Boa Noite a Todos

Edney Silvestre · Capítulo 5 de 7

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Boa Noite a Todos

A Peça Originada da Novela, que Acabou de Levar as Transformações do Texto em Prosa

A PEÇA

ORIGINADA

DA NOVELA,

QUE ACABOU DE LEVAR

AS TRANSFORMAÇÕES

DO TEXTO EM PROSA

Boa noite a todos

Peça em 1 ato

CENÁRIO — Quarto em andar alto de hotel em frente ao mar.

O hotel e outros edifícios da avenida litorânea foram construídos na onda

desenvolvimentista que, dos anos 1970 em diante, botou abaixo os chalés e as

casas que antes ocupavam a área.

A época é a atual, mas há na decoração a ten-tativa de remeter a um fausto,

mais imaginado do que real, da Paris do início do século XX, com veludos,

tapetes, molduras douradas etc.

Um espelho grande está quase todo coberto por um tecido pretensioso. É a

colcha que cobria uma das camas.

MAGGIE está de costas, próxima da cama. Tem de cada lado duas malas

pequenas, que a acompanham há muito tempo. Sobre a cama, uma bolsa de

marca famosa, discreta, comprada há tempos.

Ela se veste de forma clássica, moderna, com roupas de boa qualidade,

nenhuma delas nova. Tem no rosto grandes óculos escuros arredondados, ao

estilo que Jackie Kennedy tornou famoso.

Música/vozes gravadas — Ao longo da peça trechos da ária “Beim

Schlafengehen”* serão ouvidos várias vezes.

Nota:

* Poema de Hermann Hesse musicado por Richard Strauss, para soprano e orquestra, que fala do cansaço e

da necessidade de adormecer para encontrar a paz. Ver Mosaico de Maggie (Aqui).

(Cortina se abre.)

(MAGGIE, de costas para a plateia, caminha até as janelas. Não as abre. Coloca as mãos sobre o vidro, como se estivesse apoiando o corpo.)

(Entre as luzes se acenderem no palco e a primeira fala, há um tempo de silêncio incomum.)

MAGGIE

Nasci aqui.

(Tempo de silêncio.)

Havia uma casa aqui.

(Tempo de silêncio.)

Nasci na casa que puseram abaixo para construir este hotel.

(Tempo de silêncio.)

Havia várias casas nesta avenida.

Todas foram demolidas.

Uma a uma.

Construções delicadas… Algumas com varandas de ferro rendilhado…

Chalés… Muros baixos… Tinham cajueiros às vezes. Bem na frente.

Enormes. Cheios de frutos. Deixavam no ar um cheiro doce. Cheiro de

infância.

O perfume perdido da infância…

Trocado por hotéis horrendos como este.

Lixo quatro estrelas.

Delicadas construções arrasadas para dar lugar a prédios horrendos,

habitados por gente horrenda e vulgar.

Chefões de jogo do bicho, pastores evangélicos de igrejas recém-

inventadas, delegados enriquecidos com propinas e chantagem, misses

viúvas de velhos ricos, escroques internacionais, políticos corruptos.

E até mesmo alguns políticos honestos.

(Vira-se para a plateia. Mantém os óculos no rosto.)

Boa noite a todos.

(Mantém-se imóvel, quieta, por um tempo.)

Era a casa do meu avô. Aqui. Bem neste lugar.

Uma casa de pedra, de dois andares. Imponente. No térreo, havia uma

varanda grande, em arco, onde eu e meu irmão brincávamos.

Sem fazer barulho.

Não podíamos fazer barulho.

Incomodava minha mãe.

Mais que isso.

As enfermeiras diziam para mim e para o Sérgio que o barulho doía na

cabeça de nossa mãe como se enfiassem agulhas nela.

Cada grito meu ou do meu irmão era uma agulha enfiada na cabeça de

nossa mãe.

Por isso… Meu irmão e eu brincávamos em silêncio. Ou sussurrando.

Nunca gritamos.

Nunca gritei. Nunca. Nunca.

Nossa mãe vivia em um dos quartos de cima.

Não.

Nossa mãe vivia no quarto dos fundos. Isso: num quarto dos fundos. No

térreo. Era uma sala, ou coisa parecida, adaptada para virar quarto quando

nossa mãe ficou doente.

Ela vivia ali. Nesse quarto dos fundos. No escuro. Meu irmão e eu não tínhamos permissão para entrar lá. No quarto dela.

Não podíamos entrar. Mas…

Às vezes Sérgio e eu (Sérgio era o meu irmão), nós íamos, bem

quietinhos, pé ante pé, sem fazer nenhum ruído, nós íamos lá e abríamos a

porta do quarto. Devagarzinho. Só para ver.

Ver nossa mãe.

Ter certeza de que ela estava mesmo lá. Porque era tudo tão quieto, tão

silencioso, que o quarto poderia estar vazio.

Mas ela estava lá.

Nossa mãe estava lá. No escuro. Imóvel. Quieta. Até o dia em que a enfermeira se distraiu e…

(Pausa.)

E…

(Pausa. Caminha um passo ou dois. Para. Caminha.)

Eu vi a ambulância chegar. Com a sirene ligada, fazendo aquele barulho alto

que as sirenes de ambulância fazem, aquele barulho agudo, que fere os

ouvidos e… e… eu fiquei… surpresa. E assustada. Por causa do barulho. O

barulho, não pode fazer barulho, as agulhas, as agulhas na cabeça da minha

mãe, parem, parem com esse barulho, parem e… Eu estava assustada. Muito

assustada. Talvez pela ambulância. Ou por tudo o que estava acontecendo, de

repente, e que eu não entendia, eu era muito pequena para entender a sirene,

os gritos da enfermeira, a correria, a ambulância grande e branca entrando

pelo jardim da casa, os enfermeiros correndo, os…

Eu estava sozinha em casa. Com uma babá, eu acho. Meu irmão não

estava mais morando conosco, tinha sido levado para a casa de uma tia, ou

um padrinho, não lembro direito. Não faz diferença. Só me lembro de ver os

enfermeiros entrando. Correndo. Indo para o quarto dela. Da minha mãe. Eu

era pequena. Não sei quantos anos eu tinha, mas sei que eu era pequena.

Minha babá me pegou no colo e me levou para uma casa ao lado da nossa.

Ainda vi o corpo da minha mãe sendo levado na maca. O rosto dela, tão

pálido. Mais pálido ainda do que sempre era. Acho que vi. Mas não me

levaram para o velório. Nem vi o enterro.

Não consigo lembrar o nome da minha mãe. Nunca se falava nela. Nunca

se tocava no nome dela.

(Tira os óculos, que mantém na mão.)

Óculos como os de Jackie Kennedy. Vintage. Todos achavam que eu me

parecia com Jackie. Quando era mais nova, naturalmente. Os mesmos

cabelos escuros e cheios, o rosto anguloso, os olhos um tanto afastados da

base do nariz, magra, mas com bom corpo, seios pequenos e quadris largos

que deveriam significar a boa parideira, algo que nunca fui. Nem sequer

consegui engravidar. Jamais. Jamais. Jamais. Muitas vezes jamais.

(Pendura os óculos no decote da camisa.)

Três casamentos, nenhum filho. Melhor assim. Nenhuma herança maldita

para deixar.

Nenhuma herança, aliás.

Algumas roupas, dois bons tapetes comprados não lembro onde nem

quando, três livros. E só.

