Bufo & Spallanzani
Todo rom ance sofre de um a…
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
V
A MALDIÇÃO
1
Todo rom ance sofre de um a m aldição, um a principal, entre outras: a de term inar sem pre frouxam ente. Se isto fosse um rom ance não fugiria à regra e teria tam bém um fim pífio. (Todo rom ance term ina fracam ente — ver Forster — “porque a tram a exige um a conclusão; devia existir para o rom ance um a convenção que perm itisse ao rom ancista parar de escrever quando se sentisse confuso ou entediado, term inar o livro antes que os personagens percam o vigor, enquanto o escritor procura dar um fim satisfatório à tram a”. Já foi dito — ver Jam es — que a única obrigação de um rom ance é ser interessante. Mas isto, repito, não é um rom ance. Portanto — ver Nava —, “foda-se, sua besta. E agora escute”.)
As m em órias, com o estas que escrevo, tam bém sofrem a sua m aldição. Os m em orialistas são escritores condenados ao rancor e à m entira. Com ecei dizendo que sou um sátiro e um glutão, para m e livrar do anátem a — nada de m entiras, estabeleci logo. Diga-se de passagem que iniciar um livro não é m ais difícil do que term iná-lo, conform e pretendem alguns, alegando que é preferível desapontar o leitor no fim do que fazê-lo desistir da leitura no princípio.
Apanhei na m inha estante, aleatoriam ente, alguns livros de escritores universalm ente fam osos e li as frases iniciais de cada um .
Com o sabe todo colegial nesta era científica, há um a relação quím ica m uito estreita entre carvão e diam antes.
Nosso presídio estava encravado no recinto da fortaleza, ao fundo, rente aos taludes.
Não havia possibilidade de dar um passeio naquele dia.
O portão do pátio de um a estalagem da sede do distrito deu passagem franca a um a pequena carruagem de m olas, um a dessas seges usadas pelos solteirões.
Sentada j unto ao cam inho, contem plando o carro que sobe em sua direção, Lena pensa:
Hoj e a m ãe m orreu. Ou talvez ontem , não sei bem .
Nunc et in hora m ortis nostrae. Am en.
Aqui estam os de novo sós. Tudo é tão lento, tão pesado, tão triste.
Sou o m édico de quem às vezes se fala neste rom ance com palavras pouco lisonj eiras.
Então, príncipe, Gênova e Lucca são agora propriedades da fam ília Bonaparte.
Durante m uito tem po costum ava deitar-m e cedo.
Era a tarde do m eu octogésim o quinto aniversário e eu estava na cam a com o m eu catam ito quando Ali inform ou que o arcebispo havia chegado para m e ver.*
(*) Livros e autores, pela ordem dos parágrafos: Vitória, Conrad; Recordações da casa dos m ortos, Dostoievski; Jane Ey re, Brontë; Alm as m ortas, Gogol; Luz em agosto, Faulkner; O estrangeiro, Cam us; O leopardo, Lam pedusa; Morte a crédito, Céline; Consciência de Zeno, Svevo; Guerra e paz, Tolstoi; O cam inho de Swann, Proust; Earthly Powers, Burgess.
São todos estrangeiros e m ortos (com exceção de Burgess). Alguns não são autores da m inha predileção. Não estão incluídos autores da língua portuguesa de propósito, conquanto a literatura de língua portuguesa nada deva à dos autores referidos, isto é, inglesa, russa, francesa e italiana. Repito, após a prelim inar da exclusão, a seleção foi aleatória, livros apanhados na estante ao acaso. Para m im não existem nem as dez, nem as cem , nem as m il obras-prim as da literatura universal.
Por coincidência até que essas frases fazem certo sentido, o que com prova a teoria (se ainda não existe estou inventando-a neste instante) de que palavras j untas, sej a de que m aneira for, sem pre têm um certo nexo (ver Burroughs).
Um rom ance, pois, pode com eçar com o o autor quiser. Um livro que com eça “Durante m uito tem po costum ava deitar-m e cedo” pode interessar ab initio, ao leitor? Alguém pode querer saber o que pensa um narrador que vai cedo para a cam a? Ou então: “Querem os narrar a vida de Hans Castorp — não por ele, a quem o leitor breve conhecerá com o um j ovem singelo, ainda que sim pático, m as por am or a esta narrativa, que nos parece em alto grau digna de ser relatada”. É assim que Mann com eça A m ontanha m ágica. Pode existir com eço m ais bobo para um livro do que este, em que o autor adm ite que Hans, o personagem principal, é um chato e que o autor m esm o assim quer contar sua história por am or à sua com pulsão falastrã? A verdade é que nenhum livro j am ais deixou de ser lido por lhe faltar um a abertura intrigante.
