Agridoce

Colleen McCullough · Capítulo 4 de 7 · parte 1/4

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Agridoce

PARTE TRÊS: O Novo Diretor

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

PARTE TRÊS

 

O NOVO DIRETOR

Em abril de 1929, os três anos do curso de enfermagem terminaram. Edda Latimer, Heather Scobie-Latimer e Katherine Treadby-Latimer tornaram-se enfermeiras certificadas. Edda ganhara vários prémios e as três terminaram o curso com distinção.

Naquela altura, já não havia nada que desconhecessem no Hospital de Corunda, nem ala em que não tivessem trabalhado. A ala psiquiátrica era um pesadelo para esquecer, pois não havia muito a fazer por aquelas pobres criaturas senão fechá-las em celas acolchoadas ou em dormitórios… o hospício era um lugar de gritos, delírios, fantasmas deambulantes e homicidas maníacos.

Não apareceram estagiárias novas em 1927 ou 1928, mas naquele ano, 1929, matricularam-se oito, todas do West End. Com Edda no comando, as três falaram, discutiram, debateram e fizeram de tudo para tentar convencer as estagiárias do West End de que tinham, tinham de aproveitar o novo sistema, pois o antigo estava acabado. O futuro da enfermagem residia na obtenção de treino e registo; as enfermeiras não registadas seriam reduzidas a criaditas mal pagas sem qualquer tarefa interessante: apenas lá para lavar, limpar porcaria, levantar e virar pacientes, servir refeições… tudo sob a supervisão de uma enfermeira formada. Lena Corrigan, sempre líder das enfermeiras do West End e, no início, uma inimiga obstinada, também acabou por se aperceber deste facto e juntou a sua voz à das três irmãs. Com as oito estagiárias de 1929, veio uma concessão do Departamento da Saúde para a construção de um edifício com apartamentos para acomodar as enfermeiras. Para Edda, Tufts e Kitty, esta era a batalha mais importante a ganhar, pois daria às raparigas mais desfavorecidas uma oportunidade de abraçar uma carreira adequada sem as complicações masculinas associadas ao ensino numa escola ou a subserviência do trabalho de secretariado. As enfermeiras tinham um certo poder; qualquer paciente que passasse pela experiência de vida ou morte num hospital saía de lá respeitando-as, quer rugissem como dragões ou pairassem como anjos encantadores por cima da cama do hospital. Reais ou imaginárias, as enfermeiras eram inesquecíveis.

É óbvio que três novas enfermeiras traziam dificuldades. Como poderia um hospital distrital empregar as três? Esta tarefa era mais fácil agora do que fora em 1926 apenas devido à erosão do tempo: sete das enfermeiras mais experientes do sistema antigo do West End tinham-se reformado. Infelizmente, os seus salários não eram semelhantes aos das enfermeiras registadas. Além disso, o hospital sofrera uma reviravolta caótica em junho: um cataclismo inesperado e imprevisível.

 

O diretor do hospital, o doutor Francis Campbell, ocupava o cargo há vinte e cinco anos quando o ano de 1929 chegou, e esperava continuar a exercer as suas funções por mais uma década. Então, precisamente no momento em que as três enfermeiras receberam os seus certificados pelo correio, Frank Campbell morreu de ataque cardíaco quando se encontrava sentado à sua secretária, uma peça de mobiliário a que toda a gente pensava que ele estava colado, visto nunca ser visto em qualquer outra parte do hospital. Para Frank Campbell, o Hospital de Corunda era a sua secretária. Os horrores que o seu tipo de supervisão originavam ocorriam noutro lugar, por isso Frank não os via. Ninguém sabia se Frank sentira o ataque cardíaco, pois estava sozinho quando aconteceu, e não existia qualquer sistema de comunicação interna que pudesse ter usado para pedir ajuda. Recusara-se a instalar tal sistema por ser demasiado caro. A ele, saiu-lhe muito caro.

Os hospitais estavam sob a tutela do Departamento de Saúde do respetivo Estado, mas na maior parte das questões os hospitais governavam-se a si mesmos, sobretudo os não universitários situados nas áreas rurais. O conselho de administração do hospital tinha o poder de tomar decisões, incluindo preencher vagas de pessoal, estabelecer políticas e administrar fundos. O Hospital de Corunda tinha um financiamento avultado, seguro no banco sob a supervisão do conselho de administração: dinheiros que advinham de três quartos de século de doações e poupanças espantosas.

A decisão relativamente ao que fazer com as três novas enfermeiras foi adiada até ser designado outro diretor, deixando as Latimer em suspenso, com direito a usar o véu engomado de organdi, mas sem poder tirar o avental de enfermeira. Edda manteve-se o mais perto possível do bloco operatório, trabalhando no serviço de urgências dos homens. Kitty permaneceu na ala das crianças. Tufts oscilava entre a maternidade e as funções de enfermeira responsável do turno da noite, sendo que este último envolvia que percorresse as rampas e as alas com uma lamparina de querosene. Frank Campbell era demasiado sovina para comprar pilhas!

Então, de forma bastante inesperada, a enfermeira-chefe mandou chamar Tufts, que apareceu com o seu véu de irmã e avental de enfermeira.

— Penso que pode tirar o avental, enfermeira Scobie.

— Ainda não, enfermeira-chefe. Pode vir a ser útil. Os nossos deveres não são assim tão bem definidos para termos a certeza de que não vamos encontrar porcaria para limpar.

— Como queira. — O rosto suave e bastante inexpressivo da enfermeira-chefe refletia a sua habitual falta de interesse emocional. — Embora a sua futura carreira ainda não possa ser decidida, irmã Scobie, sinto-me suficientemente confiante para falar consigo sobre a direção que a sua deve seguir, mesmo numa altura tão conturbada como esta.

— Sim, enfermeira-chefe.

