Bufo & Spallanzani
Capítulo III
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
O REFÚGIO
DO PICO DO GAVIÃO
Na verdade não posso ser acusado de ter subestim ado o tira Guedes. Com o todas as pessoas, respeitáveis ou delinqüentes, eu tinha, evidentem ente, aversão pela polícia. Com o j á disse, eu havia sofrido m uito nas garras dos guardiães da lei e da ordem , fossem tiras, j uízes, prom otores, fossem m édicos ou enferm eiros, durante m inha internação no Manicôm io Judiciário. Alguém pode subestim ar o tétano, por exem plo? Mas estou m e adiantando e colocando as coisas fora do lugar, e os escritores detestam a confusão e a desordem . Isso faz parte da nossa incoerência esquizóide intrínseca (ver Whitm an). Rej eitam os o caos m as repudiam os ainda m ais a ordem . O escritor deve ser essencialm ente um subversivo e a sua linguagem não pode ser nem a m istificatória do político (e do educador), nem a repressiva, do governante. A nossa linguagem deve ser a do não-conform ism o, da não-falsidade, da não-opressão. Não querem os dar ordem ao caos, com o supõem alguns teóricos. E nem m esm o tornar o caos com preensível. Duvidam os de tudo sem pre, inclusive da lógica.
Escritor tem que ser cético. Tem que ser contra a m oral e os bons costum es. Propércio pode ter tido o pudor de contar certas coisas que seus olhos viram , m as sabia que a poesia busca a sua m elhor m atéria nos “m aus costum es” (ver Vey ne). A poesia, a arte enfim , transcende os critérios de utilidade e nocividade, até m esm o o da com preensibilidade. Toda linguagem m uito inteligível é m entirosa.
Estou dizendo isto hoj e, m as não garanto que daqui a um m ês ainda acredite nesta ou em qualquer outra afirm ação, pois tenho a boa qualidade da incoerência. Quanto ao que as outras pessoas dizem ou pensam — Guedes, Orion, Suzy, Delfina, a própria Minolta etc. — eu nada tenho a ver com isto. Não são m inhas essas opiniões.
Voltem os aos trilhos. Fui o prim eiro a chegar à praça de Pereiras, a pequena vila que fica no sopé da m ontanha. Fiquei sentado num banco do j ardim ainda envolto em neblina. Apesar de ser, hoj e, um hom em preguiçoso, sou tam bém nervoso e não gosto de esperar. Podia ler, m as os livros que trouxera estavam dentro da m ala. Assim , apanhei um a caderneta do bolso e tentei vencer m inha incom petência caligráfica, agravada nos últim os anos pelo vício do TRS-80, e fazer anotações sobre Bufo & Spallanzani. Nesse instante um a enorm e lim usine chegou à praça e dela saltou um a m ulher (eu sem pre via as m ulheres prim eiro) e um hom em . A m ulher, com ar enfadado, correu um olhar desinteressado pela praça, passando por cim a da m inha cabeça, o que deve ter sido um a atitude deliberada pois sou m uito grande e atraente para ser ignorado por qualquer m ulher num a praça vazia. O hom em observou o m otorista retirar do carro três m alas grandes de couro delicado, após o que dispensou o em pregado com um sutil aceno de cabeça.
Com o definir essas pessoas? Mem oráveis? Extraordinárias?
Com o estava com a caderneta na m ão (e com o é diferente o que você pensa do que você escreve!), escrevi: Inesquecíveis e raros —invulgares, m iríficos, insólitos? Ou apenas extravagantes —insanus, stultus? Eram principalm ente esbeltos (m ais do que garbosos e airosos) com toda a carga sensual que a esbelteza sugere a um gordo m onum ental com o eu. A m ulher usava calças com pridas, largas, que todavia não escondiam a grossura (grossura não, a solidez roliça) das coxas longas; o bico dos seios redondos e firm es pareciam querer furar a m alha da blusa. Certas palavras que som ente associo às m ulheres vieram à m inha m ente: m agnificência, opulência. O rosto dela, porém , m e parecia despiciendo, pelo m enos naquele m om ento de ódio. Odeio todas as m ulheres enquanto inatingidas. Creio que todos os sátiros são assim .
Quanto ao hom em , apesar do queixo forte e dos om bros largos, havia qualquer coisa nele de criança m im ada, um j eito fricoteiro de apor um lábio sobre o outro, de virar a cabeça, de colocar e tirar as m ãos dos bolsos. Os dois, devo acrescentar, m e pareciam vagam ente fam iliares.
De um dos táxis saltou um outro casal. A m ulher era j ovem , de rosto redondo e pontilhado de covinhas; seus cabelos platinum blonde brilhavam sob o efeito do sol, que com eçava a surgir m uito branco por trás das m ontanhas azuis distantes. Os seios eram grandes e acolhedores. Era m eio pesadona, com o um a pessoa que cam inhasse com lam a pelos tornozelos. O hom em que estava com ela tam bém era corpulento, de cabelos longos e nariz adunco; carregava um a caixa preta de violino, que colocou cuidadosam ente sobre as duas m alas que retiraram do táxi.
Do segundo táxi saltou um rapaz pálido de cabelos louros m uito curtos. Usava um paletó de veludo azul, largo e com prido, que o fazia ainda parecer m ais m agro. Tinha um a aparência triste e insegura, ligeiram ente suspicaz, não tanto quanto o outro que se escondera atrás das árvores.
Notei então que j á eram seis as pessoas, contando com igo, que esperavam condução para o Refúgio do Pico do Gavião. Isso m e deixou m uito irritado. Estava enfrentando aquela viagem até o fim do m undo, que sem dúvida seria desagradável e cansativa, para ficar isolado, a fim de poder escrever Bufo & Spallanzani. Tive vontade de ir em bora. Então lem brei-m e de que o hom em do Refúgio dissera que eu podia tom ar as refeições no bangalô e que nem notaria os outros hóspedes, se quisesse m e isolar.
