Bufo & Spallanzani

Rubem Fonseca · Capítulo 4 de 4 · parte 3/3

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Bufo & Spallanzani

Todo rom ance sofre de um a…

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

Eu havia m atado — bem , o coveiro fora m orto involuntariam ente, por acaso, por inépcia; na verdade a m inha experiência de assassino não valia grande coisa. Matar Delam are com as m inhas próprias m ãos, esganando-o? Ou dando-lhe pauladas? Facadas?

Pontapés? Mordidas? (Mordidas, evidentem ente, não. Prim eiro, eu não m ordia hom ens, nem que fosse em legítim a defesa; em segundo lugar, para m atar um hom em a dentadas você tem que ser tigre ou cachorro danado.) Tiros. Essa era a m elhor m aneira.

Eu não teria contato físico com Eugênio e não correria riscos.

Afinal ele era um atleta, um hom em forte e m usculoso, capaz de resistir e lutar.

Eu não era um andarilho urbano, com o Guedes, o tira, m as havia m uitas ruas do centro da cidade que m e agradavam particularm ente, com o as ruas República do Líbano, Constituição e Larga, entre outras poucas. Gostava de ficar olhando as vitrines das loj as de instrum entos m usicais, de equipam entos eletrônicos; das casas que vendiam anim ais — peixes, quelônios, preás, cachorros, pássaros, gatos, cobras, lagartos, o diabo —; dos bric-

à-bracs que vendiam até pinicos velhos; m as principalm ente gostava de ver as vitrines das casas de caça e pesca, com seus rifles, carabinas, revólveres, m olinetes, arpões subm arinos.

Um dia eu estava parado na porta de um a casa de caça e pesca, olhando um rifle com m ira telescópica, quando um suj eito se aproxim ou de m im . Perguntou se eu estava interessado em algum a arm a de fogo.

“Vendo pela m etade do preço. Grande estoque”, ele disse.

“Estou apenas olhando.”

“Não precisa registrar na polícia. Tudo no m aior sigilo.”

Provavelm ente m e achou com cara de bandido, assaltante de banco.

“Tenho um a m etralhadora Ina, com m unição.”

Afastei-m e apressado e nunca m ais parei na porta daquela ou de outra loj a de arm as.

Mas agora, ali estava eu, para ver se o m esm o suj eito, ou outro, aparecia com as m esm as propostas. Perdi horas e horas, inutilm ente, indo da porta de um a loj a para outra. Ninguém apareceu.

Vam os voltar atrás um pouco e ver o que aconteceu pouco antes de Guedes ir m e encontrar no Pico do Gavião. Agenor aparecera m orto num a rua escura em Caxias (a cidade onde Rom a descobrira Santinha, que curara a loucura do seu m arido bailarino), perto do m otel Luxem burgo, ao lado da avenida Brasil.

Fora assassinado com três tiros na cabeça, três no peito e três no abdom e. A uns cinco m etros de distância estava caída um a m ulher, que a polícia ao chegar ao local pensou que tam bém estivesse m orta. A m ulher recebera dois tiros nas costas, e apesar do calibre da arm a utilizada, ainda estava viva. A polícia concluíra que haviam sido em pregadas duas pistolas 45, os proj éteis tinham cam isa de m etal duro, e os disparos ouvidos por testem unhas haviam sido feitos num a sucessão rápida, indicativa de arm a autom ática. Agenor fora m orto por disparos de um a única arm a, com carregador de nove tiros, provavelm ente.

Guedes dem orou dois dias a tom ar conhecim ento da m orte de Agenor. Logo que soube correu para Caxias, a fim de conversar com o encarregado das investigações.

“A m ulher estava com Agenor, talvez tivesse saído do Luxem burgo, m as os em pregados do m otel negam isso. Os m atadores, no m ínim o dois, estavam interessados em m atar Agenor, a m ulher entrou de gaiata. Saiu correndo e levou dois tiros nas costas. Eles não perderam tem po para confirm ar se ela havia m orrido ou não. O cara que liquidou Agenor é cuidadoso, deu um tiro em cada têm pora e outro no olho direito, queria evitar a possibilidade de um desvio bam burro causado pela ossatura do crânio, isso acontece, você sabe. Além disso deu três tiros na barriga. Mesm o se ele fizesse isso dentro de um CTI, com os m édicos em volta, prontos para entrar em ação, o Agenor se fodia.

A m ulher deu sorte.”

“Onde ela está?”

