Ao de Leve

Brito Camacho · Capítulo 3 de 9

Páginas do PDF

Ao de Leve

Parece vingar a interpretação que attribue ao sr.

ministro das finanças a qualidade de portuguez.

(Dos jornaes)

 

—Contente que nem um rato, não é verdade?

—Não sei porquê...

—Não sabe porquê? Pois você chega ao ultimo quartel da vida sem saber de que terra é, e d'um momento para outro, sem trabalho nem canceiras, apparece cidadão d'um paiz glorioso, e guindado ás maiores culminancias sociaes, e ainda pergunta porque deve estar contente?

—Por certo. Não sendo d'uma patria determinada, eu podia tirar muito proveito de todas, conforme as circumstancias.

—Mas os seus direitos...

—Perdão; os meus direitos são os meus interesses, dada a minha qualidade de homem de negocios. Ter um certo direito, significa apenas, no meu entender, a faculdade de realizar um certo{46} lucro, da mesma fórma que ter uma certa obrigação significa uma perda. A equação da vida commercial faz-se com estes dois termos—ganhos e perdas.

—Está muito bem; mas parece-me que sob todos os pontos de vista o amigo ganhou.

—Isso é conforme. A operação, considerada nos seus resultados immediatos, e não olhando para além do momento actual, é de resultados vantajosos; mas...

—Mas...

—Mas o futuro a Deus pertence, e esta naturalização definitiva póde prejudicar-me muito, se ainda tiver necessidade de mudar de nacionalidade mais uma vez.{47}

 

O principe D. Luis Filippe restituiu ao thesouro o

dinheiro que lhe sobejou da viagem.

(Dos jornaes).

 

Era doida pelo neto; mas, se o tivesse junto de si, n'aquelle momento, pregava-lhe duas bofetadas.

Era aquillo um proceder de principe?

Não havia memoria, na sua familia, d'alguem ter restituido fosse o que fosse, muito menos dinheiro.

Raivosa, sentindo-se ferida no seu orgulho de raça, mordia os beiços até quasi sangrarem, e amarrotava nas mãos o jornal, com muita força, como se quizesse desfazel-o. Era de entontecer aquella vergonha.

De repente acalmava-se um pouco, como se entrasse n'um banho morno.

Quem sabe?

Talvez aquillo não fosse verdade. Dizem tanta{48} mentira os jornaes!... Ha gazeteiro que não vacilla perante a mais baixa calumnia, muitas vezes por interesse, algumas vezes por capricho, não raramente por maldade.

E logo mandou vir todas os jornaes d'aquelle dia, absolutamente todos, mesmo os que ella nunca lia, por saber que sempre alguma coisa traziam que lhe fosse desagradavel.

—Todos quantos se publicam em Lisboa, ouviste?

Pois em todos elles vinha a noticia, a vergonhosa noticia d'aquelle neto infamante, que ficaria luzindo como uma nodoa na pureza alvissima e até alli immaculada dos seus pergaminhos dynasticos.

Era doida pelo neto; mas se o tivesse junto de si, n'aquelle momento, era capaz talvez de um arrebatamento criminoso, atirando-o pela janella.

Vestiu-se n'uma pressa, sem olhar para o espelho, surda ás sugestões do seu coquetismo de carcassa. Iria procural-o, exprobar-lhe a sua baixeza, que nem mesmo os poucos annos poderiam desculpar.

Um principe, quando se trata de honrar as tradições dos seus maiores, é sempre de maior edade...

Pisava o primeiro degrau da escada, quando o neto subia quasi aos saltos, como de costume, a estender-lhe os braços.

—Ias sair, avózinha?

—Ia procurar-te.{49}

—Parece que não estás contente?

—E com razão.

Mal entraram na sala, apanhou um jornal, ao acaso, e, apontando a noticiazinha da restituição, perguntou-lhe:

—Isto é verdade?

O garoto desatou a rir, a rir desalmadamente, a fazer-lhe cocegas.

—É então mentira?

—Se é mentira!... Na verdade, avózinha, sempre te julguei mais intelligente. Restituir dinheiro! Sei honrar as tradições da nossa casa, pelas quaes tenho um verdadeiro culto.