Minha mãe também não me deixou nada. Nem meu pai. Meu pai morava em Londres. Era daqueles grã-finos que conseguiam

bons empregos no exterior. Meu pai tinha dois sobrenomes de boa origem,

mas uma conta bancária rasa.

Rasa, mas mesmo assim devorada com todos os centavos e pennies pela

minha madrasta e pela filha dela. Minha madrasta era escocesa, ruiva.

Ruivíssima.

Ruivíssima, branquíssima, magríssima. Elegantíssima. A filha dela era magríssima, branquíssima, louríssima, sem bundíssima,

como a mãe. Em suma, elegantíssima.

E tristíssima.

Juntas, a ruivíssima e a tristíssima gastavam cada centavo do meu pai.

Ele trabalhava para o Instituto Brasileiro de não-sei-o-quê. Café, leite,

açúcar, manteiga, um desses cabides de emprego do governo brasileiro para

gente chique que não sabe fazer nada. Em Londres.

Foi para Londres que meu pai me levou, quando minha mãe se matou. Não.

Quem me levou foi meu avô.

Não.

Meu pai fez questão de ir ao Brasil me pegar, quando minha mãe se

matou.

Meu irmão ficou por aqui. Com uma tia, um padrinho, algo assim.

Acabou trabalhando para uma multinacional de cigarros. Hoje vive em

algum país da Ásia, casado com uma tailandesa.

Lá, seja lá onde for esse lá, meu irmão ganha caminhões de dinheiro

convencendo autoridades asiáticas de que cigarro é bom para a economia

local. A destruição dos pulmões de milhões de pessoas é apenas um detalhe

supérfluo.

Não. A mulher dele não é tailandesa. É coreana. Não. Ela é…

Não me lembro. Não importa. É asiática. Daquelas de olhos apertadinhos

assim, sorrisinho meiguinho assim, andarzinho jeitosinho assim… Não

preciso me lembrar de onde ela é. Não faz diferença.

Da mulher do meu pai me lembro bem. Uma escocesa. De cabelos

vermelhos.

Existe coisa mais vulgar do que uma mulher velha de cabelos vermelhos? Velha para mim, claro, que era uma criança.

Que idade eu tinha?

Quatro? Cinco?

Devia ser novinha, porque fui alfabetizada em inglês. Minha primeira

escola foi em Londres. Em casa, papai falava comigo em português. Depois

aprendi francês. E alemão. E italiano.

(Coloca os óculos sobre um móvel.)

Falava inglês com Harry, francês e alemão com Henri.

Meus dois primeiros maridos.

(Muda de ideia: pega os óculos e os coloca dentro da bolsa.)

Óculos vintage. Iguais aos de Jackie.

Não consigo mais conversar em francês. Não me lembro das palavras,

não me recordo dos verbos… Em alemão então… Praticamente nada.

Dankeschöne… Bitteschöne… Guten Tag…

Alemão, francês, inglês, até mesmo as palavras em português… Tudo

está sumindo.

Minhas pastilhas estão se apagando. Mas, às vezes, de vez em quando,

me lembro de uma música… De partes de uma música…

VOZ

“Nun der Tag mich müd gemacht…”

MAGGIE

Essa música.

VOZ

“… Soll mein sehnliches Verlangen…”

MAGGIE (cortando a lembrança da canção)

Trouxe apenas estas duas malas. Vim de táxi. No caminho para cá, abri a

janela e soltei os cabelos.

Gosto de sentir o vento nos cabelos. Sempre gostei. Mesmo no inverno. Mesmo no inverno na Inglaterra, eu só dirigia com a capota do meu

conversível arriada…

Meu pequeno conversível. Meu primeiro carro. Um conversível verde.

Bem pequenininho. Meu miniconversível que comprei de segunda ou

terceira mão.

Eu usava meu miniconversível para sair de Londres nos fins de semana.

Vruuum, vruuum, vruuum! Adorava dirigir em alta velocidade, sentindo o

vento acariciando meus cabelos. Vruuum! Vruuum pelas estradas e campos

da Inglaterra.

(Enquanto fala, abre a bolsa, tira de lá uma escova de cabelos pequena. Escova os cabelos e os prende em um coque simples ou rabo de cavalo.) (cantarola, com amargo humor)

Às vezes levava algum namoradinho. Mas quem dirigia meu

conversivelzinho azul era eu.

A weekend in the country. Oh so very British. Passava o fim de semana convidada por gente de quem eu nem lembro o

nome, nem isso importa.

Eles me convidavam, eu ia. Nobres, quase nobres, descendentes

bastardos de nobres, nobres falidos, nobres empobrecidos… Mas todos

esnobes.

Viviam em casas enormes, geladas porque não tinham dinheiro para

pagar o aquecimento. Ou em castelos sem móveis, porque os móveis tinham

sido vendidos em leilões para pagar dívidas ou para novos-ricos americanos

que queriam fingir ser descendentes de nobres.

Ah, os nobres ingleses… Tinham dentes acavalados, escondiam a boca

quando sorriam. Mas raramente sorriam. Ingleses de fina estirpe raramente

sorriem. Mesmo as filhas de verdureiros, como Margaret Thatcher, raramente

sorriem. É considerado vulgar na Inglaterra.

Quem eram aqueles nobres com quem eu passava os fins de semana? Não lembro.

Mas isso não importa.

Importa lembrar que eu chegava com os cabelos soltos, no meu pequeno

conversível verde, e deixava todos encantados com minha vivacidade, com

meu senso de humor, com… Com minha…

Talvez o conversível não fosse verde.

Verde, azul, que diferença faz? Era meu. Eu comprei. Com meu dinheiro.

Meu. Meu!

Gastei na compra daquele carrinho cheio de arranhões e amassados todas

as libras que ganhei com a venda de balangandãs e cópias de santos barrocos

trazidos de viagens que fiz à Bahia e a Minas.

“O que é que a baiana tem, oi, o que é que a baiana tem?” Tem muita

bugiganga, tem. Barata como convém. Tem prata vagabunda, tem, oi. Fácil

de vender para os ingleses, tem…

Minha madrasta, a implacável escocesa de cabelos vermelhos

magríssima e elegantíssima, apelidou meu comércio de objetos de arte

brasileira de “beautiful muamba”. Mas ganhei dinheiro com ela, darling

mommie.

Minha ruivíssima, elegantíssima madrasta escocesa me obrigava a

chamá-la de darling mommie.

Com minha “beautiful muamba” pude abrir mão do pouco dinheiro que

meu pai me dava. Passei a ter meu dinheiro.

Minha “beautiful muamba” de santos barrocos falsos e balangandãs de

prata vagabunda foi minha primeira invenção de mim mesma.

Criei um comércio discreto e chique. Comprava no Brasil, vendia em

Londres. Figas, pulseiras, colares, panos da Costa, profetas de pedra-sabão,

virgens de madeira. Eu não tinha vinte anos ainda. Isso foi há muito, muito

tempo. Tanto que nem me lembro direito. Por mais que eu tente. Ficou para

trás. Ficou pela estrada.

