Bufo & Spallanzani
Todo rom ance sofre de um a…
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
“Com eu?”
“Não.”
“Tentou?”
“Não. Aconteceu tanta coisa. Fui m ordido por carrapatos, agora não parece, m as fiquei todo inchado. Depois essa m ulher foi assassinada... Sabe que desconfiaram de m im ? Eu havia estado no bangalô dela, onde ouvi um a história esquisita. Suzy agiu de um a m aneira que m e deixou nervoso. Talvez ela soubesse do m eu caso.”
“Que caso?”
“Do coveiro, do m anicôm io, aquela coisa toda.”
“Isso aconteceu há m uito tem po, m eu bem . Mais de quinze anos.”
“Você notou a cara de desapontam ento do tira Guedes? Acho que ele pensou que eu era o assassino de Suzy. Ele está doido para provar que eu m atei alguém , sej a lá quem for.”
Os nossos corpos nus estavam frios. Ainda com Minolta enganchada nos m eus quadris entram os no bangalô. Deitei Minolta na cam a e fodem os novam ente. Depois peguei as folhas de papel que Rom a m e dera. Minolta apanhou as prim eiras e únicas páginas que eu havia conseguido escrever do Bufo & Spallanzani.
“Você escreveu apenas isto, estes dias todos?”
“Só. Já lhe disse que os dias foram com plicados.”
Com ecei a ler o texto de Rom a.
“Sabe de um a coisa?”, disse Minolta.
“O quê?” Larguei os papéis de Rom a e olhei para Minolta. Ela m e fitava com o olhar de am or que sem pre m e dirigia quando descobria um a fraqueza m inha.
“Isto aqui está m uito ruim , m eu bem ”, ela disse. “O que houve com você?”
“Está ruim ?” Peguei as duas folhas de papel da m ão dela. Li:
“O sábio Spallanzani contem plou, da j anela de onde estava, a catedral de San Gim ignano” — etc. “Está ruim , sim ”, eu disse, quando acabei.
“O que há com você? Está sentindo falta do com putador?”
“Talvez. Mas não é só isso. Acho que o fim está chegando.
Hora de escrever m em órias, coisas de velho.”
“Você tem quarenta e poucos anos”, disse Minolta. “Não diga sandices. É m elhor trancar a porta. O assassino pode aparecer aqui.”
Fechei as portas. Mas não acreditava que o Erm itão voltasse, depois do que havia feito. Tornei ao com eço da história que Rom a escrevera.
“E o tal Carlos, hein? Onde será que ele foi”, perguntou Minolta.
“Tenho um palpite.”
Minolta não quis saber qual era. Fiquei lendo a história de Rom a. Estava escrita num a letra m iudinha. Detesto ler coisas escritas à m ão. Quando term inei a leitura de m ais aquela história de sapos, veio à m inha m ente um a frase de Nietzsche (o próxim o pseudônim o que eu for adotar, caso realm ente tenha que voltar a m e esconder, será Frederico Guilherm e — m as isso é um assunto para depois), veio à m inha cabeça, repito: “é naquilo que tua natureza tem de selvagem que estabeleces o m elhor da tua perversidade, quero dizer de tua espiritualidade...”.
3
A história de Rom a, tal com o a que fora contada por Orion, era autobiográfica. Acho que j á disse isso. Que estranha coincidência m e fizera dar aquele m ote para eles... Eu estava escrevendo um a história de sapos e hom ens, m as não tinha necessariam ente de lhes dar esse assunto com o tem a da nossa brincadeira
“Que tal?”, perguntou Minolta, quando percebeu que eu acabara de ler.
“Se não fosse tão longa talvez pudesse ser considerada um a confissão interessante”, eu disse. “Quer ler?”
“Que letrinha horrível”, disse Minolta, sem pegar no papel.
“Ela fala no sapo?”
“Fala. E explica por que ficou tão nervosa quando soube qual era o m ote que eu havia escolhido para ela.”
“Faz um resum o para m im ”, disse Minolta, deitando sua cabeça no m eu peito.
“Bem , os dois são bailarinos. Conheceram -se, ainda m uito j ovens, na escola de balé do Teatro Municipal do Rio de Janeiro.
Ela era rica e ele pobre. A m ãe fazia as sapatilhas que ele usava para dançar. Vaslav — seu nom e na verdade é Sílvio — possui grande vigor físico e ainda m aior virtuosidade técnica, consegue fazer o entrechat dix ou entrechat roy al, que consiste em saltar e cruzar os pés no ar dez vezes antes de pousar no chão, algo que poucos bailarinos na história do balé realizaram . Talvez apenas Nij inski. Então surge na história um suj eito, que não sei bem se é o vilão, um argentino cham ado Ricardo Berlinsko, coreógrafo e diretor artístico do Colón, de Buenos Aires, ex-bailarino, hom ossexual, que pinta os cabelos.”