— Com pelo menos oito estagiárias a começar dentro de dez semanas, compete-me, como chefe do pessoal de enfermagem, tomar medidas imediatas relativamente à educação destas. Não concordei com os planos que o doutor Campbell formulara para elas e, não tenho problemas em dizer-lhe, irmã, que, depois da sua morte, os pus completamente de lado e comecei de novo. Depois de três anos neste estabelecimento, imagino que não tenha de lhe explicar as minhas razões para pôr de parte os seus planos?

— Não, enfermeira-chefe, não tem. Eu compreendo e estou radiante.

— Ainda bem! — A enfermeira-chefe recostou-se um pouco na sua cadeira. Estaria interessada no cargo de irmã tutora?

Tufts engoliu em seco.

— Isso dependeria, enfermeira-chefe.

— De quê? — A sua voz tornou-se fria.

— Do tipo de autoridade que o cargo acarretar. Se eu conseguir conceber um sistema de treino que satisfaça o conselho de enfermagem e que, ao mesmo tempo, incorpore vários aspetos relacionados com os nossos próprios valores, então estou interessada. Também criaria uma disciplina completamente nova, que iria para lá das ideias do que o conselho de enfermagem acha que uma enfermeira deve saber. É claro que lhe apresentaria todo o meu trabalho, bem como ao novo diretor do hospital, antes de o submeter a Sydney, mas nunca me tornaria um autómato que se limita a obedecer aos planos de outras pessoas. — Os enormes olhos dourados refletiam obstinação. — Compreenda, irmã, eu tenho os meus próprios planos.

Por alguns momentos, a enfermeira-chefe Newdigate não respondeu, a goma do seu uniforme rangeu mais do que o habitual… um indício de que estava a respirar fundo. Por fim, as palavras saíram, cuidadosamente pensadas e distantes.

— Pois bem, se a irmã Scobie não tivesse as suas próprias ideias, eu não a convidaria para ocupar este cargo. Dada a sua importância, podia perfeitamente justificar a importação de uma irmã tutora de Sydney ou Melbourne. No entanto, é preferível recrutar alguém de Corunda se houver um candidato apropriado, e eu acredito que a irmã Scobie seja a pessoa adequada para o cargo. Concordo com os seus termos.

— Então, eu aceito o cargo. — Tufts levantou-se calmamente. — Obrigada, enfermeira-chefe. Hum… há mais uma coisa.

— Por favor, diga, irmã.

— Vou precisar de passar bastante tempo a conferenciar em privado com o doutor Liam Finucan. A não ser que, é claro, pretenda usar outro médico para dar aulas e ensinar?

— Continuará a ser o doutor Finucan e não tenho qualquer objeção quanto a estarem os dois sozinhos numa sala. Ele agora é um respeitável homem solteiro… e seu colega — disse a enfermeira-chefe, secretamente adorando esta jovem esperta e bastante perigosa.

— Ainda bem — disse Tufts, e saiu.

 

Tufts encontrou as suas duas irmãs enfermeiras em casa a tomar chá com Lena Corrigan. Apesar de a irmã Marjorie Bainbridge ter sido designada irmã responsável pela acomodação e de se ter mudado para um apartamento no edifício novo das enfermeiras, ninguém se tinha dado ao trabalho de mudar as Latimer da sua primeira residência. Tinham agora a casa toda para si e um grau de conforto que as habitantes dos novos apartamentos das enfermeiras nem sonhavam. As recompensas de serem pioneiras.

— Tenho um novo emprego — disse Tufts, aceitando uma chávena de chá.

Todas olharam para ela, interessadas, mas Kitty falou primeiro.

— O quê?

— Irmã tutora, com estatuto de enfermeira-adjunta.

— Macacos me mordam! — disse Lena, ofegante. — Isso é que é sorte, Tufts! Que maravilha!

Entre abraços e gritos de felicitações, Tufts contou a história da sua entrevista. Edda mantinha-se sorridente e muito sossegada… Oh, não por estar zangada ou desiludida, todas sabiam, mas por pura alegria. A posição e a importância de uma mulher significavam muito para Edda.

— Lena, eu sei que as bolachas de aveia e coco do presbitério são muito mais saborosas que as bolachas de araruta, mas não vieste tomar chá connosco só para mergulhar as tuas bolachas em chá ou para ver de que cor era o batom da Edda… Também tens notícias — disse Tufts, já na sua segunda chávena de chá e terceira bolacha de aveia e coco.

— Certa como sempre, senhora Myrna Loy. Ela é a estrela de cinema com quem toda a gente na ala dos homens acha que tu és parecida, Edda. Kitty é sempre Marion Davies, mas geralmente andas de uma forma um pouco desajeitada…

— Conta-nos a tua novidade, Lena — disse Tufts perentória.

Lena ergueu as mãos, rendendo-se.

— Está bem, está bem! Eu também estive com a enfermeira-chefe e também recebi uma promoção. Depois de quase vinte anos como auxiliar…

— Espero que Frank Campbell esteja a arder nas chamas do Inferno! — rosnou Kitty.

— … a enfermeira-chefe arranjou maneira de me trazer para o seio da família como enfermeira oficialmente registada. Sou a irmã Corrigan e vou para onde o meu coração deseja… o hospício, como enfermeira-adjunta responsável.

Tal anúncio criou uma nova onda de alegria triunfante. Mais uma vitória para as mulheres e tão merecida! Contudo, desta vez, a descida das alturas foi atenuada por algum desânimo, embora todas as Latimer soubessem que a sua preocupação era um desperdício.

— Lena, após três anos, eu sei que adoras trabalhar no hospício, mas agora és uma enfermeira oficialmente registada e, com os teus vastos conhecimentos, podes escolher com que tipo de paciente queres trabalhar — disse Edda, com os seus olhos a ficarem de um cinzento-escuro por causa da ansiedade. — Tens a certeza de que não vais ficar maluca por passares lá tanto tempo? Não há nada a fazer com os pacientes com perturbações mentais e os psiquiatras não ajudam. Limitam-se a observar e a catalogar as diferentes formas de loucura. A enfermagem psiquiátrica é fisicamente perigosa, mas é-o ainda mais para o espírito. Pensa em toda a frustração!

