Bufo & Spallanzani
Orelhas do Livro
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
Além de seu enorm e sucesso j unto ao público, o terceiro rom ance de Rubem Fonseca foi consagrado tanto pela crítica brasileira quanto pela estrangeira:
“Sej a pelo lado m oral, sej a pelo do suspense, Bufo & Spallanzani é fascinante.”
Vej a
“Neste rom ance, Rubem Fonseca faz do leitor um cúm plice de seus próprios prazeres.”
IstoÉ
“Rom ance de carpintaria perfeita, Rubem Fonseca investe na tram a do m istério policial para dar espaço a um texto vigoroso, repleto de um hum or sutilm ente corrosivo, bem com o do recurso à paródia e à am bigüidade tem ática, sem pre revelando a escrita m aior do autor de O cobrador e Feliz ano novo.”
Nelson dos Reis, Folha de S. Paulo
“A voz de Rubem Fonseca, em Bufo & Spallanzani, é rica em ironia, hum or sutil e inteligência.”
Publisher’s Weekly
“O hom icídio fez progressos depois de Ray m ond Chandler.
Rubem Fonseca escreveu um rom ance no qual m ata segundo as convenções do gênero para, em seguida, rir-se delas.”
Jean François Fogel, Le Point
“O rom ance Bufo & Spallanzani, de Rubem Fonseca, foi um a sensação na Europa e tem todo o direito de ser um a sensação nos Estados Unidos [...]. É um livro inteligente, de leitura extrem am ente divertida. [O tradutor] conseguiu reproduzir toda a ousadia, o lirism o e a ironia do autor, assim com o seu ritm o rápido e suas fascinantes especulações...”
Alan Ry an, The Washington Post
“Um a narrativa m uito bem estruturada confirm a o dom ínio técnico, a sagacidade e o talento de Rubem Fonseca. Bufo & Spallanzani é um a obra eloqüente, excitante, repleta de significados.’’
Rolando Cam ozzi, ABC
Rubem Fonseca é rom ancista, contista e roteirista de
cinem a. Já publicou: Os prisioneiros (contos, 1963), A coleira do cão (contos, 1965), Lúcia McCartney (contos, 1967), O hom em de fevereiro ou m arço (antologia, 1973), O caso Morel (rom ance, 1973), Feliz ano novo (contos, 1975), O cobrador (contos, 1979), A grande arte (rom ance, 1983), Vastas em oções e pensam entos im perfeitos (rom ance, 1988) e Agosto (rom ance, 1990).
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I
FOUTRE TON ENCRIER
1
“Você fez de m im um sátiro (e um glutão), por isso gostaria de perm anecer agarrado às suas costas, com o Bufo, e, com o ele, poderia ter a m inha perna carbonizada sem perder esta obsessão.
Mas você, agora que está saciada, quer que eu volte a falar de m adam e X. Muito bem , j á chego lá. Mas antes quero lhe contar um sonho que tenho tido ultim am ente.
“Neste pesadelo Tolstoi m e aparece todo vestido de preto, suas longas barbas brancas desalinhadas, dizendo em russo,
‘para escrever Guerra e paz fiz este gesto duzentas m il vezes’; ele estende a m ão descarnada e branca com o a cera de um a vela, que não sai inteira da com prida m anga do paletó, e faz o m ovim ento de m olhar um a pena num tinteiro. À m inha frente, sobre um a m esa, estão um tinteiro de m etal brilhante, um a pena com prida, provavelm ente de ganso e um a resm a de papel. ‘Anda’, diz Tolstoi,
‘agora é a tua vez.’ Perpassa por m im um a sensação aterradora, a certeza de que não conseguirei estender a m ão centenas de m ilhares de vezes para m olhar aquela pena no tinteiro e encher as páginas vazias de letras e palavras e frases e parágrafos. Então m e vem a convicção de que m orrerei antes de realizar esse esforço sobre-hum ano. Acordo aflito e infeliz e fico sem dorm ir o resto da noite. Com o você sabe, não consigo escrever à m ão, com o deveriam escrever todos os escritores, segundo o idiota do Nabokov.
“Você m e perguntava com o posso ser tão prolífico gastando tanto tem po com as m ulheres. Olha, nunca entendi Flaubert ao dizer ‘reserve ton priapism e pour le sty le, foutre ton encrier, calm etoi sur la viande... une once de sperm e perdue fatigue plus que trois litres de sang’. Não fodo m eu tinteiro, porém , em com pensação, não tenho vida social, não atendo telefone, não respondo cartas, só revej o o m eu texto um a vez, quando revej o.
Sim enon tem , ou tinha, tantas am antes quanto eu, talvez m ais, e escreveu um a quantidade enorm e de livros. Sim , é verdade, não gasto apenas tem po — e esperm a, vá lá — com as m ulheres, gasto tam bém dinheiro, pois sou, com o você, um a pessoa generosa. A necessidade de dinheiro, aliás, é um a grande incentivadora das artes.
“Posso confessar um a coisa? De repente m e deu um sono danado e se não lhe aborrece vou dorm ir um pouquinho. Não, não vou sonhar com Tolstoi, não m e rogue essa praga. Sabe o que o russo disse, depois de m olhar a pena tantas vezes no tinteiro? ‘A difusão de m aterial im presso é a m ais poderosa arm a da ignorância.’ Muito engraçado.
“Quer ver o retrato de m adam e X? Nós com binam os que eu sem pre lhe contaria tudo com a m aior franqueza, m as não lhe diria nom es, nem m ostraria retratos, nem deixaria você ler as cartas. Com m adam e X não foi diferente do que aconteceu com as outras: apaixonei-m e por ela no instante em que a vi, e isso não deixa de ser culpa sua, j á que foi você quem m e despertou para o am or. Ela não era um a m ulher opulenta, m as seu corpo tinha um grande esplendor; pernas, nádegas e seios eram perfeitos. Seu cabelo, naquele dia, estava preso num coque atrás da cabeça, deixando o rosto e o pescoço aparecerem em toda a sua brancura.
