Boa Noite a Todos
A Novela que Deu Origem à Peça
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 2 partes.
A NOVELA
QUE DEU
ORIGEM
À PEÇA
Chegou ao hotel em um táxi. Trazia duas malas. Em uma levava os três livros favoritos. Na outra, a roupa para o salto.
Usava um suéter de caxemira claro jogado às costas, sobre uma camisa masculina branca, calças claras, sapatos bicolores de salto médio.
Um figurino adequado para alguém de sua origem e classe social, ela considerara ao escolhê-lo. Discreto, suficientemente composto, mas claramente definidor para quem se desse ao trabalho de perceber — e tivesse informação e cultivo para perceber — minúcias do refinamento e proveniência da camisa de algodão comprada na Via Bocca di Leone, na última viagem que fizera a sua querida Roma, quatro anos antes, a perfeição das linhas retas e bainha dupla das calças de linho cor de sorvete de baunilha, confeccionadas sob medida no mesmo alfaiate londrino com quem seu pai, diplomata, mandava fazer os ternos até se aposentar, a sutil excentricidade da echarpe de seda em desmaiados tons de amarelo e azul a substituir o cinto, um dia obtida na butique da Place Saint-Sulpice de um costureiro da Avenue Marceau, o bom gosto dos sapatos bege, de bico azul-marinho, adquiridos na Rue Cambon, ainda naqueles outros, findos, longínquos tempos.
Alguma camareira ficará com tudo, ela reflete.
A ideia quase a diverte. Uma camareira metida em calças da Savile Row e sapatos Chanel. Talvez. Provavelmente. Ou a polícia recolherá. Ou entregará à sobrinha. Se Antonia aparecer para recebê-las, o que é pouco provável. Antonia não se abalaria de Londres para a cremação da tia a quem não vê há séculos, de quem não tem notícias há séculos, de quem não recebe uma carta, um telefonema, nem mesmo um cartão-postal há séculos e séculos, menos ainda para receber roupas velhas. Grifes antiquadas. Tant pis.
Ninguém escreve mais cartões-postais, Maggie, ela se corrige. Muito menos cartas.
Eu escreveria, ela mesma se contesta. Eu escrevia. Eu mandava. Não tenho mais a quem escrever. Não tenho mais o que escrever.
Minta, Maggie. Minta. Escreva banalidades como todo mundo. Ainda deve haver alguém em sua caderneta de endereços a quem possa enviar um cartão-postal.
É apenas um fichário velho, ela se responde, com capa de couro e nomes riscados de pessoas que já morreram, página após página.
Deve haver alguém, em algum lugar, Maggie. Escreva. Diga que está bem, que o tempo está ótimo, que a temporada na Côte está mais febricitante do que nunca, diga que Monte Carlo ferve com o beautiful people de toda a Europa, diga, escreva, bastam duas linhas ou três, conte que havia muito tempo que Courchevel não via tanta gente linda e interessante e que…
Courchevel? Côte d’Azur? Ninguém mais vai a esses lugares. Que coisa mais démodé. Tanto quanto a própria palavra démodé.
Você não vai mais, Maggie. Porque não pode. Não tem como.
Ninguém mais vai. Não as pessoas que importam. Monte Carlo tornou-se apenas um refúgio de novos-ricos e corredores de Fórmula 1 fugindo de impostos dos seus países de origem, e louras ucranianas à cata de rotundos senhores generosos que as queiram exibir.
Maggie, Maggie, ela se recrimina, desde a morte de Andy Warhol, no século passado, ninguém fala mais beautiful people, Maggie. Ninguém. Nem mesmo você.
Eu deveria ter jogado fora minha caderneta de endereços. A polícia vai revirar as páginas e não haverá ninguém a quem chamar. Deveria ter colocado um adendo explicando que Antonia é minha sobrinha? Minha única parente viva? Não importa. Nem trouxe a caderneta de endereços. E Antonia não virá. Claro que não virá. E por que viria? Sempre me detestou.
Antonia não detesta você, Maggie. Não tem inteligência para isso. Nem memória.
Claro que tem. É evidente que tem. Desde a morte da mãe, Antonia me detesta. Me odeia. Tem horror de mim. Por conta da morte de minha irmã. Minha bela irmã. Minha refinada bela irmã. Minha refinada, bela, loura, magra irmã.
Ela não era sua irmã.
Minha magra, loura, bela, refinada meio-irmã, sim. Claro que era minha irmã. Filha do meu pai com a escocesa. Mary, Queen of Scots. Por que estou me lembrando disso?
Por que está se lembrando disso, Maggie?
Quem foi Mary? Minha irmã loura, magra, bela e refinada não se chamava Mary. Minha meio-irmã se chamava… O nome dela era… Ela se chamava…
Não era Mary. Não era Mary. Não importa.
Certo, Maggie, ela concede. Não importa. O nome de sua meio-irmã não importa. Não importa mais.
Não quero pensar nisso.
Não precisa pensar nisso, Maggie.
Minha sobrinha sempre me culpou pela morte de Mary. Não era Mary. Era… Não importa. A linda mãe dela. A ruiva Tess.
Loura.
Ruiva.
Loura.
Tess? O nome de minha linda irmã ruiva era Tess? Sim, isso, Tess. Theresa. Tassy. Comprida, pernas longas, quadris estreitos… Tudo caía bem nela. Menos a vida.
Não pense nisso, Maggie. Não importa. Não tem mais importância.
Não sinto nenhum remorso. Nenhum. Nenhum, nenhum, nenhum. A morte de Theresa começou muito antes de ela jogar o carro contra uma árvore na estrada de… Naquela estrada, perto de Londres. A morte dela começou muito antes.
Não pense nisso, Maggie. Não recorde isso. Não trará nada que sirva. Não importa mais.
A morte de Tess começou muito antes. Acho. Não me recordo bem. Tem algumas coisas que parecem ter se apagado da minha mente. Sei que não fui eu. Não tive culpa. Não fui eu. Foi ele. Ele me procurou. Seu pai me procurou, querida Antonia. Seu adorável pai. O marido de Mary… Tess. Tassy. Tess. Theresa. Teresa. Assim é que foi. É assim que me lembro. Não importa. Sua mãe, querida sobrinha, sua mãe…
Esqueça, Maggie. Apague isso. Mitigue essa dor. Apague. Deixe ir embora.
Sua mãe, querida sobrinha, sua mãe, sua mãe Tereza, sua mãe Theresa, Tess, a linda Tess, a magra, linda, ruiva Tess sempre foi infeliz. Como minha mãe. Minha mãe era brasileira.
Pare de pensar nisso, Maggie. Simplesmente pare.
Sua mãe era linda e escocesa, como a mãe dela, Isabel. Isabel e Mary. Não: Isabel e Tassy. Mary era a rainha da Escócia e Isabel era…
Apague isso, Maggie. Apague.