“Ele é o vilão por ser hom ossexual ou por pintar os cabelos?”
“Tem tam bém as pernas m uito m agras e provavelm ente fez um a operação plástica no rosto. Porém Rom a reconhece que é um hom em charm oso, erudito e inteligente.”
“O nom e verdadeiro dela é Rom a?”
“Não. Mas quero continuar cham ando-a assim . Gosto desse nom e. Ricardo, que assiste a um ensaio de Sílvio, no Rio, convida-o para ir com ele para Buenos Aires. Vão. Ali, sob a orientação de Berlinsko, o j ovem Sílvio desenvolve ainda m ais sua técnica e o seu talento. Passa a freqüentar a alta sociedade platense. Vou pular essa parte contendo descrições das festas dos grã-finos.
Festa de rico é igual no m undo inteiro. Porém há aqui um suj eito que diz um a frase interessante: ‘com o aquele personagem de Orson Welles, se eu j ogar fora um m ilhão de dólares por ano sabe em quanto tem po vou ficar pobre? Daqui a sessenta anos’. Gosto dos perdulários.”
“Quem diz isso? O Berlinsko?”
“Não. O Berlinsko é um artista. A fala é de um desses ricaços que nunca trabalharam na vida, com o o nosso Eugênio Delam are.”
“Tua voz fica engraçada, aí dentro, no pulm ão”, disse Minolta virando a cabeça e colocando a orelha no m eu peito.
“Há um trecho enorm e sobre os hábitos decadentes dos ricos. Mas ricos cheirando cocaína é um lugar-com um dem ais e vou pular esse pedaço. Há tam bém um a parte em que Sílvio se veste de m ulher, um a roupa copiada de um quadro de Gainsborough.”
“Gente fina”, disse Minolta.
“Sob a direção de Berlinsko, Sílvio desenvolve ainda m ais a sua grande virtuosidade. Consegue, agora, fazer o entrechat onze que talvez devêssem os cham ar entrechai Silviô, e outros passos com plicados. É considerado um gênio, as pessoas vão vê-lo ensaiar. Ricardo prepara para ele um a estréia sensacional. Agora leio para você o que Rom a escreveu: ‘Ricardo queria que Sílvio, em sua estréia num dia 17 de m aio, dançasse o m esm o program a da estréia de Nij inski, em Paris, no dia 17 de m aio de 1909, exatam ente o m esm o repertório, que consistia no Le pavillon d’Arm ide, de Tcherepnin, num divertissem ent intitulado Festin e no Príncipe Igor, de Borodine. A coreografia era a m esm a que Fokine fizera para a estréia do russo’.”
“O que é divertissem ent?”
“Bem , esse tal de Festin, pelo que está escrito aqui, é um a espécie de arranj o baseado na m úsica de vários com positores russos, Rim ski-Korsakov, Tchaikovski, Glazunov e num pas classique hongrois.”
“Gosto m uito”, disse Minolta rindo. “A la m ode.”
“Os cenários e figurinos originais de Kerovine, Benois e Bakst, feitos para a estréia de Nij inski em Paris, foram copiados.
Só um a pessoa, diz Rom a, caprichosa com o Berlinsko, conseguiria levar avante um proj eto m aluco com o aquele.”
“Esse Ricardo nam orava o Sílvio?”
“Bem , Rom a não esclarece isso, m as creio que sim . As sapatilhas de Sílvio, agora, são feitas de finíssim a pelúcia e ele tem dúzias delas, francesas e italianas. Há sem pre um cam arim reservado só para ele. À m edida que se aproxim a a data da estréia, os ensaios passam a durar o dia inteiro. Bailarinos, coreógrafos, figurinistas, cenaristas e toda a im ensa entourage de pessoas envolvidas na produção do espetáculo passam a fazer as refeições no próprio teatro. De todos, o que ensaia com m ais dedicação é Sílvio. Destrói, por dia, várias sapatilhas, repetindo de m aneira m aníaca, em seus exercícios, passos com plicados com o o grand fouetté a la seconde. Et cetera.”
“Você sem pre m e disse que odiava balé e agora m e conta esta história se babando todo. Garanto que você está acrescentando coisas ao que está lendo.”
“O texto de Rom a é interessante. Você devia lê-lo. Não estou acrescentando coisa algum a.” Coloquei os papéis que estavam na m inha m ão à frente do rosto de Minolta.
“Não quero. Lê para m im . Ou m elhor, continua fazendo esse resum o.”