Movia-se com elegância e m agnetism o pelo salão em que eu, estarrecido, a contem plava. Era um vernissage e o pintor, dono da festa, paparicava-a de m aneira servil. Eu acabara de publicar Morte e esporte: agonia com o essência, atacando a glorificação do esporte com petitivo, essa form a de preservação institucionalizada dos im pulsos destrutivos do hom em , ritual obsceno e belicista, abom inável m etáfora da corrida arm am entista e da violência entre povos e indivíduos. Há coisa m ais grotesca do que esses construtos horm onais fabricados nos laboratórios esportivos, as anãs sim iescas das barras assim étricas, os gigantes, de am bos os sexos, de constituição bovina e olhar abestalhado atirando pesos e m artelos para o ar? Está bem , está bem , voltem os a m adam e X.
“Ela sentou-se para assistir a um a exibição de slides, encostou as costas retas no espaldar da cadeira e cruzou as pernas deixando os j oelhos aparecerem . Usava um vestido de seda e o tecido fino delineava a form a atraente de suas coxas. Tive vontade de m e aj oelhar aos seus pés (ver M. Mendes) m as achei m elhor um a abordagem convencional. Os slides eram todos de quadros de Chagall. ‘Você gosta de Chagall?’, perguntei na prim eira oportunidade. Ela respondeu que sim . ‘Essa gente toda voando’, eu disse e ela respondeu que Chagall era um artista que acreditava acim a de tudo no am or. Na m ão esquerda dela, no dedo anelar, havia um anel de brilhantes. Devia ter uns trinta anos de idade e uns cinco de casada, que é quando as m ulheres com eçam a perceber que o casam ento é um a coisa opressiva, doentia m esm o, iníqua e estiolante; além das privações sexuais que passam a sofrer, pois os m aridos j á se cansaram delas. Um a m ulher dessas é presa fácil, o sonho rom ântico acabou, restou a desilusão, o tédio, a perturbação m oral, a vulnerabilidade. Então aparece um libertino com o eu e seduz a pobre m ulher. Ali estava um a pessoa que acreditava no am or. ‘Que nul ne m eure qu’il n’ait aim é’ (ver Saint-John Perse), eu disse. O francês pode ser um a língua m orta, m as é linda e funciona m uito bem com as burguesas. ‘Infelizm ente o m undo não é com o os poetas querem ’, disse ela. Convidei-a para j antar, ela hesitou e acabou aceitando alm oçar com igo. Era a prim eira vez que ia a um restaurante com um hom em que não fosse o m arido.
“O m arido era um hom em de m uitas posses e prestígio social. O casam ento deles, com o disse, chegara àquele ponto em que a rotina criara o tédio e o tédio a apatia e a apatia a ansiedade, depois a incom preensão, a aversão, e por aí afora. Ela tentou reverter esse processo viaj ando com o m arido à Índia, à China, cada vez indo m ais longe, com o se os problem as não os acom panhassem . Fez o m arido com prar um a fazenda perto (a outra, que possuíam , era em Mato Grosso), deu m am adeira para os cabritinhos um as três vezes e depois não achou m ais graça naquilo. Tentou ter filhos, m as era estéril; dedicou-se à beneficência, entrando para a diretoria de um a associação destinada a recuperar prostitutas e m endigos.
“No prim eiro dia em que alm oçam os j untos ela praticam ente nada com eu. Bebeu um a taça de vinho. Falam os de livros e ela disse que não gostava de literatura brasileira e adm itiu candidam ente que não havia lido nenhum dos m eus livros, o que destrói a sua teoria, m inha querida, de que ela estava deslum brada pelo escritor. Perguntei qual era o autor da sua preferência e ela citou o Moravia. Lera La vita interiore e L’am ante infelice, no original, fez questão de dizer. Ter m encionado Moravia deu-m e a oportunidade que esperava de falar de sexo. Disse a ela que eu encarava o sexo, na vida e na literatura, da m esm a m aneira que o Moravia, isto é, algo que não deve ser pervertido pela m etáfora, m esm o porque nada há que se lhe assem elhe ou lhe sej a análogo. Desenvolvi este raciocínio astuto que desem bocou naturalm ente no cam po das considerações de ordem pessoal. Os velhos e sovados tem as da liberdade sexual, da paixão sem possessão, do hedonism o, do direito ao prazer foram espertam ente abordados por m im . Eram cinco horas da tarde e continuávam os no restaurante, am bos falando m uito, sem parar, creio que não houve um único segundo de silêncio entre nós.
Lem bro-m e de que, em certo m om ento, ela m e perguntou qual a diferença entre o sexo praticado por duas pessoas que se am avam e o realizado por duas pessoas que apenas se desej avam .
Respondi: ‘confiança, as pessoas que se am am sabem que podem confiar no outro’. Para um a m ulher casada, que contem pla pela prim eira vez a possibilidade de ter um a aventura am orosa, não existe frase m ais instigante e tranqüilizadora.
