Agridoce
PARTE QUATRO: A Catástrofe
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
PARTE QUATRO
A CATÁSTROFE
No dia 30 de outubro, com dezasseis horas de diferença a separar os dois continentes, os jornais de Sydney noticiaram a queda da Bolsa de Valores de Nova Iorque no dia 29, tendo esta atingindo um mínimo histórico. Esta queda foi acompanhada de uma série de suicídios em cadeia, com homens a atirarem-se dos arranha-céus de Wall Street. Uma notícia excitante! No entanto, Nova Iorque estava tão distante que a estrutura financeira americana não tinha o poder para influenciar os acontecimentos na Austrália, da mesma maneira que as estruturas financeiras inglesas ou europeias tinham. A América era um país verdadeiramente estrangeiro, os seus problemas eram seus para solucionar, a sua política demasiado isolacionista em relação ao resto do globo.
Charles Burdum observou o desenrolar dos acontecimentos de 29 de outubro com alguma frieza, suspirando de alívio. Sim, acontecera, mas os seus fundos, bem como os do hospital, estavam a salvo. E era melhor enfrentar a realidade de uma só vez do que passar meses à espera de que algo acontecesse. Era possível agir face a uma realidade e nem tudo aconteceria do dia para a noite. Charles não poderia adivinhar, para além de conjeturas teóricas, que cada vez mais homens ficariam sem emprego e que aqueles que os mantivessem seriam obrigados a aceitar trabalhar por salários reduzidos. Existiria um maior número de propriedades à venda, mas menos americanos para as comprar. Ainda ninguém adivinhara que o que acontecera no mercado financeiro americano tinha o poder de estilhaçar todo e qualquer mercado do mundo.
O jantar no presbitério, com a presença de Grace Olsen, completou o puzzle dos Latimer para Charles; Grace era a única gémea que Charles ainda não conhecia. Em privado, ele decidiu que tudo o que ela fez foi tornar o puzzle ainda mais confuso. Da mesma altura e estatura que Edda, Grace era completamente diferente dela, desde o rosto ao carácter. Lindos mas tristes olhos cinzentos, uma boca que tinha tendência para tremer e cujos cantos reviravam para baixo, um vestido elegante de riscas em diagonal cinzentas e uma propensão para uma conversa fervorosa que revelava a sua falta de interesse por qualquer outra coisa que não o marido, os filhos, as irmãs, o pai… e Jack Thurlow. Quando Grace falava de Jack, o seu rosto bastante triste iluminava-se, mas Charles reparou que, desde a primeira vez que Grace o mencionou, o reverendo e Maude não se sentiram minimamente incomodados pela presença de Jack na vida de Grace.
— Bear adoraria estar cá — disse Grace a Charles quando foram apresentados —, mas encontra-se em Wagga e só regressa daqui a um mês. Ele é um homem da Perkins — acrescentou ela, como se isso explicasse tudo.
— Bear vende pomadas, loções e produtos desse tipo de porta a porta — disse Maude com um sorriso afetado.
Grace corou.
— Ele é o melhor vendedor da Perkins — disse ela, bruscamente — e ganha muito bem.
— Não tenho dúvidas disso — afirmou Charles, dirigindo-lhe o seu sorriso mais encantador. Pobre coitada! Tão apaixonada pelo seu caixeiro-viajante e sempre a precisar dele. Jack Thurlow não aquece a cama do lado de Bear, ele simplesmente corta a lenha e garante que ela não se mata ou aos filhos num acidente doméstico estapafúrdio. Grace é uma mulher do tipo desamparado.
Não existia nenhum entusiasmo dentro dela, mas não se podia dizer o mesmo em relação a Maude: uma cabra de primeira categoria, sem tempo a perder com nenhuma das gémeas mais velhas do pastor e muito pouco com a sua Tufts. Um arrepio de apreensão percorreu-lhe a espinha quando contemplou a sua pequena estatura. Muito bonita, mesmo para a idade, Maude era uma mulher que se vestia de forma espalhafatosa e que gastava muito tempo e dinheiro em aparências. E que atencioso da parte do reverendo limitar este primeiro jantar apenas aos quatro… desta forma, tinha muito tempo e poucas distrações para focar toda a sua atenção e ficar a conhecer bem Grace e Maude.
Conseguia ver um pouco de Kitty naquela figura materna, tão patética e falsa, mas apenas no exterior. As suas naturezas, concluiu ele, eram completamente diferentes. O mais interessante para Charles foi descobrir que o pastor controlava Maude e não o contrário. Como teria ele conseguido isso?
O jantar foi fantástico, algo entre as especialidades parisienses do seu chef e a ementa do Parthenon: salmão fumado com fatias finas de pão tostado com manteiga, seguido de um delicioso e tenro peru assado, terminando numa tábua de queijos e uvas brancas sem grainhas.
— Maude é tão esperta! — disse Grace, enquanto tomavam café na sala de estar. — Ela compra perus pequenos e assa dois. Adoro o recheio que Maude faz… ela põe fruta e faz um molho também.
Maude corou um pouco com o elogio. Não havia dúvidas de que Grace fora instruída para o fazer. Quem terá dito que eu gosto das minhas carnes vermelhas malpassadas? Maude resolveu o problema ao servir peru.
Charles ouviu tudo o que havia para ouvir sobre a maravilhosa casa de Grace, bem como demasiado sobre os seus filhos, um com dezoito meses, o outro com cinco meses.
— Quem está a tomar conta das crianças esta noite? — perguntou Charles educadamente.
O que quer que Grace fosse responder nunca chegou a ser dito. Maude fungou e apressou-se a falar:
— A irmã de Grace, Edda. Não te posso dizer vezes suficientes, Grace, que não devias deixar a tua irmã chegar-se perto dos teus filhos! Ela não é boa influência.
Grace, bem como Thomas Latimer, ficaram tensos com tamanho ultraje, e Charles nem conseguia imaginar o que levara Maude a revelar uma divergência privada a um desconhecido.
— Edda é uma Medusa! — cuspiu Maude rapidamente, sibilando.
O reverendo riu descontraidamente, os seus olhos, cinzentos como os de Grace, brilhavam.
— Medusa, a Górgona! É um nome que damos a Edda há muitos anos, Charlie. Ela ganhou essa alcunha no dia em que Maude e eu organizámos um lanche para as quatro raparigas a fim de celebrar o início do curso de enfermagem. Extremamente calma, sem alarmar ninguém, Edda trespassou a cabeça de uma cobra preta de barriga vermelha de dois metros com a perna da cadeira, e manteve-a assim até Kitty lhe cortar a cabeça com uma machadinha da lareira. Edda ficou coberta de nódoas negras, como se tivesse sido esmurrada por um homem, por causa dos sacões da cobra enquanto morria. Maude — acrescentou o pastor no mesmo tom — ficou histérica e monopolizou toda a minha atenção.
— Era uma cobra letal? — perguntou Charles, curioso.
— Muito, sobretudo pelo tamanho.