Teve um grande suspiro d'allivio, como se lhe tirassem de cima um peso de cem arrobas. Apertou muito o neto nos braços e, tendo-o beijado loucamente, deixou-se cair no sophá, muito quebrada, como ao sair d'uma lucta.

E com os olhos fechados, a respiração alta, ofegante, murmurava para não ser ouvida:

—Estupida que eu sou! O pequeno era incapaz de semelhante infamia. Revejo n'elle toda a nobreza da raça.

E adormeceu.{50}

 

Passa hoje o primeiro anniversario deste jornal, dia

propicio á comemoração dos que foram nossos companheiros de lucta, e hoje luctariam comnosco, se a morte os tivesse poupado.

(«A Lucta»).

 

Morrer, dormir, sonhar quem sabe!...

A fogueira crepita no meio do bosque sagrado, e o ramalhar das folhas, cortando o silencio augusto d'uma noite de luar, é como a prece erguida aos céus por milhares de labios virginaes.

Morrer, dormir!...

Em volta ha uma turba alegre, como se alli fosse realizar-se um ágape festivo, os esponsaes d'uma nobre castellã com o pagem dos seus sonhos, reluzente de pedrarias, esplendido de mocidade.

Dormir, sonhar!...

A fogueira crepita erguendo uma chamma cónica{51} de uma regularidade geometrica, e um fumozinho branco, muito tenue, muito esparso, é como um boccado de gaze que alli estivesse preso á chamma, tocando-lhe sem se inflammar.

Morrer, dormir, sonhar, quem sabe!...

E mal o cadaver pousa na fogueira, crepitante e rútila no meio do bosque sagrado, logo sobre elle se lança aquella virgem loira e meiga, que uns padres druidas estavam ha pouco dispondo para a viagem de que não se volta.

Quem sabe!

Se n'esses mundos longinquos, para onde dizem que vão as almas, se conserva lembrança da vida que aqui tivemos, bem sabem vocês, queridos e inolvidaveis mortos! que é para nós de lagrimas este dia, visto que esta pagina é hoje um canto do cemiterio!{52}

A morte perdendo a foice

Creu sua força desfeita.

Disse-lhe um medico insigne:

Aqui tens esta receita.

 

Chamava-se Corvo, e era alfaiate.

Pouco trabalhava pelo officio, quasi sempre pelo campo, a caçar lebres ou perdizes, lá de longe em longe mettendo-se na jolda, e só então aventurando-se por aquelles mattos espessos, onde deixava metade da farpela, em boccados. A sua grande paixão, a sua mania de caçador era pelos pombos, á negaça. Abalava de casa muito cedo, o pombinho mettido na aljabra, o farnel mettido nos bolsos, a aguilhada ao hombro, a espingarda a tiracolo, e uma garrafinha de aguardente sem confecção, que o frio era de rachar, por aquelles dias molhados de novembro. Chegava ao sitio, circumdava os montados, n'uma extensão enorme, com a sua vista de lynce, e toca a fazer a choça, não fossem os pombos dar-se pressa de vir alli,{53} apanhando-o desprevenido. Ás vezes não matava nada; outras vezes matava quantos se faziam; mas sempre se divertia immenso, a puxar a negaça e a aperrar a caçadeira, não se esquecendo nunca de beijar a garrafinha da aguardente, que valia pelo melhor dos lumes, no desabrigo da choça, por aquelles dias gelados de novembro.

Ora succedeu que um dia, ao voltar dos pombos, chegando a casa, subitamente, o Corvo sentiu-se mal, horrivelmente mal, gritando que lhe accudissem. N'esse mesmo dia, áquella mesma hora, por assim dizer, n'aquelle mesmo instante, tinha chegado o medico novo, que ainda ninguem tinha visto. Correram a chamal-o, n'uma afflicção, que o Corvo sentia-se morrer e gritava como um perdido. Vae o doutor, muito solicito, observa o doente, faz uma receita, enche uma seringa e crava-a n'uma nadega do alfaiate, que não tugiu nem mugiu.

Estava morto o pobre Corvo, velho caçador de pombos, que durante largos annos, todas as manhãs, em dias gelados de novembro, abalava de casa para as montanhas, a aguilhada ao hombro e o farnel nos bolsos, sem nunca se esquecer da garrafinha d'aguardente, que valia por um bom fogo no desabrigo da choça, encostado a um sobreiro.