“Nosso prim eiro encontro no m eu apartam ento, foi um a coisa dantesca. Eu estava louco de desej o e ela m e olhava com os olhos arregalados, pasm a e ofegante. Tive que tirar sua roupa e colocá-la nua na cam a suntuosa, os cabelos negros e a pele branca luzindo, quando então aconteceu essa coisa form idanda: o m eu pênis ficou inerte, encolheu. Desgraça m aior não pode acontecer a um hom em . Com ecei a suar em pânico, beij ando-a, acariciando-a de m aneira agoniada que só fazia aum entar a m inha im potência. Ela tentou m e aj udar, m as tam bém ficou nervosa e estava assustada, pois pensava, com o m e disse depois, que havia alguém escondido em baixo da cam a. Levantou-se e foi para o banheiro. Fiquei na cam a m anuseando o m eu pau desesperadam ente, inutilm ente, um longo tem po, até que com ecei a chorar. Im agine um hom em gordo e nu chorando num a cam a, tentando fazer o seu pau levantar. Afinal lim pei os olhos, enfiei-m e num robe e fui ver o que ela fazia dentro do banheiro.
“Estava sentada na tam pa do vaso sanitário, pernas cruzadas, desconsolada, olhando as unhas, m eio acorcundada, até um a barriguinha adiposa surgira no seu ventre im poluto; a m aquiagem em torno dos olhos derretera, e ela m e fitou com um olhar patético. Liguei o gás do aquecedor, talvez pensasse que um banho nos purificaria, nos fizesse esquecer aquele horror, voltasse a encher o m eu pênis de sangue. Subitam ente o aquecedor explodiu (ver Fonseca). Atirei-m e sobre ela para protegê-la, caím os ao chão e naquele inferno de fogo e fum aça nossos corpos se conciliaram num a cópula excelsa e delirante. Só à noite percebi que o m eu corpo estava em polado de queim aduras da explosão.
Creio que foi nesse dia que m e decidi, ao com provar a superioridade do tesão sobre a dor, a escrever Bufo & Spallanzani.
Mesm o com o corpo lam buzado de picrato de butesin, largando pele nos lençóis, passei a m e encontrar com ela todos os dias, m ais potente do que Maupassant e Sim enon j untos.
“Diariam ente, por volta de um a hora da tarde, ela chegava à m inha casa, depois de passar na academ ia de ginástica, onde fazia exercícios. Enquanto não chegava eu cam inhava ansioso de um lado para o outro, sentindo com os dedos a ereção do m eu pênis, falando sozinho. Quando ela surgia eu agarrava seu corpo com fervor dem ente e fodia-a em pé, no hall, sem que ela tivesse tirado a roupa, enfiando m eu pau pela perna da sua calcinha enquanto a levantava segurando-a pela bunda, esm agando-a na parede. Depois eu a levava para a cam a e passávam os a tarde fodendo. Até então ela nunca tivera um orgasm o em sua vida. Nos intervalos eu lia poesia para ela, que gostava particularm ente de um poem a de Baudelaire que fala de um m inete, ‘la très-chère était nue, et, connaissant m on coeur’. Eu sem pre lia poesia para ela quando acabávam os de foder, exatam ente com o faço com você, m eu am or. Agora, deixe-m e dorm ir.”
2
Guedes, um policial adepto do Princípio da Singeleza, de Ferguson — se existem duas ou m ais teorias para explicar um m istério, a m ais sim ples é a verdadeira* —, j am ais supôs que um dia iria encontrar a socialite Delfina Delam are. Ela, por sua vez, nunca havia visto um policial em carne e osso. O tira, com o todo m undo, sabia quem era Delfina Delam are, a Cinderela órfã que se casara com o m ilionário Eugênio Delam are, colecionador de obras de arte, cam peão olím pico de equitação pelo Brasil, o bachelor m ais disputado do hem isfério sul. Os j ornais e revistas deram um grande destaque ao casam ento da m oça pobre que nunca saíra de casa, onde tom ava conta de um a avó doente, com o príncipe encantado; e desde então o casal j am ais deixou de ser notícia.
(*) Baseado no Princípio da Parcim ônia (ver W. Ockham ): non sunt m ultiplicanda entia praeter necessitatem , tam bém conhecido com o Ockham ’s razor.
Houve um tem po em que os tiras usavam paletó, gravata e chapéu, m as isso foi antes de Guedes entrar para a polícia. Ele possuía apenas um terno velho, que nunca usava e que, de tão antigo, j á entrara e saíra de m oda diversas vezes. Costum ava vestir um blusão sobre a cam isa esporte, a fim de esconder o revólver, um Colt Cobra 38, que usava sob o sovaco. O Cobra era o seu singelo luxo e a única infração aos regulam entos que o Guedes com etia. O Taurus 38 que o Departam ento fornecia era m uito pesado para ser carregado de um lado para o outro. Ele havia pensado em engavetar o Taurus m as um dia estava num ônibus quando um assaltante arrancou o cordão de ouro de um a passageira enquanto outro, arm ado, am eaçava os passageiros em volta. Guedes tivera de intervir atirando no assaltante arm ado, sem feri-lo com gravidade porém . (Ele se orgulhava de nunca ter m atado ninguém .) O Taurus continuou debaixo do braço até que ele com prou, do delegado Raul, da Hom icídios, o Cobra, fabricado nos anos 50 m as em excelente estado, um a arm a m ais leve, feita de um a liga especial de aço e m olibdênio; suas raias não eram m uito resistentes, m as para Guedes isso não tinha im portância, ele esperava usar o revólver o m enos possível.
Delfina Delam are nem sem pre acom panhava o m arido nas suas viagens. Na verdade ela não gostava m uito de viaj ar. Os navios estavam sem pre cheios de velhos aposentados e m ulheres feias, eram lugares falsam ente elegantes em que a dem ora da viagem fazia aparecer a vulgaridade incôm oda das pessoas. Os aviões tinham a vantagem de serem m ais rápidos, m as produziam um a proxim idade claustrofóbica e prom íscua com dorm inhocos gordos sem sapatos caindo em cim a de você, m esm o na prim eira classe. Enfim , viaj ar tinha sido sem pre um a experiência desagradável. Ela preferia ficar no Rio, trabalhando em suas obras filantrópicas.