“Nhan, nhan, nhan. Sílvio não dorm e direito, anda m uito nervoso, et cetera. Rom a e Ricardo Berlinsko acham que aquilo é resultado da tensão natural que Sílvio deve sentir às vésperas de estréia tão im portante. Dia 17 de m aio, diz Berlinsko, Sílvio será conhecido com o o m aior bailarino do m undo, só com parável a Nij inski.”
“Nij inski é aquele que enlouqueceu e falava com Deus?”
“Esse m esm o. Bem , dia 17 de m aio tudo preparado, cenários e roupas cuidadosam ente copiados da produção original de 1909, o próprio Colón sofreu um a pequena reform a, não que isso fosse necessário, m as por superstição de Ricardo, a fim de que algum a obra fosse feita no Colón, tal com o ocorrera com o Châtelet, em Paris, na ocasião da estréia de Nij inski. Suj eito interessante, esse Berlinsko.”
“Você acha que tudo isto é verdade?”
“Não tenho dúvida, querida. Você acredita que Rom a teria im aginação para inventar tanta coisa? Sílvio chega cedo ao teatro, três horas antes do início do espetáculo. No palco, fechado pelas cortinas, faz exercícios durante um a hora e m eia, tal com o Nij inski fizera nos idos de 1909. Com a palavra Rom a: ‘Ele estava soberbo, não era um sim ples hom em , ali naquele palco escuro e vazio, houve um m om ento em que ficou parado no ar após um grand j eté, com o um pássaro, com o um anj o’. Depois dos exercícios, Sílvio tranca-se no cam arim com o seu m aquiador, um húngaro que havia trabalhado com Zefirelli, e o cabeleireiro, vindos diretam ente do salon parisiense de Alexandre. Quando a m aquiagem term ina, entra a figurinista com os seus auxiliares, vestem Sílvio com os traj es do prim eiro balé, o tal, com o é m esm o, deixa eu ver aqui, ah, Le pavillon d’Arm ide. Esses preparativos todos term inam cinco m inutos antes das cortinas se levantarem .
O teatro está superlotado, veio gente do m undo inteiro, dos lugares m ais distantes, para ver esse novo fenôm eno da dança. Às nove horas está tudo pronto para o início do espetáculo. O
m aestro, o fam oso Levine, que veio especialm ente de Nova York, sobe ao pódio, sendo delirantem ente aplaudido, um a indicação do clim a de entusiasm o existente no teatro. As luzes se apagam e ouvem -se os prim eiros acordes de Le pavillon d’Arm ide. A orquestra, possuída pela exaltação que tom a conta de todo m undo nesta noite, cria um som de tal bravura e brilho para essa ouverture m edíocre que, ao final, é aplaudida com grande calor pelo sofisticado e com portado público buenairense.”
“Bravo!”, diz Minolta.
“Novam ente passo a palavra para Rom a: ‘A coreografia de Fokine requer que o bailarino realize, logo que entra em cena, ou pouco depois, um grand j eté en tournant’.”
“O que é isso?”
“Acho que ele salta proj etando as pernas para a frente e dando um a volta com pleta no ar, ou um a porção de voltas. Deixa eu ver, nhan, nhan, ela não explica, ela fala em tour en l’air, pliès e outras coisas, m as não vou ler isso. Circunscrevo-m e ao dram a.
Então, Sílvio tem que dar esse grande salto rodopiante e sabe o que acontece? Ele fica pregado no chão, com o se fosse de chum bo, im óvel, ante o olhar estupefato de todos os espectadores, bailarinos, m úsicos et cetera. Depois de ficar algum tem po atônito, o público, prim eiro nas torrinhas, depois no teatro inteiro, com eça a vaiar. Foi um horror, diz Rom a. Levine não sabe o que fazer, alguns bailarinos fogem da cena. Então as cortinas são fechadas e alguém da direção do Colón vem ao proscênio e diz que devido ao m al súbito sofrido pelo prim eiro bailarino o espetáculo não será apresentado.”
“Que vexam e”, diz Minolta.
“Rom a leva Sílvio para casa e cham a um m édico. Este diz que Sílvio m anifestara um a esquizofrenia latente e propõe subm etê-lo a eletrochoques. Outro m édico diz que Sílvio tivera um surto de psicose m aníaco-depressiva e sugere que tom e doses m aciças de drogas. Sílvio, o tem po todo, parece sonhar de olhos abertos.”
“Vai ver ele gostava tanto de Nij inski que resolveu pirar igual ao seu ídolo”, disse Minolta.
“Ninguém vai visitá-lo, et cetera, parece um leproso com AIDS. Nem m esm o Berlinsko quer saber m ais dele. Afinal Rom a traz Sílvio de volta para o Brasil. Esqueci-m e de dizer que Rom a, conform e ela m esm a esclarece aqui, é um a m ulher m uito rica.”
“Ela tem cara de rica”, disse Minolta.