“No hospital aqui de Caxias. Foi operada e passa bem .”

“Você j á a ouviu?”

“Vou lá hoj e. Quer ir com igo?”

Ao chegarem ao hospital, Guedes e o policial de Caxias, Bráulio, um paraibano que tinha cara de sargento do Corpo de Fuzileiros Navais, foram levados por um m édico de plantão até à beira da cam a onde estava a m ulher. Tinha um tubo enfiado no braço e outro no nariz.

“Ela ainda não está em condições de falar”, disse o m édico.

Nesse instante a m ulher abriu os olhos e olhou o teto. Seus olhos eram cinzentos e opacos. Se houvesse algum a coisa no teto para ver, ela não teria visto. A m ulher ainda não fora identificada.

Não havia registro de suas im pressões digitais nos arquivos consultados.

Para Bráulio o casal estaria entrando no m otel; aquele não era um local de desova, de despej o de pessoas m ortas em outro lugar. E os m oradores de qualquer form a não transportariam um hom em m orto e um a m ulher viva. O casal devia estar entrando, e não saindo; para entrar no m otel era necessário parar na rua, em situação propícia à ação dos assassinos.

Guedes achava que se o raciocínio de Bráulio fosse correto, a m ulher que estava no hospital não devia ser a esposa de Agenor.

“Esse negócio de levar a própria m ulher pra m otel é coisa de burguês”, disse o tira. Nesse caso, a m ulher de Agenor, que devia saber m uita coisa, ainda estaria viva, escondida em algum lugar.

Guedes achou m elhor nada contar a Bráulio sobre as investigações que fizera envolvendo Eugênio Delam are e Agenor da Silva.

“Com o é que ela é?”, perguntou Bráulio.

“Não sei.”

“Então é fácil”, brincou Bráulio.

A m ulher m orreu na noite daquele dia em que foi visitada pelos tiras, sem ser identificada, sem fazer revelação algum a. O

corpo foi rem ovido para o Instituto Médico Legal, para ser autopsiado. Ficaria ali algum tem po e depois seria enterrado num cem itério de indigentes.

Guedes deduzira corretam ente (tenho vontade de usar o adj etivo “inteligente”, m as a oj eriza que sinto pelo tira não m e deixa) que os assassinos que haviam m atado Agenor e a m ulher estavam tam bém atrás de m im . Foi essa a verdadeira razão pela qual Guedes apressou-se a ir ao Refúgio. Não que ele se incom odasse com a m inha m orte, apenas a achava inconveniente e prej udicial, naquele m om ento, para as suas investigações. Acho que j á disse isso.

6

Voltando às m inhas andanças para com prar um revólver. No segundo dia, um suj eitinho pequeno e esverdeado se aproxim ou de m im , na porta de um a casa de arm as, e perguntou se eu estava interessado em algum a.

“Estou.”

“Siga-m e.”

Ele com eçou a andar sem olhar para trás. Cam inham os na direção da rua Cam erino. Ao atravessá-la vi o velho prédio do m eu colégio. Subitam ente tive a revelação m elancólica de que aquela fora a única época feliz da m inha vida. Com grande tristeza percebi o tam anho da m inha infelicidade desde que m e tornara um adulto. Eu não fizera outra coisa senão m e enganar, m e evadir, através do sexo e da com ida.

Eu estava im aginando a história de um escritor epicurista, hedonista etc., que decide purificar-se pela ascese, quando o suj eitinho verde em barafustou-se pela porta de um sobrado onde havia um a tabuleta dizendo: Fotógrafo — 5 m inutos.

Quando cheguei à porta do sobrado o suj eito subia um a escada de m adeira, apoiando-se num corrim ão. Subi atrás. Ele m e esperou no patam ar.

“Por aqui.”

Entram os na sala de espera do fotógrafo. O suj eito tirou um a chave do bolso e abriu um a porta. Penetram os num côm odo escuro, sem m óveis, e ele bateu com os dedos, em código, num a porta grossa, que parecia forrada de ferro. Um a luz acendeu no côm odo vazio, um postigo se abriu na pesada porta e um par de olhos fixou-se em m im . Algum tem po depois a porta foi aberta e entram os num salão onde havia um a m esa, vários arm ários de m adeira e arquivos de aço.

“Ele quer um revólver”, disse o suj eitinho verde.

“Um 22, 38 ou 45?”, perguntou o cam arada que estava na sala.

“É para m atar um hom em ”, eu disse.