Tassy, Tess. Teresa. Não importa. Lindas. As duas. Sua mãe e a minha. Minha mãe e a sua. Tess e mamãe. Lindas. Perfeitas. Chiques. Soignées… Idênticas na infelicidade. Iguais. Separadas apenas por um oceano.
Maggie, Maggie, Maggie, ela se repreende, quero que você pare imediatamente de trazer esse assunto de volta. Não quero ouvir mais nem uma palavra sobre esse assunto.
Se não fossem os barbitúricos, minha mãe teria cortado os pulsos. Ou aberto o gás. Ou jogado o carro contra uma árvore, como Tess. Sempre há uma maneira. O que eu fiz… O que eu fiz, não: o que seu pai fez. Ele… apenas apressou a decisão de Tassy. Tess. Ou o que nós fizemos, seu pai e eu. Não me lembro direito.
Aconteceria de uma forma ou de outra, Maggie. Não foi culpa sua.
Aconteceria, querida Antonia. De uma forma ou de outra. Mais dia, menos dia, sua mãe Mary… Tassy. Sua mãe Tassy. Tess. A linda filha loura e longilínea de minha madrasta escocesa. Elizabeth. Não. Mary? Isabel? A escocesa que roubou o marido de minha mãe. Que terminou por jogar minha mãe, silenciosa e meio cega, pelo resto da curta vida, numa cama, no escuro, na parte de cima de nossa casa.
Da casa de seu avô, Maggie.
Da casa do meu avô.
A casa para onde seu avô levou sua mãe, depois que ela se partiu, como um cristal, em tantos pedaços impossíveis de recompor.
Minha mãe era muito mais bonita do que a escocesa do meu pai. Tess não era minha irmã. Era meio-irmã, apenas. Fomos amigas quando crianças, mas…
Não.
Sim, fomos.
Não e não, Maggie.
Quando crianças, nós éramos…
Nunca, Maggie. Você e Tess nunca foram amigas.
Sua mãe e eu nunca fomos amigas, querida Antonia. Nem quando éramos muito meninas.
Esqueça o que aconteceu com Tess. Esqueça o que você fez.
Não fiz nada, diz a si mesma, com irritação. Não me desculpo pela morte de Tess porque não posso ser acusada da morte dela. Não me desculpo. Lamento. Apenas lamento. A vida não lhe caía bem. Eu, ao contrário…
Você não está se lembrando disso, Maggie. Você não deve. Não lhe fará nenhum bem.
Não me recordo de como aconteceu. Nunca imaginei que uma brincadeirinha erótica com o cunhado acabasse levando Tess a… Nem cunhado ele era. Meio-cunhado, existe isso?
Pense numa música, Maggie. Qualquer música. Você gostava tanto de música. Como era aquela canção alemã que você ouviu numa noite de gala, no Metropolitan de Nova York, aquela canção de Richard Strauss que a encantou tanto, na voz da majestosa mezzosoprano negra? Ouça, Maggie. É assim:
Nun der Tag mich müd gemacht,
Soll mein…
Lembre-se dela. Da canção. Pode lembrar, Maggie. A música acalma. A música serena sua inquietude, Maggie.
Ela ouviu, ou achava que ouvia, ou acreditava que ouvia, uma outra canção. A voz era da mesma majestosa mezzosoprano negra. A voz pedia, ou Maggie acreditava que pedia: “Thy hand, Belinda. Darkness shades me/ On thy bosom let me rest…”
Geoffrey chorava quando procurou por mim no pequeno apartamento onde eu já morava havia vários meses, depois de deixar a casa de papai e Isabel. Não podemos mais continuar nossa relação, ele disse. Soluçava. Chorava de soluçar. Não podemos ou você não pode, Geoffrey?, eu perguntei.
Gregory. O nome do seu cunhado era Gregory.
Sim, talvez fosse Gregory. Ou Jonathan. Ele ainda não era meu cunhado.
Gregory é o pai de sua sobrinha, Maggie.
Gregory chorava quando me disse que estava rompendo a ligação. Nem ele nem eu tínhamos dinheiro, eu havia acabado de começar meu pequeno comércio. Tess, ele me falou, aos prantos, Tess ao menos vai herdar alguma coisa, uma ou duas propriedades na Escócia, ele me disse, e eu perguntei se ele, Geoffrey, estava me trocando por algumas libras, mas ele disse que não, ele disse: Tess está grávida, ele disse que Tassy estava grávida dele, grávida de um filho dele, de Gregory, grávida de alguma coisa que ele enfiara em Tess porque ela pedira, seis meses antes, grávida de seis meses, assim Geoffrey me falou em frente ao prédio onde eu estava morando e onde nós nos encontrávamos, ele nem quis subir ao apartamento, ele disse, assim Gregory me disse, não, Geoffrey me disse, em lágrimas, soluçando como um tolo, e tolo ele era, Jonathan, Geoffrey, o pai de Antonia. Seu pai, querida Antonia.
Pense melhor, Maggie. O nome dele era Gregory.
Que importa? Não roubei Geoffrey, Jonathan, aquele chorão, da mãe de Antonia. Dois chorões, Geoffrey e Tess. Eu havia namorado Geoffrey antes. Gregory. Sua mãe o tomou de mim. Você já era nascida quando Geoffrey voltou a me procurar. Jonathan. Gregory. Foi seu pai quem me procurou. Eu não era bonita como sua mãe. Ela era ruiva, de pele muito branca, magra, com quadris estreitos e pernas longas. Bem diferente de mim. Eu nunca fui bonita. Não no sentido clássico de beleza. Mas eu era jovem. Eu tinha entusiasmo, eu tinha alegria, eu tinha… o que sua mãe nunca teve. Vida.
O porteiro uniformizado tirou o boné e abriu a porta do táxi para Maggie com uma mesura. Très chic. Très faux chic. Antes de descer do veículo, colocou os óculos escuros grandes e arredondados, que acentuavam a semelhança com Jackie Kennedy.
Quem ainda sabe quem foi Jackie? Tanto faz. Não importa.
Gostava que notassem, ainda que sempre pretendesse não ter em grande conta, a equivalência do desenho agudo dos maxilares, dos olhos escuros demasiado afastados, a semelhança dos seios pequenos, dos quadris largos…
Os quadris largos que deveriam significar a boa parideira, algo que nunca fui, nem sequer consegui engravidar. Em nenhum dos três casamentos. Jamais. Jamais. Jamais. Muitas vezes jamais.
Maggie caminhou com confiança. É assim que ela caminha. Assim aprendeu. É longo o percurso entre o táxi e a porta giratória do hotel, ainda que sejam necessários apenas uns poucos passos, do veículo amarelo que já partia à entrada de vidro e puxadores de cobre, muito polidos, do prédio de anódina estética internacional. Sempre fora assim: qualquer trajeto em público era, para ela, um trajeto penoso, árduo, puro teatro. Todos os trajetos. Assim entrava nos lugares. Teatralmente confiante. Uma atriz diante de uma plateia a qual teme e precisa conquistar imediatamente, no exato instante em que é vista pela primeira vez. Assim aprendera. Assim atravessava os salões. Como fizera ao ver o dourado Harry no outro extremo da casa de campo, num sábado frio de janeiro. Assim vai entrando no hotel.