— Então, Edda foi corajosa. — Charles sorriu para Grace. — Um ótimo exemplo para os seus filhos.
— Também acho — disse Grace.
— E Maude também. Contudo, ao longo dos anos, Maude foi confundindo as suas próprias filhas com as empregadas — disse Thomas Latimer, franzindo o sobrolho, preocupado.
— Kitty também esteve envolvida no episódio da cobra?
— Sim. Os utensílios da lareira estavam do lado errado, por isso é que Edda recorreu à perna da cadeira. Kitty estava mais perto deles e foi muito rápida a ajudar.
— Enquanto eu — interrompeu Grace, com um ar triste — resolvi imitar a Maude e chorei.
— E não há nenhuma vergonha nisso — disse Charles de forma calorosa. — As lágrimas são uma reação normal. Não para Edda e Kitty, ao que parece. As suas meninas são corajosas, reverendo.
— Sem dúvida — afirmou o pastor, orgulhoso.
— Eu tenciono casar com Kitty — disse Charles num tom de conversa —, mas estou com alguma dificuldade em convencê-la de que sou um bom marido. — Cabisbaixo por um momento, o seu rosto transformou-se no de uma estrela de cinema no seguinte. — Mas hei de conquistá-la, nada temam!
O seu anúncio foi um choque, algo que ele esperava, mas Charles considerou bastante revelador o que se seguiu ao choque. Em Grace, uma alegria genuína que lhe dizia que estava contente. Em Maude, um enorme triunfo, a derradeira confirmação da sua política desde que a beleza de Kitty emergira, e a qual ele conhecia pela boca de Edda durante aquele jantar franco há algum tempo. No pastor, uma alegria cautelosa, que indicava a Charles que era uma boa notícia se este casamento fosse algo que Kitty queria… e precisava. Não estava totalmente convencido, tinha algumas dúvidas.
— Grace, vai com a tua mamã até ali para conversarem um pouco — pediu o reverendo Latimer. — Eu e Charlie precisamos de alguma privacidade. — O pastor ofereceu a garrafa. — Outro cálice de porto?
— Obrigado, senhor.
— Porque é que Kitty não o quer? O Charlie é um bom partido.
— Pelo que consigo depreender, ela não confia em mim… ou nela mesma, penso eu. A propósito, estou a par das dificuldades dela quando era criança. Edda contou-me, em pormenor e com a máxima honestidade.
— É um elogio raro. Que idade tem?
— Trinta e três, para os vinte e dois de Kitty.
— Um homem deve ser mais velho do que a sua esposa, de outro modo a maturidade natural das mulheres dá-lhes uma vantagem injusta no casamento — disse o guia espiritual de um enorme rebanho com uma calma convicção. — Quanto mais se ridicularizarem os costumes e as tradições, mais difícil será manter a estabilidade em casa. Se o Charlie tivesse a mesma idade de Kitty, eu seria contra o casamento por considerar este demasiado exigente para um jovem mimado… mais tarde ou mais cedo, ficaria tentado a abandonar as suas responsabilidades enquanto marido e pai, principalmente em detrimento das crianças. Neste caso, os seus onze anos a mais conferem-lhe uma autoridade que a sua esposa pode respeitar. — O reverendo deu um gole no seu vinho do Porto, pensativo. — Terei de aprovar as suas intenções a muitos níveis, mas preocupa-me que Kitty não confie em si. Em que medida é que ela não confia em si?
— Se eu soubesse, podia resolver o problema — disse Charles.
— Não será pelo medo de vir a ter outras mulheres?
— Duvido, Tom, pois nunca dei a ninguém o mínimo indício de ser mulherengo. Kitty trabalha para mim, conhece-me no dia a dia. — Charles encolheu os ombros e proferiu as palavras. — Ela acha que sou arrogante e convencido e eu atrevo-me a dizer que sou, mas não é sem razão. Parece-me que ela preferia que eu fosse falsamente modesto do que sincero em relação aos meus talentos e capacidades. O que quer que eu seja, sempre fui honesto em relação a isso.
— O Charlie crê em Deus?
— Acredito num Deus como postulado pela Igreja Anglicana, embora não seja beato — declarou Charles. — Penso que é importante que qualquer homem debaixo do escrutínio público seja visto a frequentar a igreja regularmente, e por isso estarei no banco de igreja dos Burdum todos os domingos. — Charles fez uma pausa, depois perguntou num tom de voz diferente: — A Igreja Anglicana de Corunda é próspera, reverendo?
Thomas Latimer pestanejou.
— Na verdade, sim. Corunda é mais próspera que a maior parte dos distritos, pois é uma região pouco propensa a períodos de seca e os seus habitantes mais ricos apoiam as suas igrejas. Mas porque me pergunta, Charlie?
— Porque os próximos tempos vão ser duros, Tom. Presumo que a nação dependa muito das exportações para assegurar a sua prosperidade… sobretudo do trigo e da lã. Nenhum deles é um produto de Corunda. A enorme necessidade de uniformes e mantas durante a Grande Guerra deu aos governos da Austrália, federal e estadual, uma falsa sensação de otimismo em relação às exportações. Bem, a Grande Guerra terminou há mais de uma década e agora ninguém quer ou precisa de tanta lã. A juntar a esse fator, a seca reduziu muito a quantidade de trigo exportável — disse Charles, descontente. — Os governos contraíram grandes empréstimos, fiando-se no carácter contínuo das exportações. No entanto, qualquer homem que entenda de finanças consegue ver o que está para vir, dada a queda do mercado de ações americano. Os empréstimos têm de ser pagos, e de onde virá o dinheiro?
— Dos fundos do hospital? Dos seus próprios fundos?
— Oh, esses estão em segurança, embora o dinheiro do hospital vá sofrer se a libra australiana desvalorizar, é claro. Mas essa perda pode ser suportada. O meu dinheiro está em Inglaterra. — De repente, Charles soltou uma gargalhada e fez um ar trocista. — Posso estar a alarmá-lo sem razão, Tom, ainda é demasiado cedo para saber se as fendas na estrutura financeira se vão espalhar. — Charles suspirou. — No entanto, tenho a sensação de que vai ser mau.
— Respeito os seus instintos, Charlie, mas vamos voltar ao assunto da minha filha. Quer que eu fale com ela?
— Agradeço, mas não. Só gostaria de ter a sua bênção.
— Meu querido amigo, já a tem, já a tem!
— Agora, tudo o que tenho de fazer — disse Charles — é convencer Kitty.
Maude, farta do seu exílio, chegou ao pé deles a tempo de ouvir isto.
— Não é que Kitty não goste de si, Charles — disse ela, a única a conceder-lhe o seu nome verdadeiro. — Se não gostasse, ela dizia-o onde ir… da forma mais indelicada! Em vez disso, aceitou o seu convite para jantar. As suas defesas irão baixar, sem dúvida. E quando isso acontecer… ataque!
Charles não disse nada, mas o plano parecia-lhe digno de uma cobra manhosa.
