As Ratices da Rattazzi

Ramalho Monteiro · Capítulo 7 de 9

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As Ratices da Rattazzi

Capítulo VIII

Haveria com certeza muita gente que o lêsse em família:—sorria-

se desdenhosamente d'um tal montão d'inexactidões absurdas, mas

com um desdem frio, e ao cabo de algumas horas de leitura, talvez

se enojasse ao ponto de o pôr de lado; lamentando apenas aquelles

tantos reis que n'elle empregára irreflectidamente, por curiosidade.

 

Mas assim, com um tal barulho!... Era uma avidez pasmosa, da

parte de todos, em ler desde a primeira á ultima pagina, a

maravilhosa obra da principesca Maria—na asneira.

 

Fallava-se d'ella em toda a parte, no theatro, na rua, no club, no

gremio, em familia, de visita; em toda a sorte de conversações. A

sua deleitosa leitura suscitou frequentemente largas, acaloradas

discussões: uns apoiavam destemidamente as opiniões

desmascaradas da princeza, talvez os informadores; outros

protestavam energicamente, fazendo rhetorica furibunda, com

gestos traductores da incalculavel indignação, que o seu limpido

amor patrio lhes suggeria.

 

Em summa, por fim, ainda hoje, é do bom tom fallar do livro da

Rattazi!...

 

VIII

 

Continuemos a imaginar os resultados inestimaveis d'aquelle

silencio funestamente desattendido, por uma leviandade

inqualificavel...

 

A sr.ª Maria Laetizia, Solms, Rattazzi e Rutte, e não sei que mais,

quando os innumeros exemplares do seu livro vieram para o explorado Portugal, havia de forçosamente seguil-o passo a passo,

com o seu terno affecto maternal, a ver com inexcedivel cuidado o

que lhe poderia acontecer. Supponho bem ser este um ponto que

não póde admittir duvida, porque todos nós nos interessamos

vivamente pelo que mais ou menos nos diz respeito, tanto mais

quando o objecto é, como o supracitado livro, filho querido das

nossas entranhas. (Não esquecer com isto que nunca femeas

pódem conceber, sem o respectivo auxilio productor dos machos).

 

De maneira que sua alteza—sua excellencia actualmente, e ainda

aqui se revela a sua nenhuma vaidade...—havia de portanto

procurar logo nos jornaes portuguezes, conhecer as impressões que

elle inspirava.

 

Com o succedido, é mais que natural, como já tive occasião de

presagiar aqui mesmo, que sua excellencia se risse expansivamente

da nossa ingenuidade quasi infantil, saboreando com as maiores

doçuras os recentes favos de mel da respectiva lua, que por pouco

a não allumia mais vezes do que a sua collega planeta o faz á terra.

 

Mas se ella se desse todos os dias á improba massada de

consultar os ditos jornaes, e os achasse sempre muito caladinhos,

mudos e serios, sem caírem na tolice inaudita de lhe popularisar o

nome—oh! então é que deveria ser bom vel-a, mesmo que fôsse à

vol d'oiseau!...

 

Se bem que já não seja das mais notaveis frescuras, murchava

completamente, e repelliria furiosamente horrorisada, os

supracitados favos.