Avaliação em Saúde: dos Modelos Teóricos à Prática na Avaliação de Programas e Sistemas de Saúde
2. Uso de modelos teóricos na avaliação em saúde: aspectos conceituais e operacionais
2 – Uso de modelos teóricos na
avaliação em saúde: aspectos
conceituais e operacionais
Maria Guadalupe Medina, Gerluce Alves Pontes Silva, Rosana
Aquino, Zulmira Maria de Araújo Hartz
Introdução
O questionamento sobre o papel desempenhado pela teoria no
campo da avaliação de programas de saúde põe, a nosso ver, a
necessidade de uma reflexão mais abrangente sobre o próprio papel
que ela desempenha na produção do conhecimento científico,
estabelecendo um diálogo entre a Epistemologia e o campo da
avaliação de serviços de saúde. Caberia indagar como este campo
se apropria dos termos teoria, modelo, modelo teórico e modelo
lógico e discutir qual o lugar do saber científico, do senso comum e
do saber prático na construção dos modelos utilizados.
A ciência é um modo particular de se produzir crenças que se
diferencia dos demais por colocar como suposto a noção do real,
isto é, “algo permanente e externo sobre o qual nosso pensamento
não pode incidir, que pode afetar os homens por igual, de modo que
a conclusão que se obtém referente a ele é a mesma para todos.
Há, portanto, coisas reais, cujos caracteres são inteiramente
independentes das nossas opiniões sobre elas” e que, além disso,
afetam os nossos sentidos de acordo com leis regulares; isto
significa que além da precedência de uma realidade objetiva, há que
afirmá-la como racional, e sendo racional, passível de teste
realizado com respeito a determinadas regras, válidas para todos os
indivíduos (SAMAJA, 1996) 1. Durkheim (1984) afirma que devemos
tomar os fatos sociais como coisas, separando os fenômenos em si mesmos das representações sociais que os sujeitos fazem a seu
respeito.
O conhecimento científico, produto da investigação científica,
resulta de um permanente ir e vir entre teoria e empiria, de uma
constante tensão entre o normativo – o universal, o endógeno, os
sistemas formais – e o constatativo – o observável. De uma
permanente mediação da experiência pela teoria e da teoria pela
experiência (SAMAJA, 1996). Até mesmo as opções técnicas mais
empíricas são inseparáveis das opções teóricas de construção do
objeto e, somente em função de um corpo de hipóteses derivado de
um conjunto de pressuposições teóricas, um dado empírico pode
funcionar como prova ou evidência (BOURDIEU, 1989).
Duas questões merecem ser assinaladas neste momento.
Primeiro, que essa mediação se faz como necessária porque o real,
o ”mundo dos fatos” não é passível de apropriação em sua
totalidade, tal como se manifesta. Como corolário, o objeto da
investigação científica é e não é o real, ou seja, é o real, mas não tal
e qual ele se apresenta; é o real recortado, reduzido ou
transformado por algo que informa sobre o real, por um arcabouço
conceitual, por um sistema de idéias, por um construto sobre esse
mesmo real. “Temos um mundo de certezas do qual sempre
partimos, inclusive para dar sentido ao nosso assombro filosófico e
nossos interrogantes científicos” (SAMAJA, 1996).
A produção do conhecimento científico opera a partir de rupturas
com o senso comum num processo de investigação que requer o
exercício do rompimento das adesões mais profundas e mais
inconscientes do sujeito, onde o pesquisador busca substituir as
suas impressões particulares sobre um determinado objeto por um
corpo de conhecimentos tão independente quanto possível de sua
relação primitivamente estabelecida com o mundo social. Isto não
significa a negação pelo pesquisador de sua própria experiência
prática, da qual, inclusive, ele extrai um conjunto de saberes, mas
sim, de tomar esta experiência como uma informação, no sentido de
que ela deve ser compreendida, completada, retificada e
reinterpretada. O pesquisador deve apreender seu ponto de vista
enquanto um ponto de vista, ao mesmo tempo desconfiando e tomando em consideração sua experiência (BACHELARD, 1996;
BOURDIEU, 1989; PINTO, 1996).
A objetividade dos objetos científicos é indissociável do ato de
objetivação: objetivar o objeto e o observador objetivando seu
objeto, exercitando a vigilância epistemológica do processo de
investigação científica em diversos níveis (BACHELARD, 1996).
O objeto da ciência é, portanto um objeto construído que mescla
componentes empíricos e componentes teóricos que é, por suposto,
inteligível, passível de investigação, o que pressupõe a possibilidade
de descrição de seus componentes e a possibilidade de sua re-
elaboração segundo alguma racionalidade (SAMAJA, 1996).
Podemos dizer que o objeto da investigação científica é um
construto da realidade passível de modelagem. Modelizar significa
representar o objeto, seus movimentos e suas relações tendo por
referência uma construção teórica: a teoria do objeto-modelo.
Segundo Bunge (1974), o passo inicial para a conquista
conceitual da realidade é, paradoxalmente, a idealização. “É o
nascimento do objeto-modelo ou modelo conceitual de uma coisa ou
de um fato”. O objeto-modelo representa os traços-chave ou
essenciais de um objeto completo. Não se trata aqui, ainda, de
representar um sistema de idéias (teoria) particular. O conceito de
modelo aqui tomado, nesta etapa, é a de representação
esquemática de um objeto completo e não de modelo enquanto
sistema hipotético-dedutivo particular, ou seja, de uma teoria relativa
àquela idealização.