“Quer fazer um estrago nele? Arrancar o nariz, os dentes, o tam po da cabeça — além de m atar?”, perguntou o hom em .

“Com o é que é isso?”, eu disse.

“Com um 22 você só m ata. Com um 45 e m unição dundum você estraçalha.”

“O que é bala dundum ?”, perguntei.

Os dois hom ens olharam um para o outro e riram com desdém .

“Nosso am igo é um leigo, não sabe porra nenhum a. A gente tira o m etal da ponta e deixa o chum bo aparecer. Depois faz um a cruz em cim a do chum bo. Na hora do im pacto o chum bo se arreganha. Já viu o estrago?”

“Quarenta e cinco com dundum ”, eu disse.

O suj eito abriu um arm ário, de onde retirou um a pistola enorm e, negra. “Pente de sete tiros e m ais um na agulha”, ele disse. “É carregado pela culatra, assim . Puxando você introduz o cartucho na câm ara. Agora é só apertar a tecla do gatilho.” O

suj eito m e explicou tam bém com o funcionava o dispositivo de segurança. “Quando não estiver usando a arm a pressione a asa do registro, que trava o cão e o retentor. As autom áticas são m uito traiçoeiras.”

Antes de sair perguntei: “Este revólver é bom m esm o, posso confiar nele?”.

“Não é revólver. É pistola. Revólver tem um tam bor, um cilindro. Você está vendo algum cilindro nesta arm a?” O hom em balançou a cabeça. Quando saí da sala, ouvi que ele dizia entre dentes: “Puta m erda, confundir revólver com pistola!”.

Quando cheguei em casa coloquei o revólver, digo, pistola, em cim a da m esa, ao lado do TRS-80 e fiquei olhando para as duas m áquinas. A pistola m e pareceu m ais bonita e, não sei por que, m e deu inspiração, vontade de escrever.

Liguei o TRS-80. Prim eiro o printer, Epson FX-80, conectado no com putador. Depois, no drive 0 coloquei o Superscripsit e no drive 1 um floppy disk, para arquivo. A luz verm elha em cim a dos drives acendeu e apagou quando o TRSDOS foi carregado. Mês, dia e ano, ENTER, hora, m inutos, segundos, ENTER, luz verm elha acendendo e apagando, nos dois drives. READY. Escrevi: ss. ENTER.

O m enu do program a apareceu na tela. Bati 0.

Nam e of docum ent to open?

Escrevi Bufo.

ENTER.

Na tela, Open Docum ent Options:

Docum ent nam e: Bufo: 1

Author: Gustavo Flávio.

Operator: GF

Com m ents: Rom ance

Printer ty pe: LP 8

Lines per page: 54

Pitch: P

Line spacing (to 3 +, “ + ” = 1/2): 1

lst page to include header: 1

lst page to include footer: 1

Novam ente: ENTER

Apareceu a screen page: a tab line, com o ghost cursor e a status line e as especificações de im pressão do docum ento. No alto da “página” o cursor piscava. Tudo pronto para escrever.

As palavras foram aparecendo na tela à m edida que eu escrevia:

Material de arquivo. Spallanzani considera Bufo um indivíduo estúpido.

Apetite sexual e gastronôm ico de Bufo. Eu e Bufo. Paralelo. So m any writers, Conrad for instance, have been aided by beeing brought up in a m etier utterly unrelated to literature. Inglês é o latim dos tem pos m odernos. Lévi-Strauss: De fato não estou m uito otim ista em relação ao futuro de um a hum anidade que se reproduz tão rapidam ente que se tornou um a am eaça para a sua própria sobrevivência, antes m esm o que lhe com ecem a faltar os elem entos m ais essenciais com o o ar, a água, o espaço. Estou olhando o revólver, digo, pistola, aqui ao lado. Chega de lérias.

Parei de escrever.

Print com m and: apertei a tecla CONTROL e bati P. Fiquei ouvindo o rápido m atraquear da Epson. Arranquei o papel com os caracteres que havia escrito e j oguei na lata de lixo. (“O m elhor am igo do escritor”: Singer) Para que guardar aquilo no arquivo do com putador? Defini o bloco apertando as teclas CONTROL e X. Na status line apareceu:

Delete Copy Move Adj ust Search Freeze Hy ph Print Line-space?

Bati a tecla D, significando Delete, apagar.

Na status line: You have asked to rem ove this block. Are y ou sure? (Y ou N)? Você pediu para elim inar este bloco. Tem certeza?

