Ao de Leve
Hontem, na praça de touros, houve uma ligeira
manifestação de desagrado á Familia Real. O rei não assistia ao espectaculo.
(Dos jornaes).
Falava-se muito das suas valentias, embora ninguem citasse d'elle uma façanha authentica, com testemunhas de vista. Era volumoso, e d'ahi concluiam que era forte; era gabarola; muita gente acreditava que elle tivesse nos musculos tanta força como na lingua. Contava elle que d'uma vez matára um boi com um sôco, e n'um dia em que passava rente a um acampamento de ciganos, armados de cacetes e espingardas, como percebesse que lhe faziam troça, desatou aos pontapés a toda aquella malta, pregando com o mais atrevido no alto d'uma azinheira que estava longe d'alli uns poucos de metros.
Os que melhor o conheciam, mofavam das suas farroncas; mas não faltava quem acreditasse nas{18} proezas de Ferrabraz, intrepido até ao sacrificio da vida, sem lhe bulir um cabello. Ora succedeu que um dia, vindo com a familia a caminho do arraial, n'uma aldeia da visinhança, alguem o preveniu de que se preparava uma emboscada, lá adeante, n'um cotovêlo da estrada antes de chegar á ribeira. E vae elle então, muito volumoso, pallido como se todo o sangue lhe refluisse ao coração, os cabellos em pé, como se visse deante de si a guela escancarada d'um leão com fome, apalpa-se como quem procura alguma coisa, e batendo no hombro da companheira:
—Vão lá andando, vão lá andando, que eu não me demoro; esqueceram-me os charutos.
Não voltou, está bem de ver, e no outro dia, quando lhe contaram o succedido, ameaçou o céu e a terra, espumando como um javali ferido.
—Se lá estivesse, rachava-os.
E pregou tamanho murro no cinzeiro de barro, que o fez em boccadinhos.{19}
Hontem o sr. Marquez de Soveral teve com El-Rei
uma conferencia de duas horas.
(Dos jornaes).
—Franqueza, franquezinha, ó coiso, essa historia da intervenção...
—Era pela certa. Hoje a politica é só de interesses, quem governa é a finança.
—Bem sei, governa a finança; mas olha que isso de intervir sem mais nem menos em negocios por assim dizer caseiros...
—Peço perdão; mas não se trata d'um negocio caseiro, nem mesmo d'um negocio exclusivamente nacional.
—Hom'essa! Queres então dizer...
—Quero dizer que em torno d'este negocio se formou uma atmosphera de interesses internacionaes...
—Olha que não tens publico, e essas lerias, cá para mim...{20}
—Cumpro o dever que me impõe a minha posição, e testemunho assim, dizendo a verdade inteira, sem restricções, a minha sympathia pessoal...
—Sim, senhor, és um artista. Vocês, os diplomatas, são como os homens de theatro—mesmo quando estão fóra do palco, representam.
—Julgava-me com direito a maior consideração da parte...
—Tambem eu julgava que me tivesses na conta de menos tolo. Não me conheces d'hoje nem d'hontem, para saberes que ninguem me faz o ninho atraz da orelha.
—O que? Pois...
—Qual historia!... Acreditei todas as lerias que me impingiste, com uma seriedade á altura das tuas prosapias...
—Não o fiz por menos respeito; o uso das formulas...
—É como o uso do cachimbo—faz a bocca torta. Sempre me sahiste um gajo!...
—Espero que não fique zangado...
—Peior... Essa agora não é de diplomata, é d'alarve.
—Sempre amavel!...
—Sempre justo. Mas falando agora de coisas serias. Tu achas que eu devo...
—Ora essa! Está claro que deve. Da fama ninguem o livra, e as honras sem proveito...
—E quanto achas tu...{21}
—Em negocio de tanta monta, nunca se pede de mais.
—Pois sim, tudo tem limites. Ahi uns duzentos contitos, mais vintem, menos vintem... Que te parece?
—Parece-me que, pedindo essa bagatela, dá provas d'uma grande generosidade.
—Bem se vê que não és tu quem tem de esportular as massas. Pois está dito; faço a coisa pelos duzentos.
—É como se lhes désse a elles trezentos e vinte, o que não é barro.
—Quero ser generoso...
—Do pão do nosso compadre...
—Pois sim, canta-lhe d'essas; mas se as coisas se complicam e me põem a viola...
—Qual põem! Chego ás vezes a imaginar que tem medo.