Como representação esquemática de uma idealização, o objeto-
modelo deve ser, ao menos em parte, convencional, e
necessariamente reproduzirá as características comuns a classes
de fatos ou de coisas, perdendo-se, com isso, a individualidade de
um fato ou de uma coisa, mas, permitindo, por outro lado, a
representatividade de toda uma classe de coisas ou de fatos
(BUNGE, 1974).
Despido de uma teoria que o suporte, o objeto-modelo, por si só,
não auxilia muito o processo de investigação científica. Assim, ao
primeiro movimento – da intuição – há que se agregar uma segunda
condição ou qualidade: a razão. Há que dotar o objeto de certas
propriedades passíveis de serem tratadas pela teoria. Há que enxertá-lo de uma teoria suscetível de ser confrontada com os fatos.
De acordo com Bunge (1974), este é o segundo passo a ser dado
no processo de conquista conceitual da realidade: a construção da
teoria do objeto-modelo ou, em outros termos, a elaboração do
modelo teórico.
Modelo teórico é, pois, um “sistema hipotético-dedutivo que
concerne a um objeto-modelo, que é, por sua vez, uma
representação conceitual esquemática de uma coisa ou situação
real ou suposta como tal” (BUNGE, 1974).
Os objetos-modelo, portanto, fazem parte das teorias científicas e
os modelos teóricos encerram objetos-modelo. Vale ressaltar que,
ainda que seja possível, ou mesmo desejável que se represente os
modelos teóricos através de diagramas, ou de símbolos, é imperiosa
a descrição das idéias, dos enunciados que compõem a teoria
específica, pois “os componentes das teorias são idéias e não
imagens” (BUNGE, 1974).
Assim, o modelo teórico é uma teoria específica de um objeto
suposto real, constituída por uma teoria geral enriquecida de um
objeto-modelo. Para esse autor, esse movimento de enriquecimento
da teoria geral com um objeto-modelo significa o estreitamento do
domínio de ação da teoria geral e a possibilidade de torná-la
verificável. Neste sentido, nenhuma teoria geral é verificável, exceto
através da mediação de teorias específicas que a têm de suporte e
que estreitam o seu domínio. Isto não significa, contudo, que a não
comprovação de fatos relacionados a uma teoria específica invalide
a teoria geral, uma vez que isto pode implicar tão-somente a
necessidade de complexificação da teoria específica ou a
modificação do objeto-modelo (BUNGE, 1974).
Na mesma linha, Almeida Filho (2000) refere que na produção do
conhecimento científico, os objetos de conhecimento seriam
operados como objetos-modelos, isto é, figuras capazes de
instrumentalizar o pensamento sobre as coisas, sobre os processos,
fenômenos ou eventos e que a conquista conceitual da realidade
teria início pela integração do objeto-modelo em uma teoria, um
conjunto de proposições relativas às propriedades de tal objeto que
não seriam sensorialmente abordáveis, particularmente seus
determinantes.
No campo da avaliação, a idéia que operacionaliza o objeto-
modelo é a expressão “modelo lógico” (logic model ou logical
framework), consensualmente aceita pela maioria dos avaliadores
(RUSH; OGBORNE, 1991; MCLAUGHLIN; JORDAN, 1999;
ROWAN, 2000; COOKSY e outros, 2001; MILLAR, 2001; UNRAU,
2001; RENGER; TITCOMB, 2002) . Objeto deste capítulo, a reflexão
sobre o desenho dos modelos teóricos e/ou lógicos se dará
abordando o papel que a teoria desempenha no processo da
avaliação em saúde, as diretrizes para construção de modelos em
avaliação e a discussão acerca da matriz de medidas.
Desenhando o modelo teórico/lógico
A teoria no campo da avaliação
No campo da avaliação, o debate em torno do papel da teoria e a
utilização de modelos teóricos tem assumido contornos muito
particulares. As origens da avaliação centrada na teoria (theory-
driven evaluation) remontam aos anos 70 com a proposta do PCM
(Project Cycle Management) pelo Banco Mundial, posteriormente
incorporada como logical framework pelos avaliadores da USAID,
nos programa de ajuda ao desenvolvimento, e institucionalizada
pelo setor público canadense nos anos 80 (HARTZ, 1999a; HARTZ,
1999b; CRACKNELL, 2000). A partir da década de 80, passa a
haver um movimento de mudança de uma avaliação
metodologicamente orientada para uma avaliação orientada pela
teoria. A não utilização da teoria na avaliação de programas resultou
em uma avaliação do tipo insumos/ produtos (black box
evaluations), não sensível aos contextos políticos e organizacionais,
e que relegava temas como as relações entre a intervenção ofertada
e a intervenção planejada, entre os objetivos oficias e os objetivos
operativos, ou entre efeitos esperados e não esperados (CHEN,
1990).
Para Contandriopoulos e outros (2000), uma teoria se expressaria
pelos enunciados das relações que existem entre conceitos, que podem ser amplamente gerais e formalizados, ou ter um alcance
menor, os denominados modelos teóricos, que seriam uma solução
teórica para a questão de uma dada pesquisa.