(Sim ou Não)? O Superscripsit é sem pre m uito cuidadoso, quando você m anda apagar algo m aior do que um parágrafo. Bati Y e im ediatam ente aquele m onte de letras desapareceu da tela e foi elim inado do arquivo. Apertei a tecla CONTROL e a tecla Q, quitting the docum ent, voltando para o m ain m enu. Na tela: (O) Open a docum ent

(D) Display disk directory

(S) Sy stem setup utility

(P) Proofread a docum ent

(C) Com press a docum ent

(A) ASC II text conversion utility

(E) Exit to TRSDOS

Escrevi: KILL BUFO: 1. Bati a tecla ENTER.

O TRSDOS procurou e encontrou que havia no drive 1 sobre Bufo & Spallanzani, e apagou tudo, a ouverture que eu colocara no arquivo, contendo o encontro do cientista com o batráquio, a prim eira aparição de Laura, a torre de La Ghirlandina com o sino, a história da infância de Spallanzani, m inhas anotações, o plano geral do livro, tudo foi extinto, destruído, num a fração de segundos. Não existia m ais Bufo & Spallanzani sobre a face da terra, tudo j ogado na grande lata do lixo do oblívio. O com ando KILL era tão perem ptório que o com putador obedecia sem discutir a ordem recebida.

KILL. Matar, destruir. Para m atar Delam are tam bém bastava apertar um a tecla do gatilho da pistola ao m eu lado. Minha im aginação vagava.

Bateram à porta.

Pelo visor vi que era um suj eito carregando um enorm e buquê de rosas, ornam entado com fitas coloridas.

“Gustavo Flávio?”, perguntou ele.

Então percebi tudo e tentei fechar a porta, m as era tarde dem ais. Ide encostou a arm a no m eu peito e disse: “Para dentro”.

Entrou atrás de m im , fechando a porta com o pé. Jogou as flores no chão, com displicência.

“Ponha as m ãos para trás”, disse. Com habilidade algem ou os m eus pulsos. “Deita aí”, disse friam ente, apontando para o chão. Estirei-m e de barriga para baixo. Ouvi-o discando o telefone.

“Já entrei. Mole, m ole. O puto tem um a Colt. Antiga.”

Desligou.

“Olha aqui”, com ecei.

“Cala a boca.” Ele não falava com raiva, m as era um tom seco e intim idante.

Com dificuldade virei o rosto para ver onde o suj eito estava.

Sentara-se num a das poltronas da sala, ereto, as duas m ãos apoiadas nas pernas. A pistola sum ira. Olhou-m e, im passível. Se algum a coisa podia ser lida no seu rosto inescrutável era um enorm e . desinteresse por m im .

A cam painha tocou, fazendo m eu coração bater. Ouvi o hom em abrir a porta. Pelos sons deviam ser duas as pessoas que acabavam de chegar. Quando fui virar a cabeça, para olhar quem havia chegado, levei um a coronhada na nuca.

“Fica quieto.”

Senti que o m eu cinto era afrouxado e o zíper da m inha calça aberto. Minhas calças foram puxadas para baixo.

“Ei!”, protestei.

Outra coronhada, seguida de um a dor fina na nádega.

Haviam m e dado um a inj eção. Um dos hom ens passou no m eu foco de visão. Tinha barbas negras. Lem branças dos dias no m anicôm io vararam a m inha cabeça. Psiquiatras. Detetives.

Prom otores públicos. Juízes. Flores, em cim a de um a sepultura. A lápide se abriu com o num film e de vam piro e um suj eito todo vestido de negro, com um a flor branca na lapela, sorriu para m im e disse m uito prazer, Maurício Estrucho.

“A pior form a de autoridade”, disse Estrucho, “a m ais arrogante e dissim ulada, é a do artista: ele j ulga, de form a im placável, quem pensa diferente dele, sem pre fingindo-se de j usto e im parcial.” Quando com ecei a estranhar aquela fala de Estrucho, o seu rosto foi envelhecendo, um a barba branca apareceu no seu rosto e quem falava com igo era Tolstoi: “Afinal quando é que você vai term inar essa m erda do Bufo & Spallanzani?”. Quando eu ia dizer que Bufo & Spallanzani havia sido KILLED pelo com putador, o sonho acabou.

7

Ouvia vozes. Eu estava num a incôm oda cadeira de avião.