“De tudo o que se escreve, aprecio som ente o que alguém escreve com o próprio sangue”, disse Nietzsche, para quem sangue e espírito eram a m esm a coisa. Meus prim eiros livros foram escritos com sangue. Escondido dentro de um a casa durante dez anos tinha que acabar surgindo em m eu espírito a m esm a revolta que em polgou o m arquês de Sade.
Nos anos em que estive encarcerado, depois que fugi do m anicôm io (poderão dizer que eu m esm o m e tranquei num Calabouço, o que não foge à verdade, m as eu não tinha alternativa outra que não m e esconder com o um anim al ferido e acuado), passei a desprezar a hum anidade em geral e as pessoas poderosas em particular.
Pedi a Minolta que m e trouxesse livros sobre com o seria (ou será?) o fim do m undo causado por um a guerra nuclear. Gostava de im aginar a catástrofe, os queim ados que seriam dizim ados im ediatam ente, os feridos que agonizariam , sem assistência m édica, os expostos à radiação que pereceriam aos poucos, e os que m orreriam de fom e e de sede e de frio e de loucura, antes m esm o que a radiação fizesse efeito. Li o que escreveram os russos Bay ev, Bochkov, Moiseev, Sagdey ev, Alekxandrov e os am ericanos Holdren, Sagan, Ehrlich, Roberts, Malone. O fim horrível do m undo estava próxim o, m as nem os cientistas, nem os poetas, nem os santos faziam coisa algum a para evitar que acontecesse. A espécie tinha os seus dias contados.
Eu estava com eçando a enlouquecer quando Minolta m e salvou. A espécie hum ana talvez ainda tenha os seus dias contados, m as a loucura não ronda m ais a m inha porta. Não quero m ais pensar em hecatom bes de um a m aneira m órbida.
Enquanto o fim não chega, e para evitar que chegue, o hom em tem que am ar. Foi isso que Minolta m e ensinou. E essa esperança m e foi transm itida na cam a fodendo e na m esa com endo. A única m aneira do hom em realm ente sobreviver é gostando cada vez m ais de viver. Essa é um a perspectiva tão óbvia de salvação que chega a parecer um a estupidez absoluta.
Sei que falo m uito e por isso j á fui cham ado de m ulato pernóstico. Pernóstico, com o todos sabem , é um a corruptela de prognóstico, adj etivo significando: que indica algum a coisa. Sim , sou pernóstico, no sentido de petulante, afetado, presunçoso e tam bém prognóstico, pois estou sem pre indicando algum a coisa.
Quanto m elhor o escritor, m ais pernóstico, digo, prognóstico, ele é.
2
Eu estava na varanda quando o trator chegou com Minolta, Guedes e os policiais da delegacia de Pereiras. A presença de Guedes de certa form a prej udicou a alegria que eu senti ao ver Minolta. Ele se aproxim ou de m im e m e cum prim entou.
“Estou de férias e não sabia para onde ir... Então m e lem brei de que o senhor m e havia falado neste lugar.”
Claro que eu não acreditei nele. Ainda m ais depois de vê-lo trancar-se com Trindade na sala do adm inistrador do Refúgio.
Os policiais de Pereiras foram de j ipe para o bangalô onde estava o corpo de Suzy. Algum tem po depois o perito voltou com o cadáver de Suzy em brulhado num plástico preto. Aj udado por Trindade colocou o corpo no trator.
O perito entrou no j ipe e voltou para o bangalô. Ficam os olhando aquele em brulho negro na carreta do trator, ao m esm o tem po obsceno e atraente na sua solidão frágil. Dele se desprendia um odor pestilento; ou era im pressão m inha? Com exceção de Eurídice, que desaparecera a conselho de Rom a tão logo surgira o trator com os policiais, estávam os todos ali, agora acrescidos de Guedes, que com portava-se ante os acontecim entos com o ar distraído que tiras e gatos gostam de afetar quando estão m uito interessados em algum a coisa: ora olhava um beij a-flor sorvendo água açucarada num bebedor de flores coloridas de plástico dependurado na varanda, ora olhava um a árvore distante com o se visse um chim panzé ou um a onça num dos seus galhos; chegou a dar um bocej o.
Ouvim os o barulho do j ipe. Agora os três policiais estavam nele. Saltaram ao lado do trator e Confabularam em voz baixa. O
perito, carregando um a fronha com um obj eto dentro, entrou na carreta, sentou-se ao lado do em brulho negro e o trator partiu lentam ente.