VOZ (sobe, mas permanece pouco tempo)

“Freundlich die gestirnte Nacht/ Wie ein müdes Kind empfangen…”

MAGGIE

Eu não era bonita. Não no sentido clássico. Minha mãe era bonita. Nas fotos

se vê: um rosto de traços delicados, femininos, frágeis. A sobrancelha fina,

arqueada. Eu me pareço mais com a família do meu pai. Ninguém lá é

bonito. Mas eu era jovem. E ficava mais bonita porque eu era jovem e

chegava no meu miniconversível prata. Comprado com meu próprio

dinheiro. Meu primeiro dinheiro próprio. O despertar do meu espírito

utilitário. De que adiantava estar em Londres, nos frenéticos anos setenta,

sem nada, senão um par de sobrenomes brasileiros e os tostões que minha

madrasta não tirara do meu pai, daquele esquálido salário de diplomata do

segundo escalão?

O salário era ruim, mas o passaporte diplomático era bom. Muito bom. Graças a meu passaporte de filha de diplomata, a alfândega inglesa não

abria minhas malas. Nem tocava nelas. Assim eu podia ir e voltar do Brasil

carregada da minha “beautiful muamba”. Até conhecer Harry.

Meu primeiro marido.

Harry era um americano mais ou menos da minha idade. Lindo. Louro.

Dourado. My golden boy. Menino de ouro, literalmente.

O menino de ouro era herdeiro de uma cadeia de lojas de artigos de pesca

no interior dos Estados Unidos, no estado de… Iowa, eu acho. Ou seria em

Idaho? Esses estados americanos têm uns nomes estranhos. Utah. Wyoming.

Winsconsin… E são tantos.

Não lembro em quantos estados americanos o pai de Harry tinha lojas.

Nunca fui lá.

Aos Estados Unidos eu fui, claro. Nunca fui aos estados onde o pai tinha

essas lojas de… De algum tipo de bugiganga. A “beautiful muamba” da

família de Harry ficava em Dakota. Dakota? Não lembro. Talvez em

Nebraska…

“You are no longer in Nebraska, Dorothy.” Essa frase é de um filme. Qual? Hum… Os Estados Unidos têm

cinquenta estados, quase todos com nomes esquisitos. Como alguém pode

lembrar onde ficavam as lojas do pai de Harry Dourado?…

Nebraska! A rede de lojas era em Nebraska, onde há muitos rios e lagos e

cachoeiras e trutas e… E aonde os americanos vão para pescar!

Não.

As lojas eram no Kansas.

Nunca fui ao Kansas. “You are no longer in Kansas, Dorothy.” Onde ouvi

isso?

Harry e eu voávamos até Nova York. Eu ficava em Manhattan, Harry ia

para esse lugar. Kansas. Ou Kentucky. Ou Nebraska.

Harry e eu viajamos muito. Para todo canto. Nova York, Roma, Viena…

Viena… Roma, Viena… Salzburg… Viena… e… outros lugares que não

estou lembrando agora. Harry e eu. Em Viena, uma vez, ouvi uma música…

Uma canção… Uma música tão… Qual é a palavra? Não consigo lembrar a

palavra que define essa… Essa música que eu tinha esquecido, mas…

VOZ (sobe música)

“Nun der Tag mich müd gemacht/ Soll mein sehnliches Verlangen/

Freundlich die gestirnte Nacht/ Wie ein müdes Kind empfangen…”

MAGGIE

Tenho esquecido muita coisa.

E lembrado o que não gosto de lembrar. Mas desde que decidi…

(Aponta as malas.)

Partir… Desde que eu decidi ir mesmo embora, essa música… Ela volta à

minha cabeça. Essa. Que um dia eu ouvi com Harry em… Numa sala de

concerto em…

VOZ

“Hände, laßt von allem Tun/ Stirn, vergiß du alles Denken/ Alle meine Sinne

nun/ Wollen sich in Schlummer senken…”

MAGGIE

Eu esqueço músicas. Sempre esqueci. Não tenho bom ouvido para música.

Nunca tive. Mas essa música, essa música que eu nem lembrava que

lembrava, essa música… Eu recordo o som dela. Da melodia. É como se eu

mesma cantasse.

VOZ

“Nun der Tag mich müd gemacht/ Soll mein sehnliches Verlangen/

Freundlich die gestirnte Nacht…”

MAGGIE

(tenta cantar) “Nun der Tag… mich müd gemacht…”

É uma canção alemã, eu sei. Mas o que dizem as palavras? O que

significam essas palavras? Agora… O dia… Cansaço…

VOZ

“…Wie ein müdes Kind empfangen/ Hände, laßt von allem Tun…”

MAGGIE

É uma canção sobre cansaço, eu sei. Como eu sei se não me lembro de nada

em alemão? Por que eu me lembro dessa música?

VOZ

“…Stirn, vergiß du alles Denken/ Alle meine Sinne nun/ Wollen sich in

Schlummer senken…”

MAGGIE

Esquecer… Mergulhar no sono… É isso? Meu Deus, como posso lembrar

essas palavras sem saber o que significam? Como posso?

Porque é o que preciso: esquecer. E descansar. Esquecer as dores, as

humilhações, eu preciso, preciso. Estou tão cansada. Tão cansada.

VOZ

“…Und die Seele, unbewacht/ Will in freien Flügen schweben…”

(Música cessa subitamente. Silêncio.)

MAGGIE

Minhas pastilhas estão se apagando.

Não se chamam pastilhas. Eu sei. Mas tampouco lembro o nome

dessas… Essas coisas em nosso cérebro. Essas que comandam a memória.

Essas…

As pequenas partes que formam um todo, que formam a lembrança em

nossa cabeça… Como aquelas pequenas peças que formam as imagens

enormes naquele museu na Turquia… Aquele que foi uma basílica em…

Em…

Os muçulmanos não podem adorar imagens. Como os judeus também

não podem. Então, quando os muçulmanos invadiram e dominaram a… Essa

cidade na Turquia, já vou me lembrar… Nessa cidade, essa igreja, essa

basílica tinha imagens enormes de santos. Os muçulmanos cobriram todas

elas. Pintaram por cima, puseram cal, massa, cimento… Acabaram com elas.

Essas imagens desapareceram por… Por alguns séculos. Muitos séculos. Até

que, não lembro bem em que época, um militar jovem da Turquia, esse rapaz

tomou o poder, declarou que o país não obedeceria mais a ordens religiosas e

mandou que começassem a raspar essas paredes. As paredes dessa…

catedral. Basílica. E, conforme foram raspando, foram ressurgindo por baixo

da cal e do cimento todos aqueles santos que tinham ficado emparedados

durante centenas e centenas de anos. Trazidos à vida de novo.

Eu vi.

É lindo.

Uma vitória sobre a morte.

(retomando)

Essa imagens… Essas imagens desaparecidas por séculos e séculos são feitas

dessas… pastilhas. Desse tamanhinho. Conforme os artistas vão colocando

as pastilhas, elas formam esses desenhos tão bonitos, tão delicados, tão…

emocionantes.

VOZ

“…Stirn, vergiß du alles Denken/ Alle meine Sinne nun…”

MAGGIE (Após aguardar e constatar que a voz não prossegue o canto.)

Com minhas pastilhas está acontecendo o contrário. Os rostos, as vozes…

estão sumindo. Estão sendo cobertas por… por…

Não se chamam pastilhas. São losangos, são… Elas compõem tantas

imagens… Não apenas esses santos na Turquia… Essas…

No piso da varanda da casa do meu avô, havia um desenho assim.

Composto com essas pastilhas.