Sendo grande e gordo, era para m im um desconforto viaj ar nas estreitas poltronas dos aviões. Aquela cadeira onde eu estava era apertada, tanto quanto todas as outras. Abri os olhos e vi um par de pernas nuas levantadas. Eram as m inhas pernas! Que pesadelo era aquele? Fechei novam ente os olhos.

Alguém bateu no m eu rosto. Prim eiro de leve, depois com m ais força. Tentei perceber o que estava acontecendo. Havia um suj eito que eu conhecia.

“Eu sei quem é você”, balbuciei.

“O puto ainda está dopado.”

“Você é o Eugênio Delam are”, eu disse.

“Você consegue contar cem , de trás para a frente?”, perguntou Delam are.

“Claro”, eu disse. “Cem ... noventa... noventa...”

“Eu quero que ele estej a em condições de ver e perceber tudo”, disse Delam are para um dos suj eitos ao m eu lado. Eram três, os hom ens que estavam com ele, envoltos num a neblina.

“Isto é um a adega”, eu disse. Tentei apontar a infinidade de garrafas de vinho deitadas em prateleiras ao longo das paredes, m as m inhas m ãos estavam am arradas.

“Você fechou a porta de cim a?”, disse Delam are.

“Fechei”, disse um suj eito. Era o m otorista dele. As im agens com eçavam a ficar m ais claras.

“Está vendo isto aqui?”, perguntou Delam are.

Era um a faca. Brilhava refletindo a luz do teto.

Senti um frio nas m inhas pernas nuas. Senti um frio no m eu coração. Notei então que estava am arrado num a m esa obstétrica, com o um a m ulher que fosse parir um filho.

“Vou arrancar os seus culhões. Lem bra-se de que eu lhe prom eti isto?”, disse Delam are.

Os outros hom ens em volta riram . Um deles era o entregador de flores.

Com ecei a m e debater em pânico, m as m eus braços, m inhas pernas e o m eu tronco estavam fortem ente atados por aram es que dilaceravam a m inha carne. Sangue com eçou a escorrer pelo m eu corpo.

“Fiz m uito isso, com os m eus bois, na fazenda. Mas com você é m ais agradável”, disse Delam are.

Fechei os olhos.

Eu sem pre ouvira dizer que quando um a dor é m uito forte, você não a sente. É verdade.

“Faça ele abrir os olhos.”

Alguém m e esbofeteou com violência.

“Sabe o que é isto?” Delam are aproxim ou a m ão do m eu rosto. Segurava entre o polegar e o indicador um a bola bege, com o um gom o de j aca, ovalar, lisa, fosca, com pacta. “É um dos seus culhões, garanhão.”

Com as unhas Delam are lacerou o ovo, desenrolando os longos tubos que pareciam cordões, com o se o m eu testículo fosse um novelo de fios grossos.

“Você j á viu luta de cães de com bate?”, perguntou Delam are, enquanto desenrolava os cordões do m eu testículo. “Sem pre que vou à Inglaterra vou ver um a luta de cães, são as m elhores do m undo, os ingleses sabem fazer as coisas, eles têm classe, têm tradição. Quando ainda é um filhotinho, o cão de com bate, o Pitt bull terrier, um cruzam ento de bull-dog com terrier, com eça a ser ensinado a desej ar a carne e o sangue dos outros cães, com o alim ento.”

Delam are assum iu um a atitude de conferencista. Meu testículo era agora um a com prida tripa fina que arrastava pelo chão. Seus asseclas ouviam -no respeitosam ente.

“Quando chega à idade de com bate o cão é deixado vários dias sem com er em com panhia de outro anim al fraco, em cuj o corpo foram feitos ferim entos sangrentos. Não preciso dizer o que acontece. O bull terrier despedaça o outro cão. Isso é repetido várias vezes, na fase de treinam ento. Mais tarde usam um cão sem ferim entos, que é tam bém feito em pedaços e devorado. O bull terrier passa então a ver todo e qualquer cão com o um inim igo a ser retalhado e com ido. Eu não vou fazer isso com você, não sou um cão feroz. Vou apenas tirar-lhe os culhões, um depois do outro, sem pressa, sem açodam ento — eu lhe prom eti isso, lem bra-se? —, e depois, culm inando esta festa, vou cortar o seu pênis e j ogar tudo no lixo. Espero que isto não venha a prej udicar a sua criatividade. Eu gosto dos seus livros. Além disso, é m uito tarde para você iniciar um a carreira no bel canto e não creio que ainda em preguem castrati nas casas de ópera.”

