, pragmática. — Se precisas dela, Charlie, precisas, e tens de usar. Porém, deves estar alerta. Se ela estiver a sustentar parentes que não querem trabalhar ou um namorado indolente (lá porque tu não a achas atraente, isso não quer dizer que nenhum outro homem ache), pelo menos, não te apanhará de surpresa.

— Ela exigiu um contrato — disse ele.

— Então, certifica-te de que é bem redigido. Se ela for tão esperta como tu dizes, vai reparar nas cláusulas relevantes, mas não poderá objetar, pois não? — disse Kitty, divertida. — A tua ignorância e os conhecimentos dela deram-lhe a capacidade de jogar com as tuas fraquezas. É uma pena que tenhas demorado tanto a sentir o efeito das mulheres no centro da tua vida, mas, agora que elas estão lá, prepara-te para os seus truques. — Kitty riu-se. — Aí está! É do fundo do coração, Charlie. Aprende!

O mais estranho em relação àquele conselho, pensou Charles, é que revela que Kitty já não quer saber de mim. O que fiz eu? É muito mais do que o que eu disse sobre Edda.

Charles virou-se para Tufts.

— Vou tirar Cynthia Norman do hospital, Tufts. A partir de agora, ela vai trabalhar apenas como secretária pessoal de Charles Burdum e não para o doutor Burdum. Vou mandar construir mais escritórios nesta casa. E tens razão em relação a fazeres o meu trabalho sujo. Eu não conseguiria gerir o Hospital de Corunda se não fosses tu. Por isso, vais ser tu a escolher a secretária que vai ocupar o lugar de Cynthia. Vai ser bem mais tua que minha. Quando o ano de 1934 chegar, já não estarei ligado ao hospital. Tu terminas o curso no final deste ano e a tua qualificação de contabilidade virá pouco tempo depois.

— Obrigada — disse Tufts, ofegante.

Charles chegara com tudo já decidido ou estaria a improvisar? Liam vai ter pena de o perder, mas eu não sinto remorsos.

— O jantar está pronto — disse Kitty, levantando-se. — Que extraordinário! A Casa Burdum costumava ser um mausoléu ecoante, mas posso dizer-te, Charlie, que arranjaste maneira de o encher.

A Casa Burdum estava a tornar-se uma aldeia; em frente da casa e, por assim dizer, num nível abaixo, apareceu uma fila de casinhas. Cada uma ocupava bastante terreno, tinha dois andares, três quartos, uma casa de banho em cima e outra em baixo, e a sua própria garagem. Para Kitty, parecia um projeto a longo prazo, visto que existiam apenas quatro casas antes de o primeiro inquilino, Coates, ser pouco mais do que uma sombra de empregado pessoal. Cynthia Norman mudara-se para lá a seguir… dois já estão, faltam outros dois, pensou Kitty.

Em seguida, pouquíssimo tempo depois de Cynthia, veio Dorcas Chandler. Teria dado jeito à senhora Simmons, a empregada doméstica de Kitty, morar numa daquelas desejáveis residências, mas, quando Kitty lhe pediu essa benesse bem antes de Coates, Charles respondera com um não firme. As casas eram para os seus empregados. A senhora Simmons tinha à disposição um carro que a ia buscar a casa (que era alugada) e a levava de volta para lá; isso já era suficientemente generoso da parte dele. Se tivesse aproveitado algum do seu tempo para refletir, Charles teria percebido que este tipo de decisões contribuía em grande escala para a sua mulher deixar de gostar dele, pois Kitty interpretava-as como ações que tinham por objetivo demonstrar o seu estatuto inferior. Ele era tão rico! Como inglês que era, sabia perfeitamente bem que as empregadas domésticas viviam na casa dos patrões. Desta forma, o seu empregado pessoal, bem como a sua secretária, viviam em sua casa, mas a sua empregada doméstica, que trabalhava às ordens da sua esposa, vivia fora da propriedade Burdum. A sua secretária tinha um carro, que fora oferecido por Charles; pelos visto, também a senhora Dorcas Chandler viria a ter um.

— Tens de parar com isso, Kitty — disse o reverendo Latimer durante uma visita, depois de ouvir a versão dela de todas estas questões domésticas. — Eu aprovo que trabalhes no orfanato, porque te abstrais das tuas próprias preocupações, mas não sou a favor de se inventarem problemas onde eles não existem. A senhora Simmons queixou-se a ti?

— Não — disse Kitty, confusa —, mas isso não torna a discriminação de Charlie menos condenável.