Lena Corrigan, uma mulher esguia de trinta e poucos anos, tinha o cabelo encaracolado, ruivo-escuro, e os olhos praticamente da mesma cor. Era viúva de um homem que sempre gostara mais da bebida do que da esposa e não tinha filhos. Mais do que isso, as Latimer não sabiam. A orgulhosa e amarga Lena Corrigan.

— Que Deus te abençoe, Edda, eu conheço os perigos — disse Lena, a sua paciência inabalada, pois sabia que Edda tinha a melhor das intenções. — Os maluquinhos fascinam-me, é essa a questão, e agora que Frank Campbell morreu, existe a esperança de o hospício ter um psiquiatra e alguns tratamentos mais adequados. A enfermagem psiquiátrica nem sempre vai ser uma causa perdida. Eu sei que atrai algumas pessoas que são definitivamente mais maluquinhas que os pacientes, mas não é um dado adquirido. Se não puder fazer mais nada, vou manter registos pormenorizados de todos os casos… Um dia, observações como as minhas terão uma enorme importância. — Os seus olhos fogosos brilharam com um tom avermelhado. — Vou começar por baixo, tal como fiz enquanto auxiliar, altura em que dei tudo por tudo para tentar obter a minha formação. E agradeço-vos pela vossa ajuda, sobretudo a Edda e a Tufts. Vocês sabem ensinar!

— Enfermeira-adjunta responsável — disse Kitty. — Muitos parabéns, Lena, e pelo menos vais ter finalmente um bom salário. — De repente, Kitty saltou. — Oh! Ouçam meninas! A mamã contou-me um boato ontem.

— Sobre o quê? — perguntou Edda, parecendo aborrecida.

— Sobre o nosso novo diretor.

— É claro! O papá faz parte do conselho de administração do hospital — gritou Tufts.

— Quem? O quê? Onde? Quando? Porquê? E como? — perguntou Lena.

— Eu sabia que ia cativar a vossa atenção! — disse Kitty, soltando uma gargalhada. — Não, não é Jack Thurlow, Edda.

— Isso é óbvio, Kits. Quem é?

— Maude diz que ele tem um apelido famoso em Corunda e não é Treadby. Chama-se Charles Burdum, tem trinta e três anos e, até este cargo surgir, era diretor de grande parte da Manchester Royal Infirmary — continuou Kitty.

— Macacos me mordam! — exclamou Edda, franzindo o sobrolho, em seguida. — Isso é um disparate, Kitty. «Diretor de grande parte» mesmo! Queres dizer que ele era um dos seis diretores-adjuntos que se pavoneavam num dos hospitais mais prestigiados da Europa. — Kitty gorgolejou. — Diretor de arrastadeiras e urinóis!

— A mamã disse que ele estava «bem na vida»… o que quer que isso queira dizer.

Lena ergueu as mãos no ar.

— Oh, Edda, cala-te! O que eu quero saber é: que Burdum é ele? Um Burdum de Corunda ou um que trouxeram de nenhures com o mesmo nome? Tudo o que sei é que o velho Tom Burdum não tem herdeiros, exceto o bom samaritano de Grace e amigo das cavalgadas de Edda, Jack Thurlow. — Lena colocou a ênfase na palavra «cavalgadas».

Kitty tremeu de antecipação e continuou a contar o resto da história, certa de que cativara a atenção do seu público.

— Ele é filho do filho do velho Tom, acreditam? Quer dizer, toda a cidade de Corunda sabe que Tom e o filho tiveram um desentendimento bastante grave há sessenta anos e que Henry não só saiu de Corunda, mas também da Nova Gales do Sul, como era na altura… não havia Comunidade da Austrália há sessenta anos! Henry mudou-se para Inglaterra e nunca mais voltou a falar com o velho Tom. Há cerca de vinte anos, o velho Tom foi notificado de que o seu filho Henry morrera numa colisão entre dois comboios na Escócia… ao que parece, morreram dezenas de pessoas. A carta que o velho Tom recebeu dizia que Henry era solteiro e não tinha filhos.

— Sim, e toda a gente sabe que isso sempre amargurou o velho Tom, sobretudo depois de Jack Thurlow o dececionar — disse Lena.

— Bem — disse Kitty, triunfante —, a carta vinda da Escócia estava errada! Pouco depois de chegar a Inglaterra, Henry casou com uma viúva abastada e não precisava do dinheiro do velho Tom. Fundou uma companhia mediadora de seguros bem-sucedida, enquanto a família da mulher ganhava muito dinheiro a fabricar têxteis de algodão. Um filho, Charles, nasceu há trinta e três anos. A esposa morreu durante o parto e Henry ficou um pouco doido, de uma forma bastante inofensiva. Coube à família da mãe tomar conta do rapaz, Charles.

— Mas de certeza que o velho Tom não foi enganado no que diz respeito à morte de Henry? Isso é ridículo — disse Edda.

— Presumo que o acidente de comboio tenha sido uma confusão e que, quando as autoridades descobriram a identificação no corpo de Henry, não encontraram qualquer indício de este ter uma mulher ou um filho. Com a esposa falecida e a família dela desligada de Henry, ninguém desconfiou que ele estivesse no comboio. O apelido Burdum do rapaz passou despercebido enquanto era menor, pelo menos ninguém reparou. Simplesmente, depois do tempo legal sem respostas sobre Henry, as autoridades assumiram que o velho Tom de Corunda era o seu parente mais próximo e notificaram-no. Entretanto, o filho de Henry, Charles, vivia e prosperava no Lancashire. Frequentou os colégios de Eton e Balliol em Oxford, depois tirou o curso de medicina no Hospital Universitário de Guy. — Kitty fez um ar bastante malicioso. — Parece que a mamã já sabia a maior parte da história… pesquisou bastante sobre o doutor Charles Burdum quando ouviu falar dele há dois anos.