O escritório de Trindade passou a ser local de trabalho dos tiras. O delegado de Pereiras decidira tom ar os depoim entos ali m esm o no Refúgio, pois não havia hotéis em Pereiras onde as pessoas pudessem se hospedar enquanto o escrivão fazia o seu trabalho. Fui o prim eiro a depor.
Resum indo perguntas e respostas, m eu depoim ento foi m ais ou m enos assim (após a identificação de praxe etc.):
“O senhor conhecia a vítim a?”
“Conheci aqui.”
“Nunca a tinha visto antes?”
“Nunca.”
“Esteve com ela anteontem , no dia em que ela m orreu?”
“Estive com ela anteontem , sim .”
“Onde?”
“No bangalô dela. Recebi um bilhete pedindo para ir falar com ela.” Tirei o bilhete do bolso e dei-o ao delegado. Até àquela hora eu ficara na dúvida se devia m ostrar o bilhete ou não. Foi um a decisão súbita.
O delegado leu em voz alta: “A em pregada que trouxe o café vai lhe entregar este bilhete. Eurídice vai passear a cavalo e ficarei a m anhã inteira no bangalô. Venha até aqui. Preciso falar com você, Suzy ”. Em seguida, passou o bilhete para o escrivão. “Isto vai ficar com a gente”, disse ele. “Para o seu bem ”, acrescentou.
Para o m eu bem ? O que queria dizer ele com isso?
“Qual o assunto que ela queria conversar com o senhor?”
Eu não ia dizer nada ao delegado sobre a história de Maria, a quase assassina, cuj o nom e verdadeiro devia ser Eurídice. Eu precisava inventar um a história plausível, o que não era difícil para alguém com o eu, especializado em criar patranhas verossím eis e aplaudíveis.
“Ela acreditava que eu tinha o dom , não desenvolvido é claro, da clarividência.”
“O que é isso?”
“Ela tam bém cham ou essa coisa de Visão Clara. É
capacidade de ver o futuro, digam os assim .”
“E o senhor tem essa aptidão?” Um olhar rápido para o escrivão.
“Não. Não consigo nem m esm o ver direito o passado quanto m ais o futuro. Mas a Suzy acreditava nessas coisas. Ela m e disse tam bém que o Trindade tinha qualidades m ediúnicas não desenvolvidas. Enfim , conversam os um pouco e logo ela ficou desapontada com o m eu ceticism o, que não dem onstrei por palavras m as que ficou patente. O fundam ental para desenvolver os nossos dons é acreditar neles, disse ela, m e recrim inando.
Fiquei pouco tem po no bangalô.”
“E depois não a viu m ais?”
“Não.”
“Quando esteve no bangalô o senhor viu um a estatueta de bronze?”
“A coruj a? Estava em cim a da m esinha da sala.”
“Quem a m atou usou aquela coruj a com o instrum ento contundente”, disse o delegado. “Várias pancadas na cabeça, a prim eira provavelm ente na base do crânio. O perito acha que ela m orreu tão logo recebeu esse golpe.”
Algum as das m inhas declarações o delegado ditou para o escrivão. Outras ele deve ter considerado irrelevantes pois deixou passar sem registro. “O senhor suspeita de alguém ?”, perguntou a certa altura. “Não”, respondi.
Minolta esperava na varanda que eu term inasse o m eu depoim ento. Conversava anim adam ente com Orion e Juliana.
Noutro canto, Rom a, Vaslav e Carlos sentavam -se em silêncio.
Não se via Guedes. Carlos foi cham ado para depor. Ele estava preocupado, eu podia sentir a tensão no seu corpo. Suas m ãos trem iam .
A m anhã inteira foi ocupada com os depoim entos e ninguém arredou os pés da varanda, nem m esm o Minolta que chegara de viagem . Um dos tiras entrou e saiu da sala de interrogatórios várias vezes, em diligências m isteriosas e apressadas.
Os tiras alm oçaram no salão, num a m esa distante dos dem ais hóspedes. Eurídice com eu no quarto. Trindade explicou que ela não se sentia bem . No alm oço havia um tatu ensopado deliciosíssim o, que fora caçado ali m esm o no Refúgio, m as a única pessoa, além dos tiras, que com eu com apetite fui eu. Os tiras pareciam despreocupados e riam m uito, com o pessoas que tivessem entrado de folga depois de term inar um a tarefa difícil.
Após o alm oço os tiras se trancaram na sala que servia de cartório im provisado. Estudavam os depoim entos. Haviam deposto, tam bém , além dos hóspedes, vários em pregados do Refúgio.
Por m otivos óbvios convidei Minolta a ir com igo descansar no m eu bangalô. Ela respondeu que queria ficar na varanda, com os outros, para ver o que ia acontecer. Havia no ar um clim a de suspeitas recíprocas, trocavam -se olhares oblíquos. A única pessoa que parecia tranqüila era o tira Guedes que, sentado num canto da varanda, fingia cochilar.