Enquanto o eterno governo conservador federal de Stanley Bruce esteve no poder, os seus assuntos eram, na sua grande maioria, tratados a partir de Melbourne. Um quarto de século depois do nascimento da Comunidade da Austrália, a capital nacional Camberra ainda era um lugar ermo em termos espirituais. Então, uns dias antes da queda de Wall Street, o recentemente eleito governo federal trabalhista, liderado pelo primeiro-ministro James Scullin, decidiu no meio de um enorme aparato publicitário estabelecer-se de forma permanente em Camberra. Um governo de principiantes desajeitados herdou o rescaldo de Wall Street.
Após os horrores da Grande Guerra e de dois surtos consecutivos de gripe, que mataram ainda mais do que a guerra, foi praticamente inevitável que a jovem Comunidade da Austrália embarcasse numa série de obras públicas. A maior parte dessas obras públicas foi realizada pelos governos estaduais pelas razões mais óbvias: cada Estado existira como uma colónia inglesa separada, e como é que um pequeno governo central absolutamente ignorante administra milhões de quilómetros quadrados de terra, sobretudo desértica? A sua constituição nada dizia sobre as pessoas que a compunham, nem lhes atribuía uma carta de direitos. Era um documento sobre o poder judiciário, os parlamentos, os Estados, a Comunidade da Austrália, impostos, tarifas e comércio. Assim, entre 1901 e finais de 1920, enquanto o novo governo federal andava aos tropeções em Melbourne, cada Estado, mantendo um governo, fez o que os seus habitantes queriam e/ou precisavam: escolas, estradas, hospitais, caminhos de ferro, pontes, barragens, elevadores de grãos. Existia também um enorme movimento que visava pôr os soldados regressados a trabalhar nas terras como produtores primários, sendo estes vistos como a fonte de riqueza da nação.
Cada Estado pediu os seus próprios empréstimos, maioritariamente junto dos mercados de capital da City de Londres, com elevadas taxas de juro associadas, e as quantias pedidas foram muito avultadas. Os preços praticados internacionalmente para a lã e para os cereais australianos caíram, o que obrigou a enormes cortes na indústria e na agricultura. O desemprego aumentou e, bem pior para os vários governos estaduais, as receitas dos impostos decresceram de forma severa. De repente, na mesma altura em que ocorreu a queda de Wall Street, os governos estaduais da Austrália aperceberam-se de que não conseguiam pagar os juros dos seus empréstimos na City de Londres.
A opinião generalizada entre economistas, trabalhadores da função pública e políticos era que a cura para este desastre teria de passar pelo controlo rigoroso dos dinheiros públicos, conseguindo isto não o gastando. Todos os trocos deveriam ser poupados e usados para pagar as dívidas ao estrangeiro. O primeiro-ministro Scullin anunciou que o governo federal iria deixar de gastar dinheiro em obras públicas e reduzir o seu pessoal. A única voz que se opôs foi a de Jack Lang, um líder trabalhista da Nova Gales do Sul, que queria mais dinheiro gasto, e não menos, e mais homens empregados, não menos.
À exceção de Charles Burdum, ninguém em Corunda estava preocupado com as consequências imediatas da queda de Wall Street. Os habitantes da cidade liam sobre o que se passava nas grandes cidades da nação e na minúscula e crua cidade de Camberra, com a sua torre de marfim. O distrito estava a ultrapassar as primeiras convulsões da Grande Depressão quase sem sequelas. Os trabalhos que se perdiam pertenciam a homens empregados longe de Sydney ou Melbourne. Contudo, passadas algumas semanas, um habitante local colocou um letreiro, no cruzamento da estrada de Corunda com a autoestrada para Sydney e Melbourne, que dizia em letras gordas e feitas por um profissional: NÃO HÁ TRABALHO EM CORUNDA.
Muito mais interessante era a relação entre Charles Burdum e Kitty Latimer. Se Kitty conhecesse a sua própria mente, poderia ter-se decidido logo no início. O problema é que Kitty não a conhecia e culpava um conjunto de elementos da sua desorientação, incluindo o facto de nenhum homem alguma vez a ter perseguido de forma tão persistente. E ele atraía-a e repelia-a em simultâneo, mexia com ela de uma forma curiosamente falaciosa, em vez de frontal e direta. Assim, o que ela percecionava que ele tinha de tão abominável era meramente sentido, pois nunca fora observado, e o que ela conseguia ver sem distorções era admirável, digno de amor, incrivelmente estável, sólido como uma rocha. E como poderia ela explicar que o que procurava era a dor dele? Se a conseguisse encontrar, nem que fosse uma vez, ficaria a saber. A sua própria infância fora um longo sofrimento, preso a algo que não conseguia mudar: a sua aparência. O seu instinto dizia-lhe que a infância dele deveria ter sido semelhante à sua, pois todos os rapazes da sua idade cresciam em altura e ele não. Preso à aparência! A dor deve lá estar! Então, por que razão não a mostrava ele, porque não a partilhava? Apenas partilhando a sua dor é que Charles deixaria Kitty entrar no seu coração. Desejando desesperadamente curar a dor dele, Kitty sentiu-se para sempre relegada para um plano distante.
Desta forma, quando se encontravam, o que era bastante habitual, Kitty ficava irritada e agressiva, pronta para uma batalha, e nunca descontraía. Discutiam como cão e gato, à distância de um braço ou por entre os espaços de uma vedação, pois, quando ele dizia algo que ela levava a peito, Kitty atacava-o ferozmente.
Mais exposta a eles que Grace, Edda e Tufts observavam as suas discussões desanimadas e sem saber o que fazer.
— Eles vão lutar um com o outro até à morte — disse Tufts a Edda.
— Mas porquê, se são feitos um para o outro? — perguntou Edda.
— É a Kitty. Eu pensei que talvez Maude a tivesse pressionado e irritado, mas o papá garantiu-me que ela se tem portado bem. Charlie tem qualidades que Kitty não consegue compreender e odeia sentir isso.
— És muito perspicaz, Tufty. — Edda encolheu os ombros. — Bem, eu recuso-me a interferir. Só tenho pena de Charlie.
Embora a cidade de Corunda não tivesse forma de saber, a Grande Depressão avançou mais rapidamente que o cerco de Charles Burdum a Kitty Latimer. Ainda não ganhara coragem para a beijar quando algumas lojas sediadas em Sydney fecharam e atiraram mais uns quantos habitantes de Corunda para o desemprego, sem direito a indemnização ou qualquer outro tipo de subsídio. Os desempregados locais também não conseguiam arranjar um novo emprego; ninguém estava a contratar, nem mesmo o hospital. O governo federal anunciou que entregaria um milhão de libras aos Estados para subsidiar os desempregados, deixando que cada um tirasse a quota-parte que achasse necessária e distribuísse o dinheiro. Isto levou ao desvio de fundos municipais, bem como a protestos furiosos que não beneficiaram ninguém. A Austrália do Sul, terrivelmente acossada, recebeu uma quantia desproporcionada por essa razão, o que não provocou qualquer indignação. No entanto, a Austrália Ocidental também recebeu de forma desproporcionada, mas por uma razão menos legítima: o Estado queria separar-se da Comunidade da Austrália, e, por isso, Camberra decidiu bajular o seu governo de forma deliberada, concedendo-lhe uma porção injustamente grande. Camberra estava decidida a manter todo o continente dentro da Comunidade da Austrália.