Chen (1990) define teoria como um conjunto inter-relacionado de
pressupostos, princípios, e/ou proposições para explicar ou guiar as
ações sociais. O autor considera que para muitos cientistas sociais
a teoria estaria relacionada só com o propósito de descrever e
explicar um dado fenômeno, um tipo de “teoria descritiva”, enquanto
que o tipo de teoria que seria avaliativa em forma seria do tipo
“teoria prescritiva”, pois explicita o que deve ser feito ou como tornar
algo melhor2. Ao discutir a natureza da teoria dos programas
(intervenções) indica que ela tem preocupações tanto descritivas
como prescritivas, ou científicas e práticas.
Tal fato implicaria, segundo Chen (1990), que a teoria de um
programa teria duas partes, a primeira, a teoria prescritiva, com
referência a estrutura que o programa deveria ter (tratamento,
produtos e processo de implementação), e a segunda, a teoria
descritiva, com referência aos mecanismos causais que relacionam
o tratamento utilizado no programa, o processo de implementação e
os produtos.
Para aquele autor, a construção da teoria do programa é um
atividade carregada de valor, (idéias ou sentidos do que “deve ser”)
que precisa incorporar tanto os saberes científicos como os saberes
práticos dos grupos implicados na avaliação (stakeholders).
Alguns autores trabalham com os conceitos de macroteoria e
microteoria do Programa. A microteoria, baseada em normas,
descreveria os aspectos estruturais e operacionais do Programa,
produzindo informações sobre as sua partes; a macroteoria
detalharia os aspectos organizacionais e sócio-políticos que
favoreceriam ou inibiriam os efeitos do programa. A microteoria
estabelece, então, uma relação entre os recursos disponíveis,
atividades e resultados enquanto que a macroteoria se preocupa
com os aspectos relacionados ao contexto de implantação do
Programa (HARTZ, 1997).
Os pressupostos implícitos são ainda referidos como as teorias
das políticas, apesar de que mais freqüentemente os termos
empregados são teoria do programa ou lógica do programa, sendo apontadas diferenças importantes entre estes dois termos (LEEUW,
2003). A lógica do programa especificaria os insumos (inputs),
componentes do programa, os resultados a curto e longo prazo, e
os vínculos entre eles, raramente assinalando os mecanismos
responsáveis por essa vinculação. Por outro lado, uma teoria do
programa seria uma teoria explícita ou modelo de como o programa
causa os efeitos pensados ou observados.
O modelo lógico é entendido enquanto um esquema visual que
apresenta como um programa deve ser implementado e que
resultados são esperados (ROWAN, 2000). O processo para a
construção da representação visual permite que a racionalidade
implícita dos programas, percebidas pelos gerentes e demais
grupos implicados, seja explicitada através da busca da opinião de
especialistas e inclusão de informações de pesquisas (RENGER;
TITCOMB, 2002), levando-se a uma maior possibilidade de
construção de acordos em relação aos componentes do programa e
aos resultados da avaliação.
Apresentar e discutir o modelo lógico de um programa é o que
permite definir exatamente o que deve ser medido e qual a parcela
de contribuição do programa nos resultados observados. Explicitar o
modelo lógico implica em descortinar quais os limites ou debilidades
de seus pressupostos, possibilitando identificar onde melhores
evidências devem ser buscadas (MAYNE, 2000).
No entender de Rowan (2000) uma questão que merece ser
discutida é se o modelo lógico poderia representar a teoria de
mudança do programa (program’s theory of change). Para esse
autor, o modelo lógico estaria mais relacionado com a teoria de
implementação do programa e não com a teoria do programa, que
trataria dos mecanismos que fazem com que a implementação do
programa alcance os resultados propostos/esperados.
Concepção diferenciada a essa proposição pode ser encontrada
na literatura, em que se observa a correspondência entre os termos
modelo lógico e microteoria do programa, e dos aspectos
relacionados aos determinantes de sua implementação, à
macroteoria, onde se faz a análise do contexto (HARTZ, 1997). Há
ainda o emprego dos termos modelo lógico, modelo teórico e
teórico-lógico como equivalentes (HARTZ, 1999a).
A construção do modelo teórico ou teórico-lógico do programa,
explicitando sua racionalidade subjacente, inclui, portanto,
especificações sobre o problema ou comportamento visado, a
população alvo, as condições do contexto, o conteúdo do programa
e os atributos necessários e suficientes para produzirem isolada ou
integradamente os efeitos esperados.
O modelo teórico de um programa deve explicitar como o
programa idealmente funciona (HARTZ, 1999), que argumentações
teóricas dão suporte à hipótese apresentada e que hipóteses
alternativas (rivais) serão afastadas. É necessário mostrar
consciência da complexidade da situação e compreensão de outros
fatores que jogam papel importante na produção dos resultados
(esperados e não esperados), indicando as evidências que serão
buscadas para demonstrar que o programa em questão promoveu
uma significante contribuição para os mesmos (MAYNE, 2000).