O caso fez barulho na aldeia, e como alguem lamentasse a perda de tão eximio caçador:

—Lá quanto a isso, perorou um mariola d'um{54} barbeiro, não vejo razão para se lamentar a gente. O nosso doutor parece ser homem de boa pontaria. Mal disparou a seringa, logo o Corvo enrolou as azas, como se fosse um pombo que se fizesse, e apanhasse a carga em cheio.{55}

 

O sr. ministro da fazenda ficou a trabalhar em sua

casa.

(Dos jornaes).

A ordem fôra terminante, e não admittia excepções; s. ex.ª não estava para ninguem, absolutamente ninguem.

Andava a estudar um plano geral de reformas, e, como tivesse de ir passar uns dias na provincia, queria deixar os seus papeis arrumados, cada coisa no seu logar, como n'um museu ou n'uma bibliotheca.

Fôra sempre uma creatura methodica, e em grande parte o seu talento, que ainda assim muitos negavam, era feito de trabalho e de methodo. Entrára na politica com uma bagagem de estudante, apenas preparado para no parlamento mandar uma representação para a mesa, e requerer que se desse a materia por discutida, a um signal do leader. Mas trabalhava muito, estudava muito, ambicioso de renome, atormentado pela obscuridade{56} em que vivia, mal supportando que os outros trepassem, subissem, servindo elle proprio de degrau a bastantes creaturas mediocres.

Um bello dia, quasi sem elle proprio saber como nem como não, fizeram-n'o ministro. E logo pensou n'uma larga reforma de serviços, remediando muitas insufficiencias, preenchendo muitas lacunas, pondo cobro a muitos escandalos.

Lá quanto a honestidade, reconheciam-n'a os proprios inimigos.

Colligira todos os elementos de que necessitava para a sua obra reformadora, e resolveu aproveitar aquelle dia para os classificar, em termos de servir-se d'elles com a maior facilidade e proveito.

Estava inteiramente absorvido n'essa tarefa, quando lhe apareceu junto da mesa um continuo, muito vermelho, muito atrapalhado, a revirar o bonet na mão, a querer falar, e não se atrevendo a abrir a bocca.

—Que ha?

—Um senhor que deseja falar a v. ex.ª

—Então eu não lhe disse que não estava para ninguem?

—É verdade, mas elle disse-me que se matava alli mesmo, á porta, se v. ex.ª não o recebesse.

Mandou entrar immediatamente.

—É você?...

—Sou eu. Sabe que o Chico está irremediavelmente perdido?

—O quê?{57}

—Talvez não dure 48 horas.

—Coitado! E a familia?...

—Ora ahi está. É por causa da familia que eu cá venho.

—Mas que posso eu fazer?

—Uma coisa muito simples—um adeantamento.

—Mas se elle está a morrer!...

—Por isso mesmo. Desconta pelo terço do ordenado emquanto viver.

—E depois de morto?

—Continua a descontar... no outro mundo.

E assim se fez.—Era uma bagatela de dez contos redondos.{58}

O sr. D. Carlos manda para o Salon dois quadros.

 

(Dos jornaes).

 

Era dia de assignatura.

Como de costume, na sala de espera, emquanto não chegava a hora, uns fumavam estendidos em sophás de molas doces, e outros falavam de coisas varias,—as occorrencias banaes da vespera, ou os successos provaveis do dia seguinte. Pelas janellas, abertas de par em par, entrava uma aragem fresca e quasi perfumada, tanto as flôres do jardim embalsamavam o aposento n'aquelle dia lindo.

Avistava-se ao longe o rio, d'aguas tranquillas, e lá para além da barra, empennachado de fumo, um navio cortava as aguas, sem estremeções, deixando atraz de si, como uma passadeira de rendas, um largo traço de espuma. N'isto abre-se uma porta ao fundo, e um homem apparece, de casaca, trazendo debaixo do braço, muito enrolado em papeis, qualquer{59} coisa que logo se adivinhava ser um quadro com a respectiva moldura.

Os que fumavam, estendidos em sophás de molas dôces, ergueram-se a cumprimentar, quasi envergonhados do seu á vontade, como n'um casino, e os que estavam á janella olhando para o rio, d'águas tranquillas, notando como corria leve um vapor que sahia a barra, empennachado de fumo, esses deixaram-se ficar onde estavam, baixando ligeiramente a cabeça, com cerimonia, nenhum d'elles sabendo quem era aquelle senhor.