Algumas horas, é tudo de que preciso. Um pouco de tempo. Pouco.
A voz retorna. De onde? Por quê? A voz canta em inglês agora.
May my wrongs create
No trouble, no trouble in thy breast.
Remember me, remember me, but ah!
Forget my fate.
Não.
Sim.
Não, Maggie, não traga essa canção de volta. Não essa. É uma canção de morte, não de descanso. Você não pode. Não aguenta.
Não posso por quê? ela se questiona, impaciente. Porque pede “remember me”? Porque implora “forget my fate”? Sem piedade. Não preciso de piedade.
Todos precisamos de piedade, Maggie. Em algum momento de nossas vidas, todos precisamos de piedade.
Eu não preciso. Nunca precisei. Nem hoje, nem nunca. Não sou como minha mãe.
Algumas pessoas são mais frágeis, Maggie. Como sua mãe. Como Tess. Você aprendeu a ser mais resistente. Desde pequena.
Não faça barulho, as babás e as empregadas da casa do avô lhe diziam. Fique quietinha, as babás, as empregadas, as enfermeiras da casa de seu avô lhe diziam. Barulho é como agulhas sendo enterradas na cabeça de sua mãe, elas diziam. Silêncio, lhe diziam. Você quer enfiar agulhas na cabeça de sua mãe, quer, quer?
Não usava nenhuma maquiagem. Prendera os cabelos, tingidos de preto, em um rabo de cavalo, mas soltara-os a caminho do hotel e abrira a janela do táxi, para senti-los ao vento. Sempre gostara de vento nos cabelos. Mesmo naquele inverno britânico de mil novecentos e… E quantos?
Não importa, ela se diz. Naquele inverno, isso lhe basta.
Naquele inverno, em algum tempo entre os anos 1960 e 1970, Maggie não sabe mais quando, naquele inverno, ela saía para fins de semana fora de Londres. Ia a propriedades rurais de gente cujos nomes não recorda, nem isso lhe importa, ou tenta se convencer de que não importa, não de verdade, pois lembra serem nobres, quase nobres, descendentes bastardos de nobres, empobrecidos, mas esnobes, em suas casas sem aquecimento, em castelos já sem os móveis, vendidos em leilões ou para novos-ricos americanos, nobres e quase nobres de dentes acavalados, quem eram não importa, importa que ela chegava com os cabelos pretos soltos em um pequeno conversível verde, talvez não fosse verde, talvez fosse azul, talvez não fosse dela, mas sim de algum namoradinho descendente de nobres sem dinheiro, algum rapaz pálido, de dentes acavalados, dono de um miniconversível que tivera um par de proprietários antes dela, ou antes dele, mas que o jovem pálido de dentes acavalados permitira que ela dirigisse quando foram à propriedade dos pais dele, em alguma área rural da Grã-Bretanha, a caminho do País de Gales, ou talvez fosse… Talvez fosse…
O carro não era seu, Maggie.
O pequeno conversível prata era meu.
Você não sabe dirigir, Maggie.
Talvez, naquela manhã de inverno, eu tenha permitido que ele dirigisse o meu miniconversível. Eu tinha ciúmes daquele carrinho, não queria que ninguém o tocasse, mas, quem sabe, naquela manhã daquele inverno eu ia ao lado, no banco ao lado, que diferença faz, o carrinho tinha lataria ruidosa e nele eu gastara todas as libras ganhas com a venda de balangandãs e cópias de santos barrocos comprados na Bahia e em Minas. Isso foi antes de conhecer Harry, o dourado Harry. Ele estava do outro lado do salão quase sem móveis da casa dos pais de… Daquele rapaz pálido, um namoradinho sem importância.
“Hey there, Georgy girl, there’s another Georgy deep inside”, la-la-ri-lalá-lari-larará-lará… Que canção será essa, my dear God, quando foi que…
O jovem louro, grande, bronzeado estava do outro lado do salão. Maggie pensara, no instante em que o vira, que o homem jovem se parecia com um ator de cinema cujo nome também se apagou, entre tantos outros sumidos. Se pudesse trazer o nome de volta, seria…
Maggie atravessou com passos firmes, decididos, teatrais, estelares, tal como havia treinado e ensinado a si própria, o salão da casa construída no século XVIII pelos antepassados então poderosos de seu namoradinho de fim de semana: uma vencedora. Estendeu a mão para o homem dourado e lhe disse, galanteadora, ousada, citando o ator de “Romeu e Julieta” com quem o achara parecido: Olá, você deve ser o Michael York. Ele sorriu, um brilhante sorriso branco e alinhado de americano, e lhe respondeu, com indisfarçável sotaque ianque: E você deve ser a Jackie Kennedy. Os dois riram. O americano e a brasileira riram. Alto. Tal como os ingleses detestam. E ali, com aquelas risadas inadequadas, começou a história do americano wasp dourado e a brasileira quase sósia de Jacqueline Kennedy Onassis.
Eu não era bela, mas era jovem. Mais bela porque era jovem e chegava de conversível. O meu conversível.
Maggie, você nunca teve nenhum conversível. Você nunca aprendeu a dirigir. Você tem medo de dirigir.
Ah, eu sei bem a impressão que causava ao chegar, um tanto despenteada, um tanto afogueada, completa e totalmente atraente, a bordo do minicarro.
Fascinante, sedutora, vigorosa, chegava de conversível, ela hoje acredita. Comprado com seu dinheiro, ela hoje se diz. Seu primeiro dinheiro próprio. O despertar de seu espírito utilitário. Seu pequeno comércio. Os santos e as pratarias trazidos do Brasil e vendidos aos apalermados ingleses e outros tantos europeus desembarcados na Swinging London. Quem não estava apatetado por haxixe ou ácido lisérgico — não ela, que detestava perder o controle — copiava as revistas de moda que abraçavam qualquer coisa que pudesse ser carimbada como étnica. Tal como o material que ela trazia da terra de seu pai, os bijoux e objets d’art vindos da exótica, ensolarada e verdejante América do Sul, onde as cidades despontavam no meio das florestas densas, adornadas por coloridas araras e orquídeas em tecnicolor.
Brazil, where hearts were entertaining June,
We stood beneath an amber moon
And softly murmured “someday soon”…
Sua madrasta foi contra, seu pai fingiu que não compreendia bem o que ela estava fazendo, suas colegas se espantaram. Comércio era coisa de gentinha, very lower class. Feegahs? Bahlahgandahns? Sim, sim, figas e balangandãs. Pois de que lhe adiantava estar em Londres, no final dos anos 1960, portando o bom par de sobrenomes brasileiros herdados da família pernambucana do pai, se vinham acompanhados apenas de rasa conta bancária? Ademais sugada em quase todos os centavos pela madrasta escocesa? Ademais perfurada pela eterna incompetência do pai?