—Tu não me digas isso outra vez, olha que te ponho os queixos á banda. Eu nunca tive medo. Já d'uma vez, n'uma feira, se ergueu tudo contra mim, sem saber quem eu era, e não arredei pé, de cacete em punho, sem ninguem pelo meu lado.
—Bem sei, bem sei; mas se amanhã houvesse qualquer coisa, em menos de nada estavam alli os cavalinhos de pau, e tudo entraria na ordem.
—E se me puzessem a andar antes d'elles cá chegarem?
—Isso então era o diabo. Uma intervenção tardia,{22} depois do facto consumado... Mas é absurdo o suppôr...
—Será absurdo, será; mas, pelo sim pelo não, vou dobrar a parada. Os gajos repontarão?
—Que tem lá que repontem?...
—Está claro. Isto é como dizia o de Braga—ou comem todos, ou ha-de haver moralidade.{23}
S. M. a Rainha, acompanhada da sua dama de
serviço, andou hontem distribuindo esmolas no bairro de Alfama, sem se dar a conhecer.
(Dos jornaes).
Não queria que a conhecessem.
Abalava de casa, vestida como toda a gente, sem nada que pudesse chamar as attenções de quem quer que fosse. Era uma creatura como qualquer outra, e passava, como qualquer outra, no meio da geral indifferença. Os que a conheciam cumprimentavam-na—bons dias, minha senhora!—e os que a não conheciam nem sequer davam por ella. O passo meudinho, muito apressado, como quem marcha para um certo fito, sem se importar com o resto. Entrava aqui, entrava além, fazia o bem que podia, e nem esperava que lhe agradecessem os miseraveis a quem extendia a mão, deixando cahir uma esmola. Como não se sabia quem fosse, chamavam-lhe a Caridade. Envelheceu{24} muito, como toda a gente que teima em viver e morreu um dia, encarquilhada e secca, como a maior parte das velhas. Era a Caridade Evangelica.
Tempos depois, nos mesmos bairros pobres entrou de apparecer uma creatura exotica, dando nas vistas de toda a gente, obrigando a parar quem passava, para a fixar com attenção. O passo largo, muito lento, como quem não tem pressa, e que quer por força dar nas vistas. Entrava aqui, entrava além, como quem passeia um reclame, e gostava que lhe enchessem as mãos de lagrimas agradecidas os miseraveis a quem dava esmola. Como não se sabia quem fosse, n'um dia que ella passava, o passo largo, muito lento, quasi rythmico, dois miseraveis que a viam passar, como quem passeia um reclame:
—É a Dona Caridade?
—Não; é a Exploração da Miseria.{25}
O Principe Real faz immensos progressos nos seus
estudos, causando a admiração dos seus professores.
(Dos jornaes).
Era um prodigio, o garoto.
Contava a parteira que elle olhára para traz, quando nasceu piscando um pouco os olhitos ramellosos, como quem pretende ver melhor. Aos tres mezes, já tocava com os deditos côr de rosa nos bicos, pouco salientes, dos peitos da ama, pondo-os em erecção, para mammar melhor. Viam todos que era um pequeno muito talentoso, e um boccadinho brejeirote. Aos noves mezes dizia— bolas!—e foi essa a sua primeira palavra. Comia de tudo, antes de fazer o anno, e larachava com os creados finos, como se fosse uma pessoa grande. Era um prodigio, o demonio do garoto, d'uma precocidade verdadeiramente excepcional. Um familiar da casa perguntava d'uma vez ao medico, a proposito do fedelho— Naturalmente, um genio, doutor?{26} E o doutor, encolhendo os hombros em ar de duvida—Naturalmente um idiota!
Aos cinco annos já sabia tudo—quantas pernas tem um cão, quantas orelhas tem um burro, quantos rabos tem um gato. Era prodigioso, e cada dia que passava como que accrescia de muitos metros aquelle talento incommensuravel. Aos nove annos era um geometra como Euclides, era um historiador como Tacito, era um philosopho como Platão, era um pintor como Raphael, era um poeta como Camões, um romancista como Balzac, um cabo de guerra como Napoleão, um estadista como o sr. Lapin. A tal ponto lhe cresceu o genio, que já não havia espaço para o conter, a dentro das fronteiras nacionaes.
Foi então que se reconheceu a necessidade de o mandar para longe, onde fossem mais largos os horizontes, que os genios, como os gazes quando os comprimem além d'um certo grau, são eminentemente explosivos.