— Que disparate! — disse Tufts. — Maude já teria espalhado a história por aí.

— Não, ela decidiu guardar a informação para si… adivinhem porquê?

— Isso é demasiado fácil — respondeu Edda com um sorriso sarcástico. — Maude marcou o médico rico para teu futuro marido, Kits.

— Se houvesse um prémio para o melhor instinto, eras tu que o ganhavas, Edda — disse Kitty, com um suspiro. — Estás certíssima. — Kitty sentiu-se mais animada. — De qualquer maneira, temos imenso tempo. Os telegramas podem voar pelo éter numa hora, mas são precisas seis semanas para fazer a travessia de barco de Southampton até à costa este da Austrália. Além disso e em primeiro lugar, o conselho de administração do hospital tem de oferecer o emprego ao pommy, o que não seria uma decisão muito popular se o seu apelido não fosse Burdum.

 

A reação de Grace foi semelhante quando Edda lhe telefonou no dia seguinte. Edda encontrava-se de serviço no bloco operatório, que não estava movimentado, e Grace do outro lado da linha telefónica em Trelawney. Como se tornara mãe há pouco tempo, Grace desejava companhia… Porque seria sua obrigação criar o bebé, se Bear também tinha participado ao tirar as calças?

O lado de Edda que amava a sua gémea mais que tudo sentia-se muito feliz por saber que o casamento precipitado de Grace resultara tão bem; estavam os dois satisfeitos, dedicados um ao outro, ficavam inquietos quando passavam algum tempo separados e viviam para os dois filhos, Brian e John. Brian nascera a 2 de abril de 1928, e John catorze meses mais tarde, no dia 31 de maio de 1929. Embora Grace não tivesse gerado gémeos, os seus filhos tinham uma idade tão próxima que tudo indicava que iriam desfrutar de uma ligação afetiva rara ao longo da vida. Era evidente que Brian, um menino pálido que já falava e andava, adorava o irmão mais novo, agora com dois meses e de pele igualmente clara. É claro que havia muita gente que acreditava que esta proximidade de idades levaria ao ódio entre irmãos mais tarde na vida, mas as pessoas são mesmo assim.

O Hospital de Corunda substituíra a enfermeira distrital Pauline Duncan por um dragão feroz, a irmã Monica Herd, que acumulava as visitas domiciliárias aos doentes do distrito com as visitas às novas mães. Uma importação de Sydney, que adorava conduzir vários quilómetros para visitar pacientes, a irmã Herd era precisamente o que Grace precisava, tal como as enfermeiras da ala o tinham sido durante os seus tempos de enfermagem. Por outras palavras, a irmã Herd aterrorizava Grace de tal modo que ela limpava logo a porcaria feita pelo bebé e não deixava a situação da muda da fralda chegar ao ponto a que chegara na altura de Brian. O feito que a irmã Herd proclamava aos sete ventos era ter treinado uma criança a deixar as fraldas aos nove meses de idade: Grace trabalhava com afinco para conseguir esta independência, apavorada pelas visitas da irmã Herd… oh, aquela língua! Uma chicotada embebida em ácido.

— Bear vai receber outro aumento de ordenado — disse Grace enquanto tomavam chá e comiam bolos servidos com compota e chantilly. — Sinceramente, tenho tanta sorte! Os meus meninos estão mais avançados que os de qualquer outra pessoa com a mesma idade. Vivo numa boa casa e tenho um marido abstémio… oh, a maioria dos maridos bebe tanto que o dinheiro da casa é gasto em cerveja.

Edda acenou com a cabeça de forma desinteressada, habituada a esta gabarolice. No entanto, rezava para que pelo menos um dos seus sobrinhos tivesse em si um pouco de Edda, a fim de contrabalançar toda esta doçura e pureza! Bear e Grace estão bem desde que não haja problemas, mas como seriam capazes de lidar com uma situação adversa? Em seguida, Edda caiu em si e admitiu que a outra parte do seu amor por Grace se deliciava com a probabilidade de algo lhes correr mal. Esta era a parte de Edda que não amava Grace incondicionalmente; amava-a, sim, mas com limitações e restrições que se alteravam à medida que se apercebia de quanto Grace era incompetente, de quanto era estúpida . E de quanto Bear era fraco ao lado dela, o idiota!

Mesmo em relação a terem filhos, por amor de Deus! Bear dissera-lhe, de forma muito frontal (e o que é que isso diz sobre ti, Edda?), que desconfiava que ele e Grace eram o tipo de pessoas que conceberiam um bebé de quase todas as vezes que… bem, tivessem relações.

— Por essa razão, não vamos ter relações até termos condições para ter outro filho e, sobretudo, até Grace ter recuperado bastante. Isto significa — disse Bear com seriedade — abster-me até o pequeno John ser um pouco mais velho. Quando ele tiver dois anos, voltamos a fazê-lo.

— Discutiste isso com Grace? — perguntou Edda, irritada.

— Ela vai gostar da ideia. Oh, ela ama-me e, hum, adora fazê-lo. No entanto, uns quantos minutos de prazer podem ser seguidos por dois anos de confusão e tumulto e, como é bastante óbvio, Grace não vive muito bem no meio do caos.

— A maior parte do caos — disse Edda, de forma mordaz — é ela que o causa! Mas faz o que achares mais acertado, Bear.

Edda não mencionara mais o assunto depois disso, mas se Bear e Grace estavam mesmo a viver sem aquilo, não era por isso que o caos era menor. Grace simplesmente não se conseguia organizar.

— O que vais ser quando cresceres, Brian? — perguntou Edda à criança empoleirada no seu joelho.