Finalmente, é importante salientar que a elaboração de um
modelo teórico/lógico deve ser convincente, apresentando
plausibilidade das associações estabelecidas. Isto significa,
necessariamente, que sua construção não despreza o acúmulo
produzido pelas experiências e conhecimentos prévios e que as
possibilidades colocadas pelo processo de investigação, orientadas
pela teoria, podem contribuir significativamente para a redução das
incertezas sobre o impacto atribuível ao programa, bem como uma
razoável estimativa desse impacto.
Métodos para a reconstrução das teorias de programas e políticas
são apresentados com o intuito de contribuir para torná-las mais
explícitas e transparentes e evitar erros no planejamento de
programas e no resultado de avaliações (LEEUW, 2003).
Independente da terminologia assumida pelo pesquisador, o
importante a assinalar é que, em se tratando da avaliação de
programas, é fundamental a explicitação clara dos pressupostos que
orientam a sua formulação. Vantagens de tal explicitação incluem
uma maior precisão do desenho do programa, um melhor manejo na
definição de responsabilidades, um melhor planejamento dos
estudos avaliativos.
Diretrizes para a construção de modelos em
avaliação
O desenho do modelo lógico de um programa é o primeiro passo
no planejamento de uma avaliação, sendo muitos os caminhos que
podem ser utilizados na sua construção (ROWAN, 2000; MERCER;
GOEL, 1994; RUSH; OGBORNE, 1991; MCLAUGLIN; JORDAN,
1999; RENGER; TITCOMB, 2002).
Construir o desenho lógico de um programa significa esquadrinhá-
lo em termos da constituição de seus componentes e da sua forma
de operacionalização, discriminando todas as etapas necessárias à
transformação de seus objetivos em metas, abstraindo-se aqui suas
determinações contextuais.
Ao desenvolver a construção do modelo lógico em relação ao
Ontario Breast Cancer Screening Program, Mercer e Goel (1994) se
deparam com um conjunto de dificuldades, das quais destacamos
algumas, que nos fazem pensar sobre os limites e possibilidades do
desenho de modelos lógicos em avaliação de programas de saúde.
A primeira dificuldade relacionava-se à natureza complexa e
multifacetada do Programa. Assim, o conjunto de componentes,
além de ser diverso, alguns interdependentes, operavam sob lógicas
distintas e, muitas vezes, contraditórias; a segunda dificuldade
referia-se à própria ausência de consenso entre objetivos, metas e
resultados esperados do Programa por parte da própria equipe que
o concebeu; a terceira, dizia respeito à natureza descentralizada do
Programa, o que significava que sua operacionalização era
construída de forma distinta em função das características locais em
que ele se implantava.
Este artigo é ilustrativo porque o autor identifica obstáculos a
elaboração de um modelo lógico, levantando problemas muito
próprios à realidade dos sistemas de saúde que os pesquisadores
em avaliação costumam lidar. Os programas, que são um dos
objetos possíveis da avaliação, geralmente partem de uma política
governamental de larga ou de pequena escala que, às vezes, nem
apresentam diretrizes e estratégias claramente definidas, e são
permeados por contradições e lacunas, pois em geral são implementados antes da conclusão do desenho e da criação de
consenso entre os grupos implicados sobre os objetivos e
prioridades (MERCER; GOEL, 1994).
Em tese, um programa deve ter objetivos atividades e recursos
definidos. Entretanto, na realidade concreta dos serviços de saúde,
muitas vezes esses elementos são contraditórios, e tais
contradições podem ser evidenciadas através da realização de uma
análise estratégica, abordada em outro capítulo deste livro.
Diante das dificuldades apontadas, tem sido destacado que a
participação dos grupos envolvidos no programa é fundamental na
elaboração do modelo lógico, o que associado à busca da opinião
de especialistas e revisão de literatura pode transformar esta fase
inicial da avaliação em uma tarefa árdua, contudo, indispensável
(RENGER; TITCOMB, 2002).
No entender de McLaughlin e Jordan (1999) pode-se falar em um
processo do modelo lógico, tendo como produtos finais o diagrama
do modelo lógico, com a essência do programa, um texto
descrevendo o diagrama e o plano de medidas. No decorrer do
processo alguns estágios deveriam ser vencidos: realizar coleta de
informações sobre o programa a partir de várias fontes
(documentos, entrevistas, revisão de literatura); definir claramente o
problema objeto da intervenção e seu contexto; identificar os
elementos do modelo lógico; desenhar o modelo lógico; e
finalmente, avaliar continuamente, junto aos grupos envolvidos, se o
modelo produzido representa a lógica do programa.
Segundo Rossi e colaboradores (1999), o modelo lógico deve
apresentar três componentes fundamentais: primeiro, o plano da
organização do Programa; segundo, o plano da utilização do
Programa – estes dois primeiros componentes conformam a teoria
de processo do Programa – e, terceiro, a teoria de impacto do
Programa.
Em um modelo lógico de um programa devem constar:
a. os componentes – essenciais e secundários – do Programa;
b. os serviços relacionados e as práticas requeridas para
execução dos seus componentes;
c. os resultados esperados, suas metas e efeitos na situação de
saúde da população e organização dos serviços.
