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Mosaico de Maggie
MOSAICO
DE
MAGGIE
A memória de Maggie mistura e confunde personagens, lugares, obras e eventos de que foi testemunha — ou assim ela acredita — na segunda metade do século XX e primeira década do século XXI, principalmente aquelas ligadas ao ambiente hedonista de Londres nas décadas de 1960 e 1970, e das celebridades da alta sociedade e do cinema europeus do século XX. Este Mosaico de Maggie reconstitui parte dos lapsos da personagem.
(Indicamos as páginas em que estão os trechos, em negrito, na novela e na peça de teatro.)
17 Nun der Tag mich müd gemacht: trecho de “Beim Schlafengehen” (“Ao dormir”), poema de Hermann Hesse utilizado pelo alemão Richard Strauss (1864-1949) para fazer uma das “Quatro últimas canções” (Vier letzte Lieder), compostas em 1948, e que Maggie imagina ouvir interpretada pela soprano americana Jessye Norman. O compositor alemão não viveu para ouvir sua derradeira obra. A estreia aconteceu oito meses depois de sua morte, em maio de 1950, em Londres.
17 Thy hand, Belinda, darkness shades me: trecho da ópera Dido and Aeneas, do compositor inglês Henry Purcell (1659-1695). A ária, entitulada “When I am laid on earth” (“Quando eu for sepultada”, em tradução livre) expressa o desespero da rainha Dido, de Cartago, que, abandonada por Eneas, clama pela calma que o suicídio poderá lhe trazer. Mais uma vez a morte, nas lembranças de Maggie: “Dido’s lament” também é tocada em Londres, todo dia 11 de novembro, na cerimônia em homenagem aos soldados ingleses mortos em combate na Primeira Guerra Mundial.
Thy hand, Belinda, darkness shades me,
On thy bosom let me rest,
More I would, but Death invades me;
Death is now a welcome guest.
Tua mão, Belinda, a escuridão me envolve,
Em teu peito deixa-me descansar,
Mais quisera, mas a Morte me invade,
A morte agora é uma bem-vinda visita.
24 Hey there, Georgy girl, there’s another Georgy deep inside : versos da canção “Georgy Girl” (Tom Springfield/Jim Dale), interpretada pela banda australiana The Seekers. Uma das músicas mais tocadas na Inglaterra em 1966 e 1967, serviu de tema para o filme Georgy Girl (Silvio Narizzano, 1966). A personagem principal, interpretada pela atriz Lynn Redgrave (1943-2010), era uma típica “jovem moderna” da Swinging London, a agitada Londres dos anos 1960, dividida entre o amor por um homem jovem e pobre (Alan Bates) e o casamento com um viúvo rico (James Mason).
25 Michael York (1942-) é um ator inglês de teatro e galã de cinema, celebrizado por papéis em filmes de grande sucesso como Cabaré (Bob Fosse – 1907-1987), e um dos astros da versão cinematográfica da peça Romeu e Julieta, de William Shakespeare, dirigida em 1968 pelo italiano Franco Zeffirelli (1923-).
26 Brazil, where hearts were entertaining June : versão para o inglês de “Aquarela do Brasil” (Ary Barroso). Sem o ufanismo do original, a letra americana recordada por Maggie sublinha a imagem de um país tropical morno e romântico, mas onde ao encontro amoroso sob o luar cor de âmbar sucede um amanhã em que tudo isso desapareceu. Foi gravada em 1957 por Frank Sinatra, com a letra em inglês de Bob Russell.
27 um velho filme de Hollywood. Ao contrário do que Maggie acredita, a cena a que ela se refere não é de mais um dos muitos filmes americanos que exploraram o suposto exotismo das culturas da América do Sul. Trata-se de uma produção brasileira, intitulada Banana da terra, dirigida por Ruy Costa, com roteiro de João de Barro e Mario Lago e produzida por Wallace Downey. No filme, de 1939, Carmen Miranda (1909-1955) cantava “O que é que a baiana tem” (Dorival Caymmi) e aparecia, pela primeira vez, usando a indumentária e os balangandãs que a caracterizariam, a levariam para Hollywood e a tornariam famosa no mundo inteiro.