— Duzentas e setenta e seis mil libras é muito dinheiro — disse Kitty a Charles enquanto bebiam um chá — e presumo que Sydney tenha ficado com a maior parte. Será que Corunda vai receber algum dinheiro?
— Provavelmente não. O desemprego aqui é baixo comparado com outros distritos do país, mesmo tendo em conta os encerramentos recentes. Desemprego… que belo presente de Natal!
— O meu pai está concentrado no orfanato. Ele acha que vai receber mais crianças, vítimas desta crise terrível. Mas de certeza que ninguém vai tirar uma criança à sua mãe, pois não?
— Suicídio, Kitty. Aumentou de forma chocante entre os homens e agora algumas mulheres também estão a matar-se. Além disso, algumas mães acham que, se abandonarem os filhos, estes serão pelo menos alimentados, vestidos e abrigados num orfanato.
Kitty estremeceu.
— O mundo pode ser um lugar tão cruel! — Os seus olhos procuraram os dele numa ansiedade tremenda. — Não consigo falar de mães que decidem abandonar os filhos, mas o assunto deu-me um pouco de coragem. Charlie, não carregas contigo nenhum sofrimento?
Charles olhou fixamente para ela, genuinamente espantado.
— Sofrimento? Porquê?
— Da tua infância? De não teres tido uma mãe e um pai? — A sua voz tornou-se um sussurro. — Por seres… diferente de toda a gente?
As suas gargalhadas foram demasiado espontâneas para serem simuladas.
— Oh, Kitty, que sentimentalista que tu és! Como poderia eu sentir falta de duas pessoas que nunca conheci? A minha infância foi magnífica, sinceramente. A minha tia e o meu tio (ela era irmã da minha mãe) criaram-me sem nunca me faltar nada. Nada, Kitty, absolutamente nada! Fui amado e bem tratado.
— Mas de certeza que seres diferente te causou algum sofrimento? — insistiu ela, ainda não convencida.
— O meu desejo de ser mais alto, é isso que estás a insinuar?
— Sim, e qualquer outra coisa que te possa ter feito sofrer.
Charles deslocou a cadeira e segurou as mãos de Kitty nas suas, tão quentes, secas e fortes.
— O meu tio era mais baixo que eu e educou-me para encarar a falta de altura como um desafio, não uma cruz. Já legitimei a fé e a confiança que ele depositou em mim… que mais posso dizer? Em relação ao sofrimento… disparates sentimentalistas! As tragédias gregas não são baseadas no físico, mas sim na natureza humana. Eu sou Charles Henry Burdum e, um dia, serei Sir Charles. As mulheres gostam de um bom drama, isso é-lhes permitido. Mas não aos homens. Não existiu qualquer sofrimento nos termos em que o defines. Eu fui simplesmente educado para enfrentar desafios.
— Não percebo — disse ela. — Não sofrer é desumano.
— Que disparate! — replicou ele, farto daquela conversa. — Desumano seria não sentir dor, pesar, medo. Já encharquei uma almofada de lágrimas quando o meu cão morreu, ainda hoje sofro com a morte do meu tio e da minha tia, e posso garantir-te que, quando um bandido me apontou uma arma ao peito, senti medo. — Os seus olhos tomaram uma tonalidade de bronze e contemplou-a, perplexo. — Já és enfermeira há três anos e meio, minha querida, e tenho todas as razões para acreditar que és muito boa no que fazes. As crianças são o teu grande amor… no entanto, porque não tens os teus próprios filhos, em vez de olhares para os filhos dos outros através de uma janela embaciada?
Kitty susteve a respiração, ficou tensa. Charles era tão bom a fazer isto, arrancava-lhe a vantagem das mãos e usava-a contra ela! A demanda de Kitty pela dor de Charles tornou-se ridícula e insignificante. Ela contemplou-o, espantada.
— Sim, tens razão — afirmou ela, devagar. — É um disparate.
O encanto dele veio à superfície, juntamente com um sorriso maravilhoso.
— Lamento imenso — disse ele com suavidade. — Não tinha intenção de te fazer sentir assim. Oh, mas estavas a pedi-las! Se tudo fosse como eu queria, optava por te cortejar de forma suave, carinhosa e gentil, mas tu tens um instinto de matança infalível que te faz transformar subitamente da mulher mais sedutora do mundo para um gato-bravo arisco e raivoso. Sempre que o fazes, tenho de voltar a domar o gato-bravo, e eu não sou um caçador por natureza. — O rosto mudou, ficou feio. — Agora percebo que tenho de pensar se te amo o suficiente para aturar mais disto. Sinceramente, não sei.
— Talvez seja porque eu sinto que Corunda é um lugar demasiado pequeno para ti e que não vais ficar aqui muito tempo, e eu não quero morar em nenhum outro lugar do mundo sem ser Corunda.
— Eu tenho grandes ambições — concordou ele —, mas não é preciso abandonar Corunda para as realizar. Quero entrar na vida política, de preferência ao nível federal, e Corunda é a cidade perfeita para o fazer. Fica apenas a duas horas de carro de Camberra.
O rosto de Kitty iluminou-se.
— Sim! Faz sentido.
— Assim, se casasses comigo, minha querida Kitty, não haveria necessidade de abandonar Corunda.
O olhar de Kitty recaiu sobre o relógio, levantando-se de um pulo.
— Estou atrasada!
— Eu acompanho-te até à ala das crianças, assim ninguém pode reclamar.
Mesmo assim, Charles deixou até ao último momento para a convidar para jantar. Como sempre, Kitty aceitou.
Kitty não queria perguntar se o chef ainda trabalhava na cozinha da Casa Burdum, visto que o jantar era rolo de carne com molho e puré, mas desconfiava que sim, pois o rolo era feito com carne picada de cordeiro com um toque de cominhos, não se desfazia, o molho de carne sabia a tempero e o puré estava demasiado fino. Mandou o puré de volta para a cozinha por estar demasiado líquido, pouco amanteigado e sem pimenta. Charles sentia-se contente por ter acertado em duas das três tentativas que fizera para lhe agradar, e pedira ao chef para ter batatas fritas prontas caso fosse necessário. Visto que o chef era australiano, apesar do seu treino Cordon Bleu, Charles estava a considerar pedir a Con Decopoulos, do Parthenon, se o cozinheiro podia observar e aprender o estilo culinário de Corunda.
— Gostei do rolo de carne — disse ela, com franqueza, enquanto tomavam café na sala de estar. — A textura era um pouco elástica e não se desfazia aos bocados. O que quer que o chef tenha usado para o temperar tinha um sabor delicioso, mas para quê transformar boas batatas num puré leitoso?