Vários caminhos para o desenvolvimento dos modelos estão
presentes na literatura, com diversos níveis de especificidade,
complexidade e tipos de representação visual, como já mencionado
(RUSH; OGBORNE, 1991; MERCER; GOEL, 1994; WONG-
RIEGER; DAVID, 1995; MCLAUGHLIN; JORDAN, 1999; ROWAN,
2000; RENGER; TITCOMB, 2002). Em geral, classificam-se as
propostas em dois grandes grupos, um que parte dos efeitos que se
espera que a intervenção tenha, isto é, a solução do problema
selecionado, e a partir daí se desenha o programa e suas
atividades, e o outro que é desencadeado pela seleção dos
componentes do programa e se considera a rota até os objetivos e
efeitos esperados. Há ainda a possibilidade da “abordagem mista”,
mencionada na elaboração do modelo lógico do projeto Nova Scotia
Primary Care Project (ROWAN, 2000).
A seguir, no intuito de melhor explicitar diversas possibilidades de
construção de modelos na avaliação de programas, são
apresentados exemplos de esquemas de apresentação de modelos
teóricos ou lógicos, que facilitam a compreensão de experiências
práticas de sua utilização. Ressalta-se que as ilustrações abaixo
nem sempre apresentam os fatores contextuais relacionados à
implementação dos programas, contempladas em outros capítulos
desta publicação.
Figura 1 – Elementos de um modelo lógico
Fonte: Jordan; Mclaughlin (1999).
Figura 2 – Esquema básico de modelo lógico com objetivos de
implementação e de resultados demarcados
Fonte: Rush; Ogborne (1991).
Figura 3 – Esquema de modelo lógico para programas de
conscientização na área da saúde
Fonte: Wong-Rieger; David (1995).
Figura 4 – Modelo lógico de um Programa de controle de Câncer
de Mama
Fonte: Mercer; Goel (1994)3 adaptado por Hartz (2000).
Após a elaboração do modelo lógico é importante verificar se o
mesmo atingiu o objetivo de representar a lógica do programa, e
para tanto são sugeridas as seguintes questões ao final do processo
(MCLAUGHIN; JORDAN, 1999):
1. O nível de detalhe foi suficiente para criar entendimento dos
elementos e de suas relações?
2. Está a lógica do programa completa? Foram todos os
elementos relacionados?
3. A lógica do programa é teoricamente boa? Todos os elementos
foram colocados juntos seguindo uma lógica? Existem outros
caminhos plausíveis de se alcançar os resultados esperados do
programa?
4. Todos os fatores relevantes do contexto foram identificados e
suas potenciais influências descritas?
A Unidade de Comunicação em Saúde da Universidade de
Toronto recomenda ainda que se utilize como critério de avaliação
da qualidade do modelo sua leveza (número de elementos por
página ou slide) e clareza na apresentação gráfica (HCU/CHP,
2001).
Matriz de medidas do modelo teórico/lógico: um
desafio a ser vencido
As razões que orientam a utilização de medidas que permitam
avaliar a perfomance de um programa relacionam-se à
responsabilidade da equipe gestora em prestar contas sobre o
alcance dos objetivos propostos, bem como à necessidade de
implementar melhorias na sua qualidade (MCLAUGHIN; JORDAN,
1999).
As estratégias de mensuração devem contemplar não apenas o
monitoramento das características essenciais do programa, mas,
especialmente, as relações de causa-efeito presumidas no modelo
lógico, incluindo os supostos fatores contextuais que interagem na
sua implantação. Trata-se, portanto, de testar a hipótese do
programa, e ainda que os resultados tenham sido alcançados, cabe
indagar que características do programa contribuíram para o
alcance dos efeitos esperados e não esperados. Mayne (2000)
ressalta que nenhum fator, isoladamente, “causa” um efeito
observado. Ao invés disso, este é sempre o resultado de um número
de fatores que contribuem para o mesmo.
O primeiro passo na avaliação de desempenho de um programa é
determinar se o que foi planejado – as atividades enunciadas no
modelo lógico – realmente ocorreu. Para tanto é necessário que as
atividades apresentem um nível de detalhamento compatível com as
necessidades de mensuração.
Em segundo lugar, é necessário avaliar os produtos e o impacto
do programa, verificando se os resultados, de fato, estão
relacionados às ações desenvolvidas ou em que medida podem ser
explicadas por hipótese causais rivais.
A implementação da avaliação de um programa requer o desenho
de uma matriz que apresente os critérios/indicadores e parâmetros
que serão utilizados, bem como as respectivas fontes de informação
a serem consideradas.
Segundo Donabedian (1986), um critério pode ser definido como
um componente ou aspecto da estrutura de um serviço/sistema 4 de
saúde, ou de um processo ou resultado de um cuidado que dá
suporte à qualidade da atenção prestada. Já o parâmetro é uma
especificação quantitativa precisa do nível de um critério que
conferirá qualidade em um grau determinado. Como exemplo, a
concentração de profissionais por leito em uma unidade de terapia
intensiva seria um critério de qualidade desse serviço enquanto que
uma razão maior ou igual a dois profissionais por leito seria um
parâmetro especificado do critério de qualidade desse serviço.
No contexto da avaliação de programas e serviços de saúde,
indicadores de saúde, além de representarem medidas do impacto
dos serviços sobre a saúde de populações, precisam considerar a
mensuração da adequação, da infra-estrutura dos serviços e da
efetividade dos processos. Indicadores isolados não são capazes de
prover um quadro conclusivo acerca do desempenho dos serviços
de saúde, sendo necessária a definição de conjuntos de indicadores
relevantes para conduzir uma determinada avaliação.