—Não sei se incommodo v. ex.as...

—Ora essa! Por forma nenhuma.

—V. ex.ª é...

—O pintor da casa.

E logo poz em cima da mesa, procurando posição conforme a luz, duas telasinhas de meio metro, ricamente emmolduradas, uma reproduzindo um trecho de paysagem alemtejana, n'um entardecer d'agosto, e outra representando uma commissão de sardinhas vindo cumprimentar um goraz, pelos seus trabalhos maritimos.

—E V. ex.ª traz isto...

—São os meus decretos; trago-os á assignatura.{60}

 

O sr. D. Carlos tambem hontem não assistiu á

tourada no Campo Pequeno.

(Dos jornaes).

 

—Está aqui tudo?

—Creio que não falta nada.

Poz a mala em cima d'uma cadeira, para não estar a dobrar-se muitas vezes, e foi tirando peça por peça. D'ahi a pouco estava inteiramente transfigurado. As suissas assentavam-lhe na perfeição, e os oculos de ouro, com vidros sem grau, transformaram-lhe de tal modo a physionomia, que ninguem, mesmo dos seus familiares, o conheceria sob aquelle disfarce. As calças é que lhe ficavam um boccadinho justas nas pernas, e o collete, se fosse um tudo nada mais comprido, dir-se-ia ter sido feito para elle—por medida e com prova. Pegou na bengala, de castão de prata, poz na cabeça um Panamá, quebrado na frente, e carregou no botão d'uma campainha electrica.{61}

—Se não soubesse...

—De primeira ordem, não é verdade?

—Uma transfiguração á Rocambole.

—Obrigado pelo cumprimento; mas como tu é que me escolheste a farpela...

—Limitei-me a cumprir fielmente as indicações recebidas.

—De modo que não haverá perigo...

—Absolutamente impossivel conhecel-o, disfarçado como está.

—Pois olha, já que entrei n'este caminho, quero fazer a coisa completa. Has de comprar-me um bilhete de sol.

Quando entrou na praça, ainda as cortesias não tinham começado. Arranjou um logar ao pé da musica, e poz-se a fumar um cigarro ainda por disfarce. Á hora marcada, com uma pontualidade fóra do costume, a função principiou. Estava interessado, contente e ancioso, como se pela primeira vez assistisse a um espectaculo ardentemente desejado. Surprehendia-se a gritar com toda a força, quando o sol inteiro gritava e ainda teve o chapéu na mão, para o atirar ao redondel, enthusiasmadissimo com um cambio.

No intervallo, como não sahisse o visinho da direita, pedindo-lhe fogo, entrou a dar-lhe conversa.

—Vê-se que o amigo é amador.

—Como poucos. Isto é um divertimento real.

—Lá isso real...{62}

—Pois sim... Mas o rei vem aqui muitas vezes?...

—Vinha muitas vezes, é o que você quer dizer...

—E agora já não vem?

—Acho que cortou a coleta.

—Elle, afinal, tudo aborrece.

—Ora ahi está. E foi exactamente por ver que aborrecia, que elle deixou de apparecer. Sabe o amigo uma coisa? Tenho estado a reparar que você se parece...

Não acabou a phrase. Já o outro se tinha levantado, a fingir que alguem o chamava.

D'ahi a pouco, no mesmo quarto em que mudára de farpela, dava-se a um trabalho de mil demonios para se desembaraçar das calças, muito justas nas pernas.

—Ninguem desconfiou, é claro?

—É claro que desconfiaram. Um gajo que estava sentado ao pé de mim, se me não safo tão depressa...

—E disse-lhe alguma inconveniencia?

—Lá bem inconveniencia...

—O melhor, para outra vez...

—O melhor para a outra vez, é não ir lá. Corto definitivamente a coleta.

—E a quadrilha?

—Lá isso fica como estava.

E atirando com as suissas para cima da cama, a meia voz com despreso:

—Isto é que é uma cambada!...{63}

 

O sr. João Franco acompanhou o Principe Real á

festa das creanças, e pronunciou alli um grande discurso.