— Se casares comigo, vou provavelmente ter de despedir o meu chef — disse ele.
— Sem dúvida! Há centenas de mulheres nesta cidade que cozinham de forma brilhante, segundo as opiniões dos habitantes locais. Charlie, se eu casar contigo, vamos comer pratos de Corunda e não carne em sangue e puré leitoso. E, neste aspeto, não há negociação.
— Foste tu que disseste «se»!
— Pois disse. «Se» e não «sim».
— É um passo enorme na direção certa. Deves amar-me um pouco.
— O amor não é a questão. Será que gosto de ti?
— Deixa-me beijar-te — pediu ele, ajoelhando-se à sua frente. — Só se pode gostar de alguém quando existe algum grau de à-vontade e companheirismo, o que tu não permites que exista, e isso é culpa minha por ter dito que te amava ainda antes de saber o teu nome. Na verdade, não tenho a certeza se gosto de ti. O que eu sei é que estamos destinados a casar e a passar o resto das nossas vidas juntos. Aqui, em Corunda, a comer pratos de Corunda. Baixa as tuas defesas, por favor! Não te transformes no gato-bravo. Até baixares as tuas defesas, vamos continuar a gravitar à volta um do outro numa órbita fixa.
Kitty sorriu.
— Estás a par do debate em volta do nono planeta.
— Acredito nas leis da natureza e também acredito que os seres humanos fazem parte dessa mesma natureza — disse ele com um ar sério.
Kitty inclinou-se para a frente.
— Beija-me, Charlie.
A primeira coisa que a fez sentir-se consciente dele foi o seu cheiro, descobrindo-o inebriante, inesperado: um sabonete muito caro, um odor suave e juvenil, nem um indício de suor. O seu abraço era envolvente, mas não assustador, já que Charles lhe juntou os joelhos e os afastou para a esquerda, o que significava que não conseguia roçar a sua virilha nela, nem o fez quando se levantou trazendo-a com ele. Kitty nunca se apercebera de como era confortável estar de pé à mesma altura que ele, sem se esticar ou esforçar. Charles era esperto ou o seu respeito genuíno, visto que manteve sempre as mãos nas costas de Kitty, acima da cintura. Oh, Charlie, porque será que tens sempre duas caras? Lúcifer num momento, Satanás no seguinte. Mas ambas faces do Senhor do Inferno.
Charles não passou desajeitadamente da face de Kitty para a sua boca, ele pairou perto o suficiente para a fazer fechar os olhos por reflexo e, em seguida, pousou os seus lábios sobre os dela com um ligeiro ângulo, a sua pressão leve como uma pena, a sua pele sedosa. Oh, sim, era agradável! O corpo de Kitty relaxou, nada a repelira até agora, sobretudo um domínio agressivo que ele poderia ter tentado e que a teria feito afastar-se dele num segundo. Era como se ele ficasse satisfeito por deixar Kitty responder a seu tempo, uma estratégia altamente sedutora para ela. Quando Kitty afastou os seus lábios, ele fez o mesmo. Os braços de Kitty rodearam o seu pescoço.
O beijo continuou, como se ela flutuasse à deriva num espaço de ar e luz, até que a mão esquerda de Charles se moveu das suas costas para o lado e mergulhou na sua carne de forma tão repentina que, contra toda a razão, o seu corpo se arqueou num gemido e se encaixou no dele. Nesse mesmo momento, o beijo mudou, aprofundou-se, transformou-se num turbilhão de emoções sombrias e ternas que a tornou tão presa dele como ele era dela.
No momento seguinte, Kitty estava livre. Charles encontrava-se do lado oposto da sala, virado de costas para ela, a olhar pela janela.
— Está na hora de ires para casa — disse ele depois do que pareceu uma eternidade.
Kitty pegou nas luvas e na mala e saiu à frente dele.
Grace não parecia minimamente surpreendida quando na manhã seguinte Kitty lhe confidenciou o que acontecera.
— Bem, tu ama-lo, de que estás à espera? — perguntou Grace, dando uma tigela com gelatina verde a Brian e enfiando, em seguida, a tetina do biberão na boca de John.
— Porque será que as crianças gostam tanto de gelatina? — perguntou Kitty. — Custa um décimo do que o creme inglês e não tem quaisquer nutrientes, apenas açúcar para lhes estragar os dentes, mas os miúdos adoram gelatina e torcem o nariz ao creme inglês. É de loucos!
A mãe olhou para a enfermeira de crianças com desprezo.
— Sinceramente, Kits, às vezes és mesmo burra! A gelatina é apelativa, é fresca e não enjoativa… os miúdos preferem algo fresco a algo enjoativo… e adoram chupá-la por entre os dentes e senti-la derreter na língua. Além disso, o sol brilha através da gelatina e é muito colorida. E não tentes mudar de assunto, que é se tencionas ou não casar com Charles Burdum. Aconselho-te a parar de agir como uma donzela modesta e a aceitares.
Kitty sentiu que aprendera mais sobre gelatina do que sobre casamento… o que até tinha piada, mas não ajudava muito. A única coisa de que não tinha dúvidas era de que Charles a amava. Do que não tinha a certeza era se o amava ou não, e nada, até agora, a fizera ter a certeza de que não era capaz de viver sem ele. Grace sentia amor por Bear, e era isso que amparava a palerma da Grace, apesar de todos os seus erros.
O beijo despertara Kitty para prazeres que nunca experimentara com outros homens que a beijaram e parecia prometer o tipo de amante que qualquer mulher desejava.
No entanto, era preciso mais do que isso num casamento, e a situação do seu pai preocupava-a. Nunca o seu pai falou sobre ela, mas era algo evidente para as suas filhas. Um quarto de século irremediavelmente preso a uma mulher que não conseguia amar, cujos atos o humilhavam e envergonhavam amiúde, sem uma única vez ter dito em voz alta e admitido que não era a mais feliz das uniões. Para o papá, os votos eram sagrados, e Kitty não podia embarcar num casamento com menos seriedade que essa. Não era uma simples questão de fraqueza, era o medo de fazer aqueles votos e acordar na manhã seguinte comprometida com um homem cujo encanto e qualidades exteriores a tinham iludido.
Se não fosse rico, se não fosse um homem de sucesso, se não fosse tão autoconfiante, tão seguro de que a sua maneira de fazer as coisas era a mais acertada… O que é que ele tinha que a deixava tão irritada?
Kitty estava a ficar cansada, farta. Não sabia por que razão sentia que estava a lutar pelo seu direito à vida, só sabia que Charlie era como uma mó que a tentava esmagar levando-a à submissão, como um caçador cuja missão era aprisionar o seu gato-bravo — ela, que não era selvagem, nem um gato, nem dominadora!
Foi então que Grace convidou Kitty, juntamente com Edda e Tufts, para tomar o chá da manhã no seu novo alpendre.