E porque era ainda muito novinho, sem experiencia do mundo, apezar do seu immenso talento, foi a familia com elle, e por lá ficaram todos—para bem de todos nós.{27}
«É melhor tratar d'outro oficio. O jornal ha de morrer
á falta de leitores, porque você terá geito para tudo, menos para jornalista.»
(Carta anonyma).
Oh! la pauvre bête!...
Era na verdade, um animal perfeito. De côr acastanhada, a anca alta, largo dos peitos, uma estrella branca na testa, talvez demasiadamente sellado, a perna delgada e nervosa, a cauda farta e comprida, era um burro que fazia parar quem passava, admirando-o, e succedeu a mais de uma beata, ferida de tamanha belleza e correcção, estacar no caminho das suas devoções, e não poder reprimir nas arcas santas do peito esta exclamação blasphema:—Benza-o Deus, como é bonito!...
Procopio então passava horas no enlevo do seu burro, afagando-lhe o focinho e alisando-lhe o pello, não consentindo que sobre elle poisasse uma{28} mosca, ou lhe manchasse a pelle acastanhada um grãosinho de poeira. Era uma especie de burrolatria, um culto religioso que lhe enchia a alma, dando-lhe todas as satisfações espirituaes que resultam para um crente da adoração do seu fetiche. E porque se lhe afigurasse que o burro não era, como os outros burros, uma simples cavalgadura, desatou a alimental-o com o melhor da sua mesa, dando todas as coisas boas e raras que encontrava na sua despensa ou se confeccionavam na sua cozinha. Mas nem o burro lhe pegava nos acepipes, nem ao menos se mostrava agradecido aos seus disvelos e blandicias. Procopio lamentava-se da sua má sorte, chorava a sua desdita, sempre amigo do seu burro, sempre idolatra do seu idolo, sempre adorando o seu fetiche. E como quer que um dia, desabafando n'um peito amigo, se queixasse da ingratidão dos burros, vae o outro, grande philosopho, com larga experiencia da vida, aconselha-o assim:
—A culpa é tua, Procopio, e de mais ninguem. O burro não foi feito para comer á tua mesa, como tu não foste feito para comer á mangedoura. Queres vel-o gordo, alegre, contente, a lamber-te as mãos reconhecido?
E como Procopio estendesse o pescoço, a beber-lhe as palavras.
—Dá-lhe palha, Procopio amigo...{29}
S. M. a Rainha visitou hontem o Hospital de S. José.
(Dos jornaes).
Estava perdida...
Começava a soffrer do peito, havia annos, e como precisava de trabalhar sempre, trabalhar sem descanço, para não vir a fome juntar-se á doença encurtando-lhe a vida, o mal foi augmentando constantemente, aquelle terreno sendo proprio para aquella vegetação, e as circumstancias ajudando como n'um bom anno agricola. Que era uma constipação, tinha dito o medico do monte-pio, n'uma visita em automovel, a trinta... réis a consulta. O certo é que as dores augmentavam-lhe, como se tivesse o peito mettido n'uma prensa; a tosse era funda, como se lhe viesse do mais intimo dos pulmões; manchas de febre punham-lhe nodoas vermelhas na cera do rosto emmagrecido, e sentia o sangue subir-lhe á bocca, em golfadas, que a muito custo reprimia. Despediram-n'a da fabrica,{30} incapaz de trabalhar, e como recuasse perante a morte, uma noite, a olhar as aguas do rio, foi á consulta no hospital, e ficou na enfermaria. Estava tisica.
Ninguem a visitava, porque não tinha ninguem, e como fosse naturalmente pouco communicativa, passava os dias e as noites a sentir-se morrer aos boccados, amaldiçoando a sorte que a fizera pobre, e attribuindo á miseria o descalabro da sua vida. Por maneira que naquelle dia, á hora do silencio, quando acordou do seu alheiamento, e sentiu perto da sua cama como um frou-frou de sedas, muito pallida, muito magra, quasi cadaverica, ergueu-se na cama como se a movesse uma mola, e fixando na visitante os seus grandes olhos negros, disse-lhe como na vehemencia d'um delirio:
—Não é verdade, minha senhora, que a sociedade é infame quando a uns dá o superfluo, sem dar a todos o que é preciso?{31}
S. M. andou hontem pelos bairros pobres
distribuindo esmolas no mais rigoroso incognito.
(Dos jornaes).
Que frio cortante, meu Deus!
O sol é como um brazeiro apagado, que ainda conservasse luz nas cinzas—uma luz fria e baça. O vento retalha-nos a cara, e põe nas pobres arvores sem folhas umas tremuras de velhinho, a esconder sob os farrapos as carnes enregeladas.