Adicionalmente, a avaliação de indicadores quantitativos não deve
ser conduzida de forma isolada nem deve encerrar-se em si mesma,
mas sim constituir-se em ferramenta que permita a formação de
opinião e a tomada de decisões (NHCP, 2002).
Para eleição de critérios/indicadores de avaliação devem ser
adotados critérios bem definidos. Tradicionalmente, os seguintes
critérios de seleção têm sido recomendados: simplicidade (facilidade
de cálculo); validade (em função da característica que se deseja
medir); disponibilidade (utilização de dados disponíveis); robustez
(pouco sensível às deficiências dos dados necessários a sua
construção); sinteticidade (refletir o efeito do maior número possível
de fatores); discriminatoriedade (alto poder discriminatório espaço e
tempo) e cobertura (referir-se, se necessário, a cada país/território e
não somente determinada área/grupo). (JORDAN FILHO, 1974).
Donabedian (1986) ressalta como características avaliativas
importantes dos critérios de qualidade a validade (que pode ser
científica ou consensual e que confere legitimidade ao processo
avaliativo), a relevância, a disponibilidade e qualidade do registro, a
adaptabilidade à avaliação (ou seja, sua susceptibilidade à
modificação ao longo do tempo), sua capacidade de ser mais ou
menos estrito e sua eficiência em rastrear o problema.
Os atributos necessários aos indicadores na avaliação de
programas, definidos pelos critérios de seleção, buscam garantir
que estes expressem medidas que considerem a abrangência
multidimensional do fenômeno saúde-doença e das intervenções em
saúde como processos complexos, variáveis e multifacetados.
Neste sentido, outras experiências têm ampliado o escopo destes
critérios definindo como relevantes que os indicadores de avaliação
de serviços devam (NHCP, 2002):
1. Representar aspectos importantes da saúde pública ou do
desempenho do sistema de saúde;
2. Ser mensurável (válido e confiável) na população geral e em
diversas populações (população indígena, sexo, urbano/rural,
estrato sócio-econômico);
3. Ser compreensível para as pessoas que necessitam agir;
4. Galvanizar ação de indivíduos, grupos organizados e
organizações públicas e privadas em nível nacional, estadual
ou local;
5. Ser relevante para a política e a prática dos serviços, no sentido
em que avaliam ações que podem levar a melhoria da situação
de saúde, alterando o curso do indicador;
6. Refletir resultados de ações quando medidos no tempo;
7. Ser coletado e analisado de forma oportuna exeqüível, quanto
ao custo-benefício;
8. Ser coerente com processos nacionais de definição de dados.
Um passo fundamental para a avaliação dos indicadores é o
estabelecimento de padrões de desempenho, que definem o que se
pretende alcançar com a execução da ação, devendo ser definidos
desde o início da avaliação, de forma a permitir determinar se a atividade foi executada com sucesso ou se foi eficaz (PAG APS,
1997).
Freqüentemente, os padrões de desempenho podem ser
quantificados. Para algumas ações e serviços, existem parâmetros
técnico-científicos que podem ser utilizados como padrões. Um
exemplo clássico é a cobertura vacinal, cujo padrão deve
corresponder com a cobertura a ser atingida para interrupção da
cadeia de transmissão da doença. Em outras situações em que não
existem parâmetros técnico-científicos, o estabelecimento de
padrões pode ser feito através da análise da série histórica dos
indicadores, pela adoção do valor dos indicadores para outras
populações ou para o estado ou país ou através de mecanismos de
consenso, definindo patamares a serem alcançados.
Assim, os parâmetros para o processo de avaliação nem sempre
estão objetivamente estabelecidos. Do mesmo modo, a forma de
medi-los pode variar. Muitas vezes, é necessário que o grupo que
conduz o processo de avaliação construa consensos, não só em
relação aos parâmetros mais apropriados, como quanto ao método
mais adequado de aferir o que se quer avaliar.
Donabedian (1986) chama a atenção para as diferentes
possibilidades de construção de consenso, quais sejam, o comitê
tradicional no qual um dos membros é o coordenador, o método
Delphi, onde os membros que definem os critérios e parâmetros não
chegam a se encontrar e todo processo de consulta é realizado por
via eletrônica ou por telefone, e o método do grupo nominal, que
prevê uma primeira etapa de consulta individual prévia, uma
segunda etapa de debate entre os participantes e, finalmente, uma
terceira etapa de consulta individual em que cada participante tem a
possibilidade de rever seu ponto de vista inicial.
Os processos de construção de consenso não só ampliam a
possibilidade de validade dos critérios/indicadores como conferem
maior legitimidade aos processos avaliativos.
