Boa Noite a Todos
A Construção Dupla de Boa Noite a Todos
A CONSTRUÇÃO
DUPLA DE
BOA NOITE
A TODOS
Às vezes não há saídas.
Assim sempre foi para Maggie.
Quando a personagem surgiu, há cinco anos, seu fim já estava traçado. Tal como se passa na peça e na novela. Tal como se deu na vida real. Porque Maggie, como tantos personagens de textos meus, é inspirada em gente que existiu e com quem convivi. O que alterei, e alterei muito, foram traços íntimos, capazes de tornar Maggie mais uma criatura de ficção do que arremedo de alguém que existiu.
Mesmo porque Maggie não é inspirada em apenas uma pessoa. Maggie foi muitas.
Maggie foi Maria Helena, foi Vera, foi Silvia, foi Liane, Margarida, Marina, Isabel, foi mulheres, e mesmo alguns homens, cujos caminhos chegaram ao fim de forma inexorável, injusta, cruel e… precoce.
O fim de caminho é um dos temas de Boa noite a todos.
Seguramente o que me empurrou a escrever este livro.
As primeiras anotações sobre Maggie vieram depois da publicação de Se eu fechar os olhos agora e antes de A felicidade é fácil chegar às livrarias. A história dela, sobre ela, parecia ser a terceira vertente do romance Vidas provisórias, que já era, então, a continuação do que se passara com Barbara, a jovem faxineira, filha do motorista assassinado de A felicidade é fácil, e com Paulo, cujas décadas no exílio eram apenas pinceladas em Se eu fechar os olhos agora.
Maggie já se chamava Maggie e já chegava ao hotel, seu destino final, desembarcando do táxi com os cabelos ligeiramente despenteados, com suas velhas malas de grife e suas memórias — ou o que resta delas.
Imediatamente identifiquei nela algumas das pessoas que compuseram seu esboço inicial, e dali foram se contrapondo outras características, reais e ficcionais, como um mosaico desaparecendo sob massa e tinta branca, paralelo feito por Maggie, ao usar o exemplo da antiga basílica cristã ortodoxa de Santa Sofia, em Istambul, cujas imagens foram cobertas durante o domínio muçulmano da Turquia.
Mas Paulo e Barbara ganharam mais e mais espaço em Vidas provisórias, enquanto Maggie se desenvolvia em uma trama inteira e claramente apartada deles. Ainda que Maggie também fosse uma expatriada, como os outros dois personagens centrais daquele romance, e tivesse uma vida ainda mais errante do que eles, o contexto era diverso.
Maggie saiu totalmente de Vidas provisórias. Mas não desapareceu.
Escrevi A felicidade é fácil — inspirado em relatos reais — e continuei desenvolvendo Vidas provisórias ao longo de 2010, 2011, 2012 e início de 2013, sem, contudo, abandonar Boa noite a todos.
Aí se deu uma bifurcação inesperada.
Antes mesmo de se completar como prosa, Boa noite a todos começou também a brotar como texto teatral. Nunca pensei nele como um monólogo, mas, sim, como uma peça de uma única personagem.
Novela e peça prosseguiam como, essa foi a imagem que fiz, irmãs gêmeas.
Textos gêmeos, enfim. Semelhantes, mas nada idênticos.
Boa noite a todos teve este título desde o início.
A personagem também nunca teve outro nome. Ela nasceu Margareth, no Brasil, herdeira de sobrenomes importantes de senhores de engenho pernambucanos, mas filha caçula de um diplomata de terceira linha. Nem mesmo um diplomata: um funcionário do escritório do Instituto Brasileiro do Café em Londres, na segunda metade dos anos 1960, bem relacionado com os militares que, então, detinham o poder em nosso país.
Margareth, contudo, nunca foi chamada assim. Sempre foi Maggie, tanto na novela quanto na peça. Não havia sido uma mulher exatamente bonita, como diz em dado momento de ambos os textos, mas era cheia da vitalidade e do brilho da juventude, que acabam por se transformar numa visão de beleza ou, pelo menos, de encantadora sedução. Muito mais poderosa do que a beleza (essa, sim, real) de sua meio-irmã, a esguia, loura, elegante Tess.
Maggie é, igualmente, o nome de uma das personagens mais conhecidas de Tennessee Williams: a bela, manipuladora e manipulada, insubmersível, sedutora Maggie The Cat, protagonista de Gata em teto de zinco quente.
A sedução da Maggie de Boa noite a todos incluía a semelhança dos traços agudos de seu rosto com os de Jacqueline Kennedy e que, segundo ela própria crê, fazem dela quase uma sósia da atriz canadense Geneviève Bujold, de Ana dos mil dias, um dos poucos filmes de cujo título Maggie se lembra.
Mas ela se recorda cada vez menos.