“Com o é cara de rica?”, perguntei.
“Um a m istura de arrogância com tédio.”
“Isso é um m ísero clichê.”
“Só porque é clichê deixa de ser verdade?”
“Todo dia de m anhã Rom a leva Sílvio para passear no calçadão da praia de Ipanem a. A loucura parece que tornou Sílvio ainda m ais bonito, não há m ulher que não o olhe, m esm o as que passam correndo, no j ogging, viram o rosto para ver um pouco m ais aquele hom em lindo. Com o os m édicos no Brasil confirm am que ele é um esquizofrênico incurável, só resta a Rom a buscar aj uda no m undo da m agia, da m acum ba, do sobrenatural, onde há ainda m ais vigaristas do que entre os m édicos. Vai a todos os terreiros que lhe indicam , de um banda e quim banda, consulta rezadeiras, m édiuns que ‘incorporam ’ as m ais diversas e estapafúrdias ‘entidades’. Um dia Rom a leva Sílvio a um a m ulher com grandes poderes cham ada Santinha, em Caxias, na periferia do Rio de Janeiro. Agora vou ler o que Rom a escreveu: ‘Quando vi Santinha tive um choque. Era um a m enina de uns dez anos, ou talvez m enos. Tinha cabelos com pridos que vinham até à cintura, encaracoladinhos; era m uito pálida, as m ãos de dedos fininhos’ —estou lendo exatam ente o que Rom a escreveu — ‘e pulsos tão finos que davam a im pressão de que iriam quebrar ao m enor esforço que ela fizesse. Seus lábios eram cinzentos e os dentes separados, todos os dentes separados, m e deu idéia de um m orcego branco grande ou um anj o m al acabado. Eu e Sílvio nos sentam os, ela ficou de pé, e notei que logo percebeu que era ele, Sílvio, quem precisava de aj uda. Nem um instante olhou para m im .
Aproxim ou-se de Sílvio e aninhou a cabeça dele entre os seus peitinhos raquíticos. O corpo dela, então, com eçou a trem er e o seu cabelo ficou todo esticado, com o se ela estivesse sendo açoitada por um vento forte. Mas nada aconteceu com Sílvio, quem ficou transtornada e esgotada foi a Santinha. Não tive tem po de sentir desapontam ento por este prim eiro fracasso. Logo ela saiu da sala e voltou em seguida, trazendo na m ão um enorm e sapo que —”
“Está aí o sapo. Custou a aparecer”, disse Minolta.
“Um enorm e sapo que ela segurava pela nuca — continuo lendo o texto de Rom a — ‘ou lá que nom e tenha esse lugar atrás da cabeça do sapo. E seguro dessa m aneira, as pernas do sapo se esticavam e ele ficava enorm e, im enso. Quando entrou na sala, carregado por Santinha, o sapo olhou para m im , para m inha cara, e depois para Sílvio, com o se nos conhecesse, com o se soubesse quem éram os e o que estávam os fazendo ali, um olhar de inteligência, de conluio, um olhar hum ano, aterrador. A Santinha postou-se à frente de Sílvio com o sapo na m ão. ‘Levante-se’, disse ela para Sílvio. ‘Tom a’, ela disse, e deu o sapo para Sílvio segurar.
Sílvio segurou o sapo com as duas m ãos, colocando o focinho asqueroso do bicho na m esm a altura do seu rosto. Sílvio e o anim al ficaram se olhando nos olhos um do outro e notei que um fugaz sorriso perpassou pelos lábios de Sílvio. Depois ele aproxim ou a cabeça do sapo do seu rosto, sem pre um olhando nos olhos do outro, cada vez m ais, e os lábios de um e outro se aproxim aram e ante o m eu horror e asco o sapo enfiou sua im ensa língua na boca de Sílvio, num longo e apaixonado beij o’.”
“Argh! preferia ficar esquizofrênica para o resto da vida”, disse Minolta.
“Deixa eu acabar: ‘Então um a luz verm elha brilhante, com o se tivéssem os entrado num tubo de gás néon, inundou a sala com um brilho tão forte que m e cegou e por m om entos não pude ver Sílvio, nem o sapo, nem Santinha. Aos poucos m inha visão voltou ao norm al e vi Sílvio, ainda em m eio à luz escarlate, entregando reverentem ente o sapo à Santinha, que saiu da sala carregando o anim al, não sem antes que ele m e desse um últim o e cognitivo olhar’. Belo trecho, reconheço.”
“Acabou?”
Aj eitei os papéis com a letra m iudinha de Rom a e coloquei-os sobre a m esinha de cabeceira.
“Bem ”, eu disse, “depois disso Sílvio ficou bom e voltou a dançar. É um a história de final feliz.”
“Você acredita nela?”