Toma-se como exemplo da experiência nacional da Oficina do
Pacto da Atenção Básica que reuniu em 2001, técnicos do Ministério
da Saúde, das Secretárias Estaduais de Saúde e gestores
municipais para selecionar os indicadores para avaliação da
atenção básica no Brasil, a partir de um conjunto de critérios previamente acordados. Iniciativas desta natureza, além de
evidenciar que estes não são processos meramente técnicos, estão
em consonância com referências internacionais que têm privilegiado
o desenvolvimento de metodologias de constituição de consensos
entre gestores, financiadores, avaliadores e técnicos acerca do
conjunto de indicadores mais relevantes para medição do impacto
de serviços de saúde (KNOWLES e outros, 1997). Finalmente, há
que se destacar os aspectos relacionados à própria construção dos
indicadores. Embora o termo “dados” possa sugerir que os
elementos de informação em que se apóia a análise científica são
dados ou prontos, eles são sempre o produto de uma atividade de
construção teórica. O investigador não recebe os dados
passivamente, pois a análise e construção dos dados e indicadores
também caracterizam a “fase” de coleta de dados” (MERLLIÉ,
1996).
Merllié (1996) exemplifica, a partir de investigações conduzidas no
campo das ciências sociais, alguns aspectos relevantes quanto à
utilização de dados quantitativos:
A necessidade de questionamento sobre as condições práticas
da elaboração dos dados, atentando que suas inexatidões não
são equivalentes em todos os lugares e em todas as épocas e
que as causas da diferença entre o fenômeno e sua inscrição
estatística não tem efeito constante entre os grupos sociais e as
diferentes instituições responsáveis pela coleta de dados etc.;
A relevância do cuidado e do rigor ao comparar indicadores que
são construídos a partir de diferentes conceitos e critérios
gerais e a partir de diversas fontes;
A possibilidade de variabilidade dos resultados interna a uma
mesma pesquisa, ressaltando a importância do que
aparentemente não passa de “simples detalhes”: a
periodicidade da coleta (mensal/anual), a redação das
perguntas, o papel da mera repetição da passagem do
entrevistador na mudança das respostas dos entrevistados em
estudos de acompanhamento etc;
O paradoxo da utilização de categorias com grande uso em
pesquisas e nas instituições, que tem como vantagem a
possibilidade de comparação e como inconvenientes a
possibilidade do vocabulário comum dissimular diferenças na
construção da noção e a tendência das pesquisas
negligenciarem a explicitação dos procedimentos
metodológicos;
As conseqüências da utilização de dados de diversas fontes
combinados para cálculo de indicadores, devido as diferentes
condições em que são efetuadas as classificações;
Os cuidados com a construção dos instrumentos de medição e
com as condições técnicas de sua aplicação, assim como com
as formas de codificação e classificação.
Assim constitui etapa fundamental da avaliação a análise da
qualidade dos dados que geraram os indicadores de saúde,
especialmente quando fontes secundárias são utilizadas, embora a
produção de dados primários também deva ser objeto de reflexão
crítica rigorosa.
Especialmente quanto às fontes secundárias, vale ressaltar que a
mensuração é dificultada pelos limites da informação em saúde,
tanto a natureza das informações disponíveis, restritas, em sua
maioria a doenças, agravos e procedimentos, e quanto à qualidade
dos dados aos quais se pode ter acesso, nacional e localmente,
considerando as marcantes heterogeneidades regionais e locais dos
sistemas de informação e dos sistemas estaduais e municipais de
saúde. Somam-se a estas questões, em que pese a crescente
descentralização dos sistemas de informação, os limites quanto a
compatibilização de conceitos e critérios dos diferentes sistemas, o
que dificulta o estabelecimento de associações entre as diversas
variáveis relacionadas ao estado de saúde e entre estas, condições
de vida e produção de serviços de saúde.
Conclusão
No campo da saúde, cada vez é mais reforçada a necessidade de
uma permanente avaliação das intervenções realizadas. Em que
pese os limites e dificuldades que enfrentam os projetos de avaliação em saúde, como nos alerta Barreto (1998), o crescimento
exponencial da produção de novas tecnologias voltadas para o
cuidado, que passam a ser usadas, nem sempre tendo a sua
eficácia comprovada e, muitas vezes, gerando efeitos indesejáveis e
altos custos, impõe o desenvolvimento e aprimoramento de
metodologias de investigação dos serviços de saúde.
São vários os desafios conceituais e metodológicos presentes
para a realização de uma avaliação, e o debate em torno de
questões fundamentais, a exemplo do papel que a teoria
desempenha no processo da avaliação em saúde, está longe de ser
esgotado.
Alguns deles merecem ser pontuados pelas implicações que
apresentam para qualquer processo de avaliação em saúde.
Um primeiro desafio é o objeto da avaliação em saúde – as ações
e práticas de saúde – que têm natureza social e histórica, o que não
pode ser negligenciado por quem pretende avaliá-las (VIEIRA-DA-
SILVA; FORMIGLI, 1994). Se é fato que, pela sua natureza, o objeto
da avaliação se modifica em função do tempo e do contexto,
também o é que o próprio processo de pesquisa, na avaliação,
transforma o objeto avaliado. Conforme assinala Samaja (1993), o
objeto de investigação não é apenas o real recortado, mas, é um
objeto que se transforma no e pelo processo de pesquisa. E mais,
se transforma não em relação àqueles aspectos periféricos ao
processo de investigação, mas, possivelmente, naquilo que faz
parte da sua essência, que é tomado e problematizado no processo
de avaliação.