Voltando ao que interessa. Ainda chegaram m ais duas pessoas, duas m ulheres, que fingiram ignorar os olhares que lançaram sobre elas. Am bas eram bonitas, um a bem m ais velha do que a outra, e vestiam -se com apuro discreto. Logo chegou um m icroônibus, pintado de am arelo. Dele saltou um hom em m uito gordo e verm elho, barrigudo, grande, de cabelos brancos abundantes e revoltos. Disse que era o senhor Trindade, do Refúgio do Pico do Gavião, e que fora com ele que havíam os tratado ao telefone. Tam bém saltou do ônibus o m otorista, cham ado Sebastião, um hom em tão preto que parecia azul-m arinho. Sebastião recolheu a bagagem de todos e colocou-a num com partim ento do ônibus. O hom em de cabelos longos m anteve a caixa de violino nas m ãos. O rapaz pálido do casaco de veludo sentou-se no banco dos fundos.
Logo estávam os todos novam ente acom odados e partim os.
Durante a viagem ficam os sabendo que dem oraríam os duas horas até onde estava o trator e depois m ais duas horas viaj ando na carreta do trator. Alguém perguntou se havia cobras no Refúgio, e Trindade respondeu que havia cavalos, veados, pacas, lontras, m ilhares de pássaros e de estrelas e, evidentem ente, gaviões. As noites eram frias. Nesse instante ouvi a m ulher elegante dizer ao seu acom panhante que devia ter trazido o seu casaco de vison.
Então ela tem um casaco de vison, pensei, essa torpe predadora, essa exibicionista ridícula. Fiquei olhando o seu belo, m as frio, perfil. Nos m om entos em que o ônibus caía num dos m uitos buracos da estrada quase todos batiam com a cabeça no teto; ela era a única pessoa cuj os m ovim entos não se tornavam grotescos, conseguia ser j ogada para cim a e para baixo com a graça de um a bailarina. Sim , claro, se algum coreógrafo inventasse um balé para ser dançado sentado. O hom em de om bros largos ao seu lado tam bém dom inava as sacudidelas. A loura platinada se agarrava ao m arido e dava pequenos gritinhos alegres. O rapaz m agro parecia não sentir os efeitos daquele desagradável balanço, talvez devido a sua m agreza.
À m edida que penetrávam os na floresta o ar ia ficando m ais fresco, o sol penetrava pelas espessas copas das árvores em finos raios de luz. Até que chegam os a um a clareira onde estava acachapado, com o um zoóide gigante adorm ecido, o nosso trator.
Depois que passam os para a carreta do trator, a estrada foi ficando cada vez m ais íngrem e e houve m om entos em que os passageiros pareceram tem er que o trator despencasse para trás, num a espécie de salto m ortal. Pela conversa que ocorreu no ônibus, e depois na carreta, pude fazer um levantam ento dos personagens que viaj avam com igo. As duas m ulheres, Suzy e Eurídice, eram prim as, duas m ulheres bonitas, m as que não m e atraíam tanto quanto aquela do casaco de vison, cuj o nom e descobri ser Rom a. Rom a e o m arido eram bailarinos do Colón de Buenos Aires, conquanto fossem brasileiros. (Devo confessar que se há um a m anifestação artística que não m e interessa é o balé.) O hom em do violino era um m aestro de certa fam a, Orion Pacheco, e a sua m ulher, a conhecida prim a-dona Juliana Pacheco. O m agrela de casaco azul cham ava-se Carlos e praticam ente nada falou sobre si; provavelm ente com etia poem as secretam ente.
“Morro de m edo de cobras”, disse Juliana. Vista de perto, com m edo de cobras, a cantora não tinha a im ponência que aparentava no palco. O m aestro parecia preocupado com os abism os que ladeavam o cam inho.
“Os senhores verão no Refúgio anim ais que provavelm ente nunca viram em suas vidas: veados, pacas, tatus, lontras...”
“Lontras?”, perguntou Rom a.
“Acho que vou sair daqui com um casaco de peles”, disse Suzy. Suzy era dona de um a butique no Rio de Janeiro.
“É tam bém conhecida com o cachorro-d’água”, disse Trindade.
“Vam os cham á-la de lontra m esm o, que é m ais bonito”, disse Rom a.
“Além da natureza os senhores ficarão m aravilhados com as estrelas no céu. É um espetáculo tão fantástico que eu até m e tornei um a espécie de astrônom o am ador depois que vim m orar aqui. Um autodidata, entenderam ? Porém li bastantes livros.”
“A gente vê o Cruzeiro do Sul?”
“Claro. Estam os a 24° de latitude e nesta época do ano ele só deixa de ser visto em toda a sua inteireza lá pelas quatro horas da m adrugada.”
Afinal pudem os ver a casa principal do Refúgio, que Trindade cham ou de “o Casarão”. Ficava num largo, im enso platô, cercado de árvores. O trator parou num a espaçosa porteira pintada de azul. Dos dois lados da porteira estendia-se, até desaparecer entre as árvores da floresta, um a espessa cerca viva de hibiscos, alam andas e bicos-de-papagaio. Orion quis saber qual era a área da propriedade. Trindade explicou que eram Seiscentos alqueires m ineiros e que um alqueire m ineiro tinha quarenta e oito m il e quatrocentos m etros quadrados. “Tem os bastante lugar”, ele disse. O trator parou ao lado do Casarão. Ali ficavam as instalações com uns — salão de refeições, cozinha, vários outros salões e tam bém os côm odos em que residiam Trindade, sua m ulher Rizoleta, que dirigia a cozinha, e os dem ais em pregados do Refúgio. Não se viam os bangalôs dos hóspedes.
Havia um j ipe Toy ota parado na porta do Casarão. Sebastião saltou e retirou as m alas da carreta.
“Sebastião vai levar cada um ao seu bangalô, no j ipe. Só podem ir dois de cada vez”, disse Trindade.
Calm am ente, com o se tivessem o direito à precedência, Orion e Juliana Pacheco se instalaram na viatura, que logo partiu.
Os outros foram para a varanda do Casarão, com exceção de Carlos. Havia alguns cavalos pastando à distância e Carlos cam inhou em direção a eles. Os cavalos viram -no se aproxim ar e levantaram a cabeça e aspiraram o ar, com o se estivessem captando o cheiro que se desprendia de Carlos.
“Eles são m ansinhos, não são?”, disse Rom a ao ver Carlos afagando o pescoço de um dos anim ais.