“Claro que acredito. Você j á esqueceu o que fizem os com aquele sapo vinte anos atrás? O Bufo m arinus? Ceresso? A m em ória é fraca!”
“Ele deixou de ser hom ossexual?”
“Rom a não diz. Mas o que tem isso a ver com a felicidade?”
“Ele pode enlouquecer novam ente?”
“Para ficar m aluco basta estar são. Quanto m ais sadio, m aior o surto de loucura.” Elaborei esse raciocínio. “As confissões m e enfadam , você sabia?”
Mas a doce Minolta ressonava ao m eu lado; não era propriam ente um ronco, era o barulhinho que os j ustos e as m ulheres fazem no seu sono profundo. Com o é bom dorm ir!, pensei. E dorm i.
4
De m anhã, ao chegar, com Minolta, à sala do Casarão para tom ar café (eu m e atrasara por m otivos óbvios, havia um a m ulher dorm indo com igo agora) j á lá estavam todos, até m esm o Eurídice, num a m esa com Sílvio e Rom a (vam os continuar cham ando-a assim ). Noutra m esa, Orion e Juliana. Só faltava o Carlos.
Minolta com ia m uito pouco e j á havia acabado o seu desj ej um quando Trindade entrou no salão e disse que vira Carlos e o Erm itão a cavalo, descendo o m orro. Ele acreditava que eles vinham para o Casarão. Todos se levantaram e correram para a varanda, eu carregando um prato com pãezinhos de queij o e broas de m ilho.
Lá vinham eles, agora j á na várzea que se estendia à frente do Casarão, num trote que se transform ou em galope m acio quando nos viram na varanda. Os dois cavaleiros passaram em frente à varanda e desapareceram em direção das cocheiras.
“Eles foram em bora”, disse Juliana, quinze m inutos depois.
Mas, logo em seguida, os dois, Carlos e o Erm itão, surgiram , vindos das cocheiras. Conversavam , ou m elhor, Carlos falava e o Erm itão ouvia.
Fizeram um a entrada dram ática na varanda, cobertos de pó e lam a.
“Fom os cuidar dos cavalos”, disse Carlos. “Cavalgam os a noite inteira e eles estavam exaustos.”
Ninguém respondeu. Carlos m ordeu os lábios. Notei, pela prim eira vez, que ele era inteiram ente glabro, com o se fosse um índio, se é que poderia existir um índio de feições tão brancas e finas; apesar de ter passado a noite cavalgando, não havia um único fio de barba no seu rosto. Afinal Juliana quebrou o silêncio.
“Está chovendo?” Um a pergunta incongruente, pois o sol brilhava lá fora.
“No pico está”, disse Carlos.
“Lá chove m uito”, disse o Erm itão. Ele tinha um a voz grossa e áspera, desconexa, com o de alguém que não tivesse o hábito de falar.
Outro silêncio.
“Conte a eles”, disse Carlos. Sua voz dem onstrava um sofrim ento soturno.
O Erm itão coçou a barba.
“Anda”, disse Carlos.
“Não”, disse o Erm itão. Tive a im pressão de que ele queria dizer que não sabia com o contar a sua história.
“Além de vir aqui para exercitar o Berzabum , toda sem ana, há ocasiões em que ele vem se encontrar secretam ente com dona Belinha, que trabalha na cozinha”, disse Carlos. Indeciso, infeliz, o pálido rapaz calou-se.
“Ai, m eu Deus”, disse Eurídice. Um fino soluço desprendeu-se da sua garganta.
De repente, tudo ficou claro para m im . Que im becil eu fora!
Eu tivera todos os dados do quebra-cabeça e não conseguira j untá-los. Agora estava entendendo tudo. Sabia quem era Maria, a m ulher referida na história que Suzy m e contara no bangalô no dia em que fora m orta e sabia m ais ainda, quem a havia assassinado.
“Continue”, disse Guedes, que surgira não sei de onde. Era a única pessoa calm a naquela varanda.
“Dona Belinha não apareceu para o nosso encontro. Levei o m eu cavalo para beber água no riacho do Cachorro d’Água”, disse o Erm itão.
“Seu cavalo está sem um a ferradura?”, perguntou Guedes.
“Está.”
“Continue”, disse Guedes, suave, m as com autoridade.
“Depois, quando voltava, ouvi gritos num bangalô. Fui ver o que era. Eram duas pessoas discutindo. Ouvi um grito. Entrei na varandinha e vi tudo. Depois fui em bora. Não tinha nada com isso.”
“O que foi que você viu?”
“A m oça bater com aquele boneco na cabeça da outra. Não pensei que tinha m atado. Eu não tinha nada com isso, fui em bora. Meu lugar é lá em cim a.”