O encontro entre Delfina e Guedes deu-se num a das poucas circunstâncias possíveis de ocorrer. Foi na rua, é claro, m as de m aneira im prevista, para um e outro. Delfina estava no seu Mercedes, na rua Diam antina, um a rua sem saída no alto do Jardim Botânico. Quando chegou ao local do encontro Guedes j á sabia que Delfina não estava dorm indo, com o chegaram a supor as pessoas que a encontraram , devido à tranqüilidade do seu rosto e à postura confortável do corpo no assento do carro.
Guedes, porém , havia tom ado conhecim ento, ainda na delegacia, do ferim ento letal oculto pela blusa de seda que Delfina vestia.
O local j á havia sido isolado pelos policiais. A rua Diam antina tinha árvores dos dois lados e, naquela hora da m anhã, o sol varava a copa das árvores e refletia na capota am arelo-m etálico do carro, fazendo-a brilhar com o se fosse de ouro. Guedes acom panhou atentam ente o trabalho dos peritos do Instituto de Crim inalística. Havia poucas im pressões digitais no carro, colhidas cuidadosam ente pelos peritos da polícia. Foram feitas várias fotos de Delfina, alguns closes da m ão direita que segurava um revólver niquelado calibre 22. No pulso da m ão esquerda, um relógio de ouro. Dentro da bolsa, sobre o banco do carro, havia um talão de cheques, vários cartões de crédito, obj etos de m aquiagem num pequeno estoj o, um vidro de perfum e francês, um lenço de cam braia, um a receita em papel tim brado do m édico Pedro Baran (hem atologia, oncologia) e um aviso do correio do Leblon para Delfina Delam are apanhar correspondência registrada. Esses dois docum entos Guedes colocou no bolso.
Havia no porta-luvas, além dos docum entos do carro, um livro, Os am antes, de Gustavo Flávio, com a dedicatória “Para Delfina que sabe que a poesia é um a ciência tão exata quanto a geom etria, G.
F.”. A dedicatória não tinha data e fora escrita com um a caneta de ponta m acia e tinta preta. Guedes colocou o livro debaixo do braço. Esperou a perícia term inar o seu lento trabalho no local; aguardou o rabecão chegar e levar o corpo da m orta num a caixa de m etal am assada e suj a para ser autopsiado no Instituto Médico Legal. Delfina recebeu dos hom ens do rabecão o m esm o tratam ento dos m endigos que caem m ortos nas sarj etas.
A atividade policial, para Guedes, consistia na apuração das infrações penais e da sua autoria. Apurar a infração penal, conform e o Código de Processo Penal, significava pesquisar o fato infringente da lei. Não cabia a ele, policial, nenhum j ulgam ento de valor acerca da ilicitude do fato, m as apenas a colheita de provas, de sua m aterialidade e autoria e todas as providências para acautelar os vestígios deixados pela infração. Delfina Delam are podia ter sido assassinada ou com etido suicídio. Na segunda hipótese, a m enos que alguém pudesse ser indiciado por instigação, induzim ento ou auxílio ao suicídio, não havia crim e a ser apurado. Suicídio não era crim e; as discussões filosóficas sobre o direito de m orrer — contra e a favor — eram , para Guedes, apenas um exercício acadêm ico. Era inútil am eaçar o suicida com qualquer pena. Antigam ente suicidas tinham a m ão direita cortada, eram em palados, eram arrastados pela rua com o rosto voltado para o chão, eram privados de honras fúnebres; se fossem nobres eram declarados plebeus, degradados, quebravam -se seus escudos, dem oliam -se seus castelos. Nada disso tivera algum poder dissuasório. Nem m esm o as am eaças com o fogo dos infernos valiam m uita coisa. Deixem os dona Delfina em paz, pensou Guedes. O perito perguntara por que um a m ulher rica e bonita (e certam ente saudável pois ninguém tinha aquela beleza sem possuir m uita saúde) havia abdicado da própria vida? “Por que não?”, respondera Guedes. Ele era policial há m uito tem po e acreditava que querer viver era tão estranho quanto querer m orrer.
Mesm o não tendo dúvidas de que se tratava de um suicídio, Guedes fez todas as investigações que faria se fosse um hom icídio.
A rua Diam antina era um a rua pequena, com poucos prédios de apartam entos e apenas duas casas. Guedes visitou os edifícios e as casas para saber se alguém tinha algum a inform ação sobre o caso. A dificuldade nesse tipo de trabalho é saber com o conter os loquazes e estim ular os lacônicos. Norm alm ente as pessoas que m enos sabem são as que m ais falam . Mas ninguém havia visto ou ouvido coisa algum a. Um estam pido de 22 dentro de um carro com os vidros com pletam ente cerrados não fazia m esm o m uito barulho.
O tira com eu um sanduíche num a esquina da rua Voluntários da Pátria, onde ficava o prédio do consultório do doutor Pedro Baran. Antes havia passado num a livraria e olhara no Aurélio o significado do vocábulo oncologia.
“Sim ”, disse Baran depois que Guedes relatou a m orte de Delfina e sua suspeita de que ela havia se m atado, “ela era m inha cliente e não m e surpreendo com o suicídio.”
Baran apanhou um a ficha à sua frente, sobre a m esa.