Aqui. Bem aqui. Na casa que existia neste lugar. Eu me sentava no chão, que era fresco, e ficava passando meu dedinho

de criança nesse desenho. O desenho da varanda que havia aqui. Onde eu

morava, com meu avô, minha mãe, meu irmão e… Eu passava o dedo por

cada pastilha. Era o desenho de… de uma… Esqueci a palavra… Aquela

concha, de onde saem frutas e flores… Uma…

(A mão fica no ar. Olha em volta.)

Aqui um dia existiu uma casa e eu morava nela. Eu era feliz nela. A casa do

meu avô.

A casa era de pedra, tinha dois andares e uma varanda em arco no térreo.

Meu pai não morava com a gente. Morava em Londres. O quarto da minha

mãe ficava nos fundos da casa. Eu e meu irmão dormíamos no andar de

cima. O cheiro do mar entrava pelas frestas das janelas altas do meu quarto,

tal como penetra aqui, neste quarto de hotel, mesmo com essas janelas

fechadas.

VOZ

“…Stirn, vergiß du alles Denken/ Alle meine Sinne nun…”

MAGGIE (atenta à canção)

A primeira vez que ouvi essa música foi num teatro arredondado, forrado de

madeira escura. Em Viena. Em Viena. E…

Não, não. O teatro arredondado, forrado de madeira escura, foi em outro

lugar. Na Holanda? Meu pai tinha morrido havia pouco tempo, eu sei. Eu

acho. Não me lembro direito.

Na época eu estava casada com Henrique Terceiro, Harry The Third, o tal

herdeiro de uma rede de artigos de um dólar, no interior de… De algum lugar

dos Estados Unidos. Harry alguma-coisa The Third. Os americanos gostam

disso. Pai, filho e neto com o mesmo nome, imitando a nobreza. Fulano,

Fulano Segundo, Fulano Terceiro. Harry era o terceiro. Louro, alto, lindo.

Lindo…

Harry era lindo, dourado… e xucro. Toda mulher gosta de um homem

xucro. Dizemos que não, que preferimos homens sensíveis, mas do que

gostamos mesmo é de um bom e forte homem xucro.

Harry era um bom xucro. Mas tosco. Bem tosco. Bem americano. Harry foi o primeiro homem que eu eduquei, refinei e ensinei como

avançar socialmente.

Parte da educação de Harry foi musical. Eu o levava a concertos em toda

cidade para onde viajávamos. Viajamos muito. Fomos a Viena, fomos a…

Viena… Fomos a… a toda parte. Levei Harry aos melhores teatros de ópera

e salas de concerto do mundo. Inclusive aquela que tem uma acústica

famosa, em… Em Berlim Oriental. No que foi a Berlim Oriental.

Harry sempre saía no primeiro intervalo. E não voltava. Ficava tomando

champanhe e fumando no foyer. Naquela época podia-se fumar em qualquer

lugar. Numa dessas viagens, tenho quase certeza, foi que ouvi pela primeira

vez essa música.

VOZ

“Hände, laßt von allem Tun/ Stirn, vergiß du alles Denken/ Alle meine Sinne

nun/ Wollen sich in Schlummer senken…”

MAGGIE (interrompendo)

Harry alguma-coisa Terceiro não ficava fumando no foyer.

Harry alguma-coisa Terceiro ficava no banheiro, se divertindo com

outros rapazes.

Eu descobri.

Não dei importância.

Afinal, fui criada na Inglaterra, onde os homens se divertem com seus

criados, mordomos, jardineiros, motoristas… Inclusive os reis.

As brincadeiras de Harry com outros rapazes não atrapalhavam nosso

casamento. Harry e eu formávamos um belo casal. O americano dourado

wasp e a morena exótica chique, parecida com Jackie Kennedy. Viajávamos.

Fomos à Índia, que tem um cheiro pavoroso e palácios bregas, como bolos

de noiva gigantes. Fomos a alguns lugares na África, que não me lembro

direito. Ao Japão eu acho que fomos. Fomos a muitos lugares. Fomos a todos

os lugares.

Até o dia em que Harry se apaixonou por um desses rapazes dos

banheiros de salas de concerto.

Montou um apartamento para ele. Em Londres. A apenas duas quadras de

onde morávamos.

A todo país aonde íamos, Harry levava o rapaz. Em primeira classe. Não

há tanta gente assim voando de primeira classe, não é mesmo?

A situação foi se tornando óbvia para todos. Constrangedora. Para nosso

círculo de amizades principalmente. Fui obrigada a tomar uma atitude.

Confrontei Harry: ou esse rapaz, ou eu.

Ele preferiu o rapaz.

Eu fiquei com nosso apartamento, os móveis, os quadros, os tapetes, os

livros e uma confortável pensão. Mais do que confortável. Não me lembro de

quanto. Bastante.

Não tinha mais meu pai, não tinha mais meu avô. Mas eu ainda era

jovem. Traída, sim, trocada por um homem, sim, mas jovem e rica. Quase

rica. Com dinheiro suficiente para não ter que voltar a trazer muamba do

Brasil.

Saí viajando. Por aqui, por ali, onde me desse vontade. Fui pela primeira

vez à Índia. Vi mortos nas ruas. Vi mortos boiando nos rios em frente a

palácios. Vi como a morte é fácil.

A morte. É o que a Índia me lembra. Foi ali que eu conheci meu segundo

marido. Henri. Ele era produtor de cinema. Filmes péssimos, mas que davam

muito dinheiro. Ou foi em Roma que conheci meu segundo marido. Florinda

nos apresentou.

Quem é mesmo Florinda? Hum. Uma condessa italiana, acho. Não

lembro direito. Não importa. Tudo está se apagando.

VOZ

“Und die Seele, unbewacht/ Will in freien Flügen schweben…”

MAGGIE

Quando ouvi essa música, eu estava na Holanda. Estava com Henri. Meu

segundo marido.

Heinrich: o nome dele era Heinrich. Heinrich Henttenfragen, ou coisa

assim. Era austríaco. Mas eu o chamava de Henri.

Louro, alto, bonito etc. etc. etc.

Henri.

Nunca se case com um homem de nome parecido com o do marido

anterior. Você acaba misturando os dois na sua memória. Se bem que já não

me resta muita.

Henri gostava de música clássica e de mulheres exóticas. Ele me achou

exótica. E foi com Henri, numa sala de concertos arredondada, forrada de

madeira clara, que eu ouvi essa música pela primeira vez. Em Viena.

(Tenta ouvir. O som é muito baixo.)

Somos o que nos lembramos. Somos feitos das recordações do que fomos.

Do que vivemos. Do que nos lembramos que vivemos.

E eu estou esquecendo tudo. Tudo está se apagando. Sumindo. Como as

imagens naquela basílica na Turquia. Como os corpos se decompondo em

frente aos palácios na Índia.

VOZ

“Und die Seele, unbewacht/ Will in freien Flügen schweben/ Um im

Zauberkreis der Nacht/ Tief und tausendfach zu Leben.”

MAGGIE

(sussurra) Eu não quero morrer.

O que eu não quero, não vou permitir, é ir apagando, pouco a pouco. Meu corpo também está se desfazendo… Como os cadáveres no rio

Ganges…

Outro dia, de repente, meu intestino… Ah, meu Deus, que horror. Meus

intestinos… Eu me… Toda. Fiquei… Que horror. Um fedor horrível. Tudo.

Na roupa… Não controlei.

Não foi só aquela vez. Não foi só uma vez. Nem foram só duas.