(Dos jornaes).

 

—Muito interessante a festa, não é verdade?

—Sim, foi interessante.

—Muitas creanças, muitas flores, um dia lindo de sol... Aposto que estava a saltar-te o pé para o meio do rancho, rindo e brincando como todos, como se fossem todos do mesmo collegio?

—Tu estás doida, avósinha? Comprehendo muito bem os deveres do meu cargo, e em nenhuma situação me esqueço de quem sou, e do que represento.

—Bravo, meu filho! gosto de te ouvir falar assim, porque isso me prova que serás um dia o representante illustre dos teus illustres antepassados.

—Assim o espero.

—Assim o creio. E falaste ás creanças?{64}

—Não, avósinha. Ninguem me disse para lhes falar, nem eu sabia o que havia de dizer-lhes.

—Por certo, não sabias; mas se isso fosse uma razão para não falar, muita gente estaria calada n'este paiz de palradores. Quem falou então?

—Houve só um discurso...

—Sim, está claro, falou s. ex.ª. E o que disse?

—Para te falar com franqueza, avósinha, eu pouco ouvi do que elle disse. Mesmo na minha frente estava um garoto vestido de marinheiro, muito interessante, que passou todo o tempo a fazer cocegas no pescoço de uma senhora muito gorda, de nariz abatatado, que estava adiante d'elle, na fila immediata. De cada vez que o rapazinho lhe passava um canudinho de papel, muito delgado, pela pennugem do cachaço, atraz das orelhas, a velha fazia umas caretas muito exquisitas, aflicta, com medo de perder a linha em momento tão solemne. Não imaginas como era divertida a velhota. Divertida e estupida, porque nunca desconfiou do garoto, que se encolhia todo para não desatar ás gargalhadas. De modo que...

—De modo que não ouviste o discurso de s. ex.ª.

—Não ouvi tudo, é certo; mas alguma coisa ouvi. Por exemplo, ouvi-lhe dizer que n'outros tempos os povos eram dos reis, e que hoje os reis são dos povos. Que quer dizer isto, avósinha?

—Quer dizer, meu filho, que n'outro tempo,{65} os creados recebiam ordens dos patrões, e cumpriam-n'as; hoje os patrões recebem ordens dos creados, e cumprem-n'as.

—Credo! Mas isso é o fim do mundo.

—Pede a Deus que não seja o fim da dynastia.{66}

 

O enterro de hontem foi uma extraordinaria

affirmação da força do partido republicano em Lisboa.

(Dos jornaes).

 

Estava inquieto, n'uma ancia por noticias, quando lhe foram dizer que estava o jantar na mesa.

Que teria havido!

Por certo o cortejo seria numeroso, mas aprazia-lhe acreditar que a manifestação, embora significativa, não fosse de molde a tornar ainda mais evidente o desprestigio do seu nome, já bastante desprestigiado. Esquecia-se de comer, e não despregava os olhos da porta, esperando vel-o apparecer a cada momento, portador da boa nova, dando-lhe a segurança de que era já outra a atmosphera da cidade, onde elle poderia respirar com desafogo, quando quizesse, farto de correrias fóra de portas, a monte como os leprosos na antiguidade, e como os criminosos ainda hoje, quando puderam fugir á justiça.{67}

Que teria havido!

Todos lhe notavam a preoccupação na physionomia transtornada, e todos sabiam o que lhe dava origem, a verdadeira causa daquelle mal-estar. De modo que o jantar ia correndo silencioso, quasi funebre, ninguem se atrevendo a arriscar uma palavra banal, o mais leve dito que pudesse desafiar o mau humor do pobre tomate recheiado. Fazia dó, mas ao mesmo tempo mettia medo, como se fosse um obuz carregado de grosserias, que uma creança maldosa pretendesse descarregar contra um homem delicado. Parecia aquella ceia da Lucrecia Borgia, em Ferrara, descripta por Victor Hugo.

De repente, abre-se a porta, e um reposteiro annuncia o homem. Estava-se nas fructas.

—Então?...

—Muito maior do que seria licito esperar. A cidade inteira, póde dizer-se, tomou parte na manifestação, grandiosa como nenhuma outra, d'essas que andam na memoria dos homens.

—De modo que o prestigio d'essa creatura...