Ao de Leve

Brito Camacho · Capítulo 4 de 9

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Ao de Leve

—Peço desculpa; o que atravessou a cidade,…

—Peço desculpa; o que atravessou a cidade, por entre alas compactas de povo, seguido de milhares de pessoas, não foi o cadaver d'um homem...

—Foi então?...

—Foi o prestigio d'uma ideia.

 

Ficou por instantes suspenso, como se lhe fugisse{68} o espirito para uma região de trevas. Logo voltou a si, como quem acorda d'um mau sonho, e acabando de descascar uma laranja, voltando-se para o peniculario que lhe ficava mais perto:

—Olha lá, ó marquez, dize aos teus collegas da cozinha que não deitem fóra estas cascas.

No outro dia annunciava-se uma crise em todos os jornaes.{69}

 

O rei, que hontem devia presidir ao conselho de

ministros, partiu para Biarritz, onde se encontra sua noiva.

(Telegramma de Madrid).

Pois se elle tem vinte annos!..

Queriam então vel-o amarrado ao throno, recebendo conselheiros e ministros, aturando reposteiros e mordomos, quando a noiva está alli, a algumas horas apenas da capital, chamando-o com insistencia de quem nada póde e tudo offerece porque tudo espera receber em troca.

Pois se elle tem vinte annos apenas!...

Talvez que no seu sangue toda a podridão d'uma raça; mas a mocidade é uma especie de azougue, capaz de fazer erguer um morto, dando-lhe uma vida ephemera.

Pois se elle é tão novo!...

Queriam então prendel-o alli, n'aquelle deserto de Madrid, aturando conselheiros e ministros, gente{70} da burocracia e bugigangas heraldicas, quando ella está a poucas horas da capital, talvez a alongar os olhos na direcção da Hespanha, na esperança de vel-o surgir na sua frente, radiante de mocidade.

Pois se elle tem vinte annos apenas!...

E estranham então vel-o partir como um foguete, abandonando as redeas do governo, doido d'amor como um Quichote real, para ir colher em Biarritz as promessas d'uma felicidade sem limites prelibando uma ventura sonhada.

Pois se elle é tão novo!...

Depois ella é tão bella!...{71}