A imagem que lhe vem é de um velho filme de Hollywood. Na frente de um cenário de papelão pintado representando o Rio de Janeiro, uma mulher com um cesto de frutas na cabeça canta. Ela sabe que sabe quem é a mulher com um cesto de frutas na cabeça. Apenas o nome não lhe ocorre no momento. A mulher na fita em preto e branco repete e repete o mesmo refrão.
O que é que a baiana tem?
O que é que a baiana tem?
O que é que a baiana tem?
O que é que a baiana tem?…
A mulher com um cesto de frutas na cabeça não tem o rosto que ela conhece dos velhos filmes de Hollywood. A mulher com um cesto de frutas na cabeça, girando as mãos e balançando o corpo na frente de um Rio de Janeiro de papelão pintado, tem a cara de Maggie. Ela se vê cantando: “O que é que a baiana tem?, oi, o que é que a baiana tem?, oi, tem pano da Costa, tem, oi, barato como convém, oi, tem prata vagabunda, tem, oi, pechinchas para ingleses tem, oi…”
Sua primeira invenção. Um comércio discreto. Not at all lower class. Quase chique. Quase. Figas, pulseiras, colares, panos da Costa, profetas de pedra-sabão, Virgens de madeira. Your lovely muamba, dizia a madrasta escocesa, com um indisfarçável tom de ironia. My lovely muamba, ela assumia, conforme se via dona de suas próprias libras e pence. Her lovely muamba levada em malas nunca abertas na alfândega inglesa, diante do passaporte diplomático garantido pelo trabalho do pai no Instituto Brasileiro do Café. Há muito, muito tempo. Tudo foi há muito tempo. Tanto que nem se lembra. Por mais que tente. Ficou para trás, na estrada.
So goodbye yellow brick road
Where the dogs of society howl…
O homem está vestido de palhaço ao entrar no palco: assim vem à sua memória. Não, ela rejeita, ele não estava vestido de clown. Suas calças são listadas. Suas calças não eram listadas. Estou certa de que eram listras largas, verticais, amarelas e azuis. Não eram. Amarelo e azul eram as cores das listras oblíquas da gravata da private school de Jonathan. De Gregory. Gregory, Andrew, who cares, quem é que se importa? Nem se viam as calças, aliás. Ele estava atrás de um piano de cauda preto.
Piano de cauda branco, Maggie.
Branco. Sim, piano de cauda branco. Ele também se vestia de branco. Uma casaca branca. De cetim. Ou seda. Óculos cor-de-rosa, enormes, cobriam boa parte de seu rosto. Ele cantava. “So goodbye yellow brick road, Where the dogs of society howl…”
Adeus, Harry.
Não me obrigue a escolher, Maggie.
Adeus, Harry.
Não me obrigue a escolher, Maggie. Eu te amo, mas amo a ele, também.
Adeus, Harry.
Não me obrigue a…
Adeus, Harry, adeus.
Outra voz canta. Outra canção. A mesma canção de antes. A mesma voz. Uma mulher de fartos cabelos longos e pretos, em um teatro muito alto e muito grande, em uma noite de gala. É abertura de temporada. Harry está sentado a seu lado, belo e magnífico. A luz sobre o palco faz que a pele negra da mezzosoprano se confunda com o precioso tecido azul-escuro de seu vestido longo, de gola alta. A voz parece mais grave ao reconhecer: “Death is now a welcome guest…”
O descanso. A paz. O mergulho no ventre das trevas. Basta estender a mão.
Basta que eu estenda a mão.
Não, Maggie, essa canção inglesa, não. É sobre morte. Não era sobre morte o que a mezzosoprano cantava naquela noite. Era sobre descanso. Era sobre a necessidade de repouso para tanta fadiga, para tanta…
Era sobre morte, ela contesta, erroneamente, talvez. Em alemão, cantava. Venha doce morte, ela entoava, “Komm, süßer Tod”… Bach? Talvez fosse Bach. Não está certa. Não se lembra mais. Nem de Bach, nem de Purcell, nem de tantas outras coisas, por que se recordaria de onde vem o convite do abraço para a doce morte?
Registrou-se com o nome verdadeiro. O de solteira. Tornaria mais fácil o trabalho de quem tivesse de identificar o corpo. Como imaginara, nenhum dos jovens poliglotas da recepção, vestidos em blazers azul-marinho e gravatas listadas de azul e amarelo, imitações tropicais dos uniformes de alguma escola da elite britânica, a reconheceu. Não teriam por quê. Parecia uma hóspede comum. Uma senhora de idade indefinida. Não tinham ideia de quem ela era. De quem fora. Há muito as colunas sociais não publicavam fotos suas. Nas raras ocasiões em que a citavam, era o penúltimo ou o último nome na lista de alguma festa de um personagem secundário da sociedade, em alguma coluna social secundária de um blog secundário, acotovelando-se em busca de atenção na internet.
Notou as gravatas deles, Maggie?
Sim, claro.
Reconheceu as cores estampadas nelas?
Um pouco. Um tanto. Mais ou menos. Sei que são de alguma escola da elite britânica. Não me lembro de qual. Não importa. É falso requinte. Requinte de imitação. Toda a sociedade aqui é de segunda mão. Sem requinte. Zero requinte.
Está com inveja do dinheiro deles, Maggie?
Não há o que invejar. Essa sociedade deles, dessa gente, se é que se pode chamar de sociedade, é composta por personagens secundários. Vieram lá de longe, da trigésima oitava fileira. Arrivistas como meu ex-marido PR, agora emoldurado por uma tolinha vinte anos mais jovem, paulistana como ele, vulgar e exibicionista como ele, sem um pingo do meu refinamento e do meu trânsito internacional.
Porém, porém muito melhor situada no mundo das finanças, não é, Maggie?
Quem? Tábata?
A nova mulher do seu terceiro marido. Não finja que não sabe sobre quem estamos falando.
Tábata. Ela se chama Tábata. Ou seria Samanta? Tábata? Eduarda? Algo assim. Nome de travesti. Ou de personagem de seriado de televisão.
Ela é jovem, Maggie. E rica.
Rico é o pai dela, o empreiteiro pai dela, amigo e financiador da carreira do governador do estado. De vários estados. Não me lembro. Tampouco me lembro do nome dela. Da menininha rica e vulgar por quem meu ex-marido PR me trocou.
Você disse que ela se chama Tábata.
Tábata, Samanta, que diferença faz? O ponto máximo da cultura dos pais dessa… dessa Tábata devem ser seriados de tevê. É o último refúgio dos pobres de espírito.
Maggie, os pais dela são riquíssimos. E mais jovens do que você.
É mesmo?, ela se pergunta, debochada, sabendo a resposta que dará a si.
É, mesmo, Maggie. Os pais dela são mais jovens do que você.