Afinal um dos tiras saiu da sala, para cham ar Trindade. Os tiras conversaram com Trindade com a porta aberta. Depois o delegado e Trindade vieram até onde estava o grupo de hóspedes.
“O delegado tem um a declaração a fazer”, disse Trindade.
“Minhas senhoras e m eus senhores. Eu e os m eus colegas tem os fundadas razões para acreditar que sabem os quem m atou dona Suzy.”
Dito isto calou-se, com o um detetive de film e de suspense.
“Quem foi?”, perguntou Juliana, no m om ento em que Rom a abria a boca para fazer essa m esm a pergunta, provavelm ente.
“O indivíduo conhecido com o Erm itão”, disse o delegado.
Explicou que Erm itão fora visto na varanda do bangalô de Suzy por um a em pregada da lavanderia. Ele estava com o ouvido colado na porta, em atitude altam ente suspeita. E aquele não era um dos dias em que ele vinha para m ontar Berzabum . Não havia razão para ele estar no Refúgio.
“Não acredito que esse hom em sej a um assassino”, disse Carlos.
“Foram encontradas m arcas de pata de cavalo no local onde estava o corpo, m arcas idênticas às encontradas em frente ao bangalô. Não tem os dúvidas que essas m arcas foram deixadas pelo cavalo desse tal Erm itão.”
“Com o sabem que não são m arcas de um dos cavalos da fazenda?”, perguntou Carlos.
“Nenhum cavalo da fazenda andou por aqueles lados e essas m arcas tinham um a peculiaridade: um dos cascos do cavalo está sem ferradura. E o Alcides, o nosso perito, exam inou todos os cavalos da fazenda e nenhum está sem ferradura.”
Um m om ento de reflexão geral.
“Qual teria sido o m otivo? Estupro?”, perguntei.
“Não. Roubo”, disse o delegado. “Segundo nos disse dona Eurídice, as j óias de Suzy desapareceram . Ainda não tem os um a lista com pleta dos obj etos furtados porque dona Eurídice não está em condições de depor convenientem ente, m as sum iu um cordão de ouro com um berilo, um colar de ouro m aciço com form ato de serpente, incrustado de pedras preciosas, dois anéis, tam bém de ouro, um deles com um brilhante grande, e um a pulseira.”
“Agora só falta prender o hom em ”, acrescentou o escrivão.
“Para isso vou pedir a aj uda da Brigada Militar. Não vai ser fácil. Seu Trindade m e disse que ele conhece essas m ontanhas com o ninguém . Mas o pessoal da Brigada pega ele. Tem gente na Brigada que nasceu e foi criada aqui m esm o nas m ontanhas.”
Pouco depois chegou o trator que levara o cadáver de Suzy.
Os tiras entraram na carreta e foram em bora, daquela m aneira acintosa que os tiras têm de fazer as coisas m ais sim ples. Antes, o delegado tranqüilizou Juliana dizendo que não acreditava que o assassino tivesse coragem de voltar ao Refúgio.
“O que esse hom em poderia querer fazer com essas j óias?”, perguntou Carlos.
“Vender”, disse Juliana.
“Ele não precisa de dinheiro lá onde vive, no m eio do m ato”, disse Carlos.
“Vai ver roubou para usar. Ele deve ficar bem de brincos”, disse alguém . O clim a com eçava a se descontrair. O culpado, um estranho, havia sido descoberto. Certam ente viria a ser punido, brevem ente. O m undo voltara a entrar nos eixos. Um a em pregada chegou com um a bandej a com xicrinhas de café.
“Acabei não cum prindo a m inha parte da nossa brincadeira’’, disse Orion, bem hum orado.
“Mas eu cum pri. Já escrevi a m inha história”, disse Rom a.
“Então foi a única. Não creio que... Ela escreveu algum a coisa?” Orion m e olhou interrogativam ente.
“Que eu saiba não.” A história de Maria, a quase assassina, relatada por Suzy, nada tinha a ver com a nossa brincadeira.
“Então você ganhou”, disse Orion para Rom a. “Vou confessar um a coisa. A m inha história está toda na cabeça, tudo arrum adinho, m as quando sento para escrever eu não consigo.
Dou m inha m ão à palm atória, escrever é m ais difícil do que eu pensava. Quer dizer, exige um esforço físico m uito grande. Creio que o esforço m uscular é m aior do que o m ental. Não é m esm o?