28 So goodbye yellow brick road : verso de “Good-bye Yellow Brick Road”, música de Elton John e Bernie Taupin lançada em 1973. A letra faz referência ao filme O mágico de Oz (Victor Fleming, 1939), baseado no livro de L. Frank Braun. A “estrada dos tijolos amarelos” levava ao lugar “além do arco-íris” onde todos os sonhos da menina Dorothy (interpretada por Judy Garland) poderiam ser realizados.
30 Komm, süßer Tod: uma das “69 Canções e árias sacras” de Johann Sebastian Bach (1685-1750), para voz e coro. O primeiro verso, que se repete em todas as estrofes, diz “Komm, süßer Tod, komm selge Ruh”, “Venha, doce morte, venha, descanso abençoado”.
47 Naquela igreja cristã ortodoxa que virou museu: Hagia Sofia, ou basílica de Santa Sofia (Santa Sabedoria), em Istambul, Turquia, foi construída pelo imperador de Bizâncio Justiniano I entre 532 e 537 para ser a catedral de Constantinopla. Em 1453, com a conquista da cidade pelo império Otomano, que a converteu em mesquita e cobriu os mosaicos, que apenas em 1993 começaram a ser revelados. Maggie tenta se lembrar também dos mosaicos da Basilica di Santa Maria in Trastevere, construída no século III pelo papa Calisto I.
54 no avião brasileiro que se incendiou: referência ao acidente aéreo ocorrido em 11 de junho 1973 com um avião que fazia o itinerário Rio de Janeiro– Londres, com escala em Paris. O piloto foi obrigado a fazer um pouco de emergência a 4 quilômetros do Aeroporto de Orly, em Paris. Houve 123 mortes, e apenas 11 sobreviventes.
56 um desses filmes era sobre um rapaz jovem e magro que se apaixona por uma soprano negra: O filme vagamente recordado não foi uma produção austríaca do marido de Maggie, e sim uma premiada produção francesa de 1981, baseado no romance Diva, de Daniel Odier, adaptado e dirigido pelo então estreante Jean-Jacques Beineix (1946-). Mantendo o mesmo título do livro, o filme segue um jovem motoqueiro obcecado pela voz e pela beleza de uma soprano negra (Wilhelmina Wiggins Fernandez, cantora lírica na vida real). O rapaz (Frédéric Andrei) tenta gravar — e assim, de alguma forma, aprisionar — a magia passageira da voz da soprano nas apresentações que ela faz da ária “Ebben? Ne andrò lontana”, da ópera La Wally (1892), de Alfredo Catalani (1854-1893). Também nesta ópera, como em várias outras obras recordadas por Maggie, a personagem termina por se matar.
58 You are no longer in Kansas, Dorothy: No filme O mágico de Oz, Dorothy (Judy Garland), depois de ser levada em sua casa por um furacão, diz a seu cachorro, quando pousam em um local desconhecido: “Toto, I’ve a feeling we’re not in Kansas anymore” (“Toto, parece que não estamos mais em Kansas”), uma das frases mais conhecidas do cinema.
59 Salle Pleyel, casa de concertos de música erudita em Paris, França, conhecida por sua excelente acústica.
61-62 Hey there, you with stars in your eyes: trecho da música “Hey There” (Jerry Ross/Richard Adler), gravada por diversos cantores em 1954, entre eles Sammy Davis, Jr. (1925-1990). Em seguida, Maggie busca na memória as canções “Smoke Gets in Your Eyes” (Jerome Kern/Otto Harbach), composta para o musical Roberta (1933), gravada pelo grupo The Platters em 1958; “A taste of honey” (Bobby Scott/Ric Marlow), escrita para a versão da Broadway da peça A Taste of Honey e gravada em 1963 pelos Bea-tles; “Lovely Rita” (Lennon/McCartney), gravada pelos Beatles em 1967; “Please please me” (Lennon/McCartney), canção dos Beatles de 1963; “I can’t get no (satisfaction)” (Jagger/Richards), gravada pelos Rolling Stones em 1965. Cita ainda a atriz inglesa Rita Tushingham (1942-), que atuou na versão para cinema de A Taste of Honey (Tony Richardson, 1961), a atriz e cantora Rita Pavone (1945-) e o filme Blow-up, filme de Michelangelo Antonioni de 1966 baseado no conto “Las babas del diablo”, de Julio Cortázar, e estrelando Vanessa Redgrave (irmã de Lynn Redgrave, por sua vez a estrela de Georgy Girl), com participação da banda The Yardbirds.
