Ao de Leve
Amanhã tem logar a abertura do congresso
republicano no Porto. Espera-se que o sr. D. Carlos assista hoje á tourada, no Campo Pequeno.
(Dos jornaes.)
—Está doente?...
—Pelo contrario, nunca me senti com tanta saude como agora. De certo, se estivesse doente, era natural que fizesse chamar um medico, e não o presidente...
—Sem duvida; mas chamado tanto á pressa, com a maxima urgencia...
—É que na verdade o caso é urgente. Não adivinhas do que se trata?
—Por mais voltas que dê á imaginação...
—Não vale a pena dar-lhe grandes voltas, porque pode transtornar-se. Sabes que dia é amanhã?
—É domingo.
—E sabes que ha tourada no Campo Pequeno?{75}
—Como não sou aficionado...
—Não sabias? Pois ficas sabendo agora. Ha tourada, e trabalha o Fuentes. Quer isto dizer que será uma tarde cheia. Como os typos estão lá para o norte, a palrar, eu resolvi ir aos touros ámanhã.
—Isso não pode ser! Eu não posso tomar a responsabilidade...
—Tomo-a eu, deixa lá. Em não apparecendo os cabecilhas, a arraia miuda não abre bico!
—Ahi é que está o engano. Aquella gente não se move por cordelinhos; pensa pela sua cabeça; tem iniciativa propria, e procede como lhe parece melhor.
—E tu imaginas que hei de passar n'isto a vida inteira?
—A vida inteira, não; mas por ora tem de ser assim.
—E se eu não quizer que seja assim?
—Se não quizer que seja assim...
—Como será então?
—Então... será peior!{76}
O teu amor e uma cabana!
Fôra uma loucura aquelle amor.
Tinham-se encontrado na Figueira, estava ella a banhos, e elle fôra alli de visita a uns parentes da Bairrada, que não via desde annos. Como se andassem pelo mundo á procura um do outro, apenas se viram uma manhã, na Praia, amaram-se doidamente, e foi milagre que não desatassem logo a tagarelar, tu cá, tu lá, e tomassem banho juntos.
Á noite, no Casino, a indispensavel apresentação, e logo se seguiu um pas de quatre, em que os dois eram eximios. Marchou aquillo tão depressa, que já eram noivos quando regressaram ao Porto, onde ella tinha os paes e elle o emprego, um modesto emprego de despachante, que lhe rendia vinte mil réis por mez.
Todas as noites ia falar-lhe, já recebido como da familia e sempre a encontrava encostada a uma pequenina mesa quadrada, um livro de versos na{77} mão esquerda, marcando a pagina com o dedo, e em toda a sua gracil pessoinha um ar de alheiamento e de sonho, que o fazia estacar á entrada da sala, n'um extase de devoto.
—Que languidez, Virgem Santa!
Casaram, está bem de ver, e foram padrinhos aquelles parentes da Bairrada, que elle tinha ido visitar á Figueira, onde ella estava a banhos. Ninguem a ensinára a trabalhar, e como elle só tinha o seu ordenado de despachante, uns vinte mil réis por mez, era impossivel metter creada, de modo que andava tudo desarrumado, a comida era mal feita, nunca estava prompta a horas, e quando uma rabanada de vento entrava pela janella, era como redemoinho correndo ao longo d'uma estrada poeirenta. Mas todas as noites, quando recolhia, farto de cuspir no café, ia encontral-a, como n'outro tempo, encostada a uma pequenina mesa quadrada, um livro de versos na mão esquerda, marcando a pagina com o dedo. E ao vel-a assim descuidada n'um grande ar de alheiamento e de sonho, toda a sua gracil pessoinha como que envolvida n'uma atmosphera de languidez quasi morbida, estacava á entrada da sala, como n'outro tempo, murmurando por entre dentes:
—Que desmazelo, meu Deus!{78}
Dio del oro, del mundo signor.
Noite de festa.
Tinham-se vendido todos os logares, e ninguem dispensava o seu bilhete como se fosse um decimo de loteria, com probabilidades conhecidas de sair n'elle a sorte grande.
—Compra-se uma cadeira!
—Ha quem venda uma geral ou camarote?
Eram vozes clamando no deserto... d'uma multidão compacta, junto ao guichet, todos sabendo que não entrariam, mas ninguem tendo a coragem de se ir embora.—Quem sabe? Uma familia que se enlutou á ultima hora, e manda vender o seu camarote; um honrado negociante que precisou de abalar para o Alemtejo, e manda vender o seu fauteuil.