Diga a verdade.” Antes que eu pudesse responder, o m aestro continuou:
“Se
a
pessoa
pudesse
pensar
e
registrar
autom aticam ente no papel eu garanto a vocês que a m inha história seria um a m aravilha”.
“Com o é a sua história?”
“Bem , a história é um triângulo am oroso. Um m aestro fam oso, o spalla da orquestra e sua m ulher. Vocês sabem qual a função do spalla num a orquestra?”
Todos sabiam .
“Bem , o m aestro era am ante da m ulher do spalla...”
“Por que não o contrário?”, perguntou Vaslav.
“Ele está defendendo a classe dos m aestros. Adúltero sim , corno j am ais”, disse Rom a.
“Vocês vão m e deixar contar a história ou não?”
“Por favor, vam os deixá-lo falar”, eu disse.
“Um dia o spalla descobriu o que estava acontecendo. Era dia de ensaio. O spalla interpelou o m aestro, os dois discutiram e com eçaram a brigar, e na briga o m aestro destruiu o violino do spalla. Eu ainda não sei com o o violino é destruído. Cheguei a pensar que poderia ser durante o ensaio, o m aestro dando um pontapé no spalla, errando e pegando no violino.”
“Isso ia ficar m uito esquisito. Por que o m aestro ia dar um pontapé no m arido enganado?”
“Pois é, por isso é que eu abandonei essa idéia do pontapé no ensaio. Enfim , de um a form a ou de outra, o violino do spalla é destruído. O violino era um Janzen, m as vocês não sabem o que isso significa. Todos j á ouviram falar no Stradivarius, considerado o m elhor violino do m undo e que ninguém j am ais conseguiu im itar. Claro que m uitos liutaios tentaram copiar o padrão crem onense, que passou pelos Am ati e Guarneri e foi estabelecido por Antonio Stradivari. Houve outros fam osos com o Vuillaum e, Fendt, Gilkes, Lupot, Pique, que fabricaram bons instrum entos sem atingir a soberba qualidade dos Stradivarius. Estou chateando vocês?”
“Ao contrário, estou fascinada”, disse Minolta, que gostava de aprender coisas.
“Agora entra o Janzen na nossa história. Gustav Janzen nasceu na Rússia m as veio ainda m enino para o Brasil, indo m orar em Santa Catarina. Aos treze anos construiu o seu prim eiro violino, provavelm ente um a coisa tosca, não sabem os. Trabalhava em . m arcenaria e iniciou seus estudos de acústica ainda m uito j ovem . Tom ara conhecim ento da história do Stradivarius e decidira construir um violino, um a audaciosa loucura de j ovem , que fosse tão bom quanto o do grande m estre de Crem ona.
Durante cinqüenta anos Janzen pesquisou a construção desse violino. Houve um a fase da sua vida em que m orou no Canadá, m as não se deu com o clim a frio e voltou para o Brasil, indo m orar em Mato Grosso. Dizem que ele foi para Mato Grosso porque seria bom para os seus pulm ões, m as há um a outra versão que afirm a que Janzen descobrira que o sol de Mato Grosso era o m elhor do m undo para secar o verniz do violino, m elhor m esm o que o de Crem ona. A questão é que foi em Mato Grosso que ele afinal conseguiu realizar essa façanha que fam osos liutaios através dos séculos tentaram e não conseguiram : construir um violino igual ao Stradivarius.”
“Que m aravilha”, disse Rom a. “Tenho a m aior adm iração por essas pessoas obsessivas.”
“A estrutura dos Stradivarius não é im possível de copiar, nem difíceis de dom inar os princípios de sua acústica. O m aterial para a construção é raro, m as disponível. O problem a dos im itadores dos Stradivarius, e tam bém dos copiadores de qualquer dos grandes m estres crem onenses, está no verniz. Ninguém j am ais conseguiu fazer um verniz igual. Foram convocados, nas últim as
décadas,
prêm ios
nóbeis
de
quím ica,
artesãos,
m acum beiros, artistas, m atem áticos e seus com putadores, cientistas da NASA, O diabo, para tentar fazer um verniz igual, inutilm ente. Pois bem , dizem que Janzen descobriu a fórm ula secreta do verniz do próprio Del Gesu. Janzen não fala do assunto. O certo é que ele fabricou um violino que m uitos consideram m elhor do que o Stradivarius. A prim eira vez que um Janzen dessa qualidade foi usado foi num concerto na sala Cecília Meireles, no Rio de Janeiro, em 1983. O violinista Jerzy Milewski tem essa glória. Milewski costum ava usar nos seus concertos um Cam ilo Cam ini, um violino construído em 1710, vale um a fortuna; m as alguém levou um Janzen para ele e Milewski abandonou o Cam ini para tocar no Janzen. Ficou tão entusiasm ado com a qualidade do novo violino que com prou um para dar ao Isaac Stern. Atualm ente Menuhin, Ricci, os m aiores violinistas do m undo estão usando um Janzen. Vocês viram agora a im portância do instrum ento que o protagonista da m inha história quebrou com um pontapé?”