Que frio cortante. Deus do céu!
A miseria é insupportavel no inverno, porque tudo se conjuga para lhe dar uma agudeza de expiação, um requinte de pena biblica, sem laivos de misericordia. Não ha fogo no lar, não ha pão no armario, não ha cobertores no leito, ás vezes nem leito ha.
Que frio cortante. Senhor!
E é então que a Opulencia desce ao antro onde{32} agoniza o miseravel, pondo-lhe na mão ressequida o quanto baste para illudir a fome.
Mas porque haverá no mundo esta tremenda desegualdade, se lá nos altos céus existe uma justiça absoluta, e se existe cá em baixo uma vulgar noção do que seja a equidade?
Que frio cortante, meu Deus!
Dá vontade de morrer, para fugir d'este inferno, e ao mesmo tempo dá vontade de accender uma grande fogueira, a que se aqueçam todos os desgraçados.
Se os poderosos soubessem como se soffre no inverno! Ou não tirariam nada aos pobres, ou lhes restituiriam quanto lhes tiram, n'um desejo sincero e grande de fazer obra meritoria.
Mas elles nem sonham, meu Deus! como é horrivel a miseria no inverno.{33}
SS. MM. foram muito acclamadas na estação do
Rocio.
(Dos jornaes).
—Peço desculpa a V.ª Ex.ª mas como tenho umas continhas...
—Pois sim; mas eu já lhe disse que antes do fim do mez não posso pagar-lhe.
—É verdade que disse; mas como V. Ex.ª agora tem dinheiro...
—Qual dinheiro, nem qual carapuça! O sr. imagina que me morreu algum tio no Brazil, que apanhei a sorte grande, ou que levei alguma banca á gloria?
—Não senhor; não imagino nada d'isso. Mas como V. Ex.ª foi encarregado do vivorio, acho que pode muito bem regular já as nossas contas, para eu me não ver envergonhado com os meus credores.
—O sr. está doido, com certeza! Imagina talvez que se paga aquelle serviço á larga, pelo menos{34} com certa generosidade, como seria justo que se fizesse?...
—Como isso é feito, não sei eu; o que eu sei é que ao pé de mim estava um sujeito todo bem posto, de cartola, que deu apenas dois vivas, e abalou muito risonho esfregando as mãos, e a dizer para o companheiro:—já cá cantam dois mil réis. E toda a gente dizia por alli que V. Ex.ª tinha recebido um conto e duzentos mil réis para dirigir aquella manobra.
—Sim, senhor, para dirigir aquella manobra... e para pagar áquella gente. Imagina que se dão vivas de graça? Pois engana-se redondamente. Quem menos ganha, é quem mais grita, e ha menino que recebe as massas e fica mudo como um peixe.
—Mas V. Ex.ª bem vê que eu já tenho esperado muito, e, se o importuno agora, é porque me parece a occasião favoravel.
—Desfavoravel, é que ella é. Em primeiro logar, eu ainda não recebi a téca; depois tenho que pagar á minha gente melhor que das outras vezes, porque elles estavam falados para não se prestarem á coisa. Isto, meu amigo, foi chão que deu vinha. N'outro tempo, um diabo que enrouquecia a dar vivas, contentava-se com dois tostões, doze vintens, e ás vezes com um simples habito de Christo, ou uma commenda da Conceição. Vão lá agora acenar-lhes com isso, a vêr quantos lhe pegam!...{35}
—De maneira que...
—De maneira que o amigo terá de esperar mais algum tempo, e como realmente eu lhe sou grato, não quero que perca o freguez, tanto mais que o senhor trabalha bem. Lá me tem ámanhã, a escolher a fatiota da estação.
—Que pagará...
—Quando houver outra manifestação espontanea.
Resmungava o alfaiate, descendo a escada—Que grande pulha!
Dizia o vivographo, fechando a porta—Que grande idiota!{36}
Hontem a sessão teve de ser interrompida na
Camara dos Deputados, por causa do chinfrim. O sr. José Luciano mostrou-se satisfeito.
(Dos jornaes).