— Condutor de comboios — respondeu ele solenemente, enquanto comia um bolo com compota e chantilly. — Mas de locomotivas grandes.

Edda desatou a rir.

— Porque será que isso não me surpreende?

— Eu e Bear levamos os dois à gare quando ele não está fora em trabalho — disse Grace. O seu olhar deslizou para ambos os lados, cinzentos e astutos. — E tu e Jack? — perguntou ela.

— O que tem? — retorquiu Edda, dando mais trabalho a Grace para apurar alguma coisa.

— Bem, vocês estão juntos, já o estão há vários anos. Mas nunca avançam muito, pois não?

— Eu não quero… avançar muito, como tu dizes, Grace. Eu não quero um marido nem filhos.

— Mas devias! — respondeu Grace, zangada. — Não percebes o quanto estás a tornar a minha vida difícil?

Os olhos de Edda eram sempre um pouco estranhos, mas por vezes tornavam-se desconfortavelmente ameaçadores, como neste preciso momento, ao fitar a sua gémea.

— De que forma é que eu tornei a tua vida difícil, minha querida? — perguntou ela num tom suave.

Grace sentiu um calafrio, mas uma vida inteira a lidar com Edda tornou possível manter-se fiel às suas ideias tempo suficiente para disparar a rajada que há muito queria disparar.

— As pessoas espalham boatos sobre mim e Jack Thurlow — disse ela, sem hesitar — e eu não gosto disso. Não se passa nada entre nós, porque ele é teu amigo, não meu. Agora, toda a gente diz que eu inventei que existe um romance entre ti e ele para esconder o meu envolvimento com ele. As pessoas dizem que a tua relação com Jack é uma mentira minha!

Edda beijou a testa de Brian ao pô-lo no chão e levantou-se.

— Azar, Grace! — disparou ela. — Se pensas que me vou casar com Jack Thurlow só para tornar a tua vida mais fácil de suportar, então podes esperar sentada! Tenta cuidar de ti mesma e talvez depois não precises tanto de Jack.

Na esquina de Trelawney Way com a Wallace Street, uma Edda muito irritada atravessou sem olhar a estrada e ouviu o som estridente dos travões de um carro.

— Jesus, Edda, quase te atropelei! — disse Jack Thurlow, pálido como a cal da parede. — Entra no carro, mulher!

— Vais visitar Grace? — perguntou ela, estranhamente pouco abalada.

— Ia, mas prefiro estar contigo. Estás ocupada?

— Tenho de estar perto de um telefone. Que tal irmos para a minha casa no hospital? — Edda riu. — Quando penso na conversa da enfermeira-chefe em relação a visitas masculinas na nossa casa quando começámos o curso há mais de três anos! Agora que já somos enfermeiras, ela não pode dizer nada.

Edda e Jack estavam juntos há um ano e esta relação fazia muito bem a Edda, que pesquisara bastante antes de enveredar pelo caminho com destino ao Pecado. A partir das suas fontes polinésias, indianas, chinesas e muitas outras, Edda descobrira o seu período «seguro» para ter relações sexuais e seguia-o de forma inflexível. Por sorte, o seu ciclo menstrual era muito regular, por isso deveria ser suficiente orientar-se segundo o período «seguro». Até agora resultara, o que lhe dava mais confiança no seu método, mas Edda jurara que não haveria desejo físico no mundo que a fizesse desviar-se do seu plano. Também se munira com uma dose de ergotamina, cuja função consistia em expulsar um feto nos primeiros dias, e mais do que isso não podia fazer.

— Estou muito contente — disse ela, pondo a chaleira ao lume.

Jack sorriu-lhe daquela maneira maravilhosa.

— Porquê, ao certo?

— Porque achas que bebemos um chá tão forte?

— Hábito. É uma droga legal.

— Isso é verdade!

— Porque estás tão contente, Edda?

— Conseguimos dissimular tão bem a nossa relação aos olhos de Corunda que toda a gente pensa que tu andas a dormir com Grace.

— Merda! — Jack endireitou-se na cadeira, de repente enraivecido. — Já devia saber! Grace? Grace é um dever, não é prazer!

Quando acabou de fazer o chá, Edda sentou-se.

— O que eu nunca percebi — disse ela, enquanto servia o chá — é por que razão Grace se tornou um dever teu. Ela não é tua parente.

— É difícil explicar isso a alguém tão eficiente e organizada como tu, Edda — disse ele. — Grace é uma daquelas pessoas que não é capaz de…

— Oh, eu sei bem! — interrompeu Edda, ressentida. — Mas antes de irmos estudar enfermagem, quando vivíamos no presbitério, Grace era organizada. Sabia sempre o que queria e o que fazer para o alcançar… até o meu pai reparou nisso, e era algo que irritava Maude várias vezes. Por baixo daquela máscara de irreflexão, existe uma Grace capaz de se organizar e de ser metódica. A questão é que ela consegue o que quer ao mostrar-se indefesa, por isso enterrou a velha eficiência que tinha no presbitério. A que profundidade? Não sei. Só sei que está lá, Jack. Acredita em mim, está lá. — Edda encolheu os ombros. — Grace enganou-te e fez-te pensar que tinhas um dever para com ela, mas a verdade é que não lhe deves nada. Tu trabalhas arduamente para Grace, e ela nunca te paga. Por outras palavras, fazes caridade. Em qualquer dos casos, continua a fazê-lo, meu amigo.

— Sim, um dever de caridade — disse ele, acenando com a cabeça. — Faz sentido. No entanto, não posso deixar que toda a gente em Corunda pense mal dela.

— Tenho uma resposta parcial para isso — disse ela.

— Não serias a Edda se não tivesses. Conta-me!