“Com um pontapé não dá. Não tem sentido”, disse Rom a.
“Com um soco? Pode?”, perguntou Minolta.
“Um soco quebra um violino? De que m adeira é feito o violino?”, perguntou Vaslav.
“De certas m adeiras de lei, com o o ébano, por exem plo, ou o pau-brasil, usado nos arcos. Por falar nisso, Janzen tam bém descobriu outras m adeiras, com o o faveiro, um a árvore com um na região central do Brasil, para fazer os arcos. Se um soco quebra?
Acho que sim , não tenho certeza, ninguém j am ais teve coragem de dar um soco num violino.”
“Só o seu m aestro conquistador. E o seu violino, qual é?”
“O m eu é um Guadagnini, de 1780, um a preciosidade. Se eu perdesse o m eu violino acho que m orria de desgosto”, disse Orion.
“Mas, voltando ao Janzen. Ele escreveu um livro, Luftsäulenraum , Akustik und Geigenbau —”
“Ué, ele não era russo?”
“Ele nasceu num a cidade colonizada por alem ães, sua língua m aterna era o alem ão, ele falava alem ão em casa, quando era pequeno, aqui no Brasil. Mas nesse livro, Janzen, além de dizer que descobriu as leis acústicas de Stradivarius — não fala nada no verniz — afirm a que o violino passa por várias crises, verdadeiras
variações
evolutivas,
antes
de
adquirir
sua
m aturidade. A prim eira, depois de seis horas de uso. A segunda, m ais furiosa, depois de tocar sessenta horas. Então o violino entra em depressão da qual só sairá após oito a dez horas de exercício.
Um violino, diga-se, só atinge a sua m elhor potencialidade após sessenta anos de vida, e não podem os portanto saber se Janzen é m esm o o novo Stradivarius. Mas, por qualquer m otivo, os grandes violinistas que tiveram a oportunidade de usá-lo um a vez não conseguem deixá-lo de lado. Daqui a sessenta anos — isso eu ouvi da boca de Milewski, e creio que tam bém Lehninger disse o m esm o — sua perfeição e excelência serão com provadam ente inigualáveis.”
“Você ia escrever isso tudo em sua história?”
“Claro que não. Deform ação profissional é coisa m uito desagradável. Deixei-m e levar pelo entusiasm o. Ia m e concentrar m ais no triângulo am oroso. Deve ser um a sensação aflitiva descobrir que sua m ulher anda com outro hom em .”
“Não sei se aflitivo é a palavra certa”, eu disse.
“Há uns que saem dando tiros”, disse Rom a.
“Acho que varia de pessoa para pessoa”, disse Juliana.
Nesse instante, Carlos, que se m antivera em silêncio, levantou-se da cadeira e depois de olhar para m im , com o se quisesse dizer algum a coisa, saiu da varanda. No canto da varanda, Guedes fechou seu blusão sebento, pois com eçava a esfriar, com o acontecia sem pre ao entardecer.
“Andar com a m ulher do spalla não havia causado m aiores dores na consciência do m aestro, m as quebrar-lhe o Janzen, com um pontapé, soco, ou lá com o fosse, deixou o m aestro na m aior prostração. Ele sabia o am or que o spalla tinha ao seu violino, ele acom panhara a evolução artística do spalla depois que com eçara a usar o Janzen. O spalla, que era um bom m úsico, por isso era o núm ero um da orquestra, passara a obter do violino um a sonoridade fantástica. Toda a orquestra se beneficiara com isso; as m úsicas eram executadas com m aior brilho e pureza. E o m aestro sabia que isso ocorrera devido ao Janzen do spalla. O
m aestro com eçou a sentir um intolerável sentim ento de culpa, com eçou a definhar, tão grande era o seu arrependim ento. Todo gênio tem um lado ingênuo.”
“Dizem que Mozart era um idiota”, disse Rom a.
“Todo gênio é um idiota.”
“Newton não era.”
“Isso quer dizer que um idiota pode ser um gênio artístico m as não um gênio científico?”
“Einstein era um idiota.”
“Wagner era um idiota. Beethoven era um idiota e surdo.”
“Flaubert era um idiota.”
“Quem não é idiota?”
“Dona Rizoleta”, eu disse. “Um idiota não consegue fazer um tatu ensopado com o o que ela fez hoj e.”