“Não, aquele é um cavalo m uito arisco e bravo, tanto que não deixo os hóspedes m ontarem nele. Já tivem os aqui, certa ocasião, um acidente grave com esse cavalo. Rizoleta! Vem ver um a coisa.”
Rizoleta apareceu na varanda.
“Olha lá o Berzabum ”, disse Trindade.
Nesse instante Carlos abraçou o cavalo pelo pescoço.
“Mas que coisa, parece m entira”, disse Rizoleta com seu sotaque carregado de m ulher do interior.
“Sabe o que quer dizer Berzabum ?”, perguntei.
“Sei, eu quis m udar o nom e, m as o bicho é tão bravo que deixei ficar”, disse Trindade.
“O que quer dizer Berzabum ?”, perguntou Rom a.
“É um a corruptela de Belzebu. O Dem ônio”, eu disse.
“O Príncipe das Trevas”, disse Trindade.
“Ele m erece esse nom e — é negro com o a noite.”
“Há algum a coisa nesse rapaz”, disse Rom a, referindo-se a Carlos, “um a coisa diferente.”
“A palidez”, disse Suzy, com ironia. “Tem cor de crupiê.”
O j ipe com Sebastião voltou.
“Podem os ir nós duas agora?”, perguntou Suzy. Ela estava irritada. As duas se instalaram no j ipe. Notei que Suzy deu um pequeno em purrão, ou beliscão, não vi bem , em Eurídice.
Afinal ficam os apenas eu e Carlos esperando a condução.
Não falam os um com o outro. Eu, que durante tantos anos fora um inapetente crônico, estava fam into, só pensava no que iria ser servido no alm oço. Com o éram os apenas dois, seguim os, eu e Carlos, na m esm a viagem , para nossos respectivos bangalôs. O
j ipe percorreu um a estrada de terra que circundava o Casarão e em seguida em brenhou-se por um cam inho estreito envolto por cerrada floresta. Havia um a infinita variedade de tons de verde.
Por insistência de Carlos o j ipe deixou-m e prim eiro no bangalô.
Os bangalôs estavam situados a um a distância que os tornava invisíveis, e inaudíveis, uns dos outros. Feitos de m adeira, bastante am plos, consistiam num quarto, sala com lareira e banheiro. As m adeiras, tanto interiores quanto exteriores, eram envernizadas. O telhado, feito de telha de coxa, não era, provavelm ente, tão velho quanto parecia. Não havia luz elétrica.
Isso m e deixou preocupado quanto à com ida. Teriam eles frigoríficos para guardar os ingredientes perecíveis?
Num pequeno folheto que estava sobre a m esa da sala, li: Bem -vindo ao Refúgio do Pico do Gavião. Para aqueles que querem fugir das tensões das grandes cidades o Refúgio oferece tranqüilidade, silêncio, ar puro, am biente de paz e com unhão com a natureza, no seio de um a floresta virgem onde a fauna, a flora, a água e o ar não foram corrom pidos, poluídos ou destruídos pela ação predatória do hom em .
Apesar de saberm os ser esta advertência desnecessária, querem os lem brar aos nossos hóspedes que é proibido caçar, m utilar os vegetais, poluir a água dos rios e córregos. Pedim os encarecidam ente que não sej am feitas fogueiras durante as excursões, a m enos que sob rigorosa supervisão de um guia do Refúgio.
Segundo o folheto, existiam m ilhares de espécies vegetais e anim ais na região, e m uitas eram relacionadas. No item fauna falava-se em lagartos (calangos, iguanas, teiús), aves (saíras, rendeiras, tangarás, arapongas, j uritis, gaviões evidentem ente, urus,
j acupem bas,
beij a-flores,
m arias-pretas,
bem -te-vis),
m am íferos (veados, sagüis, gatos-do-m ato, lontras, pacas, tatus, tapitis, tam anduás, gam bás, quatis, ariranhas, j aguatiricas, m acacos) etc. Não havia a m enor m enção a cobras, aranhas e ratos. No cam inho para o bangalô eu vira enorm es teias brilhantes que pareciam gigantescos véus de noiva. E agora vinha-m e à m ente o tom dissim ulado da voz de Trindade perguntando: “j á viu algum a cobra perto do Refúgio?”, e Sebastião respondendo sem m uita convicção, “eu não senhor”. Conheço o tom de voz dos m entirosos. Provavelm ente, eles não queriam assustar as m ulheres, que, com o os m acacos, têm um pavor incontrolável das cobras.
Um a confissão: tenho atração pelos ofídios em geral, talvez por ser tão pouco fem inino. Minolta m e disse certa ocasião que eu fingia gostar de cobras para j ustificar m inha satiríase, m as nunca entendi bem o que ela queria dizer com isso. É certo que gosto de cobras e de m ulheres. E em gostando dessas duas espécies de anim ais acabei sabendo um a ou duas coisas a respeito delas. Por exem plo: as cobras existem em todas as regiões do Brasil, principalm ente onde a natureza ainda não foi totalm ente corrom pida. E ali, no paraíso do Refúgio do Pico do Gavião, existiriam pelo m enos as j araracuçus, urutus e as chocalhantes cascavéis, cuj o ignom inioso nom e científico era Crotalus terrificus.
Terrificus para m acacos e m ulheres. Os m acacos, sabem os todos, têm três pavores — o m edo de cair, o m edo do escuro e, principalm ente, o m edo de cobras. Esse m edo dos m acacos e das m ulheres poderia ser um a rem iniscência prim eva do nosso cérebro reptiliano. Som os, hom ens e m ulheres, répteis que viraram prim atas e passaram a rej eitar suas priscas origens.
Talvez escreva sobre isso um dia, sem pre m e intrigou saber que existe um a parte arcaica no nosso cérebro denom inada com plexo reptiliano, responsável, para alguns, pelo lado m ais “hum ano” do nosso com portam ento e, para outros, pelo m ais “anim al”.
O folheto ensinava ainda com o acender os lam piões a gás, os horários das refeições e os passeios program ados.
Tom ei banho. O aquecedor a gás não funcionou m uito bem , a água não chegou à tepidez necessária, m as o banho m e deu m ais fom e ainda. Vesti-m e e decidi ir ao Casarão ver com o andavam os preparativos do alm oço. Eu estava preocupado com esse problem a da com ida. Sendo um glutão, eu tanto apreciava o caviar ikra quanto um prato de feij ão uberabinha. Mas era preciso que a com ida fosse saborosa, a coisa que m ais m e irritava eram pratos (fossem quais fossem , finos ou grossos) m al preparados.