Ela não consegue se lembrar, por exemplo, do nome do ator com quem achou Harry — sua grande paixão pela vida toda — parecido quando viu pela primeira vez “o dourado Harry”, como tantas vezes se refere ao primeiro marido. Trata-se, evidentemente, do inglês Michael York, que gozou de grande popularidade em filmes como Romeu e Julieta (1968), de Franco Zefirelli, e Cabaré (1972), de Bob Fosse.
Outro nome que aparece e desaparece da mente de Maggie, e a quem ela igualmente não consegue identificar, é Florinda. Ela sabe que deve ter conhecido alguma Florinda, acredita que possa ter sido durante o período de seu casamento com um produtor europeu de filmes baratos e lucrativos, mas não dá rosto nem sobrenome a essa Florinda.
É uma confusão de imagens, como num jogo de espelhos.
Claro que Florinda é a atriz Florinda Bolkan, estrela de vários sucessos de público (O anônimo veneziano [1970], de Enrico Maria Salerno) e de crítica (Investigação sobre um cidadão acima de qualquer suspeita [1970], de Elio Petri) nos anos 1970, brasileira como Maggie (Bulcão era seu sobrenome original), com o mesmo tipo de rosto anguloso da ex-primeira-dama americana e da atriz canadense. O trio Geneviève Bujold, Jacqueline Kennedy e Florinda Bolkan forma ângulos diversos do mesmo rosto, o de Maggie, na juventude.
Florinda Bolkan, Michael York, Judy Garland, Carmen Miranda: o cinema — sobretudo filmes vistos por Maggie na infância e na juventude — é presença importante nas divagações da personagem, ainda que ela raramente chegue, tal como no caso de Florinda, a identificar a temática. Tornam-se enigmas para sua mente conturbada, como a frase “You are no longer in Kansas, Dorothy”, que Maggie não atina ter ouvido quando menina, no filme O mágico de Oz.
Cinema, ainda: além de ter sido casada por mais de quinze anos com o austríaco Heinrich “Henri” Döppelbrandt, produtor de “filmes baratos e lucrativos, estrelados por gladiadores halterofilistas, caubóis meridionais, atores de Hollywood falidos”, Maggie e o segundo marido badalavam — para usar um verbo muito utilizado na época — no círculo formado pela grã-finagem que mosqueava em torno de celebridades da sétima arte, em que ela criou relações importantes para sua sobrevivência quando, mais tarde, se viu abandonada pelo jovem terceiro marido.
Assim como o cinema, também a música pop marcou a geração de Maggie, ainda que ela não consiga unir as palavras de uma canção à lembrança de um show de Elton John visto em Londres (“Sim, piano de cauda branco. Ele também se vestia de branco. Uma casaca branca. De cetim. Ou seda. Óculos cor-de-rosa, enormes, cobriam boa parte de seu rosto. Ele cantava: “So goodbye, yellow brick road, where the dogs of society howl..”).
Utilizei a música brasileira mais tocada de todos os tempos para pontuar tanto o absurdo anacronismo quanto a melancolia de uma vida arrancada de seu lugar original, e que para ele só volta quando Maggie decide encerrar tudo. “Aquarela do Brasil”, de Ary Barroso, visão utópica de um país que nunca existiu senão na fantasia, vem na versão em inglês.
Na peça e na novela, os verbos se repetem, sem a utilização de sinônimos ou substitutos. Não poderia ser de outra forma, ao dar voz a alguém que está perdendo a memória, incapaz de lembrar nomes de pessoas que conheceu, objetos, até mesmo cidades onde morou nos últimos quatro anos.
No texto em prosa, os segundos entre a saída do táxi, em frente ao hotel, e a mesura do porteiro ao atendê-la, ou a caminhada dali, atravessando a porta giratória, até a chegada à recepção, e a entrega do cartão-chave da suíte que Maggie ocupará no décimo quinto andar permitem — tal como em nossa memória — a rememoração de incontáveis episódios, de várias décadas de sua vida, despertados por fatores aparentemente tão corriqueiros quanto o vento que entra pelo vidro da janela aberta do táxi. Ou as gravatas de listras azuis e amarelas dos rapazes poliglotas atrás do balcão.
Fiz uma opção radical para o palco. Joguei a ação do meio para o fim da trama. Maggie já está na suíte, ao lado das duas malas, em pé, de costas para o público, quando abre a peça.
Suas ausências e hesitações são indicadas logo no primeiro momento, quando ela caminha até os janelões em frente ao mar, para diante deles, apoia-se e ali encosta a testa, por um bom tempo, em silêncio.
As longas pausas compõem Maggie, tanto quanto suas falas. O teatro é feito de palavras, obviamente, mas não apenas — obviamente, de novo. Pausas fazem a riqueza da interpretação dos melhores atores e atrizes. Bibi Ferreira e Fernanda Montenegro, para ficar com dois grandes exemplos brasileiros, sabem utilizá-las com maestria, na conquista e domínio de plateias. O silêncio, por vezes, como teria escrito Thomas Carlyle, pode ser mais eloquente do que as palavras.