“Vam os deixar o Orion contar a história dele”, disse Minolta.
“Até j á m e perdi. Onde eu estava m esm o?”
“O m aestro com eçou a definhar de arrependim ento por ter quebrado o Janzen do m arido enganado por ele.”
“Ah, sim . Ele entra num surto depressivo e os am igos querem interná-lo para fazer um a sonoterapia, querem que faça análise, querem que faça um a viagem .”
“E o m arido enganado?”
“Confesso que eu não sabia o que fazer com ele e abandonei-o. Ele sai da história logo que o violino é quebrado.”
“É um a pena”, eu disse, “os m aridos enganados possuem um lado patético interessante; a ilusão e a confiança perdidas, a traição sofrida — deviam m erecer m ais atenção, porém até os am adores, com o você, deixam -nos pelo m eio do cam inho.”
“Pois é. O m aestro piora cada vez m ais e chega ao ponto de perder o interesse pela m úsica. Ele se torna um a pessoa abúlica, passa os dias deitado, não tom a banho, não faz a barba.”
“Ele era casado ou solteiro?”
“Isso eu não cheguei a resolver. Talvez fosse m elhor ele ser solteiro. Os solteiros, inexplicavelm ente, enlouquecem m ais do que os casados.”
“Então ele piorou m esm o, enlouqueceu, ficou m aluco e assim term ina a história?”
“Ele não chegou a ficar m aluco m esm o e a história não pode term inar aqui porque eu ainda não usei o m ote que m e foi dado, o tem a escolhido pelo Gustavo.”
“Qual é o seu m ote?”, perguntou Rom a.
“Já verem os. O nosso m aestro, então, havia chegado ao m áxim o da sua depressão quando resolveu aceitar a sugestão de um am igo e recolher-se à tranqüilidade bucólica de um a fazenda com o esta aqui. Eu pretendia descrever tudo que tenho visto, as paisagens, as pessoas, anim ais, enfim , relatar a vida aqui no Refúgio, para encorpar m inha história. O bom escritor faz isso, não faz? Usa pessoas, incidentes, am bientes da vida real em seus livros, não usa?”
“Usa, m as não abusa. O suj eito só pode ser considerado um bom escritor quando consegue, prim eiro, escrever sem inspiração e, segundo, escrever só com a im aginação.”
“Um a regra que não sou obrigado a cum prir”, disse Orion.
“Então aqui está o nosso m aestro, dom inado por um a m editabunda depressão, na hora do alm oço, olhando o tatu ensopado que lhe foi servido, sentindo um certo noj o dessa com ida, infeliz, com vontade de m orrer.”
“Acho isso dem ais”, disse Rom a.
“Ao entardecer — o entardecer da história é com o o daqui, um a luz rosa se espalha sobre a m ontanha, dando um toque de sonho à paisagem , m as para ele de pesadelo — o desespero do m aestro aum enta. Ele tem a convicção, então, de que vai m orrer
—.”
“Continuo achando isso dram ático dem ais. Afinal o suj eito quebrou apenas um violino”, cortou Rom a.
“Um Janzen, não se esqueça. As dores da alm a são m uito subj etivas — com o j á disse o conselheiro Acácio”, apressou-se em dizer Orion, ao notar que Rom a ia novam ente interrom pê-lo. “O
m aestro havia-se deixado ficar na varanda do seu bangalô, sem ânim o para ir j antar, sem disposição para viver. A noite caíra, tão escura que ele não via a própria m ão que apoiava na testa para segurar sua cabeça. Então ouviu um som que vinha da escuridão, um som singular, com o de um diapasão, seguido por vozes isoladas, sons ascendentes e descendentes que subitam ente cessaram . O silêncio durou pouco tem po; um coro harm onioso de vozes encheu a noite e pareceu subir para o firm am ento. O
m aestro levantou-se da cadeira e foi cam inhando pelo escuro, orientado pelas vozes, com o se estivesse vendo o chão que pisava, até chegar à beira de um a lagoa. Ali a beleza inefável do coro podia ser ouvida em toda a sua inexcedível grandiosidade. Ele j á ouvira os m aiores e m ais afinados coros do m undo, alguns dos quais ele m esm o regera, m as nenhum o deixara tão em ocionado quanto aquele. Nesse m om ento de êxtase a lua surgiu no céu e cobriu a lagoa com um a luz rutilante de prata. Então o m aestro pôde ver os seus cantores. Eram m ais ou m enos uns cinqüenta sapos, dispostos em círculo em torno de um sapo trepado num a pedra.
Todos olhavam para esse sapo, que parecia m aior do que os outros, o qual, com m ovim entos da sua cabeçorra grotesca, regia com o um Deus esse fantástico coro de batráquios.”