“Ela veio pela prim eira vez ao m eu consultório por indicação do clínico que a atendia, o doutor Askanasi. Queixava-se de suores noturnos, nervosism o, perda de peso e de apetite. Dona Delfina atribuía esses sintom as a preocupações com um a viagem que iria fazer. Ela odiava viaj ar, segundo m e disse, e os sintom as para ela seriam apenas um a reação psicossom ática. Estava enganada. Os pacientes sem pre se enganam quando fazem autodiagnósticos. Colhi sangue e m andei que ela voltasse dois dias depois. Mas ela foi viaj ar e só apareceu três m eses m ais tarde, alguns dias atrás. Mostrei-lhe o resultado do exam e, esse que você tem nas m ãos: presença de m ieloblastos que perm itiam um único diagnóstico. Ela sofria de leucem ia, um a doença fulm inante, por enquanto ainda incurável, de tratam ento paliativo extenuante e doloroso. Eu lhe disse que achava que ela tinha poucos m eses de vida, m as aconselhei-a a obter um a outra opinião m édica.”
“Com o foi que ela reagiu?”
“Muito bem . Ela queria saber a verdade. De qualquer m aneira eu não tinha outra pessoa a quem fazer essa revelação, ela estava se separando do m arido, que ainda não voltara da viagem que haviam feito j untos, não tinha filhos nem parentes.
Sou a favor do m édico dizer a verdade ao cliente, por pior que sej a.”
“Ela reagiu m uito bem , diz o senhor”, disse Guedes.
“Sei o que o senhor está pensando”, disse Baran, “saber a verdade a teria levado a procurar a m orte pelas próprias m ãos, m as para algum as pessoas isso é um a form a de consolo, de reação contra a crueldade do destino.”
Do consultório de Baran o tira foi ao Instituto Médico Legal.
A autópsia ainda não havia sido feita. Nas últim as vinte e quatro horas um núm ero m uito grande de vítim as de hom icídios e acidentes autom obilísticos dera entrada no necrotério. Delfina Delam are, talvez pela prim eira vez na vida, esperava a vez de ser atendida.
Estou
relatando
incidentes
que
não
presenciei
e
desvendando sentim entos que podem até ser teoricam ente secretos m as que são tam bém tão óbvios que qualquer pessoa poderia im aginá-los sem precisar dispor da visão onisciente do ficcionista. A m ente do tira era um a coisa difícil de penetrar, reconheço. Quanto a Delfina Delam are, bem , quanto a Delfina Delam are...
“Eu telefonei para dizer que vinha, m as o seu telefone não atendia”, disse Guedes.
“Nunca atendo o telefone. Quando quero falar com alguém eu ligo.”
“O senhor conhece dona Delfina Delam are?”
Estávam os no m eu escritório, eu e o tira, um grande salão de paredes totalm ente cobertas de livros. Não respondi logo.
Estava vendo se descobria que tipo de pessoa era o policial à m inha frente. A prim eira im pressão era de ser um daqueles suj eitos que de tanto com er e beber em pé nos botequins ordinários, j unto com trabalhadores, vagabundos, prostitutas e pilantras, acaba se sentindo irm ão dessa ralé. O tira era bem m ais baixo e m agro do que eu e tinha poucos cabelos. Seus olhos eram am arelos, da cor daquele círculo que envolve a pupila negra das coruj as.
“Não m uito bem ”, eu disse afinal. “Estive um a ou duas vezes na casa dela, num a dessas festas de convidados balanceados, sabe com o é, gente de várias áreas, artes, negócios, política e m ulheres elegantes. Eu representava a literatura, o escritor da m oda servindo de enfeite. Norm alm ente essas festas m e irritam , m as estava escrevendo um rom ance sobre a avareza dos ricos.
Quando o suj eito tem m uito dinheiro ele quer ainda m ais dinheiro, m as não pelo que pode com prar com ele, o consum ism o é um cacoete da classe m édia para baixo. Não estou levando em consideração o novo-rico. O rico sofre de um m edo terrível: em pobrecer subitam ente. Por isso ele quer o dinheiro não para com prar coisas, m as para entesourar, acum ular. A tendência de todo rico é tornar-se um avarento. Essa era a tese.”
“Não pode ser o contrário: a tendência de todo avarento é tornar-se rico?”, perguntou Guedes.
“Já pensei nisso. Mas m eu personagem nasce rico, m uito rico e quando j ovem tem ideais, sonhos, escreve sonetos et cetera e m ais tarde torna-se apenas um sórdido acum ulador de dinheiro.
Mas você tem razão, essa relação de causa e efeito pode ser interperm utável. Mas voltando ao início de nossa conversa: qual o interesse da polícia em dona Delfina Delam are?”
“Ela apareceu m orta hoj e de m anhã, no carro dela.
Acreditam os que tenha sido suicídio.”
“Não é possível! Jam ais poderia supor que isso acontecesse.”
Guedes descreveu a visita que fizera ao doutor Baran e a conversa que haviam tido.
“Não sabia que ela estava doente”, eu disse. “Ela não parecia doente.”
“Havia um livro seu no porta-luvas do carro.”
“Livro m eu? Qual? Não sei se sabe, escrevi dezenas de livros.”
“Os am antes.”
“Ah, Os am antes...”
“Com um a dedicatória sua. Para Delfina que sabe que a poesia é um a ciência tão exata quanto a geom etria.”
“É um a frase do Flaubert. Que estava enganado, felizm ente.
Ele não conhecia, surgiu depois, a Filosofia da Dubitabilidade (ver Lakatos): não existem ciências exatas, nem m esm o a m atem ática, livres de am bigüidades, de erros, de negligências. O valor da poesia está no seu paradoxo, o que a poesia diz é aquilo que não é dito. Eu devia ter escrito, ‘para Delfina que sabe que a poesia é aquilo que não é’. Na verdade um a dedicatória não quer dizer m uita coisa, nós nunca sabem os o que dizer na hora de fazer um a dedicatória, principalm ente quando querem os m ostrar inteligência ou profundidade.”
“Qual foi a últim a vez em que o senhor esteve com dona Delfina?”