Delam are cortou cuidadosam ente o outro lado do m eu saco escrotal e retirou delicadam ente o m eu segundo e últim o testículo.

Então, desm aiei de pavor.

Acordei no hospital. A prim eira coisa que o m édico m e disse foi que eu não sofria risco de vida. Eu havia perdido um pouco de sangue m as fora decidido que não deveria tom ar nenhum a transfusão, tendo em vista os riscos de AIDS, hepatite etc.

Delam are não tivera tem po de cortar o m eu pênis. Guedes, o tira sebento, que estava vigiando o m ilionário, chegou com outros policiais a tem po de im pedir que isso acontecesse. Delam are e os bandidos que estavam com ele m orreram no tiroteio dentro da adega da rua Sara Vilela. Dois policiais tam bém haviam m orrido.

Testículos eu não tinha m ais. O m édico m e assegurara que a única deficiência que eu sofreria por isso era a esterilidade. A m inha potência sexual não seria afetada pela ablação testicular.

Por m otivos psicológicos ele m e aconselhava a fazer um a prótese, com a im plantação de testículos de vinil, “com o peso e form ato idênticos aos verdadeiros”.

“Com o é que vão saber qual o peso e o form ato dos verdadeiros?”

“A gente calcula, não é difícil”, ele disse.

Eu não acreditava em nada do que o m édico dizia. Tam bém não estava disposto a aceitar a sua sugestão de consultar um psicólogo, analista ou lá o que fosse.

Fiquei poucos dias no hospital. Logo que pude fui para casa.

Mas não para a m inha, para a de Minolta, em Iguaba.

“Você está diferente, m as acho bom a gente sum ir uns tem pos.”

A casa tinha televisão, m as eu evitava ver os telej ornais. Não queria tom ar conhecim ento do Caso Delam are. Minolta, porém , sem pre m e contava algum a coisa do que assistira na TV. Em resum o:

O m ilionário Eugênio Delam are contratara o assassino profissional Agenor da Silva, da quadrilha de bandidos que controlava os presídios do Rio de Janeiro, conhecida com o Facção Jacaré, para m atar sua esposa Delfina Delam are, pois descobrira que ela era am ante do escritor Gustavo Flávio. Agenor da Silva fora detido pela polícia, após com eter o crim e. Mas conseguira fugir, m isteriosam ente. Outros pistoleiros da Facção Jacaré, Pedro de Alcântara, vulgo Chanfra, e Jorge Luís, vulgo Chum bo Grosso, assassinaram Agenor, num a típica queim a de arquivo, para evitar que ele viesse a acusar Eugênio Delam are com o m andante do assassinato da esposa. O m ilionário Delam are queria tam bém vingar-se do am ante de sua m ulher. Chanfra e Chum bo Grosso, a seu serviço, seqüestraram o escritor Gustavo Flávio, para m atá-lo após subm etê-lo a sevícias. O inspetor Guedes e dois auxiliares invadiram a residência do m ilionário no m om ento em que o escritor era torturado. No tiroteio entre a polícia e os bandidos, m orreram Delam are, Chum bo Grosso, Chanfra e o m otorista do m ilionário, Matinho, que tam bém torturava o escritor. Ficaram feridos e faleceram ao dar entrada no hospital os dois policiais que acom panhavam Guedes. A participação de Guedes está sendo investigada pela Justiça. Consta que Guedes teria estado com o m ilionário antes da fuga de Agenor e que Delam are teria subornado o policial, para facilitar a fuga do pistoleiro, perm itindo a sua m orte em seguida. A chacina com andada por Guedes na casa do m ilionário seria um a form a do policial elim inar todas as pessoas que poderiam incrim iná-lo, denunciando sua participação crim inosa no intrincado caso. O policial havia sido suspenso das suas funções, enquanto era instaurado inquérito contra ele.

“Um a verdade que é contada pela m etade é pior do que qualquer m entira que se possa inventar” (Ver Blake*), eu disse.

“Eles descreveram as tais sevícias que sofri?”

(*) Blake não disse exatam ente isso. Disse: A truth that’s told with bad intent/

Beats all the lies y ou can invent.

Minolta titubeou.

“Mais ou m enos. Sabe de um a coisa: eu acho que isso tudo vai aj udar a vender os teus livros.”

“O quê? Alguém com prar o livro do escritor só porque ele foi castrado?”

Minolta ficou calada.

“Quem deve estar feliz é Zilda.”

“Eu não havia pensado nela”, disse Minolta. “Mas não há perigo. Você está m uito diferente.”