— Não é maravilhoso? — perguntou ela conduzindo as suas irmãs para o alpendre com um enorme orgulho. — Bear e Jack fizeram-no para o meu aniversário.
O que antes não passava de um alpendre vazio, era agora um lugar envidraçado com cadeiras de verga pintadas de branco e inúmeros vasos com plantas, desde fetos luxuriantes a begónias em flor, e selhas com palmeiras kentia.
— Está virado a sul, por isso nunca apanha a luz direta do Sol — continuou Grace entre sons de aprovação e estupefação —, e Bear encontrou numa gare um pedaço de um telhado de vidro que pertencia a uma oficina de comboios. Jack ajudou-o a encaixá-lo no telhado do alpendre, para as plantas terem luz suficientemente forte para florirem. Adoro!
Grace sentou-se num enorme cadeirão, parecendo uma rainha.
— Tens bom gosto, Grace — disse Edda, carinhosamente. — Por dentro, a tua casa não tem nada que ver com as outras.
— Sentem-se todas — disse Grace com uma voz autoritária. — Antes de começarmos a tagarelar enquanto tomamos chá, quero falar sobre o dilema de Kitty.
— O que te está a fazer hesitar, Kits? — perguntou Tufs, sentando-se.
— O medo de perder a minha própria identidade, penso eu — respondeu Kitty. — Como posso explicar uma sensação, um pressentimento?
— Duvidas que Charlie te ame? — perguntou Grace.
— Não, nem por um segundo. — Kitty inclinou-se para a frente na sua cadeira pintada de branco, os seus olhos suplicando a paciência e a tolerância das irmãs. — Presumo que os meus medos se baseiem no que eu desconheço em relação à forma como a mente de Charlie funciona… não, não é isso! É o medo de que aquilo a que eu chamo amor seja diferente para Charlie. Serei eu um ser humano ou uma propriedade para ele?
— Um ser humano — respondeu Tufs de imediato.
As outras acenaram com a cabeça de forma enfática.
— Kitty, Charlie nunca escolheria uma noiva da mesma maneira que um colecionador de ícones russos escolheria outro para adicionar à sua coleção — disse Edda. — Ele reparou em ti e amou-te sem saber nada sobre ti… eu chamo a isso escolher com a alma. Se eu alguma vez conhecer um homem que sinta isso por mim, sou capaz de mudar de ideias e casar. — Edda sorriu. — Antes a química que a biologia.
— Não me ajudas nada — disse Kitty.
— Como a única perita no assunto — disse Grace, num tom de superioridade —, posso pelo menos oferecer-te esta pérola de conhecimento, Kitty. O casamento nunca é o que se imagina. É uma união, e não me refiro à parte física. Ambas as partes acordam casadas com um desconhecido… como poderia ser de outra maneira? Juntam as suas ideias, sonhos, dinheiro, mente, bem como os seus corações. Eu cometi erros terríveis muito cedo, principalmente devido à minha ignorância e por ter dado ouvidos a maus conselhos. Porque há bem mais dentro de uma relação que apenas o nosso ser. Se não és capaz de pôr o bem-estar de Charlie à frente do teu, então não deves casar com ele.
Edda olhava fixamente para a sua gémea, surpreendida.
— Meu Deus, Grace, aprendeste a lição! — Edda virou-se para Kitty. — Minha querida irmãzinha, nenhuma de nós pode decidir por ti. Isso, tens de ser tu a fazê-lo. No entanto, independentemente do que decidires, mesmo que corra tudo mal, nós estaremos sempre ao teu lado.
As lágrimas deslizaram pela face de Kitty.
— Obrigada, isso é tudo de que preciso — murmurou ela.
Grace deu-lhe um lenço de renda.
— Queres que as tuas damas de honor se vistam de que cor? — perguntou ela bruscamente.
Brian escolheu aquele momento para invadir a festa da mãe, com os dois braços à volta do irmão, que estava a tornar-se demasiado pesado para ele o levar ao colo, embora se recusasse a admiti-lo.
Eles eram, na opinião de Edda, os dois rapazinhos mais bonitos que ela alguma vez vira, ambos dotados de um temperamento meigo que nunca mudaria. Eram muito louros como o pai, com rostos lindos e olhos muito arregalados de um tom azul-pálido. Não tinham quase semelhanças com Grace.
A olhar para eles, Edda disse:
— Kitty, a vida nunca quis que te tornasses enfermeira de crianças. O teu destino é ter filhos! Minha querida, devias ter uma tribo inteira deles! Vejo em ti uma mãe perfeita, das mais perfeitas que existem: sensata, firme quando é preciso ser firme e terna quando é preciso ser terna, uma fonte de amor, carinho e segurança. Pensa nisso também.
— Concordo — disse Tufts, retirando o bebé John das mãos de Brian e aconchegando-o no seu colo. — Também tens de ter os meus filhos.
— Então — disse Grace, levantando-se em direção à cozinha — voltamos ao assunto da cor dos vestidos das damas de honor.
Independentemente da opinião das irmãs, aquele primeiro Natal da Grande Depressão chegou e encontrou Kitty ainda longe de aceitar a proposta de casamento de Charles Burdum. Continuavam a encontrar-se regularmente, mas algo mudara na sua relação: Kitty estava mais calma, menos irritadiça, parecia cada vez mais distante. Sensível à mais pequena alteração no seu comportamento, Charles começou a desesperar, sem, contudo, o deixar transparecer. Ele equacionava o sucesso em tudo, incluindo no amor, com uma força implacável; se mostrasse alguma fraqueza, Kitty desprezá-lo-ia, sobretudo dada a sua baixa estatura. Nunca deveria fazer nada que o fizesse parecer pequeno aos olhos dela… ele não era menos que qualquer homem de um metro e oitenta!
As ações de Charles desde que a crise económica começara, no final de outubro, tinham sido admiráveis, o que fez com que ganhasse uma boa reputação em Corunda. Não escondera de ninguém a sua intenção de usar a «arca de tesouro» do hospital para ajudar a combater o desemprego através da construção de um novo hospital, embora ainda fosse demorar algum tempo até as obras serem iniciadas. Como diretor do hospital, Charles fizera questão de estar presente em todo o tipo de reuniões públicas em Corunda e não tinha qualquer receio de dizer o que pensava das bancadas, mesmo quando a sua opinião causava furor.
Kitty aplaudia tudo isto. Charles não era apenas fogo de vista, estava a tornar-se um homem notável e influente nos assuntos de Corunda, para além dos do hospital. Sem dúvida que isto indicava que, por baixo da superfície polida, se encontrava um carácter genuíno, destemido, correto, inteligente, forte.
O reverendo e a esposa organizaram um jantar de Natal para a família, e as três irmãs enfermeiras estavam de folga até ao dia depois do Natal. Grace e Bear, Edda e Jack Thurlow, Tufts e Liam Finucan, e Kitty e Charles foram convidados.
Charles foi buscar Kitty e encontrou-a sozinha. Tufts e Edda já tinham saído.