Um pequeno cam inho levava do bangalô até a estrada de terra por onde eu viera no j ipe. Ali, um a placa com um desenho indicava o cam inho para chegar ao Casarão. Não havia um a nuvem no céu. Cam inhei ao sol respirando o ar puro, com um a sensação agradável de sensualidade e energia.
O Casarão parecia vazio. Não havia ninguém na sua grande varanda, nem no salão de refeições j á com as m esas postas. Dona Rizoleta e um a outra m ulher gorda de rosto corado labutavam em frente a um enorm e fogão de lenha, um engenho de ferro, negro, de m uita form osura. Das panelas saía um a fragrância deliciosa de com ida. Os desej os físicos são m uito interligados. O odor e a visão daquelas panelas fum egantes deram -m e saudade da presença fem inina. Seria tão bom se Rom a, por exem plo, chegasse naquele m om ento.
Fui até a varanda, que continuava vazia. Sentei-m e num a das espreguiçadeiras de lona, enfileiradas com o no deque de um navio, desapontado por não ter encontrado Rom a. Tentei pensar em Bufo & Spallanzani, afinal eu viera para o Refúgio para escrever e, secundariam ente, fazer um exercício de ascetism o, renunciando provisoriam ente a um dos prazeres do corpo (e da alm a tam bém , por que não?) que era o sexo. Mas aqueles arom as na cozinha haviam quebrado m inha força de vontade. A m usculatura lisa dos m eus órgãos internos, m inhas glândulas endócrinas crispavam -se num a fulgurância antecipatória das delícias do repasto. Nesse m om ento dona Rizoleta apareceu na varanda e disse que o alm oço estava pronto. Corri para a m esa. O
salão ainda estava vazio. Não tinha im portância. Quando devoro iguarias não penso nas m ulheres e vice-versa. Com ecei com a sopa de nabos! Depois trutas grelhadas e finalm ente cabrito assado com brócolis! À m edida que com ia, o estôm ago cada vez m ais cheio m e dava um a sensação venturosa de serenidade, de felicidade, de alegria. Ao com er os brócolis, que depois soube terem sido colhidos naquela m anhã, antes do sol nascer, ainda cobertos de orvalho, tive vontade de chorar. Tenros, de um verde sem j aça, seu paladar delicado estava em harm onia perfeita com o cabrito assado, encantadoram ente dourado. Mais tarde Trindade m e explicou que com o eles não tinham geladeira (podiam ter um a a gás, m as não queriam ) os gêneros que consum iam estavam sem pre frescos. Os anim ais — cabritos, coelhos, frangos — eram devorados no próprio dia do abate; os peixes — trutas, tilápias e carpas — eram apanhados nos respectivos tanques e lagos, onde eram criados, no dia em que iam para a panela. “O senhor precisa ver nossa criação de trutas”, disse Trindade. Eu tam bém tinha que ver a horta onde legum es e verduras viçosas cresciam sem agrotóxico. E tam bém as vacas de raça que davam o leite para fazer os queij os que com íam os.
Quando acabara de conversar com Trindade, chegou Rom a com o m arido. Ela m udara de roupa e vestira-se elegantem ente com o alguém que estivesse num Country club e não num a m ontanha deserta. Seu m arido tam bém m udara de roupa e seu traj e com binava com o de Rom a, com o se eles estivessem participando de um desfile de m odas do m esm o costureiro. Quase ao m esm o tem po chegaram as duas prim as, o casal de m úsicos e Carlos. Todos, com exceção deste últim o, que continuava com as roupas da viagem , exibiam novos traj es, que pareciam , aliás, estar estreando naquele dia.
Depois do alm oço, j á na varanda, lem brei-m e de fazer um a anotação sobre a roupa que Spallanzani vestia no dia do seu encontro com Bufo. Tirei a caderneta do bolso e escrevi: “Um a calça escura de veludo e blusa de seda branca de m angas bufantes, frouxa no corpo”.
“Um escritor está sem pre trabalhando, não é?”, disse Orion, o m aestro, sentando-se ao m eu lado. Na viagem de carreta Orion m e havia perguntado, depois de se apresentar, qual era a m inha profissão. Quis inventar um a profissão, m as nenhum a veio à m inha cabeça naquela hora, e acabei dizendo que era escritor.
“Vendo o m undo à sua volta, m etendo o nariz nas coisas (sem querer ofender), apropriando-se da alm a das pessoas com o um a ave de rapina m etafísica (sem querer ofender), escrevendo livros que ninguém lê” — ele falava m ovim entando as m ãos no ar, com o um m aestro sem batuta, e tentava disfarçar com um sorriso as coisas desagradáveis que dizia.
“Words are, of course, the m ost powerful drug used by m ankind”, eu disse.
“De quem é isso?”, perguntou o m aestro.
Neste instante entravam na varanda Rom a e Vaslav e as duas prim as, Eurídice e Suzy. Aj eitaram -se nas espreguiçadeiras tirando-as da posição em que estavam , fazendo um sem icírculo.
“Kipling”, eu disse.
“Então o escritor é um a espécie de traficante de drogas.”
“Quem que é traficante de drogas?”, perguntou Suzy.
“O escritor. Foi o que o nosso escritor aqui disse. Em tese, é claro”, disse Orion.
“A coisa que eu m ais gostaria no m undo era ser escritora”, disse Eurídice.
“Não é um a coisa m uito difícil”, disse Orion.
“É um ofício com o qualquer outro”, eu disse.
Enquanto isso chegavam à varanda Juliana (que se dem orara repetindo as com potas da sobrem esa) e Carlos.
“Fazer m úsica é m ais difícil do que fazer literatura”, disse o m aestro. “Em pregadas dom ésticas escrevem livros, m ilitares reform ados escrevem livros, todo m undo escreve livro, m endigos, políticos, atletas, adolescentes perturbados, com erciantes.”
“Ladrões e funcionários alfandegários”, eu disse, pensando em Genet e Kafka.
“Isso m esm o. O Biggs”, disse o m aestro, “publicou um livro.”