Dei um a gargalhada. “Sabe de um a coisa? Já escrevi alguns rom ances tendo policiais com o protagonistas, m as j am ais tive coragem de colocar na boca de um deles essa frase ‘qual foi a últim a vez’ et cetera. Sem pre achei que um policial nunca diria um a coisa dessas fora de um film e B ou de um a novela ordinária.”
“Qual foi a últim a vez em que o senhor esteve com dona Delfina?”
“Não m e lem bro bem da data. Foi num desses j antares com centenas de pessoas. Ela estava m uito bonita e elegante, com o sem pre. Não posso lhe adiantar m ais nada.”
“Com o sem pre? Mas o senhor só viu dona Delfina duas vezes...”
“Senhor inspetor, a cabeça de um escritor talvez sej a diferente das cabeças que o senhor está acostum ado a vasculhar.
Para um escritor a palavra escrita é a realidade. Li tantas vezes nas colunas sociais que Delfina Delam are estava bonita e elegante com o sem pre que não tive dúvidas em incorporar, com o se fosse um a percepção própria, esse clichê alheio. Nós escritores trabalham os bem com estereótipos verbais, a realidade só existe se houver um a palavra que a defina.”
“Por que dona Delfina tinha o seu livro no porta-luvas do carro? Algum a idéia?”
“Não. Nem creio que isso tenha im portância.”
“Para nós tudo é im portante.”
A calm a daquele tira com eçou a m e irritar.
“A polícia é sem pre tão m eticulosa assim ? O senhor disse não ter dúvidas de que dona Delfina se m atou. No entanto continua investigando, fazendo perguntas, querendo saber coisas.
Não será apenas curiosidade bisbilhoteira sobre a vida de um a m ulher fam osa? Faço essa pergunta sem nenhum intuito de provocação, tam bém tenho a m inha curiosidade de escritor. O
príncipe Andrew, filho da rainha Elizabeth da Inglaterra, disse num a entrevista que a profissão que ele gostaria de ter era a de detetive, m as não explicou por quê. Será porque o policial tem liberdade para poder satisfazer, sem lim ites, a sua curiosidade?
Algo vedado até aos príncipes? O senhor conhece a frase de Plauto
‘curiosus nem o est quin sit m alevolus’? Ninguém é curioso sem ser m aléfico.”
Guedes pareceu refletir sobre o que eu dissera.
“O senhor tem razão. Estou tom ando o seu tem po sem necessidade.”
“Vou viaj ar dentro de uns dias, para um lugar cham ado Refúgio do Pico do Gavião. Quero descansar um pouco antes de com eçar a escrever para valer o m eu novo livro Bufo & Spallanzani.”
Da m inha casa o tira foi à delegacia. Os laudos do exam e cadavérico e do exam e pericial ainda não estavam prontos; pensou em telefonar aos peritos pedindo que lhe adiantassem o resultado dos exam es, m as desistiu. Afinal não havia razão para tanta pressa. O caso j á estava resolvido.
Foi para casa de ônibus. No botequim com eu um sanduíche de bife à m ilanesa com um chope. Com eçou a ler Os am antes ali m esm o, em pé, enquanto com ia. Chegando em casa tirou os sapatos, o coldre com o Cobra, deitou-se no sofá e continuou lendo. Antes procurou no dicionário o significado da palavra bufo.
3
Guedes colocou Os am antes no chão, apagou a luz do abaj ur e dorm iu. Estava acostum ado a dorm ir vestido; m uitas vezes, nos plantões da delegacia, nem m esm o tirava os sapatos na hora de dorm ir. Seu sono, depois de tantos anos de noites m aldorm idas, era um estado sem iconsciente de alerta, de percepção em baciada do que ocorria à sua volta. Acordava cansado, m esm o quando dorm ia em sua cam a. E foi assim , fatigado, que acordou naquele dia, pouco depois das cinco horas, quando o dia ainda estava escuro. Tom ou banho, fez a barba, vestiu-se. Ferveu água e fez café instantâneo. Nunca sentia fom e de m anhã e o seu desj ej um não passava dessa xícara de café.
A rua Barata Ribeiro, onde m orava, estava vazia quando saiu. Dentro de poucas horas aquilo ficaria um inferno de buzinas e roncos de m otores. Certas m anhãs, quando sentia disposição para isso, ele ia andando de sua casa até à 14ª Delegacia, que ficava na rua Hum berto de Cam pos, esquina da Afrânio de Melo Franco, no Leblon, um a cam inhada de m ais de cinco quilôm etros.
Entrando pela Figueiredo de Magalhães foi para a avenida Copacabana. As loj as ainda estavam fechadas; m endigos, desem pregados, m oradores dos vãos das portas j á estavam se levantando e preparavam -se silenciosam ente para sair dos recantos onde dorm iam , antes que os porteiros e serventes com eçassem a lavar com m angueiras as calçadas de pedra portuguesa. Aquela rua horrenda ficava linda vazia de carros e de transeuntes. Guedes gostava de ruas vazias. Aos dom ingos costum ava ir ao centro da cidade para cam inhar pelas ruas desertas.
Ao chegar à rua Francisco Sá o policial seguiu à direita, na direção de Ipanem a. Na praça General Osório sentou-se num banco. Um velho curvado defecava ao lado de um a árvore. Guedes notou que da j anela de um apartam ento um a m ulher observava o velho com um a expressão de repugnância. Mais tarde ela vai trazer o seu cocker spaniel para cagar na praça, pensou o tira, e não quer m isturar as duas m erdas.