“Foi sem querer, j uro que foi sem querer”, m urm urou Eurídice, as lágrim as escorrendo pelo seu rosto. “Ela com eçou a falar m al de você, disse que ia contar para todo m undo quem você era.”
“Isso não tinha a m enor im portância”, gritou Carlos.
“Pensei que você não queria que ninguém soubesse”, chorou Eurídice. Maria-Carlos abraçou Eurídice.
“Que im portância tem saberem que eu sou um a m ulher? Eu sou um a m ulher, estão satisfeitos?”, disse Maria-Carlos olhando para nós com rancor. Im aginei-a vestida de m ulher, de sapatos altos, m ostrando o esplendor físico de seu corpo atlético, que agora eu notava, disfarçado pelas roupas largas que ela usava, queim ando o coração de hom ens e m ulheres que a viam passar em seu “andar de elegância perturbadora”. Pensei no Diadorim do Guim arães Rosa, m as logo vi que nada havia, além do disfarce e da habilidade eqüestre, que assem elhasse as duas.
Estávam os todos perplexos, em ocionados e confusos, com exceção do tira Guedes. A história fora entendida por todos, até certo ponto. Carlos era um a m ulher disfarçada de hom em e havia entre ele, digo, ela e Suzy e Eurídice um a relação até então desconhecida de todos, de am or, de ciúm es e que acabara em m orte. Estávam os de olhos arregalados e respiração presa. Só eu sabia que Maria-Carlos tentara m atar o m arido, e pretendia m anter esse segredo, decisão fortificada pela visão patética de Eurídice chorando no om bro de Maria.
“Posso ir em bora?”, perguntou o Erm itão. A pergunta foi feita a Guedes.
“Deixa eu falar prim eiro com o delegado de Pereiras, para cancelar a ordem de prisão contra você.”
Quando Guedes ia saindo para ir à sala onde estava a aparelhagem de rádio pela qual Trindade se com unicava com Pereiras, eu lhe disse: “Fale ao Trindade para providenciar a carreta. Eu estou querendo ir em bora daqui o m ais rápido possível”.
“Nós tam bém ”, disseram os outros hóspedes.
Fui com Minolta para o bangalô. Arrum am os as m alas.
“Você não está aliviado?”, perguntou Minolta.
“Não. Estou preocupado com Guedes.”
“Preocupado por quê? Você está escondendo algum a coisa de m im ?”
“O que poderia estar escondendo de você?”
“Não dá bola para esse tira im becil”, disse Minolta.
“Ele não é im becil.”
A carreta com o delegado só chegou depois do alm oço, bastante parco naquele dia, porém saboroso. Dona Belinha, que trabalhava na cozinha, resolvera pedir as contas e ir m orar no m eio do m ato com o Erm itão; passou a m anhã arrum ando suas coisas. Rizoleta ficara tão perturbada ao descobrir que Eurídice, por quem desenvolvera um carinho de m ãe durante o pouco tem po em que a m oça ficara sob seus cuidados, era um a assassina, que teve um a crise de nervos e ficara acam ada. Quem fez o alm oço foi Trindade que, felizm ente, era um bom cozinheiro, não tão bom quanto a esposa, evidentem ente. De qualquer form a conseguiu fazer um as costeletas de porco m uito saborosas, um a farofa de lingüiça e um tutu e um a couvinha à m ineira tam bém deliciosos.
O escrivão tom ou o depoim ento do Erm itão no Casarão do Refúgio. O delegado queria que o Erm itão fosse até Pereiras. “Só vou m orto, doutor”, ele respondeu, e o delegado viu que o hom em estava dizendo a verdade e m andou o escrivão tom ar o depoim ento ali m esm o.
Afinal, as j óias de Suzy não haviam desaparecido. Estavam todas num a bolsa, dentro de um a m ala. O delegado arrolou as j óias e m e pediu que assinasse com o testem unha. Recusei-m e a isso. Queria envolver-m e o m ínim o possível com a polícia.
Antes de descerm os todos, na carreta, para Pereiras, Guedes conseguiu ficar a sós com igo por uns m om entos. Estávam os na copa, onde eu fora em busca de um café.
“Quando eu cheguei aqui havia aquela com oção e eu não pude lhe dizer um a coisa”, disse ele.
“Diga.”
Ele disse. Senti m inhas pernas trem erem , quando Guedes acabou de falar.
“Não é verdade”, eu disse. “Isso é um absurdo.”
“Quer que eu lhe conte com o foi que descobri?”, ele perguntou.
“Ah, você está aí”, gritou Minolta da outra ponta do salão,
“está todo m undo esperando por você. A carreta j á vai partir.”
Durante a descida, na carreta, eu e Guedes não conversam os. Aliás, eu não conversei com ninguém .
“O que você tem ?”, perguntou Minolta.