Era noite de festa.
Havia flores por toda a parte; colchas ricas pendiam dos camarotes, em todas as ordens, de modo que a sala tinha assim, por virtude d'aquella{79} polychromia bizarra, um aspecto singularmente phantastico, em que se perdiam os olhos, n'um encanto. Mulheres ricamente vestidas, largamente decotadas, eram como fructos de carne em papel de seda, e formavam uma galeria de bustos sem egual, em que tivessem collaborado todos os esculptores de genio.
Era noite de festa.
Quando se ergueu o panno, sobre as ultimas notas da orchestra, pareceu que um jogo habil de espelhos transferira ao palco aquellas flôres magnificas que havia por toda a parte, aquellas colchas ricas que pendiam dos camarotes, n'uma polychromia bizarra, no meio da qual se destacavam bustos admiraveis de mulheres, como se fossem outros tantos peccados irresistiveis, servidos em papel de seda pelo demo tentador.
No segundo acto, quando Ella appareceu, foi como se uma corrente electrica, mysteriosa e divina, percorresse toda a sala, visto como todos se levantaram, n'um movimento egual e isochrono, para a mais amoravel e sincera ovação de que possa haver registo.
Muito fria, muito pallida, as lagrimas gelando-se-lhe a meio das faces apergaminhadas, um sorriso apagando-se-lhe nos labios resequidos, avança para agradecer, n'um automatismo quasi de somnambula, e logo recua, soltando um grito, deixando-se cahir, ao desamparo, n'um divan, que para alli tinham posto.{80}
Estava morta.
No escriptorio, verificando o producto da récita, n'aquella noite festiva em que havia flores por toda a parte, e, entre colchas d'uma polychromia bizarra bustos esculturaes de mulheres eram como grandes fructos de carne servidos em papel de seda, o emprezario commentava:
—Que raio de sorte! Já estavam passados todos os bilhetes para ámanhã!{81}
Quando o cortejo se dirigia da Egreja para o Palacio
uma bomba foi atirada d'uma janella, fazendo grandes estragos. Os reis nada soffreram.
(Dos jornaes, em telegramma de Madrid).
Emfim!
Acabavam de ligar-se para sempre, ella radiante de belleza, elle radiante de felicidade, os dois sonhando mil cousas loucas, n'uma ebriedade d'amor que os punha fóra do mundo real.
—Querida Eugenia!
—Querido Affonso!
Parecia-lhes pequeno o templo, para conter a sua ventura, e aquella multidão que os rodeava, fixando-os com muita insistencia, tinha assim os ares de quem espreita com inveja, e se compraz em ser incommodo. Por maneira que ao chegarem ao adro, ella radiante de belleza, elle radiante de mocidade, respiraram com muita força, e{82} teriam caido nos braços um do outro, ebrios de amor, se um grito de saudação, reboando pelos ares, não os chamasse á realidade!
Já no trem, por ahi fóra, marchando lentamente, como n'uma procissão, os ouvidos cerrados a tudo que não fosse o encanto dos seus proprios gestos intencionaes, elles architectavam mil coisas loucas na sua mente escandecida, e como que prelibavam o infinito prazer d'uma posse ardentemente desejada.
N'isto ouve-se uma explosão horrivel, e um grito formidavel de terror sae de milhares de boccas, n'um unisono perfeito. É um momento de confusão indescriptivel, e nem se ouvem os gemidos dos que sofrem, nem se dá pelas convulsões dos que agonisam, porque a attenção dos que não fugiram concentra-se totalmente n'aquellas duas creanças—ella radiante de belleza, elle radiante de mocidade, os dois ainda ha pouco sonhando mil coisas loucas, n'uma ebriedade d'amor, que os punha fóra do mundo real.
Estavam salvos.
A commoção fôra extraordinaria, sendo milagre que um estilhaço de bomba não tivesse reduzido aquelle idilio esponsalicio a um noivado de sepulcro—como se não fosse abominavel atirar para o nada uma existencia que alvorece.
—Yo te probaré hoy que soy digna de ser tu mujer.