Da praça, Guedes cam inhou pela Visconde de Piraj á até ao Jardim de Alá, outro reduto de m endigos. À direita erguia-se o conj unto de edifícios de sua velha conhecida, a Cruzada São Sebastião. O tira atravessou o canal onde um pescador solitário tentava capturar com um a tarrafa algum peixe que estivesse entrando ou saindo da lagoa Rodrigo de Freitas. Na avenida Ataulfo de Paiva as padarias e os açougues j á estavam abertos e tam bém os poucos botequins que ainda existiam . Colegiais uniform izados com eçavam a sair de casa, carregando m ochilas coloridas às costas.
Afinal Guedes chegou à rua Afrânio de Melo Franco. Os últim os freqüentadores do Scala, que ficava em frente à delegacia, haviam acabado de sair; as luzes de néon da boate, anunciando Brazilian Follies, ainda estavam acesas.
Os tiras da 14ª estavam acostum ados com os hábitos m adrugadores de Guedes.
“Dá para segurar as pontas para m im ?”, disse Mantuano, que estava de plantão. “Vou dar um a saidinha para tom ar um café.”
Guedes fez um a rápida leitura do Registro de Ocorrências.
Hom icídios, acidentes de carro com m ortos, um incêndio, um estupro, furtos e roubos. O roubo ocorre, segundo o Código Penal, quando a coisa alheia é subtraída m ediante grave am eaça e violência à pessoa, ou depois de havê-la, por qualquer m odo, reduzido à im possibilidade de resistência. Os velhos tiras diziam que antigam ente os furtos eram com uns (ventanistas aproveitando um a
j anela
aberta,
batedores
de
carteira,
descuidistas
beneficiando-se da distração dos otários) e os roubos eram raros, um a luz acesa assustava o ladrão. Agora o núm ero de roubos superava o de furtos, nada assustava m ais um assaltante. Um dos últim os roubos que Guedes investigara fora um assalto num a m ansão do Alto Leblon, efetuado durante um a feij oada a que estavam presentes m ais de cem pessoas. Nem todas as vítim as de roubos procuravam a polícia e as estatísticas não eram confiáveis.
É claro que quando m orria alguém vítim a da violência o registro era feito, um m orto é sem pre um a aporrinhação, há que se fazer algum a coisa com ele. Os furtos tam bém não eram registrados, com exceção dos com etidos em loj as e escritórios, quando as vítim as tinham interesse no seguro. Na verdade ninguém acreditava na ação da polícia, o m ínim o que se dizia dela é que era deficiente, violenta e corrupta. Guedes era um tira honesto, tenho que reconhecer isso, e havia m uitos outros tiras honestos, o que não deixa de ser um a coisa extraordinária num país em que chega a ser incalculável o núm ero de corruptos em todos os níveis da adm inistração pública e privada.
As colunas sociais noticiaram a “m orte trágica” de Delfina Delam are; os leitores habituais saberiam que m orte trágica sem m aiores explicações significava suicídio. O delegado titular da 14ª, Ferreira, depois de ler os j ornais, m andou cham ar Guedes.
Ferreira com eçara sua carreira com o escrivão e estava na polícia há m ais de trinta anos. Havia passado por quase todas as delegacias
do
Departam ento
e
certa
vez
chefiara
um a
Especializada. Suas relações com Guedes eram form ais.
“Gostaria de receber o m ais depressa possível o seu relatório sobre o suicídio dessa dona Delfina. Recebi um telefonem a do secretário, dele m esm o, m e pedindo inform ações. Você esteve no local? Quem era o delegado de plantão?”
“O doutor Bruno. Mas ele havia se ausentado na hora em que recebem os a com unicação da PM.”
Guedes relatou a Ferreira tudo o que sabia sobre o suicídio.
“Ela era casada com um hom em influente e o suj eito j á foi procurar o secretário pedindo para abafar o caso. Algum j ornalista procurou você?”
“Não.”
De volta à sua sala Guedes telefonou para o Instituto Médico Legal. Afinal Delfina saíra da fila e fora autopsiada. O corpo havia sido liberado e rem ovido do Instituto.
O legista inform ou que pelos exam es externo (rigidez, resfriam ento,
livores
cadavéricos)
e
interno
(conteúdo
gastrintestinal) concluíra que a m orte de Delfina se dera por volta de um a hora da m adrugada.
Em seguida, Guedes ligou para o Instituto de Crim inalística.
“Ainda estou term inando o laudo”, disse o perito, “m as posso adiantar que não foi suicídio. Fiz todos os testes. Ela não tem traços de pólvora na m ão que segurava a arm a. Guedes, a m ulher foi m orta.”
Essa inform ação deixou Guedes, um hom em frio e controlado, m uito perturbado. Ele consultou suas notas. O carro de Delfina estava fechado por dentro, os vidros cerrados. A chave do carro estava na ignição. Ninguém ouvira coisa algum a na vizinhança. Concluiu que fizera um a porcaria de investigação.
Com etera o pior de todos os enganos: subordinar (e circunscrever) a investigação a um a conj ectura preconceitual. Decidir, prelim inarm ente, que se tratava de um suicídio fora um a estupidez. O policial tem que ter um a m ente aberta a todas as hipóteses. Se tivesse explorado a probabilidade do hom icídio ele talvez pudesse ter descoberto os m ovim entos do assassino depois de com eter o crim e; agora, provavelm ente, era m uito tarde.
Guedes fez um a careta. Que diabo estava acontecendo com ele? Negligência? O policial negligente está a um passo do cinism o.
O cínico a um passo da corrupção. Guedes deu um pontapé na lata de lixo, que rolou pela sala.
“O hom em quer falar com você”, disse um investigador aproxim ando-se da m esa do inspetor.
“Diga que saí”, disse Guedes, vestindo o seu blusão sebento.
Ele não queria falar com o delegado.