Não respondi. O que eu tinha?... Pensava: “Até a hora da m orte ninguém pode garantir que sua vida é feliz... A dor sofocleana... lem brei-m e: não quero que a m orte m e ache e acabe com igo da m aneira suj a, dolorosa e hum ilhante que escolheu para m im ... A m orte é sem pre um a coisa suj a, m e disse o m édico, quando fui falar com ele, pode não ser dolorosa, pode até não ser hum ilhante, m as é sem pre suj a...” Valetudinis adversae im patientia...
Chegam os em Pereiras a tem po de pegar o ônibus que ia até Cruzeiro, de onde podiam ser feitas conexões para o Rio e para São Paulo.
“O que você fez com a m inha história?”, m e perguntou Rom a, em Cruzeiro.
“Nada. Apenas a li, com o você queria.”
“Eu precisava fazer aquele desabafo”, disse Rom a. “As coisas aconteceram exatam ente com o descrevi.”
“Inclusive o beij o na boca do sapo?”
“Exatam ente assim , tudo. Incrível que você tenha escolhido precisam ente este tem a para m e dar. Mas foi bom , aquilo precisava ser contado para alguém .”
Tirei os papéis da m inha m aleta. Rom a pegou os papéis e ficou olhando para eles. Depois, num gesto abrupto, rasgou-os em pequenos pedaços, j ogou num a lata de lixo que havia perto. Talvez sej a esse m esm o o destino final de todos os papéis escritos, cartas,
livros,
testam entos,
diários,
contratos,
escrituras,
depoim entos... o lixo...
Anotei o endereço de Rom a e Sílvio; anotei o endereço de Juliana e de Orion. Sabia que nunca m ais iria vê-los. Com o nunca m ais iria ver Maria-Carlos e Eurídice. Lam ento não ter dado m ais atenção a Carlos, digo Maria. Era um a pessoa interessante e aquele triângulo, as três m ulheres de am ores entrelaçados, continha m istérios intrigantes que m ereceriam ser decifrados.
Senti pena de Maria e Eurídice, naquele m om ento, na certam ente fria e feia delegacia de Pereiras, enfrentando desam paradas a sórdida burocracia dos tiras. Quando perguntei a Maria (com Eurídice não adiantava falar, estava num estado quase catatônico) se precisava de aj uda ela respondeu que não, que em Cruzeiro telefonaria para um advogado de São Paulo, m uito com petente.
Um a m ulher coraj osa.
Dorm i no ônibus, caído sobre o om bro de Minolta. Quando chegam os à estação rodoviária Novo Rio, o tira Guedes, depois que apanham os as m alas, m e disse:
“Am anhã de m anhã passo na sua casa.”
5
Guedes chegou às dez da m anhã. Eu conhecia os seus hábitos. Ele certam ente rondara m inha casa, com o um cão sarnento, fam into, desde o raiar do dia.
“Queria ficar com ele sozinho, por favor”, eu disse para Minolta.
Magoada, ela saiu da sala. Ouvi o barulho da porta batendo.
“Ela vai acabar sabendo”, disse Guedes.
“Sabendo o quê?”
“Um crim e nunca existe isolado, em estado de pureza, se é que posso falar assim . Em volta dele gravitam outras ações e om issões delituosas, um a constelação de vilanias e torpezas. O
m al é contagioso”, disse Guedes.
“Para uns é inspirador e instigante. Filosofem os, inspetor.”
Guedes fungou, lim pando o nariz.
“Eu vim aqui para lhe dizer que tenho testem unhas que o viram perto da rua Diam antina, na noite em que Delfina Delam are apareceu m orta.”
“O senhor está louco. Se eu fosse Victor Hugo o senhor virava m eu personagem .”
“Bernarda viu o senhor. Lem bra-se de Bernarda? Estava com um cachorro. Na rua Abade Ram os.”
“Nunca andei em nenhum a rua Abade Ram os. E o assaltante que confessou que m atou Delfina?”
“Já falarem os sobre ele. Mas j á posso lhe adiantar que a confissão era falsa. Agenor recebeu dinheiro do m arido para isso.”
“E com o é que essa m ulher se lem bra do dia em que teria m e visto?”
“Era o dia do aniversário de Adolfo. Adolfo é o cachorro.”
“O culpado é o m arido. Só você não vê isso. Ele sabia que éram os am antes. Seu Guedes, tenho m ais o que fazer, preciso escrever o m eu livro, Bufo & Spallanzani, acho que j á lhe falei sobre isso.”