A nova mulher do meu ex-marido, ela se vê forçada a constatar, deve ser mais jovem do que minha sobrinha. Tábata deve ser mais jovem do que Antonia. Tábata? Ou Samanta. Mais nova que Antonia. Talvez. Provavelmente. Não me lembro da idade da minha sobrinha. Nem como PR avisou que estava encerrando o nosso casamento, nem como exigiu que eu deixasse o apartamento que tinha passado para o nome dele, com as procurações que assinei sem olhar, que eu deixasse as obras de arte, as ações que movimentava em meu nome, os quadros de… As telas de… E também as… Que importa? Ele. PR. Paulistas gostam de ser chamados pelas iniciais.
Qual é o nome de PR?
Ora! PR!
O prenome, Maggie. Qual o prenome dele? Você se lembra? Você não se lembra. Você só se lembra da frustração, da humilhação, do vexame de ter sido escorraçada, da mortificação de sua idiotice, do aviltamento de…
Piero. Não. Paolo. Pietro. Ora, que diferença faz? PR, pronto! PR, PR, PR.
Maggie, você nem sequer se lembra do nome de seu ex-marido.
PR basta.
E os outros dois, como se chamavam?
Henri foi o segundo. Harry, o primeiro.
Harry e Henri?
Harry, Henri e PR. Sim, eu sei, é possível confundir. Os nomes soam parecidos. Dá para confundir. Os nomes, só os nomes. Eram bem diferentes um do outro. Bem diferentes.
Ao rapaz de gravata com listras oblíquas azuis e amarelas que a atende com solicitude e um meio sorriso profissional, ao lado de outro rapaz de gravata com listras oblíquas azuis e amarelas, acessórios e cores que a remeteriam a outros rapazes usando gravatas semelhantes, e semelhantes blazers azul-marinho, nas cercanias de uma escola em Londres, se Maggie conseguisse acessar esses registros de sua juventude, apagados como apagado está o registro de como e quando viu pela primeira vez e se encantou com o rapaz americano com quem se casaria alguns meses depois, em local, circunstâncias, sons e cheiros do mesmo modo extintos pelo avanço dos pequenos e insuperáveis derrames em seu cérebro, ela responde com um meio sorriso, vago, espontâneo, sem perceber a condescendência do sorrir do atendente.
PR usava gravatas compradas em free shops. Gravatas de free shops, pelo amor de Deus! Não sabia que as boas grifes colocam ali o rebotalho de sua produção. Joguei todas fora. Gravatas, ternos, camisetas, sandálias — meu Deus, sandálias, ele usava sandálias de couro — e bermudas, sapatos, tudo, absolutamente tudo: para o lixo. Mas isso foi no começo.
O atendente apresenta a chave do apartamento 1503, no andar mais alto, conforme ela solicitara. Não é uma chave. É um cartão de plástico. Dourado com o logo da rede de hotéis em letras azuis. Nesse andar cada suíte tem decoração diferenciada — como gostam e abusam dessa palavra, diferenciada — e denominação de acordo, o jovem de sorriso benevolente lhe explica. A sua, acrescenta, é a suíte Marcel Proust.
Um dia, talvez numa tarde, quem sabe cedo, pela manhã, PR mostrou a Maggie que tinha incorporado tudo o que ela lhe ensinara. Tudo o que refinara. PR já sabia, à perfeição, como se vestir, comer, beber, fumar, comprar, esquiar, montar, ler — ou fingir que lia, onde passar férias, quem escolher e selecionar em uma reunião, mesa de jantar, sala vip de aeroporto, coquetel, festa, qualquer lugar que fosse, para estender a rede social que auxilia e mantém a ascensão. PR estava pronto. Não precisava mais dela.
A hóspede de idade indefinida, de cabelos levemente desalinhados porque os soltara e deixara ao vento dentro do táxi que a trouxera, tirou da bolsa comprada na Rue de Sèvres, em Paris, mais de quinze anos atrás, notas suficientes para pagar os cinco dias de hospedagem.
Suíte Marcel Proust. Ela riria se conseguisse.
Não tem mais nenhum cartão de crédito nem débito, conta em banco, poupança, nada. Coloca as notas sobre o balcão de mármore rajado. Não se preocupa se as contam ou com recibo que lhe oferecem. Não importa. Ficará ali apenas aquele dia. Apenas algumas horas. Bastam-lhe algumas horas.
É tudo de que preciso.
O rapaz de sorriso indulgente e refinamento de imitação chama um outro rapaz, também de boa aparência, com gomalina nos cabelos pretos menos bem cortados do que os dos outros dois, empertigado e formal como o treinaram, de pé não muito longe do balcão, ao lado das duas malas de Maggie, vestido com um uniforme para não deixar dúvida sobre seu posto abaixo do dos rapazes de gravata listada e blazer azul-marinho na escala da equipe do hotel cinco estrelas. Entrega a ele a chave-cartão da suíte 1503. O rapaz de uniforme pega a chave-cartão. Maggie percebeu, sem realmente registrar, que a pele da mão dele é bem mais escura do que a do atendente de blazer por trás do balcão de mármore rajado. Tem uma pequena tatuagem, três estrelas formando um triângulo, entre os dedos polegar e indicador.
Maggie se vira, caminha em direção ao elevador. Sabe onde fica. Conhece tudo naquele lugar. Antes mesmo de ser o que é.
Nasci aqui.
O rapaz de uniforme, carregando as duas malas, a segue. Adianta-se para apertar o botão. O elevador chega em segundos. Uma caixa de madeira escura, com espelhos, molduras douradas. A palavra sarcophage lhe vem à mente.
Sarcófago. Quão adequado nesse momento, reflete, sem amargura nem escárnio. Sarcophage. Assim chamavam o elevador de dimensões mínimas, um acréscimo ao prédio do século XIX onde viveu com Henri, numa rua transversal à Avenue Foch, uma área onde só se veem velhos e turistas, ela reclamava, inutilmente, ao marido austríaco. Pouco importa, ele respondia, ficamos tão pouco tempo em Paris, estamos sempre viajando, indo de um lugar a outro.
O rapaz de gomalina no cabelo faz um gesto obsequioso que Maggie ignora, baixando os olhos para não se ver no espelho enquanto entrava. O carregador de malas entra em seguida e fica entre ela e a porta. Maggie mantém os olhos nas espáduas dele, de costas para o espelho. O elevador sobe.
Bastam-lhe algumas horas.
Saí do casamento com PR com uma mão na frente e outra atrás. Ou quase isso. Fiquei apenas com o pied-à-terre em Nova York, um estúdio no Upper East Side que comprei quando ainda estava casada com Henri, o produtor de faroestes vagabundos e lucrativos, rodados na Espanha, estrelados por canastrões e belas burras, mais um punhado de ações na bolsa de Nova York. Torrei as ações. Vendi todas. E fui viajar.