Guedes pegou um ônibus circular na rua General San Martin e voltou à rua Diam antina. Subiu pela rua Faro. Duas horas depois estava num botequim da rua Jardim Botânico, passando a lim po o croqui que fizera, enquanto tom ava um a cervej a. Se estivesse em outro autom óvel, o assassino, para sair da rua Diam antina, teria descido pela rua Faro, a única que dava m ão em direção à Jardim Botânico; se estivesse, ou não, no carro de Delfina, m as se evadira a pé, o assassino teria dois cam inhos: descer pela rua Faro ou pela Benj am im Batista, via rua Itaipava, para chegar à rua Jardim Botânico. A rua Faro saía diretam ente na Jardim Botânico, m as se o assassino fosse pela Benj am im Batista, para chegar à Jardim Botânico teria que atravessar um a de três ruas: Abade Ram os, Nina Rodrigues ou Nascim ento Bittencourt. Além da escadaria que vai dar na praça Pio XI, de onde se pode chegar à Jardim Botânico pelas ruas Oliveira Rocha e Conde de Afonso Celso. Todas essas vias tinham pouco m ovim ento e alguém talvez pudesse ter notado a presença de um estranho na hora deserta em que o crim e ocorrera. Infelizm ente parecia que todos os prédios daquelas ruas possuíam porteiro eletrônico. Não ia ser fácil encontrar um a testem unha, se é que ela existia.
Os ricos eram enterrados no São João Batista, pensou Guedes, pegando outro ônibus circular. Saltou na rua Voluntários da Pátria, esquina da Real Grandeza, e cam inhou até onde ficavam as capelas do cem itério. Debaixo do sol forte, que fazia a cam inhada parecer m ais longa do que era. Sem poder tirar o blusão (um policial não anda por aí m ostrando sua arm a m esm o que sej a um elegante Cobra), Guedes suava abundantem ente.
Com o nunca usava um lenço, o inspetor rem ovia o suor da testa e da face com os dedos da m ão, com o fazem os trabalhadores braçais.
Afinal chegou ao local onde ficavam as capelas, à direita do cem itério. As capelas estavam todas ocupadas, m as o corpo de Delfina Delam are não se encontrava em nenhum a delas.
Guedes telefonou de um orelhão para o IML e indagou para onde o corpo de Delfina havia sido transportado. Um carro da Santa Casa fizera o serviço. Da Santa Casa inform aram que a
“entrega” havia sido feita na rua Sara Vilela, um a rua que ficava no alto da rua Lopes Quintas. O corpo fora em balsam ado.
A rua Sara Vilela não ficava m uito longe, de autom óvel, da rua Diam antina. Um dado que m erecia ser levado em consideração.
Guedes cam inhou de volta pela rua Real Grandeza até à rua São Clem ente, um a cam inhada apressada que lhe custou m eia hora. Ali pegou um ônibus e fez praticam ente, de volta, o m esm o cam inho que fizera da Diam antina até ao cem itério. A rua Lopes Quintas ficava um pouco além da rua Faro. Guedes saltou do ônibus na rua Jardim Botânico, esquina da Lopes Quintas, e subiu a rua até chegar na Sara Vilela, um a rua sem prédios, só de m ansões residenciais.
Havia vários carros parados em frente à m ansão. Guedes tocou a cam painha. Um hom em abriu a porta. Seus olhos estavam verm elhos, com o se tivesse chorado m uito. Era j ovem e usava uniform e de copeiro.
“O senhor Eugênio Delam are está?”
O copeiro olhou Guedes de alto a baixo. “Por favor, pela entrada de serviço.” O copeiro apontou um a entrada lateral da m ansão e fechou a porta.
Guedes tocou novam ente a cam painha.
O copeiro abriu a porta, acom panhado agora de um hom em grande vestido de terno azul-m arinho, cam isa branca e gravata preta, que Guedes deduziu ser um m otorista.
“O senhor Eugênio Delam are está?”
“Qual é o assunto?”, perguntou o m otorista de m aneira truculenta.
“É só com ele.”
“Agora ele não pode atender.”
O m otorista com eçou a fechar a porta, m as Guedes em purrou-a com o om bro e entrou no j ardim da casa.
“Se der m ais um passo eu lhe m eto um a bala na cabeça”, disse o m otorista, apontando para Guedes um a pistola 45.
“Sou o inspetor Guedes da 14ª Delegacia de Polícia”, disse o tira, im perturbável.
“Mostre sua identidade”, disse o hom em .
Motorista e guarda-costas, talvez da polícia, fazendo biscate
— pensou Guedes m ostrando a carteira.
“Não leve a m al”, disse o m otorista, noutro tom de voz, depois de exam inar a carteira, “a m adam e m orreu e nós estam os todos m uito nervosos.”
“Eu sei. Estou aqui por isso. Cham e o seu patrão.”
O m otorista fez um gesto de cabeça para o copeiro, que olhava ansiosam ente para ele, um olhar de subm issão im pudica.
“Vai”, ordenou o m otorista.
Guedes ficou observando o m otorista, que pôs-se a cam inhar de um lado para o outro. Grande parte do volum e corpóreo dele era gordura. A bunda sentada no carro o dia inteiro, pensou Guedes, e com idinhas trazidas a toda a hora pelo copeiro. Mas em certa época ele devia ter levado um a vida atlética, seus m ovim entos eram ágeis e o corpo ereto.
O copeiro voltou acom panhado de um hom em de quarenta anos, queim ado de sol, elegante. Cum prim entou Guedes e dispensou os outros com um curto “podem ir”. Depois pegou o tira pelo braço e conduziu-o através do j ardim até a um banco que ficava sob um enorm e oiti. Fez um gesto para o tira se sentar.
Guedes, que j á andara m uito naquele dia e tinha a cam isa em papada de suor, sentou-se aliviado. A som bra e a brisa fresca lhe deram logo um a sensação de bem -estar.