Lem brei-m e de um a frase de Maugham — it requires intelligence to write a good novel, but not of a very high order.
Realm ente, não eram poucos os m eus colegas de profissão cuj o nível intelectual era m uito baixo, m as não ia dar essa m unição ao m aestro. Maestros cretinos tam bém deviam existir.
“E o vento levou foi escrito por um a dona de casa velhota, que nunca m ais fez nada”, disse Orion, sem disfarçar a agressividade. O que teria causado aquela hostilidade? O m eu tam anho? Isso acontece m uito, os suj eitos baixinhos ficam ressentidos porque sou grande e as m ulheres m e acham bonito.
“O Orion disse, na hora do alm oço, que o senhor está escrevendo um a história passada aqui no Refúgio, em que nós som os os personagens”, disse Juliana am avelm ente, tentando talvez m udar o tom da conversa.
“Eu o vi olhando para nós e tom ando notas”, disse Orion.
“Garanto que não é sobre vocês”, eu disse. Se Rom a não estivesse ali, fitando-m e com um olhar enigm ático que inflam ava o m eu coração, eu j á teria ido para o m eu bangalô há m uito tem po.
“Você m ostra para a gente?”, perguntou Eurídice.
“Não gosto de m ostrar o livro antes de term inar.”
“Então daqui a uns três dias ele m ostra’ , disse Orion.
“Você escreve um livro em três dias?”, perguntou Suzy.
“Em três dias não.”
“Quantos dias se dem ora para escrever um livro?”, perguntou Carlos, que até então estava em silêncio.
“Depende. Flaubert dem orou cinco anos para escrever Madam e Bovary. Trabalhando m uitas horas, todos os dias, sem parar um dia.”
“Aquele livrinho?”, perguntou o m aestro.
Pensei em contra-atacar falando m al de Mozart, m as seria ridículo dem ais.
“Por outro lado, Dostoievski escreveu O j ogador em trinta dias”, eu disse.
“Antigam ente nos saraus dava-se um m ote e o poeta com punha na hora um poem a rim ado e m etrificado. Im aginem se m úsica pode ser com posta assim , à m inuta, com o batatas fritas”, disse Orion.
“Se eu der um m ote, você escreve um poem a?”, perguntei.
“Um poem a não digo. A m im , particularm ente, a poesia não agrada. Mas um texto de prosa, não só eu, m as qualquer um aqui escreve sem dificuldade.”
“Concordo com o m aestro”, disse Rom a, em tom de brincadeira, “dançar tam bém é m ais difícil do que escrever. Me dá o m ote que eu faço o texto.” Olhou para m im com o quem diz, gostaria de vê-lo fazer um entrechat ou m esm o um sim ples tour en l’air. Depois olhou para Vaslav e os dois riram , divertidos.
“Quem m ais se habilita?”, perguntei.
“Não sei ortografia”, disse Eurídice.
“Isso nenhum sabe, não é? Os revisores corrigem os erros ortográficos dos escritores”, disse Orion.
“Fica com binado que erros de português não serão levados em consideração”, eu disse.
“Não vou entrar nisso não”, disse Eurídice.
“Eu entro”, disse Suzy.
“Juliana?”, perguntei.
“Meu negócio é cantar.”
“Que tam bém é m ais difícil do que escrever”, eu disse, antes que alguém o fizesse.
“Vaslav?”
“Nunca concorro com a m inha m ulher.”
“Carlos?”
“Não, obrigado. Ao contrário de todos, eu acho escrever m uito difícil.”
“Muito bem ”, eu disse, “quero a prom essa solene de que não revelarão a ninguém o tem a que receberem .”
Apesar do azedum e do m aestro criara-se um clim a alegre.
“Eu j uro”, disse Rom a, “que nem o Vaslav saberá o m eu m ote.”
“O Vaslav pode”, eu disse, “e m ais ninguém .”
Cortei um a folha da caderneta em três tiras e escrevi os m otes. Dobrei os papéis e baralhei-os nas m ãos fechadas em concha. Entreguei a cada um a tira de papel dobrada. Todos leram os papéis im ediatam ente. Orion e Rom a pareceram ficar extrem am ente perturbados na hora em que leram o m ote que eu lhes havia dado, principalm ente Rom a, que em palideceu e com eçou a trem er. A razão disso eu só iria saber m uito m ais tarde. Ela pareceu se controlar e olhou para Vaslav, em dúvida se devia lhe m ostrar ou não o papel que m antinha na m ão trêm ula.
Afinal, deu-lhe o papel, observando Vaslav ansiosam ente. A reação do m arido, serena, pareceu tranqüilizá-la.
“Ah, posso trocar o m eu?”, perguntou Suzy.
“Não. Os papéis não podem ser trocados nem os m otes substituídos. Era assim nos saraus, não era m aestro?”
“Sim ”, disse Orion.
Rom a falou qualquer coisa ao ouvido do m arido, pegou-o pelo braço e am bos se retiraram falando em voz baixa.
Não sei o que os dem ais hóspedes fizeram durante a tarde.
Eu vesti o m eu pij am a de seda e estendi-m e na cam a, que se fosse um pouco m ais com prida seria ainda m ais confortável. Com o era bom dorm ir! Dorm ir, com er e am ar, as delícias da vida.
Estava m e espreguiçando quando bateram na porta. Há pessoas que não podem ouvir um telefone tocar pois se sentem obrigadas a atendê-lo im ediatam ente, m esm o não sendo o seu.
Outras correm para abrir a porta tão logo ouvem um a cam painha.
Eu era im une a esse tipo de urgência. Sabia que a pressa dos outros nunca era a m inha.
A pessoa que batia não era m uito insistente. Dem orou algum tem po até que eu ouvisse novam ente as batidas delicadas na m adeira da porta. Fui até ao banheiro e exam inei m eu rosto no espelho. Eu sem pre acordava, depois da sesta, saudável e revitalizado, e isso se refletia no m eu rosto. Penteei os cabelos.
Eram cinco horas da tarde, vi pelo m eu relógio de pulso. Havia dorm ido três horas, m ais ou m enos.
A pessoa não batera novam ente na porta, m as eu sabia que ela ainda estava lá.
Abri a porta.
“Eu o acordei?”, perguntou Carlos.
“Não. Estava penteando os cabelos. Entre.”