“Bravo!”, exclam ei.
“Então o seu m ote era sapo? Igual ao m eu?”, disse Rom a.
“Igual ao de todo m undo. O m ote foi sapo, para todos”, eu disse.
“E depois? O que aconteceu?”, perguntou Minolta.
“Bem , o m aestro, vendo que aqueles sapos eram capazes de criar tanta beleza e harm onia no m eio do m ato, aprendeu um a lição: a m aior alegria que o hom em pode ter —”
“E os sapos...”, m ais um a vez Rom a.
“... é criar o belo. E assim ele voltou para a sua orquestra, fez as pazes com o spalla e viveram felizes — num m énage à trois, se você prefere, Rom a — para sem pre. É um a espécie de história de fadas, seria um a espécie de história de fadas se eu a tivesse escrito.’’
“Até que eu acho que você se saiu razoavelm ente bem . Não escreveu m as contou. Literatura oral vale, não vale, Gustavo?”
“Não. A aposta era escrever. Contar histórias qualquer dona Candinha conta.”
“E Catarina Benincasa?”, perguntou Orion.
Era um a boa pergunta, que não cheguei a responder.
Trindade entrou esbaforido na varanda dizendo que Carlos havia m andado selar Berzabum , o quarter endiabrado, e saíra galopando, ninguém sabia para onde. Isso ocorrera há m ais de um a hora e Trindade estava preocupado. Não tardaria m uito para anoitecer e ele tem ia que Carlos se perdesse na m ontanha. Já ocorrera um a tragédia assim , um cavaleiro se perdera e fora encontrado um a sem ana depois sem vida, ele e o cavalo, caídos no fundo de um barranco. Aquelas m ontanhas eram traiçoeiras etc.
Enquanto isso tudo acontecia, Guedes, o tira sebento, m antinha-se discretam ente em silêncio. Afinal, o que pretendia ele? O que viera na verdade fazer ali?
Rom a foi correndo ao seu bangalô e trouxe o seu conto.
“Não m ostre para ninguém ”, disse ela.
Anoitecia. Peguei Minolta pelo braço e disse a ela que estava na hora de fazer ela sabia o quê.
Alguém escreveu que os rom ances antigos é que eram bons, seus heróis não viviam dando grotescas — creio que a palavra era outra, ligada a circo — trepadas escaldantes. Mas com o é que eles podiam dar qualquer tipo de trepada sendo, com o os bichos de desenho anim ado, bonecos que têm olhos, nariz, orelhas, m ãos, dedinhos, tudo m enos genitália, capazes apenas de expressar paixões platônicas ou m etaforizadas? Meus heróis, e eu tam bém , têm sexo e se engaj am em suas atividades libidinosas e aprazíveis sem pre que possível. Eu era um hom em delicado que tinha horror à rudeza, sentia pelas pessoas um a consideração m uito grande, m eu desej o pelas m ulheres era um a form a de consideração, de atenção, de respeito, de generosidade. Até as fem inistas sabiam disso.
Logo que entram os no bangalô, eu e Minolta tiram os a roupa. Eu a peguei e a enganchei nos m eus quadris, suas pernas longas e m usculosas eram perfeitas para isso; ela cruzou os pés sobre os m eus rins e os lábios úm idos e quentes da sua boceta se abriram pulsando, desej ando o m eu portentoso m em bro que ia penetrá-la e vará-la fundo. Ai!, ai! A m inha boca cheia d’água!
Andam os pela sala no que se poderia denom inar de fornicação peripatética. “Isso, grude-se em m im com o os m alditos carrapatos fizeram , ai, que delícia!, assim , m eu am or... Você que ir lá fora, foder sob o m anto fulgurante das estrelas? Ai, ai! Lá vam os nós, nus com o cangurus, prende o teu orgasm o, espera as estrelas m ais um segundinho, pronto! Aqui estão elas, m uitas j á m orreram há m ais de m il anos e delas só existe este brilho viaj ando pelo espaço! Você quer que gozem os j untos? Cantem , sapos! Agora!
Porra! Céus! Estou gozando, abóbada celeste, estou gozando!”
Depois de algum tem po, Minolta disse: “Estou sentindo cãibras nas pernas”.
“Deve ser do frio. Estam os há m uito tem po aqui ao relento.”
“Você não está cansado de m e carregar?”
“Meu bem , eu não m e canso nunca quando estou fazendo am or. Mas talvez sej a m elhor entrarm os pois quero ler a história que Rom a escreveu.”
“Você sentiu tesão por ela?”
“Senti. Sinto. Você sabe que eu sinto tesão por todas as m ulheres bonitas.”