63 O sol de York. O filho de York: referência ao primeiro solilóquio da peça Ricardo III, de William Shakespeare: “O inverno de nossa desesperança/ já se transformou em um glorioso verão pelo sol de York.” Há na peça de Shakespeare um jogo de palavras, que Maggie inconscientemente reproduz, entre sol (sun) e filho (son). O sol de York (“sun of York”) seria Eduardo IV da Inglaterra, filho de Ricardo de York, terceiro Duque de York.
68 The art of losing isn’t hard to master: verso do poema “One art”, de Elizabeth Bishop, traduzido por Paulo Henriques Britto por “A arte de perder não é nenhum mistério” (“Uma arte”, O iceberg imaginário e outros poemas, São Paulo, Companhia das Letras, 2001, p. 309). Bishop viveu com Lota de Macedo Soares, paisagista brasileira, entre 1951 e 1965.
73 Sylvia Plath (1932-1963) e Florbela Espanca (1894-1930) foram poetisas, a primeira americana e a segunda portuguesa, e ambas suicidaram-se.
81 aquela atriz canadense: Geneviève Bujold (1942-), atriz canadense que interpreta Ana Bolena no filme Ana dos mil dias (1969), de Charles Jarrott.
82 Florinda (Florinda Bulcão, 1941-), atriz brasileira que, sob o pseudônimo Florinda Bolkan, teve uma carreira de destaque no cinema italiano. Descoberta pelo cineasta Luchino Visconti (1906-1976), atuou em seu Os deuses malditos (La caduta degli dei, 1969), em O anônimo veneziano (1970), de Enrico Maria Salerno, Investigação sobre um cidadão acima de qualquer suspeita (1970), de Elio Petri, e em Amargo despertar (1973), de Vittorio de Sica (1901-1974).
86 levei Harry aos melhores teatros de ópera e salas de concerto do mundo. Inclusive aquela que tem uma acústica famosa... Em Berlim Oriental:O prédio de tons amarelos que abriga a Filarmônica de Berlim (Berliner Philarmoniker) foi erguido próximo ao muro de Berlim, mas nunca fez parte da capital da comunista DDR, a República Democrática Alemã. O engano é mais uma traição das lembranças de Maggie. A orquestra, sempre com grandes regentes à sua frente (Sergiu Celibidache, Wilhelm Furtwängler, Herbert von Karajan, Claudio Abbado, Simon Rattle), é considerada uma das dez melhores do mundo. O edifício da Berliner Philarmoniker, de linhas revolucionárias quando foi inaugurado em 1963, numa área então degradada, é criação do arquiteto Hans Scharoun. Sua sala principal tem, entre outras, a característica de permitir visão e audição perfeitas de qualquer assento em que esteja o espectador.
102-103 Audrey Hepburn usou naquele filme com Fred Astaire: Em Cinderela em Paris (Funny Face, Stanley Donen, 1957), filme coestrelado por Fred Astaire, a personagem de Audrey Hepburn desce as escadarias do Museu do Louvre com um vestido vermelho criado por Hubert de Givenchy (1927-). O costureiro francês também desenhou outro vestido icônico da carreira de Hepburn: o preto básico de Bonequinha de luxo (Breakfast at Tiffani’s, Blake Edwards, 1961).
112 Beim Schlafengehen: além de interpretar as “Quatro últimas canções” de Richard Strauss em salas de concerto, Jessye Norman gravou-as em 1982 para a Philips, com a Orquestra Gewandhaus de Leipzig dirigida por Kurt Masur, e as gravações integraram álbum lançado no ano seguinte, acompanhadas de outros Lieder de Strauss.
134 teatro arredondado, forrado de madeira escura: O Concertgebouw, ou Koninklijk Concertgebouw (Real Concertgebouw), em Amsterdã, construído entre 1883 e 1886, é considerado uma das salas de concerto com melhor acústica em todo o mundo. Possui uma sala menor, Kleine Zaal, de formato oval, para recitais. Suas paredes, ao contrário do que a memória de Maggie lhe diz, não são escuras.
146 You’re the top: canção de Cole Porter composta em 1934 para o musical Anything Goes. Os versos a que Maggie se refere, alterando-os com amargura e sarcasmo, são: “You’re the top,/ You’re the Coliseum,/ You’re the top/ You’re the Louvre museum.”
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Edney Silvestre