Carlos continuava com a m esm a roupa com que chegara ao Refúgio. Sentou-se na única poltrona da pequena sala. Acom odei-m e no sofá.
“Li todos os seus livros”, disse Carlos. “Ou quase todos.”
Nunca soube o que responder a um a declaração destas.
Muito obrigado?
“Os poem as, os contos, os rom ances. Vi as peças.”
Muito obrigado?
“Gostei m uito tam bém de Trápola, um a história policial alucinante. Por que você não escreveu outros livros policiais?”
“Não sei.”
“Os am antes é totalm ente diferente. Um a história de am or entre um a cega e um surdo-m udo.”
“O am or baseado em outros insum os sensoriais que não o visual e o auditivo” (ver Hall), eu disse.
“Para m im é a história de duas pessoas que superam suas lim itações e encontram a felicidade”, disse Carlos. A voz dele era esquisita, ele tinha qualquer coisa de inquietantem ente fem inino.
“O am or é sem pre resultado de percepções que tem os do outro. A arte em geral sem pre exaltou a visão (form a e m ovim ento) e a audição (som , m úsica) com o elem entos cognitivos do am or. O
am or entre os m eus personagens, ao contrário, surge das percepções cinestésica, olfativa e térm ica. A percepção vem através dos sentidos, Kant et cetera, não precisam os entrar nisso, o que quero dizer é que o am or é um a form a de percepção e, no caso de Os am antes, um a form a tam bém de transcendência.”
Carlos balançou a cabeça. Pareceu ficar m ais triste ao ouvir isso. Levantou-se da poltrona. “Quando for j antar não se esqueça de levar sua lanterna”, ele disse.
“Não havia pensado nisso.”
“A lanterna está dentro da gaveta da m esa de cabeceira, no quarto.”
“Obrigado por lem brar-m e.”
“Você sabe o cam inho?”
“Sei. Não é difícil.”
Ele parecia querer m e dizer algum a coisa, indeciso. Afinal despediu-se, esticando e recolhendo a m ão. Levei-o até à porta do bangalô. O ar estava fresco e lim po, os pássaros cantavam nas árvores, com o fazem quando a noite se aproxim a. Carlos ficou ouvindo os pássaros e disse qualquer coisa que não entendi. Ele sem pre falava m uito baixo, m eio afônico, com o um a pessoa que em postasse m al a voz.
Voltei para o quarto e tentei escrever Bufo & Spallanzani.
Meu editor queria que eu escrevesse outro policial com o Trápola.
“Não inventa, por favor. Você tem leitores fiéis, dê a eles o que eles querem ”, dizia o m eu editor. A coisa m ais difícil para o escritor é dar o que o leitor quer, pela razão m uito sim ples de que o leitor não sabe o que quer, sabe o que não quer, com o todo m undo; e o que ele não quer, de fato, são coisas m uito novas, diferentes do que está acostum ado a consum ir. Poder-se-ia dizer que, se o leitor sabe que não quer o novo, sabe, contrario sensu, que quer, sim , o velho, o conhecido, que lhe perm ite fruir, m enos ansiosam ente, o texto.
OUVERTURE DE BUFO & SPALLANZANI
O sábio Spallanzani contem plou, da j anela de onde estava, a catedral de San Gim ignano no m om ento em que o sino da torre em estilo rom ânico, conhecida pelo nom e poético de La Ghirlandina, badalava duas vezes.
Então o cientista voltou sua atenção para o casal que estava com ele no grande salão ilum inado por um a alta clarabóia de vidro fosco. Am bos, Bufo e Marina, m ostravam -se m uito calm os; Spallanzani, todavia, não conseguia controlar o seu nervosism o e cam inhava de um lado para outro dentro do salão, com as m ãos às costas e a cabeça curvada para a frente, com o costum ava fazer.
A vida do sábio sem pre fora m uito agitada. Aos quinze anos ingressara no colégio dos j esuítas em Reggio, tendo recebido as ordens sacerdotais m uito cedo. Em vez de se dedicar à vida religiosa, Spallanzani se m atriculara na Universidade de Bolonha, para estudar direito. Na universidade conhecera Laura Bassi, com o ele nascida em Scandiano. Consta que foi Laura, que ensinava física na universidade, quem fez com que Spallanzani abandonasse o direito para estudar biologia. Spallanzani continuou sendo padre, todavia, pois na época em que ocorreu esta história ninguém abandonava a Igrej a, ainda m ais por um a razão tão irrelevante quanto a falta de vocação religiosa.
Naquele dia, Spallanzani estava sem a batina negra que habitualm ente traj ava. Vestia um a calça escura de veludo e blusa de seda branca frouxa no corpo, pois o sábio gostava de ter os m ovim entos livres. Sobre um a am pla m esa de m adeira polida havia resm as de papel, livros, tinteiros e penas de escrever. Muitas folhas estavam preenchidas com a letra m iúda e os desenhos m eticulosos do cientista.
Bateram à porta. Era um a m ulher; quando j ovem devia ter sido de um a beleza extraordinária; com o tem po adquirira um ar m aj estoso e dom inador. Bufo e Marina, com seus belos e densos olhos cor de ouro, acom panharam os m ovim entos da m ulher quando ela entrou na sala.
Spallanzani aj udou-a a tirar a capa longa que vestia. Logo Laura sentou-se e os quatro ficaram em silêncio.
“Arranj ei um nom e para o livro”, disse Spallanzani. “Pródrom o di un’ópera da im prim ersi sopra la riproduzione anim ale.”
A m ulher elogiou o título do livro. Depois perguntou: “Estes são...”
“Bufo e Marina.”
“Marina, de m arinus...” A m ulher riu, um som cheio e vibrante, do fundo do peito. “Andaram na terra antes de nós.”
“Falaram antes de nós”, retrucou Spallanzani.
“E cantaram antes de nós, inventaram a m úsica. E são m uito antigos, têm m ais de trezentos m ilhões de anos.”
“Som os uns m íseros arrivistas”, disse o sábio. “Vam os com eçar.”
Laura levantou-se e foi até a j anela.
“Você não quer ver?”, perguntou Spallanzani.
“E se Bufo não quiser saber dela? Talvez m inha presença o constranj a”, disse Laura, ainda na j anela.