Charles beijou Kitty de forma carinhosa, pegou-lhe na mão direita e fechou-a em volta de uma caixinha de pele.
— Feliz Natal, minha querida — disse ele —, e usa-o por mim. A guerra terminou, eu declaro uma trégua eterna. Não pode haver vitória nem derrota.
Mesmo sabendo o que se encontrava dentro da caixa, Kitty abriu-a, seguindo a tradição de Pandora. Parecia que o sol tinha entrado pela sala, o diamante disparava prismas flamejantes de todas as cores quando captava os raios de luz.
— Oh! — suspirou Kitty, perplexa.
— Tem apenas dois quilates — continuou ele —, mas é absolutamente perfeito, de primeira qualidade. Não consegui encontrar outra pedra tão perfeita, nem em Amesterdão.
A indecisão dissipou-se. Kitty estendeu a mão esquerda.
— Põe-me o anel no dedo, Charlie — disse ela.
— Aceitas casar comigo?
— Sim.
— Perdoas-me o atrevimento de ter escolhido o anel sem ti?
— Sim, claro que sim. É o teu anel que me dás.
O casamento teve lugar, com pompa adequada, na Igreja de St. Mark no final de janeiro de 1930. Charles tomou uma decisão que agradou a todos os convidados masculinos; Maude queria que todos vestissem fraque ou casaca e laço branco; qualquer uma das duas opções teria de ser alugada em Sydney, mas Charles decidiu que um fato de três peças seria mais prático. Que alívio!
Kitty usava um vestido de cetim até aos pés que terminava numa cauda em forma de leque, com um corte tão engenhoso que ninguém precisava de a segurar. Era debruado a pérolas minúsculas e muito mais simples do que Maude desejara. Kitty entregara-se completamente nas mãos de Edda.
As três damas de honor usavam vestidos cor de ameixa e bouquets de orquídeas cor-de-rosa. Maude teve de vestir algo extravagante com folhos, claro, mas mais ninguém o fez, o que estragou um pouco o seu dia.
Os habitantes de Corunda encheram a igreja e transbordaram para o exterior, por entre remoinhos e turbilhões de confetes coloridos que ali permaneceriam até os ventos fortes de inverno levarem os últimos discos de papel.
Visto que o reverendo não podia pagar uma grande receção e se recusava a deixar Charles contribuir, a cerimónia religiosa foi tudo o que os habitantes de Corunda puderam ver. Mais uma desilusão para Maude, cujos folhos de organdi cor-de-rosa, segundo ela, deveriam ter recebido mais atenção.
Devido aos tempos difíceis, os recém-casados não tiveram lua de mel; foram diretamente da pequena receção no presbitério de St. Mark para a Casa Burdum, a fim de começarem ali a sua vida de casados.
No início, as pessoas que não estavam envolvidas no mundo das ações e bolsas de valores pensaram que a crise económica era temporária, que se resolveria numa questão de meses. Esta atitude era especialmente predominante em Corunda, onde os efeitos da crise atingiram gradualmente os seus habitantes. Em Corunda, no início, os empregos não caíram como folhas de outono sopradas por um vento forte, embora os jornais documentassem que era esse o caso em cidades como Sydney e Melbourne. Protegidos da devastação inicial da Grande Depressão graças ao uso liberal que Charles Burdum fez do dinheiro do hospital, os habitantes de Corunda conseguiram manter os seus empregos ou arranjar novos.
Charles decidiu começar logo a reconstrução do hospital a um ritmo acelerado. Nunca lhe ocorreu que alguém visse a solução para o problema sob outra luz que não com a criação de novos empregos e pondo os homens de volta ao trabalho tão rapidamente quanto possível, embora devesse ter pensado melhor: ele fora criado na City de Londres. Só mais tarde parou para pensar que as teorias formais de economia apontavam noutro sentido.
Corunda tinha muitos carpinteiros, canalizadores, marceneiros, pedreiros, eletricistas, estucadores, artífices e jardineiros numa cidade famosa pelos seus jardins. Quando Jack Thurlow revelou a Charles a existência de um depósito de argila em Corbi, este agarrou a informação com voracidade: isto significava que a cidade se podia abastecer do material do edifício principal, tijolo, sem ter de recorrer à importação. Mais empregos!
Muitos, sobretudo funcionários do hospital, opuseram-se intransigentemente a Charles manter a antiga configuração do hospital com poucas modificações: o que os deixava descontentes era, claro está, o facto de terem de continuar a subir as velhas rampas. Visto que despendera muito dinheiro para encomendar uma maquete do hospital de primeira qualidade a uma empresa em Sydney, Charles podia apontar para um exemplo tridimensional e mostrar aos grupos de queixosos como seriam maravilhosas as novas rampas; contudo, nada conseguia converter aqueles que odiavam as rampas e a configuração antiga e com ar abarracado do hospital. Foi nesta altura que os habitantes de Corunda descobriram que Charles Burdum era um Burdum tão duro como qualquer outro na história da família e que tinha um lado feroz.
— Vocês podem queixar-se e lamuriar-se e lamentar-se à vontade — disse ele a duzentos manifestantes antirrampas bastante indignados na Câmara Municipal —, mas não me vai fazer qualquer diferença, nem a mim nem ao hospital. O Hospital de Corunda vai ser construído como mostra a maquete. Não vou pôr a segurança dos meus pacientes em risco para vocês terem elevadores ou monta-cargas ou lá o que lhe quiserem chamar… não estamos em Sydney! E se não começam a fazer exercício de forma voluntária, eu obrigo-vos! A construção do novo hospital neste formato garante empregos ao nível local, em vez de importarmos a maior parte dos materiais, até mesmo do estrangeiro! Corunda vai usar os empregos e a prosperidade que tem para se ajustar às circunstâncias e necessidades! Quer gostem quer não, senhoras e senhores, eu, Charles Burdum, sou o farol e a força motriz desta obra! Tenho uma série de esquemas na minha cabeça para tornar a configuração do hospital mais satisfatória do que parece para todos aqueles que odeiam dar mais um passo do que o necessário, mas não tenho qualquer intenção de desenvolver esse assunto convosco hoje… ou amanhã! Vocês não o merecem! Sintam-se gratos por terem emprego! Agora, vão-se embora!
— Isso — disse Kitty, dando-lhe o braço — não foi muito diplomático, Charlie. — Kitty sorriu abertamente e beijou-lhe a face. — Oh, mas adorei! Algumas pessoas nunca estão satisfeitas.
— O teu pai vai ficar quando souber que vou usar parte do dinheiro do hospital para construir uma ala e uma clínica no orfanato.
— Oh, Charlie, isso é maravilhoso! E cada vez mais necessário.