— Temos de nos tornar menos furtivos em relação ao nosso envolvimento, essa é a prioridade. Se toda a gente souber que andas a dormir comigo, os habitantes de Corunda terão de reformular a sua teoria relativamente a ti e a Grace. Sim, eu sei que é escandaloso termos relações, apenas pelo ato em si. Somos ambos solteiros e livres para amar.

— É o que eu chamo um «escândalo prístino»… suficientemente virtuoso em si mesmo — disse Jack, prestes a desatar a rir —, mas é tudo facilmente corrompido pela exposição à atenção humana.

— Por vezes desconfio que tiveste notas altas na escola, Jack. Vou ter de deixar o teu nome e número de telefone na central telefónica do hospital.

Jack finalmente desatou a rir.

— Isso vai fazer com que os rumores comecem, sem margem de dúvida!

 

Jack seria o amante ideal, dissera a Edda de dezassete anos, embora tenha sido apenas no final de 1928 que ela se apercebera disso e, por essa altura, guiava-se apenas pelo seu gosto. Não importava que não tivesse tido mais ninguém com quem o comparar: Jack sabia como lhe agradar.

Acontecera tudo de repente, de forma inesperada, sob a luz intensa do sol junto ao rio… qualquer pessoa os poderia ter apanhado! No entanto, ninguém apareceu e isto marcou o início da sua sorte, enquanto esta nova fase do seu velho relacionamento desabrochava na mais pura perfeição.

Estavam sentados lado a lado na relva, os cavalos amarrados a uma árvore, quando ele lhe tocou e a beijou com uma leveza exploratória que ela retribuiu de forma ardente assim que recuperou o fôlego. O beijo intensificou-se. Um desejo desconhecido espalhou-se pelo seu corpo, o que a levou a despir-lhe a camisa tão rapidamente quanto ele retirava a dela. Sem protestos, nem pretextos, sem fingimentos ou hesitação. Edda sentiu que o contacto do corpo nu de Jack sobre a sua pele era a melhor sensação do mundo, algo que ultrapassava os apalpões cegos de um cérebro ignorante. Lembrava-lhe a altura em que fora atacada pela cobra. Edda era suficientemente sofisticada para saber que a metáfora cobra/homem era muito popular no meio psiquiátrico. No entanto, isso não diminuiu em nada a enorme onda de prazer que a invadiu nem o que sentiu ao tocar aqueles músculos.

A sua sorte manteve-se: nada de gravidezes, pois o impulso dele ocorrera durante o período «seguro» de Edda. Após aquelas primeiras relações ardentes que ocorreram quase sem intervalo, Jack deitou-se de tal forma exausto que Edda, mais revigorada do que cansada, teve a oportunidade de lhe falar sobre o seu sistema contracetivo, todo organizado, mas sem qualquer razão de ser até aquele dia. A sua energia e lógica apanharam-no desprevenido, mas limitou-se a ouvir e, também não querendo bebés, concordou prontamente em limitar a atividade sexual aos períodos «seguros» dela. Na verdade, ficou chocado ao descobrir que Edda era virgem; dava a impressão de ser uma mulher experiente e vivida e tinha vinte e três anos. A pequena fraude! Contudo, já se preparara para aquele dia, o que a tornava uma virgem bastante rara.

Neste momento, Jack conhecia Edda o suficiente para lhe obedecer; se Grace precisava que o relacionamento deles se tornasse público, então assim seria. As repercussões mais graves recairiam sobre Edda, que certamente sabia o que a esperava. A própria reputação dele iria melhorar. Deste modo, Jack cooperou de bom grado em deixar todos em Corunda saber qual das irmãs Latimer andava a conhecer do ponto de vista bíblico.

Edda contou a novidade a Grace pessoalmente na sua visita seguinte e, magoando porque se sentia ferida, falou com toda a franqueza.

Edda não sabia bem que reação esperar, se bem que contasse que Grace ficasse muito satisfeita e que a amasse o suficiente para se sentir feliz por ela ter a oportunidade de desfrutar de companhia masculina.

O que Edda viu foi Grace retesar o corpo todo e uma expressão de raiva no seu pequeno rosto franzido… porquê franzido? Será que a pessoa por detrás dele encolhera? E por que razão estavam os olhos de Grace em chamas?

— Sua… sua cobra rastejante!

Uma Edda confusa recuou.

— Desculpa?

— Sua cabra! Traidora! Sua vaca egoísta! — gritou Grace, fora de si. — Porque tinhas de me tirar o Jack, de todos os homens que existem por aí? Não há suficientes para ti em Corunda?

Edda tentou conter-se, refreando desesperadamente o seu temperamento.

— A última vez que te vi, queixaste-te que todos em Corunda acusavam Jack Thurlow de ser teu amante e pediste-me ajuda para resolver isso. Fiz o que pediste. Corunda sabe com que mulher Jack Thurlow anda envolvido, e não és tu.

— Cabra! Roubaste-o de mim!

— Não roubei nada, sua menina estúpida! — disse Edda, com o seu temperamento prestes a revelar-se. — Jack era meu, não teu, sempre foi! Eu apresentei-to, lembras-te? Como poderia eu roubar algo que nunca te pertenceu? Tu tens marido e é um dos bons, deixa-me que te diga… por que razão precisarias de parte do meu namorado?

— Cabra! Ladra! Jack é meu amigo! Meu amigo! O meu marido aprova a nossa amizade e, se ele aprova, o que é que as outras pessoas têm que ver com isso? Deixa Jack Thurlow em paz, sua… sua cobra!

O pequeno Brian encontrava-se de pé, com os braços à volta do irmão mais novo, olhando para a sua mãe e para a sua adorada tia completamente desnorteado, os seus olhos azul-claros repletos de lágrimas por derramar. Nem Grace nem Edda repararam nele.