“Isso não ocorrerá, eu o conheço bem ”, disse Spallanzani tirando três velas de dentro de um a gaveta e acendendo-as.
“Vej a com o a cabeça de Bufo é bem desenvolvida. Belas paratóides ovais. Cheias de veneno.” A palavra veneno foi dita com algum a hostilidade, com o se o sábio quisesse indicar um defeito no indivíduo à sua frente.
“O corpo de Marina seria bonito, de um a m aneira extravagante, se não fossem as glândulas papulosas dissem inadas pelo tegum ento, essas pontas córneas que parecem pústulas”, disse Laura.
Bufo cingiu fortem ente o dorso de Marina. Depois de algum tem po assim abraçados, da cloaca de Marina com eçou a sair um com prido e sinuoso rosário gelatinoso de óvulos translúcidos.
“Ele está tão obcecado em seu instinto cego de preservação da espécie que nada sentirá”, disse Spallanzani, queim ando com um a das velas um dos pés de Bufo.
“Ele tem cinco dedos, eu não m e lem brava m ais”, disse Laura.
“A protom ão”, disse o sábio.
Do tecido m uscular e da m atéria óssea queim ados desprendeu-se um odor áspero que se difundiu pelo ar.
“Ele não tem dentes, sabe?”, disse Spallanzani, sem parar de queim ar o pé de Bufo, “e as secreções venenosas de suas glândulas som ente são expelidas se forem pressionadas. Bufo não tem controle sobre elas. De qualquer form a sua obsessão é m aior que tudo, é o segredo de sua fantástica sobrevivência.”
O pé de Bufo estava todo carbonizado, m as ele m antinha Marina fortem ente agarrada entre seus braços. O cientista continuou queim ando a perna e a coxa de Bufo até incinerá-las com pletam ente.
“Esse m em bro se regenera?”
“No sapo, não. Nos tritões e salam andras, sim . Há um a correlação entre o potencial de regeneração e o nível de com plexidade dos organism os. Os organism os inferiores têm um alto poder regenerativo e essa capacidade se reduz à m edida que a com plexidade aum enta.”
Spallanzani disse isso com orgulho indisfarçado, pois fizera essa descoberta naquele ano de 1768 e esperava que ela trouxesse grandes benefícios para a hum anidade. Cuidadosam ente passou a queim ar o outro pé de Bufo. “Ontem cortei a perna de um Bufo m arinus e ele agüentou treze horas agarrado na fêm ea, ficou até m orrer em seu abraço nupcial.”
“Por isso tem trezentos m ilhões de anos”, disse Laura.
Afinal as duas pernas de Bufo ficaram totalm ente carbonizadas.
Então, de sua garganta de rapsodo pristino, de prim eiro com positor e cantor da terra, saiu um som forte e m avioso, cheio de harm onia e beleza.
O canto durou pouco tem po.
“Ele está m orto?”, perguntou Laura.
“Está.”
Spallanzani quedou-se pensativo. A luz j á não entrava pela clarabóia e com eçou a escurecer dentro do salão. O sábio não percebeu as badaladas do sino da Ghirlandina, nem o peso delicado da m ão de Laura sobre o seu om bro. Logo a noite caiu fria sobre a praça deserta.
“Inferno”, m urm urou Spallanzani.
Parei de escrever. Sentia falta do TRS-80. Sentia fom e.
Belisquei m inhas bochechas enquanto olhava m eu rosto no espelho do banheiro. Ah, com o é bom estar acordado, pensei.
Um a penum bra arroxeada cobria a m ontanha. Cam inhei em direção ao Casarão sem acender a m inha lanterna, dizendo m entalm ente que a natureza era bela.
Já estavam todos na varanda do Casarão vendo o anoitecer.
“Chegou o nosso cronista”, disse Orion.
Rom a e Vaslav haviam m udado novam ente de roupa.
Estavam com traj es de couro finíssim o. Exibir um a roupa de couro é com o exibir um troféu de caça, um a perversidade e um a perversão. Meus sentim entos em relação a Rom a continuavam confusos.
Eu havia colocado a página onde escrevera a abertura de Bufo & Spallanzani no bolso. Achei que seria interessante, tendo em vista a nossa brincadeira, do m ote, que eu lesse o que escrevera para eles.
“Antes de ler quero lem brar a prom essa que todos, Orion, Suzy, Rom a, fizeram de que não revelariam os m otes recebidos.”
Os três confirm aram suas prom essas.
“Então lá vai: O sábio Spallanzani contem plou...”
Enquanto lia eu olhava para m eus ouvintes. Suzy olhava de volta para m im e para os outros dois envolvidos no concurso, com o se quisesse dizer algum a coisa; fiz-lhe um gesto de silêncio colocando o dedo nos lábios. Orion fechou a cara.
“Você é um dem ônio”, disse Rom a, quando acabei.
Fiz para ela o m esm o gesto que fizera para Suzy.
“Não entendi m uito bem o que você quer dizer com essa história”, disse Juliana.
“É apenas um a história de sapos & hom ens. Nada a ver com a sim bologia de Of m ice and m en. Na orelha do livro o editor dirá algum a coisa para ilustrar e m otivar o leitor. Na França, pois o livro será editado em outros países, com o tem acontecido com as m inhas obras, dirão que o livro é um a m etáfora sobre a violência do saber. Na Alem anha, que é um a denúncia dos abusos perpetrados pelo Hom o sapiens contra a natureza; sem se esquecerem de dizer que é, no Brasil, entre todos os países do m undo, onde esses abusos são com etidos em escala m aior e m ais estúpida. (Ver floresta am azônica, pantanal et cetera.) Nos Estados Unidos, definirão o livro com o um a reflexão cruel sobre a utopia
do
progresso.
A
palavra
hy bris
será
usada
anatem aticam ente.
Seduzirem os
o
com prador
prospectivo
agarrando-o pelas orelhas.”
“O negócio então é vender?”, disse Orion.
“O escritor é vítim a de m uitas m aldições”, eu disse, “m as a pior de todas é ter de ser lido. Pior ainda, ser com prado. Ter de conciliar sua independência com o processo da sua consum ação.