Acontece de repente. As pastilhas…

Não são pastilhas. São… São… Isso, em nosso cérebro, que nos faz

lembrar o que fizemos e o que sentimos. Isso que faz que a gente seja único.

Como lembrar o que a cozinheira do meu avô preparava para nosso almoço.

O cheiro da carrocinha de pipoca em frente à escola. O chinelo da minha

mãe, de salto alto, forrado de cetim rosa-claro, com um pompom na frente.

Os selos das cartas que meu avô mandava do Brasil. O vestido da boneca que

falava Mama, Mama. O primeiro vestido longo. Um homem dentro de mim.

Harry. Henri. Pê Erre…

Primeiro comecei a esquecer nomes. Achei normal. Tanta gente eu

conheci. Não seria mesmo possível me lembrar de todos os nomes, todos os

títulos, todas as situações, todos os países em que estive.

Depois foram objetos. Ou objetos foi antes. Canetas, batons, cartões,

chaves, papéis, rímel, óculos, celular, carteira, óculos, canetas, celular,

rímel…

Será que eu trouxe tudo? Minha maquiagem, minha escova de cabelos,

está tudo aqui?

Está tudo ali, naquelas malas.

Não há muita coisa dentro delas. Apenas o mínimo necessário. Apenas o mínimo necessário.

Nessas duas malas.

Naquela estão meus três livros preferidos. Naquela outra, a roupa para o

salto.

Alguma camareira ficará com tudo, provavelmente. Ou a polícia

recolherá. Ou entregará à minha sobrinha.

Se ela aparecer para recebê-las.

O que é pouco provável.

Não virá de Londres para a cremação, quanto mais para receber roupas

velhas. Grifes antiquadas. Tant pis.

E por que viria? Sempre me detestou. Sempre me culpou pela morte da

mãe.

Não fui eu a responsável, querida sobrinha. Foi seu pai quem me

procurou. Sua mãe magríssima, louríssima e elegantíssima estava inerte

numa cama, deprimida igualzinho a minha mãe tinha ficado. Em silêncio. No

escuro. Seu pai que me procurou. Para mim era só uma brincadeira. Um jogo

erótico com meu cunhado. Ele se chamava Geoffrey. Ou Jonathan. Eu não

era bonita como sua mãe. Nunca fui bonita. Não no sentido clássico de

beleza. Mas eu era jovem. Eu tinha vitalidade, eu tinha alegria, eu tinha…

Assim foi. Assim é que eu me lembro. Não importa. Sua mãe sempre foi

infeliz. Como a minha mãe. Linda, perfeita, chique, soignée… e infeliz. O

que seu pai fez apenas apressou a decisão dela. Se não jogasse o carro contra

a árvore, teria cortado os pulsos. Ou aberto o gás. Ou tomado barbitúricos,

como minha mãe. Não fui amante do seu pai.

Quer dizer: fui, sim.

Porém antes de Geoffrey conhecer sua mãe.

Ela que o tomou de mim. Ela se casou com ele.

Você já era nascida quando seu pai me procurou. Para mim era uma

brincadeira. Eu já estava casada com Harry Dourado.

Durante quanto tempo seu pai e eu brincamos de amantes? Não me

lembro direito. Em que ano foi?

Não me lembro. Não importa.

Não me desculpo. Apenas não me lembro exatamente de como… Foi ele,

claro. Foi Geoffrey. Jonathan. Seu pai se chama Jonathan. Foi ele que me

procurou e… Com certeza. Eu nunca, nunca… Nunca.

Pois então estamos quites, querida sobrinha. Agora é minha vez de partir.

Sem deixar filhinhas chorosas para trás.

Sem deixar ninguém.

Não quero piedade.

Não quero mais nada.

Eu me registrei aqui com meu nome verdadeiro. Meu nome de solteira.

Para facilitar a identificação do corpo.

Na recepção, nenhum dos rapazes poliglotas, vestidos em blazers azul-

marinho e gravatas que copiam escolas inglesas das quais eles nunca

ouviram falar, nenhum deles me reconheceu.

Não teriam por que me reconhecer.

Pareço apenas mais uma senhora de idade indefinida. Os rapazes poliglotas de blazers azul-marinho e gravatas de escolas

inglesas das quais nunca ouviram falar não têm ideia de quem eu sou.

De quem eu fui.

Há muito tempo as colunas sociais não publicam fotos minhas. Nas raras ocasiões em que fui citada, eu era o penúltimo ou o último

nome na lista de alguma festa de personagem secundário da sociedade, em

alguma coluna social secundária de um blog secundário, acotovelando-se em

busca de atenção na internet.

(cantarola, parodiando a canção “You’re the top”, de Cole Porter.)

You’re no longer the top,

You are not the Coliseum,

You’re not the top

You are not the Louvre museum.

Ninguém mais é top.

A lista de celebridades agora é feita de personagens secundários. Em vez

de pessoas da sociedade, mulheres-frutas, cantores da roça, políticos de

quinta categoria.

E arrivistas. Como PR. Meu terceiro marido. Brasileiro, bem mais novo

do que eu, desses que sabem deixar uma mulher louca. Um joão-ninguém

ambicioso dentro de uma corretora de valores.

Um rato solto dentro de uma despensa cheia de comida. Por esse rato abandonei Henri. Saí bem: Henri era um homem generoso,

me deu todas as joias que pedi, obras de arte, ações, apartamentos em Paris,

Nova York, Rio…

PR não era alto, não era forte, não era… Nem louro era. Mas… Xucro.

Um bom homem xucro, entendem o que quero dizer?

Me encantei.

Ajudei PR a subir na vida. Usei meu dinheiro para abrir uma corretora

para ele, induzi amigos a investirem com ele, apresentei-o às pessoas certas,

ensinei-o a comer, beber, ouvir música, ouvir conversas tediosas com ar de

interesse desde que do outro lado houvesse alguém com bom dinheiro para

investir. Fiz de PR um homem rico.

Hoje PR vai levado na coleira por uma paulistinha burrinha, vulgar,

exibicionista e sem um pingo do meu refinamento e do meu trânsito

internacional.

Mas com metade da minha idade. E um pai dono de construtora, dessas

associadas a todas as obras superfaturadas que pipocam por aí.

Como é mesmo o nome da nova mulher do PR? Tábata? Samanta?

Eduarda? Nome de travesti. Ou de seriado de televisão. Tábata…

Os pais deviam ver muita televisão.

Tampouco me lembro de como PR me avisou que nosso casamento tinha

acabado. Nem como exigiu que eu deixasse o apartamento que tinha passado

para o nome dele, com as procurações que assinei sem olhar, que eu deixasse

as obras de arte, as ações que movimentava em seu nome, tudo. Tudo.

PR já tinha incorporado tudo o que lhe ensinei. Tudo o que refinei. Já não

precisava mais de mim.

Além de ter tomado tudo o que era meu. Que eu achava que era meu. Como fui burra.

Toda mulher apaixonada é burra.

Burra e cega.

Com Harry Dourado me casei por amor, mas tenho uma boa desculpa: eu

era jovem. Deu no que deu: ele me abandonou por outro homem. Meu

casamento com Henri produtor de filmes péssimos foi harmonioso porque eu

nunca o amei.

Burra…

Saí do casamento com PR com uma mão na frente e outra atrás. Ou quase isso.