“Estou com pena do Guedes.”

“Do tira? O cara te perseguiu daquela m aneira e você tem pena dele?”

Ficam os algum tem po calados.

“Será que o m eu pau vai voltar a ficar duro?”

Minolta sentou-se ao m eu lado e puxou a m inha cabeça de encontro ao seu om bro. Afastei-a de m im .

“De que adianta continuar vivendo se o pau da gente não fica m ais duro?”

“Existem outras coisas im portantes”, disse Minolta.

“Está vendo?”, eu disse desanim ado, “você tam bém acha que eu m e tornei um eunuco.”

“Deixa de ser bobo.”

“Nós hom ens não podem os dar outra coisa ao m undo senão um pênis duro. Mas vocês m ulheres criaram tudo, o fogo, a roda, a cerâm ica, a agricultura, a cidade, o m useu, a astronom ia, a m oda, a culinária, o prazer, a arte (ver Mum ford). A única coisa que os hom ens têm é o pau duro. E nem isso eu tenho m ais.”

“Deixa de dizer besteira”, disse Minolta.

Fom os deitar e eu fingi que dorm ia. Mas não consegui enganar Minolta.

“Ivan? Você está acordado?”

“Estou.”

“Quer falar sobre as m ulheres?”

“Não posso.”

“Eu sinto que você quer m e dizer algum a coisa. Sinto que você está escondendo algum a coisa de m im . Tenho sofrido m uito com isso.”

Fiquei calado. A noite foi passando e nós dois ficam os acordados sem falar um com outro.

O dia com eçou a raiar.

“Eu vou falar m as você não m e interrom pe. Está bem ?”

“Está bem ”, disse Minolta.

“Não diga um a palavra enquanto eu estiver falando.”

“Não direi.”

8

Norm alm ente eu m e encontrava com Delfina no m eu apartam ento, j á lhe contei isso, à um a hora da tarde. Eugênio ainda não chegara da viagem que haviam feito j untos, a tal viagem à Europa. Ela viera na frente para aproveitar a liberdade e disse que queria ir assistir ao ensaio da m inha peça, que com eçava às onze horas da noite. Nós nunca saíam os à noite quando o m arido estava no Brasil. Fom os. É engraçado, ver os atores se atirando de cabeça nas intenções que descobrem nos m eus diálogos. Naquele dia a coisa m elhor era um a das atrizes, m uito j ovem . Quando cheguei, não lhe dei a m enor im portância. Mas, aos poucos, com ecei a prestar atenção às pernas dela, aos m ovim entos do seu corpo sob as luzes fortes dos refletores. Lem bro-m e de que fiz para Delfina um a reflexão idiota sobre o m ovim ento, algo assim : os rios são m ais bonitos do que as m ontanhas porque se m ovim entam , e os cavalos m ais bonitos do que os rios porque se m ovim entam para onde querem , e os hom ens, quer dizer, as m ulheres, m ais bonitas do que os cavalos porque inventam m ovim entos. Algo assim , inspirado pela m oça. Pensei que seria bom eu m e apaixonar por ela. Creio que Delfina percebeu isso. Do ensaio fom os para o m eu apartam ento. Já deitados, percebi que não estava entusiasm ado por Delfina, com o sem pre. Ela perguntou, para m e excitar, com qual das am igas dela eu gostaria de ir para a cam a. Denise, eu respondi, e ela perguntou se eu iria fazer com Denise o que fazia com ela.

“Delfina, inesperadam ente, com entou que a sua avó dizia que na sexta-feira da Paixão, antigam ente, quando a avó ainda era j ovem , os cinem as só exibiam a vida de Cristo e as estações de rádio — não havia ainda televisão — só transm itiam m úsica clássica, de preferência m archas fúnebres. Depois acrescentou que não estava se sentindo m uito bem , que no dia seguinte ia ao m édico, o doutor Baran, saber o resultado de alguns exam es que fizera antes de viaj ar.

“O doutor Baran disse que ela estava com um câncer incurável e que tinha poucos m eses de vida. Você pode im aginar o horror dessa situação, alguém receber notícia de que sofre de um a doença horrível. Hoj e vej o que existem coisas piores.

“Ela saiu do consultório do doutor Baran e foi ao m eu apartam ento. Disse, aparentando calm a e até um certo sangue frio, que estava com leucem ia. Ao vê-la tão controlada, fiquei pasm o. Nunca pensei que ela tivesse tanta coragem .