— Já percebi tudo — disse Edda, calçando um par de luvas vermelhas. Estava particularmente atraente nesse dia, vestida com um modelo dos novos, cintado e mais comprido, do mesmo vermelho belíssimo. Não tinha chapéu, preferindo deixar o mundo ver o seu cabelo negro com ondas imaculadas, penteado de acordo com as últimas tendências da moda, encaracolado nas pontas. O conjunto impressionara Grace, fazendo-a sentir-se desengraçada, paroquial, uma dona de casa mãe de dois filhos, presa numa rotina enfadonha.

A mala de Edda era de pele preta brilhante com um enorme laço vermelho à frente. Encaixou-a debaixo do braço e virou-se com os seus sapatos de salto alto pretos.

— Esta discussão é ridícula, Grace, e é por isso que a dou por terminada. O teu problema, irmã, é que és mimada e apaparicada por dois homens, um dos quais não tem qualquer elo legal contigo. Estarias muito melhor se eles não passassem a vida atrás de ti.

Grace abriu a boca, desatou a chorar e gritou; tal como Brian, igualmente ruidoso. Edda dirigiu-se para a porta.

— Outra coisa — disse ela, abrindo a porta —, escolhe melhor o teu público. A única coisa que as tuas lágrimas me fazem é querer dar-te umas valentes palmadas… com força! — E, com isto, saiu pela porta fora e desapareceu.

Quando chegou ao portão da frente, começou a tremer, mas havia demasiadas cortinas parcialmente afastadas para competir com as de Grace. Com a cabeça erguida, Edda desceu a rua com um ar decidido, lembrando-se entretanto de que não contara a Grace acerca do doutor Charles Burdum, que, segundo os rumores de Corunda, ia assumir a direção do hospital.

 

Apenas Tufts suportou bem aquelas semanas confusas e incertas entre a morte do doutor Francis Campbell e a nomeação do novo diretor do hospital, pois pairava sobre uma neblina opalescente de felicidade para a qual ninguém a preparara. À superfície, o seu novo cargo de irmã tutora não era muito exigente, pois teria apenas oito estagiárias para supervisionar, mas também via a oportunidade de treinar as enfermeiras do West End que restavam até acabarem por desaparecer. Pelo menos algumas compensariam o esforço. Era maravilhoso o facto de a enfermeira-chefe lhe ter dado margem de manobra suficiente para implementar as suas ideias, pois havia outras áreas em que a ação da irmã tutora podia fazer uma enorme diferença. Ninguém podia trabalhar no Hospital de Corunda durante três anos e não se aperceber do quanto o pessoal das limpezas e da cozinha eram indiferentes aos propósitos de um hospital. Tufts também queria mudar isso, fazer com que as empregadas de limpeza das alas percebessem o que era um germe e onde se escondia, fazer com que os cozinheiros e o pessoal da cozinha se orgulhassem de servir refeições saborosas que lhes valessem elogios. Os departamentos de limpeza e cozinha estavam sob a alçada de uma enfermeira-adjunta em idade de reforma, Anne Harding, uma daquelas relíquias de tempos passados que todas as instituições parecem guardar nos seus cantos escuros e poeirentos. Bem, tudo isto tinha de mudar. Já chegava de alimentar toda aquela gente por meia dúzia de tostões. Como é que ela iria arrastar todo o pessoal das limpezas e da cozinha para o século vinte?

Se um secreto brilho de calor habitava no seu coração, era porque a sua relação com o doutor Finucan fora reatada. Este sofrera durante dezasseis penosos meses com o seu processo de divórcio da forma mais discreta possível e emergira dele legalmente separado da sua mulher infiel e sem qualquer obrigação de lhe pagar pensão de alimentos. Apesar da decisão legal, Finucan dava a Eris uma mensalidade, não por fraqueza, mas por compaixão: não conseguia viver com a ideia de a sua parceira de quinze anos sair da relação com a perspetiva de viver consoante as decisões do seu amigo do momento.

— Fico feliz por lhe dares uma mesada — disse Tufts, andando de um lado para o outro no gabinete do patologista. — Oh, Liam, a que confusão deixaste este sítio chegar! Não costumavas ser tão desarrumado.

— Senti falta da minha assistente, mesmo nunca tendo sido oficial. Era capaz de matar a Gertie Newdigate — disse ele, observando-a.

Tufts soltou uma gargalhada.

— Gertie! O nome não tem nada que ver com ela.

— Não, mas foi provavelmente o que a motivou a ser tão mazinha.

— Como estão as coisas no laboratório?

— Vão bem. Depois de ires embora, dediquei-me a ensinar Billy a ser um técnico mais competente. Agora tenho um segundo técnico, Allen, que recebeu um treino melhor e é mais qualificado.

— Então, tudo o que eu tenho de fazer é organizar o teu gabinete.

— Sim. — Os olhos cinzento-escuros brilharam. — Guardei-o para ti.

— Que simpático da tua parte. Bem, vamos lá, homem, despacha-te! Organiza todos estes ficheiros por ordem alfabética e eu depois dou uma vista de olhos, decido se as etiquetas são as corretas e, depois, arquivo-os.

— Estás muito mais mandona, Heather.

— Tufts, não Heather. E, visto que eu agora sou uma enfermeira a sério, é claro que sou mais mandona. Tu e eu temos de organizar planos de treino de todos os tipos, mas não podemos fazê-lo até o escritório estar em ordem.

Finucan não mudara nada, concluiu ela à medida que a confusão desaparecia e dava lugar a uma nova organização formidável, bastante mais profunda do que qualquer outra que alguma vez levara a cabo. Era bastante necessária, se algum deles quisesse pegar num ficheiro, num livro ou num documento sem qualquer tipo de hesitação. O carpinteiro do hospital, que tinha muito tempo livre, deu por si mais ocupado do que alguma vez estivera em anos. Tufts encarregou-o de fazer móveis de arquivo para todos os registos de Liam. Visto que o trabalho lhe agradava e que gostava do doutor Finucan, o carpinteiro deu asas ao seu talento como criador de móveis e dotou o gabinete de Liam de lindos arquivos de madeira, todos de mogno claro.