Um ruído metálico soava a cada andar por que o elevador passava. Era quase musical, quase como o instrumento pequeno, de cobre, formado por dois círculos, que ouvira em algum país do Oriente e cujo nome não lhe ocorria.
Viajei muito. Meses seguidos. Fui a… Fui a muitos lugares. Lugares exóticos. Na Ásia e na Oceania. Baratos. Não me lembro dos nomes. Onde meu pouco dinheiro valia bastante. Mas iria acabar. Estava acabando.
Brazil, where hearts were entertaining June,
We stood beneath an amber moon
And softly murmured “someday soon”…
Comprei algumas coisas lá, nesses lugares. Comprei, vendi, comprei outras, vendi. Um tanto como no começo, em Londres. Lá atrás. My beautiful muamba. Tal como antes. Tal como antes de conhecer e me casar com Harry. Tal como quando eu era jovem e saía para fins de semana a bordo do meu minicarro vermelho, com os cabelos ao vento e…
Then, tomorrow was another day
Morning found me miles away
With still a million things to say
And now, when twilight dims the sky above…
Porém eu não era mais jovem. Eu não tinha mais a mesma energia. Nem o passaporte diplomático. E já havia começado a me esquecer. As pastilhas. Se apagando. Minhas pastilhas. Essa coisa, essas coisas, como as pastilhas de pedrinhas, de mármore, aquelas, aquelas que formam desenhos e… E… Como se chamam, mesmo?
O futuro tinha chegado
E a manhã me encontrou muito longe
Com milhões de coisas para dizer
Mas, agora, as luzes iam diminuindo…
Eu estava numa dessas viagens, em um desses países quando… quando… quando percebi o que se passava comigo. Que era inevitável. Que era irreversível.
O uniforme do carregador de malas é de lã, com leve brilho sintético. A jaqueta curta e justa acentua a magreza do rapaz.
Perdi um voo porque me esqueci que embarcaria de sei lá onde para um outro lugar qualquer. Depois um outro. Quantas vezes, na chegada, eu olhava as malas na esteira e não reconhecia quais eram as minhas. Tinha que esperar até ficarem apenas as últimas. Aí eu podia pegá-las, sem medo de passar por constrangimento. Um dia acordei sem saber onde me encontrava. Era um hotel de rede, desses iguais no mundo inteiro. Foi a primeira vez que eu tive medo… disso. Desse… Dessa…
Chegaram ao décimo quinto andar. O último.
Nasci aqui.
Maggie sai do elevador, seguida pelo rapaz de uniforme de lã sintética azul-marinho que carrega suas duas malas, uma contendo três livros, a outra, a roupa para o salto, mais o cartão--chave da suíte. A derradeira caminhada, pelo último corredor que percorrerá, pisando o espesso tapete cinza que abafa o ruído dos saltos de tamanho médio de seus sapatos bicolores comprados na Rue Cambon, dando passos à maneira como sabe para deixar claro que é uma vencedora, ainda é uma vencedora, sempre será uma vencedora, porque é ela quem decide seu destino, sua vida, e quando a dará por encerrada. Ela será a autora do próprio desfecho. Bastam algumas horas. Poucas. O suficiente para aprontar tudo.
Nasci aqui. Nasci na casa que existia aqui.
O bellboy coloca o cartão-chave magnético junto a uma caixa ao lado do umbral. Como se diz bellboy em português, Maggie se pergunta. Como se esquece de uma palavra tão corriqueira na própria língua?, ela se recrimina. A pequena luz vermelha da caixa ao lado do umbral da porta muda para verde, o rapaz usa a mão direita enluvada para girar a maçaneta, empurra a porta com o lado do corpo, enquanto a enluvada mão esquerda convida Maggie a entrar.
Havia uma casa aqui.
Maggie dá três passos, para, olha em volta. A suíte Marcel Proust é o arremedo de um pequeno salão parisiense do início do século XX, buscando um requinte mais imaginado do que real, atulhado de móveis demasiadamente dourados, poltronas e cadeiras forradas com tecidos inadequadamente mornos, uma grande cama coberta por uma colcha excessivamente cintilante. Na parede bem em frente, um grande espelho retangular, dentro de uma larga moldura dourada como o aparador abaixo, reflete a imagem de uma senhora de idade indefinida, vestida com discreta elegância, ao lado de um jovem esguio, uniformizado, segurando duas malas. A senhora tem parte do rosto coberto por um par de óculos redondos de lentes escuras. Vista de relance, a senhora de calças compridas de linho cor de baunilha, feitas sob medida por um alfaiate de Savile Row, uma echarpe substituindo o cinto, um suéter de caxemira claro jogado às costas, sobre uma camisa masculina branca de algodão, poderia lembrar, a pessoas de sua geração, Jacqueline Bouvier Kennedy Onassis, em fotos clicadas por paparazzi em ruas de Capri, em algum verão do século passado.
Não existem mais pessoas de sua geração, Maggie, ela se corrige.
Olá, eu disse, olá, eu disse, após atravessar o salão da maneira confiante e arrebatadora que tinha descoberto que dominava, olá, eu disse, olá, você deve ser… E o chamei por algum nome de um ator jovem e famoso naquela época, um rapaz louro cujo nome agora não me ocorre, olá, eu disse, você deve ser fulano, eu disse, zombeteira e sedutora, ao rapaz dourado, estendendo-lhe a mão. E você deve ser Jackie Kennedy, ele respondeu, imediatamente aderindo ao jogo e pegando minha mão em suas mãos grandes, bronzeadas, com alguns pelos, dourados como seus cabelos. E nós dois rimos. Alto. Abertamente. Inadequadamente. Como nossos anfitriões ingleses detestavam e reprovavam. Foi nossa primeira cumplicidade, aquele riso entre mim e Harry.
Dá uma nota de cinquenta dólares ao rapaz magro que trouxera as malas, sua última nota, ignora o espanto dele, passa o trinco antiquado, uma lingueta presa a uma corrente de metal dourado, depois da saída dele.
Olá, você deve ser…
Vira-se, olha em volta. Onde estava mesmo? Ah, sim. Aqui. No hotel, aonde chegara em um táxi. O hotel alto, que escolhera como último passo. Para o último passo.
Nasci aqui. Nasci na casa que existia aqui, bem aqui. A casa que demoliram para construir este hotel. Este hotel horrendo, nesta orla pontilhada por edifícios horrendos, habitados por gente horrenda. E vulgar. Bicheiros, pastores de novas igrejas evangélicas, políticos aposentados e políticos ainda ativamente corruptos, prostitutas de luxo, mafiosos russos, bandidos italianos, xeques das arábias, ex-misses, ex-juízes, ex… Nasci aqui. Bem aqui. Na casa em frente à praia, construída por meu avô quando este bairro era apenas um amontoado de areia, cortado por trilhos de uma única linha de bonde. A casa se foi, o estúdio em Nova York se foi, as ações se foram.
Era uma linda casa, de dois andares, toda de pedra.