Só me restou o que PR não sabia, ou não lembrou, que eu tinha: um pied-

à-terre em Manhattan, um conjugadozinho que tinha comprado quando ainda

estava casada com Henri, e um punhado de ações na bolsa de Nova York.

Torrei as ações e fui viajar pelo mundo.

Fui a um monte de lugares exóticos, cheios de templos, macacos e

palácios cafonas. Não lembro os nomes. Não importa.

Comprei algumas coisas nesses lugares, vendi, comprei outras, vendi.

Tecidos, echarpes, roupas, estatuetas, balangandãs… Um tanto como no

começo, em Londres.

“My beautiful muamba.”

Mas eu não era mais jovem. Não tinha mais a mesma energia. Nem o

passaporte diplomático.

E já tinha começado a esquecer.

Perdi um voo porque me esqueci que embarcava de sei lá onde para um

outro lugar qualquer. Depois um outro. E mais outro. Vários.

Quantas vezes, na chegada, eu olhava as malas na esteira e não

reconhecia qual era a minha. Tinha que esperar até ficar apenas a última. Aí

eu podia pegar, sem medo de dar vexame.

Um dia acordei sem saber onde eu estava.

Era um hotel de rede, desses iguais no mundo inteiro. Foi a primeira vez

que eu tive medo… Disso. Dessa escuridão.

VOZ

“Nun der Tag mich müd gemacht/ Soll mein sehnliches Verlangen/

Freundlich die gestirnte Nacht/ Wie ein müdes Kind empfangen…”

MAGGIE

Dei uma nota de cinquenta dólares ao rapaz que trouxe essas malas. Ele ficou

espantado. Cinquenta dólares.

Meus últimos dólares.

Vendi o conjugado em Manhattan, apliquei em ações que despencaram,

fiquei sem nada.

Fui para a casa de uma amiga em Roma, dos tempos de Henri produtor

de filmes ruins campeões de bilheteria. Fiquei em Roma um tempo, fui para

a casa de outra amiga, em Barcelona, depois para Madri, Lisboa, Estoril e

outros lugares de que agora não me lembro…

Hóspedes são como peixe: começam a feder, depois de certo tempo. Pulei de casa de amiga para casa de amiga por esses últimos anos, me

hospedando aqui e ali, até que…

Não tenho mais nenhum dinheiro.

Não preciso mais de dinheiro. Não precisarei mais de dinheiro. Nunca

liguei para dinheiro. O que eu tive, gastei. Simples assim. Nossa família

nunca ligou para dinheiro.

(Fica parada, em silêncio, olhando em frente por um tempo, como se estivesse perdida no meio da neblina que invade sua memória. De repente, volta.)

Nasci aqui. Na casa que existia no terreno onde construíram este hotel.

Quando minha mãe se matou, fui viver com meu pai em Londres. Embarquei

sozinha no avião. Eu devia ter uns quatro anos.

Em Londres, quando eu tinha uns dezoito, dezenove anos, me apaixonei

por um inglesinho lourinho e magrinho, um nobre empobrecido, com dentes

acavalados. Ele tapava a boca quando sorria.

Não me lembro do nome dele.

Lembro que ele tinha um conversivelzinho de segunda mão, cheio de

arranhões e amassados. Um miniconversível azul. Ou verde.

Num fim de semana ele me levou para conhecer os pais, na propriedade

rural onde moravam. Fazia frio dentro da casa. Eles não tinham dinheiro para

pagar uma boa calefação. Tinham vendido muitos dos móveis em leilões. Ou

para novos-ricos americanos.

Quando estávamos chegando no miniconversível, eu… O conversivelzinho era prata e eu pedi que Matthew, acho que o nome

dele era Matthew, pedi que Matthew baixasse a capota. Adorei sentir o vento

nos meus cabelos.

Eu pensei: um dia ainda vou ter um conversível como este. Mas nunca aprendi a dirigir.

Fico apavorada no trânsito.

No táxi, vindo para cá, abri as janelas para sentir o vento nos meus

cabelos. Tal como naquela manhã de sábado. Acho que era um sábado.

VOZ

“…Nun der Tag mich müd gemacht/ Soll mein sehnliches Verlangen…”

MAGGIE (interrompendo a música)

Eu sei que ainda sou aquela jovem no conversível, com os cabelos ao

vento, indo para… Indo para… algum lugar, no fim de semana. Não

exatamente bonita, mas… atraente. Cheia de…

Jovem.

Jovem.

Pronta para todas as vitórias e as alegrias da vida que estava começando.

(Aproxima-se do espelho coberto.)

Cobri o espelho.

Faço isso em todos os lugares a que vou.

Tenho horror a espelhos. Horror, horror.

Essa mulher que eu vejo no espelho… Essa… Essa velha. Não sou eu. As cirurgias plásticas não me devolveram quem eu sou. Esse cabelo

tingido, o silicone nos seios, a lipoaspiração na barriga e nas coxas… não

adiantaram nada. Continuei desaparecida.

Essa velha não sou eu. Essa pele flácida não é minha. Eu não sou essa.

Eu não sou isso. Eu estou presa aqui dentro.

(Longa pausa.)

Mas não por muito tempo.

(Põe as malas sobre a cama, começa a abrir, para.)

Harry. O nome dele era Harry. Lindo Harry. O americano louro, alto e

dourado era Harry. Harry alguma-coisa Terceiro. Harry eu conheci em um

fim de semana na casa sem móveis e fria de um barão… Conde… Esqueci.

Não importa.

Quem eu conheci na Costa Amalfitana foi Henri. Heinrich. Um produtor

de cinema austríaco. Casei com ele. Não o amava, mas casei com ele. Foi um

ótimo casamento. Tranquilo. Equilibrado. Henri.

Henri tinha uma casa em Positano. Não, estou me confundindo. Positano

é em outro lugar. Quem morava ali era um escritor americano, primo da

Jackie Kennedy. Eu me parecia com a Jackie.

(Pega os óculos.)

Vintage…

(Parece perder-se novamente.)

(voltando) Conheci Henri em alguma cidade de algum lugar e fomos à Costa

Amalfitana porque um amigo alugava uma casa ali no verão. Casado com

uma atriz exótica. Florinda alguma-coisa. A atriz exótica tinha feito um filme

produzido pelo Henri.

Não era uma casa. Era um barco.

Saíamos de barco e íamos parando nas cidadezinhas tão graciosas, cheias

de casinhas brancas construídas nos penhascos. Parávamos em… em…

O mar era muito azul.

Nós mergulhávamos naquele mar azul, tomávamos vinho gelado e

comíamos frutos do mar preparados pelos marujos.

Não.

Comíamos frutos do mar e peixes fresquíssimos nas cidadezinhas tão

graciosas, cheias de casinhas brancas construídas nos penhascos…

Onde?

Onde?

(MAGGIE vai até os janelões, escancara os painéis de vidro fumê. Ouve-se o ruído de trânsito, muitos andares abaixo, algumas buzinas. Uma brisa sopra do leste. As cortinas transparentes ondulam.)

(MAGGIE aspira fundo. Debruça-se, observa o trânsito. Fala, de costas para a plateia.)