“ ‘A Morte escolheu para m im um a m aneira suj a, dolorosa e hum ilhante de dizer adeus’, disse Delfina com um sorriso triste.

Mas ela queria se despedir do seu m odo e não com o a Morte havia decidido. Agora falava da Morte com o se fosse um a pessoa conhecida. Deve estar pensando em se m atar tom ando barbitúricos, pensei. De fato, Delfina havia im aginado acabar com a vida assim e passara a noite com um frasco cheio de com prim idos na cabeceira da cam a. ‘Lem bra-se do seu livro Trápola? Aquela m ulher que se suicida com um tiro no coração, com um revólver calibre 22? Você diz que a m orte dela foi instantânea, que ela nada sofreu, nem m esm o se suj ou de sangue’, disse Delfina. Expliquei que aquilo era um rom ance, que eu não sabia se a pessoa sofria ou não, se suj ava a roupa ou não, et cetera. Discutim os um longo tem po até que acabei concordando com ela. Se alguém quisesse se m atar, um tiro bem no coração seria a m aneira m ais rápida e m ais lim pa. Mas se ela não tinha coragem de se m atar engolindo alguns com prim idos tam bém não teria apertando o gatilho de um revólver. ‘Quem vai apertar o gatilho é você, com o se fosse eu’, disse Delfina. ‘Não m e peça isso, supliquei, pelo am or de Deus, não m e peça um a coisa dessas!’

Mas ela insistiu e quanto m ais desesperado eu ficava, m ais calm a e racional Delfina se m antinha. Passam os o dia inteiro discutindo aquilo. Várias vezes tive vontade de fugir, deixá-la sozinha no m eu apartam ento, desaparecer correndo pelas ruas e houve até m esm o um m om ento, pouco antes de Delfina afinal m e convencer, que senti vontade de m orrer para escapar da tortura m ental a que ela m e subm etia. Colocou na m inha m ão o revólver niquelado — não sei onde ela o arranj ou — que eu larguei no chão, com repulsa e m edo. Mas, na verdade, eu j á estava então convencido de que m atá-la seria um gesto de bondade da m inha parte, até m esm o de arrependim ento e generosidade. A idéia do carro foi dela m esm a.

Delfina escolheu o carro porque não incrim inaria ninguém e tam bém porque o corpo seria encontrado logo. A rua foi sugestão m inha, sabia que era sem saída e por isso não tinha m ovim ento.

Um a vez m e perdera ali tentando encontrar um a casa no Jardim Botânico.

“Era m eia-noite quando chegam os à rua Diam antina.

Queríam os que a rua estivesse deserta, com o estava. Delfina perguntou se havia um a m aneira de não estragar a blusa dela, não queria aparecer descom posta para quem a encontrasse. Abri os botões da sua blusa de seda e a carne rosada do seu peito surgiu, ilum inada fracam ente pela luz do poste da rua. Ela passou a m ão no m eu rosto e enxugou as m inhas lágrim as. ‘Eu te am o, m uito obrigada’, ela disse. Tentei ver os seus olhos, se ainda existia neles algum calor e paixão, a m esm a cham a resistente que havia nas pupilas de Bufo, m as Delfina, num gesto de recato e despedida, fechou as pálpebras. Eu pretendia fazê-la em punhar a arm a e apertar o seu dedo sobre a tecla do gatilho, qualquer escritor de livros policiais sabe que ficam m arcas de pólvora na m ão dos suicidas com arm a de fogo. Mas quando ela m e disse, tão generosam ente, querendo apaziguar m inha alm a, que m e am ava, eu só pensei em acabar depressa com o sofrim ento dela. Atirei no seu infeliz coração no exato m om ento em que ela sorriu para m im .

Com o no m eu livro, não saiu sangue do ferim ento e a sua blusa, que abotoei cuidadosam ente, ficou lim pa. O sorriso dela se desfez, m as no seu rosto de olhos fechados pude ver que Delfina não sofrera e que estava alegre, acho até que feliz, no seu últim o instante de lucidez, de vida. Foi isso o que aconteceu. Essa é a verdade. Não m e olhe assim , não posso fazê-la voltar a viver, para m orrer de câncer. Não m e cham e de dem ônio astucioso. Se você quiser eu vou agora m esm o contar tudo ao Guedes, vou m e entregar à polícia. A vida para m im j á não vale m ais nada. Você quer? Anda, diga.”

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SCHWARCZ EM MAIO DE 1995.

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Rubem Fonseca

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