Era um chalé, Maggie. De um único andar.
A casa era imponente, de frente para o mar, ao fundo do terreno, com um extenso gramado na frente. E um cajueiro. À esquerda do portão de entrada.
Era apenas um chalé, Maggie.
Meu avô era alto, tinhas olhos azuis — ou verdes — herdados dos antepassados holandeses que tinham invadido Pernambuco. Minha mãe tinha os mesmos olhos verdes — ou azuis — dele.
Sua mãe tinha olhos castanhos, Maggie. O pai dela era baixo, moreno, atarracado, bisneto de portugueses. Quem tinha ascendência holandesa era seu pai, Maggie. E indígena.
Por que estou lembrando disso? Que importa de onde vieram os antepassados do meu pai ou da minha mãe? Eles já se foram há tanto tempo. Que importa?
Não importa, Maggie, ela tenta se convencer. Não faz diferença.
Está encostada à porta. Decide trancá-la. Descobre que já está trancada.
Quando construíram este hotel? Nos anos mil novecentos e… sessenta? Nos anos setenta? Sim. Não, acho que não. Sei que foi quando eu estava casada com Henri. Não. Foi antes. Na época de Harry. Não. Antes disso. Quando famílias como a minha já não conseguiam manter suas casas nessa avenida em frente ao mar e…
Atravessa o quarto até as janelas panorâmicas. Apoia as mãos nelas. Encosta a testa. Os vidros duplos vibram levemente. Nenhum som os atravessa. Parece escuro lá fora. Tira os óculos. Continua escuro. Percebe que os vidros estão cobertos por uma película. Abre as janelas. A luz amarelecida da tarde tropical e o aroma salgado do Atlântico invadem e tomam a suíte pretensamente parisiense, no topo do hotel erguido no surto desenvolvimentista do Brasil Grande, como trombeteava a propaganda da ditadura militar na qual seu pai tinha influentes relações, as quais ela ignorava, como se ignora uma escala incômoda num aeroporto a caminho de destino mais agradável.
Maggie fecha as janelas.
O formato da casa, a cor das paredes, a inclinação do telhado, o material de que eram feitas as calhas, o desenho das janelas, o tecido das cortinas, outras pastilhas retiradas de minhas lembranças.
Não são pastilhas, Maggie, outra vez ela se corrige.
Evidentemente que não. Não são pastilhas. Claro que não são. Eu sei que não são pastilhas. Apenas não me ocorre neste momento o nome que se dá a esses losangos, se é que são losangos, losango é aquela figura geométrica com lados demais, não se chamam losango aqueles, aquelas coisinhas que…? As que compõem aqueles painéis com imagens de santos em… Em… Naquela igreja cristã ortodoxa que virou museu, aquela que mais tarde chegou a ser um templo muçulmano em… Na Turquia. Em… Na capital da Turquia. A basílica na cidade que é, ou talvez tenha sido, não estou bem certa, creio que foi, a capital da Turquia. Santa… Santa o quê? Não são pastilhas, são… São pequenos losangos chamados… Juntos eles compõem imagens, como em um quebra-cabeça. Existem também na igreja de… de… Naquela igreja de Roma, em frente àquela praça do… Piazza… Igreja de Santa… Margherita? Maria?
Está claro demais no quarto. A luz intensa incomoda seus olhos. Coloca de novo os óculos.
Por que você não se deita, Maggie?, a ideia lhe ocorre. Deite-se. Ainda é cedo. Ainda não é noite. Você tem tempo. Descanse um pouco.
Estou muito agitada, admite. Não lembrar me deixa muito agitada. Não lembrar me aflige.
Não lembrar alivia, Maggie, ela se corrige. É o que você precisa. Alívio.
Preciso apenas de tempo, ela retifica. Algumas horas. Algumas apenas. Tempo, sim. Não preciso me deitar. Não preciso descansar.
A luz tropical parece devorar os brocados e os veludos da paródia de ambiente parisiense.
Os muçulmanos, tal como os judeus, não permitem imagens em seus templos, alguém lhe dissera, ou ela lera em algum livro ou folheto, faz muito tempo, possivelmente quando visitou a Turquia pela primeira vez, acompanhada de Harry, um casal jovem descobrindo as cores do mundo, ou uma década mais tarde, acompanhando Henri, que buscava locações para um filme sobre um espião britânico que foge de mequetrefes vilões soviéticos. Alá não pode ser representado, é grande demais, maior que tudo, está muito além de qualquer possibilidade de imaginação dos humanos, ela lera ou alguém lhe dissera, um guia turístico ou um amigo de Henri, quando visitava Hagia Sophia, no centro de Istambul. Por isso os muçulmanos, Maggie ouvira ou lera, ao conquistar o império bizantino, cobriram com massa, cimento e cal as imagens dessa igreja cujo nome ela não sabe e nunca mais saberá. Fizeram que as imagens, belas e coruscantes, desaparecessem. E assim permanecessem durante séculos.
Minhas imagens estão sumindo. Uma a uma. Os rostos, a cor dos cabelos, o formato das unhas, os cílios longos e negros de… De papai? Da babá que cuidava de mim na casa do meu avô? Como era a casa do meu avô?
Como era realmente, é isso que você está se perguntando, Maggie?
Era aqui, tenho certeza.
Mesmo que não seja, que diferença faz agora?
A casa do meu avô, a casa que havia aqui antes de demolirem e construírem este hotel horrendo, tinha dois andares. Era toda de pedra, tinha dois andares, com uma varanda em arco no térreo. Na varanda, no térreo, havia um desenho desses, como os da catedral na Turquia e os da igreja em Roma, no piso da varanda da casa de pedra, no térreo, eu me lembro, havia uma imagem composta por essas… pastilhas. Não me recordo do desenho. Uma cesta com flores e frutas? Andorinhas? Céu e nuvens? Havia, também, uma varanda, menor, bem menor, no andar de cima. Mas as portas de acesso a ela ficavam sempre trancadas. As babás tinham medo de que eu ou meu irmão caíssemos de lá. Meu avô tinha medo de que minha mãe se jogasse de lá. Por isso montou um quarto para ela no térreo, no cômodo que antes era o escritório dele. Tudo ficava fechado, trancado, no andar de cima. Mesmo assim, o cheiro do mar entrava pelas frestas das janelas altas, de vidros bisotados. Tal como neste instante penetram aqui no quarto, mesmo com as janelas fechadas como estão.
Maggie caminha de volta às janelas e escancara os painéis de vidro fumê. A brisa do fim da tarde sopra do leste. As cortinas transparentes ondulam. Ela aspira fundo o olor pegajoso do sal. Alguns carros buzinam na avenida abaixo, onde o trânsito é mais intenso do que na pista do lado da praia. Quando o sinal abre, grupos de veículos, como blocos de metal, se deslocam em velocidade.