Em se tratando, especificamente, da avaliação de programas,
agrega-se uma dificuldade adicional, relacionada à natureza
complexa, multifacetada e abrangente que assumem (HARTZ, 1995;
MERCER; GOEL, 1994; CONTANDRIOPOULOS; CHAMPAGNE e
outros, 1997; HARTZ, 1997; HARTZ, 1999a). Programas abrigam,
freqüentemente, um conjunto de componentes e práticas que
operam, muitas vezes, com lógicas distintas e, até mesmo,
contraditórias. Nem sempre há consenso entre objetivos, metas e
resultados por parte da equipe que os concebem e sua
operacionalização apresenta, como possibilidade, uma grande
variabilidade na implementação local (MERCER; GOEL, 1994).
Um segundo desafio a se considerar é a dimensão subjetiva do
processo de avaliação (SERAPIONE, 1999). Considerando que esta
diz respeito a um julgamento sobre uma dada intervenção
(CONTANDRIOPOULOS; CHAMPAGNE e outros, 1997), deve-se
ter em mente que qualquer juízo de valor está orientado por uma
visão de mundo. Há, portanto, uma dimensão subjetiva do processo
de avaliação que não pode ser desprezada e que conforma tanto o
recorte do objeto e dos objetivos, quanto o modelo teórico que serve
de parâmetro de referência, quando se estabelecem comparações
no processo avaliativo.
Usuários dos serviços, representantes da população, profissionais
de saúde e gestores dos serviços têm objetivos e percepções
distintas em relação aos serviços de saúde e, geralmente, dão
prioridade a aspectos diferentes quando avaliam a qualidade das
ações de saúde. Não só para democratizar as avaliações que
pretendem influenciar processos de tomada de decisão nos
serviços, considerar diversos atores envolvidos amplia o poder da
avaliação de desvendar distintos aspectos de uma mesma
intervenção e de seus efeitos (SERAPIONE, 1999).
Um terceiro desafio refere-se à validade dos estudos. Avaliar
intervenções, enquanto ações de natureza transformadora, exige
suficiente flexibilidade de modelos e métodos utilizados pelo
avaliador, de forma a permitir lidar com inovações identificando seus
efeitos esperados e inesperados. Além disso, incluir diversas visões
promovendo a integração de diferentes pontos de vista no processo
de avaliação, se, por um lado, favorece a superação de visões
unilaterais dos problemas enfrentados (SERAPIONE, 1999) e facilita
a incorporação dos resultados nas decisões a serem adotadas, por
outro, intensifica o caráter subjetivo dos processos de avaliação.
O processo saúde-doença, objeto das intervenções que se deseja
avaliar, possui múltiplas determinações causais, sendo a ação dos
serviços de saúde apenas um dos fatores atuando sobre o estado
de saúde de indivíduos e populações em contextos sócio-
econômicos, políticos e culturais extremamente complexos. Mesmo
nos modelos teóricos mais simplificados, para a maioria dos
problemas de saúde, abordam-se sempre vários fatores etiológicos ou de risco, que atuam isoladamente ou em interação (ALMEIDA-
FILHO; ROUQUAYROL, 2002).
A necessidade de contextualização dos efeitos (condicionalidade
da efetividade) e as restrições dos chamados métodos quantitativos
têm promovido, no campo da avaliação de programas, o desenho de
novas estratégias metodológicas como avaliações multicêntricas e
estudos de caso múltiplos com níveis de análise imbricados (Hartz
1999), onde se combinam abordagens quantitativas e qualitativas e
se lança mão de alternativas, como a triangulação, com vistas a
aumentar a validade do estudo na aproximação com um objeto de
natureza tão complexa.
De fato, a questão da validade é uma preocupação central na
realização de qualquer pesquisa. Enquanto o aprimoramento das
alternativas metodológicas na pesquisa avaliativa contribui para o
aumento da validade interna da pesquisa, a principal vantagem de
uma avaliação orientada pela teoria (theory-driven evaluation) é
poder contribuir para a “reprodutibilidade ou validade externa das
intervenções governamentais em larga escala” (HARTZ, 1999).
Particularmente nos estudos de caso, a capacidade de uma
pesquisa fornecer resultados generalizáveis a outras populações,
contextos ou períodos, está diretamente relacionada à robustez e
capacidade de explicação da teoria no seu confronto com a
realidade empírica (YIN, 1993; CONTANDRIOPOULOS e outros,
1994).
Finalmente, é necessário trazer para o campo da Epistemologia
uma profunda reflexão do como se faz a produção do conhecimento
de “objetos mutantes” e de como se estabelecem relações entre
teoria e empiria num campo em que a subjetividade e a praxis do
investigador é constitutiva do próprio objeto, na medida em que ele
é um agente transformador da prática avaliada no momento mesmo
em que a avalia. É preciso reconhecer as dificuldades
epistemológicas no campo da avaliação para não resolver o
problema da forma menos criativa: negar a importância do papel da
teoria neste campo. Para isso, epistemólogos, avaliadores e
gestores das intervenções avaliadas precisam continuamente se
debruçar sobre problemas concretos de investigação para pensar
que especificidades relacionadas ao campo da avaliação em saúde, dada a complexidade de seu objeto e sua natureza de prática social
transformadora, devem ser consideradas na elaboração de modelos
lógicos e no desenho de estratégias de investigação, de sorte que a
Epistemologia possa contribuir de forma mais efetiva para
enriquecer o debate sobre a importância da teoria no campo da
avaliação em saúde.
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