Durante muito tempo, por largos annos, o seu ar recolhido e severo deu a muita gente a impressão d'um pensador, alheiando-se propositadamente do mundo para melhor se engolfar nas suas cogitações. E porque nada resultasse das suas locubrações d'espirito, assentou-se em que aquelle vasio significava profundeza. Não era talvez um philosopho, mas era um homem d'Estado. E assim foi trepando a escadaria ingreme da carreira politica, sempre solemne, sempre severo, sempre recolhido, e sempre ôco. Não havia duvida possivel—estava alli um prodigioso talento, uma organização rara d'estadista, a que só faltava ter uma ideia e produzir um facto. Senão quando, um irreverente que attentou n'aquella austeridade de manequim,{37} n'aquelle ar funebre de cypreste, n'aquella fronte larga sem reverbero intellectual, um irreverente apontou-o á multidão, e gritou-lhe nas bochechas—é fundamentalmente estupido!
Por maneira que outro dia, apoz aquelle chinfrim no parlamento, quando o presidente do conselho ria, como quem se banha em agua de rosas, e a camara inteira se põe ao fresco, dominada pelo vago presentimento de que fizera o jogo do governo, o pobre grande homem, antecipando a amargura dos seus desastres, encostado á parede, como quem soffre uma vertigem, deixou cahir dos labios murchos estas palavras desconsoladas—Parece-me que fiz asneira!
E, pela primeira vez na vida, reconhecendo que fizera asneira, o grande homem se mostrou intelligente.{38}
A situação do rei é de cada vez mais grave. O unico
remedio ainda possivel é a abdicação.
(Nas entrelinhas dos jornaes).
Era uma conspirata.
Reuniam-se todas as noites fóra de portas, em casa d'um tasqueiro de boa reputação, homem de lettras gordas, mas de principios severos, incapaz de faltar á sua palavra, preferindo mil vezes a morte a uma vilania. De modo que para este não havia segredos, nem para a sua companheira, uma velhota gordunchuda que teimára em não ter filhos depois de casada, farta de os ter em solteira. Bem entendido, o tasqueiro não tomava parte nas discussões; mas quando elle entrava com o peixe frito e a caneca, de chinellas, com um lenço encarnado a chupar-lhe o suor da cachaceira, ninguem recolhia a fala ao buxo, porque se sabia que elle era incapaz de uma traição, ou mesmo d'uma imprudencia.{39}
Elle bem sabia do que se tratava; mas fingia não saber nada, correspondendo, com extremos de correcção, á penhorante confiança que tinham n'elle. Tratava-se de substituir um porco por um leitão, o que tudo vinha a dar n'uma tremenda porcaria. Mas os conspiradores mostravam-se encarniçados na sua ideia, crendo n'ella como nas pilulas Pink, ou no xarope da mãe Seigel. A unanimidade não era completa, e como uma noite resolvessem não sair d'alli sem assentarem em alguma coisa de definitivo, um d'elles lembrou que se ouvisse a opinião do tasqueiro, homem de lettras gordas, mas de principios severos, mais intelligente do que seria preciso para exercer a sua profissão, e discreto como um tumulo. Por maneira que quando elle entrou, o lenço encarnado a chupar-lhe o suor do cachaço, a travessa do peixe frito na mão esquerda, e na direita um formidavel cangirão, espumante de vinho verde, um dos conspiradores poz-lhe nitidamente a questão, e pediu o seu parecer:
—Eu cá, por mim, não entendo d'essas coisas; mas sempre ouvi dizer que a racha sae ao madeiro, e meu avô, que andou nas guerras, e soffreu primeiro por causa de D. Miguel, e soffreu depois por causa de D. Pedro, costumava dizer á gente, quando se falava dessas coisas—creio que ha uns reis peores do que outros; que haja melhores, não acredito.{40}
Diz-se que a questão politica vae ser tratada no
Parlamento com violencia, não se poupando ataques ao Chefe de Estado.
(Dos jornaes).
Se tivesse echo!...