Os bons cidadãos, tal como as andorinhas, rumam para o sul. Para casa. Para

suas mulheres, seus filhos, seu uísque com gelo — ou muito gelo, o jantar

com pouco colesterol — ou muito colesterol. Rumam para outra noite de

televisão, talvez uma sessão de cinema, ou uma peça engraçada, um chope e

uma pizza, quem sabe um jantarzinho, num restaurantezinho, com um

vinhozinho… Depois o descanso antes de voltarem ao trânsito amanhã de

manhã, e dali para o escritório, para um dia inteiro igual ao de hoje, de onde

sairão para esse tráfego rumo ao sul. Como as andorinhas.

(Vira-se.)

Amanhã. Não os verei.

(Vai até o espelho coberto. Fica de frente para ele.)

Amanhã. Nunca tive medo dessa palavra e do que ela significa. Amanhã. Eu

escolhia o meu amanhã. Eu decidia o que seria o meu amanhã. O que faria,

que lugares desconhecidos iria visitar, quem iria namorar, com quem iria

fazer amor… Ontem. Antes. Eu nem pensava no amanhã.

O amanhã era uma abstração. Como o tamanho do universo. Algo assim.

Incalculável. Imponderável.

Então, um dia, eu acordei velha.

Velha e sem dinheiro.

Velha, sem dinheiro e sem filhos.

Fui casada três vezes e não tive filhos. Não sou fértil. Detesto essa palavra: fértil. Fértil é vaca, ovelha, égua. Eu não sou fértil.

E não tenho obrigação de ser fértil. Nenhuma mulher tem obrigação de ser

fértil.

(Volta à janela. O céu tornou-se mais escuro. No interior do quarto do hotel a luz diminui.)

Não havia tanto barulho de buzinas e carros nesta avenida. Isso eu me

lembro. Me lembro bem.

(Vira-se.)

Porque aqui, bem neste lugar, ficava a casa do meu avô.

Era uma casa simples, pequena, graciosa, de um andar apenas. De muito

bom gosto.

(Vai ao interruptor, acende a luz. É clara demais: ela cobre os olhos. Apaga a luz. Vai a cada abajur e acende-os. Lá fora a noite se instala.)

Um andar? Ou dois andares? Era mesmo de pedra? Tinha mesmo uma

varanda em arco?

Não sei. Não tenho certeza. Não me lembro direito. Não me lembro

direito de quase nada.

Não sei direito como era nossa casa. O que eu não me recordo é a

mentira? É a verdade?

Minhas pastilhas estão se apagando. Cada vez mais rápido. Como se

minhas lembranças estivessem desenhadas em areia, e o vento… O vento faz

que elas se… Elas…

Eu estou sumindo. Eu estou desaparecendo.

Antes de sumir totalmente, eu parto. Daqui, deste mesmo lugar onde

minha vida começou.

Onde deixei o documento exigindo que meu corpo fosse cremado? Eu o

trouxe?

(Abre as malas, busca, tira o que está dentro: papéis, documentos, mas não o que ela quer. Procura, em seguida, entre as páginas dos livros. Tampouco está ali.)

Certidão de nascimento, passaporte, testamento… Está tudo aqui. Menos o

documento certificando que desejo ser cremada. Tenho horror da ideia de ser

enterrada. E para quê? Ninguém vai visitar meu túmulo mesmo.

Não faz mal. Não importa. Nada mais importa.

(Abre a gaveta da escrivaninha, encontra o papel e a caneta de que precisa.)

Deixarei instruções escritas.

(Senta-se.)

O que devo escrever? A quem interessar possa? Às autoridades? A quem

encontrar esta carta?

Escreverei algo simples.

Quero ser cremada e façam das minhas cinzas o que bem entenderem.

Basta escrever isso e assinar? Devo colocar a data? Que dia é hoje?

(Olha em volta.)

Não há nenhum calendário aqui.

Não posso ligar para a recepção e perguntar que dia é hoje. Vão achar

que estou louca.

Vou escrever uma carta. Num tom bem razoável. De uma mulher em

pleno domínio de suas — como se diz? Capacidades mentais. Tenho total

controle de minhas faculdades mentais. Continuo tendo domínio de minhas

faculdades mentais. Por isso decidi partir. Enquanto tenho o comando de

minhas pastilhas.

Scheiße! Merde! Não são pastilhas. A composição não é feita de

pastilhas. Merde, merde, merde!

Porque eu ainda tenho lucidez, ao menos alguma lucidez, parto antes de

perder controle total sobre minha memória. E meu corpo.

Partirei sem nenhuma acusação a ninguém. Sem rancor. Nem melancolia.

Adeus apenas. Uma carta com polidez e civilidade.

(Levanta-se. Vai até uma das malas, abre-a, retira dali roupas.)

A roupa para o salto. Um corpete, para evitar que meus seios ou minha

barriga fiquem à mostra. Fiz as unhas dos pés e das mãos, me depilei. Não

comi nada, para que meu intestino não se solte e me faça passar vergonha.

(Tira um vestido da mala. O vestido deve ser longo, esvoaçante e drapeado, lembrando a escultura da Vitória de Samotrácia, que está no alto de uma das escadarias do Museu do Louvre.)

Givenchy. Autêntico. Vintage.

Usei uma única vez.

Uma noite de gala em Nova York. Naquele teatro de ópera enorme, que

tem umas janelas assim, em arco, altas, de uns três andares. Na frente do

teatro há uma fonte. E um pátio. Muito amplo.

Chegamos de limusine. Harry e eu. Lindos. Eu era jovem. Harry era

jovem. Quando entramos no teatro…

Eu sabia como impressionar. Passos largos, que tornavam o vestido mais

esvoaçante. Olhando para a frente. Com um suave sorriso nos lábios, quase

imperceptível.

(Caminha pelo quarto, segurando o vestido à frente.)

As pessoas paravam de conversar, simplesmente paravam de conversar

quando nós passávamos. Cochichavam. Quem são esses dois?, com certeza

se perguntavam. Como são belos. Um homem grande, perfeito, dourado, e

essa morena, diferente, de traços fortes, vestida como uma deusa.

(Para.)

Harry morreu há três anos. Teve aquela doença horrível, que tantos rapazes

tiveram, fez todos os tratamentos que sua fortuna permitiu, mas…

Morreu com menos de cinquenta quilos. Um fiapo. Coitado. Meus pais estão mortos.

Meus amigos estão mortos.

Ou dementes.

(Deixa o vestido sobre a cama. Volta à escrivaninha. Relê o que escreveu. Não gosta. Amassa. Joga na lata de lixo.)

Escreverei apenas palavras essenciais.

(Escreve.)

Boa noite a todos.

(Para, sem saber como continuar.)

Boa noite a todos.

(A caneta continua na mão e a folha de papel diante de MAGGIE, mas ela nada escreve.)

Todos. Da vida inteira. Longa vida. Mais do que consigo lembrar. Mais do

que consigo suportar. Mais do que…

(Levanta-se. Anda pelo quarto. Para diante do espelho coberto.)

Por que colocam espelhos em todos os lugares? Que grosseria. Detesto me

ver. Detesto ver essa mulher. A mulher que eu me tornei.

(Aproxima-se do espelho. Teme. Mas cansou de se esconder. Num ímpeto, puxa o tecido que cobre o espelho. Encara-o. Enfrenta a própria imagem. Perdeu o medo.)

O que sobra de nós, afinal, é isso? A sombra do que fomos? O arremedo do

que fomos? A caricatura do que fomos? Fala! Fala! Diz alguma coisa para

mim. Fala!

O esquecimento é um alívio.

Mas nem sempre.