— O que significa que — disse Tufts com um enorme entusiasmo —, quando acabar de organizar o gabinete, vai ficar muito mais elegante do que o do diretor. Gosto da ideia, por isso vais desembolsar algum dinheiro para eu comprar um tapete persa para o chão e algumas obras de arte reputadas para as paredes. Vou mandar os teus livros para um bom encadernador, vão ficar com um aspeto muito sofisticado com as lombadas e capas de couro e letras douradas.

À medida que cada diretiva era lançada, Liam acenava com a cabeça em silêncio, obedecendo de imediato. Ela tinha este efeito, a irmã tutora.

Tufts dedicava-se publicamente a Liam Finucan, com consequências bastante curiosas. Apesar do seu afastamento de dezasseis meses por causa do processo de divórcio, que limitara bastante a sua relação a nível pessoal, Liam e Tufts já eram amigos próximos e colegas durante tanto tempo que todo o pessoal do Hospital de Corunda sabia que não se passava nada de suspeito entre eles. «A Experiência» era um bom exemplo. Tufts encontrara outros dois homens do pessoal, cujo cabelo caía sobre os olhos e os cegava parcialmente, e comprou a cada um deles uma escova de cabelo Mason Pearson. Todas as manhãs atacava o bando de desgrenhados, combatendo o escalpe e os folículos de forma tão impiedosa que, à medida que os dias se tornavam semanas e as semanas se tornavam meses, o cabelo começara a crescer na direção oposta. Cada madeixa de cabelo dos homens era medida com um compasso no primeiro dia do mês e o comprimento registado num diário, juntamente com fotografias. Quando o inverno de 1929 chegou, a Experiência revelou-se bem-sucedida: as madeixas de cabelo já não os cegavam. Os seus dois outros ratinhos de laboratório foram dispensados pela irmã tutora, mas Liam nunca o foi. Tufts gostava imenso do projeto e refletia nos seus problemas e questões mais sérias durante a hora da escovagem. Toda a gente via isto como uma parte intrínseca de uma amizade muito especial e completamente platónica.

De forma bastante interessante, o único nome que não era mencionado na confusão de boatos era o de Tufts Scobie. Visto que ela era incrivelmente bonita, o seu ar de deusa Diana intrigava as pessoas quando a conheciam, embora quem a conhecesse há mais tempo soubesse que fazia parte da sua mística.

O homem que melhor compreendia a natureza de Tufts era Liam Finucan, que a amava com cada partícula do seu ser e nunca pensava nela simplesmente como «a Tufts». Talvez os seus quarenta anos o tivessem dotado de sabedoria suficiente para nunca declarar o seu amor ou talvez tivesse mais que ver com a sensibilidade única da sua alma. Qualquer que fosse a causa, ele amava-a num absoluto silêncio, que não o denunciava, mesmo apesar dos olhares fugazes ou dos pequenos, ainda que reveladores, gestos. Liam e Heather eram grandes amigos.

 

Os meses de inverno de 1929 trouxeram o pior período de mudanças alguma vez visto no Hospital de Corunda, com o conselho de administração a travar uma árdua luta com Manchester e o doutor Charles Burdum. Ainda não havia um novo diretor no hospital.

As irmãs mais novas (mesmo Tufts, com uma oferta sólida de trabalho) estavam no Limbo, o nome que Edda dera ao estado em que se encontravam por ser bom e abençoado, embora sem Deus; o diretor era o deus do hospital.

A incerteza quanto aos seus futuros pairava incessantemente… seria o novo diretor outro Frank ou o seu oposto? Edda começou a pensar que se devia ir embora, sobretudo devido à terrível discussão que tivera com Grace, que se estava a comportar como alguém que Edda nunca conhecera… na verdade, que Grace se recusava a conhecer! Oh, só de pensar que a minha irmã gémea me acusa de ser uma rameira! Inaceitável! Ela tornou-se uma peixeira que me lançaria para a fogueira como se eu fosse uma bruxa!

O diretor Frank Campbell fora um bota de elástico conservador, cuja única incursão no treino de enfermeiras, as Latimer, lhe fora imposta. As repercussões, como o facto de as enfermeiras do West End começarem a ser treinadas e registadas nestes novos moldes, sempre lhe desagradaram imenso. Campbell só via o aumento dos orçamentos para os salários das enfermeiras nos próximos anos. Sim, enquanto estagiárias ganhavam uma miséria, mas tinham de ser acomodadas, alimentadas, ensinadas e supervisionadas. Quando completavam o curso, tinham um custo muito superior ao das enfermeiras treinadas à moda antiga do West End. A última coisa em que pensou antes de morrer foi no facto de as oito estagiárias que iam iniciar o treino serem todas do West End: era o fim das suas enfermeiras a preço da chuva. Como se atreviam as enfermeiras do West End a fazer-lhe isto? Rameiras inúteis! Era bem provável que tivesse enveredado por este tipo de pensamento se não tivesse morrido entretanto.

O doutor Campbell já era diretor do hospital bastante antes da Grande Guerra e fora ultrapassado pela maior parte das novas técnicas e tratamentos. Aqueles que não lhe tinham sido impostos pelos seus dois cirurgiões mais antigos, pelos seus dois médicos de clínica geral mais experientes, pelo seu anestesista e por aquele eterno maçador, Ned Mason, o obstetra, não eram adotados; tal como a nomeação de um radiologista, cujo trabalho consistiria em gerir um departamento de raios X equipado com material de ponta, e de um psiquiatra para o hospício. Para o doutor Frank Campbell, a principal função de um hospital era manter os custos baixos e não incorrer em despesas novas em nome do progresso da medicina. Bah! Os hospitais eram locais para se morrer. Quem não morresse, tinha sorte. Os tratamentos apenas abrandavam o processo da morte.

Continuar: parte 2 de 4