Rumam ao sul, ela reflete. Para casa. Para suas mulheres, seus filhos, seu uísque com gelo ou sem, o jantar com pouco colesterol — ou muito—, para outra noite de televisão e descanso antes de voltarem ao trânsito e dali ao escritório na manhã seguinte, para um dia inteiro igual ao de hoje, ao fim do qual sairão para este tráfego rumo ao sul. Amanhã. Não os verei.
Debruça-se no peitoril, fecha os olhos. Tenta imaginar como eram os sons e os odores naquela mesma avenida, naquele mesmo lugar, quando vivia na casa destruída para erguer este hotel. Não consegue. Cerra os olhos, tapa os ouvidos. Nada. Há um som oco apenas. O som de ouvidos tapados. Abre os olhos. Vê, no terreno ao lado, uma casa de pedra de dois andares. Uma das últimas casas da avenida. Talvez a última.
Uma dúvida lhe ocorre. Talvez essa casa ao lado fosse a casa do avô. Ou alguma outra próxima.
Não há outras casas nessa avenida, Maggie. Foram-se. Todas. Resta apenas essa. Aguardando alguma disputa judicial entre os herdeiros provavelmente, antes de ser vendida e destruída.
A nossa casa, a casa do meu avô, não tinha varanda. Tinha, isso, sim, uma grande sacada em frente à sala de jogos, no andar de cima.
Tinha mesmo, Maggie?
Não. Sim, tinha. Não. Não tinha. Tinha?
Você não tem como se lembrar, Maggie. Você ainda nem tinha completado quatro anos quando sua mãe se matou e você foi mandada para seu pai, na Inglaterra, num avião da Varig, sem acompanhante. Você passou a viagem inteira acordada.
Agora me lembrei. A casa com uma grande sacada em frente à sala de jogos era nossa casa da serra. Toda família fina tinha uma casa na serra. Para as férias de verão. Fazia muito frio ali no inverno. Era uma casa sem aquecimento e sem tapetes. Com poucos móveis e…
As casas grandes, sem móveis, frias, eram na Inglaterra, Maggie. Aonde você ia com seus namoradinhos nobres ou seminobres. Seu avô brasileiro nunca teve uma casa na serra. Seu avô brasileiro era apenas um funcionário público.
Meu avô tinha, sim, uma casa na serra. Essa, sim, era toda de pedra. A casa da serra, sim. Não, não era. Tinha um estilo colonial, varanda a toda volta e paredes cor de… de…
Nunca, Maggie.
Sim. Não. Sim. Sim. Nunca tivemos casa na serra. Ou melhor, tivemos. Sim, tivemos. Era bem grande, com poucos móveis, fria e… E…
As casas de que você se lembra, Maggie, ela observa para si mesma, eram aquelas para onde ia nos fins de semana, casas de pais de namoradinhos, ou de amigas, casas fora de Londres, no fim da primavera, no início do verão, no alto verão.
Não. Não eram casas em lugar algum da Grã-Bretanha. Quando era verão, vovô nos levava, a mim e ao meu irmão, para a serra. Passávamos o verão lá. Mamãe ia conosco. As enfermeiras também.
Seu avô nunca levou vocês a nenhuma casa na serra. Sua mãe jamais saía do quarto.
Quando era verão, e em muitos fins de semana no inverno, íamos todos para a serra. Nós todos. Meu avô, minha mãe, meu irmão e eu. Ficávamos hospedados na casa de amigos da minha mãe. Era uma família de origem alemã. Ou suíça. Foi na casa deles que aprendi minhas primeiras palavras em alemão. Cheguei a falar alemão bastante bem depois. Falava alemão com Henri. Alemão e francês. Tínhamos uma casa na Toscana. Também de pedra. Como a casa de meu avô na serra.
Seu avô nunca teve…
Não era a casa de meu avô. Era a casa de uma família alemã, amicíssima do meu avô. Os dois filhos praticavam iatismo. Um deles morreu no avião brasileiro que se incendiou e caiu numa plantação de cebolas perto de Paris. Em mil novecentos e setenta e… E… Todos morreram. Os passageiros. Carbonizados. Todos. Nas fotos eles apareciam nas janelas, enegrecidos, as bocas abertas, como se gritassem, uivassem de dor.
Ela ouve. Urram. É terrível. Ela tapa os ouvidos. Mas é desnecessário. As vozes dos passageiros logo cessam. Todas as vozes desaparecem. Mesmo a própria voz. No imenso silêncio que se segue, brandamente, vem surgindo, subindo de tom muito suavemente, uma voz. É feminina. É a mesma voz feminina que volta a cantar, vinda Maggie não sabe de onde. Ela identifica a língua, embora não reconheça o significado das palavras. A voz feminina canta em alemão.
Nun der Tag mich müd gemacht,
Soll mein sehnliches Verlangen
Freundlich die gestirnte Nacht
Wie ein müdes Kind empfangen…
Onde ouviu isso, Maggie se interroga, como alguém tentando recordar quando sentira uma dor tão intensa que imaginava jamais poderia se repetir. Mas cá está. Cogita se era a mesma canção ouvida na voz de uma soprano sueca, em uma sala de concerto em… Ou a soprano era suíça, lhe ocorre. Ou alemã, ela duvida. Sabine, chamava-se? Ou seria Simone? Ouviu-a em uma igreja, lhe parece. Não, não. Foi em um auditório de formas arredondadas, com painéis de madeira e cadeiras de couro vermelho. Ou de veludo vinho. Um auditório não muito grande, numa cidade europeia. Era inverno e…
Não, Maggie, não, ela interrompe a própria divagação. Você ouviu essa canção quando…
Ouvi em Praga. Era inverno, nevava muito, foi difícil chegar ao teatro e… Não. Foi em Berlim. Tenho absoluta certeza. Foi em Berlim!
Não, Maggie, não foi em Berlim. A mezzosoprano está cantando em alemão, sim, na época você sabia o que as palavras significavam, você ainda não tinha começado a esquecer, você falava alemão fluentemente. Mas não foi em Berlim que você a ouviu.
Não foi em Berlim, tem razão, não foi em Berlim. Em Berlim existe a Filarmônica. O prédio da Filarmônica. Lá tudo é amarelado. Eu ouvi em um lugar menos… menos… menos moderno. Onde ouvi essa voz, essa canção? Em Amsterdã? Fui tão poucas vezes à Holanda. Não tínhamos amigos lá. Harry e eu não tínhamos amigos na Holanda. Henri tinha. Amigos. Na Holanda. Investiam nos filmes dele. Um desses filmes era sobre um rapaz bem jovem e magro que se apaixona por uma soprano negra, um rapaz com cabelos sempre emplastrados de gomalina, sempre usando um casaco curto, de lã azul-marinho, que acentuava a magreza dele. Ele tinha três estrelas tatuadas na mão, entre o polegar e o indicador. Nesse filme é que a soprano, uma diva da ópera, uma negra linda, vestida num longo branco de um ombro só, cantava essa canção. Eu a ouço, com a voz muito límpida, como uma… Como uma…