Era positivamente uma obsessão; mas queria por força uma quinta que tivesse echo, e não se importava pagar esse capricho a peso de dinheiro. Deixára a Patria muito novo, e no Brasil, á força de trabalho e economia, a sorte ajudando um pouco, conseguira fazer fortuna. Todas as noites, ao fechar da loja, consultava o livro de razão, e como visse que os negocios lhe corriam bem, ganhando sempre, tomava o chásinho com torradas, entretinha-se um pouco com os garotos, e ia metter-se na cama tranquillo e satisfeito, como um patriarcha biblico. Sonhava então com a sua aldeia; via-se outra vez no modesto casinhoto em que nascera; encontrava-se de novo com os{41} rapazes da sua geração, e abalavam todos de restolhada, a caçar os ninhos ou a roubar amoras, este sem chapéu, aquelle sem jaqueta, e todos não lhe pesando o pé uma onça, quando o vinheiro se apercebia do grupo, e fazia estalar a funda ou rebentar uma escorva, no momento em que estes saltavam o vallado, para colherem uvas. O que fazia o principal encanto de seus sonhos, era a conversa com o echo, um echo muito perfeito que havia perto da aldeia, no sitio chamado das Antas. Já accordado, ainda lhe parecia que tinha realmente ouvido o echo—quem está lá!—e fechava os olhos, n'um esforço enorme de concentração, parecendo-lhe que talvez assim o ouvisse ainda. E então, principiava a obsedial-o aquella ideia do echo, que já ouvia mesmo acordado—quem está lá! —victima d'uma allucinação do ouvido. Por maneira que passados annos, voltando á sua terra, deitou-se a procurar uma quinta que tivesse echo, não se importando pagar o seu capricho a peso de dinheiro. Soube d'isso o Thomé Cantigas, e logo se poz a instruir o velho João, um creado que já estava na casa quando elle nascera, por maneira a funccionar d'echo quando lá fosse o brasileiro, com quem tinha a quinta ajustada. Ora succedeu então esta coisa curiosa:—quando o Thomé, em companhia do brasileiro, do escrivão e das testemunhas, para verificarem o echo, gritou com toda a força dos seus pulmões—Ó João!—o pobre diabo, escondido por{42} detraz d'uma pedra, ouvindo aquella voz tão sua conhecida, e sentindo acordar em si quarenta annos de obediencia e domesticidade, o pobre diabo respondeu n'um tom humilde—Meu senhor!
Imaginem agora que o rei chegava alli abaixo, perto de S. Bento, espectral como o principe da Dinamarca, quando nas duas camaras, que funccionam agora como dois bilhares, se joga a carambola politica, a maior parte dos parceiros esquecendo-se de dar giz no taco, picando as bolas ao contrario, e todos jogando pela tabella, como se não vissem a encarnada e fosse prohibido atirar-lhe para cima... Sim, imaginem que o rei chegava alli, sem ninguem dar por elle, e no mais acceso da balburdia, no meio encarniçado do jogo, gritava com a sua bella voz de barytono:—Que é lá isso ó seus gajos?
Quantas vozes deixariam de responder como o velho creado João, ouvindo, lá onde estava, por detraz de uma pedra, ensaiado para o echo, a voz do sr. Thomé, seu patrão de tantos annos?{43}
Vaidade das vaidades—tudo é vaidade!
Viera ao mundo com a mania de que tudo andava torto, e lhe competia endireitar tudo. Era assim uma especie de messianismo arte nova, que lhe hypertrophiava a personalidade, tornando-o impertinente. Todas as injustiças o offendiam, todas as asneiras o irritavam, pondo-lhe os nervos em tal estado de vibração, que seria facil romperem-se. Mas ao mesmo tempo essas injustiças que o offendiam, essas asneiras que o irritavam, eram a propria condição da sua existencia, todo o estimulo da sua actividade, a sua unica razão de ser. Que um bello dia entrassem as coisas na bôa ordem, o bem tendo vencido o mal, o amor tendo vencido o odio, a justiça tendo vencido a iniquidade, o direito tendo vencido a força, a verdade tendo vencido a mentira, que um bello dia se realizasse tudo isto, e elle encontrar-se-ia como homem que se desequilibrasse no espaço, sem ponto de{44} apoio, uma creatura que se visse sem ligações com o Universo, isolada como n'uma ilha deserta, um ser de geração espontanea, olhando para traz, e não adivinhando o seu passado, olhando para deante e reconhecendo-se sem destino. Considerava-se o ser por excellencia, a suprema vontade, a suprema intelligencia, a mais alta sabedoria, a mais extremada virtude. Tinha um calcanhar esse gigante, como o heroe da Iliada; mas o Páris, que pretendesse feril-o, escusava de molhar a setta em veneno, bastava que a molhasse em lisonja, que é uma droga pouco toxica e muito corrosiva. Succedeu-lhe um dia adoecer gravemente, e como lhe perguntassem, in articulo mortis, se não receava pela salvação da sua alma, respondeu, tartamudeando muito—Receio que me mettam no céo. Que tortura não será a minha se caio na mansão dos justos.
Por subscripção entre amigos, ergueram-lhe um mausoleu, coisa barata e modesta, e fizeram-lhe gravar na frontaria, em bronze amarello, estes dizeres biblicos:—Vanitas vanitatum, o que traduzido em portuguez quer simplesmente dizer:
—Ora bolas para tanta embofia!...{45}