Gostaria de lembrar a voz da minha mãe. Mas não consigo. Não consigo,

não consigo, por mais que tente não consigo. Nem a do meu pai. Nenhuma

voz. Nem os rostos. Como se fossem desenhos que alguém está apagando.

(Começa a desabotoar a blusa, quase sem perceber, enquanto caminha para um dos abajures e o apaga. Fará isso com as outras luminárias do quarto, enquanto se despe.)

Nasci aqui.

Nasci na casa que existia aqui.

Era uma casa pequena, mas de muito bom gosto, onde eu vivia com meu

pai e minha mãe. Eles eram bonitos, alegres, muito felizes. Se amavam

perdidamente. Fui muito feliz com meus pais, nessa casa.

(Começa a se vestir. A luz dentro do quarto vai ganhando tons irreais. Quando termina, ela própria parece cheia de luz.)

Fiquei fascinada quando vi Harry naquela casa inglesa, sem móveis e sem

calefação. Ele era dourado, lindo, parecia… iluminado. Ele me atraía

como… Não sei. Mágica.

De onde você é, eu perguntei. Daí, de todos os lugares, ele respondeu.

Meus amigos me chamam Maggie, eu disse. Qual é o seu nome, eu

perguntei, e ele respondeu, Harry, meu nome é Harry. Você não é inglês,

creio que eu disse. Rá, rá, ele riu, Claro que não.

Foi assim que começou. Numa casa no interior da Inglaterra. Numa tarde

de sábado.

Não me lembro para onde fomos, o que fizemos depois, só me lembro

que desde aquele instante eu o amei. Eu o amei, amei, amei. Como nunca

tinha amado ninguém. Como nunca mais amei homem nenhum. Eu senti que

tudo o que eu tinha feito, tudo o que eu tinha vivido, tudo fazia sentido

porque, naquela tarde de sábado, eu o encontrei. Eu senti como… Como se

eu tivesse estado perdida a minha vida toda, como se por toda a minha vida

eu tivesse sido separada dele e, finalmente, naquela tarde de sábado, naquela

casa fria e com poucos móveis, eu o encontrei. Eu o reencontrei. Porque era

isso: um reencontro. Um alívio. Finalmente, eu pensei. Finalmente. Por isso

é que eu vivi até agora. Para encontrá-lo. Naquela tarde. Naquela casa.

Naquele instante. E seria para sempre.

(Está completamente vestida. Vai, triunfante, até o espelho, como se caminhando numa noite de gala no Lincoln Center, em algum tempo do passado.)

Estou pronta.

(Mira-se. Ajeita os cabelos, passa um batom ou um pó e, de repente, vê pelo espelho algo que só a lembrança dela vê.)

Harry!…

(virando-se) Harry!…

Harry, disseram que você tinha morrido!…

(Dá uns poucos passos, aproximando-se do homem que não vemos. Ela “toca” o rosto, os cabelos, os ombros de Harry, enquanto conversa com ele.)

Harry, você está vivo!… Que bom ver você. E logo hoje. Eu estava tão…

Harry! Que bom, que bom ver você aqui. Você está tão bonito!…

Exatamente como naquela tarde em que nos conhecemos! Esse rosto tão

perfeito… Esse nariz reto, longo… A pele, Harry! Que pele macia a sua!… E

os cabelos! Tão louros, tão… dourados!… Harry, Harry! Você não imagina o

prazer em ver você assim, aqui, agora, neste momento. Harry… Harry, eu

estava tão sozinha. Eu estava tão perdida. É um alívio tão grande ter você

aqui, do meu lado, neste momento. Harry, Harry, Harry…

Eu coloquei este vestido porque… Você se lembra deste vestido? Lembra

mesmo? Daquela noite, onde foi aquela noite de gala? Isso, exato, foi no

Lincoln Center! Ah, você acha que eu estava linda? Acha mesmo? Sim,

exato, nós chegamos em uma limusine. Chegamos em uma limusine,

atravessamos o pátio e, quando entramos no prédio do Metropolitan Opera,

as pessoas paravam de conversar, simplesmente paravam de conversar

quando nós passávamos. Sim, isso mesmo, elas cochichavam: quem são

esses dois?, como são lindos, como são belos, como são jovens e lindos e

belos!…

No palco do Metropolitan Opera, uma soprano negra, majestosa,

cantava…

VOZ

“Nun der Tag mich müd gemacht/ Soll mein sehnliches Verlangen…”

MAGGIE

Sim, era isso que ela cantava! É um poema de Hermann Hesse, musicado por

Richard Strauss. Ah, como eu me lembro, como me lembro claramente. Foi

uma das quatro últimas canções compostas por Richard Strauss antes de

morrer. Ele já estava morrendo quando compôs essa música. Eu traduzi as

palavras para você, você lembra? Eu falava alemão tão bem…

VOZ (música continua, enquanto ela traduz)

“Freundlich die gestirnte Nacht/ Wie ein müdes Kind empfangen/ Hände,

laßt von allem Tun…”

MAGGIE

“Ao fim do dia, exausta, busco ardentemente o repouso na noite estrelada,

como um amigo acolhe uma criança fatigada… Mãos, cessem todo

trabalho… Cérebro, afaste todo pensamento… Todos os meus sentidos

querem afundar no sono… E minha alma, livre, quer voar solta no espaço,

pelos círculos mágicos da noite encantada, onde vai viver milhões de

vidas…”

(esconde o rosto com as mãos) Ah, não! Não me olhe, Harry!… Estou tão

abatida…

Ah, você não acha? Você não acha que estou abatida? Estou igual estava

naquela noite? Acha mesmo? Ah, Harry, você sempre tão gentil, tão doce…

Viu que eu guardei o vestido? Você que me deu. Você me disse, lá em Paris,

nós estávamos em Paris, passamos em frente à Maison Givenchy e você me

disse: entre aí nesse costureiro e compre a roupa mais cara que ele tiver. Era

este vestido aqui. Exatamente igual ao vestido que Audrey Hepburn usou

naquele filme com Fred Astaire, aquele em que ela desce as escadas do

Museu do Louvre.

Viu como eu me lembro de tudo, Harry? Me lembro de tudo, tudo, tudo. Eu me recordo de cada momento que você e eu passamos juntos. Que

bom estarmos juntos mais uma vez.

VOZ

“Stirn, vergiß du alles Denken/ Alle meine Sinne nun/ Wollen sich in

Schlummer senken…”

MAGGIE

Quero ficar com você para sempre, Harry.

VOZ

“Und die Seele, unbewacht/ Will in freien Flügen schweben…”

MAGGIE

Me dá a mão.

VOZ GRAVADA

“Um im Zauberkreis der Nacht/ Tief und tausendfach zu Leben.”

MAGGIE

Vem, Harry! Vem! Vamos entrar nessa festa de gala e mostrar como somos

jovens, como somos bonitos, como somos felizes, como temos todo o futuro

à nossa frente.

(Caminha até a cadeira junto à janela. Sobe.)

Vem, Harry. Vamos. É nossa hora.

(Põe o pé na moldura da janela, luzes baixam, música sobe.)

Cai o pano.

 

17 dez. 2013 – terça-feira

A peça Boa noite a todos teve sua primeira leitura em Olinda, durante a 8ª edição da Fliporto – Festa Literária Internacional de Pernambuco, sábado, 17 de novembro de 2012.

A personagem MAGGIE foi interpretada por Christiane Torloni, em encenação dirigida por José Possi Neto.