As Ratices da Rattazzi
Capítulo III
benefico podia inspirar; em que os pacatos nomes portuguezes
foram profanamente assassinados, para cederem o logar muito
resignadamente, a outros d'origens incomparavelmente mais
honorificas, e significativas; finalmente, em que o delirio por vezes
tomou atroadora parte em manifestações febris!
Oh! não! não é possivel acreditar-se que tão amavel princeza,
assim prodiga, bemfaseja, protectora, obsequeiadora, galanteiadora,
tudo fizesse com intenções perfidas, com o estulto capricho de
abusar de todos os seus reconhecidos convivas, até ao ponto
nefando de os disfructar ignobilmente!...
A senhora Maria, convençam-se d'isso, não anda, de modo
algum, de má fé comnosco. Asseguro-o.
Ella trata-nos mal, convenho. Mas, porque demonio ha de a gente
ir logo pensar que seja puramente ella, uma pessoa tão boa, tão
galante?...
Bem sabem que em toda a parte ha máos... secretarios,
enganadores oraculos, perversos conselheiros, que podiam muito
bem aproveitar o ensejo de satisfazer odios pequeninos, ao prestar
á inoffensiva senhora as ajudas que ella confiadamente requisitasse
dos seus estomagos recompensados.
Antes de a criminarmos, é dever geral procurar perceber na sua
proza traquinas, o trilho lodoso d'algum machiavelico denunciador.
III
Não serei eu que, não obstante, a queira já absolver
peremptoriamente.
É certo que a questão está perfeitamente ás escuras, e portanto o
mais racional é indubitavelmente inculpar a princeza signataria,
deixando em paz qualquer assoprador, que aliás tem a attenuante
de ser convidado a entrar na insidiosa collaboração.
Por isso tambem eu agora quero atal-a só a ella,
desapiedadamente, ao poste da critica.
Foi debaixo d'esta pesada impressão, que quando o indignado
clamor publico me atirou ás mãos o famigerado livro, eu senti-me
dominar prodigiosamente por uma explosiva raiva contra a trossista
audaciosa, a quem votei logo uma aversão replecta de patriotismo.
Pois que! Era assim que a generosa escriptora se dignava atirar-nos
para o foco deslumbrante da civilisação moderna, para Paris!?... Era
de mais; tive ganas de ir ter com ella, para desaffrontar
cavalheirescamente a ultrajada dignidade nacional.
Mas passados os momentos d'arrebatamento intempestivo,
aquella retractação formal e cathegorica que já estava phantasiando
exigir-lhe, foi conscienciosamente substituida pela mais franca e
sonora gargalhada, que jamais eu dei!
Pois é lá razoavel que alguem dê importancia aos devaneios
phantasiosos da sr.ª Maria! Naturalmente aborrecida da sua vida
aventureira, empregou as pequeninas horas vagas a espandir sobre
o papel,—indefeso por seu mal, que bem envergonhado se havia de
achar—as tiradas portentosas da sua imaginação fertil, aproveitando de passagem alguns improvisos humoristicos, com que habilmente