— Disparate! És tu que te sentes discriminada, não a senhora Simmons. Minha filha, não há necessidade disso! Quer gostes quer não, Charles tem o direito de gastar o seu dinheiro como quer. Até acho as suas ações sensatas… ele providencia acomodação àqueles de quem pode precisar de um momento para o outro. Pensa, Kitty, pensa! Gostarias de estar tão perto de alguém que tem poder sobre ti? Quando eras enfermeira, vivias na propriedade do hospital para melhor servir os interesses do hospital, que te podia mandar chamar para trabalhar sem ter de procurar por ti pelo distrito inteiro. Desconfio que a senhora Simmons está muito satisfeita com a sua situação atual… não vive debaixo do nariz do patrão, mas é conduzida para o trabalho e de volta para casa sem ter de utilizar os transportes públicos.

Kitty era uma mulher justa e sensata em relação a toda a gente, exceto Charles, e por isso admitiu a justeza das palavras do pai e acalmou-se. Estava também ansiosa por conhecer o esqueleto desengonçado com cara de cavalo.

A senhora Chandler recebera a melhor das quatro casas, como já reparara; situada na ponta da fileira, tinha uma entrada privativa que dava diretamente para a rua e ficava escondida da casa ao lado, ainda vaga, junto a uma sebe de uma árvore de crescimento rápido chamada tucaneiro. A sua decoração era enfadonha e em tons de bege, mas a mobília era de muito boa qualidade e o tanque que captava a água do telhado tinha capacidade para quarenta mil litros, muito generoso para um só ocupante. Tinha também a sua própria fossa séptica, enquanto as outras casas tinham um sistema partilhado. Hum… a senhora Chandler era mesmo muito importante para Charlie, não havia qualquer dúvida disso, pensou Kitty.

O mais acertado a fazer, decidiu ela, era convidar a nova inquilina de Burdum Row para tomar o chá da manhã numa data que lhe fosse conveniente, como estava escrito na amável carta de Kitty que a senhora Chandler encontrou à sua espera no chão do corredor. Uma carta igualmente amável marcou o encontro para o dia a seguir às mudanças, visto que o doutor Burdum não precisava dos seus serviços até ao meio-dia.

Naturalmente, Dorcas Chandler sabia que a mulher do seu patrão era considerada por todos como uma das mulheres mais bonitas do mundo, mas nada a preparara para o deslumbrante tom de pele de Kitty, o cabelo louríssimo, demasiado transparente para lhe chamar dourado, as sobrancelhas e pestanas da cor do gelo, os ossos cinzelados, as covinhas do rosto, os olhos espantosos, o corpo elegante, ainda que voluptuoso. É claro que tivera de a fazer sua! Ela contribuía para o seu mito, e Charles Burdum era um homem muito ocupado a construir uma história de si mesmo que os futuros cronistas da Austrália transformariam num mito. Também lindamente vestida, de algodão fino adequado à altura do dia, o seu cabelo mais curto do que a nova moda postulava, porque lhe apetecera experimentar um visual mais arrapazado, sem joias, à exceção de uma esplêndida aliança de casamento de diamantes… tudo isto dava muito que pensar à senhora Chandler, depois de tantos anos a frequentar eventos sociais. A única coisa que a senhora Burdum tinha de errado era a sua natureza, mais inclinada a ficar em casa, como era o caso de tantas esposas de homens envolvidos na política. Não, a senhora Burdum não era a esposa perfeita de um político.

Quanto a Kitty, deu por si a gostar da senhora Chandler, que estava longe de ser alguém por quem se sentisse pena. Ela era, supôs Kitty, uma mulher brilhante com ambição, suficientemente sensata para não lutar contra as restrições que o seu sexo tornava inevitáveis; sabendo que nunca poderia ocupar o cargo de primeiro-ministro, Dorcas trabalharia com cabeça, coração e alma para ser o poder por trás do primeiro-ministro. E encontrara o homem ideal em Charlie.

Tinham muito que conversar.

— Para aconselhar adequadamente o Charles — disse Dorcas, depois de abandonarem os apelidos e as pretensões —, tenho de saber tudo sobre a sua família e as suas relações pessoais dentro de Corunda. Não se trata de curiosidade mórbida, apenas de necessidade de sondar.

— Sonde à vontade — disse Kitty, alegremente, oferecendo bolo, compota e natas. — Coma, precisa de engordar um pouco… não muito, mais ou menos o mesmo que a minha irmã Edda, que é muito alta, elegante e graciosa. Charlie detesta mulheres desengraçadas, mas provavelmente ele já lhe disse isso.

Continuar: parte 2 de 3