Fôra realmente extraordinaria a commoção, de{83} modo que já no leito, sob a luz muito baça, muito tenue d'uma lampada ao centro da alcova, tendo ainda nos ouvidos o estrondo d'uma bomba que rebenta, e como que vendo alli, no isolamento d'aquelle ninho, creaturas que estremecem nos paroxismos de uma morte irremediavel, elle que mostrára uma coragem estoica no meio do perigo, recommendando a todos calma, mucha calma! No ha pasado nada, elle sente-se agora d'uma fraqueza infantil, quasi covarde, anniquilado como se entrára n'uma lucta com cyclopes. E então muito calmo, muito resignado, como quem acceita os fados, mordendo-lhe os beiços que ella estendia n'uma momice cheia de graça:
—Yo te probaré mañana que soy digno de ser tu marido.
E foi como se na virgindade d'aquelle leito repousassem duas creanças gemeas.{84}
O governo resolveu supprimir todas as gratificações
por serviços extraordinarios.
(Dos jornaes).
Iam alli implorar a protecção de S. Ex.ª.
—De que se trata então?
—Somos tres chefes de familia, tres honrados servidores do Estado que vimos...
—Está bem; mas o que desejam?
—Como V. Ex.ª sabe, acabaram as gratificações, e aquelle de nós tres que mais ganha não chega a ganhar trinta mil réis mensaes, sujeitos a descontos.
—Perfeitamente; mas os senhores são empregados...
—Saberá V. Ex.ª que da Alfandega.
—Ora é isso mesmo, da Alfandega. Eu não posso augmentar-lhes o ordenado, e como a verba das gratificações foi supprimida.
—Se V. Ex.ª dá licença...{85}
—Como a verba das gratificações foi supprimida, e não depende de mim restaural-a...
—Se V. Ex.ª quizesse ter a bondade de se interessar por nós, mesmo sem nos augmentarem os ordenados e sem restabelecerem as gratificações...
—A accumulação de serviços equivale a uma gratificação...
—Queira V. Ex.ª desculpar, mas tudo se arranjaria facilmente se o sr. conselheiro quizesse ter a bondade de nos tomar sob a sua protecção...
—É que não vejo maneira...
—O que nós pedimos é muito pouco, e não é preciso tiral-o ao Estado, ou a quem quer que seja.
—Em summa, o que é que os senhores desejam?
—Nós desejávamos ser nomeados... gatos da Alfandega.
—Gatos da Alfandega?!!...
—É verdade, sr. conselheiro, gatos da Alfandega. Isso daria uns 9$000 réis por mez, a cada um, o que seria uma ajudasinha para a renda da casa.
—Os senhores vieram aqui para se divertirem commigo?
—Ó sr. conselheiro, pelo amor de Deus! Nós viemos aqui implorar a valiosissima protecção de V. Ex.ª, juramol-o pela bôa saude das nossas mulheres e dos nossos filhos...{86}
—Gatos da Alfandega! Mas então os senhores perderam o juizo?
—Não, senhor conselheiro; o que nós perdemos foi a gratificação.
—Ou anda tudo doido, ou eu não sei onde tenho a cabeça. Mas o que vem a ser isso de gatos de Alfandega?
—Saberá V. Ex.ª que havendo milhões de ratos na Alfandega, sem respeito nenhum pelas mercadorias que alli se acham depositadas, e havendo todos os dias reclamações por causa dos prejuizos que estes causam, foi creada a corporação dos Gatos da Alfandega, para a sustentação da qual ha uma verba de proximamente trinta mil réis por mez.
—Está bem; mas se essa verba é para sustentação dos gatos...
—Desculpe V. Ex.ª; mas se esses empregados cumprem rigorosamente o seu dever, apanhando os ratos, não precisam que os sustentem, porque arranjam elles proprios os seus sustentos; e se alli estão só para receberem o ordenado, deixando os ratos em liberdade, não é justo que se gaste com elles um dinheirão, ao passo que honrados chefes de familia...
—Pois está bem; vou informar-me do caso e prometto-lhes interessar-me pelos senhores.
—Muito obrigado, sr. conselheiro, muito agradecido a V. Ex.ª
Tinham dito a verdade os honrados chefes de{87} familia, e porque o conselheiro não era homem que faltasse á sua promessa, foram os tres nomeados gatos da Alfandega, como poderiam ser nomeados secretarios do ministro, ou revisores do caminho de ferro.
Os verdadeiros gatos emigraram, e uma commissão de ratos foi cumprimentar os tres honrados chefes de familia, quando viram as nomeações no Diario do Governo.{88}