Kafka é bom porque não escrevia para ser lido. Mas por outro lado Shakespeare é bom porque escrevia de olho no shilling que cobrava de cada espectador (ver Panofsky ). Assim com o o teatro não se salvará apenas com a coragem de escrever peças que ninguém queira assistir, a literatura tam bém não se salvará apenas com a coragem de escrever outros Finnegans wake.”
“Os culpados da atual decadência da literatura — você concorda que a literatura está decadente, não concorda? — são os próprios escritores”, disse Orion.
“É. Não se fazem m ais escritores com o antigam ente”, ironizei.
“Li num a entrevista do Borges que ele se orgulhava de nunca ter escrito um a palavra difícil que levasse o leitor a procurar o dicionário. Me parece que palavreado difícil é bom apenas para esses filósofos franceses que entram na m oda e dela saem ciclicam ente” (com o o terno de Guedes, o tira, pensei) “e que, não tendo o que dizer, optam por ser verborragicam ente crípticos; tal com o os m édicos fazem ininteligível a caligrafia das suas receitas para se ungirem de m ais autoridade.”
“Tam bém posso ser lido sem auxílio do dicionário”, eu disse.
“Protom ão. Hy bris”, disse Orion.
“A m ão do sapo foi a prim eira m ão de cinco dedos que existiu no reino anim al. Protom ão sim . Hy bris é um belo clichê helênico. Os leitores adoram .”
Talvez Orion tivesse razão e qualquer idiota pudesse ser um escritor, bastando para isso ser um despudorado exibicionista com um grande ego. Ali estava eu, lendo um a página do m eu rom ance, apenas para m e exibir para Rom a, um a página em que eu caprichara para dar a im pressão de que era inteligente e culto, além de dom inar a difícil arte de escrever. Um escritor ser bem inform ado não vale m erda nenhum a. Para escrever Morte e esporte: agonia com o essência, eu enchi o m eu com putador de m ilhares de inform ações — tudo que ia lendo nos livros dos outros, que por sua vez haviam lido aquilo nos livros dos outros etc. ad nauseam . O com putador arquivou essa m assa brutal de dados nas inúm eras ordens que m e interessavam e na hora de escrever bastou-m e apertar um a ou duas teclas para que, num segundo, a inform ação que queria aparecesse no vídeo, no m om ento certo. Morte e esporte não passa de um a im ensa colcha de m ilhares de pequenos retalhos velhos que, j untos e bem cozidos, parecem um a coisa original.
“Gostei do truque de fazer a gente dem orar a perceber que Bufo e Marina eram sapos”, disse Carlos, sem pre com sua voz abafada.
“Deram esse m ote para vocês?”, perguntou Vaslav.
“Olha, cuidado!”, eu disse, fazendo o gesto de silêncio que fizera para Rom a e Suzy.
Alguém perguntou se Spallanzani havia existido. Claro que existiu. Inicialm ente eu havia pensado em escrever um livro em que os personagens principais eram um a salam andra e santa Catarina de Siena, am bas incom bustíveis, segundo a lenda. Por um m otivo que não quis revelar aos outros hóspedes, acabei m udando os protagonistas da história e, assim , a própria história.
Eu sem pre m e interessara por Spallanzani, desde os tem pos de colégio. A prim eira insem inação artificial foi feita por ele, em um a cadela. Foi quem prim eiro descreveu o aguçado sentido do m orcego, um anim al que tam bém m e interessa m uito (ver m eu livro A dança do m orcego). Spallanzani antecedeu a Pasteur, com suas experiências sobre geração espontânea. Estudou a circulação do sangue, a digestão gástrica, a respiração, além , evidentem ente, da regeneração dos apêndices dos anfíbios. Então, por aquela razão secreta que eu não queria revelar aos m eus com panheiros do Refúgio, Bufo substituiu a salam andra e Spallanzani entrou no lugar de santa Catarina de Siena. A salam andra, diga-se de passagem , j á tinha o seu cientista louco, cham ado Gesner, que tam bém infligiu sofrim entos terríveis aos indivíduos da espécie que estudava, para provar, sem conseguir, suas teorias fantasiosas. Mas não estou falando apenas de loucura, ao usar Spallanzani com o sím bolo da arrogância autoritária do cientista (ver m eu livro Joseph Mengele, o anj o da m orte).
“Vai ser um livro difícil de ler”, disse Juliana.
“Essa Catarina é a Catarina, a Grande?”
O que se pode responder a um a pergunta dessas? A única Catarina grande foi, na verdade, Catarina de Siena, Catarina Benincasa, o único grande escritor analfabeto da história da literatura universal, com seus textos ditados no século XIV. É a santa padroeira da Itália, m as o aspecto a ser explorado no m eu livro seria o do m ito da incom bustibilidade. De hagiografia eu estava cheio.
Respondi apenas: “Não”.
Neste instante surgiu dona Rizoleta para dizer que o j antar estava sendo servido.
O j antar foi ainda m ais gostoso do que o alm oço, um a façanha de dona Rizoleta que eu considerara im possível de ser realizada.
Carpas assadas na m anteiga sem qualquer travo de terra (outra proeza) e coelho ensopado com batatas e vagens. Havia tam bém aspargos frescos, sim plesm ente indescritíveis, m esm o para um escritor com petente com o eu. Rom a sentara-se num a m esa próxim a à m inha e houve um m om ento em que eu, ao m astigar o tenro coelho, im aginei, sem nenhum a lubricidade porém , estar m ordendo as viçosas bochechas dela. Seus zigom as eram salientes e nobres, tinham a exuberância terrenha e pura dos frutos da natureza. Um a m ulher edível, sob todos os aspectos.
A tem peratura havia caído, quando acabam os de j antar. A lareira fora acesa e sentam o-nos todos nas confortáveis poltronas do salão.
“Gostei m uito da sua Manon”, eu disse a Juliana. “Fiquei em ocionado ao ouvir a ária Adieu, notre petite table cantada por você.” Na verdade, ela estava um pouco além da idade para o papel, m as não deixava de ser im pressionante que um a m ulher daquele porte pudesse representar tão bem um a bela e delicada heroína. “Você tem , com o ninguém , a sensualidade exigida pelo papel”, eu disse, em voz baixa, para que Orion, que conversava com Vaslav, não ouvisse. Acho que estava com eçando a ficar desesperado com a m inha abstinência.