“Sim ... Sim ...” Ele pareceu, por instantes, ter desistido da nossa conversa. Isso j á acontecera em outra ocasião em que havíam os estado j untos, quando o tira tam bém se ausentara do diálogo que m antinha com igo e passara a m e contem plar pensativam ente. Que conj ecturas estariam passando pela sua cabeça naquele m om ento? Eu concordara em receber Guedes apenas para saber se ele descobrira algum a coisa ligada ao m eu passado negro, ao crim e do coveiro.
“Não vim aqui esperando fazê-lo assinar um a confissão. Não estou com pressa. Ainda há pouco o senhor falou no Agenor da Silva, o vigarista que confessou ter m atado Delfina Delam are. Ele foi assassinado.”
“E o que tenho eu com isso?”
“As pessoas que o m ataram pretendem assassinar outra pessoa. Foi isso que eu vim aqui lhe dizer.”
“Já lhe disse que não estou interessado neste assunto.”
“A outra pessoa que querem m atar é o senhor.”
O tira foi em bora sem m e dizer quem eram as pessoas que pretendiam m e m atar. Mas eu sabia. Até então eu pensara que j am ais sentiria algo tão horrível quanto a am eaça de voltarem a m e prender. Logo depois de fugir do m anicôm io, nas poucas vezes em que saía do m eu esconderij o, eu via em cada pessoa um agente da lei, um inim igo, principalm ente se o suj eito fosse barbudo. Eu tinha um m edo particular dos barbudos, naquela ocasião, achava que eram psiquiatras com poder de dar eletrochoques, delatores, detetives que iam m e prender, oficiais de j ustiça, prom otores públicos prontos a m e acusarem ali m esm o, no m eio da rua. Era um a coisa infernal, um sofrim ento que pensei ser o m ais intolerável de todos. Mas o pior m om ento, descobri naquele dia, logo depois que Guedes saiu da m inha casa, é saber que existe alguém que quer m atar você, sej a por ódio, sej a por recom pensa. Quando houve o caso Estrucho, na Panam ericana, eu tam bém m e sentira am eaçado, m as não de m aneira tão pessoal e tangível com o agora.
O que pode fazer um cidadão pacato com o eu ao saber que querem m atá-lo? A prim eira idéia que passa pela cabeça de qualquer um é ir procurar a polícia. Mas eu não confiava na polícia, não queria e não podia pedir aj uda à polícia. E não acreditava que Guedes estivesse interessado em m e proteger. O
seu torto senso ético talvez considerasse j usto que eu fosse m orto, desde que ele pudesse prender o assassino, e o m andante, principalm ente. Aqui volto à pergunta que fiz: o que deve fazer um cidadão pacato am eaçado de m orte? Prim eiro, identificar o seu perseguidor. Esse eu sabia quem era, m esm o sem Guedes ter dito.
Era
Eugênio
Delam are.
Seu
ódio
por
m im
devia
ser
incom ensurável: certam ente ele teria achado as cartas que eu escrevera para Delfina. Nessas cartas, além de falar dos nossos poetas favoritos, com o Baudelaire, Pessoa, Pound, Drum m ond, Auden e Bocage, eu rem em orava o que havíam os feito na cam a, ações
libidinosas
abrasivas,
delirantem ente
lúbricas,
candidam ente sórdidas, descritas com a m aior crueza, relatos que deixariam Bataille m orto de invej a por não tê-los escrito. Creio que Delam are ainda não havia lido as cartas quando veio m e visitar, ao descobrir que eu era am ante de Delfina, e am eaçou castrar-m e e “deixar-m e sangrar com o um porco até m orrer”. Deve tê-las encontrado depois que Delfina m orreu. E se ele queria fazer aquilo com igo, antes de ver as cartas, eu podia im aginar quais seriam os seus planos agora.
Muito bem — pensei naquele dia em que o tira sebento, Guedes, foi à m inha casa com o m ensageiro da m á notícia —, a prim eira providência j á está tom ada, identificar o m eu algoz.
Em seguida eu poderia fazer duas coisas:
1) Fugir dele, Delam are. Viver é saber se evadir (ver Greene).
Eu não fazia outra coisa nos últim os vinte anos.
2) Tornar inoperante o poder que m e am eaçava, isto é, acabar com Eugênio Delam are antes que ele acabasse com igo.
Essa hipótese, a princípio, m e deu um a certa repugnância. Mas após considerar a vileza do caráter im undo de Delam are, a circunstância de que ele não tinha filhos ou outros parentes que sofressem com a sua m orte (o que gerava a agradável perspectiva de toda a sua fortuna ir para o Tesouro Nacional), com ecei a m e habituar, e logo passei a gostar da idéia de m atá-lo. Gostar talvez não fosse a palavra correta, não era exato que a m orte dele m e desse prazer. Alívio sim , era isso o que eu alm ej ava com a sua m orte. Alívio do m edo.
Mas de que m aneira eu poderia m atar Eugênio Delam are?