Mais de uma situação da novela, que ajuda a dar consistência a Maggie na prosa, se mostrou imprópria, por vezes ineficaz, na versão para o palco. Percebi algumas delas logo na primeira leitura pública, no palco da Fliporto, em novembro de 2012, no Recife, com Christiane Torloni no papel de Maggie, dirigida por José Possi Neto, e as troquei ou, simplesmente, eliminei.
Uma dessas situações foi o longo tempo que Maggie passava na banheira, num solilóquio que estava entre a rememoração e a ilusão, como se ela se encontrasse em um ritual de purificação, a se preparar para o salto. Troquei por outro tipo de preparação, a meu ver mais comovente, capaz de deixar mais claro o mergulho dela na fantasia, a fuga de Maggie para o delírio capaz de apaziguar a agonia insuportável e as humilhações por que vem passando na débâcle pessoal, dolorosamente consciente de que a deterioração de seu cérebro e de seu corpo se tornou irreversível.
Perdi a conta de quantas vezes reescrevi os textos da peça, da novela e deste posfácio comentando as interligações entre eles. Perdi, literalmente, duas versões deste quase ensaio, sumidos em algum universo paralelo de meu computador.
Nas primeiras versões, inclusive na leitura dramática de Torloni e Possi na Fliporto 2012, a música que assombrava Maggie era “Dido’s lament”, da ópera Dido e Aeneas, de Henry Purcell. No Recife ouvia-se a voz da soprano inglesa Janet Baker.
Porém, conforme avançavam as esperanças e os desvarios de Maggie, e as razões de ambos iam se tornando cada vez mais palpáveis para mim, num processo que já vi acontecendo com atores, que se tornam mais próximos de suas personagens à medida que as temporadas de alguma peça continuam, uma outra canção surgiu e ganhou espaço: “Beim Schlafegehen”, de Richard Georg Strauss.
A história, em parte lenda, de como “Beim Schlafengehen” foi composta, e do pedido de repouso e paz contidos nela, me pareceu muito mais próxima dos anseios da mulher que volta a seu lugar de origem para se despedir, e que necessita de alívio para suas aflições, do que o acatamento do abraço da morte (“A morte é agora uma convidada bem-vinda”) da ária de Purcell.
Maggie conta, perto do fim, “para o homem que só ela vê”, a história de como Strauss, sentindo-se velho e desiludido após o fim da Segunda Guerra Mundial, puxa de si derradeiras forças e, utilizando-se de poemas de Hermann Hesse e Josef Von Eichendorff, cria “Beim Schlafengehen” e outras três composições para soprano e orquestra (“Im Abendrot”, “Frühling” e “September”). Mais tarde elas passariam a ser executadas juntas e receberiam o título de Quatro últimas canções. Irônica e tristemente, as Vier letzte Lieder só tiveram sua primeira audição em Londres, em 1950, um ano após a morte do compositor. Imaginei para a encenação a versão de Jessye Norman (Philips, 1982).
Também ao final de Boa noite a todos fica claro onde, quando, com quem e em quais circunstâncias de sua vida Maggie ouviu o recital em que a soprano, cuja voz a deslumbra, canta “Beim Schlafengehen”.
A narrativa na terceira pessoa em boa parte da novela pode dar a impressão de encerrar a verdade sobre a trajetória de Maggie. O leitor deve desconfiar. Além de Maggie falar consigo mesma, sem consciência desse diálogo feito de frequentes contestações, o narrador tampouco sabe da suposta verdade e só a conhece, ou acha que conhece, tal como o leitor, à medida que a mulher que está perdendo o controle sobre a memória e o corpo busca ter ao menos o domínio sobre como e quando será seu fim.
Finalmente: os três livros levados por Maggie na mala menor, para seu destino final, o edifício construído sobre a destruição da casa de sua infância, tal como igualmente destruída foi a vizinhança de seus primeiros anos, uma extinção tão radical quanto a de sua memória, quanto a memória de tantos episódios da recente história do Brasil. Na peça, os três livros não são nomeados. São, apenas, “meus três livros preferidos”.
No texto em prosa, que permite um tipo de reflexão distinto daquele que ocorre ao espectador sentado na cadeira de um teatro, eu revelo tratar-se da obra de duas poetas que se suicidaram, uma portuguesa, outra americana, mais um terceiro livrinho encapado, sujo e rabiscado, o único objeto que resta a Maggie de uma vida marcada por perdas, desenraizamento e entregas desastrosas a amores inconsistentes.
(Rio de Janeiro, domingo, 2 de fevereiro de 2014)