Embora tivesse sido em tempos um dos fuinhas do conselho administrativo, o reverendo Thomas Latimer transformara-se num leão feroz em defesa do orfanato. Uma mansão de estilo vitoriano, não muito diferente da Casa Burdum, fora impingida à cidade de Corunda como parte de um movimento que surgira por volta de 1890 e inícios de 1900; as crianças órfãs deveriam ser alojadas em locais rurais para aprenderem a trabalhar numa quinta, a produzir parte do que comiam e a respirar ar puro e livre de fumo. Consequentemente, estas zonas rurais recebiam crianças de todo o Estado, sendo o destino de cada órfão decidido por funcionários administrativos em Sydney. A maior parte destas instituições era dirigida por comunidades religiosas, mas a de Corunda não. Agora, com o machado da recessão a reduzir tudo o que era governamental a cinzas, o orfanato estava em risco. Quase todos os dias se via outra criança ser posta num comboio em Sydney rumo ao orfanato de Corunda, a rebentar pelas costuras.
Thomas Latimer tornou o orfanato a sua principal preocupação, demonstrando um talento raro para políticas (se é que se pode chamar assim) interconfessionais. Independentemente do que os habitantes de Corunda lhe quisessem chamar, em março de 1930 o reverendo conseguira afirmar a supremacia do Exército da Salvação na distribuição da sopa dos pobres e noutras áreas relacionadas, pôr todos os sacerdotes, pastores e padres a trabalhar na mesma equipa para o bem do orfanato, mães abandonadas, idosos indigentes e outras pessoas carenciadas. Monsenhor O’Flaherty tinha um coadjutor, o padre Bogan, que tinha um talento natural para a organização; graças ao reverendo Thomas, o padre Bogan assumiu o cargo de supervisor-mor de todas as ações de caridade, poupando assim repetições desnecessárias e jogos de poder religiosos que só desperdiçariam tempo.
Maude Latimer ficou assim com um rendimento muito mais pequeno e rigorosamente controlado, e percebeu que as suas queixas caíam em orelhas moucas.
— Deixa-te de lamúrias, Maude — disse o reverendo firmemente. — Não te falta nada, enquanto a estas crianças falta tudo, sem terem qualquer culpa disso. E, sim, Billy Marsyk vai praticar no piano do presbitério. O rapaz tem imenso talento.
— Imenso talento, o tanas! — lamuriou-se Maude a Tufts, que a visitou por obrigação no dia seguinte. — O porquinho fez chichi na minha jarra de vidro trabalhado!
— Bem, mamã, pelo menos não fez chichi no tapete — disse Tufts, com os lábios a tremer. — Eu acho que mostra que Billy até é bem-intencionado.
— Oh, és tão má como o teu pai!
— Vá lá, mamã, depois destes anos todos, já devias conhecer o papá melhor do que isso. O papá poupa todo o dinheiro que consegue para poder comprar sapatos de inverno para os seus órfãos. Eles não podem andar descalços durante o inverno de Corunda. Não reclames, mamã.
Maude levantou-se, indignada.
— Eu nunca reclamo! — Maude soltou uma gargalhada repentina e bastante sinistra. — Tens visto a minha bebé, a Kitty, ultimamente? Não é a menina mais bonita do mundo?
Apanhada desprevenida, Tufts ficou boquiaberta, tentando de imediato parecer normal, com receio que a mãe visse a sua reação. Aliviada, Tufts viu que Maude não reparara. O que a teria feito dizer tal coisa?
De saída, encontrou o pai na garagem.
— Papá — disse ela, depois de se cumprimentarem —, a mamã não está um pouco maluca? Já tinha reparado noutras coisas, mas ainda agora…
O rosto longo e atraente, que tanto lembrava Edda, fechou-se em copas, os olhos cinzentos… cautelosos?
— A tua mãe está bem, minha querida.
— Tem a certeza?
— Absoluta. Presumo que ela tenha dito alguma coisa sobre Kitty. Sim, bem me parecia. O casamento de Kitty afetou-a bastante.
— Mas ela sempre quis um homem rico para a Kitty!
— Os desejos são passageiros, Tufts. A realidade é algo diferente.
— Papá, a Kitty já não está no presbitério desde abril de 1926. — Tufts pousou a mão sobre o braço do pai. — A cabeça da mamã está a falhar um pouco e eu acho que tu o sabes.
Os jornalistas australianos tinham apenas uma forma de calcular a taxa de desemprego, pois ninguém no governo fazia estatísticas de coisas que lhes pareciam insignificantes. Contudo, um grupo de homens com emprego registava tudo; estes eram os sindicatos, para quem era importante conhecer as taxas de emprego. No início, cada sindicato não estava interessado em saber quantos membros de um sindicato diferente estavam empregados, mas rapidamente perceberam como era importante ter uma ideia global dos sindicalizados. A organização central mantinha um registo dos números, apresentados em percentagens, e nesta base os desempregados começaram a ser calculados.
Alguém decidiu que os trabalhadores sindicalizados constituíam metade da força de trabalho, visto que muitas pessoas com emprego não sentiam a necessidade de se associarem a sindicatos ou não gostavam de pagar as contribuições sindicais ou não tinham sindicato para a sua atividade profissional. Assim, os jornais e as revistas, sem outra alternativa, aplicaram uma regra de ouro: o total de desempregados era o dobro dos desempregados sindicalizados.
No final de 1929, talvez cerca de quinze em cada cem homens empregados já não tinha trabalho.
Com o desemprego vieram dificuldades horríveis, à medida que as pessoas iam sendo despejadas das suas casas por todo o país. Surgiram cidades inteiras de barracas na periferia das grandes vilas e de todas as cidades para albergar as mulheres e os filhos dos homens desempregados. Estes homens embrulhavam uma pequena seleção de pertences essenciais numa manta, chamavam a esta trouxa cilíndrica uma «trouxa de vagabundo» e faziam-se à estrada a pé, percorrendo por vezes milhares de quilómetros à procura daquilo que a Austrália não lhes podia dar: emprego.
Segundo os homens do governo e das finanças, a chave para ultrapassar toda esta miséria era algo conhecido como redução de despesas. Isto significava que nenhum órgão público (e a maior parte dos órgãos privados seguiram o exemplo) podia gastar dinheiro em nada, desde ordenados a obras: nada de novas infraestruturas, nada de novos empregos, mais cortes nos empregos existentes e grandes reduções nos ordenados. Uma ou duas vozes contestaram, defendendo que para sanar a Grande Depressão os órgãos públicos deviam gastar dinheiro em novas infraestruturas, mas em 1930 ninguém estava preparado para ouvir.
O emprego, e não a redução da despesa, era a solução, disse o renegado líder trabalhista da Nova Gales do Sul, Jack Lang, que também defendia que o governo australiano não devia pagar a sua dívida ao estrangeiro enquanto os australianos não tivessem melhores condições de vida. Ninguém, de nenhum estrato social, queria compreender que os governos, desejosos de modernizar e expandir, o tinham feito às custas do dinheiro estrangeiro e que no processo tinham incorrido em dívidas avultadas, que a crise tornara, de repente, impossíveis de pagar; na verdade, tinham hipotecado a sua gente, em vez dos bens imobiliários.